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Posts de outubro 2011

Vingança civilizada

31 de outubro de 2011 49

A vitória de virada do Grêmio sobre o Flamengo, diante de um Olímpico lotado, foi o destaque de Paulo Sant’Ana no Jornal do Almoço desta segunda.

“Foi tão grande o dano que o Assis e o Ronaldinho causaram a nós, gremistas, que ontem foi até pouco o que eles pagaram”, defendeu o colunista.

Confira o comentário!

Viva a alegria

30 de outubro de 2011 3

O tédio tem de ser um aborrecimento passageiro. Se a pessoa está permanentemente dominada pelo tédio, isto deixa de ser tédio para ser melancolia grave ou até depressão. O tédio e a rotina são inimigos perversos do homem. Há o tédio da rotina e a rotina do tédio. Só a segunda é uma doença. É preciso ter muita inventividade para driblar tanto o tédio quanto a rotina.

O tedioso é um ser inviável. Ele tanto pode ter tédio por estar desempregado quanto por estar empregado e não satisfeito com seu emprego. Casado ou solteiro, o tedioso terá argumentos contra sua condição. Ele está sempre querendo estar onde não está. Tanto pode odiar a pobreza porque ela o aflige por não poder fazer o que pretendia quanto odeia também a riqueza porque ela lhe impõe o tédio de impedi-lo de ter ambições.

O tédio é filho legítimo do pessimismo. O pessimismo é um dos mais terríveis defeitos ou doenças mentais. Para o pessimista, não há salvação. Quando ele está bem, acha que não vai durar a sua situação. Quando está mal, acha que vai durar infindavelmente a sua situação.

O pessimista confia na infelicidade e desconfia da felicidade. Ele se julga imerecedor da felicidade. Quando o pessimista está feliz, ele pensa que algo de errado está acontecendo. Se a alegria bater na porta do pessimista, ele manda dizer que não está. Se no entanto o sofrimento bater à porta do pessimista, ele se apresenta a ele, manda que entre, sente-se e sinta-se como se estivesse em sua casa.

Se o tédio é filho legítimo do pessimismo, o mau humor é filho legítimo do tédio. Não pode haver pessoa menos capacitada para as relações humanas do que o mal-humorado. Toda a alegria dos circunstantes ao mal-humorado tromba com o mau humor dele. O mal-humorado é mais nocivo no meio social do que o chato. Ainda se convive com um chato, mas não há como tolerar um mal-humorado, até mesmo porque ele se mostra sempre intolerante com os outros.

Quase todos os tipos de agressões verbais ou gestuais nascem do mau humor. Não há nada mais agradável nas relações humanas do que topar com um bem-humorado. Mesmo que ele esteja amargurado, sua conduta sempre se caracteriza pela alegria. É um método inteligente que ele usa para espantar a tristeza. E consegue. O bom humor é o mais valioso dos atributos humanos.

E antes de ser um atributo, o bom humor é um dever: ninguém que seja gregário tem o direito de ser mal-humorado. Por isso, o mal-humorado deve possuir a autocrítica de se tornar sozinho, com a finalidade de não empestar as pessoas que o cercam. A consequência natural do mau humor é a agressividade. A gentileza, o afeto, o amor, todos esses gestos ou sentimentos são incompatíveis com o mau humor.

Os tediosos e os mal-humorados têm de realizar o esforço supremo de alimentarem-se de luz e nutrirem-se de alegria. Isso inicialmente pode ser apenas um drible na sua alegria ou um fingimento. Mas não há outra forma de escapar ao mau humor ou ao tédio do que começar por fingir. E o bom humor, mesmo que fingido, pode depois incorporar-se definitivamente à personalidade, afastando verdadeiramente o tédio.

Alegria, alegria! Alegria é um dever social.

* Texto publicado em 06/07/2008.

A burrice crônica

29 de outubro de 2011 6

A natureza fez homens burros e homens inteligentes. Não quero me jactar, mas não sou burro. Posso não ser bonito, não ser forte, não ser musculoso, não ser rico, não ser jovem, mas tenho certeza de que não sou burro. Burrice é a dificuldade em raciocinar. Eu fico espantado com a burrice de certas pessoas. É fácil chegar-se a determinada conclusão, mas essas pessoas não atinam para o que é certo ou verdadeiro.

Mas há certos tipos enganosos de burrice. Há determinadas pessoas que são eloquentes, são cultas, mas são burras. A eloquência e a cultura delas servem de verniz para sua pseudointeligência. A burrice, por vezes, é tão ostensiva, que se torna irritante. Não se entende como é que evidentes verdades não entrem nas cabeças de algumas pessoas.

Existem no meu meio ou nas minhas circunstâncias algumas pessoas que são conhecidas como burras, sua burrice crônica tornou-se célebre nas conversas que temos sobre esse aspecto. São burrices de doer. E são burrices ilustres, diárias, permanentes, algumas até são burrices vencedoras, conseguiram destaque no meio social através da burrice.

Para muita gente inteligente, a burrice crônica é uma chatice. Embora, para mim e para alguns escolhidos amigos meus, a burrice às vezes seja uma atração: nós nos combinamos e fazemos uma pergunta para um burro, sabemos que a resposta que ele vai dar será completamente descolada da realidade e nos divertimos muito com aquela tacanhice esférica.

Vou dar um exemplo de burro bem-sucedido: é o burro que tem memória privilegiada. A memória é a maior auxiliar da inteligência. Minha memória é péssima. Se eu tivesse boa memória, seria um gênio. Então, temos que um indivíduo burro que tem excelente memória pode obter sucesso em muitas áreas culturais, sociais, profissionais. Quem tem boa memória pode muito bem enganar os outros, que pensam que estão tratando com um cara inteligente.

O exercício da boa memória se diferencia do exercício da inteligência. A memória é uma gravação na mente. Já a inteligência é um repente, um relâmpago. A memória retém, a inteligência dispara. Uma pessoa inteligente que não tem boa memória sofre muito para vencer na vida. Ao contrário dos burros com boa memória, que às vezes se tornam até notáveis.

Não adianta virem querer me dizer que tenho boa memória porque sei 3 mil letras de música e 800 sonetos e poemas, tudo de cor. Tenho sérios problemas de memória. Por exemplo, sempre me esqueço, invariavelmente me esqueço, do termo atávico. Sempre que raciocino em torno de caracteres que são recebidos de ascendentes remotos, procuro em vão a palavra que isso signifique e nunca topo em minha memória com atavismo.

Agora mesmo, para escrever essa palavra, tive de recorrer à memória e à inteligência do meu colega Olyr Zavaschi. É impressionante como muitas vezes me escapam palavras no breu do vazio memorial. E tenho também péssima memória topográfica. Se vou até um endereço da cidade hoje, amanhã não sei mais como chegar lá. E outros tipos de memória me são deficientes. Ah, se eu tivesse memória, seria um Albert Einstein ou um Leonardo da Vinci. Tenho certeza de que Einstein e Da Vinci, além de inteligentes, tinham memória afiada.

* Texto publicado em 24/11/2010.

Saúde abandonada

27 de outubro de 2011 5

“Um dia, ainda se fará um levantamento macabro das centenas de milhares de mortes que ocorrem silenciosamente na fila da consulta do SUS.”

A precariedade no atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado foi o tema abordado por Paulo Sant’Ana no Jornal do Almoço desta quinta-feira.

Assista ao comentário.

Um grande amor

27 de outubro de 2011 2

A suprema declaração de amor de um homem para uma mulher, não a fez o homem para a mulher amada, mas fê-lo para sua rival. É que ela consta do último verso de uma antiga música cantada pelo imortal Vicente Celestino. Preparem seu coração, que nunca vi algo mais patético. Foi a seguinte a declaração: “Eu ontem rasguei teu retrato, ajoelhado aos pés de outra mulher”.

Rasgar o retrato de uma mulher ajoelhado aos pés de sua rival é o ápice da dramaticidade que envolve um trio amoroso. Hamilton Chaves, grande amigo de Lupicínio, contava sempre um episódio que presenciara: o velho Lupi ajoelhado diante de sua amada e ela com o revólver engatilhado dentro da boca do grande poeta popular. Lupicínio corria o risco de ser assassinado naquele instante pela mulher que ele amava, o revólver estava engatilhado, podia ser disparado por ato volitivo da mulher irada, podia também disparar o revólver por descuido, por inadvertência. Estava engatilhado dentro da boca de Lupicínio o revólver. E a mulher com o dedo no gatilho. E Hamilton via tudo sem poder intervir. Se interviesse, o revólver poderia disparar.

Mas o que mais impressionava na narrativa de Hamilton era a reação de Lupicínio Rodrigues diante daquele perigo que corria. Não sei se já escrevi, mas Lupicínio estava ajoelhado. A música popular brasileira corria o risco de ter sido enriquecida somente pela metade da obra de Lupicínio se aquele revólver disparasse. E como se portava Lupicínio naquele instante histórico? Ao contrário do que se possa imaginar, o poeta não sentia medo: ele estava tomado por um êxtase de felicidade.

Ele se sentia como que encantado pelo amor daquela mulher por ele, que era capaz até de puxar o revólver e engatilhá-lo dentro de sua boca por amor a ele. Por ciúme dele com outra mulher. O mais importante sentimento humano é o ciúme, exatamente porque ele consiste na mais vibrante e obcecada declaração de amor. Não há amor sem ciúme, amor  sem ciúme é mocotó sem vinho, é Gre-Nal sem gol, é vício sem proibição, não tem nenhuma graça, enfim, não é amor.

E amor para o Lupicínio era aquele que estava vivendo naquele momento: brigado, suado, desentendido, loucamente enciumado, enlouquecido pela paixão ferida e pelo amor-próprio dilacerado, amor tempestuoso, amor da incerteza pela existência de outro ou de outra. Aquilo é que era amor, com o revólver engatilhado dentro da boca, concordo finalmente contigo, meu querido e saudoso amigo Lupicínio.

Amor de joelhos com a ponta do cano do 38 encostando nas amígdalas, tenho inveja de ti, Lupicínio, nunca uma mulher puxou do revólver ou da faca por ciúme de mim, no máximo choravam ou faziam pequenos escândalos. Mas com revólver na boca nunca fui brindado, considero acremente, diante da tua incomparável cena de amor, Lupicínio, que meus amores foram flanelinhas perto dos teus.

Outra coisa, a cena de ciúme de que Lupicínio foi beneficiário – e não vítima – tem um dado de sublimidade: ele estava ajoelhado quando sua amada enfiou-lhe o revólver na boca. Um homem só é digno de seu amor quando, em qualquer circunstância, ele se ajoelha diante de uma mulher. Repito e acrescento: um homem só terá vivido um grande amor quando tiver um dia se ajoelhado diante de uma mulher ou então tiver chorado diante de uma mulher. Não há nada que mais engrandeça uma mulher do que um homem chorar por ela. Só as lágrimas masculinas podem cimentar um grande amor.

* Texto publicado em 16/01/2007.

A vergonha da inveja

26 de outubro de 2011 5

Tudo que se liga à megalomania me interessa profundamente no estudo das perfeições e dos defeitos da mente humana. E, como a megalomania é o centro da conduta humana e a causa principal da maioria dos distúrbios, é dela diretamente que deriva um dos mais sérios defeitos de fabricação do homem: a inveja.

É surrada a verdade absoluta de que a inveja é irmã gêmea da admiração. Eu só posso invejar a quem admiro. Inveja-se porque se constata que a pessoa invejada nos superou. Pelo mesmo raciocínio, como quando alguém nos supera, por dom ou desempenho, é fundamental que destruamos o objeto invejado. Ou pelo menos que desejemos que o invejado seja destruído pelas circunstâncias da vida, se formos impotentes para eliminá-lo.

Como à megalomania do invejoso é insuportável que continue existindo a superioridade do invejado sobre ele, urge que aquele obstáculo seja afastado, sob pena do desespero de quem nutre a inveja. Para o invejoso, a competição já se decidiu em favor do invejado, é preciso que este último seja afastado da liça pelo primeiro ou pelo acaso. Como muitas vezes é cansativo e dramático esperar pelo acaso, o invejoso se atira à destruição do invejado.

Sob certo aspecto já concordamos anteriormente que o supremo ideal do invejoso era ser o invejado: quando vamos assistir à glória de um cantor no palco, na verdade o que mais ansiamos secretamente é que aqueles densos aplausos fossem dirigidos a nós. No nosso cálculo, só nos realizaríamos se nós estivéssemos ali naquela ribalta a receber aquele tributo consagrador do público.

Claro que se o cantor não fizer parte das nossas circunstâncias, não compete conosco, até mesmo porque não sabemos cantar, este é um tipo daquilo que chamamos de inveja boa, que se transforma naturalmente em idolatria. No entanto, se alguém se exibe com sucesso no nosso meio, no nosso trabalho, nas nossas relações ou em torno do nosso interesse, conseguindo por exemplo com a mulher que nós desejamos um sucesso que ansiaríamos conquistar e não conquistamos, nasce dessa supremacia do rival sobre nós, ao natural, a nossa inveja desse alguém.

A primeira e intrínseca reação do invejoso contra o invejado é a agressividade. É preciso destruir o rival que nos superou, só com sua eliminação a nossa autoestima será recuperada. São tão complicadas as tramas que constituem a inveja, que uma das suas manifestações mais infames e inexplicáveis é aquela inveja que o invejoso sente pelo êxito de um seu amigo. Como pode nascer inveja pelo sucesso de um amigo que se ama? Pois incrivelmente a inveja é uma planta tão daninha, que nasce e cresce até mesmo no terreno da amizade e do amor. Aliás, é também surrada a verdade filosófica de que não existe diferença entre o ódio e o amor, uma das mais inextricáveis contradições da sempre paradoxal conduta humana.

Mas quando a inveja se transforma em ódio, sai da frente, que aí vem grande confronto e catástrofe. E se por alguma forma explícita ou subjetiva o invejoso pretende destruir o invejado, outra não é sua ação do que o suicídio: é evidente que, se o invejoso gostaria de ser o invejado, se intenta matá-lo, está incorrendo na autodestruição. Por isso é que se afirma com razão que a inveja acaba corroendo e consumindo o próprio invejoso. Quando menos seja, por vergonha.

* Texto publicado em 28/11/2004.

Duas colisões da dupla Gre-Nal

24 de outubro de 2011 4

Depois de largarem na frente, Grêmio e Inter tiveram que se contentar com um empate na partida deste final de semana, pela 31ª rodada do Brasileirão.

Enquanto o time de Celso Roth empatou em 2 a 2 com o América-MG, em Sete Lagos, a equipe colorada, que jogou em casa, ficou no 1 a 1 com o Corinthians.

“A gente pode simbolizar a rodada de ontem como a síntese da trajetória da dupla Gre-Nal neste campeonato. É uma síntese para os seus objetivos, para as duas metas frustrantes”, comentou Paulo Sant’Ana, no Sala de Redação desta segunda-feira.

Ouça o programa!

O registro na memória

23 de outubro de 2011 4

Texto publicado em 03/10/2007.

Eu me queixo de falta de memória, mas suponho que não seja esse o meu problema. Aliás, é um problema de muita gente. Quando eu era criança, os adultos tomavam dois remédios para falta de memória, eram muito badalados na propaganda de rádio: Iofoscal e Neuro Fosfato Eskai.

Se eu vejo um filme, no dia seguinte não sei mais contá-lo. O mesmo com um livro, se gosto do livro, sinto-me obrigado a lê-lo tantas vezes quantas quero recordar seus ensinamentos: não consigo fixar na memória as passagens mais interessantes do texto. Então me queixo de falta de memória.

Mas como é que para versos a minha memória é eficientíssima? No que se refere a poemas, sonetos e letras de músicas, se gosto de qualquer poesia, decoro-a imediatamente com facilidade extraordinária. E se gosto muito da poesia ou da letra da música, nunca mais a esqueço.

Eu sei por exemplo de cor mais de 200 marchinhas de Carnaval antigo. Graveias na cabeça quando era menino ou adolescente e nunca mais me saíram da memória. Vez por outra, não sei por que, 50 anos depois, relembro a letra da marchinha, pode me faltar um ou outro verso, cantarolo-a diversas vezes e logo sou sacudido pela letra inteira.

Que falta de memória é esta, se sou detentor de mais de 2 mil letras de músicas, inteiras ou parciais, de mais de 200 marchinhas de Carnaval, de mais de cem sonetos? Eu devo estar sendo vítima de um equívoco: não é falta de memória o que tenho, é déficit de atenção. Como me esqueço dos meus óculos e do meu celular cerca de 10 vezes por dia, não quer dizer que não me lembre de onde os deixei. Acho que quer dizer que não registrei na memória, por distração, o lugar em que deixei meus óculos e meu celular.

Naquela vez, por exemplo, em que fiz as compras no Shopping Praia de Belas, desci para apanhar meu carro na garagem, não o encontrei. Pedi auxílio da segurança do Shopping Praia de Belas. Nada da achar meu carro, levei mais de uma hora nesse impasse. Pedi auxílio da polícia pública. Mais uma hora, nada de achar meu carro. Até que fiquei corado de vergonha: lembrei-me de que tinha deixado meu carro no outro shopping, no Iguatemi.

O que me ocorreu não foi falta de memória, foi déficit de atenção. Não me lembrei no Iguatemi de que tinha deixado meu carro lá porque não registrei nos meus porões neuronais o momento em que deixei o carro lá. Como não havia registro na minha memória desse fato, não tinha como resgatá-lo. Déficit de atenção.

Não há como pinçar na memória – é o que calculo – algo que a gente não deposita nela por falta de interesse ou de atenção. Só agora percebo que a memória funciona exatamente igual a esse computador em que escrevo neste momento: se eu não “salvar” o texto, ele desaparecerá.

Se eu não registrar na memória a trama do filme que vi, o lugar em que deixei os óculos e o celular, se esses acontecimentos me apanharem distraído e eu não os enviar para os escaninhos cerebrais, nunca mais vou dar com eles. Aí eu digo erradamente que não tenho memória.

Quando na verdade eu não acionei minha memória, atitude que compreende dois tempos: um é o da busca, mas sem resultado nenhum se não tiver o outro, o do registro. Não tenho, portanto, falta de memória. Eu sou é distraído. E felizmente sou distraído. Porque não existe maior tormento e desperdício do que registrar tudo na memória.

Os molhos e as caldas

22 de outubro de 2011 10

Texto publicado em 19/06/2005.

Será que essa preferência que tenho por molhos pertence também a todas as pessoas?

Comida para mim tem de ser molhada. O Pedro Ernesto me convidou na semana passada para comer um carreteiro em sua casa, fui taxativo: “Só vou se o carreteiro for molhado”.

Quando cheguei à casa do Pedro Ernesto, perguntei logo ao cozinheiro se o carreteiro seria servido molhado. Resposta rápida: “Se não é molhado, não é carreteiro”.

Não me dou bem com alimentos secos. Gosto de pão, mas nem que seja azeite, algum molho eu ponho em cima para comê-lo.

A melhor fruta para mim terá de ser a que tiver mais suco. Por isso é que tenho paixão por melancia.

O feijão que escolho para meu prato terá sempre mais caldo do que grãos, o mesmo com a lentilha.

Tanto que o Antônio do Gambrinus sabe que o meu prato de mocotó conterá muito mais caldo do que dobradinha, todas aquelas carnes e o feijão.

É por isso também que frequentemente uso colher para comer pratos que as pessoas normalmente comem com garfo.

Raramente como peixe, exatamente porque nunca mais topei em todos os lugares que vou com os divinos peixes ensopados que minha madrasta preparava na infância para mim.

Um bagre ensopado é um verdadeiro favor dos deuses, mas insistem todos os restaurantes em servir somente peixes secos: desvio de fininho para qualquer outro prato do cardápio, de preferência uma canja qualquer, que como envergonhado.

O máximo que encontro em alguns restaurantes são moquecas ou escabeches, então não me importam quais são os peixes que as constituem, o que me interessa é que esteja bem temperado o molho em que elas estão banhadas.

Assim também procedo com os doces. Seja figo ou seja pêssego, ponho de lado as frutas quando mergulho nas compotas. O que me interessa é a calda do figo, a calda do pêssego, a calda do abacaxi.

Nas caldas dos doces está tudo que preciso para saciar minha fome glicêmica: o suco das frutas e o açúcar.

Para que vou ficar desperdiçando minhas energias com as frutas dos doces, se o que me interessa e onde concentro toda a minha atenção é na calda?

Quantas toneladas de calda de doce de abóbora e de goiaba já bebi?

Conhecem doce de coco em calda? Que coisa! E existe algo mais saboroso na face da Terra que a calda do papo-de-anjo? Só a calda, o papo-de-anjo eu desprezo, por completamente supérfluo.

Por isto, talvez, o meu doce preferido seja o sagu. Porque com o sagu se dá tudo que o meu ideal sobre doces preconiza: a calda do sagu vem separada, então eu me sirvo só daquele molho de leite que as outras pessoas põem sobre o sagu e saio da sobremesa realizado. O sagu é o mais descarado pretexto que conheço.

Ah, portentosas caldas de ovosmoles e de doces de peras e laranjas que devorei com avidez durante décadas!

Vós sois, caldas gerais, os mais retumbantes e cataclísmicos orgasmos gastronômicos que desfrutei em toda a minha vida.

Megalomania e insegurança

21 de outubro de 2011 1

Texto publicado em 30/08/2009.

Não sei se o pensamento a seguir transcrito embute uma verdade, mas estou meditando bastante sobre ele: “É melhor morrer crendo do que viver duvidando”. E me inclino a adotá-lo.

Eu não concordo em largar o cigarro, mas se aparecer uma mente brilhante que me argumente lucidamente sobre a vantagem que terei deixando de fumar, cedo e faço o sacrifício da renúncia a esse prazer, digamos assim, quase incomparável.

Acho mesmo que só largaria o cigarro se me ressurgisse de repente, numa esquina da vida, um daqueles templários de priscas eras e me convencesse a substituir o cigarro por algum prazer físico ou espiritual que me fizesse esquecer o cigarro.

Largar o cigarro, só pela substituição. Substituir o cigarro por um grande amor por exemplo. Será? Mas não será que, arranjando um grande e incontrastável amor, terei, por isso mesmo, nervoso, emocionado e inseguro, que fumar mais ainda cigarros do que hoje repelentemente fumo?

O diabo do cigarro é que a gente sempre arranja para que ele se conjugue com outro prazer, com o cafezinho, com o almoço recém saboreado ou até mesmo nos instantes que se seguem aos jogos de amor bem realizados, entre os lençóis.

Por sinal, os lençóis podem servir como excelente combustível tanto para as labaredas do amor quanto para uma brasa caída do cigarro logo após o intercurso ou durante a irrupção do sono, naquele estado de lassidão e languidez que se sucede ao orgasmo.

Por falar em orgasmo, o que vem a ser ele? É mesmo o ápice da excitação? Mas, se é o ápice, isso transmite a ideia de que nada melhor há que o orgasmo na excitação. E, se nada é melhor do que o orgasmo e ele é o ápice, isso não subentende que o orgasmo é também a extinção, o fim da excitação?

E, se o orgasmo é o fim da excitação, se ele extingue a excitação, ele é uma sensação bemvinda ou malvinda? Digo isso porque o ideal seria que a excitação se prolongasse indefinidamente: não fosse interrompida pelo orgasmo. Todo esse meu último e intrincado silogismo sobre o orgasmo se destrói porque dizem os sexólogos que algumas mulheres têm o privilégio de sentir o orgasmo múltiplo, ou seja, uma metralhadora de prazer.

Atenção psiquiatras, analistas, psicólogos e outros terapeutas adjacentes: surgiu-me de repente o raciocínio de que todos os homens, portanto eu e meus leitores incluídos, somos ao mesmo tempo megalomaníacos e inseguros. Dirão alguns terapeutas e filósofos que a insegurança peculiar nossa nasce exatamente da nossa megalomania.

Ou seja, que todos somos megalomaníacos, disso não resta dúvida: todos exacerbamos nossa autoestima. Mas o interessante é que somos megalomaníacos porque no fundo desconfiamos da nossa real capacidade. Então, tiro na mosca: é justamente porque somos megalomaníacos que somos simultaneamente inseguros.

Tiro e queda.

Não foi por falta de aviso

20 de outubro de 2011 69

O descarte de Porto Alegre como uma das sedes da Copa das Confederações e a realização de jogos da Copa do Mundo de 2014 na Capital gaúcha foram assuntos comentados por Paulo Sant’Ana no Gaúcha Hoje desta manhã.

“Um fato que deveria ser saudado é obscurecido por essas dúvidas tremendas que pairam em todas as  latitudes sobre a realização da Copa do Mundo em Porto Alegre. Mas não foi por falta de aviso. “

Ouça o comentário!

Os sete pecados capitais

20 de outubro de 2011 2

Texto publicado em 15/07/2009.

Ando tão azarado, tão encrencado, tão carregado que, se eu comprar um circo:

1) o anão cresce
2) o gigante encolhe
3) o elefante emagrece
4) os leões e os tigres ficam desdentados
5) o engolidor de espadas tem faringite
6) o equilibrista pega labirintite
7) o palhaço entra em depressão
8) a mulher barbuda se torna imberbe
9) dá tendinite coletiva nos trapezistas
10) por um defeito elétrico-mecânico no carrinho do vendedor, nunca as pipocas espocarão

Por uma classificação tomista (São Tomás de Aquino) mais recente, são estes os sete pecados capitais:

1) Ira
2) Inveja
3) Luxúria
4) Soberba
5) Gula
6) Preguiça
7) Avareza

Meditando bem sobre estes sete pecados principais do comportamento humano, cheguei à conclusão de que não os pratico regularmente.

Mas confesso que já os pratiquei todos. A ira, quando estou eufórico, sobressai-se como meu pior impulso negativo, por vezes me sinto apto a matar ou morrer numa briga de trânsito, principalmente quando vejo algum motorista não respeitar pedestre na faixa de segurança ou quando saio atrás de um motorista que me fechou algumas quadras antes.

A inveja. Decididamente, não sou um invejoso. Sou capaz até de torcer pelo êxito dos outros. Não sei, no entanto, se sou capaz de torcer pelo sucesso de um inimigo ou rival meu. Desconfio que não sou capaz.

A luxúria. Já a tive no grau mais exasperado. Tive febres de concupiscências.

Lembro-me que na mocidade eu praticava os mais extremos atos de luxúria, porém em pensamento. Sonhei muito com lascívia em nível até de cobiçar a mulher do próximo quando eu era rapaz.

Mas nessas minhas tonteiras oníricas de jovem, jamais admiti qualquer ato ou pensamento de luxúria que implicasse a não concorrência da vontade da parceira.

Pensava que era lícita toda a luxúria concorde entre um homem e uma mulher.

Soberba. Eis o pecado capital que mais pratico, tenho quase toda a certeza. Sou megalomaníaco confesso. Conheço mil megalomaníacos, estou cercado por dezenas. Mas todos eles têm pejo de confessar que são narcisistas. Talvez eu o confesse para que possa transitar mais livre e naturalmente a expressão compulsiva da minha autoestima.

Quanto à gula, sou adepto dela em alguns alimentos: sorvete, por exemplo, nunca como menos de um quilo.

Melancia, o mínimo que como é uma inteira. E antes de me tornar diabético furava com um prego duas latas de leite condensado e chupava-as inteirinhas.

Preguiça: este pecado, decididamente, não o pratico.

Avareza: dizem meus filhos e meus netos que sou um bárbaro e atroz pecador nesse item. Na minha defesa, acuso-os de serem mórbidos perdulários.

Conclusão: já me dediquei com afinco a seis dos sete pecados capitais. E quem não pecou ainda com tanta variedade e insistência, que atire a primeira pedra.

Guri irresponsável

18 de outubro de 2011 3

Texto publicado em 21/05/2011.

Quando eu era guri e soltava pandorgas, nem passava pela minha cabeça o que seria de mim, o que iria me acontecer neste mistério fantástico da vida. Não tinha medo. Eu apenas vivia, extasiado pela vida, sem me importar com o sentido de viver. Quando eu era guri e soltava pandorgas, não sabia que a vida se dividia entre sofrimentos e venturas. Talvez pensasse até que a vida se resumisse só à infância, que a gente passasse aqui como um anjo, flanando, sem os percalços sérios das vicissitudes.

Quando eu era menino e soltava pandorgas, não me importava andar só. Até acho que me empenhava em estar só, isto é, não conseguia compreender o que entenderia mais tarde: que a solidão tem um punhal afiado que fere fundo. Nada disso. Eu só queria soltar pandorgas e jogar bola de gude. Eu só queria derrubar com uma vara de bambu as cachopas de marimbondos que se dependuravam nos beirais das casas, desfolhando depois aquele papel machê à procura de mel.

Quando eu era guri e soltava pandorgas, todas as manhãs quando eu me acordava, saltava da cama preparado para as surpresas da vida, não sabia que haveria competição, sequer cogitava da luta pela vida, pensava que tudo era um encanto e não haveria pesadelos. Desfrutava da saúde como um bem perene, não passava pela minha cabeça que um dia a saúde enfraquece e a gente tromba com seu tratamento.

Quando eu era menino e soltava pandorgas e jogava bolinha de gude, não tinha ideia de que eu integrava uma família e dia haveria em que eu iria formar a minha própria família. Quando eu era menino e jogava taco com casinha derrubada, era um tempo bom, sem apreensões, que só se tisnou a partir do dia em que comecei a me preocupar com o futuro, com a carreira, com o orçamento, com a previdência.

Eu até penso hoje que a gente tem boas recordações da infância porque quando se é criança não se tem nenhuma responsabilidade. O homem deixa um pouco de ser feliz quando se torna responsável. É aí que ele percebe que tem de prestar contas. Quando menino, a gente não tem encargos, a vida é grátis e nem se imagina que um dia ela vai apresentar as prestações para serem pagas. Vê-se agora que seria bom voltar àquele tempo de criança quando a gente só brincava. E, se por acaso se precisasse de alguma coisa, ela nos era alcançada. Hoje, não, quando a gente precisa de alguma coisa, é a gente que tem de dar um jeito. E é muito difícil dar  um jeito na solidão.

Marido e Mulher

16 de outubro de 2011 4

Texto publicado em 12/11/2006.

Em princípio, tenho um pé atrás com essas pessoas que apresentam sua mulher assim: “Esta é minha esposa”. Minha desconfiança se deve a que “minha mulher” não tem de ser trocada pela expressão “minha esposa”. É pernosticismo, é afetação chamar “minha mulher” de minha esposa.

Já sei que os objetadores de plantão irão contrapor que, então, as mulheres não devem dizer “meu marido”, e sim “meu homem”. É diferente. No caso, “meu homem” é chocante, porque na nossa língua e no nosso costume vernacular “meu homem” quer dizer “meu macho”. E não fica bem a uma mulher classificar seu marido de seu macho porque, como se sabe, o homem, para a mulher, tem mais de 1001 utilidades do que ser macho. “Meu esposo”, para mim também é uma expressão pedante. A colocação politicamente certa é “meu marido”.

Da mesma forma, desconfio de todas as pessoas, homens e mulheres, que chamam suas empregadas domésticas de “secretária”. Empregada doméstica é uma profissão honrosa, digna, de grande utilidade social. Não precisa da classificação de “secretária”, que é outra coisa completamente diferente. E o pior é que quase todas as pessoas que chamam suas empregadas domésticas de secretárias não lhes dão salários de secretárias, mas sim de empregadas domésticas. Secretária só no nome. Enquanto muita gente que chama suas empregadas domésticas de “empregadas domésticas” paga-lhes o salário superior de secretárias.

Além disso, nesse caso de empregada doméstica e secretária, mulher e esposa, cada dupla de palavras não se constitui de sinônimos, portanto não têm o mesmo sentido. Já a expressão “minha patroa”, no lugar de “minha mulher”, é muito simpática, é a cordial e bem resignada manifestação do marido de que é dominado pela mulher. Exatamente por isso é que soaria muito mal a uma mulher apresentar seu marido como “meu patrão”. Indevido. Porque nenhum marido manda na mulher.

Por sinal, esta palavra “patroa” só se aplica bem no feminino, como mostrei acima. Ninguém gosta de apresentar numa roda alguém como “meu patrão”. Não sei bem por que, mas parece pejorativo a quem é empregado. Eu, de minha parte, desde o tempo em que trabalhei na feira livre até os dias de hoje, em que sou jornalista, apresento meus patrões assim, circunstancialmente, em uma roda:

– Apresento-lhe meu ‘amigo’.

Talvez seja porque nunca consegui trabalhar de empregado de alguém por algum tempo sem torná-lo meu amigo. Sempre que meu patrão deixou de ser meu amigo, pedi demissão de meus empregos. Não tem sentido trabalhar com um “inimigo” ou um “indiferente” como patrão. Só há sentido, principalmente em empresas pequenas, trabalhar para patrão de quem a gente se orgulhe e o mesmo serve para o patrão: tem de se orgulhar de seu empregado. Em caso contrário, vai e vem e se instala o conflito.

Mas os tempos mudaram. E hoje é muito comum que aquilo que é certamente uma relação entre marido e mulher seja classificado assim por um dos dois parceiros: “Apresento-lhe meu namorado”. Às vezes, dura há anos a relação conjugal e os dois se apresentam para o meio social como “namorados”. Os que fazem isso para mim são sábios: têm convicção de que não é perpétua aquela relação e assim se previnem contra o fatalismo quase inarredável da separação. Se nunca se separarem, melhor. Ou pior.

A delícia do medo

15 de outubro de 2011 2

Texto publicado em 27/02/2005.

Se há uma sensação que consome o homem, aniquila-o, vai devorando-o aos poucos, é o medo. O medo acompanha o homem desde o seu nascimento e só desaparece com a morte.

Quando experimenta o medo real, o homem passa a enfrentar outra tragédia: o medo imaginário, o medo sem razão de ser, sem aparente causa concreta, que se transforma em devoradora doença mental, marcada pelas atrozes e assustadoras fobias.

Alguém que já tenha alguma vez na vida  experimentado a sensação da fome, nunca mais se livrará dela: pelo medo de que por alguma forma aquele fato se repita.

A pessoa que tem medo exacerbado sofre mil vezes antes que a circunstância temida se verifique. É possível que nunca aquela ameaça se concretize, no entanto quem tem medo de que ela venha a ocorrer vê-se consumido pelo terror, embora realmente muitas vezes não tenha sequer corrido o menor risco material de vir a ser atingido pelo mal imaginário.

Estranha pois que esse inimigo maior da mente e do equilíbrio humano seja tão almejado pelas pessoas que vão ao cinema ou se fixam na televisão para assistir a filmes de terror. Isso só pode ser explicado pela lei filosófica que estabelece ser o medo o módulo principal do instinto de sobrevivência dos homens e dos animais. Segundo essa lei, sem o medo o homem não sobreviveria, ele se tornaria facilmente vulnerável a todas as adversidades.

Agora mesmo estão sendo lançados no Brasil dois filmes de terror que prometem levar multidões ao cinema: O Amigo oculto e uma nova versão de O Massacre da Serra Elétrica.

Afinal, que motivo arrasta as pessoas ao cinema para experimentarem essa sensação tão sofrida e indesejável que é o medo?

Há quem não perca filme de terror. Esses espectadores sentem-se tomados pelo mesmo medo apavorante que domina os personagens ameaçados no filme. Sofrem gratuitamente com o horror sentido pelas vítimas escolhidas pelo autor da história, pagam ingresso para sofrer.

Só pode haver delícia nesse sentimento masoquista.

Tenho que atribuir a um fator psíquico essa obstinação das pessoas em procurar o medo: de alguma forma a pessoa se deixa mergulhar em tal terror, que, passada a cena horrorizante ou o filme inteiro, o espectador se dá conta de que nada aconteceu com ele, que os perigos configurados por sua mente não redundaram em qualquer dano a si, o que lhe causa um grande alívio.

E essa sensação de ter-se preservado íntegro depois de correr tantos perigos é profundamente deliciosa, um verdadeiro orgasmo cataclísmico. Ou seja, as pessoas que são viciadas em filmes de terror acabam atraídas para o cinema ou televisão pelo prazer sadomasoquista de que, mesmo sentindo um medo gélido e arrepiante, que se abate logicamente também sobre os personagens da ficção, safam-se ao fim das cenas, ou do filme, de todos os riscos e perigos por que passaram ao investirem-se no papel das vítimas da história a que estão assistindo, festejando  íntima e efusivamente, ao irem embora para casa, que nada lhes aconteceu, ao contrário dos  que tombaram durante o decorrer da película.

O fato gritante é que o homem detesta o medo, mas paradoxalmente o procura, parecendo não  poder viver sem ele.

É o caso dos esportes radicais: que impulso ou sentimento leva as pessoas, por exemplo, a deixarem-se amarrar num pé a uma corda elástica de 70 metros de altura e lançarem-se num abismo? É verdade que sentem-se seguras de que não vão se despedaçar no  solo, no entanto o medo devastador que sentem no percurso não é presumivelmente suficiente para recompensar-lhes o golpe terrificante que sofrem até que a corda se estique.

O mesmo com os pára-quedistas, com os domadores de feras, com os pilotos de corridas, eles  sentem um prazer carnal, uma euforia hedônica ao arriscarem suas vidas.

Não resta dúvida de que estranha e exoticamente o homem busca o medo como forma inseparável de continuar existindo, ou seja, como simplesmente viver já se constitui num risco, não correr risco é morrer.

Não fosse assim e desde o início da humanidade quatrilhões de pessoas não teriam se atirado obstinada, obsessiva, fatal e inevitavelmente ao trágico ou arriscado desatino do casamento.