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Posts do dia 6 julho 2011

Festa em Paris

06 de julho de 2011 0

Crônica publicada em 14/07/1998

Eu estava pronto a escrever uma coluna, hoje, para dizer que a impressão que tive sobre Paris, a melhor e mais fantástica que jamais tive sobre outra qualquer cidade, e olhem que já visitei Moscou, Nova York e Carmel, não foi a mesma que tive do povo parisiense, do povo francês.

O que ia me levar a escrever contra os franceses foi a forma geral com que fomos tratados nos restaurantes, nos metrôs, nas ruas, em toda a parte onde íamos e desejávamos ser bem recebidos ou obter informações que atenuassem a nossa ignorância sobre o idioma local, o que leva todo o viajante a suplício permanente.

E por todo o local que cruzávamos éramos muitas vezes tratados a patadas, a mau humor e a má vontade, uma rispidez ou uma indiferença assustadoras.

Isso aconteceu até aqui no hotel em que estamos hospedados, o Holliday Inn. É bem verdade que não era uma regra, que muita gente nos tratava civilizadamente, com gentileza, mas espantou-nos que tantos franceses nos tivessem maltratado.

É sabido que os franceses não gostam dos estrangeiros, esse fenômeno levou-os há pouco ao noticiário internacional, quando eles tentaram ou conseguiram discriminar os não-nacionais em seus direitos sociais, em face da ameaça de desemprego que rondou o país.

Mas desisto neste instante de criticar os franceses. Porque o espetáculo a que assisti durante toda a madrugada de ontem em Paris, nas horas que sucederam a vitória estupenda da França sobre o vexado Brasil, desmentiu totalmente aquela minha impressão negativa.

Desde o estádio, estendendo-se pelo metrô e pelas ruas, os franceses demonstraram um grau tal de delicadeza, de urbanidade, de gentileza e ternura para com os mais de 20 mil brasileiros que aqui estavam, que só posso admirá-los e elogiá-los por isso, pelo que honram esta cidade maravilhosa que é sua capital e a tradição gaulesa de raça destacada na história da humanidade.

Vaguei por mais de seis horas pelas ruas de Paris, até o sol nascer, logo depois da conquista da taça mundial por eles. E não vi entre as milhares de pessoas que estavam nas ruas e em todos os cantos, inclusive bares e restaurantes, qualquer agressão, ofensa ou até mesmo inamistosidade para com os brasileiros. As camisas azuis deles e as amarelas nossas se misturavam num conúbio de amizade e cordialidade jamais visto no Brasil quando se defrontam os grandes clubes de futebol nos clássicos das capitais.

Fomos alvos da flauta francesa, mas uma flauta civilizada, superior, sorridente e alegre, mas sem nenhum grau de ofensa. Pelo contrário, era uma flauta convidativa a que nos integrássemosà festa deles, ao alarido estrondoso deles com as buzinas e seus cantos marciais ou de música popular.

E por todo o lado os brasileiros eram inacreditavelmente homenageados, em vez de serem molestados ou agredidos. Foi uma festa colossal, assemelhando-se ao Carnaval brasileiro, com os seus mesmos condimentos de luzes, cores, cantos, muita alegria nos gestos e danças de frenética euforia.

Que bom que isso foi me acontecer. Porque me desenvenenou a mente. Porque me fez mais crente nos homens. E porque afirmou o princípio de que o esporte foi feito para unir as pessoas e os povos.

Obrigado, França, pelo tratamento. Um povo assim, principalmente a multidão de jovens que festejava o título, merece ser campeão do mundo pela primeira vez.