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Posts de novembro 2011

Carta a Pablo

28 de novembro de 2011 13

* Por Nelson Sirotsky, presidente do Grupo RBS

Querido amigo. Estamos completando, juntos, 40 anos de RBS. Por isso, tomo a liberdade de cometer o sacrilégio de ocupar o teu espaço sem aviso prévio (no bom sentido, é claro). São quatro décadas de trabalho, identificação e amizade.

Neste período, que representa boa parte de nossas vidas, compartilhamos alegrias e decepções, vitórias e derrotas, e também uma infinidade de momentos que nos tornaram mais maduros e mais resistentes. Pois, para solidificar ainda mais esta camaradagem forjada pelo tempo, encomendamos ao artista plástico Gustavo Nakle uma escultura que te representasse, e com a qual te homenagearemos na noite de hoje.

Ele sintetizou em bronze, numa mistura de Mosqueteiro e Dom Quixote, o Paulo Sant’Ana de múltiplas polaridades que todos admiramos. O guerreiro, que batalhou pela sobrevivência na infância e na juventude, e se tornou imbatível no exercício de seu ofício. O irreverente, que vestiu a armadura da criatividade para fazer a diferença na vida profissional.

O torcedor vibrante, ensandecido de paixão pelo seu Grêmio, que leva no peito e na alma para onde der e vier. O comentarista polêmico, o colunista preciso, o jornalista ético, o comunicador de todos os gaúchos. Dom Pablo Sant’Ana de La Mancha. O cavaleiro da inconfundível figura, o rosto mais conhecido e um dos cérebros mais admirados do Rio Grande.

Mosqueteiro sem rei, jamais recusaste luta em defesa do teu público e do estandarte que sempre carregaste com orgulho. O estandarte da RBS. Esta escultura de bronze, amigo Sant’Ana, é um acerto eterno.

Quiabo e paio

19 de novembro de 2011 10

Eu não acredito que adquirimos o gosto por alimentos pelo hábito em ingeri-los. Se fosse assim, durante a minha infância rolava em minha casa o rabanete e eu não posso me aproximar sequer dessa raiz. É bem verdade isso: quando em uma salada normal há rabanete, não como nenhuma verdura ou legume que tenham sido tocados pelo rabanete. Na minha ojeriza, o cheiro do rabanete empesta as outras verduras, se há rabanete na salada eu não como nada da salada.

No entanto, fico espantado quando vejo algumas pessoas comerem salada de rabanete. Só rabanete. Não posso entender tal preferência. Nem com bastante vinagre, azeite e sal o rabanete deixa de me causar engulho. O mesmo se dá comigo com o nabo. Que gosto tem o nabo, como é que alguém pode encontrar sabor no nabo? Eu sei que é possível até que uma pessoa humana goste de capim, mas o capim tem lá sua semelhança com o radite. Então, quem gosta de radite devia também gostar de grama. Espanta-me que haja salada de radite e não haja salada de capim. Por mim, que gosto de galeto, se a galeteria faz acompanhar o galeto de salada de radite, não entro no estabelecimento.

Voltando ao nabo, noto pessoas interessadas em salada de nabos e até outras em sopa de nabos. Sopa de nabos para mim é como se fosse sopa de pedras, não engulo nem o caldo.

E por aí se vão os alimentos a que meu gosto é inteiramente refratário. Há uma palavra, que quando ouço falar em alguma casa ou restaurante, sinto uma espécie de terror: miúdos. Não entendo como uma pessoa possa ter entusiasmo quando topa na canja com moela de galinha. O que é aquilo? Bem, mas depois que conheci duas pessoas que não passam semana sem comer testículos de boi, fico achando mesmo que há indivíduos que têm parentesco com os urubus.

Aliás, há certas preferências culinárias que têm uma ligação promíscua com o escatológico, não são só os testículos de boi e as sambiqueiras das aves. O próprio escargot nos remete imediatamente para a visão repelente da lesma, no entanto ele faz parte dos mais sofisticados cardápios. Tem gente, por exemplo, que gosta de carne de lagarto e de cobra. Não vamos longe, mas carne de gato, de cachorro e de cavalo são preferidas por algumas comunidades, havendo até em situações extremas de penúria pessoas que se alimentam de carne de rato.

Desculpem os leitores se arrolei acima alguns vegetais e tipos de carnes animais que sejam da sua preferência. É uma visão pessoalíssima minha, sou eu que não gosto desses alimentos, respeito os que gostam. E tenho consciência de que não gosto de muitos daqueles alimentos por déficit cultural meu, alguns até por preconceito. Tanto que não sei o que é quiabo nem o que é paio mas tenho horror aos dois.

* Texto publicado em 13/02/2006.

Em êxtase

17 de novembro de 2011 9

Nunca fui tão feliz na minha vida, nem mesmo quando o Grêmio conquistou seu título mundial, em dezembro de 1983.

Meu aniversário de 40 anos de Zero Hora não poderia ter sido melhor comemorado.

Depois de receber a homenagem dos colegas de ZH no Jornal do Almoço de hoje, fui presenteado com um texto produzido pelo colega e amigo Moisés Mendes, que foi lido pelo repórter Carlos Wagner na Redação deste jornal.

Vejam algumas fotos da comemoração.



40 anos de ZH

17 de novembro de 2011 2

O colunista Paulo Sant’Ana completa hoje 40 anos de Zero Hora.  No Sala de Redação desta quinta-feira, os integrantes do programa reservaram um tempinho para homenageá-lo.

“O jornalismo no Rio Grande do Sul se divide em antes e depois de Paulo Sant’Ana”, declarou Lauro Quadros.

Confira o que foi dito sobre o colunista!

Ai de quem for alegre

17 de novembro de 2011 2

Temos uma confraria, uns oito amigos, que se reúne uma vez por mês num restaurante, onde ficamos em média três horas e meia. São médicos, comerciantes, pequenos empresários e profissionais liberais. Intuitivamente, fomos percebendo, com o passar das reuniões, que nos encontrávamos para nos queixar da vida.

O denominador comum das manifestações era o lamento das coisas, os problemas conjugais, a rotina massacrante. Enfim, as dificuldades todas que a gente enfrenta para levar adiante o barco. Quem fala mal da vida, quem prega que não há horizontes para a existência, é ouvido com reverência e só falta arrancar aplausos dos outros confrades.

Até que um dia, inadvertidamente, um dos confrades atreveu-se a fazer um discurso otimista. Disse que era feliz com a sua mulher, que seus negócios iam de vento em popa e que tudo dava certo para ele na vida. Os outros sete confrades restaram estupefatos. Com que audácia, auditório de pessimistas e queixosos da vida, aquele integrante do comitê do desânimo e da tristeza contrariava todos os cânones sobre os quais foram erigidas as reuniões mensais!

Era de se ver no semblante confrades a desilusão com o otimista. Como era possível existir alguém feliz entre nós? Que peito, que coragem desafiar aquela plateia de céticos e desmoronados e, ainda por cima, jogar nas caras que era um homem realizado, contrariando toda a construção filosófica da roda, baseada no lema de que a vida é uma droga.

Foi evidente e amassante o malestar que se formou na nossa roda de pesarosos. Os descrentes resolveram agir e consideraram aquela manifestação de hino à vida um desaforo. Aos poucos, o otimista e feliz foi deixando de ser convidado, restando tacitamente expulso da confraria. Ficamos nós, os queixosos e pessimistas, a desfiar todos os meses as nossa mágoa, a nossa náusea existencial, a nossa descrença.

Mas na nossa confraria, como em todas, a gente só conversa. E a conversa vai girando naturalmente, sem censura, até que esses dias um outro conviva, em meio a uma conversa, disse o seguinte: “A vida é bela”. Foi um alvoroço. Outro dissidente? Como ousara pronunciar frase tão acintosa. Todos se voltaram para ele revoltados. Urgia uma explicação, numa sociedade de desanimados, era uma afronta emitir tal conceito.

Acabou aquela reunião num mal-estar nauseante, decidindo os outros membros que na próxima reunião o apóstata teria de dar explicações sobre a sua frase subversiva. Além disso, o companheiro que arriscara dizer entre nós que a vida é bela é muito querido entre nós, seria uma lástima e um desastre expulsá-lo do nosso convívio. Deliberou-se então que ele destrincharia o seu conceito no jantar do mês seguinte, explicando como a vida pode ser bela.

Veio o outro jantar e todos ficamos ansiosos sobre as explicações do rebelde. Ele não se fez de rogado e explicou a sua frase hedionda: “A vida é bela, nós é que a estragamos”. Todos se sentiram aliviados e desculparam o herege. Afinal, constava de seu conceito que a vida era uma instituição estragada e inviável. Segue avante a confraria com seus lamentos e desilusão.

* Texto publicado em 10.02.2010.

Os homens errados

12 de novembro de 2011 4

É a mais importante frase, o mais fundamental pensamento que li sobre a revolução que está dominando as relações amorosas e conjugais, no que se refere às profundas modificações no comportamento da mulher na passagem de século. A frase, que não é unicamente uma frase, mas uma ecoante lição, é de impressionante realidade. Foi vista no peito de uma mulher, na praia, escrita em sua camiseta: “Enquanto não encontro o homem certo, vou me divertindo com o errado”.

Sei de amigas minhas que delirarão com essa frase. Sei que essa frase vai agitar o raciocínio e os sentimentos de uma grande multidão de mulheres que porão os olhos nesta coluna e cultivarão esta frase como se fosse um ensinamento  bíblico.

A frase, assim como está escrita, serve para muitas mulheres monógamas, as que se dedicam sexualmente a um homem só. Para as mulheres que costumam ter aventuras amorosas com mais de um homem, para fazer melhor sentido e ficar melhor assentada a elas esta frase, teria que ser mudada: “Enquanto não encontro o homem certo, vou me divertindo com os errados”. A frase, assim, ganha um outro impacto, embora ambas as frases sejam dilacerantes para a consciência do macho moderno.

Esta frase é a síntese do ponto principal da revolução do comportamento feminino que estamos presenciando: a grande mudança é que as mulheres começaram a descobrir aquilo que os homens sempre souberam exercitar: fazer sexo sem amor. Esse era um privilégio dos homens, que submetem há séculos as mulheres à condição de objeto sexual. E, nesse sentido, nesse ritual que significava a liberdade sexual do homem, as mulheres iniciaram um processo de igualdade com os homens, significando essa metamorfose em suas vidas a conquista de muitas liberdades.

Em realidade, as mulheres em geral sempre se entregaram ao sexo pagando o tributo do amor ou da paixão, como me ensinou a psicanalista Maria Rita Kehl. E agora descobriram que não é mais preciso pagar esse preço para se realizar sexualmente ou ter uma vida sexual razoável: é bem possível obter esse prazer ou esse divertimento sem estar amando. Aí é que reside a superioridade feminina na revolução sexual a que estamos assistindo, que veio afinal dar mais segurança às mulheres e acabou por deixar perplexos os homens.

Enquanto não acham os homens certos, as mulheres vão se divertindo com os errados, esse é um comportamento feminino atual que passava despercebido até mesmo a algumas mulheres que o exercitavam. Elas o faziam inconscientemente, depois que lerem estas linhas vibrarão com a conscientização de seus atos.

Quando falei isso tudo o que escrevi acima a um amigo que está se separando de sua mulher, por vontade unilateral dela, ele me disse com tristeza as seguintes palavras: “Agora que estou deixando a mulher certa, passarei a me divertir com as erradas”.

* Texto publicado em 29/10/1996.

Será que ele vem?

10 de novembro de 2011 4

O suspense na contratação de Kléber para o time Grêmio foi um dos assuntos comentados por Paulo Sant’Ana no Jornal do Almoço desta quinta-feira. Ontem, o jogador esteve em Porto Alegre, onde se reuniu com empresários do clube.

“Estamos precisando de grandes líderes entre os dirigentes de Grêmio e Internacional”, defendeu o colunista.

Assista ao comentário!

Prazer obsceno

09 de novembro de 2011 4

Uma das mais intrigantes ações humanas me é oferecida todos os dias nas ruas de Porto Alegre: o prazer obsceno que muitos motoristas desfrutam ao acelerar seus carros quando veem a sua frente pedestres fazendo a travessia dos leitos de ruas e avenidas. Não consigo explicar esse deleite sinistro entre pessoas consideradas “de bem”. Em vez de desacelerar seu veículo – ou até mesmo pará-lo – para dar chance ao pedestre para concluir a travessia, não raro e com frequência e assiduidade que vão a extremos sádicos, muitos motoristas ou não diminuem a  velocidade ou a aumentam, com a finalidade objetiva de aterrorizar o pedestre.

Estou tecendo essa consideração porque em apenas dois dias da semana passada foram atropeladas 13 pessoas em Porto Alegre, com uma morte e vários feridos graves. E sucedem-se todos os dias, numa rotina perturbadora, os atropelamentos fatais. Escrevo fatais porque os  pedestres atropelados que não morrem, em muitos casos, terminam inutilizados em sua capacidade motora, destroçados física e moralmente, em definitivo, para a vida.

Não desconheço que a maior parte da carga de culpa pelos atropelamentos é dos pedestres. O leito das ruas e avenidas é destinado para o tráfego de veículos. O pedestre só tem o direito de atravessá-lo quando cessa o fluxo de carros ou quando se lhe oferece o sinal verde para a faixa de segurança. No entanto, no confronto genocida que se verifica diariamente em Porto Alegre entre motoristas e pedestres, é notável a indiferença por parte dos primeiros com a sorte dos segundos nas travessias.

É desproporcional a força dos carros com relação à fragilidade indefesa dos pedestres. É essa imunidade dos carros no choque com os pedestres que deveria inspirar os motoristas, senão à humanidade, até à compaixão. Ao contrário, uma regra quase dominante em nossas ruas é o prevalecimento de muitos motoristas sobre a inferioridade dos pedestres, acuando-os, estimulando-os a apressar o passo e até a correr, durante a travessia, para fugir da tragédia.

Como somam aos milhares os atropelamentos em Porto Alegre por ano – e vão agora num  crescendo assustador – tomo a dianteira numa campanha pública de conscientização: em qualquer país civilizado, os motoristas mentalizam que o direito de avançar nas vias de tráfego lhes pertence, mas desde que não haja pedestres tentando atravessá-las, mesmo que indevidamente. É dever humanitário e legal de todo e qualquer motorista frear ou desacelerar seu carro diante da travessia de qualquer pedestre. Não interessa que a razão seja do motorista. O que interessa é que a razão suprema é a vida. E nesse embate sinistro que nos está acometendo só quem pode perder a vida – ou a integridade física – é o pedestre. Tem de acabar entre nós uma espécie de punição intencional do motorista à imprudência do pedestre.

* Texto publicado em 17/07/2006.

Gols de entrar para a história do futebol

07 de novembro de 2011 3

Admirado com o empenho do Fluminense em vencer a partida de ontem, contra o Inter, Paulo Sant’Ana abriu o Sala de Redação de hoje lançando elogios ao tricolor carioca.

“Eu, ontem, me realizei como espectador de futebol. Cheguei ao êxtase assistindo a Internacional x Fluminense. Que partida de futebol e que exibição do Fluminense! Os dois gols do Fluminense foram para entrar na história do futebol”.

Com gols de Rafael Moura e Rafael Sobis, o time de Abel Braga venceu a equipe colorada por 2 a 1. Oscar marcou para o Inter.


Rafael Sobis (à frente) marcou um dos gols do Fluminense


Ouça o programa!


O que fazer da vida?

05 de novembro de 2011 16

Um conhecido meu me pegou pelo braço e me deu conta de sua decisão:“Informo-te que estou largando tudo, tudo mesmo, e estou largando também a vida”. E eu disse a ele:“Não te incomoda largando todas as outras coisas: simplifica e larga só a vida”.

Eu, como os filósofos, os sacerdotes e os curiosos em geral, me ocupo em decifrar a vida. Às vezes, quase que me dou por vencido. São tantos os mistérios da vida, que não consigo perscrutar a maioria deles. Mas outras vezes me encorajo, como quando recebi de uma pessoa uma mensagem cheia de esplendor teológico. Alcançaram-me a mensagem ontem aqui no jornal. O resumo da mensagem: “As misericórdias de Deus são as causas de não sermos consumidos”.

Eu me sinto muitas vezes assim: noto no meu dia a dia a proteção de Deus, da Virgem Santíssima. Parece-me nitidamente que sem essa assistência eu não poderia levar à frente a minha existência, tantos são os fatores que abalam minha resistência física. E dali a pouco, como por um milagre, eu passo por mais aquele obstáculo. E por mais outro. Assim eu vou levando. Passam-se os anos e os meus autovaticínios pessimistas não se confirmam. Só pode ser a mão de Deus. Algo me diz que ele está cuidando de mim, que ele não está se descuidando de mim e está me levando, mesmo aos trancos e barrancos, para a frente nos meus caminhos.

Eu preciso firmar na minha mente que Deus é bom e é justo. E, sendo justo Deus, ele está a meu lado, aproveitando essa vigília para manter-me erguido até a hora que soar a minha morte. Mas, antes disso, ele está me proporcionando alguns momentos estupendos da vida, aqueles instantes em que noto que cada vez mais eu raciocino melhor e mais visível se torna a minha capacidade de saborear a vida na sua mais profunda e significativa essência, que é o meu relacionamento com as outras pessoas.

Tanto que muitas vezes concluo que o inferno não são os outros. Pelo contrário, eu estou sabendo fazer dos outros meus agentes na busca e encontro de uma existência deliciosa.

A única coisa que me consola quando me defronto com grande dificuldade é que olho atentamente ao meu redor e vejo que outras pessoas sofrem igualmente a mim com dificuldades iguais ou congêneres. Nunca se deve pensar que só conosco acontecem pequenas ou enormes catástrofes existenciais. Consola-nos muito saber que todas as pessoas são suscetíveis de grandes problemas afins aos nossos. A vida por si só também é um grande problema.

Trocar de amor é tão difícil e intrincado quanto trocar o pneu. Da última vez que troquei de amor, fiquei todo engraxado.

E, quando se troca de amor, fica-se sempre num grande dilema: o que fazer agora com o pneu avariado? O pneu bom foi colocado no carro, mas se deve agora continuar usando o ex-amor como estepe?

* Texto publicado em 24/02/2011.

Feliz ou infeliz

04 de novembro de 2011 3

O tema hoje é o que mais almejam os seres humanos: a felicidade. Já escrevi certa vez que os filósofos erram quando dizem que o supremo dever do homem é a busca da felicidade. Mas, se os próprios filósofos declaram que a felicidade, por ser efêmera, não existe, como pode ser dever do homem procurar o que não existe? Então, eu corrigi os filósofos: por revés, o dever do homem na Terra é buscar ser menos infeliz.

Aí que entra o célebre verso do Ataulfo Alves, o grande sambista: “Eu era feliz e não sabia”. Esse verso é uma adaptação do dito de filósofos, que sempre perquiriram que o homem muitas vezes não sabe que é feliz. Eu iria mais adiante: o homem só é feliz quando não sabe que é feliz, o que no fim das contas nada significa. E por outra parte pergunto: não é de todo pertinente que o homem também não saiba que é infeliz? Eu, de minha parte, garanto que o homem só pode se sentir feliz quando, sem saber, ele é infeliz. Ou de maneira mais radical: só um idiota pode se sentir feliz.

Só pode dizer que era feliz e não sabia quem venha posteriormente a ser tão infeliz que passe a invejar o estado anterior que ostentava. “Eu era feliz e não sabia” quer dizer que não gozou da felicidade por desconhecer que com ela tratava. E só agora, que é infeliz, tem consciência de que aquele estado que vivia era o de felicidade. Ora, quem é feliz e não sabe que é feliz, por lógica, não é feliz. Em suma, para ser feliz é preciso sentir-se que é feliz.

Já aquele que é infeliz e não sabe, por lógica, é feliz. É uma espécie de loucura delirante, a pessoa sofre e não sabe que sofre, por consequência não sente a dor e o infortúnio quando estes batem à sua porta, invadem seu domicílio e a submetem. Ou seja, os que são infelizes e o desconhecem ou são muito fortes, ou estão loucos. Pode-se dizer que são felizes.

É que no meio desses estados existem outros mil, como, por exemplo, o dos que são felizes tão somente por estarem sempre esperando a felicidade. É a felicidade da esperança, a felicidade dos crentes que têm a certeza de que Deus virá para chamá-los para o reino dos céus. A única felicidade para eles consiste em esperar a felicidade. Isso é o que se chama de sonho. O sonho é o lenitivo para o sofrimento, sofre-se, mas mergulhando no sonho o sofrimento passa a não doer, passa a não existir, sobrepujado pela esperança.

Além disso, o estado de felicidade é sempre cotejado com a felicidade ou a infelicidade alheia. É impossível ser feliz se moram ao nosso lado ou convivem conosco pessoas que consideramos felizes. A felicidade alheia, muitas vezes, é a causa única da nossa infelicidade. Muitas vezes é impossível para nós encarar com naturalidade a felicidade alheia. Ela nos agride e não raro nos torna infelizes. Por todas essas barafundas, não há nada mais difícil, senão impossível, do que ser feliz.

* Texto publicado em 25/04/2010.

Ciclovia, uma luminosa ideia

03 de novembro de 2011 6

Revoltado com a declaração do secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Beto Albuquerque, a respeito da ciclovia que vem sendo construída na Avenida Ipiranga, na Capital, Paulo Sant’Ana deixou de lado o futebol, para falar sobre a obra.

“A mais luminosa ideia de trânsito em Porto Alegre é a construção desta ciclovia da Avenida Ipiranga, que inaugura uma série de outras ciclovias que tem que vir para Porto Alegre”, defendeu o colunista, no Jornal do Almoço desta quinta.

Para o secretário, o percurso seria inseguro por estar localizado entre tubulações de gás e fios de alta-tensão.

Confira o que disse Paulo Sant’Ana no JA.

Opinião de Beto Albuquerque sobre perigo das ciclovias é absurda

03 de novembro de 2011 61

É evidente que uma ciclovia construída na avenida mais importante de Porto Alegre, a Ipiranga, estaria próxima a fios de alta tensão. Mas  alguém lembra de fios de alta tensão caindo sobre pedestres? Eu não. Sou leigo, mas a mim o comentário do secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Beto Albuquerque, soa como absurdo.

Se nos guiássemos pela opinião do secretário, teríamos de construir a rodovia onde não há fios de alta tensão – ou seja, no meio rural.

Ouça a íntegra do comentário de Paulo Sant’Ana no programa Gaúcha Hoje, da Rádio Gaúcha:


O shopping de antigamente

02 de novembro de 2011 24

Quem se lembra das “vendas” de antigamente? Eram os armazéns, hoje extintos pelos supermercados. Tinha de tudo nos armazéns. Na entrada, as pilhas de tamancos, chinelos e alpargatas. Ao lado, sacos abertos de arroz, feijão, farinha de trigo e milho e erva de chimarrão, para serem vendidos a granel. Em cima da prateleira, os artigos de higiene, sabão, sabão de coco e pedrapomes. A pedra-pomes era levemente porosa e tinha uma finalidade peculiar: passava-se principalmente nas diversas partes dos corpos dos garotos que não tomavam banho e deixavam crescer um grosso cascão sobre a pele.

Não havia o que não se encontrasse num armazém de esquina ou de estrada: fumo em corda ou rama e fumo picado, e papel Colomy para cigarro, todas as espécies de inseticidas, o Detefon (que tonteia, mas não mata), o Boa Noite, o Ipril e o Gamexame, o Flit e o Gamerial (contra pulgas) e o Fumeta.

As casas viravam uma fumaceira. Tinha velas de sebo e de espermacete (substância gordurosa  presente nas cabeças dos cachalotes, as baleias pequenas), utilíssimas, junto com os lampiões, para os diários racionamentos de luz. Tinha banha e graxa – que substituíam o azeite –, urinóis, canecas e bandejas alouçadas e esmaltadas, torresmo, mel e schmier a granel, Glostora, Gumex, brilhantina e vaselina em pasta para os cabelos, Biotônico Fontoura e Emulsão de Scott, Pílulas de Vida do Dr. Ross, Phimatosan, Regulador Xavier (o que regulava o fluxo menstrual, o nº 1 para excesso, o nº 2 para escassez), Xarope Bromil, o amigo do peito. Os armazéns podiam vender remédios.

Ferramentas em geral havia no armazém: martelos, torqueses, alicates, chaves de fenda e até de roda. E alguns armazéns vendiam inclusive arame, telhas, fechaduras e folhas de zinco. É incrível, mas os armazéns podiam vender também material de construção. E, para a limpeza da casa, cera Parquetina, que deixava o assoalho brilhando. Para os móveis, óleo de peroba era a receita. Tinha de tudo nas grandes tulhas. Milho de pipoca, lentilha, polvilho, aveia, rapaduras quebradas e em palha, pé-demoleque, doces de batata e de abóbora, merengues, mata-fomes,  balas, balas gasosas e quebra-queixo, pirulitos, goiabadas, figadas, marmeladas a granel, quase sempre em cima do balcão.

Não dá para acreditar, mas os armazéns vendiam rojões, bombas, busca-pés, triquetraques, espoletas, todas as espécies de fogos de artifício. Vendiam colírio, botões, linhas, agulhas, colchetes, alfinetes, percevejos, fita isolante, tachas, pregos, goma arábica, pentes Flamengo, anil Rekitt. Podia-se adquirir leite em garrafas com tampas de alumínio e manteiga Deal.

Sempre havia três tonéis no chão dos armazéns: o do querosene, o do solvente e o do azeite, comprados em litros ou em garrafas pequenas. Os armazéns eram um refúgio seguro da pobreza, tudo ali podia ser vendido a granel, até os cigarros Aspásia, Liberty e Tufuma. E graxa e tinta para sapatos, inclusive a branca: alvaiade.

As melancias se esparramavam sobre o chão dos armazéns, prontas para serem caladas. Se não fossem rubras e firmes, o freguês não levava. Café, açúcar cristal, azevém e alfafa, todas as espécies de tempero, charque, toucinho.

O leitor há de se perguntar por que estou lembrando isso. É que me sobrevém uma deliciosa nostalgia dos tempos de guri, em que o acaso me colocava nas mãos algumas moedinhas e eu ia correndo para o armazém. E meus olhos percorriam todas aquelas pilhas de artigos, como num  mercado persa, assim como hoje as pessoas se extasiam nos shoppings. Era o meu grande passeio da manhã ou da tarde.

E quando incomodamente o bodegueiro interrompia o meu sonho de consumo, com autoridade eu lhe pedia que me desse um mandolate e três ou quatro unidades de bala de goma, daquela do tipo de gomos de bergamota coloridos, uma delícia, uma alegria incomparavelmente maior que as que tenho hoje gastando fortunas. Nunca vamos esquecer. Pedia-se vinho doce Sabiá, e o bodegueiro pegava uma comprida tenaz e descia a garrafa da parte mais alta da prateleira, toda empoeirada. Que doce recordação!

* Texto publicado em 09/04/2006.