Crônica publicada em 06/03/2001
Esses dias o David Coimbra contou o caso do Chimba, querido ex-colega e diagramador aqui da ZH, que dormia em pleno trabalho, apoiado no grafite da sua lapiseira.
Esta doença tem um sintoma designativo de Sonolência Diurna Excessiva, um dos 84 distúrbios do sono, segundo o doutor Dênis Martinez, especialista no assunto.
Esse tema me interessa por dois motivos, eu sou uma das pessoas que dormem em qualquer lugar por onde vão, mas também porque, agora, pela segunda vez em um ano, Porto Alegre foi considerada a capital da insônia, ninguém nos bate no Brasil na dificuldade de dormir à noite.
Na verdade, a variante mais comum dessa doença é a pessoa acostumar-se a dormir em certos ambientes, cercada de determinadas circunstâncias. O Warley, centroavante do Grêmio, por exemplo, adora dormir na pequena área.
Daí tornar-se comum que haja uma multidão de pessoas que não conseguem dormir na cama, só dormem em lugares públicos. Não raro, depois de ficar deitado na cama durante horas, o insone levanta-se, banha-se, veste-se e sai para a rua: "Não agüento mais este cansaço, vou tirar uma soneca no shopping".
Há motoristas que incrivelmente só conseguem dormir no volante. E caminhoneiros que dormem na direção e colidem com suas jamantas na estrada e reclamam na delegacia: "Sempre acontece um acidente para atrapalhar".
Há o caso inacreditável de um amigo meu que cursou durante 10 semestres uma faculdade de Direito aqui em Porto Alegre. Ele ia na faculdade só para dormir durante as aulas.
Aluno de faculdade de Direito que só dorme nas aulas, obrigatoriamente sai de lá diplomado. Foi o que aconteceu com meu amigo.
Já formado e com o diploma na mão, as férias se tornaram um inferno para o meu amigo insone. Ele não teve dúvidas e se matriculou novamente na mesma faculdade em março, já está hoje no 16º semestre de sono profundo, é capaz de ganhar o segundo diploma.
O senador Pedro Simon, por exemplo, só dorme no plenário do Senado, seguidamente são publicadas na imprensa fotos do seu sono parlamentar. Simon é um dos senadores que pretendem acabar com o recesso, justamente porque ele nesse período entra em pânico: "Onde dormir agora?"
O Jamelão, cantor e puxador da Mangueira, com 86 anos, meu amigo, é o mais célebre dorminhoco de qualquer lugar e hora que se conhece. Uma vez, eu vi com meus olhos, ele adormeceu no Barranco com uma costela assada entre os dentes.
Certa vez, na antiga TV Tupi, no ar, Jamelão deu uma passada inteira no samba Vingança, de Lupicínio Rodrigues, e botou pausa para que a orquestra fizesse o interlúdio. E dormiu.
Quando a orquestra devolveu para ele voltar a cantar, Jamelão largou a segunda parte do samba Nunca, que era do mesmo autor mas o tom ficou completamente embaralhado.
Na sala de espera de médico ou dentista, quase sempre durmo. Basta que demore mais de oito minutos, que é o tempo que eu dou para engrenar.
O João Cerqueira, saudoso amigo que perdemos há 10 anos, só dormia em palestras ou conferências. Todos os dias ele ia buscar no jornal a programação de palestras e se tocava para todas elas.
Era o primeiro que chegava e ninguém entendia por que ele sentava na última fila e de óculos escuros.
Pena que então já tivesse morrido, porque no Fórum Social Mundial, recentemente acontecido aqui, ele teria forrado o poncho.
Interessante é que, nas palestras, o Cerqueira só se acordava quando alguém da platéia dava um aparte. Por isso ele odiava aquele instante em que o palestrante abria margem para as perguntas do auditório.
Fugia dali e saía pela cidade a procurar outro monólogo. Era o motivo por que detestava reunião do orçamento participativo e adorava sermão de igreja pentecostal.
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