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Posts de maio 2011

Meu sonho. Ou esperança

31 de maio de 2011 2

Passo ocasionalmente por um cinema e me chama a atenção o nome de um filme: Coisas que Você Pode Dizer só de Olhar para Ela.

Fico encantado com o título do filme.

Quem nunca se queda assim extasiado toda vez que se depara ante um homem ou uma mulher especiais? Eu, por exemplo, sinto-me investido de uma sensação térmica de 60ºC quando estou falando com ela no bar.

É um calorão por todo o meu corpo, quase me ponho dormente, domina-me uma lassidão febril, ao mesmo tempo que se excita a minha imaginação a ponto de crêla meu Éden, a minha única salvação, a última e definitiva enseada em que se amainará a tempestade.

Olha ela ali se aproximando! Não me viu? Ou finge, para se valorizar?

Aquela outra vez, realmente não me percebe, mas meus olhos de predador a perseguem devotadamente.

Vendo-a por apenas um instante, já me enche o dia.

Esquecendo-a por apenas um momento, sinto que desperdiço toda a vida.

Sua voz me soa a cântico de pássaro em bando folgazão.

Seu sorriso se abre para mim como uma corola de açucena.

Com quem ela se encontra quando não a tenho próxima?

Será que é tão terna também com os outros?

Aquela frase que me insinuou é uma sua constante em todos os seus circunlóquios?

Quando sem propósito me toca, ali onde me toca, minha pele fica coberta de um pólen de excitação e de ternura que se gruda à epiderme por vários dias.

Dissimuladamente, cruzo por onde ela passa, torcendo por um seu olhar, por uma palavra, ah, se ela demonstrasse contentamento em me ver!

Quando se ausenta por alguns dias, estou me asfixiando.

Quando volta, sinto falta de ar.

Quando me ignora, o dia todo é depressivo.

Quando me nota, sinto-me eterno.

Quando me zomba, decaio.

Quando me acaricia, estremeço.

Quando sei que vou vê-la, entonteço nos deveres.

Quando não a vejo, sinto que não me diferencio de um crustáceo.

Ela é o meu sol, a minha essência, meu horizonte, meu sopro de brisa, minha pétala, minha água de coco, meu samba de raiz, minha filha e minha mãe, meu ideal e minha utopia.

Meu sonho!

Ou minha esperança.

E pior – ou melhor – é que ela não sabe nada disso tudo.

(Crônica publicada em 29/07/2001)

O boato salvador

30 de maio de 2011 1

Vire um boateiro. Reúna a sua família ou cada um dos integrantes da sua família e espalhe o boato: você vai ser doador de órgãos.

Depois, com cada amigo que você vai se encontrar, incuta o boato: você vai ser doador de órgãos.

A seguir, espalhe o boato entre os seus vizinhos.

E no bar da esquina e com qualquer pessoa conhecida com que você se encontrar no shopping: insista que você vai ser doador de órgãos. E no seu ambiente de serviço não tenha outro assunto: você vai ser doador de órgãos, espalhe o boato em todos os corredores e andares da sua repartição ou da sua empresa.

O fenômeno seguinte é o segundo estágio do boato: os seus vizinhos, os seus amigos, os seus colegas de repartição ou de empresa vão transmitir o boato entre si.

Até que o boato vá atingir, agora por outras vozes, a sua família. E não se importe que o boato se espalhe por toda a cidade: centenas de pessoas atingidas pelo boato se contaminarão com ele e decidirão também serem doadores de órgãos.

E a sua família se sentirá orgulhosa de que você vai não só doar os órgãos, como contagiará os outros a fazê-lo também.

É que não adianta você ser doador de órgãos e sua família não saber. Porque só sua família, caso você morra, pode doar os seus órgãos, a sua vontade anteriormente manifestada não terá validade se sua família não autorizar esse ato sublime de doar os seus órgãos.

Então espalhe o boato imediatamente. A vida de milhares de pessoas que necessitam dramaticamente de transplante de órgãos para viver depende desse boato.

Mãos à obra! Ou melhor, lábios e garganta ao boato! Já e agora!

A Santa Casa, por exemplo, se orgulha de ter transposto este ano o número 2.000 em transplantes.

No dia 31 de julho passado, a Santa Casa já tinha realizado 2.068 transplantes, compreendendo rim, fígado, córnea, pulmão, coração, medula óssea, válvulas cardíacas e conjugados de rins e pâncreas.

E esses milagres se multiplicam também pelo Instituto de Cardiologia, pelo Clínicas e pelo Hospital da PUC.

Graças principalmente à solidariedade dos gaúchos que doam seus órgãos, que se atiram à messe de transmitir vida aos aflitos que estão na fila dos transplantes, à espera ansiosa de que o boato de que você vai ser doador se espalhe e se constitua em sua salvação.

Porque não adianta só você saber que é doador. É indispensável que sua família autorize a doação dos seus órgãos, caso contrário nada feito quando você morre.

A doação, pois, deixou de ser uma decisão intimista, um fulgor onanista, é preciso contagiar os outros com essa esplêndida notícia, tecnicamente os outros é que vão carimbar a sua intenção sagrada de ver os órgãos retirados de seu corpo e redundar em vida estuante para os receptores.

Como pregava São Francisco, é dando que recebemos. O que você está fazendo que não espalha logo o seu magnífico boato?

Viva a vida!


(Crônica publicada em 11/08/2001)

O ex-amor

27 de maio de 2011 4

Não há sensação mais assustadora do que reencontrar-se depois de muitos anos, em qualquer lugar, com alguém que foi o nosso grande e insubstituível amor.

De repente, num restaurante, num bar, numa festa, na rua, topamos com aquela mulher ou aquele homem que julgávamos seria inseparável das nossas vidas – e que pelos caprichos da existência tornou-se apenas numa vaga lembrança, afastada do nosso caminho, tornada desimportante pelo novo rumo que enveredamos.

Mas está ali presente, ao nosso lado, às vezes até conversando conosco, aquela pessoa que era a razão da nossa existência.

Somos então tomados invariavelmente por uma náusea. Algo assim que atinge os que fazem regressão e voltam a vidas passadas. Aquele grande examor afirma que tínhamos outra identidade, embora fôssemos nós mesmos.

Sucedem-se em nossa alma então as mais variadas e contraditórias emoções, desde o arrependimento e o remorso até a vergonha e o desvario.

Imediatamente, assalta-nos a quase certeza de que as outras pessoas que sucederam àquele grande ex-amor em nosso coração e em nossa vida não passaram de invasoras e intrusas, posseiras espoliadoras de algo ou de alguém que não lhes pertencia, tomado à força do legítimo dono.

E um profundo tédio nos domina, uma melancolia de danar a alma, uma dor do ideal perdido, do amor que se finou sem ter-se concluído, um imenso desperdício, um abismo de sonho desfeito, um mal que a gente fez a si próprio sem querer, uma culpa tremenda pela tristeza do que se acabou sendo e o libelo do que se deixou de ser.

A vida tinha que nos poupar do reencontro com o ex-amor. Não há mal que mais nos vergaste que os sonhos frustrados, a lembrança do que tinha de ser e evaporou-se nas sombras, do querido e não conseguido, do palpável e não tocado, do atingível e não resultado.

E ficamos a contabilizar os nossos danos e a imaginar os danos que causamos àquela pessoa que como um fantasma agora vem nos acusar. Que dor!

A dor do destino que não se traçou, da viagem naufragada contra os rochedos, embora a bússola nos advertisse sem sucesso.

O sentimento de autotraição, covardia, um chute na lucidez, a irrecuperável derrota da energia desaproveitada.

Poupe-nos a vida de nos reencontrarmos com os nossos ex-amores. Nós que tanto driblamos a sua recordação, que por autopiedade fingimos que os esquecemos, tentando cultuar novos valores.

Mas que diabo, cedo ou tarde verificamos que aquela ferida ainda sangra e, na melhor das hipóteses, se no futuro não for de novo pelos reencontros remexida, ainda assim se tornará numa inocultável e horrenda cicatriz.

A cicatriz da marca de ferro em brasa no pêlo e couro das cavalgaduras.

(Crônica publicada em 16/05/1999 )

O retrato de Jesus

26 de maio de 2011 12

Eu me emocionei quando li, por gentileza de um leitor, repercutindo aquela coluna que fiz sobre a frase desesperada de Jesus antes de morrer. É o mais abrangente escrito que já me passou pelos olhos sobre a figura de Jesus e explica muito, profunda e comovedoramente, o significado e a importância para a humanidade da passagem do mais ilustre homem sobre a Terra.

Não vou furtar meus leitores deste documento de impacto, que está arquivado e exposto em Jerusalém, cuja cópia me veio ontem às mãos. Faço-o até para deixá-lo registrado nos arquivos de Zero Hora como o mais fiel perfil de Jesus, superior até à imagem que se retira dos textos bíblicos.

É o mais impressionante depoimento que li sobre Jesus Cristo, eis que o retrata física e espiritualmente e foi prestado por um romano que servia o imperador na Judéia, portanto uma testemunha ocular da presença de Jesus naquelas paragens, homem que assistiu a muitos comícios do Nazareno e que mandou a seguinte carta ao imperador Tibério César, antes, é claro, da morte de Jesus:

“Sabendo que desejais conhecer quanto vou narrar-vos, escrevo-vos esta carta. Nestes tempos apareceu na Judéia um homem de virtudes singulares, que se chama Jesus e que pelo povo é chamado de ‘O Grande Profeta’. Seus discípulos dizem ser ele o ‘Filho de Deus’. Em verdade, ó César, cada dia dele se contam raros prodígios: ressuscita os mortos, cura todas as enfermidades e tem assombrado Jerusalém com sua extraordinária doutrina. É de estatura elevada e nobre, e há tanta majestade em seu rosto que aqueles que o vêem são levados a amá-lo ou a temê-lo. Tem os cabelos cor de amêndoa madura, separados ao meio, os quais descem ondulados sobre os ombros, ao estilo dos nazarenos. Tem fronte larga e aspecto sereno. Sua pele é límpida e corada: o nariz e a boca são de admirável simetria. A barba é espessa e tem a mesma cor dos cabelos. Suas mãos são finas e longas e seus braços de uma graça harmoniosa. Seus olhos são plácidos e brilhantes, e o que surpreende é que resplandem no seu rosto como raios do sol, de modo que ninguém pode olhar fixo o seu semblante, pois quando refulge, faz temer, e quando ameniza, faz chorar”.

Prossegue o relato estupendo: “É alegre e grave ao mesmo tempo. É sóbrio e comedido em seus discursos. Condenando e repreendendo, é terrível; instruindo e exortando, sua palavra é doce e acariciadora. Ninguém o tem visto rir. Muitos, porém, o têm visto chorar. Anda com os pés descalços e com a cabeça descoberta. Há quem o despreze vendo-o à distância, mas estando em sua presença não há quem não estremeça com profundo respeito. Dizem que este Jesus nunca fez mal a ninguém, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm andado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde. Afirma-se que um homem como esse nunca foi visto por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, nunca se viram tão sábios conselhos e tão belas doutrinas. Há todavia os que o acusam de ser contra a lei de Vossa Majestade, porquanto afirma que reis e escravos são iguais perante Deus. Vale, da Majestade Vossa, fidelíssimo e obrigadíssimo. (ass.) Públio Lêntulo, Presidente da Judéia”.


(Crônica publicada em 26/02/97)

O segredo do amor

25 de maio de 2011 3

Falemos de amor. Deixemos de lado as questões graves e profundas que nos cercam e mergulhemos nesta ânsia infindável de felicidade que domina o homem sobre a Terra.

Em realidade, a vida não é mais que a busca da felicidade. E, trágica ou sublimemente, o homem só se faz feliz pelo amor. A única forma de ser feliz é amar. A tristeza não é outra coisa que a ausência do amor. A depressão é quase sempre detonada pela absoluta impossibilidade de acesso ao amor. O amor é o único veículo que encaminha para a realização.

Pode ser o amor sexual, entendido assim como o de uma mulher para um homem ou o inverso ou o recíproco. Pode ser o amor a uma causa, o amor ao próximo, o amor até a um objeto, a um conjunto de coisas materiais ou afetivas, o amor ao próximo, que incendeia as almas e os espíritos dos religiosos e dos samaritanos, aqueles que atingem a suprema felicidade da existência ao doarem-se generosamente aos seus semelhantes.

O tipo de amor sobre o qual eu gostaria de discorrer hoje é aquele sentimento romântico de um homem sobre uma mulher ou o contrário. Aquele amor que em última análise importa mais do que tudo porque é dele que emana a sobrevivência da espécie humana. Aquele amor que leva à animalidade, mas no caminho é adornado belamente por uma pureza de sentimento, por um querer bem, por uma eleição magnífica, por uma escolha fulgurante, por um encontro, um achado casual ou procurado, mas sempre secretamente esperado dentro da aptidão que os seres vivos devem sempre manter para amar, se quiserem ser felizes.

O que eu queria dizer é que não há nada mais delicioso no amor que mantê-lo sob segredo, sem que o alvo dele conheça o seu crepitar. Em suma, não há nada mais entusiástico no amor do que o desejo. Goethe, um dos maiores pensadores da raça humana, tocou nisso magistralmente: “Vou ébrio do desejo ao prazer. E no prazer, ah que saudade do desejo!”.

O namoro, o flerte, a amizade dissimulada e o amor cercando essas escaramuças, mantido em segredo. O instante mais ardentemente saboroso do amor é quando se está perto da pessoa amada, quando se a vê ou com ela a gente se encontra todos os dias, ela está bem próxima de nós, conversa conosco, convive conosco, mas desconhece que a amamos. Talvez o tempero mais picante dessa relação de cuidados e estudos mútuos seja que ela desconfie de que nós a amamos. Que um e outro suspeitem que se amam. Este é o momento eterno e infinito do amor.

Eu sempre achei que o amor começa a terminar quando ele é declarado. A sentença de morte do amor é “eu te amo”. Esta revelação é sinistra, ela carrega em seu conteúdo a destruição do amor.

Se se pudesse – e não se pode – levar o amor em segredo ou em suspeita por todo o tempo, jamais se perderia o amor, jamais o fastio ou as outras todas nuanças que tornam o amor finito se deflagrariam. Tanto que o que leva o desejo a tornar-se exercício do amor é o medo da perda. Quando na verdade a perda é originada somente pelo amor concreto e exercitado.

Em toda a minha vida, os únicos grandes registros de saudade, dignos de serem recordados como momentos da mais plena felicidade, foram aqueles em que eu sabia que amava e o objeto do meu amor desconhecia essa circunstância. Ou, então, quando eu desconfiava profundamente de que estava sendo amado, sem que no entanto jamais eu pudesse me debruçar nessa certeza.

Como era estupendo saber que se amava, sem deixar que ninguém soubesse, nem a amada, do que se sentia. Fingindo. E é incomparavelmente grande o deleite de imaginar-se que aquela a quem se ama finge apenas que não nos ama.

Só enquanto isso, é grande e infindável o amor. Quando ele se decifra, morre.

(Crônica publicada em 04/09/1994)

A competência do coração

24 de maio de 2011 4

O coração não sente ciúme. O coração só ama. Quem sente ciúme é o cérebro. Por isso se diz que o ciúme é coisa da cabeça da gente.

O ciúme é um sentimento tão pérfido, que não cabe no coração. O ódio também não é detonado pelo coração, ao contrário do que muito já se disse. O ódio também vem do cérebro. Por isso é que se diz que estamos com a cabeça quente.

O coração só ama. Ternura vem do coração. Tolerância vem do coração. Bondade só vem do coração.

Quando alguém trai a quem ama ou estima, é porque o coração foi superado na luta que ele mantém contra os outros órgãos.

Não existe mau caráter original. O caráter só será mau quando o coração não tiver influência sobre ele. E será bom quando o coração o tiver envolvido.

Tanto prova, que é corrente a expressão %22mau-caráter%22. Mas nunca se ouviu dizer %22mau coração%22. Porque no coração só cabem as coisas boas. A lixeira do homem está em outras partes, algumas bem notáveis, do seu corpo. No coração não cabe nem um argueiro.

O coração é a parte nobre do corpo humano, todas as outras são plebéias, porque se conspurcam.

A bênção sai do coração, o impropério salta do cérebro. Saudade nasce no coração, rancor vem do cérebro.

Quem dispara a lágrima é o coração. Quem dispara o revólver é o cérebro.

E sempre se travará a luta, descrita pelos filósofos, entre o cérebro e o coração. E o incrível é que nessa luta, vença quem vencer, a razão sempre está com o coração.

Quando enfrenta o coração, o cérebro perde a razão. %22E o coração tem razões que a própria razão desconhece.%22

Razão só tem aquele que tiver coração. Coração só tem aquele que mostrar boa razão.

O cérebro é, portanto, um mero rival do coração. E o homem se corrompe quando o cérebro toma o lugar do coração.

Eu às vezes amo tanto, que penso que tenho dois corações, o segundo no lugar do cérebro. Sem cérebro, eu enlouqueço de tanto amar, porque só o cérebro pode travar a corrida alucinada do coração para o amor.

Daí que quem pensa não ama, e quem ama não pensa.

Se o destino tiver que escolher entre me avariar o cérebro e o coração, que me preserve o coração e dane-se meu cérebro. Mil vezes ser um encefalopata do que um cardiopata.

Prefiro vegetar como um idiota, mas tonto de amor.

(Crônica publicada em 28/01/1997)

A cruz dos pessimistas

23 de maio de 2011 5

Eu não sei se já me confessei pessimista aqui nesta coluna. Se ainda não o fiz, faço-o agora: eu sou um incorrigível pessimista.

Sei lá qual é a origem desta face do meu caráter, até desconfio de que possa ser uma infância áspera, malsucedida. Tem tudo para ser pessimista um adulto que foi uma criança para quem a vida foi apresentada como uma companheira mal-encarada, mal-humorada e adversa, além de inseparável.

O que sei é que nós, os pessimistas, temos muito menores chances de sermos felizes que os otimistas. Por exemplo, peguemos dois jovens, um pessimista, outro otimista. Ambos se inscrevem no vestibular. Nos seis meses que antecedem o vestibular, o jovem pessimista sofre esses 180 dias de forma dilacerante: simplesmente porque ele crê que não vai passar no vestibular.

O pessimista é assim: ele antecipa a tristeza e a tragédia. Então ele fica demolido durante 180 dias porque vai ser reprovado no vestibular. Bota tristeza e depressão nisso.

Voltemos nossa atenção agora para o jovem otimista. Ele crê convictamente que vai ser aprovado no vestibular. E durante os 180 dias o nosso jovem otimista goza intensamente a alegria que vai ser sua aprovação. Ele se mostra contente, faz planos, sua vida se torna leve, ele se mostra bem-humorado com os outros, a existência lhe sorri promissoramente.

Enquanto isso, o nosso jovem pessimista carrega a cruz da reprovação antecipada no vestibular, todos seus dias decorrem sob a sombra da catástrofe, sobrevém-lhe até a vontade de desaparecer da face da Terra, não lhe dá vontade nem de conversar com ninguém. E com o jovem otimista é festa e festa, ele já está até gastando por conta da sua aprovação.

Até que chega o dia do vestibular e logo em seguida o dia da divulgação do resultado do vestibular. Para a legitimidade da minha tese, o resultado do vestibular tem de ser igual para os dois.

Pois o resultado é o seguinte: os dois jovens, o pessimista e o otimista, são reprovados no vestibular. Qual é então o balanço na vida dos dois jovens? Evidentemente que os dois ficam arrasados com a reprovação.

Só que o pessimista resta triste, infeliz, desolado, depois do vestibular, mas antes do vestibular ele já era um farrapo humano, um homem destroçado.

Enquanto que o otimista só resta infeliz, triste e desolado após o vestibular, antes ele foi um ser alegre, realizado e festivo.

Visivelmente, quem sofreu mais foi o pessimista. O otimista só sofreu a metade do que sofreu o pessimista.

Mesmo que os dois tivessem passado no vestibular, a conta seria a mesma: alegres os dois seriam depois do vestibular.

Mas é preciso levar em conta a tristeza, a desolação, o arrasamento do pessimista antes do vestibular, nos longos e massacrantes 180 dias que ele passou massacrado pela certeza da desaprovação.

Este é o malsinado destino nosso, os pessimistas: nós vivenciamos catástrofes que não nos acontecerão, nós nos adiantamos aos fatos, julgando que eles, quando sobrevierem, nos serão desfavoráveis.

E mesmo quando somos brindados pela vida ou pelo destino com fartas e estupendas benesses existenciais, logo imaginamos que em seguida elas cessarão os seus efeitos e darão lugar a largas e extensas amarguras. Já os otimistas, pelo contrário, podem ser atingidos pelos maiores desastres, a seguir põem na cabeça que se safarão dessa dificuldade e o sol da vida lhes nascerá fértil e esplendoroso.

Pode até não existir a felicidade, mas se ela existir, os otimistas serão aqueles que a abraçarão.

(Crônica publicada em 08/07/2001)


Tatuagem

21 de maio de 2011 3

Descobri em mim há pouco tempo uma capacidade: eu estou apto para todos os encontros. Se, como disse o Vinícius, a vida é a arte do encontro, então eu sou um artista. Mas eu contrariaria o grande poetinha, afirmando que a vida consiste também na arte da despedida. Porque muitas vezes um novo encontro depende vitalmente de uma anterior despedida. E eu não tenho nenhuma aptidão para as despedidas, daí porque sinto-me incapacitado para a vida.

Ninguém que não conseguiu despedir-se é capaz de encontrar-se novamente. Todo encontro é sempre informal, não o presidem quaisquer compromissos, nem o sucesso dele próprio. Já as despedidas, estas são solenes e formais, pesadas, derrubadoras, repletas e gritantes, de fracasso, até mesmo as despedidas agradáveis, imaginem as indesejáveis. Livrem-me de todos os adeuses, até mesmo porque todos são hipócritas, ninguém pode separar-se daquilo ou de quem já amou, mesmo que não ame mais. Mais atroz que uma chacina será então um adeus ao que ainda se ama. Eu expliquei isso uma vez aqui, quando afirmei que as pessoas que largam o cigarro o fazem por não terem amado o cigarro. Como vou deixar um vício que amo e me consome? Todos os amores são vícios que consomem.

Ainda tentando desmentir o grande poeta: o amor e a afeição não são infinitos enquanto durem, são eternos mesmo depois que acabam.

Quando me entrego a alguém ou algo nunca mais disso me libertarei. Em pouco tempo verei que aquilo que eram laços, embora desatados, permanecendo como grilhões. Só para dar um exemplo, é apenas um exemplo, nada tem com o concreto que faz desabafar assim: venho encontrando mais de uma vintena de amigos que se tornaram exfumantes, a quem interrogo sobre sua experiência. Quase todos eles me dizem que às vezes sonham com o cigarro, têm pesadelos desejantes de cigarro, vacilam dramaticamente em voltar ao cigarro, a maioria não volta de vergonha, medo da vaia íntima ou exterior, ou porque seria um retrocesso desperdiçante do enorme sacrifício imposto pela renúncia.

É isto. Tudo que nosso coração conquista ou o que por ele é conquistado, disso ele se torna para sempre prisioneiro. Não há jamais como fugir-se daquilo ou de quem se amou, mesmo que agora se o odeie. E é mortal que a gente se afaste de quem ou de que se ama. Tolice o que se ouve: só um outro amor pode substituir um grande amor. Nada há que cure o que se cravou uma vez no coração, mesmo que já se tenha desencravado.

No coração plasmam-se impressões digitais indestrutíveis, são definitivamente dele, ele nunca conseguirá abdicar delas podem até despegar-se dele suas substâncias, mas lá continuará o desenho de suas linhas, como uma tatuagem inapagável.

Esqueça de esquecer o que um dia incendiou o seu coração. São labaredas eternas. O sopro de um vento ou de um tufão podem amainá-las, mas logo em seguida elas voltam a crepitar. Nós somos vassalos do que bem queremos e escravos eternos de nossos ex-amores. Ninguém servirá dedicadamente a um novo amor, desde que já tenha assim se entregue o outro.

O que passou não passou. A não ser que não tenha se passado.

(Crônica publicada em 21/06/1994)

A mulher fingida

20 de maio de 2011 6

O segundo melhor e maior pensamento que li ou ouvi nos últimos anos, de autor desconhecido: “Quando não se tem sexo ou dinheiro, não se pensa em outra coisa”.

Este aí de cima foi o segundo melhor, o vice-campeão. Agora vou dar de presente o primeiro, o campeoníssimo dos últimos anos, também de autor desconhecido: “Quase tudo aquilo que vivemos pedindo a Deus nós já possuímos”.

E agora não um pensamento, mas uma constatação minha nestes 200 anos que tenho de existência: por toda a minha vida, nos longos anos desta caminhada, sempre vivi atormentado, aterrorizado por medos de que viessem a me acontecer fatos que jamais me aconteceram.

Uma vida inteira quase estragada por receios profundamente depressivos e infundados.

Tudo de ruim que me aconteceu, disso nunca tive medo antes.

Do ponto de vista de um homem, a grande mulher é a que finge. Nada mais espetacular que uma mulher que saiba fingir.

Até na cama, é muito melhor a mulher que finge do que a sincera. A mulher que finge é muito mais autêntica que a sincera.

Nunca acredite numa mulher sincera. Creia firmemente na mulher fingida, acredite que ela está sendo sincera.

A mulher fingida tem sentimentos muito mais intensos e transbordantes que a sincera. A sincera é muda, não emite sons, a fingida parece uma histérica para agradar a seu homem. A sincera agrada na moita, não dá nem para sentir que ela é sincera nem que é mulher.

A mulher que finge está sempre pronta para fingir, sua energia é inesgotável. Só a mulher fingida é capaz de ter orgasmo múltiplo. A sincera é somente dada a cosquinhas.

A fingida não mede hora, nem lugar, nem esforço para tornar seu homem feliz. Ela é incansável em mesuras, carinhos, elogios, homenagens, comidinhas para seu homem. A mulher sincera é muito chata, está sempre expondo seus problemas, suas dificuldades, os transtornos da relação.

A mulher fingida é aquela que, quando você chega em casa e pergunta a ela se está tudo bem, ela responde, arranjando a camisola: “Agora vai ficar ainda melhor”.

A mulher sincera é aquela que, quando você chega em casa e pergunta se está tudo bem, ela responde: “Nem tudo, tu não sabes o dia que passei”.

A mulher fingida chega a fingir que não lhe falta dinheiro, a Amélia. A sincera é a mulher que vive e se declara em eterno déficit financeiro.

Eu amo a sinceridade da mulher fingida. E acho que é tão chata a sinceridade da mulher sincera que só pode ser fingimento.

Crônica publicada em 18/02/1997

Luz infinda dos poetas

19 de maio de 2011 0

Ah, meus poetas portugueses e brasileiros que me formaram em letras quando eu era apenas um adolescente.

Ler-vos já valia por um curso de gramática e de filosofia. E eu me embebedando nos vossos versos, decorando as mais belas páginas de poesia romântica e lírica dos que manejavam a flor do Lácio, que nunca mais se encontraria depois de vós e de Vieira.

Acabei de recitar para o Olyr Zavaschi, aqui na sala em que me encontro, alguns poucos dos mais belos e definitivos quartetos ou tercetos de nossa língua.

Entre eles, estas eternas tábuas de verdade da autoria do grande Vicente de Carvalho, só elas bastariam para explicar toda a perplexidade humana:


(…)

Essa felicidade que supomos

Árvore milagrosa que sonhamos

Toda arriada de dourados pomos

Existe, sim, mas nós não a encontramos

Porque está sempre apenas onde a pomos

Mas é que nunca a pomos onde estamos.


Ou quando Olavo Bilac, tendo sido abandonado pela noiva por estar tuberculoso, tendo ela imediatamente se casado com um capitão da Marinha de Guerra, 20 anos depois encontrou-a de mãos dadas numa solenidade com o esposo, já então almirante.

E, diante de centenas de convidados, Bilac recitou com voz enérgica e embargada:

Se por vinte anos, nesta furna escura,

Deixei dormir a minha maldição,

Hoje, velha e cansada da amargura,

Minh’alma se abrirá como um vulcão.


E em torrentes de cólera e loucura,

Sobre a tua cabeça ferverão

Vinte anos de silêncio e de tortura,

Vinte anos de agonia e solidão…


Maldita sejas pelo ideal perdido! Pelo mal que fizeste sem querer! Pelo amor que morreu sem ter nascido! Pelas horas vividas sem prazer! Pela tristeza do que eu tenho sido! Pelo esplendor do que deixei de ser!

A senhora deixou-se cair desmaiada nos braços do almirante.

Ou como quando o pernambucano Maciel Monteiro fez elogio insuperável à beleza de uma mulher que conhecera e desejava conquistar:

Formosa, qual pincel em tela fina

Debuxar jamais pôde ou nunca ousara;

Formosa, qual jamais desabrochara

Na primavera a rosa purpurina;

(…)

Formosa, qual se a natureza e a arte,

Dando as mãos em seus dons, em seus lavores

Jamais soube imitar no todo ou parte;

Mulher celeste, oh! anjo de primores!

Quem pode ver-te, sem querer amar-te?

Quem pode amar-te, sem morrer de amores?

(Crônica publicada em 01/02/05)

As maiores invenções

18 de maio de 2011 1

Quais são as maiores invenções do homem? De que forma o homem conseguiu chegar à civilização pelas suas criações, tornando a vida mais fácil e as criaturas mais felizes, o que o diferencia em tese dos animais?

Nem mil compêndios haveriam de conseguir arrolar as maiores invenções do homem, mas eu sempre encasquetei que tenho uma lista de considerável mérito.

O crédito e a masturbação ocupam um lugar de destaque na minha lista. Pelo milagre que eles conseguem.

Através do crédito, o homem atingiu uma admirável prestidigitação econômica, usufruindo dos bens ou do capital antes mesmo de merecê-los, isto é, antes de adquirir recursos para pagá-los.

Pelo invento da masturbação, meio que analógico ao do crédito, os humanos atingiram a essencial satisfação sexual, básica à existência, através do truque da imaginação: tanto uma mulher como um homem podem sozinhos, bastando configurar na mente um quadro erótico e romântico, chegar ao êxtase na companhia fantasiosa de seus ícones sexuais.

Ou seja, tanto o crédito quanto a masturbação permitem o usufruto sem o sacrifício da conquista. Admiráveis recursos da inteligência humana.

A outra grande invenção do homem é a analgesia medicamentosa, ou seja, a anestesia. A dor é uma experiência sensorial incômoda ou torturante, provocada por algum tipo de dano nos tecidos, que estimula os terminais nervosos a disparar um impulso elétrico até o córtex cerebral, dando-se ali a consciência da sensação inconveniente.

Pois o homem conseguiu com os analgésicos e anestésicos fazer desaparecer a dor. Já pensaram no que era extrair um dente ou ser alvo de uma trepanação, antes de serem inventados os analgésicos? Sem dúvida alguma, entre as maiores invenções do homem está a analgesia artificial. u

O flerte é outra invenção deliciosa do homem. Ele carrega a promessa de uma união paradisíaca e é exatamente o prenúncio do amor, aquela fase inicial em que não se pressente minimamente as agruras do percurso e os tormentos do fim da paixão. Na fase do flerte, que precede a do namoro, não se tem medo nem pavor da perda, não há ciúme, tudo é horizonte claro do desconhecido, por isso mesmo idealizado como apenas venturoso. O namoro é o início do fim do amor. O flerte é a saborosa, embora falsa, sensação de que o amor jamais terá fim.

Há outras invenções geniais do homem, como a salada de frutas, o chinelo, a água gelada, o travesseiro, o garfo, a roda, o lombinho defumado, o jogo de cartas, o salto alto feminino, a campainha, o telefone, o futebol, o ciúme fingido, o mergulho, a aposentadoria.

Mas indiscutivelmente uma das maiores invenções do homem é a prótese dentária, pela qual uma pessoa pode mostrar um sorriso verdadeiro com dentes absolutamente falsos.

O Rei da Voz

17 de maio de 2011 1

Há coisas que faço automaticamente, sem saber como as aprendi. Não posso entender por exemplo como sei andar de bicicleta, se um dos traumas que tenho é o de não ter possuído bicicleta quando era criança. Depois de adulto, aprendi a dirigir no jipe da delegacia onde eu era inspetor de polícia, peguei na direção do DKW da minha namorada, depois de casado consegui comprar um Corcel zero, nunca mais quis saber de bicicleta.

Então como é que eu sei andar de bicicleta, se ao que me lembre nunca qualquer amigo me emprestou a sua para dar uma voltinha? Andei três dias perscrutando este mistério, mas não o solvi.

Um outro enigma que me persegue e que ontem recrudesceu a minha curiosidade é como eu consegui gravar na memória mais de mil letras de música popular. Inteiras, porque incompletas eu guardo outras mil no meu computador cerebral.

Acontece que a Rádio Gaúcha relembrou outro dia o aniversário de nascimento do cantor Francisco Alves, o Rei da Voz. E recordou algumas músicas do grande Chico. De repente, me vieram à memória várias letras de músicas do Chico Alves. Eu nunca mais as tinha cantarolado, são antigas, mortas, arquivadas, mas não sei como se conservaram no meu depósito cerebrino e de repente emergiram na lembrança, após 50 anos:


Quanto mais quero esquecê-la

Mais eu a trago comigo

Por que é que fui gostar

Da mulher do meu amigo?

O casamento é sagrado

Eu tenho de respeitar

Quanto já tenho sofrido

Pra não destruir um lar

Pra aumentar a minha mágoa

Sei também que ela me quer

Com tanta mulher no mundo

Fui gostar desta mulher.


É cafona a letra, está incompleta, mas chega a ser fantástico que ela redesabroche assim nos meus miolos, se só quando tinha 10 anos de idade é que eu a cantava.

Faz cerca de 50 anos que Francisco Alves morreu. Sua voz era tão potente, que ele era capaz de cantar para um vasto auditório sem microfone. Além de cantor, era vendedor de automóveis. E o sonho maior de um rapazinho de 20 anos, chamado Noel Rosa, era ter uma baratinha. Chico Alves era comerciante. Deu a baratinha zero quilômetro para Noel Rosa em troca de 50 músicas do grande poeta, que se comprometeu a compô-las em breve tempo. Noel Rosa fazia duas músicas por dia, foi fácil quitar a baratinha em um ano. Daí que Francisco Alves entrou para a história também como compositor, parceiro de Noel Rosa.

Mas não tem explicação que, quando eu tinha seis anos de idade, só dali a 20 anos seria inventado o transistor, meu pai não me dava acesso ao seu aparelho de rádio, eu tenha aprendido a letra de 50 músicas do Chico Alves e retenha bem nítida na memória a característica musical de abertura do programa do Rei da Voz na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, um som que inundava o Brasil todos os dias ao meio-dia em ponto:


Porém, neste abandono interminável

No espinho de tão negra solidão

Eu tenho um companheiro inseparável

Na voz do meu plangente violão.


Naquele tempo, as comunicações que atingiam o país inteiro eram voltadas, ao contrário de hoje, para a música e a poesia. E nós, aqui em Porto Alegre, éramos prensados entre o cancioneiro nacional das rádios cariocas e o tango dramático das rádios portenhas.

(Crônica publicada em 29/09/99)

Eu previa a derrota

16 de maio de 2011 10

Os cronistas esportivos gaúchos estavam equivocados: o Grêmio não tem um time melhor que o do Inter, mas um técnico melhor.



Tanto é que já previa a derrota do Tricolor. Isso devido ao favoritismo, que é mortal.

Inter possui jogadores melhores

16 de maio de 2011 1

Quando se compara a qualidade individual de cada jogador do Internacional e do Grêmio, fico impressionado quando cronistas esportivos afirmam que o Tricolor possui um time melhor. O Gre-Nal de ontem foi a prova de que isso não é verdade: Andrezinho, por exemplo, mancando, nos derrotou.

O Shopping de antigamente

16 de maio de 2011 5

Quem se lembra das “vendas” de antigamente? Eram os armazéns, hoje extintos pelos supermercados. Tinha de tudo nos armazéns.

Na entrada, as pilhas de tamancos, chinelos e alpargatas. Ao lado, sacos abertos de arroz, feijão, farinha de trigo e milho e erva de chimarrão, para serem vendidos a granel. Em cima da prateleira, os artigos de higiene, sabão, sabão de coco e pedra-pomes.

A pedra-pomes era levemente porosa e tinha uma finalidade peculiar: passava-se principalmente nas diversas partes dos corpos dos garotos que não tomavam banho e deixavam crescer um grosso cascão sobre a pele.

Não havia o que não se encontrasse num armazém de esquina ou de estrada: fumo em corda ou rama e fumo picado, e papel Colomy para cigarro, todas as espécies de inseticidas, o Detefon (que tonteia, mas não mata), o Boa Noite, o Ipril e o Gamexame, o Flit e o Gamerial (contra pulgas) e o Fumeta.

As casas viravam uma fumaceira.

Tinha velas de sebo e de espermacete (substância gordurosa presente nas cabeças dos cachalotes, as baleias pequenas), utilíssimas, junto com os lampiões, para os diários racionamentos de luz. Tinha banha e graxa – que substituíam o azeite –, urinóis, canecas e bandejas alouçadas e esmaltadas, torresmo, mel e schmier a granel, Glostora, Gumex, brilhantina e vaselina em pasta para os cabelos, Biotônico Fontoura e Emulsão de Scott, Pílulas de Vida do Dr. Ross, Phimatosan, Regulador Xavier (o que regulava o fluxo menstrual, o nº 1 para excesso, o nº 2 para escassez), Xarope Bromil, o amigo do peito. Os armazéns podiam vender remédios.

Ferramentas em geral havia no armazém: martelos, torqueses, alicates, chaves de fenda e até de roda. E alguns armazéns vendiam inclusive arame, telhas, fechaduras e folhas de zinco. É incrível, mas os armazéns podiam vender também material de construção. E, para a limpeza da casa, cera Parquetina, que deixava o assoalho brilhando. Para os móveis, óleo de peroba era a receita.

Tinha de tudo nas grandes tulhas. Milho de pipoca, lentilha, polvilho, aveia, rapaduras quebradas e em palha, pé-demoleque, doces de batata e de abóbora, merengues, matafomes, balas, balas gasosas e quebra-queixo, pirulitos, goiabadas, figadas, marmeladas a granel, quase sempre em cima do balcão.

Não dá para acreditar, mas os armazéns vendiam rojões, bombas, busca-pés, triquetraques, espoletas, todas as espécies de fogos de artifício.

Vendiam colírio, botões, linhas, agulhas, colchetes, alfinetes, percevejos, fita isolante, tachas, pregos, goma arábica, pentes Flamengo, anil Rekitt. Podia-se adquirir leite em garrafas com tampas de alumínio e manteiga Deal.

Sempre havia três tonéis no chão dos armazéns: o do querosene, o do solvente e o do azeite, comprados em litros ou em garrafas pequenas. Os armazéns eram um refúgio seguro da pobreza, tudo ali podia ser vendido a granel, até os cigarros Aspásia, Liberty e Tufuma.

E graxa e tinta para sapatos, inclusive a branca: alvaiade.

As melancias se esparramavam sobre o chão dos armazéns, prontas para serem caladas. Se não fossem rubras e firmes, o freguês não levava.

Café, açúcar cristal, azevém e alfafa, todas as espécies de tempero, charque, toucinho.

O leitor há de se perguntar por que estou lembrando isso. É que me sobrevém uma deliciosa nostalgia dos tempos de guri, em que o acaso me colocava nas mãos algumas moedinhas e eu ia correndo para o armazém.

E meus olhos percorriam todas aquelas pilhas de artigos, como num mercado persa, assim como hoje as pessoas se extasiam nos shoppings. Era o meu grande passeio da manhã ou da tarde.

E quando incomodamente o bodegueiro interrompia o meu sonho de consumo, com autoridade eu lhe pedia que me desse um mandolate e três ou quatro unidades de bala de goma, daquela do tipo de gomos de bergamota coloridos, uma delícia, uma alegria incomparavelmente maior que as que tenho hoje gastando fortunas.

Nunca vamos esquecer. Pedia-se vinho doce Sabiá, e o bodegueiro pegava uma comprida tenaz e descia a garrafa da parte mais alta da prateleira, toda empoeirada. Que doce recordação!

(Crônica publicada em 09/04/2006)