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Posts de agosto 2011

A roupa e a nudez

31 de agosto de 2011 1

Texto publicado em 19/02/2006:

Quais terão sido os primeiros impulsos humanos? Depois que os bebês choraram, única prática humana sem aprendizado, foram ensinados a se alimentar, a engatinhar, a falar e a caminhar. Então a criança defrontou-se com seu corpo e sentiu pudor, também ensinado. Tratou aí de encobrir seu corpo, uma maneira de não entregar-se totalmente aos outros, a castidade é uma forma de poupança, ela será entregue como um tesouro para quem a merecer, devem ter pensado as virgens virtuosas.

Assim os homens (e as mulheres) decidiram desde cedo que encobririam seus corpos, alguns com vegetais, cordas, madeiras, os guerreiros com metais. Mas convencionou-se finalmente que a nudez seria coberta por roupas. E as roupas acabaram por valorizar a nudez.

Em alguns países muçulmanos, a nudez é ainda mais valorizada porque as mulheres são obrigadas a cobrirem-se da cabeça aos pés. Talvez, assim, lá a lascívia e a concupiscência mais incendeiem a imaginação masculina: é que o desejo é ainda mais ardente quando não se conhece o objeto desejado.

Já nós, ocidentais, fomos aos poucos expondo nossos corpos num processo milenar. As luvas deram lugar aos anéis, os sapatos às sandálias, as calças às bermudas, as saias às minissaias e aos shorts. E, no campo feminino principalmente, até os talhes foram brindados com os decotes, tudo em função da sedução. As roupas, que tinham o pretexto do agasalho, foram assumindo a função exponencial de atrair o sexo oposto, de mãos dadas com a vaidade.

No sentido contrário do chador árabe, as roupas ocidentais partiram para a atração explícita, em vez do segredo muçulmano de vestimentas que deixavam o corpo blindado a sete chaves, abriram-se para os olhares alheios. Os corpos inteiros encobertos pelo vestuário foram dando aos poucos lugar às roupas sumárias, só deixando indescobertas as partes pudendas, a atração primal, embora os seios já tenham desabrochado para um processo de total exposição.

No meio dessa evolução surgiram tanto as roupas transparentes quanto as justas no corpo, as que melhor e sedutoramente configuram as verdadeiras formas corporais. De tal sorte a moda se incorporou à civilização que certa vez uma mulher célebre declarou que quando se mostrava bem-vestida isso lhe dava uma tal tranquilidade interior que nem a religião podia lhe transmitir.

De tal sorte o vestuário se transformou de obstáculo em cúmplice da nudez que se consagraram no mundo inteiro as lojas de lingerie. Com a lingerie, a arte e a ciência encontraram um meio de a mulher tornar-se mais sedutora com aquela roupa leve e suave do que se estivesse nua. É o homem substituindo o criador, a técnica do design superando a natureza.



Dever de cordialidade

30 de agosto de 2011 0

Texto publicado em 16/04/2005:

Muitas pessoas encontram percalços em suas relações cotidianas por um simples defeito de comunicação: esquecem-se de que ao se dirigirem a outrem devem observar uma regra universal de educação e respeito, que manda usarem-se as expressões “por favor” no início da conversação e “muito obrigado” no fim.

Qualquer pessoa que seja abordada por outra terá muito melhores condições de desempenhar seu papel na relação que acaba de se instalar se for brindada com a expressão “por favor” no início da conversa, mesmo que o abordado tenha o dever funcional de atender a quem o aborda.

“Por favor” é uma expressão mágica para iniciar qualquer encontro: significa de plano que quem a pronunciou não está impondo nada, é uma técnica de humildade que facilita todas as relações, motivando a pessoa a quem se solicita algo a nos atender cordialmente.

Outra expressão muito usada que tem o condão de abrir caminhos para a solução que pretendemos é “o senhor (ou senhora) quer ter a bondade de me informar onde fica a rua…”.

Quando instamos uma pessoa a “ter a bondade”, estamos fazendo-a crer que é capaz de ser generosa e atender a nossa solicitação. Ou seja, quem é premiado com essa expressão sente-se orgulhoso de que um desconhecido supõe que o abordado é uma pessoa virtuosa a ponto de brindá-lo com a cortesia do atendimento.

E a expressão “muito obrigado”, além de ser um dever de educação de quem a pronuncia como agradecimento por ter sido atendido, ainda carrega o sentido daquela pessoa que nos prestou aquele serviço sentir-se satisfeita por ter sido reconhecida, além de aprestar-se a atender todas as outras pessoas que venham a abordá-la no futuro do mesmo modo atencioso, certa de que será sempre alvo de gratidão.

Além disso, a expressão “muito obrigado” ou “agradecido” transmite a quem a ouve uma sensação orgulhosa de utilidade.

Não temo estar sendo óbvio, piegas ou redundante ao pregar por esta coluna a civilidade de pronunciarmos a todo instante, no turbilhão da vida cotidiana, “muito obrigado” e “por favor”, principalmente se alguém que estiver lendo esta coluna já seja observador constante dessa regra de elegância.

É que tenho visto, não por rudeza de certas pessoas, mas por mecanicidade, que elas não pronunciam essas expressões, principalmente quando quem as atende tem obrigação de fazê-lo, tanto sejam funcionários públicos quanto trabalhadores de empresas privadas.

Muitas vezes nem percebem essa omissão.

E noto no ar um mal-estar por parte dos abordados, quando não uma má vontade no atendimento.

Quando é tão fácil habituar-se a usar essas expressões, de tanto empregá-las, elas acabam para sempre automáticas em nossos lábios, capazes de tornar muito mais milagrosamente aprazíveis e eficazes as nossas dezenas de contatos diários.

Centenas por mês, milhões pela existência.

Muitas pessoas
encontram
percalços em suas
relações cotidianas
por um simples defeito de
comunicação: esquecem-se de que
ao se dirigirem a outrem devem
observar uma regra universal de
educação e respeito, que manda
usarem-se as expressões “por
favor” no início da conversação e
“muito obrigado” no fim.
Qualquer pessoa que seja
abordada por outra terá muito
melhores condições de
desempenhar seu papel na relação
que acaba de se instalar se for
brindada com a expressão “por
favor” no início da conversa,
mesmo que o abordado tenha o
dever funcional de atender a
quem o aborda.
n  n  n
“Por favor” é uma expressão
mágica para iniciar qualquer
encontro: significa de plano que
quem a pronunciou não está
impondo nada, é uma técnica de
humildade que facilita todas as
relações, motivando a pessoa a
quem se solicita algo a nos
atender cordialmente.
Outra expressão muito usada
que tem o condão de abrir
caminhos para a solução que
pretendemos é “o senhor (ou
senhora) quer ter a bondade de
me informar onde fica a rua…”.
Quando instamos uma pessoa a
“ter a bondade”, estamos
fazendo-a crer que é capaz de ser
generosa e atender a nossa
solicitação. Ou seja, quem é
premiado com essa expressão
sente-se orgulhoso de que um
desconhecido supõe que o
abordado é uma pessoa virtuosa a
ponto de brindá-lo com a cortesia
do atendimento.
n  n  n
E a expressão “muito obrigado”,
além de ser um dever de educação
de quem a pronuncia como
agradecimento por ter sido
atendido, ainda carrega o sentido
daquela pessoa que nos prestou
aquele serviço sentir-se satisfeita
por ter sido reconhecida, além de
aprestar-se a atender todas as
outras pessoas que venham a
abordá-la no futuro do mesmo
modo atencioso, certa de que será
sempre alvo de gratidão.
Além disso, a expressão “muito
obrigado” ou “agradecido”
transmite a quem a ouve uma
sensação orgulhosa de utilidade.
n  n  n
Não temo estar sendo óbvio,
piegas ou redundante ao pregar
por esta coluna a civilidade de
pronunciarmos a todo instante, no
turbilhão da vida cotidiana,
“muito obrigado” e “por favor”,
principalmente se alguém que
estiver lendo esta coluna já seja
observador constante dessa regra
de elegância.
É que tenho visto, não por
rudeza de certas pessoas, mas por
mecanicidade, que elas não
pronunciam essas expressões,
principalmente quando quem as
atende tem obrigação de fazê-lo,
tanto sejam funcionários públicos
quanto trabalhadores de empresas
privadas.
Muitas vezes nem percebem
essa omissão.
E noto no ar um mal-estar por
parte dos abordados, quando não
uma má vontade no atendimento.
Quando é tão fácil habituar-se a
usar essas expressões, de tanto
empregá-las, elas acabam para
sempre automáticas em nossos
lábios, capazes de tornar muito
mais milagrosamente aprazíveis e
eficazes as nossas dezenas de
contatos diários.
Centenas por mês, milhões pela
existência.

Sant'Ana participa do Bate Bola

29 de agosto de 2011 0

Com a vitória do Grêmio no jogo de ontem, Paulo Sant’Ana foi o convidado especial do Bate Bola deste domingo. Gremista fanático, o colunista fez questão de participar do programa, depois de ver seu time vencer o Gre-Nal por 2 a 1. Confira!

Esforço gremista

29 de agosto de 2011 0

“Quem mais quis foi o Grêmio, quem mais precisava era o Grêmio, quem mais fez por merecer foi o Grêmio”. Referindo-se ao resultado do Gre-Nal de ontem, Paulo Sant’Ana abriu os debates do programa Sala de Redação desta segunda-feira. O colunista admitiu a importante vitória do time de Celso Roth, que se distancia três pontos da zona de rebaixamento.

Celso Roth, o herói do jogo

29 de agosto de 2011 2

No Jornal do Almoço desta segunda-feira, Paulo Sant’Ana comenta a vitória do Grêmio no Gre-Nal e destaca o eficiente trabalho do técnico Celso Roth para o clássico. “Celso Roth arranjou um método que amordaçou o Internacional em campo”, define o colunista. Confira o comentário!

Vitória merecida

29 de agosto de 2011 11

Radiante com o resultado do Gre-Nal, Paulo Sant’Ana destaca, no Gaúcha Hoje desta segunda-feira, a incontestável vitória do Grêmio no clássico. “Este Gre-Nal não sairá da minha lembrança”, confessa. 

A tristeza dos autores

29 de agosto de 2011 0

Texto publicado em 29/08/2007:

Fui criado apreciando a música popular brasileira e a poesia dos sonetistas líricos ou trágicos, com os versos revelando sempre uma tristeza e uma nostalgia mais próprias do tango. Os compositores e os poetas traziam sempre consigo um banzo dilacerante. O que não fosse triste era rejeitado. Alegria, mesmo, só nos quatro dias de Carnaval.

Eu não precisava ouvir rádio para aprender as canções tristes e patéticas de um dos maiores ídolos da música brasileira, o tenor abaritonado Vicente Celestino. Bastava que eu atravessasse toda a Avenida Aparício Borges, do Partenon até a Glória, e me dirigisse até a casa da tia Veni, na Rua Campos Elísios.

Ali eu ficava debaixo de uma parreira e me deitava a ouvir durante toda a  tarde um rapazinho dos seus 16 anos que se encarapitava nos altos de uma árvore e cantava de lá todo o repertório de Vicente Celestino: “Vinha por este mundo sem um teto/ dormia as noites num banco tosco de jardim/ sem ter a proteção de um afeto/ todas as portas estavam cerradas para mim./ Mas Deus, que tudo vê e que consola/ em seu sagrado templo me acolheu/ e ao dar-me a proteção daquela esmola/ o meu destino transformou/ meu sofrimento acabou/ e a minha vida renasceu”.

Mal sabia eu que na minha mente imatura de 11 anos de idade estava se formando um gosto delicioso pela sonoridade dos versos e das palavras, sem dúvida o germe para a minha inclinação para a poesia popular, romântica ou desolada, própria dos autores da época, sempre inundando seus versos de pessimismo e tragédia.

Tanto que todos os dias, ao meio-dia, quando os ponteiros do relógio se encontravam, Francisco Alves, o Rei da Voz, cantava sua característica musical na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, ouvido por todos os brasileiros nos rádios de válvulas: “Porém neste abandono interminável/ no espinho de tão negra solidão/ eu tenho um companheiro inseparável/ na voz do meu plangente violão”.

Era sempre a dor, a amargura, a solidão, a ingratidão da amada, o sofrimento. Esta foi a minha cultura e daí deriva o meu pessimismo, só agora compreendo essa doença. Fui eu que a classifiquei como doença perante os psiquiatras céticos, o pessimismo é, sim, uma doença do caráter.

Daí para idolatrar o mais pessimista de todos os poetas, o vate da dor e da melancolia, Augusto dos Anjos, foi um passo. E até hoje os seus versos desesperados ecoam na minha consciência: “Ser homem é escapar de ser aborto/ sair de um ventre inchado que se anoja/ comprar vestidos pretos numa loja/ e andar de luto pelo pai que é morto”.

Ou então: “O homem sobre quem caiu a praga/ da tristeza do mundo, o homem que é triste/ para todos os séculos existe/ e nunca mais o seu pesar se apaga”. E, mais adiante, os dois quartetos mais desventurados da expressão brasileira: “Bati nas pedras de um tormento rude/ e a minha mágoa de hoje é tão intensa/ que eu penso que a alegria é uma doença/ e a tristeza é a minha única saúde/ Melancolia, estende-me tua asa/ és a árvore em que devo reclinar-me/ e se algum dia o prazer vier procurar-me/ dize a este monstro que fugi de casa”.

Por isso é que, quando ontem um amigo me acendeu o cigarro e perguntou-me por que ando tão triste, respondi: “Eu não ando triste, eu nasci triste, eu fui educado para ser triste”.

A parte do leão

28 de agosto de 2011 0

Texto publicado em 12/01/2002:

A princípio ninguém acreditou, mas em seguida a verdade alarmante foi divulgada para todo o Brasil: em cada litro de gasolina, os Estados arrecadam R$ 0,50 de ICMS.

Não dá para crer: aqui no lado da Zero Hora a gasolina comum está sendo cobrada a R$ 1,59, um dos preços mais baratos do Estado. Pois só de ICMS o governo estadual fatura cerca de 34% de imposto sobre este valor de venda. Ou seja, mais de um terço do preço que o consumidor paga pela gasolina é destinado aos cofres estaduais.

Ou seja, os cofres estaduais ganham sobre a gasolina mais do que os Emirados Árabes. E ganham sem ter tido qualquer relação com o produto, sem tocá-lo, sem risco e gasto algum de distribuição e comercialização. Não é aqui no Rio Grande do Sul, é em todo o Brasil.

Se se for contar em qualquer parte do mundo que isso acontece no Brasil, as pessoas se escabelarão. Porque não pode num produto qualquer, exceção feita ao cigarro, que uma só esfera fiscal ganhe sobre sua venda a parte do leão, no caso um terço sobre o valor total, justamente aquele setor arrecadador que nada tem a ver de intrínseco com a produção e venda desse produto, nenhuma relação com o insumo.

A conclusão a que se chega é de que a fortuna que os governos estaduais estão arrecadando com a gasolina é algo colossal. De tirar qualquer governo da dificuldade, é um paraíso fiscal em que os funcionários públicos, por exemplo, têm de ter imediatamente 100% de aumento em seus vencimentos, em que não pode faltar remédio para os doentes e o tratamento de saúde gratuito tem de ser em nível de Primeiro Mundo.

Porque este é apenas um dos inúmeros itens de incidência do ICMS, o mais universal, mas nos telefones a fortuna que o povo vem pagando de ICMS é algo fantástico. Impressiona incrivelmente que esses dias o governo estadual gaúcho mandou à Assembleia um projeto em que queria aumentar ainda mais a alíquota sobre gasolina e telefonia.

Se a Assembleia tivesse aceito, seria um absurdo histórico. Pois atonitamente muitos deputados da oposição queriam votar a favor do projeto, sob o pretexto de estímulo fiscal para outros produtos.

Quase foi aprovado o projeto. Se o governo tivesse maioria na Assembleia, pela primeira proposta, hoje todos os gaúchos estariam pagando de ICMS na gasolina mais de um terço do valor total da venda, o que equivaleria, e já acontece atualmente, ao maior imposto de qualquer governo no planeta sobre qualquer produto. Exceção feita, sempre relevo, à fenomenalidade da incidência do imposto federal sobre os cigarros.

É tão espantoso o que os governos estaduais lucram na gasolina, dinheiro retirado diretamente da bolsa popular, agravando ainda mais o custo de vida, desde que se sabe que do preço dos combustíveis deriva repercussão direta
no preço de venda de todos os produtos e itens de consumo, que o presidente da República, desde anteontem, estava apelando aos governos estaduais para que diminuíssem imediatamente o valor da incidência do ICMS sobre a gasolina, eis que numa esperteza espetacular, o preço da refinaria baixou em 25% e as fazendas estaduais não diminuíram um centavo na sua gana de arrecadação.

Espera-se que o bom senso assalte os governadores e eles voltem atrás hoje dessa ânsia louca de arrecadar. Mas algo precisa ser dito no final: por isso é que esta coluna tem pregado que os proprietários de postos de gasolina necessitam ter consciência social: não adianta nada os governos estaduais reduzirem sua arrecadação de ICMS sobre a gasolina e nos postos o preço permanecer lá em cima.

Porque, entre ser explorado pelo governo estadual, cuja arrecadação reverte para a população, e ser
explorado por particulares que cobram preço extorsivo, melhor, muito melhor, a primeira hipótese. O que se espera é que governo estadual e postos de gasolina tenham consciência social e esta redução do preço ao consumidor se verifique imediatamente e beire os 20% dos 25% concedidos pelas refinarias. É o mínimo racionalmente aceitável.

A memória e a saudade

27 de agosto de 2011 1

Texto publicado em 14/11/2007:

A memória é que mantém o homem preso à sua vida. É impossível a uma pessoa não recordar. Baldados são os esforços das pessoas que se recolhem a mosteiros, assim como os anacoretas, lá em seus tugúrios e em suas celas, não poderão jamais se livrar de seus passados. O passado é uma canga e um estigma que acompanharão o homem por toda a sua vida. Sou tentado a crer que o grande diferencial entre os loucos e os lúcidos é que os primeiros se livraram da memória, a lembrança do passado lhes era insuportável.

Voltando aos frades e aos anacoretas, os que se separam de suas origens, rompendo quase todos os liames com a vida. Eles se recolhem aos mosteiros para livrar-se das situações em que são obrigados a defrontar-se com seu passado, quando são tolhidos a recordações que os torturam. No ambiente de clausura, fica menos difícil para eles ter de prestar contas dos seus atos ou de rememorar as suas desgraças. O passado é um cativeiro, de cujos grilhões é impossível ao homem libertar-se. Quem foge do passado está tentando fugir do seu destino. Se não fugir, será infeliz e só lhe resta ficar louco.

O homem bebe ou usa drogas para fugir do passado. Para esquecer de suas faltas. E para driblar o destino.
O homem saudável ou feliz é aquele para quem o passado traz boas recordações. Só esse tipo de pessoa está aparelhada para viver equilibradamente. Já as pessoas para quem as lembranças só servem como culpas, estas estão condenadas a serem infelizes, pelo menos incompletas. Culpa no caso não quer só dizer erro, quer dizer também fatalidade, desgraça, culpa de outrem recaída adversamente sobre si, ou então dúvida sobre se é culpado, algo assim como o raciocínio de que, se algo de mau lhe aconteceu, então é porque de alguma forma o merecia.

A saudade se situa numa faixa de terreno entre o deleite e o amargor na alma humana. A saudade é a presença de uma ausência entre deliciosa e amarga, contém os dois valores, ao mesmo tempo em que comemora (traz de volta à memória) a lembrança saborosa de alguém ou de algum fato, traz em seu seio a recordação de algo não auspicioso, de uma despedida, de uma ruptura. A saudade é ao mesmo tempo uma lembrança crivada de doçura mas repleta de trauma. Celebra-se na saudade a recordação indelével de fato, circunstância, pessoa que nos fizeram felizes, cuja lembrança no entanto nos amassa pela certeza de que aquilo jamais poderá voltar a
nos acontecer.

A saudade quase sempre nos lembra de que nunca mais poderemos nos sentir felizes como nos sentíamos quando vivíamos aquele tempo de ventura, ao lado de alguém ou no centro de uma situação favorável, incogitável para o presente, absolutamente improvável no futuro. A saudade nos orgulha do que fomos mas nos envergonha e sufoca por não podermos voltar a sê-lo.

Partilha

26 de agosto de 2011 0

Texto publicado em 29/10/2006:

Acontece o seguinte: já escrevi várias vezes um trecho monumental de autoria de Ernesto Cardenal, poeta nicaragüense, padre, ex-ministro da Cultura de seu país. Sempre que escrevo estas estrofes geniais da literatura latinoamericana, nos anos seguintes as pessoas me escrevem e pedem que eu repita. Ou porque esqueceram, ou porque perderam, querem rever novamente o trecho do poema. Pois hoje, com tradução de minha autoria e de Doroteo Fagundes, vou escrever novamente o trecho. Guardem-no, que ele é um dos diamantes mais preciosos da poesia moderna:

“Tu e eu, ao perdermos
um ao outro,
Ambos perdemos.
Eu, porque tu eras o que
eu mais amava,
Tu, porque eu era quem
te amava mais.
Mas, entre nós dois,
Tu perdes mais do que eu.
Porque eu poderei amar
a outras
Como amei a ti.
Mas a ti nunca ninguém
jamais amará
Como eu te amei”.

E como o dia é de poesia, surge de repente, sem que o Brasil se aperceba, uma letra de samba de extraordinário fulgor. Feita por dois despretensiosos negrinhos e favelados cariocas, de quem, imaginem, nem sei o nome, e lançou a dupla na praça, na voz do saudoso sambista Roberto Ribeiro, esta composição imortal, coisa de valor literário nunca jamais visto, um poema musical digno de um Chico Buarque.

É um tema batido, o do casal que se separa e começa a arrolar as coisas, os objetos que ficarão com um e outro, a célebre encrenca que vai parar nas varas de família dos tribunais. O nome do samba me parece que é Partilha. E é simplesmente inebriante:

“(Refrão) Já que não existe mais
Aquele amor tão profundo
O melhor que a gente faz
É dividir nosso mundo.

Você fica com a vitrola
E os quadros na parede,
Que eu fico com a viola,
O meu samba e a minha sede.
Você fica com a gaiola
E o passarinho verde,
Que em qualquer bico
de argola
Eu penduro a minha rede.

Você fica com as crianças
E com toda esta mobília,
Que eu levo as esperanças
Que não cabem na partilha.
Você leva as alianças,
Que eu farei na minha ilha,
Com a poeira das
lembranças,
O meu álbum de família.

E pra não dizer depois
Que vontade é que não falta,
Que este amor não deu
pra dois
E sai das luzes da ribalta,
No teu rosto, o pó-de-arroz,
No meu peito a cruz-demalta!

Um marido assim vascaíno e uma esposa tricolor não podiam nunca mesmo dar certo. Guardem estas duas letras e não venham depois me pedir para repeti-las novamente na coluna, como acontece há tantos anos.

Do jeito que falta pouco para mim, talvez não dê tempo para reproduzi-las.

Treinadores de sorte

25 de agosto de 2011 10

“O Internacional prepara de bandeja os campeonatos para os seus treinadores”, comenta Paulo Sant’Ana, referindo-se à contratação de Dorival Júnior, dias antes da final da Recopa. O colunista também menciona, no Sala de Redação desta quinta-feria, a chegada de Celso Roth e de Paulo Roberto Falcão ao Inter, momentos antes de o time conquistar a Libertadores e o Gauchão.

O que se esperar do Gre-Nal

25 de agosto de 2011 2

Depois de o Inter vencer o Independiente por 3 a 1, ontem, no Beira-Rio, Paulo Sant’Ana fala sobre as chances de cada time para o Gre-Nal do próximo domingo. “É muito difícil vencer um time que tem o Leandro Damião”, palpita o colunista, no Jornal do Almoço desta quinta-feira. Confira!

Inter é favorito

25 de agosto de 2011 9

O favoritismo colorado no Gre-Nal do próximo domingo foi o assunto comentado por Paulo Sant’Ana no Gaúcha Hoje desta quinta-feira. Para o colunista, a presença de Damião no time garante ao Inter a condição de favorito.

Está tudo trocado

25 de agosto de 2011 2

Texto publicado em 19/03/2006:

Uma vez, há muito tempo, eu tive uma ideia: a criação errou ao fazer o homem nascer como bebê, deveria tê-lo feito nascer como um velho, com 80 anos.

E o tempo iria decorrendo e a idade diminuindo. O velho se tornaria o que hoje se chama maduro, ia ficando jovem, se transformaria em seguida num adolescente, finalmente viraria uma criança e morreria como um bebê. Lembro-me de que alguns amigos meus que já morreram eram entusiasmados por esta minha ideia.

Uma das vantagens desta fórmula é que o terror que se derrama sobre os homens na certeza de que vão morrer acabaria. Haveria até uma ânsia por morrer, em face de que se desejaria a juventude e a infância, as últimas estações antes da chegada da morte.

E de que valem as experiências da infância, da juventude e da maturidade para um homem que ingressou já na doença da velhice? Ao contrário, a sabedoria congênita da velhice haveria de ser de alta valia para o homem na sua juventude e infância.

Já pensaram como seria suportada com felicidade a desvantagem da velhice se ela fosse acompanhada pela esperança de que em seguida seria sucedida pela juventude? Seria invertida totalmente a ordem das coisas, não haveria no horizonte da vida o castigo da velhice, somente o prêmio e as recompensas da juventude e da infância.

Não é justo o que a criação fez com o homem, concedeu-lhe a saúde e a alegria da juventude, advertindo-o no entanto de que ali adiante ele ingressará nas trevas da velhice, deixando claro que a felicidade em seguida cessará.

Se fosse ao contrário, a velhice se constituiria numa bem-aventurança, na espera calma da juventude, na serenidade de que ao fim da vida seria abençoado pela inocência da infância. E acabaria morrendo sem a consciência sofrida de que teria de morrer, envolvido pela beatitude e alienação dos bebês.

A vida começaria, aí então sim, aos 40 anos. Rico ou aposentado, o homem teria muito mais armas para atirar-se ao desfrute da juventude, sem a preocupação, nesse período belo e apetecido da existência, com o estudo e o trabalho, penosas obrigações dos jovens, que deveriam nessa época da vida estar entregues somente a seus prazeres ou a criação e acompanhamento de seus filhos.

Desditosa vida esta em que a juventude é gasta apenas com a preocupação sobre o futuro. Não haveria a preocupação com o futuro. Pelo contrário, haveria a certeza de que o futuro seria uma benesse, um amplo cenário de felicidade, alicerçado na aptidão da juventude para entregar-se aos exclusivos deleites do corpo e do espírito.

E não haveria o horror pela inevitável perda da juventude. Pelo contrário, quem não estaria animado a trocá-la logo em seguida pela bonança espiritual do deslumbramento da infância? Eu estou convencido de que nesta ordem das coisas a que está submetido o homem residem todas as suas aflições.

O homem tinha que terminar sua vida forte, belo e agitado e teria de ter a certeza, durante todo o transcurso da sua vida, o que o privaria de todas as angústias existenciais, de que esse seria o seu feliz, realizado e glorioso desfecho.

A ideia defendida por Paulo Sant’Ana é o enredo do filme O curioso caso de Benjamin Button (2008), estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett.

Catálogo de chatos

24 de agosto de 2011 0

Texto publicado em 10/01/2006:

Vou publicar hoje vários tipos de chatos que cataloguei no cotidiano da cidade:

CHATO QUEBRA-AGENDA –
É aquele chato que tão pronto topa com você vem logo pedindo: “O senhor me concederia 30 minutos do seu tempo?”

CHATO SEMÂNTICO –
É o chato que está conversando todo o tempo com você sem prestar atenção no mérito do que você diz. Ele só presta atenção no português que você usa. E, quando você incorre num erro, ele interrompe sua fala para salientá-lo e corrigi-lo. Dá vontade de dar um murro nesse tipo de chato. Quero informar num acesso de humildade que por vezes incorro nesse tipo de chatice.

CHATO DO ADIANTO – É aquele jornalista que escreve uma ótima matéria para seu jornal, antes de baixála para a edição fica mostrando o seu golaço a todos os colegas da Redação que encontra. Todos são obrigados a ler, isso que vão ter de ler novamente quando o texto for editado. Quero confessar que cometo esse tipo de chatice todos os dias.

CHATO ETÁRIO – É aquele chato que, na conversa, fica espreitando tudo que você fala para achar a oportunidade de manifestar a sua ancestral chatice, basta que você lhe conceda a deixa na conversa e ele ataca: “Qual é a sua idade?” E logo compara a sua idade com a dele, as vantagens e desvantagens. Muitas vezes incido nesse execrável erro.

CHATO AUTORAL – É o ótimo cantor a quem você vai ouvir no teatro ou na casa noturna, pagando até ingresso muitas vezes para vê-lo, mas chega lá e é obrigado a ouvir várias músicas que ele compôs. Ora, a gente vai lá para ouvir um excelente cantor, não ouve, acaba ouvindo um péssimo compositor. Em Porto Alegre é freqüentíssimo na noite esse tipo de chato abominável. O oposto a esse chato é o grande compositor que é péssimo cantor, mas insiste em interpretar todas as suas músicas. Esse tipo de chato é relevado pela curiosidade que se tem sempre de ouvir a criação na própria voz.

CHATO COSMOPOLITA – É aquele para quem, numa roda de conversa ou numa qualquer reunião, basta que surja a oportunidade no assunto para que intervenha: “Em Paris, uma vez deu-se isso comigo…” Logo a seguir: “Toda vez que vou a Nova York nunca deixo de ir jantar no Alfredo”. E mais adiante: “Em Túnis, uma vez, aluguei uma Mercedes e me dirigi para Cartago, distante uma hora e meia de carro”. Esse tipo de chato se caracteriza por gastar uma fortuna em viagens só para depois infernizar os outros com seus relatos.

CHATO DO INSUPERÁVEL – É o sujeito que, numa Redação do jornal, numa roda de médicos ou engenheiros ou de advogados, submete o seguinte ao chefão: “Estou de posse de um trabalho magistral, você quer aproveitá-lo?” E o chefão pergunta: “De quem é o trabalho”? E o chato responde: “Meu”.

Vi a cena com meus próprios olhos, ontem, quando parei o carro para fotografá-la por minha retina. Um casal de jovens, bonitos, só castigados pela falta de higiene dos seus corpos e pelas vestes sujas e modestas, beijava-se na murada da ponte da Avenida Erico Verissimo com Ipiranga. Eram tórridos beijos, indiferentes às centenas de pessoas que passavam pelo cruzamento. Só depois percebi que moravam debaixo da ponte, quando se encaminharam cheios de desejo para sua alcova no centro das catacumbas de trevas cavadas intrepidamente pelos sem-teto.