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Posts de janeiro 2012

Preços abusivos em garagens da Capital

24 de janeiro de 2012 25

É preciso com urgência que algum órgão, o Procon, a Sunab, os governos, enfim, ponha cobro a um tipo de exploração selvagem que vem ocorrendo na cobrança de taxas de garagens em Porto Alegre.

Nada tenho contra os que cobram R$ 5 pela primeira meia hora ou R$ 10 pela primeira hora. Mas daí em diante se instalou uma roubalheira que precisa ser reprimida. Há casos de pessoas que pagam R$ 60, R$ 70 por algumas horas de estacionamento, o que é uma escorchante exploração.

Nem vou falar da cobrança imoral no aeroporto, mas de estacionamentos comuns em Porto Alegre que estão esfolando os usuários. Tenho o maior respeito pelos garagistas, eles têm de ter retorno pelos seus investimentos. Mas tem gente roubando. E extorquindo livremente porque não há intervenção do poder estatal sobre o assalto ao bolso dos clientes.

É a hora de a Câmara dos Vereadores agir. É a hora da Sunab. Eu e o público usuário estamos sendo descarnados por alguns garagistas. Isso precisa acabar. Perto dessa extorsão, o que cobram os shoppings, que inicialmente foi encarado com grande antipatia, é uma taxa suave, única compreensível.

E também tem muita gente cobrando estacionamento em terrenos irregulares que não pagam impostos. Virou uma farra tributária, com os motoristas não tendo a quem reclamar. É preciso neste país instalar-se um regime de respeito aos cidadãos, com normas que tanto atendam os interesses dos garagistas mas ao mesmo tempo protejam os interesses mínimos dos que sofrem para estacionar seus carros.

Essa bagunça balbúrdica vai ter de cessar.


*Texto publicado em Zero Hora do dia 24.01.2012

Cocaína no volante do táxi

24 de janeiro de 2012 15

Procuraram-me dois taxistas veteranos de Porto Alegre e me pedem para solicitar às autoridades que não permitam que sejam inscritos como taxistas menores de 35 anos.

Eles dizem que os menores de 35 anos são os taxistas responsáveis pelos grandes desatinos da categoria, cheiram cocaína, fumam maconha e praticam desordens e mau atendimento ao público.

Salientam, é óbvio, que não são todos, mas a grande maioria dos desordeiros estão entre eles. Explico pacientemente aos dois taxistas veteranos que recusar a inscrição de menores de 35 anos para dirigir táxi é inconstitucional, a Lei Maior não permite que se discriminem profissionais pela idade, os maiores de 18 anos têm livre exercício de todas as profissões, é impossível barrá-los.

E seria uma injustiça barrá-los.


* Texto publicado em Zero Hora do dia 24.01.2012

É sempre, sempre assim

24 de janeiro de 2012 0

Quando um orador, no início ou fim de seu discurso, pronuncia a frase “…eu não quero me espichar, mas…” , é absolutamente certo que ele vai se espichar.

Quando alguém o aborda com a frase “Eu não queria te chatear, mas…”, é absolutamente certo que essa pessoa vai em seguida chateá-lo ao extremo.

Quando uma mulher diz dramaticamente para um homem “…eu não posso, eu não devo, eu não vou te amar…”, é absolutamente certo que esta mulher já está amando aquele homem.

O poeta mexicano Amado Nervo (1870-1919), segundo os melhores críticos literários do século passado, teve sua obra na altura exata das de García Lorca, Rubén Dario e Pablo Neruda, dentro da literatura hispânica.

Só para dar uma ideia de seu vulto, como todos os grandes intelectuais da sua época, amava Paris. E em Paris tornou-se grande amigo de Rubén Dario, de Verlaine, de Moraes e de Oscar Wilde, além de todos os literatos destacados de todo o mundo que gravitavam em torno da capital francesa.

Seus poemas estenderam sua celebridade em todos os países de língua espanhola.

Entre tantas joias da poesia de Amado Nervo, cujos poemas principais se alçam aos píncaros da literatura americana, escolhi um deles para brindar os meus leitores neste domingo.

Emocionei-me quando o ouvi no Sala de Redação, lido pelo Kenny Braga.

A tradução, fidelíssima a considero depois de ter buscado e lido o original em espanhol, é de Aurélio Buarque de Hollanda, o autor do Aurelião.

Eis o poema monumental:

Em Paz

Já bem perto do ocaso, eu te bendigo, ó Vida,
porque nunca me deste esperança mentida,
nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

Porque vejo, ao final de tão rude jornada,
que a minha sorte foi por mim mesmo traçada;
que, se extraí os doces méis ou o fel das cousas,
foi porque as adocei ou as fiz amargosas:
quando eu plantei roseiras, eu colhi sempre rosas.

Decerto, aos meus ardores, vai suceder o inverno:
mas tu não me disseste que maio fosse eterno!

Longas achei, confesso, minhas noites de penas;
mas não me prometeste noites boas, apenas,
e em troca tive algumas santamente serenas…

Fui amado, afagou-me o Sol. Para que mais?
Vida, nada me deves. Vida, estamos em paz!

* Crônica publicada em 11/11/2001.

A arte de esperar

22 de janeiro de 2012 5

Agente tem de se conformar com o engarrafamento. Em realidade, a vida é feita de espera. A primeira vez que esperei de verdade foi quando, moço ainda, comprei o meu primeiro imóvel: um apartamento para morar com a família. O prazo de pagamento era de 20 anos (240 meses). Era no tempo em que havia o Banco Nacional de Habitação, uma forma para facilitar a aquisição da casa própria. Mas vejo só agora o horror: levar 20 anos para adquirir um imóvel. Acho que foi ali que aprendi a esperar.

Esperei para me formar em Direito, levei 10 anos. Esperei para ser delegado de Polícia, fui inspetor de Polícia durante 17 anos. Esperei para ter filhos; depois de longa espera, esperei para ter netos. Antes de ter carro, esperei durante muitos anos o ônibus; antes, quando ainda criança, esperava o bonde. Espero que cozinhem minhas comidas, espero que gelem minhas bebidas. Plantei um abacateiro e esperei muitos anos para que ele desse abacates. Esperei durante cinco horas, num nervosismo ímpar, para subir ao palco com Julio Iglesias. Esperei durante muitos anos para que trocassem minha coluna das páginas de esporte para esta página na qual agora me encontro. Deus sabe que espera angustiante.

Vejo só agora, neste balanço de esperas, que sempre houve desfecho para todas as minhas esperas. E estranhamente concluo que foram bons os desfechos de todas as esperas, com raras exceções. Nunca esperei ser rico, por exemplo. Ou apostar na Mega Sena, como aposto, é esperar uma fortuna? Acho que não: entre as esperas não se pode incluir os sonhos. Esperar é uma coisa, sonhar é outra. Esperar implica alguma materialidade no desejo. Sonhar já entra noutra esfera. É tão grande o que se pretende, que nem se exige do destino que ele nos dê tamanho contentamento. Ou euforia.

Em verdade, lhes digo, das coisas que me aconteceram na vida, uma só, uma única não esperei: a velhice. Ela foi chegando sorrateiramente, sem prenúncio, sem aviso, com leves indícios: uma vontade de não tomar banho pela manhã foi o primeiro pipocar da velhice. Logo em seguida, foi uma dificuldade em sair do táxi, as dobradiças do corpo da gente parecem que estão enferrujando. E as moças, em toda a parte que se vai, começam a nos chamar de “senhor”.

Velhice não tem espera, ela ataca à traição. Velhice é a pior doença. E ela ainda carrega consigo a pior maldição: é quando se tem pela primeira vez a ideia da morte. Mas esperar é sempre não a minha sina, mas a de todas as pessoas. Esperar que a pessoa amada diga sim. Esperar de quem nos ofende gratuitamente uma explicação. Esperar que nunca um amigo pronuncie uma recusa. E uma espera que confesso me consumiu sempre em toda minha vida: a espera de uma reconciliação. Há ex-amigos que morreram brigados comigo, foi em vão a espera de que tivéssemos feito as pazes. Muito triste, desolador… A vida só é feita de esperas. Desde as mais curtas até as mais longas. E a mais dolorosa, a pior de todas as esperas, é a inútil.

* Texto publicado em 29/04/2011.

Santo de casa*

17 de janeiro de 2012 5

Ninguém faz sucesso em sua própria cidade. O fator mais intenso que influi sobre o homem, acima da sua família e do seu trabalho, é o pago, a cidade natal. A gente pode romper com todos os valores, mas jamais se desligará de um entranhado sentimento de devoção, atração física e espiritual indestrutível, pelo lugar em que se nasceu ou passou a infância.

No entanto, estranhamente, depois de estudar minuciosamente a vida dos grandes gênios da humanidade, observei que todos eles só foram ter êxito e realização em sua grande obra criativa fora dos limites das cidades em que nasceram. É assombroso que o homem tenha que obrigatoriamente emigrar para tornar realidade todas as suas potencialidades. Leonardo da Vinci, por exemplo, se tivesse permanecido em Vinci, cidadezinha em que nasceu, não teria jamais alcançado a posição de um dos maiores gênios da civilização. Geômetra, engenheiro, geólogo, físico que se antecipou a Galileu em teorias sobre a estática e a dinâmica, anatomista, matemático, botânico e artista incomparável, pintor de algumas das maiores obras plásticas de toda a história, entre elas A Última Ceia, onde se distingue a inigualável solidão de Cristo e se definem com impressionante e extrema fidelidade as reações faciais de todos os apóstolos, e Mona Lisa, talvez o instante mais alto da pintura universal, se vivesse toda a sua vida no lugar em que nasceu seria tão desconhecido hoje pelo mundo quanto o motorista de Bill Clinton. Fez bem este verdadeiro campeão mundial em conhecimento científico e arte em fugir quase garotinho para Florença e mais tarde para Milão e Roma.

Um outro luminar da raça humana, William Shakespeare, que viveu sua existência inteira em Londres, não teria se tornado o maior literato e dramaturgo da humanidade se fincasse pé na sua cidadezinha, Stratford-on-Avon. Saiu de lá menininho e voltou para o torrão somente seis anos antes de morrer, tendo brotado de sua inteligência prodigiosa a sua grande obra na capital inglesa. As grandes tragédias de Shakespeare, Hamlet, Rei Lear, Macbeth, entre outras, não passariam de melodramas de folhetins se não houvesse se despegado depressa de sua terra natal.

O mesmo se deu com Michelângelo Buonarroti, uma das maiores estrelas artísticas de todos os tempos, escultor da Pietá e de Moisés, obras que espantam há seis séculos todos que tiveram a felicidade de admirá-las. Michelângelo, que também era pintor, poeta e arquiteto, não teria certamente passado de um obscuro pichador se tivesse se radicado na aldeiazinha de Caprese, na Toscana, onde nasceu. Fez bem em se mandar para Florença tão pronto adquiriu a dominância cerebral. Em Caprese, jamais seria requisitado pelo Papa para os anos de agonia e esplendor que gastou pintando os afrescos do teto da Capela Sistina, no Vaticano.

E, assim, todas as pessoas que se destacam em todas as suas atividades são obrigadas à dor da separação do lugar em que vieram ao mundo. As exceções para este flagrante que dei na História são Lupicínio Rodrigues, Dorival Caymmi e Luis Fernando Verissimo, que conseguiram projeção nacional para suas liras recusando-se a deixar suas cidades.

A regra é o contrário, começou antes de Cristo, mas se configurou extraordinariamente nele, pois nasceu em Belém mas criou fama em Nazaré, até que Jerusalém abriu-lhe uma de suas portas para a glória e a santificação. Provando que santo de casa não faz milagre.

Daí que eu tenho vacilado muito, mas acho que vou ter mesmo que me transferir para Florianópolis ou Maceió. Aqui eu me debato e retorço todo e nunca saio do mesmo lugar.

*Crônica publicada em 13/01/94

Um marginal do progresso*

16 de janeiro de 2012 0

Este surgimento da era do conhecimento pela informatização apanhou-me no contrapé. Pensei que, depois de tantos anos de estudo, trabalho e até sacrifício pessoal para construir minha carreira, estava aparelhado profissionalmente para a luta dura da sobrevivência.

Jornalista e com o diploma de bacharel em Direito, imaginei-me completamente equipado para desenvolver uma dessas duas profissões – ou ambas – sem necessitar mais de qualquer preparo fundamental.

E de repente deparo com a vinda do computador, a modificar todas as relações humanas, desde a cultura até o lazer. E me sinto, por não ter-me atirado ainda a essa necessária e talvez imprescindível atividade, como um marginal do progresso e do conhecimento.

Eu pensei que tinha tudo e noto agora que não tenho nada. Devo começar novamente todo o meu aprendizado. Ou me familiarizo com a máquina ou logo em seguida estarei ultrapassado.

Tenho a sensação, portando um diploma de curso superior, de que terei de ingressar novamente no curso primário. Qualquer garoto que possua um Pentium hoje está à minha frente. E o grande trunfo que eu tinha sobre todos os jovens, a experiência, desapareceu completamente nessa onda maluca de software e hardware que varre os meus arredores.

Até o meu poeta preferido, Augusto dos Anjos, cujo livro surrado e páginas amareladas guardo com cuidado na gaveta, está na Internet. Todos os seus poemas, ali prontinhos a se estalar diante dos olhos mediante uma simples digitação. E todos os outros poetas. E todos os escritores. E todos os jornais, e todas as manchetes deles em todo o mundo.

E todas as doenças catalogadas, os tratamentos respectivos prescritos, até com os remédios e a posologia. E a mágica maravilhosa dos CD-ROMs, a História, a Ciência, as Artes, a Geografia, a comunicação instantânea com as pessoas de todos os povos, tudo isso ali oferecido na geringonça estupenda que traz todo o mundo de fora para dentro de casa, reunindo serviços que antes eram dispersos e de acesso difícil, demorado ou custoso, como as bibliotecas, as pinacotecas, as escolas, a televisão, o jornal, o rádio, as atividades lúdicas em geral, a informação e a cultura. E a tormentosa dificuldade de memorizar o conhecimento agora facilitada banalmente pelo computador.

Ou faço urgentemente um curso de informática e me introduzo de volta ao mundo, que passou por mim como um cavalo de eletricidade, deixandome desaparecido na poeira de um atraso violento e repentino, ou afundo definitivamente como um ser primitivo, tonto entre os civilizados.

* Crônica publicada em 30/04/97

A pressa moderna*

15 de janeiro de 2012 1

O homem primitivo, o das cavernas e o das tribos, com o advento agora das grandes cidades e até das megalópoles, era muito mais social e afetivo com seus circunstantes do que o homem moderno. O homem moderno não tem tempo para os amigos.

O homem primitivo tinha os amigos todos os dias dentro da sua caverna ou no centro da sua aldeia, além das horas quase sempre vagas do seu ócio naturista para bater papo com os amigos.

Hoje, os amigos se gostam de longe. Têm que tratar dos seus negócios, dos seus empregos ou dos seus desempregos. Estamos todos na grande cidade condenados à lei animal das selvas, à competição bárbara e antropofágica ou pelo lucro ou pela carreira profissional.

O homem primitivo andava de cipó, no máximo no lombo de um lhama ou de um cavalo, tudo absolutamente gratuito, caído do céu. O homem moderno tem a luta corporal do vale-transporte, do IPVA ou contra o azulzinho para se locomover.

E essa batalha diária do homem moderno pela sobrevivência afastou-o dos seus amigos e dos seus amores. Está bem, concedo, nem para a família o homem moderno tem mais tempo a dar.

É absolutamente irracional que eu não visite os meus amigos ou não seja visitado por eles. Sinto que os amo, sei que eles me querem, mas o que é bem bom e essencial, nada: o encontro.

O homem moderno criou a cidade para aproximar-se dos outros homens, acabou a sua invenção criando uma distância polar entre ele e as pessoas que ele mais preza.

O homem primitivo se encontrava com seus amigos todas as manhãs bem cedinho, quando os primeiros raios de sol invadiam a sua oca e ele dava de cara no chão batido ou em cima da árvore com todos os seus afetos.

O homem moderno sai cedo e apressado de casa, na maioria das vezes para se encontrar com seus rivais, competidores e inimigos, fingindo cordialidade. Os amigos ficam para depois, num tempo que nunca encontrará por serem demasiados e cruentos os combates pela vida, que lhe tomam todo o tempo.

Os primatas e os indígenas se viam toda hora, os humanos modernos só se vêem com hora marcada. Tem pai hoje em dia marcando hora para receber filho.

Na antigüidade, todos os homens se encontravam todos os dias e todas as horas espontaneamente, ao natural. Hoje em dia todos os homens se encontram com hora marcada, o que quer dizer que se encontram por obrigação.

Tem hora marcada para sair de casa, pegar o ônibus, começar a aula, iniciar o trabalho. Hora marcada para namorar e para transar. Com prazo inicial e prazo terminal. Sempre com pressa.

Hora marcada para o espetáculo, para o médico, para o comício, para a greve, para escrever a coluna e para ler o jornal.

Às vezes não é só hora marcada, é dia, é semana, é mês e ano marcados com antecedência, como nos casos da Justiça do Trabalho, o que por si só já é uma brutal injustiça.

É um olho no relógio e outro no futuro, isto não é vida. É um rali.

Eu ainda peguei o tempo, em Tapes e São Jerônimo, de todos os dias me encontrar com meus amigos, pela manhã, ao meio-dia, à tarde e à noite, nos intervalos do trabalho ou durante o seu curso.

Hoje, só encontramos tempo para o trabalho e para os pagamentos de DOCs nos bancos.

E nunca encontramos tempo para aquele papo furado de fim de tarde no bar da esquina, um chope pra distrair, ouvir um soneto ou um cavaquinho, uma mulher que desfila na calçada, que tempos, já não há mais nem tempo pra trair.

E principalmente não há mais tempo para ver os amigos, o que se constitui na negação da vida e na autodecretação preventiva, antecipada e anunciada da morte. E, quando se encontra um tempinho para um amigo, ele não tem tempo para a gente.

*Crônica publicada em 15 de março de 2000

Morar separados*

14 de janeiro de 2012 1

Quando preguei aqui nesta coluna uma modificação idealística no casamento, dizendo que será mais apropriado que ele comece a se dirigir no início deste século para a transformação de marido e mulher morarem em casas separadas, nem de longe eu quis bombardear a instituição da família.

Só um louco poderia querer extinguir a família, que é ainda a mais eficiente fortaleza contra as adversidades morais e materiais do tecido social.

O que eu quis dizer é que o casamento assim como está instituído atenta contra a liberdade das pessoas, que é afinal o maior valor a ser perseguido pelo homem no seu dever de busca da felicidade.

Consta da liberdade, logicamente, o exercício espontâneo da vontade pessoal. As pessoas têm também o direito de morar juntas se assim o decidirem.

Mas acontece que o casamento contém amarras que impedem na maioria das vezes a felicidade. Uma delas é o senso aguçado de “propriedade” que se estabelece entre marido e mulher.

Desde que se casam, se transformam em “meu marido” e “minha mulher”. E se desde já assim se pertencem, nada mais há que conquistar dali para a frente.

E o mesmo acontece com os filhos. Já que é “meu filho” ou é “meu pai”, isto é definitivo e desobriga os que estão envolvidos nesta relação a aprimorarem na prática este conceito, tornando-se dignos da condição de filhos ou de pais pelo aprofundamento e aperfeiçoamento dos vínculos afetivos. Se já é “meu”, nada mais preciso fazer para vir a ganhá-lo.

O melhor seria que o casamento funcionasse como uma venda em prestações, que se tivesse de quitar em período longo. E não como uma compra à vista, cuja aquisição é definitiva, não tendo doravante de se prestar mais nada.

Quando na verdade é no decorrer da vida que o marido poderá vir a ser verdadeiramente um marido; a mulher, uma mulher; um filho, o filho. Ou seja, isto só acontecerá em realidade na aferição das condutas recíprocas. E não pelo decreto do registro civil oficializado.

No caso do casamento, a idéia de morar separados é brilhante. Porque não finda o namoro. Porque permanece o encanto da incerteza. Porque será constante o fascínio do encontro, sem a obrigatoriedade cansativa dele, que o domicílio conjunto impõe.

Um casal que mora separado se perfuma e se veste com apuro e jeito para encontrar-se, enquanto que o casal que mora junto vai deixando perigosamente de lado esses cuidados pessoais, deixando cair pouco a pouco a peteca da sedução e se precipitando no abismo do fastio e da rotina.

Mas o principal condão utilitário que o domicílio separado no casamento encerra é que, no caso do fim da paixão, do amor ou da amizade profunda, o trauma da separação será quase que irrelevante perto da explosão dramática e inapagável que as rupturas dos que moram juntos significa. As vidas separadas já tinham até ensaiado despropositadamente esse desenlace, que será suave e facilmente suportado.

Enquanto que a separação dos que moram juntos deixa marcas indeléveis de sofrimento.

O que acontece mais freqüentemente é que casais que notoriamente já estão separados, se moram juntos, continuam morando juntos, para evitar o estrondo da separação física e domiciliar, o que lhes acarreta um martírio contristador.

Enquanto os casais que morarem separados terão até diante de si a vantagem da possibilidade atraente e luminosa, depois de assegurados da solidez indestrutível daquela relação, de um dia passarem a morar juntos.

Entre os que morarem separados, a união logicamente será sempre mais duradoura. Com chances bem maiores de ser imorredoura.

*Crônica publicada em 5/03/2000

O relógio e o espelho*

13 de janeiro de 2012 3

Até o máximo possível e permitido, nunca se deve dar relógio de presente para crianças. O primeiro passo para a aflição do homem é o relógio. A criança é feliz porque não tem noção das horas, do compromisso, do dever com hora marcada.

Nunca vi em minha vida uma criança acordar-se e ver que horas são. Este é o reflexo imediato de qualquer adulto. Depois do sono reparador, do desligamento da vida, retornamos às nossas preocupações.

O sono é o céu do vazio, do nirvana, o relógio traz-nos de volta ao inferno das obrigações.

Consulte seu passado, o tempo mais feliz de sua vida foi aquele em que não usava relógio, indiscutivelmente.

O relógio é o instrumento que mede a vida e dá-nos a consciência da morte, a pior desgraça dos humanos. Os animais são felizes porque não sabem que terão de pagar o preço da morte. O homem começa a ter noção de que sua vida terá um fim quando põe pela primeira vez um relógio no pulso, ignorando que aquela é a algema que o amarra ao tempo, portanto à finitude.

Eu nunca daria de presente um relógio a uma criança. Gostaria que ela permanecesse indiferente e imune aos prazos, solta, que não tivesse nem noção do dia e da noite, apenas fosse dormir e despertasse quando tivesse sono ou dele se saciasse.

Ter hora para dormir, para acordar-se, para trabalhar, para comparecer à audiência ou ao encontro, estas horas fatais todas é que vão destruindo as pessoas e aproximando-as da morte, senão pelo fato, mas pela perspectiva.

O paraíso de Adão e Eva dá-se exatamente porque não havia lá um relógio, nem o casal primevo conhecia quem o antecedera, o que significaria a morte.

Os tempos da infância e da juventude são os mais felizes pela inconsciência da morte. Até quando fiz 40 anos, eu pensava que era imortal. E essa é a sensação de todos os jovens.

O jovem sabe que vai morrer, mas está tão distante da morte, que consegue ignorá-la, ela não passa de uma utopia diante da vida estuante que se oferece à sua frente. Tem mais é que pensar na vida, o prazo da morte desaparece em meio à delícia existencial.

Não há instante mais crucial da vida que aquele em que o homem se olha no espelho e vê que não é mais aquele. O primeiro inimigo do homem é o relógio, o segundo é o espelho.

Reparem que as crianças nunca se olham no espelho, a não ser quando cobiçam idiotamente tornaremse adultas. Já o adulto olha-se no espelho sempre com um pé atrás, sabendo que seu aspecto só pode retroceder.

O homem que olha para o relógio ou para o espelho está sendo aos poucos aniquilado pela maior adversária do homem, que é a pressa.

Não conheço pessoa madura que não seja escrava prestativa do relógio ou do espelho, instrumentos da sua agonia.

Nunca dê um relógio ou um espelho para uma criança. Ela só é feliz porque estes dois objetos sãolhe absolutamente dispensáveis.

Crônica publicada em 5 de dezembro de 1999*

A sina do homem*

12 de janeiro de 2012 1

É preciso largar o cigarro. É preciso largar o açúcar. É preciso largar ou moderar os carboidratos, essa montanha de massas, pães, biscoitos que ingiro, que ingerimos. Eu não bebo, mas quem bebe tem de largar a bebida etc.

E ficar com o quê?

A vida, primeiro, é uma aceitação dos prazeres ou até uma adaptação consumista às necessidades. Lá mais adiante, nos submetem à imperiosidade da renúncia.

No início, é preciso fisgar essa mulher, atraí-la, enchê-la de afeto, satisfazê-la na lascívia, é uma mão de obra descomunal a conquista.

Mais tarde, é preciso largar esta mulher (ou este homem). Ela não era quem eu pensava ou simplesmente me cansou. Mas como largar esta mulher agora que os laços econômicos, sociais, existenciais se estreitaram tanto?

Como largar o cigarro se ele já se incorporou ao meu metabolismo de tal sorte que não suporto a ideia de viver sem ele?

Como largar o arroz de leite, o quindim, os ovos-moles, o pudim de laranja que se esparramam todos diante dos meus olhos na carta de sobremesas?

Mas, então, no meio ou no fim da minha vida, terei de me privar de todos os prazeres a que estou acostumado?

Terei de criar outras delícias, aprender a comer peixe cru como os japoneses? Mas peixe cru não desliza mais pela garganta e pelas glândulas salivares da minha formação alimentar e hedônica. O que desliza redondo em mim, tornando meu dia prazeroso e minha vida feliz, é o sagu com creme de leite.

Então, a vida é um pega e larga constante. Pega o sal, larga o sal, mas só larga o sal depois que estiver bem acostumado com o sal. Com a mulher também. Com os doces, com as massas.

Depois que gostou do sexo, viciou-se no sexo, tem agora de usar a camisinha. O doce é maravilhoso, mas engorda ou eleva perigosamente a taxa glicêmica. Vê se passa para o alimento dietético, mas o alimento dietético e a camisinha são umas porcarias.

A vida é um incessante pegar e largar. Pega o namorado, larga o namorado. Pega o emprego, larga o emprego e mergulha no desespero do desemprego.

Pegar é bom, largar é um inferno. Casar é bom, tanto que todos se casam, mas descasar, que teria também de ser bom, vira um inferno.

Então tem-se de ser muito forte para viver. O homem é um animal muito forte, o mais forte de todos os animais. Porque ele está sempre tendo de iniciar alguma coisa e logo em seguida é obrigado a interromper o processo. E recomeçar tudo de novo.

Não há mente nem corpo que resistam. Se o homem fosse como o camelo ou a capivara, que sempre bebem e comem a mesma coisa, que fazem sexo sem divórcio e não cuidam da saúde nem têm sequer ideia nem medo da morte e do futuro, só então poderia ser feliz.

*Crônica publicada em 21 de fevereiro de 1999

Dois em um*

11 de janeiro de 2012 3

Todos me perguntam, nos elevadores, nas calçadas, nos restaurantes, nas filas dos bancos e das lotéricas, por toda a parte onde me aventuro a mostrar meu rosto, se devem cumprimentar o Paulo ou o Pablo.

Sem querer, me parti em dois e essa dicotomia caiu no gosto popular, depois que a incentivei em meus espaços. Respondo que ora cumprimentam Pablo, ora, Paulo. Tenho surtos de Paulo e acessos de Pablo.

Pablo está com o ombro congelado e duas marcas rubras de ventosas marcam a extensão do osso úmero no antebraço esquerdo, depois que o acuputurista Tone passou ali com a sua carga de cavalaria cossaca, cravando-me 20 agulhas em decúbito dorsal pelo corpo, mais de 20 agulhas em decúbito ventral. Pablo, portanto, é o que sofre no físico, embora também as agruras mentais e espirituais a ele caibam.

Paulo continua a ser um mancebo gozador da vida e aproveitador dos prazeres que ela oferece. Todas as mordomias da existência são designadas a Paulo, todos os infortúnios a Pablo.

Paulo é que vai aos restaurantes e empanturra-se de carnes, massas e saladas. Arrisca às vezes taças de vinho tinto ou branco, tudo nos conformes com as carnes que devora, de aves, de mamíferos quadrúpedes, de peixes com ou sem escamas e crustáceos.

Já a Pablo são reservadas as agruras de decifrar os mistérios filosofais da existência. Ontem, por exemplo, aconselharam Pablo a postar-se sempre casado, embora não descuide de cultivar permanentemente uma amante que o traia, que este é o segredo para manter tanto o casamento quanto o concubinato felizes.

Já pensaram nos inúmeros códigos de comportamento que diariamente Pablo tem de mentalizar e escolher como caminhos a serem seguidos? O fato é que é bom ser-se dois. Reparte-se assim igualitariamente os encargos do destino.

Paulo se encarrega das tarefas do cérebro, que são as da escória de seu corpo e de sua mente. Pablo fica entregue às incumbências do coração, as mais nobres da delegação divina ao homem.

E como o cérebro administra o lixo humano e dispara o revólver, por exemplo, enquanto o coração superintende o sublime humano e dispara a lágrima, por exemplo, eu sou mais Pablo que Paulo. Mas Pablo por vezes se sente exausto de tanta bondade e dá lugar a Paulo, que então se refestela a espalhar suas misérias e vergonhas.

Todos nós em verdade somos dois em cada um. Eu é que resolvi definitivamente assumi-los. Façam isso também e verão que fica muito mais fácil levar a vida em frente.

*Coluna publicada em 22/04/2000

O novo secretário

10 de janeiro de 2012 0

A governadora Yeda Crusius saiu-se muito bem de seu silêncio sepulcral sobre a demissão do ex-secretário Bacci, escolhendo para substituí-lo um nome de indiscutível capacidade técnica. Não havia solução melhor, foi escolhido o único nome disponível com experiência no metiê: José Francisco Mallmann, o superintendente da Polícia Federal no Estado.

Além da capacitação específica para a função que vai desempenhar, o doutor Mallmann tem afinidade com a missão.
Durante os vários anos de desempenho do seu cargo federal no Estado, certamente observou o quadro criminal gaúcho e adaptou à sua visão os defeitos e virtudes do aparato estadual de segurança.

Não tenho nenhuma informação sobre os diálogos entre o novo secretário e a governadora nos três ou quatro encontros que tiveram e serviram de alinhavo para que ele aceitasse o desafio. Mas tenho certeza de que o novo secretário tinha bem presente nos encontros com a governadora a pobreza de recursos humanos com que contará para levar à frente o seu mister.

A melhor notícia trazida por este governo para o território da segurança pública foi a de que tirou o policiamento ostensivo de uma cadeira preguiçosa em que se deitava havia muitos anos para uma louvável expedição às ruas. Mas polícia nas ruas tem de ser acompanhada de ação efetiva, que acaba no sistema de dúplice atribuição desaguando sobre as delegacias de polícia.

E, só para dar um exemplo, o quadro que se desenha nas 24 delegacias distritais de Porto Alegre é desanimador: nos horários de plantão, das 19h até o raiar do sol, não há mais que um único funcionário atendendo as partes. Se tiver de jantar, fecha a delegacia até sua volta. Não há funcionários na Polícia Civil para a demanda cada vez mais crescente que fica a seu encargo.

E as partes que são atendidas nas delegacias ouvem obrigatoriamente as lamúrias desesperadas dos policiais civis, que já não sabem mais como desincumbiremse de suas funções pela exigüidade dramática dos efetivos. Em meados dos anos 60, o efetivo da Polícia Civil era de 5 mil homens, Decorridos mais de 40 anos, a população dobrou, a criminalidade cresceu em 3.000% e o efetivo hoje é o mesmo: 5 mil homens. E inexplicavelmente não são nomeados inspetores de polícia já aprovados em concurso por idiossincrasias administrativas embromadoras.

A Brigada Militar luta contra o mesmo drama.

Se se contar que esdruxulamente convencionou-se por norma que o horário de trabalho de um policial militar compreende apenas seis horas diárias, a PM vê seu efetivo de apenas 23 mil homens, repartido em quatro turnos, geometricamente reduzido.

Ou seja, o novo secretário vai trombar com esse descalabro de pessoal principalmente, mas também de recursos materiais.
Perto da míngua exasperante dos recursos estaduais para a segurança, o quadro que o novo secretário desfrutava na Polícia Federal, na qual também há dificuldades, era de um paraíso de verbas de intendência e de efetivo de pessoal.

Certamente, o doutor Mallmann conversou sobre isso com a governadora e deve encarecer a ela imediatas providências para suprir pelo menos lentamente essas precariedades, sem o que, logo em seguida vão aparecer as dificuldades intransponíveis.
Sem falar nos vencimentos parcos dos policiais civis e militares, congelados praticamente há 12 anos, e na sufocação dos presídios.

A missão do novo secretário é árdua. Mas ele deve ter posto a governadora bem a par disso. A não ser que a proximidade do novo secretário com o ministro da Justiça inspire Tarso Genro a finalmente liberar verbas urgentes para a segurança pública estadual.

* Texto publicado dia 14/04/2007

É imprescindível proibir*

09 de janeiro de 2012 4

O escritor Luiz Antonio de Assis Brasil escreveu na ZH de domingo um brilhante e ousado artigo defendendo o cercamento do Parque da Redenção.

Segundo seu raciocínio, bombardeador do principal argumento dos contrários ao cercamento, “ só uma nação de pessoas livres permite-se cercar seus parques”.

E foi mais adiante: “ Num momento em que a natureza é tão escassa e ameaçada, torna-se importante delimitar o espaço em que esta mesma natureza pode e deve ser respeitada”.

E foi taxativo: “ Cercar um parque, cercar uma praça é sinal de amor à vida e de exemplo aos jovens”.

E exemplificou com a vandalização dos parques, o emporcalhamento dos pontos de ônibus e a brutalização diária e permanente dos orelhões.

*

Não é então urgente e obrigatório que se ponha um freio a este porre de liberdade dos vândalos e depredadores?

O que o artigo de Assis Brasil nos inspira é que a liberdade só pode ser alcançada se for reduzida e disciplinada a liberdade dos nocivos e inconvenientes.

Ele nos deu uma excelente lição: para se alcançar a liberdade, precisamos traçar limites, o direito de ir e vir se constrói inevitavelmente com barreiras e proibições.

Vibrei com o artigo do Assis Brasil porque desde o início desta luta em favor do cercamento da Redenção, há 35 anos, tento explicar que é preciso cercar o parque para que ele se mostre mais aberto e ofertante às pessoas bem comportadas da sociedade.

Chega a ser bestial o raciocínio de que se quer fechar o parque para impedir que as pessoas entrem lá.

*

Nada mais errado que aquela máxima triunfante no século passado: “ É proibido proibir”.

Na verdade, a prática civilizatória só se realiza com proibições.

Os dez mandamentos são um código de proibições.

O Código Civil, o Código de Defesa do Consumidor, todos os códigos humanos de comportamento se baseiam nos dez mandamentos e se restringem à proibição do mal.

O Código Penal clama para que não se mate, não se roube, não se agrida e se respeite a liberdade individual das outras pessoas.

*

Esses dias estava lendo que centenas, talvez milhares, de hotéis e pousadas do Nordeste proibem a entrada de crianças em seus interiores.

Pode haver ser mais doce que uma criança? Então como se atrevem os hotéis a proibir a hospedagem de crianças? E esses hotéis e pousadas ficam lotados exatamente por força dessa proibição.

Como diz o poeta: “ Criança bonita e meiga/ para os pais, anjo celeste/ para mim é uma peste/ que emporcalha de manteiga/ a calça que a gente veste”.

Explico: os casais e os idosos que são atraídos em massa para esses hotéis que não permitem a entrada de crianças vão em busca do descanso e tranqüilidade, que eles não encontram com o choro das crianças e suas travessuras.

*

Então é preciso frisar veementemente isso: o homem só se civiliza quando proíbe.

Como nesta onda mundial de perseguição ao cigarro: “ É proibido fumar”.

Por que é proibido fumar? Para que não seja agredida a liberdade de respirar em saúde e paz dos outros.

Assim também, paradoxalmente, cercar o parque significa abri-lo.

Porque sem cercas ele acabou fechado ou hostil ao público de bem.


* Texto publicado na página 47 de Zero Hora em 1º de março de 2006

Meu tango preferido

08 de janeiro de 2012 3

Prótese é qualquer aparelho que ajude ou aumente alguma função natural do corpo humano.

Estive pensando muito sobre próteses, debrucei- me atentamente sobre todas as suas nuanças, como Champollion no início de suas traduções dos hieróglifos de Ramsés.

Interessei-me por próteses assim com essa dedicação quando percebi que eu tinha três próteses que ajudam meus três sentidos: a audição, a visão, o gosto.

Ou seja, três sentidos essenciais meus são auxiliados por próteses: meu aparelho auditivo, meus óculos e minha dentadura da gengiva inferior.

Estou falando isso porque fui a Punta del Este sexta- feira passada para assistir ao show de Adriana Varela, famosa cantora argentina de tangos.

Lá estava eu na plateia lotada do Hotel Conrad para ver Adriana cantar.
Como me esqueci de portar meu aparelho auditivo, ouvia mal o início do show.
Esgueirei- me então entre os espectadores e fui sentar naquela escadinha que dá acesso ao palco.
Depois de cantar três tangos, Adriana avistou- me naquele canto e foi com o microfone falar comigo.
Perguntou o que estava fazendo ali, fora da minha poltrona.
Peguei o microfone e, em meio ao show, disse o seguinte à cantora:“ Sou brasileiro, mas um excêntrico brasileiro: talvez eu goste mais de tango do que de samba. E estou aqui nesta escadinha porque venero você: todos os dias, em meu carro, ouço o seu CD, cantando assim.”
E cantei o estribilho do tango Malena:
Malena canta el tango
Como ninguna
Em cada verso pone
Su corazón.
A yuyo del suburbio
Su voz perfuma
Malena tiene pena
Del bandoneón.
O público me aplaudiu, e Adriana Varela falou que cantaria a meu pedido o tango Malena.
Cantou, foi aplaudidíssima e eu saí do show com a alma lavada, tinha ouvido de perto um dos grandes ícones do tango, tinha aproveitado para cantar um pedaço de um tango e tive atendido um pedido meu pela grande cantora.
Quando terminou o show e voltei para minha mesa e para meu vermute, fiquei pensando que desta vez eu tinha me insinuado junto ao palco sem a finalidade de cantar.
E que, no entanto, o acaso fizera com que a cantora me visse e fosse falar comigo.
É evidente que então preparei minha fala de resposta à pergunta da cantora de forma a que eu pudesse cantar.
Fiz com maestria tudo isso, acabei conseguindo uma coisa de que gosto: cantar.
E estive perto, muy cerca, de um ídolo meu.
Meu golpe, pensando bem, foi de mestre.

Meu tango preferido Prótese é qualquer aparelho que ajude ou aumente alguma função natural do corpo humano.

Estive pensando muito sobre próteses, debrucei- me atentamente sobre todas as suas nuanças, como Champollion no início de suas traduções dos hieróglifos de Ramsés.

Interessei-me por próteses assim com essa dedicação quando percebi que eu tinha três próteses que ajudam meus três sentidos: a audição, a visão, o gosto.

Ou seja, três sentidos essenciais meus são auxiliados por próteses: meu aparelho auditivo, meus óculos e minha dentadura da gengiva inferior.

Estou falando isso porque fui a Punta del Este sexta- feira passada para assistir ao show de Adriana Varela, famosa cantora argentina de tangos. Lá estava eu na plateia lotada do Hotel Conrad para ver Adriana cantar. Como me esqueci de portar meu aparelho auditivo, ouvia mal o início do show. Esgueirei- me então entre os espectadores e fui sentar naquela escadinha que dá acesso ao palco.

Depois de cantar três tangos, Adriana avistou- me naquele canto e foi com o microfone falar comigo. Perguntou o que estava fazendo ali, fora da minha poltrona. Peguei o microfone e, em meio ao show, disse o seguinte à cantora:“ Sou brasileiro, mas um excêntrico brasileiro: talvez eu goste mais de tango do que de samba. E estou aqui nesta escadinha porque venero você: todos os dias, em meu carro, ouço o seu CD, cantando assim. E cantei o estribilho do tango Malena: Malena canta el tango Como ninguna Em cada verso pone Su corazón. A yuyo del suburbio Su voz perfuma Malena tiene pena Del bandoneón.

O público me aplaudiu, e Adriana Varela falou que cantaria a meu pedido o tango Malena. Cantou, foi aplaudidíssima e eu saí do show com a alma lavada, tinha ouvido de perto um dos grandes ícones do tango, tinha aproveitado para cantar um pedaço de um tango e tive atendido um pedido meu pela grande cantora.

Quando terminou o show e voltei para minha mesa e para meu vermute, fiquei pensando que desta vez eu tinha me insinuado junto ao palco sem a finalidade de cantar. E que, no entanto, o acaso fizera com que a cantora me visse e fosse falar comigo. É evidente que então preparei minha fala de resposta à pergunta da cantora de forma a que eu pudesse cantar. Fiz com maestria tudo isso, acabei conseguindo uma coisa de que gosto: cantar. E estive perto, muy cerca, de um ídolo meu. Meu golpe, pensando bem, foi de mestre.

*Texto publicado em 19 de janeiro de 2011


A Volta da Cobra

06 de janeiro de 2012 3

Eu conheço muito bem esta Vila Volta da Cobra, onde segunda-feira foi baleado e morto miseravelmente o menino Luís Alberto Campos, com apenas 15 anos de idade.

O pai do garoto não acredita no que aconteceu: “ Meu guri tinha completado o ensino fundamental, estudava espanhol e sonhava ser jogador do seu time do coração, o Internacional. Tudo acabou em uma fração de segundos. Nós estávamos jantando, ouvimos o rangido de pneus de um carro, três tiros e um grito. Era do meu filho. Estava no chão com um buraco na cabeça e o rosto ensopado de sangue”.

Pouco antes, na mesma Volta da Cobra, tinham alvejado a tiros um casal que andava de moto e baleado outro jovem. Os moradores da Volta da Cobra dizem que há dois adolescentes armados por ali, assaltando todo mundo.

Não era assim a Volta da Cobra quando eu tinha a idade do menino morto. A começar que não tinha uma rua central, como é hoje. Era uma estrada longa, que ia da Avenida Rócio, no Partenon, até além da encosta do Morro da Polícia, margeando a Coréia, que era um conjunto de malocas vizinho à Vila São José.
Nós, meninos, levávamos duas horas para percorrer a Volta da Cobra, que não era uma rua, mas uma estrada. Uma estrada bucólica, com selvas de cipós e o trinado musical dos pássaros. O único medo que sentia na bela travessia da Volta da Cobra e seus imensos bosques silvestres era o da solidão.

Até que o progresso, com sua desenfreada urbanização, tornou a Volta da Cobra uma rua e uma vila apinhadas de gente. Como rezam a física e a demografia, quanto mais gente se concentrar em um espaço determinado, maior o perigo que se corre nele. Este é um destino sinistro da civilização.

****

Eu tenho uma boa idéia para solucionar o problema criado com a proibição dos torcedores gremistas que não são sócios do clube de assistirem aos treinos do time no Olímpico.

Os sócios, como é do seu merecimento, continuariam assistindo gratuitamente aos treinos. E dos outros torcedores se cobraria um ingresso de pequeno preço. Ninguém ficaria sem direito ao acesso aos treinos do time de grandes contratações.

Democrático e justo. A R$ 1 por cabeça, o clube faturaria, valorizaria os treinamentos e os sócios se sentiriam recompensados ao não pagar.

Que mal há que o Grêmio cobre R$ 1 para assistir aos seus treinos, preço que o Amoretty cobrava dos torcedores para assistir aos jogos oficiais do Internacional?

Um real: não é uma comparação digna do valor dos dois espetáculos e dos astros que os protagonizam?

*Texto publicado em 27.01.2000