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Posts de junho 2011

Sucesso de 40 anos

27 de junho de 2011 6

Voltemos a 1971. Na Redação de Zero Hora, Cândido Norberto empunhava um microfone móvel e começava uma entrevista informal. Em tom de conversa, um repórter ou editor falava à vontade sobre as notícias que estavam acontecendo naquele momento. Ao longo do tempo, outros apresentadores passaram a integrar o programa e os debates começaram a se focar no futebol. Embates, aliás, acirrados.

O que você acaba de ler foi o começo de um dos programas radiofônicos de maior sucesso entre os gaúchos: o Sala de Redação, que completa 40 anos neste mês.

O início de minha vida como comunicador se deu pelo Sala. E depois eu abrilhantei tanto o Sala com minha postura assumidamente gremista que a rádio se viu obrigada a trazer uma voz colorada para me contrapor. Criei os empregos do Ibsen Pinheiro, do Cid Pinheiro Cabral e do Kenny Braga, entre outros.

O sucesso foi tanto que ainda fui responsável por mais de 40 tentativas de invasões ao estúdio de exaltados ofendidos por meus comentários.

Para comemorar estas quatro décadas de discussões ácidas, bom humor, amizade e, claro, amor pelo futebol e pelo jornalismo, o Grupo RBS vai promover uma festa hoje, às 19h30, no Teatro do Bourbon Country (Av. Tulio de Rose, 80 – Porto Alegre), com o patrocínio de Rudder, Jimo e Tumelero.

Na festa, meus colegas e eu seremos homenageados. Quero prestar aqui a minha homenagem também. Confira, abaixo, fotos do Sala e crônicas minhas dedicadas ao programa.

Fotos

Crônicas

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Os não diagnosticados

Acho que foi o Barão de Itararé que escreveu que o hospício é o quartel general dos loucos.

Isto é uma verdade, os loucos sem diagnóstico andam soltos por aí. Há pessoas que convivem diariamente, em casa, no trabalho e nas ruas, com os loucos.

Mas nunca ninguém parou para pegar esses loucos de todo gênero e levá-los a um terapeuta para obter um diagnóstico.

Agora, você imagina o que é conviver com loucos durante 10, 15, 20 anos?

Eu sei porque participo do programa Sala de Redação há 38 anos e o que já passou de louco por aquele programa não está no gibi. Fora os que ainda lá permanecem.

O problema é o louco sem  diagnóstico. Ele segue pela vida fazendo estragos porque acha que não é louco, pensa que é certo, normal.

Começa que ninguém é normal: 90% das pessoas têm no mínimo neuroses.

E 90% das pessoas não sabem, nunca souberam nem nunca vão saber que têm distúrbios emocionais ou mentais.

Foi por isso, para não me igualar aos desregulados que não têm diagnóstico, que fui buscar um diagnóstico.

E tive a coragem aqui numa coluna de declarar que eu era bipolar.

Bipolar é o cara que alterna a depressão com a euforia. Uma hora ele está para baixo, outra hora para cima. E o certo, nesta questão do humor, é estar exatamente no meio da linha vertical que tem a depressão num extremo e a euforia no outro.

O deprimido todo mundo conhece. O cara está arrasado, nada há que o anime ou alegre. Já o eufórico é o cara que tem superativadas as suas emoções. Ele é um emocional exagerado. E vive de arroubos e explosões de alegria, comete nos gestos e nas palavras muitos exageros que se tornam de alguma forma agressivos para os seus circunstantes.

Em contraposição, também se extrema a criatividade no eufórico.

Ele se torna mais imaginativo e inteligente.

Só que o eufórico passa do limite e se torna socialmente inconveniente. O ideal é o humor estar controlado, nem tão para baixo que beire a depressão – ou afunde nela – nem tão para cima que beire a expansividade – ou mergulhe nela.

Eu tomo remédio para a bipolaridade. De que adianta, se as pessoas com quem convivo não tomam remédio para seus distúrbios?

Ou seja, remédio para mim eu tomo, já estou diagnosticado. Mas como é que vou obter remédios para o enfrentamento, a fricção entre mim e os que não são diagnosticados?

Lá no Sala de Redação é assim, naquele serpentário só eu sou controlado por remédio. Existem vários outros que nunca foram monitorados por qualquer psicanalista ou psicólogo.

E eu, contido, fico assoberbado e cercado por vários ângulos pelos não diagnosticados. Em qualquer família ou círculo social restrito, todos têm de obter diagnóstico.

Caso contrário, corre-se o risco de o diagnosticado ficar pior do que os outros.

 


Discurso do saque!

24 de junho de 2011 1

Da série índia, publicada aqui nesta coluna, republicada ontem na Revista ZH, a carta do cacique Seattle ao presidente norte-americano Franklin Pierce, em 1854, dou agora aos meus leitores o privilégio de um discurso do mesmo chefe índio, desta vez após ele ter entregado suas terras aos brancos, com seu povo passando a confinar-se numa reserva.

A gentileza da reprodução do discurso a mim passada se deve ao Fernando Rozano, da Unidade Setorial da Secretaria Municipal da Cultura porto-alegrense. Deixem eu dizer que conheci a cidade de Seattle, no Estado de Washington, em 1976, quando lá jogou a Seleção Brasileira. Fica perto da fronteira com o Canadá e guarda ainda hoje vestígios da bela natureza daquelas paragens herdadas (arrancadas) pelos brancos dos peles-vermelhas. O nome da cidade é uma homenagem ao grande e lúcido cacique Seattle, que era um índio da família lingüística salish e foi chefe da tribo dwamish, que habitava a costa noroeste do Pacífico. Ao assinar o tratado de Port Elliot, em 1855, pelo qual entregava suas terras aos brancos, Seattle pronunciou as seguintes e comoventes palavras:


Hoje somos poucos. Meu povo se assemelha às árvores dispersas numa planície varrida pelos ventos… Houve um tempo em que cobríamos a terra como as ondas de um mar agitado sobre as conchas da praia. Mas esse tempo há muito se foi, levando a grandeza das tribos, de que resta hoje apenas uma triste memória. Para nós, as cinzas dos nossos antepassados e o seu lugar de descanso são sagrados. Vocês vagueiam longe das sepulturas de seus antepassados e aparentemente não se importam com isso. A religião de vocês foi escrita em tábuas de pedra pelo dedo de fogo de Deus para que não a esquecessem. O Homem Vermelho jamais poderá compreender isso. Nossa religião são as tradições dos antepassados — os sonhos dos velhos, revelados nas horas solenes da noite pelo Grande Espírito, e as visões de nossos chefes. Ela está escrita no coração do povo.

Os mortos de vocês cessam de amar a terra em que nasceram assim que ultrapassam os portais do túmulo e viajam para além das estrelas. São logo esquecidos e não mais retornam. Nossos mortos nunca esquecem o belo mundo que os trouxe à vida. Quando o último índio houver perecido e a memória de minha tribo se tornar um mito entre os brancos, estas praias estarão repletas com os nossos mortos invisíveis. E quando os filhos dos filhos de vocês se acharem sozinhos no campo, no mercado, no trabalho ou no silêncio dos bosques, eles não estarão sozinhos… À noite, quando as ruas das aldeias e das cidades estiverem silenciosas e todos pensarem que estão desertas, restarão apinhadas de espíritos de índios que um dia habitaram e ainda amam esta bela terra. O Homem Branco nunca estará sozinho. Que ele seja justo e trate bem meu povo, porque os mortos não são desprovidos de poderes. Eu disse mortos? Não existe morte. Apenas mudanças de mundos.

(Crônica publicada em 30/05/1994)


Infância feliz de hoje

23 de junho de 2011 0

Entende-se de baixo nível a televisão brasileira, mas desconhece-se a função primordial de lazer que ela encerra para as multidões brasileiras.

Eu me lembro de que, na infância, há 50 anos, a única diversão que eu tinha era anunciada: a matinê de domingo no Cinema Brasil, Avenida Bento Gonçalves, ou no Cinema Miramar, na Aparício Borges.

Eu ficava a contar os tostões durante toda a semana, na esperança de que eles pudessem bastar para comprar a entrada da matinê de domingo. Era um dia só de diversão, uma data marcada, uma solenidade para o espírito, a única grande atração da arrastada existência infantil daquele tempo.

E lá ia eu para ver o Gunga Din, Sansão e Dalila, com Hedy Lamarr e Victor Mature, todos os filmes de Robin Hood, os seriados completos ou parte deles, Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, o sonho de criança embalado uma vez por semana, apenas uma tarde, o resto era estudo ou trabalho.

À noite, nós, crianças, íamos dormir cedo, logo depois da janta. O rádio era odiosamente privativo dos nossos pais, que o colocavam na cabeceira da cama de casal do quarto e ficavam até tarde a ouvir as novelas ou os programas de auditório. Se por vezes algum programa nos interessava, tínhamos que ir de pé em pé até a porta do quarto dos pais e espreitar na escuta clandestina.

Hoje, quando vejo as crianças de posse do seu televisor no quarto, ou até mesmo dividindo com os pais o aparelho da sala, os mais bem dotados com seu computador particular, noto que nem imaginam como são felizes em comparação com a nossa infância oprimida e sem acesso à cultura e ao divertimento.

As crianças de antigamente viviam na escuridão, escravizadas na relação tímida com as outras na escola ou nos folguedos das ruas, sem a visão universal da realidade que a televisão hoje lhes empresta, tornando-as desde cedo intelectualmente mais ágeis, na verdade mais preparadas para a vida, sem a prisão dos tabus, sem medo do sexo, sem segredos, mas principalmente mais divertidas e prazerosas, curtindo a existência em todos os momentos do dia.

Se as crianças de hoje soubessem como foi triste e monótona a vida de seus avós e ancestrais, se apiedariam deles e ao mesmo tempo agradeceriam aos céus a vida venturosa que têm, incomparavelmente mais atraente e mais vasta, melhor curtida, mais intensamente vivida, justamente no período mais fértil da formação do espírito e da inteligência.

Não tenho dúvida de que o passado apenas serviu para emburrecer as gerações, em comparação com a civilização atual. Uma criança de hoje, na média, seria considerada gênio perto de uma criança de antigamente. E a diferença é a alegria do conhecimento que a criança de hoje desfruta, enquanto as crianças de outrora eram condenadas a só o acessarem nos burocráticos e frios bancos escolares.

Este é o mais importante lado do progresso, que nos passa despercebido. Se o homem mergulha hoje na depressão e no estresse muito mais do que antigamente, é também porque se verifica um choque entre a sua infância bem nutrida de conhecimento e lazer e a dura realidade da vida de adulto, que tem de dar duro para subsistir.

Enquanto antigamente as crianças se libertavam do seu período de sombras da infância quando se tornavam adultos, hoje se verifica o contrário. O trabalho, que antes era o céu para o homem que se livrava das cavernas da infância, hoje, até mesmo pela incerteza do desemprego ou dos salários insuficientes, é a grande decepção dos adultos que viveram um tempo de deliciosas aventuras pelo terreno de sonho da infância descompromissada diante da televisão.

(Crônica publicada em 12 de abril de 1999)

A inveja

22 de junho de 2011 0

Esses dias eu falei bem do ciúme aqui. Quero acrescentar que o vi só por um ângulo: há outros ângulos do ciúme profundamente lastimáveis e alguns deles destrutivos.

Não é o caso da inveja, que é quase toda ela nociva e devoradora. A não ser uma figura de retórica: a inveja boa. Mas a inveja boa, aquela que se tem de uma pessoa que se admira e se deseja que ela continue a ter sucesso ou viver feliz, mas só que se queria isso também para a gente, não deveria assim ser chamada. Porque não há inveja boa. Melhor seria denominá-la de espelhamento.

Diz-se que os invejosos sofrem menos dor com seu próprio fracasso do que com o sucesso dos outros. Eu queria fazer uma corrigenda: para um invejoso, o sucesso do seu semelhante é desde já e intrinsecamente o próprio fracasso.

Outra corrigenda: o invejoso já é um fracassado, ele já larga fracassado na vida. Porque não há nada pior sucedido que o sujeito ficar desejando o insucesso dos outros. Tanto porque um dia alguém que seja objeto da inveja terá sucesso, nem que seja eventual, quanto porque quem nutre inveja gasta todo seu tempo neste mister, vindo a fracassar por tornarse assim omisso naquilo que objetivamente lhe interessa, que é a busca do seu próprio sucesso.

O melhor que se faz é guardar reserva ou até mesmo sigilo, tanto quanto possível, sobre a nossa vida. Porque, se vamos bem e os outros tomam disso conhecimento, é certo que os verdadeiros e raros amigos ficarão contentes, mas em contraposição os inúmeros desafetos, inimigos ou secadores em geral vão enfurecer-se.

E se vamos mal e disso tomam conhecimento todos, os verdadeiros e escassos portadores de afeto por nós sofrerão, enquanto que daremos alegria ao numeroso público dos nossos desafetos, inimigos ou simplesmente secadores, que entrarão em euforia, farra invejosa.

Como na primeira hipótese, quando tudo está dando certo para nós, não vale a pena deixar doentes os invejosos – e na segunda hipótese, quando vamos mal, acabamos por preocupar ou fazer sofrer os nossos amigos, o melhor é a gente ficar na moita sobre o que nos acontece de bom ou de mau.

Só que a vida moderna é comunitária e não nos permite, na maioria das vezes, esconder o que nos sucede. E aí prevalece e viceja intensamente a inveja.

Eu conheço um invejoso que invejava tão intensamente o seu rival que acabou este último morrendo. No enterro do invejado, onde foi para certificar-se de sua vitória definitiva, o invejoso chorava copiosamente, diante do caixão.

A mulher do invejoso, vendoo derramar aquelas lágrimas, segredou-lhe baixinho durante a cerimônia fúnebre: “Mas não era a pessoa a quem mais odiavas e invejavas, como é que choras agora a morte dela? Este pranto é sincero ou falso?”

E o invejoso falou à mulher: “Choro autenticamente: não viste o padre dizer agora na encomendação do cadáver que a partir de hoje ele viverá em paz e tem entrada garantida no céu?”

(Crônica publicada em 26/05/1998)

Geminianos

21 de junho de 2011 1

Moisés Mendes, colega aqui da Redação que tem como eu a mania de juntar palavras e construir frases, é geminiano. Fez aniversário na semana passada e entoou-se um cântico amigo de parabéns por toda a Redação. Nós, geminianos, juninos, somos seres especiais. Gêmeos é o signo da inteligência e da dupla personalidade.

Por isso é que existem dentro de mim um demônio que ruge e um deus que chora: Paulo e Pablo. Paulo é cerebrino. Pablo é coronariano. Paulo é direto e exato. Pablo é subjetivo e maleável. Paulo é sério, circunspecto. Pablo é sorridente, cordial.

Paulo é fiel, porque não ama. Pablo trai, exatamente porque ninguém é mais capaz do que ele de amar tão loucamente.

Paulo é intrépido, Pablo é tímido. Paulo é taxativo. Pablo é tergiversante. Paulo é neuronial. Pablo é sangüíneo.

Paulo casou. Pablo se amanceba. Porque Paulo é definitivo. E Pablo é sazonal.

O que vem de Paulo é invariavelmente esperado. Pablo é sempre desconcertante. Paulo teve filhos. Pablo só foi capaz de ter sobrinhos. Paulo paga as contas em dia. Pablo é o maior de todos os inadimplentes. Paulo teve esposas. Pablo passou a vida colecionando namoradas (hoje é o dia delas, parabéns queridas!). Paulo é rigoroso com sua escrita. Pablo só cuida de fazer versos.

Paulo é otimista, porque sabe onde pisa. Pablo é pessimista, exatamente porque conhece a si próprio. Paulo nutre inveja. Pablo só sente ciúme. Paulo acredita só no que faz. Pablo prosseguirá sempre só acreditando nos outros. Paulo pratica as ciências exatas.

Pablo, as sociais e os devaneios filosóficos. Paulo é escritor. Pablo é orador. Paulo elabora relatórios. Pablo rabisca sonetos. Paulo trata as mulheres com respeito. Pablo com ternura. Paulo trata os homens com distância e gravidade. Pablo celebra com os homens alegre camaradagem. Paulo confia desconfiando. Pablo se entrega totalmente. E Paulo é inalterável, enquanto não há ninguém mais volúvel do que Pablo.

Esta é a sina dos geminianos. Ser dois em um. Ser na vida ângulo obtuso e ângulo reto. Ser noite e dia. Ser luz de sol e clarão de lua.

Mas também ser raio sobre sombras e relâmpago que fere as trevas. Ser geminiano é ser capaz de desferir bofetadas e brandir beijos. É tornar a sua vida repleta de encontros e despedidas. Assim como de cegueiras e descobertas.

Sou geminiano, então sou capaz de sofrer os maiores e mais atrozes infortúnios. Mas também sou candidato natural e favorito às mais especiais e supremas venturas. Ser geminiano é viver equilibrando-se (ou desequilibrando-se) nos extremos. Sou geminiano, ninguém como eu corteja diuturnamente a morte. Mas também ninguém como eu saboreia mais e valoriza tanto e tão devotadamente a vida.

(Crônica publicada em 12/06/2001)

O passatempo

20 de junho de 2011 2

Afinal, o que é a vida, em síntese? A vida não passa de um passatempo.

Todos nós vivemos a nos entregar a passatempos. Casar é uma forma de melhor passar o tempo, é o que imaginamos quando estamos noivos. Embora, depois de casados, quase sempre concluamos que nosso casamento foi a pior forma de passar o tempo, tanto que por aquela forma o desperdiçamos.

Ou então nos separamos do nosso cônjuge e dizemos: “Valeu!”. Isso quer dizer que não foi a melhor coisa que fizemos, mas pelo menos passamos o tempo com dignidade.

Tudo o que fazemos é para passar o tempo. Quando trabalhamos, trata-se de um passatempo. Quando vadiamos, passamos o tempo. Diz-se por “qualidade de vida” que se trata da forma mais profícua ou divertida de passar o tempo.

Daí que jogamos cartas para passar o tempo. Vamos ao cinema, namoramos, damos uma chegadinha no shopping, tudo para passar o tempo.

E há os que lucram abertamente com os nossos passatempos. Caso dos donos de estacionamentos, de bingos, de motéis, de videogames, de barcos e bicicletas de aluguéis etc. Todos esses exploradores dos nossos passatempos cobram por hora o tempo que passamos usando seus equipamentos.

E quando paramos no tempo, temos então de recorrer aos psicanalistas, que também nos cobram as consultas por tempo decorrido.

Ou você passa o tempo, ou você perde tempo. Perder tempo é parar no tempo, significa que não passou o tempo para você.
Perder tempo é escolher mal o passatempo. Quem ama passa o tempo. Quem se debate num amor frustrado perde tempo.

Já “ganhar tempo” é outra coisa. Significa parar no tempo para ali adiante encontrar-se com o passatempo mais eficaz.

Quem diz que está “ganhando tempo” não tem muita certeza disso. Porque lá adiante pode ver que o tempo que estava ganhando acabou em tempo perdido.

Tudo isso porque Deus ou a natureza nos enviou para a Terra com a finalidade inicial de nascer e o prazo final de morrer.
E o decurso entre o nascimento e a morte é o que se chama de vida, que não tem outro sinônimo que não seja tempo.

Como é teoricamente longo o decurso da vida – ou do tempo –, então toca o homem a passar o tempo.

Eu ando cismando há vários dias que, ao contrário do que diz a filosofia ou do que nos parece óbvio, o que fazemos, ao passar o tempo, é abreviar a morte. Porque o passatempo é o encurtamento da vida, uma forma de a tornarmos mais amena. E se encurtamos a vida pelo passatempo, então o que procuramos não é uma vida mais longa, e sim uma morte mais breve.

Porque, quando decidimos ir para a praia ou para a Serra, é porque achamos que lá o tempo vai passar mais depressa, isto é, mais fácil de suportar.

E quem quer que o tempo passe mais rápido deseja, em última análise, que a morte sobrevenha mais cedo.

A vida, portanto, é apenas um suceder constante de passatempos. E o homem criou esse objeto chamado relógio justamente para contabilizá-los e forçá-lo a se deter entretido com eles.

E só a morte pode parar com esta tortura da hora marcada e contada de minuto a minuto.

Porque só a morte para com o relógio, faz com que ele se torne inútil e ultrapassado. Porque com a morte conseguimos nos livrar do relógio, do tempo, do passatempo.

Pelo bálsamo e refúgio infinito da eternidade.

(Crônica publicada em 24 de junho de 2000)


O séquito da Praia de Belas

17 de junho de 2011 0

Esta história é verdadeira e me foi contada por um dos seus personagens principais. Apenas os nomes são fictícios, por óbvios motivos.

Há muito tempo que Andrea, a esposa, desconfiava de seu marido. Ou melhor, acreditava que ele tinha uma amante, tais eram os indícios que notava no horário de sua chegada, na frieza fatigada com que se jogava sobre os lençóis. Na sua voz irritada sempre que se dirigia a ela.

Passou a segui-lo, com a finalidade de flagrá-lo no adultério. Até que recebeu um telefonema de uma de suas espiãs: Eurico, o esposo, estava jantando naquele momento no Restaurante Vinha D’Alho.

Andrea ajeitou depressa os cabelos, botou o primeiro modelito que avistou no armário, deu de mão na bolsa e já estava dando partida no seu Gol na garagem.

Chegou ao restaurante em sete minutos. Foi entrando de mansinho, quando Eurico e a namorada erguiam pela quinta vez as taças e brindavam certamente ao esplendor do seu amor clandestino.

A namorada de Eurico foi quem primeiro viu Andrea e empalideceu. Eurico ao vê-la lívida sentiu que era bronca das grossas, embora não lhe passasse pela cabeça uma tal bomba arrasa-quarteirão.

Quando ele constatou Andrea de pé junto à mesa, lembrou-se de que há anos treinara-se para este tipo de ocasião. E de supetão foi ele quem saiu falando, quase sem se deixar perceber pelos outros clientes:

– Não há como negar-te. Esta é Cíntia, minha namorada. Temos um caso há dois anos, era praticamente impossível que ele continuasse como estava sem um pesadelo destes. Estou dando a ela o dinheiro para o táxi (alcançou uma nota de R$ 50 a Cíntia) e me disponho a retirar-me daqui contigo e ir imediatamente te dar as explicações e satisfações que mereces em nossa casa.

Andrea, talvez pela última vez, tratou de dominar a situação como sempre tentara naquele casamento de 10 anos de duração:

– Nada disso. Sem escândalo e com muita discrição (enquanto dizia isto sentou-se à mesa de dois lugares ainda vagos), chamas o garçom, pagas a conta, tua namorada vai comigo no meu carro, vou deixá-la em casa, prometo, depois de uma conversa que exijo ter com ela. Tu pegas o teu carro e vais atrás do meu carro. Se eu não tomar o rumo da casa de tua namorada, por sinal noto que linda e jovem, será apenas por alguns instantes, os que forem necessários para um pequeno ajuste de contas que terei com ela. Depois de deixá-la em casa, tu podes vir atrás de mim até nossa casa, onde também conversaremos.

Assim foi feito, e Cíntia obedeceu cegamente a Andrea, pois Eurico sempre lhe dissera que sua esposa era furiosa.

E no estacionamento as duas entraram no Gol de Andrea, Eurico foi levando o seu Vectra atrás. Eurico, nervoso no volante, só olhava para dentro do carro de Andrea, que gesticulava e gritava veementemente, botava o dedo na cara de Cíntia e dobrava nas esquinas.

E lá seguiram pela Avenida Praia de Belas naquele séquito dramático em que sempre terminam todos os triângulos amorosos.

Crônica publicada em 17/05/2000.

A simples comida de que gosto

16 de junho de 2011 7

Amendoim torrado, paçoca de amendoim, pé-de-moleque, rapadura de amendoim, batida de amendoim, fui fazer um balanço dos alimentos que gosto de ingerir e cheguei à conclusão de que o amendoim, depois do espaguete, é a minha maior paixão gastronômica. Já comi todos os itens acima enumerados, sendo que o amendoim torrado, natural ou com sal, é delícia que saboreio todos os dias.

E canto também o samba antológico: “Ah, este teu corpo parece/ do jeito que ele me aquece/ amendoim torradinho”.

Arroz-de-leite é outra religião minha. Não posso entender como os supermercados de Porto Alegre não têm arroz-de-leite pronto para vender. Quando o Zaffari tinha, eu era com certeza o maior cliente, arroz-de-leite com canela, claro que vem da infância este hábito que tenho de devorar uns três quilos por semana que mando fazer em casa. Molhadinho. É um dos maiores prazeres da minha vida.

Sobre o sagu, certa vez cheguei a escrever uma coluna inteira sobre essa minha paixão ancestral. Disse que tomava na ceia vinho Cabeça de Touro e no sagu mandava botar Châteauneuf du Pape.

Sagu com creme e mogango com leite era coisa de se ver todos os dias na mesa da minha casa na infância.

Tudo hábito alimentar da infância: feijão mexido, aipim frito, até hoje me ligo em churrascaria de espeto corrido que oferece aipim frito.

Batata-doce, panqueca de guisado, guisadinho de carne com abóbora, abóbora ou pimentão recheados de guisado de carne, guisado de carne com batata, guisado de carne em molho sobre o macarrão, guisado de carne principalmente recheando pastéis quentinhos, eu me vejo seguidamente comendo arroz, feijão e pastel, nem quero saber se esta é uma mistura correta, para mim é um dos melhores pratos do mundo, por isso é que sempre me dou mal no estrangeiro: os cardápios, pela ausência das comidas com que me acostumei na infância, chegam a me inspirar um certo terror.

Por exemplo, está muito difícil para mim aceitar os lanches vendidos em Porto Alegre. Eu sei que há muitas casas especializadas em bauru, só que nenhuma consegue fazer (era tão simples, por que será?) aquele célebre, inesquecível, lendário bauru da Confeitaria Matheus, na Rua da Praia, diante da Praça da Alfândega. Nunca mais aquele pão e aquele queijo melado sobre o filé úmido e saboroso! Nunca mais!

Um dos meus fracos é a batida de abacate, mas por que nenhuma batida de abacate tem o sabor daquela que era servida no Matheus, no balcão da frente, onde também havia o mais inolvidável sanduíche de pernil de porco da história da humanidade?

Há prazeres na comida que ainda curto, mas há também prazeres enterrados, nunca mais revisitados, nas comidas que desapareceram: aqueles bolinhos de batata recheados (sempre o guisado de carne, é uma tara) que serviam na lancheria da frente do Restaurante Dona Maria, na José Montaury, há 40 anos, nunca mais ninguém soube fazer.

O segredo da felicidade consiste em que a comida de que a gente gosta deve estar sempre ao alcance do desejo.

(Crônica publicada em 27/12/1998)

Mais um ano, mais uma batalha

15 de junho de 2011 4

Um dia depois de encerrar a 31º sessão de radioterapia, completo mais um ano de vida. Neste 15 de junho, estou de aniversário, mas sou eu quem quer abraçar leitores, ouvintes e telespectadores.

Neste momento, tudo o que penso é que já passei pela pior fase da minha doença. Agora, tenho a convicção de que a vencerei.




Aliás, para enfatizar a minha esperança, nada melhor do que compartilhar o samba “Minha Filosofia”. Essa música foi interpretada para mim no último dia do meu tratamento, quando o doutor Cláudio Sá Brito e 20 funcionários me homenagearam no hospital.


43 dias cruciantes

15 de junho de 2011 0

Ontem, o ClicRBS Vídeos publicou uma entrevista minha concedida ao Moisés Mendes. Nela, conto como foi meu último dia de radioterapia. Confira.


Débitos e créditos

14 de junho de 2011 3

Eu queria passar para os meus leitores o que pode se considerar uma regra de comportamento – ou se quiserem um truque – para ser feliz.

Esse estratagema tem-me auxiliado profundamente nos últimos meses na luta da vida. É simples, mas é daqueles óbvios que se oferecem para a gente e nós não percebemos a oferta ou não a aproveitamos.

A felicidade é um estado de espírito. Ou você se considera feliz ou você não se considera feliz. Aliás, muitas vezes é mais importante considerarse feliz do que ser feliz. É preciso sempre colher-se o momento que passa, porque não há vida mais desperdiçada do que aquela definida no samba antológico de Ataulfo Alves, que contém um verso definitivo: “Eu era feliz e não sabia”. Isso é trágico.

É preciso saber-se que se é feliz.

É preciso encarar a vida como uma conta no banco. A conta tem créditos e débitos. A vida tem prazeres e tormentos. O segredo está em administrar a conta do banco, de tal sorte que há que se ter contentamento tanto quando saem os débitos quanto quando entram os créditos. O vital é manter-se a conta, tendo em vista que os débitos são necessários para conquistarem-se os créditos.

É fundamental conhecer-se que a vida tanto dá quanto cobra. É difícil, mas cumpre ter-se prazer e festejar quando sai o débito, não só quando entra o crédito. O que importa é que a conta mantenha-se aberta, isto é que a vida continue estuante. Até mesmo porque é imperioso que se racionalize, se se quiser ser feliz, que a vida não pode ser só constituída de benesses, mas inevitavelmente também de adversidades.

Eu não estou querendo que os meus leitores atinjam a perfeição existencial dos sábios, que sentem prazer no sofrimento. Como dizia o meu poeta sábio preferido, Augusto dos Anjos: “Bati nas pedras de um tormento rude/ e a minha mágoa de hoje é tão intensa/ que eu penso que a alegria é uma doença/ e a tristeza é a minha única saúde”. Seria exigir demais. Mas a minha verdade roça por aí.

É preciso que a tristeza, a preocupação, os problemas todos, até mesmo o drama, nos encontrem mobilizados para a vida e para a felicidade. Nós só seremos capacitados para a alegria, o contentamento interior e a felicidade se soubermos suportar com galhardia, ou até mesmo com prazer, todas as contrariedades. Isto consiste em compreender como naturais e absolutamente concernentes à vida todos os percalços que constituem o sofrimento.

Eu não estou dizendo novidades. Milhões de pessoas admiráveis ostentam no rosto e nos gestos uma luminosa alegria, embora seu íntimo se corroa de tristezas. Estas são as que entenderam a vida e que erguem o mundo. Eu estou só tentando encorajar a serem felizes e otimistas as pessoas que como eu se deixaram ou se deixam abater pelos obstáculos, fracassos ou até mesmo desgraças, sem perceberem que isso é também constante na vida e na conta do banco, absolutamente necessário para que se possa curtir agora ou vir a obter logo em seguida aquilo que mais se almeja: a felicidade.

Em suma, a vida, em todo o dia que se acorda de manhã, tem que nos apanhar mobilizados para a felicidade. E quando aparecer a infelicidade, a gente tem de gritar impávido para ela: “Não vem, que não tem”.

Tomara que me tenham entendido.


(Crônica publicada em 05/04/1998)

A hipocrisia

13 de junho de 2011 0

Uma das características mais freqüentes no comportamento humano é a hipocrisia. Muita gente é exatamente o que não deixa transparecer. É clássico que por trás de quase todo o moralista existe um cafajeste. E não raro o mais modesto homem de um grupo esconde dentro de si um refinado narcisista e megalomaníaco.

Essas pessoas são as mais sofridas. Porque residem nos seus peitos demônios que rugem e que elas mantêm aprisionados e amordaçados, escondidos sob o esmalte do fingimento. Passam a vida inteira sem se darem a conhecer, não deixam escapar uma só frase ou gesto que acusem a sua verdadeira personalidade e vão até o túmulo ocultando a sua legitimidade ideológica.

Na política, essa distorção de conduta é quase que invariável. Já se disse que o político é um ator, nada mais verdadeiro. Há políticos que desempenham durante toda a sua vida um papel completamente desligado de sua idéia e objetivo.

Os mais potencialmente sanguinários fascistas que conheci na política eram notáveis homens de esquerda. Dos seus lábios e do seu currículo só brotavam palavras e pensamentos que exaltavam a democracia, o respeito aos direitos individuais, o protesto veemente contra as práticas totalitárias da direita e da ditadura instalada. Se algum dia viessem a assumir o poder, as noites de seu país ficariam povoadas das prisões, da tortura, dos assassinatos, talvez até do genocídio.

Usavam a liberdade como mero e falso estandarte para suas intenções sinistras de vilipêndio e arrasamento do Estado de Direito. Eram intrinsecamente mais verdugos que seus pretensos ou reais carrascos. Condenavam e lutavam contra o que idealizavam se de súditos se tornassem soberanos. E em muitas ocasiões, na atividade política rotineira, deixavam transparecer, em ímpetos incontroláveis, amostras dessa sua tendência despótica e cruel.

Eram verdadeiramente de esquerda mas falsamente democratas os mais torpes e implacáveis políticos que conheci. Superavam ou se igualavam aos piores exemplares da direita, demonstrando que maldade e arbitrariedade não têm cor nem lado político. Hitler e Stalin podiam divergir visceralmente em torno a conteúdos ideológicos, mas em essência eram duas feras insaciáveis do sangue humano para a realização de suas doentias ambições.

Por trás de uma mulher recatada à luz do dia, pode estar uma incendiada messalina na escuridão da noite e na indevassável intimidade. O marido que nunca trai, esse pode ser o mais promíscuo dos machos nos labirintos de uma cidade. O mais honesto dos profissionais pode estar esperando o momento propício para dar o golpe do século. Um terno libera-se num instante para desvelar-se como um assassino. Um permanentemente leal explode de repente no mais repelente traidor.

Porque é do cerne biológico dos humanos fabricar uma aparência indigna e inversa da substância. Porque fingir e mentir são marcas indeléveis do homem e nunca vão desaparecer do seu caráter. Porque o homem é o único animal que pensa, tendo a faculdade de camuflar esse privilégio. Os outros animais não pensam, daí que todos seus gestos são sinceros.

É muito importante o que o homem faz, mas eu daria um doce para saber o que ele pensa. E entre o que faz e pensa quase sempre tropeça num abismo.

(Crônica publicada em 02/03/1997)

A sina do homem

10 de junho de 2011 3

É preciso largar o cigarro. É preciso largar o açúcar. É preciso largar ou moderar os carboidratos, essa montanha de massas, pães, biscoitos que ingiro, que ingerimos. Eu não bebo, mas quem bebe tem de largar a bebida etc.

E ficar com o quê?

A vida, primeiro, é uma aceitação dos prazeres ou até uma adaptação consumista às necessidades. Lá mais adiante, nos submetem à imperiosidade da renúncia.

No início, é preciso fisgar essa mulher, atraí-la, enchê-la de afeto, satisfazê-la na lascívia, é uma mão de obra descomunal a conquista.

Mais tarde, é preciso largar esta mulher (ou este homem). Ela não era quem eu pensava ou simplesmente me cansou. Mas como largar esta mulher agora que os laços econômicos, sociais, existenciais se estreitaram tanto?

Como largar o cigarro se ele já se incorporou ao meu metabolismo de tal sorte que não suporto a ideia de viver sem ele?

Como largar o arroz de leite, o quindim, os ovos-moles, o pudim de laranja que se esparramam todos diante dos meus olhos na carta de sobremesas?

Mas, então, no meio ou no fim da minha vida, terei de me privar de todos os prazeres a que estou acostumado?

Terei de criar outras delícias, aprender a comer peixe cru como os japoneses? Mas peixe cru não desliza mais pela garganta e pelas glândulas salivares da minha formação alimentar e hedônica. O que desliza redondo em mim, tornando meu dia prazeroso e minha vida feliz, é o sagu com creme de leite.

Então, a vida é um pega e larga constante. Pega o sal, larga o sal, mas só larga o sal depois que estiver bem acostumado com o sal. Com a mulher também. Com os doces, com as massas.

Depois que gostou do sexo, viciou-se no sexo, tem agora de usar a camisinha. O doce é maravilhoso, mas engorda ou eleva perigosamente a taxa glicêmica. Vê se passa para o alimento dietético, mas o alimento dietético e a camisinha são umas porcarias.

A vida é um incessante pegar e largar. Pega o namorado, larga o namorado. Pega o emprego, larga o emprego e mergulha no desespero do desemprego.

Pegar é bom, largar é um inferno. Casar é bom, tanto que todos se casam, mas descasar, que teria também de ser bom, vira um inferno.

Então tem-se de ser muito forte para viver. O homem é um animal muito forte, o mais forte de todos os animais. Porque ele está sempre tendo de iniciar alguma coisa e logo em seguida é obrigado a interromper o processo. E recomeçar tudo de novo.

Não há mente nem corpo que resistam. Se o homem fosse como o camelo ou a capivara, que sempre bebem e comem a mesma coisa, que fazem sexo sem divórcio e não cuidam da saúde nem têm sequer ideia nem medo da morte e do futuro, só então poderia ser feliz.


(Crônica publicada em 21/02/1999)


Previna-se para a surpresa

09 de junho de 2011 1

Temos que estar sempre prevenidos para a surpresa. Esta frase que acabo de fazer dá um tratado.

Todo o infortúnio humano está contido em não se saber conviver com o inesperado. E a surpresa é um fenômeno repetitivo na vida, talvez o maior significado dela, desde que toda a existência é sempre presidida pelo que vai acontecer, o futuro, o que será será, o transcurso e o embalo do destino.

O homem se despedaça quando se defronta com a surpresa. Tanto com a má surpresa quanto com a boa surpresa.

Um exemplo de como a má surpresa nos faz desmoronar é a morte de um ser querido nosso.

E um exemplo, entre milhares, de que o homem pode aniquilar-se diante da boa surpresa é o inferno que vira a vida de muitos que ganham os grandes prêmios da loteria.

Foi assim que ela uma vez me surgiu de surpresa, na esquina movimentada. E o fulgor dos seus olhos veio se encontrar com os meus olhos já há tanto tempo desanimados e sem desejo.

E ela puxou conversa e veio de mansinho e aos poucos floreando o galo da minha desilusão.

E foi se esgueirando entre os carvalhos de fastio plantados no chão árido do meu coração.

E veio degelando a friagem do meu desencanto com a lava incandescente do seu vulcão desejante da minha poesia e de auxílio obstinado ao meu desamparo.

E foi me alegrando e foi crivando todo o meu corpo e minha alma com as setas do seu entusiasmo.

E foi atrevida e imperante dias depois, quando me disse: “Agora tu já és meu, agora todas estas aventureiras que tentaram te tocar sem o cacife da afetividade que me sobra restarão frustradas. Agora tu és só meu. E todas elas, que vão capinar!”.

E foi armando seu acampamento ao redor do meu coração. E foi fixando residência ali mesmo com intenções de todo o sempre, tecendo o teto de santa-fé de sua cabana com os meus aurículos e ventrículos, tornando-se em apenas 20 dias dona de mim, submissa por mim, rainha e escrava, amada que jamais esquecerei.

Aquela foi a maior, a mais inteira e magnífica surpresa que eu soube manejar, um sol que entrou pela minha janela escura e úmida e resplandeceu por muito tempo, um tempo que, pela força da tatuagem que não saiu mais da minha pele e pelas lembranças que nunca mais deixaram de iluminar o meu espírito, posso hoje chamar de eternidade.

Que amor que eu vivi com ela! Que ensandecido amor celebramos pelos becos, pelos gramados, pelas praias, pelas ruas, pelos escritórios, porque onde eu ia ela ia junto, seguindo-me por todos os caminhos, já que era impossível estarmos um instante só de qualquer dia separados, que incrivelmente tínhamos saudade um do outro após segundos de afastamento.

Que amor! E da vida só se leva o amor! Mesmo que tenha sido passado, mesmo que se tenha esperança de que ele ressurja em outra no futuro.

(Crônica publicada em 28/04/2000)


Morar separados

07 de junho de 2011 2

Quando preguei aqui nesta coluna uma modificação idealística no casamento, dizendo que será mais apropriado que ele comece a se dirigir no início deste século para a transformação de marido e mulher morarem em casas separadas, nem de longe eu quis bombardear a instituição da família.

Só um louco poderia querer extinguir a família, que é ainda a mais eficiente fortaleza contra as adversidades morais e materiais do tecido social.

O que eu quis dizer é que o casamento assim como está instituído atenta contra a liberdade das pessoas, que é afinal o maior valor a ser perseguido pelo homem no seu dever de busca da felicidade.

Consta da liberdade, logicamente, o exercício espontâneo da vontade pessoal. As pessoas têm também o direito de morar juntas se assim o decidirem.

Mas acontece que o casamento contém amarras que impedem na maioria das vezes a felicidade. Uma delas é o senso aguçado de “propriedade” que se estabelece entre marido e mulher.

Desde que se casam, se transformam em “meu marido” e “minha mulher”. E se desde já assim se pertencem, nada mais há que conquistar dali para a frente.

E o mesmo acontece com os filhos. Já que é “meu filho” ou é “meu pai”, isto é definitivo e desobriga os que estão envolvidos nesta relação a aprimorarem na prática este conceito, tornando-se dignos da condição de filhos ou de pais pelo aprofundamento e aperfeiçoamento dos vínculos afetivos. Se já é “meu”, nada mais preciso fazer para vir a ganhá-lo.

O melhor seria que o casamento funcionasse como uma venda em prestações, que se tivesse de quitar em período longo. E não como uma compra à vista, cuja aquisição é definitiva, não tendo doravante de se prestar mais nada.

Quando na verdade é no decorrer da vida que o marido poderá vir a ser verdadeiramente um marido; a mulher, uma mulher; um filho, o filho. Ou seja, isto só acontecerá em realidade na aferição das condutas recíprocas. E não pelo decreto do registro civil oficializado.

No caso do casamento, a idéia de morar separados é brilhante. Porque não finda o namoro. Porque permanece o encanto da incerteza. Porque será constante o fascínio do encontro, sem a obrigatoriedade cansativa dele, que o domicílio conjunto impõe.

Um casal que mora separado se perfuma e se veste com apuro e jeito para encontrar-se, enquanto que o casal que mora junto vai deixando perigosamente de lado esses cuidados pessoais, deixando cair pouco a pouco a peteca da sedução e se precipitando no abismo do fastio e da rotina.

Mas o principal condão utilitário que o domicílio separado no casamento encerra é que, no caso do fim da paixão, do amor ou da amizade profunda, o trauma da separação será quase que irrelevante perto da explosão dramática e inapagável que as rupturas dos que moram juntos significa. As vidas separadas já tinham até ensaiado despropositadamente esse desenlace, que será suave e facilmente suportado.

Enquanto que a separação dos que moram juntos deixa marcas indeléveis de sofrimento.

O que acontece mais freqüentemente é que casais que notoriamente já estão separados, se moram juntos, continuam morando juntos, para evitar o estrondo da separação física e domiciliar, o que lhes acarreta um martírio contristador.

Enquanto os casais que morarem separados terão até diante de si a vantagem da possibilidade atraente e luminosa, depois de assegurados da solidez indestrutível daquela relação, de um dia passarem a morar juntos.

Entre os que morarem separados, a união logicamente será sempre mais duradoura. Com chances bem maiores de ser imorredoura.

(Crônica publicada em 05/03/2000)