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Prazer obsceno

09 de novembro de 2011 4

Uma das mais intrigantes ações humanas me é oferecida todos os dias nas ruas de Porto Alegre: o prazer obsceno que muitos motoristas desfrutam ao acelerar seus carros quando veem a sua frente pedestres fazendo a travessia dos leitos de ruas e avenidas. Não consigo explicar esse deleite sinistro entre pessoas consideradas “de bem”. Em vez de desacelerar seu veículo – ou até mesmo pará-lo – para dar chance ao pedestre para concluir a travessia, não raro e com frequência e assiduidade que vão a extremos sádicos, muitos motoristas ou não diminuem a  velocidade ou a aumentam, com a finalidade objetiva de aterrorizar o pedestre.

Estou tecendo essa consideração porque em apenas dois dias da semana passada foram atropeladas 13 pessoas em Porto Alegre, com uma morte e vários feridos graves. E sucedem-se todos os dias, numa rotina perturbadora, os atropelamentos fatais. Escrevo fatais porque os  pedestres atropelados que não morrem, em muitos casos, terminam inutilizados em sua capacidade motora, destroçados física e moralmente, em definitivo, para a vida.

Não desconheço que a maior parte da carga de culpa pelos atropelamentos é dos pedestres. O leito das ruas e avenidas é destinado para o tráfego de veículos. O pedestre só tem o direito de atravessá-lo quando cessa o fluxo de carros ou quando se lhe oferece o sinal verde para a faixa de segurança. No entanto, no confronto genocida que se verifica diariamente em Porto Alegre entre motoristas e pedestres, é notável a indiferença por parte dos primeiros com a sorte dos segundos nas travessias.

É desproporcional a força dos carros com relação à fragilidade indefesa dos pedestres. É essa imunidade dos carros no choque com os pedestres que deveria inspirar os motoristas, senão à humanidade, até à compaixão. Ao contrário, uma regra quase dominante em nossas ruas é o prevalecimento de muitos motoristas sobre a inferioridade dos pedestres, acuando-os, estimulando-os a apressar o passo e até a correr, durante a travessia, para fugir da tragédia.

Como somam aos milhares os atropelamentos em Porto Alegre por ano – e vão agora num  crescendo assustador – tomo a dianteira numa campanha pública de conscientização: em qualquer país civilizado, os motoristas mentalizam que o direito de avançar nas vias de tráfego lhes pertence, mas desde que não haja pedestres tentando atravessá-las, mesmo que indevidamente. É dever humanitário e legal de todo e qualquer motorista frear ou desacelerar seu carro diante da travessia de qualquer pedestre. Não interessa que a razão seja do motorista. O que interessa é que a razão suprema é a vida. E nesse embate sinistro que nos está acometendo só quem pode perder a vida – ou a integridade física – é o pedestre. Tem de acabar entre nós uma espécie de punição intencional do motorista à imprudência do pedestre.

* Texto publicado em 17/07/2006.

Comentários (4)

  • Julio Cesar diz: 9 de novembro de 2011

    Paulo Santana,

    Colorado doente que sou sempre tive um pé atrás contigo, mas para bem da verdade sempre reconheci em ti uma pessoa com opiniões muito boas (só não entendo o amor clubístico). Muito bom e oportuno teu comentário. Um abraço desse sepeense que mora na Santa e bela catarina.

  • Paulo Meneghini diz: 10 de novembro de 2011

    São raras as capitais do pais onde impera uma consciência a respeito da relação motoristasxpedestres. Difícil ou impossível neste início de milênio tentar engajar uma imensa população motorizada nos conceitos de educação, cristianismo, priorização, etc. Não existem leis nem competência no estado brasileiro para executar e gerar leis severas efetivamente aplicadas. Assim, somente mechendo cruelmente no bolso da população de motoristas inescrupulosos para melhorar a situação e olhe lá! Neste pais qualquer um utiliza arma de fogo, dirige moto, carro, caminhão, desnecessário ter CNH. A "zona" se avoluma nos lugares menos fiscalizados, porém nosso oceano comun não possui águas claras, mas, turbulentas e vermelhas de sangue....

  • Paulo Meneghini diz: 10 de novembro de 2011

    Prezado Santana, vivemos em um pais complexo e denso. Esta faceta quotidiana não é exclusividade com certeza de nossa capital, mas singelo reflexo do pais. Quem de fora lê nossas leis, certamente pensa que a impunidade, os desmandos e o crime são uma exceção e quem critica nosso capenga sistema´, está exagerando. Porém ao analisar em maior profundidade as brechas, certamente entenderá o pais como um paraíso da malandragem, da corrupção e da demagogia barata. Ao conviver no pais, no "dia-à-dia, se surpreenderá comparativamente ao que ocorre nos paises onde a legislação é simples e formalmente aplicada, pois não entenderá como um bandido contraventor pode responder em libertade com plena possibilidade de fuga e um cidadão honesto e trabalhador, que passa por sérias dificuldades, pode ser enjaulado em uma fétida penitenciária ao praticar um crime comun. Temos a obrigação de convencê-lo a interpretar a histórica formação lusitana que recebemos e 500 anos após desta maldita herança, o pais que temos e com certeza irá encarar nosso pais sob outra ótica. SDS

  • denise sousa aristimunha diz: 10 de novembro de 2011

    PAULO SANTANA, SOU UMA GREMISTA DE CORAÇÃO, SOU SUA FÃ ADORO OS COMENTARIOS Q VC FAZ E ADORO TAMBEM QUANDO VC CANTA PARA CRISTINA RANZOLIN U FORTE ABRAÇO DE TUA FÃ DENISE SOUSA ARISTIMUNHA. CIDADE DE BAGÉ.

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