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Posts de abril 2012

Carroceiro odiado

30 de abril de 2012 3

Quando o Nílson Souza teve a idéia de me pôr para dentro de uma carroça e apurar jornalisticamente o que sentem os motoristas e os carroceiros quando se defrontam no trânsito a bordo de veículos tão discrepantes, fui pensando ontem na minha travessia coberta pela RBS que estava topando no trajeto com um mico-leão-dourado, um hipopótamo-pigmeu ou uma ararinha-azul.
Sabia que a carroça que eu iria dirigir pelas ruas da cidade é veículo em extinção, em breve expurgado da paisagem da Capital, como acontecera há décadas com o bonde.

Levantei às 5h30min e saímos no frio em direção à Ilha Grande dos Marinheiros, onde devem morar mais de mil carroceiros.
Se for assim, na Ilha da Pintada, onde dizem se concentrar o maior número, lá podem vir a ser 3 mil.
Por que os carroceiros se concentraram nas ilhas? Acho que sei: adivinharam que se fossem se enquistar na cidade, no continente, seriam depressa daqui enxotados, eles se constituem numa categoria profissional antipática, as pessoas comuns não os suportam, eles são de uma pobreza primitiva, sem salvação, e muitos deles maltratam os cavalos e se entregam ao furto e à embriaguez.
Por isso correram para as ilhas, separados da civilização, lá escondem suas misérias e seus defeitos.
E de lá só saem para recolher o lixo da cidade, um material que se coaduna com o seu aspecto miserável e repelente.
E também porque ficam perto do Centro.

O carroceiro que Zero Hora escolheu para me acompanhar em minha aventura, Teófilo Rodrigues Motta Júnior, 38 anos, seis filhos, é um homem doce e se expressa muito bem.
Ao olhar-se para seu cavalo, o Pretinho, vê-se pela disposição do animal que não é maltratado, e está ansioso e disposto para iniciar seu trabalho matutino.
E lá saímos da vila pobre da ilha, onde se amontoam os barracos precários como o de Teófilo e ingressamos na BR-116 em seguida, dando de cara com a primeira ponte sobre o Guaíba, um gargalo perigoso para uma carroça que não pode ali ser ultrapassada, tornando-se iminente um acidente provocado por motorista impaciente.

Quando, comigo aliviado, cruzamos a ponte, fui notar a primeira grande dificuldade para manejar as rédeas: carroça não tem espelho retrovisor.
E assim fica difícil derivar para a esquerda ou a direita, se olhar para trás, pode-se perder o controle sobre a direção da carroça, corre-se o risco de o cavalo tornear para um dos lados.
Outra dificuldade: para deixar livre e mais folgado o tráfego de carros na faixa contígua à calçada, é-se obrigado a trafegar com a carroça bem pela direita, correndo-se o risco de bater com o varal direito nos carros estacionados.
Atrás da gente, os caminhões e as jamantas buzinam e ultrapassam, qualquer indecisão nas rédeas pode significar um acidente grave: e os carros já são frágeis, imaginem uma carroça.

É uma vida dura e sacrificada a do carroceiro.
Ele consegue a muito custo catar grande quantidade de lixo todos os dias para ganhar R$ 600 a R$ 700 por mês e alimentar seus filhos com leite, pão, feijão e arroz e seu cavalo com milho moído, pastagem na cidade ou nas ilhas é rara.
Não tem férias, não tem fundo de garantia, não tem seguro-saúde.
Sua vida se compara à dos animais: resume-se somente em sair para a rua de dia e trazer comida para os filhos no ninho, à noite.
São odiados por muitos porque alguns patifes carroceiros maltratam seus animais ou os deixam desnutridos.
Mas a maioria dos carroceiros trata bem seus cavalos.
O Teófilo, que nos acompanhou, disse que, quando acabarem com as carroças, ele continuará vivendo com seu cavalo Pretinho, pelo qual se afeiçoou ternamente.
Não sei como poderá conviver com seu Pretinho, se acabarem com as carroças, se faltará comida até para seus filhos.
Se acabassem com minha profissão, não seria improvável que eu acabasse com minha vida.

*Texto publicado em 13/05/2008

Conversa entre gênios

29 de abril de 2012 0

Estava o Jô Soares entrevistando na última semana o Caetano Veloso.
Parei para ouvir, era uma entrevista que se prenunciava interessantíssima.
O Jô Soares é um grande ator de talk-show, ele fala inglês corretamente, toca pistom, tem apurado senso de humor, há 20 anos que assisto, todas as madrugadas, às entrevistas do Jô.
Eu só desligo a televisão e vou dormir quando o Jô Soares leva artistas ou diretores de teatro para entrevistas.
Aí não dá para agüentar.
Simplesmente porque eu não sou ligado em teatro, 95% da população brasileira não é ligada em teatro.
Então, eu não sei por que o Jô Soares gasta assim tanta pólvora em chimango.
Como quase que invariavelmente o Jô abre o seu programa com entrevistas sobre teatro, isso tem me feito dormir mais cedo.
Não dá para suportar.

No entanto, quinta-feira passada se encontraram no programa o Jô Soares e o Caetano Veloso, uma dupla talentosa do maior respeito.
Fiquei ouvindo e me deliciando.
Até que, estando torcendo eu para que eles abordassem o assunto Chico Buarque de Holanda, acertei na mosca: os dois passaram a abordar o Chico.
Foi quando fiquei sabendo que o Caetano Veloso tem a maior admiração pelo Chico Buarque.
Ele é vidrado no Chico Buarque.
Chegou até a passar a impressão de que gostaria de ser o Chico Buarque.

Em determinada parte da entrevista, eu fiquei sabendo pelo Caetano Veloso que o Chico Buarque é um grande improvisador, algo assim como era um outro gênio, o gaúcho Jayme Caetano Braun.
Era só dar o assunto para o Jayme Caetano Braun, que ele saía na hora fazendo versos sobre aquele tema, fosse na mesa do bar, numa reunião entre amigos ou mesmo no palco.
Esses poetas do improviso, muito comuns no Nordeste ou entre os trovadores gaúchos, talvez sejam a maior expressão da arte falada que se conheça, superior até àquela que julgo a maior de todas as artes: a oratória.
Pois além da oratória, os poetas de improviso constroem versos com a sua fala, empilham rimas, não há nada mais saboroso na face da Terra do que ouvilos.

Vai daí que o Caetano Veloso disse que o Chico Buarque é capaz de na hora, numa conversa, de improviso, construir a letra de uma música ou de um poema com o maior brilhantismo.
E a noção e memória de Chico Buarque sobre rima é um caso espantoso, disse o Caetano.
Chico é um poeta nato, congênito, miraculoso, deu-nos a entender o Caetano.
Eu não sabia disso, mas fiquei ainda mais abismado com o gênio de Chico Buarque, para mim, insuperável.

Depois, o Caetano e o Jô abordaram outro gênio.
E também tocaram no lado assombroso que sempre destaco a respeito de Noel Rosa.
Não é crível que tendo morrido com apenas 26 anos, o estro de Noel Rosa tenha sido tão fantástico como é a sua obra de mais de 300 gravações, algumas delas antológicas, como Gago Apaixonado ( samba do gago), em que ele construiu rimas gaguejando, Último Desejo, Feitiço da Vila, Palpite Infeliz.
Que gênio, o Noel Rosa.

Naquela que considero a melhor das músicas de Noel, ele se esmera de uma tal sorte na posição de um verso sobre o outro que ninguém até hoje o superou, nem o próprio Chico Buarque com A Rita.
Refiro-me à obra-prima de Noel chamadaConversa de Botequim, cuja primeira parte é um prodígio de brasileirismo e um conjunto preciosíssimo de expressões:

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo, um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto
A ficar exposto
Ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol.

Nunca vi nada igual.
Um portento, uma das sete maravilhas da música brasileira.
Notável.
Extraordinário.
O mundo é mais para os gênios.

*Texto publicado em 31/08/2008


Cobiça derruba muro

28 de abril de 2012 0

E u já tinha insinuado aqui que não via com bons olhos minha coluna sendo ocupada por interinos.
Pois agora se confirma o meu agouro: pouco tempo atrás, Fidel Castro afastou-se do poder, licenciado para tratar de sérios problemas de saúde.
Mais ou menos como eu, que seguidamente me interno em hospital para tratar de meus males corporais.
Pois bem, assumiu como interino, substituindo o irmão, Raúl Castro.
E agora o mundo inteiro se debruça sobre a notícia histórica: Fidel renunciou definitivamente ao poder, que será ocupado em caráter permanente por Raúl Castro.
Ou seja, o interino tomou o lugar do titular, o que sempre temi quando me afastei desta coluna.
E mais grave: se um irmão interino pode surrupiar o lugar de um irmão titular – Fidel Castro tem poucos anos menos de poder do que eu conto como escrevinhador desta coluna –, que dirá comigo, que o Moisés Mendes, o Alexandre Bach, ou outro qualquer de meus habituais interinos e interinas, que corvejam sobre minha coluna, não são meus irmãos de sangue, embora o sejam de causa e profissão? Não são meus irmãos sangüíneos e podem vir a me suceder no poder.
Evidente que o que eles mais desejam é isso.
Por isso é que, quando o Marcelo Rech, diretor de Redação de ZH, decidiu não me substituir por interinos nas minhas férias, escolhendo botar colunas antigas minhas no meu espaço durante minha ausência, fiquei mais tranqüilo.
Não há nada mais ameaçador para um colunista que ser substituído por um interino priápico, com todo o leite, ainda por cima talentoso.
Pois que vão capinar para arranjar colunas, como fiz na minha carreira de 36 anos de jornalismo.
Aqui não há lugar cativo para eles.
No máximo, servirão de meus flanelinhas, reservadores e preservadores da minha vaga.
É como eu tenho dito sempre: quando a vaga é boa, a gente nem sente vontade de tirar o carro.

Mais propriamente sobre Fidel e Cuba, quero afirmar que o povo cubano é feliz.
Porque lá todos são pobres.
E quando a gente não tem vizinho rico, não tem com quem se comparar com diferenças, mesmo sendo pobre, se é feliz, porque não há a quem invejar na ilha.
Povo insatisfeito é aquele em que há ricos e pobres, como no Brasil.
Há sempre um risco de conflito entre os que muito têm e os que nada possuem.
Mais que conflito, insatisfação dos pobres, inquietude às vezes perigosa.
No caso de Cuba, internamente, não há inveja de um cubano sobre os outros.
Todos têm tratamento gratuito de saúde, comida, racionada mas suficiente para aplacar-lhes a fome, educação que garante à maioria dos jovens cubanos o ingresso no nível superior.
A inveja lá é do plano externo, no fim do oceano está a rica Flórida, isto aguça a cobiça de uma minoria de cubanos que quer fugir e ir para lá.
Como aguçou durante décadas a cobiça dos alemães orientais, que fugiam ou tentavam ou queriam fugir para a Alemanha Ocidental.
Lá resultou na fusão das duas Alemanhas com a queda do Muro de Berlim.
Mais cedo ou mais tarde cai o muro de Cuba também.
Porque o capitalismo já provou que é invencível.

*Texto publicado em 22/02/2008

Carro que não acaba mais

26 de abril de 2012 3

Não foi por mim que escrevi na última semana uma crônica com preocupação profunda pelos engarrafamentos de trânsito em Porto Alegre.
Foi por piedade às almas penadas de milhares de motoristas que se acotovelam nos engarrafamentos.
Foi por compaixão das centenas de milhares de pessoas que andam de ônibus e concorrem nos engarrafamentos com os carros.
Há pessoas que levam até quatro horas – ou mais – presas no trânsito, por dia, gastando, só em transportar-se, metade ou mais do tempo em que se ocupam no trabalho.

Não há um levantamento em Porto Alegre a respeito, mas em São Paulo a velocidade média no pico da tarde de um carro diminuiu de 18 km/ h para 15 km/ h.
Imagine você comprar um carro para deslocar-se com mobilidade na cidade e ter de imprimir somente 15 km/ h! Os carros em São Paulo, pasmem, andam em velocidade média inferior à de um campeão da Corrida de São Silvestre.
E a velocidade tão lenta, que se assemelha à que uma galinha pode atingir.

A principal causa dos engarrafamentos em Porto Alegre é a mesma de São Paulo: a expansão da frota.
Por dia, são acrescidos à frota mil veículos, quase 400 mil por ano.
Não há cidade que suporte.
Agora mesmo, ficou ainda mais fácil comprar um carro novo, os prazos de financiamento se alongam a perder de vista: voltaram a ser vendidos carros com 80 prestações.
Os bancos e as financeiras, sem qualquer controle, oferecem carros em “ condições imperdíveis” e com “ pagamento só depois da Copa”.
Não importa que quem compre um carro com prazo de pagamento de 80 meses pague o dobro do preço real em juros.
Todo mundo se atira na compra de carros.

Lembro-me que anos atrás havia um celular para cada sete habitantes do Brasil.
Agora, o número de celulares no Brasil é maior que o número de habitantes.
O mesmo está acontecendo com os carros: hoje, já existe no Brasil um carro para cada sete habitantes.
Em breve, o número de carros vai encostar no número de habitantes e eu não sei o que será do trânsito nas cidades.

Essa licenciosidade é de uma irresponsabilidade gigantesca dos governos: não podiam liberar a venda de carros sem abrigo deles na malha viária das cidades.
Além disso, a gravidade maior de todas.
Um veículo obrigado a fazer a média de 15 km/ h no trânsito ou a média de 2 km/ h nos engarrafamentos gasta de duas a cinco vezes mais combustível do que em fluxo dito normal.
Ou seja, ninguém calcula, mas todos nós, que somos vítimas dos engarrafamentos, pagamos duas ou três vezes mais por combustível do que deveríamos pagar.

Para amortizar os efeitos da expansão da frota, em Porto Alegre teria de ser construída uma Avenida Ipiranga por mês.
No entanto, a malha viária permanece a mesma há vários anos e são despejados milhares de carros por ano na frota já esgotada.

Em São Paulo, tentam atenuar os engarrafamentos com obras.
A partir do mês que vem, serão inaugurados três empreendimentos de grande porte: a alça sul do Rodoanel, a primeira fase da ampliação da Marginal Tietê e a linha 4 do metrô.
E aqui em Porto Alegre? Absolutamente nada.
Absolutamente nada.
Vai quebrar.

*Texto publicado em 07/03/2010

Uma chaga inesquecível

24 de abril de 2012 2

A Casa Branca divulgou na quinta-feira os mais eloquentes memorandos governamentais sobre as técnicas de interrogatório a presos de guerra, aconselhadas para obter confissões dos prisioneiros depois da queda das duas torres gêmeas.
É com certeza uma das mais perversas chagas do regime democrático norte-americano, proclamado como o menos imperfeito do mundo.

Uma das técnicas de interrogatório permitidas e oficialmente aconselhadas pelo governo americano é a “ simulação de afogamento”.
É bom que se frise que só era simulação para os torturadores.
Porque os presos não podem saber que é uma simulação lançá-los ao mar, amarrados, mantendo-os submersos, para içá-los quando seus pulmões estão prestes a estourar.
Depois dessa tortura cruel, ante a possibilidade de voltarem a ser submetidos a elas se não confessassem o que pretendiam os verdugos, os presos obviamente cediam aos torturadores, declarando o que eles bem entendessem.

É impressionante o rol de torturas autorizado pelo governo.
Os interrogadores tiveram licença para jogar água sobre os suspeitos, confiná-los em caixas para dentro das quais eram jogados insetos que picavam os torturados.
Imaginem uma pessoa presa dentro de um cubículo estreito, submetida à sanha de insetos picadores.

Além dessas práticas, foram autorizados “ tapas de insulto”.
Ou seja, insistentes tapas no rosto e no abdome do suspeito, com o fim de minar-lhe a estrutura moral.
Outra submissão oficializada pelo governo Bush era a colocação do suspeito em posição estressante, por oito horas a fio, qual seja apoiado a uma parede, em posição de revista.
Outra técnica de interrogatório severo era submeter os presos a ambientes com altas temperaturas, verdadeiros simulacros dos fornos crematórios em que foram mortos os judeus na II Guerra Mundial.

Os memorandos autorizavam os torturadores a mesclar os diversos métodos de tortura, com a finalidade de obter os resultados mais eficazes.
Um dos memorandos foi muito claro ao autodeclarar-se como autorização legal para o uso daquelas técnicas de interrogatórios propostas pela CIA.

A tortura existe desde os primórdios do homem sobre a Terra.
O que aturde o mundo civilizado é que em pleno século 21 a maior nação do mundo tenha criado um código oficial de torturas, permissivo e autorizativo, não só com o beneplácito mas com a marca autoral do governo norte-americano.
Na relação das torturas que deviam ser infligidas aos prisioneiros, estão carimbadas as impressões digitais do governo Bush, o que por si só poderia levar o ex-presidente ao banco dos réus de qualquer tribunal internacional de penas.

Não me sai da cabeça esse episódio como uma das maiores chagas que foram presenciadas pela humanidade nos últimos tempos.
Barack Obama decidiu que não irá processar os torturadores, até mesmo porque eles receberam ordens do governo para torturar, o que ocasionaria imensas discussões sobre a obediência fiel a descaraterizar as culpas.
Mas Bush não foi obediente a ninguém, pelo que tinha de ser julgado por essas nojentas monstruosidades.

*Texto publicado em 19/04/2009

Floreando o galo

23 de abril de 2012 0

Tantas crianças e menininhas invadindo aqui a redação no dia de ontem, todas querendo tirar fotos comigo, queridinhos, sei lá por que gostam de mim, o que será que vêem em mim? Era uma pequena multidão de anjinhos, todos sorridentes, foram se chegando na redação, visitando as instalações, mas, em meio à azáfama, afetavam às mães que queriam tirar uma foto com o Paulo Sant’Ana.

Uma menina de dois anos, chamada Fernanda, apontou para meu peito: “ Eu vejo tu na televisão” ( as crianças adoravelmente não declinam os pronomes oblíquos).
São todas crianças alegres, ainda não lhes assustou nenhum fantasma da vida real, para elas a existência é um encantamento, exatamente porque não sabem o que é futuro, nem lhes pesa qualquer remorso do passado.
O garoto Juan, de seis anos, abriu um sorriso e me perguntou: “ Posso te dar um abraço?”.
E eu me envolvo no mistério do carinho de todos.
Não sei o que vêem em mim, mas, se por qualquer forma sou derivativo da infância delas, me satisfaço.

Depois de escrever uma coluna como aquela de ontem, deveriam meus superiores me conceder 90 dias de férias.
Nada igual ao que fiz ontem, quando me referi às hienas de jazigo, farei igual nos próximos 90 dias.
É aquele momento em que o colunista acerta na veia, depois de tanto tentar durante muito tempo.
Antes da publicação, quando a coluna ainda posava de larva no meu cérebro, chamei a atenção do David Coimbra e do Moisés Mendes para o que meus neurônios estavam elaborando.
Há colunas que vão fazer sucesso e a gente nem percebe que isso acontecerá.
Mas há colunas, como a de ontem, quando defendi a privacidade da memória do médico Marco Antonio Becker, em que a gente pressente que acertará em cheio no alvo.
Depois que se pressente, é só ajustar as letrinhas.

O mais importante numa coluna é a idéia.
Sem ela, ficamos horas tontos, sem iniciativa, sem nexo causal, penetramos num vazio de náusea.
Quando se alcança a idéia, quando surge a inspiração, o restante é só tarefa de artesanato.
A idéia é o grande clarão transbordante de luz para o processo de criação.
Imagino que os grandes quadros dos grandes pintores só começam a ser esboçados quando já sobreveio a idéia ao artista.
Já capturada a idéia, é mais fácil pincelar.
A idéia de que a vítima estava sendo esquartejada pelos boatos e de que se verificava então um segundo assassinato foi uma bela sacada.
Uma vez escrevi aqui, evidentemente que não a respeito de mim, que gênio é aquele que primeiro descobre o óbvio.
Investigar a vítima num caso de assassinato é um procedimento óbvio e indeclinável.
O que eu humildemente acho perigoso é que se enseje concluir que a vítima de assassinato afinal merecia o fim que teve.

Mas eu estou apenas driblando o leitor porque é impossível a qualquer colunista fazer duas colunas brilhantes consecutivas.
Nesta de hoje estou só floreando o galo.
Se a coluna de ontem terminou como um banquete oferecido ao leitor, a de hoje talvez consiga somente se constituir em um licor.

*Texto publicado em 11/12/2008

Tristeza sem bússola

22 de abril de 2012 0

Quando outro dia tentei discernir sobre a diferença entre tristeza e depressão, tive o cuidado de não usar a palavra “ melancolia”, que achei perigosa.
O Moacyr Scliar, com a autoridade de quem ameaça se tornar imortal, prestes a ingressar na Academia Brasileira de Letras, me acode: “ Melancolia também deve ser diferenciada de depressão, tal como esta é atualmente diagnosticada pelos médicos: um quadro clínico e psicológico para o qual concorrem fatores biológicos, freqüentemente genéticos, e agravos de natureza psicossocial”.
Mas já para o psiquiatra gaúcho Vitor Rodrigues não se distingue a melancolia da depressão: “ O paciente melancólico sente uma profunda perda do amor-próprio, acompanhada de auto-acusações, remorso e culpa.
Na melancolia, que se relaciona diretamente com a depressão, existe a perda – total ou parcial – do sentido de realidade, de tempo e de espaço”.

O que parece indiscutível é que há diferença entre a tristeza e a depressão.
Vitor Rodrigues confirma inteiramente a tese esposada por este colunista no outro dia: a de que o triste conhece o motivo da sua tristeza, enquanto o depressivo se debate sobre as razões de sua prostração.
Pois afirma: “ Se disse que a melancolia é a tristeza sem bússola.
Esta é uma imagem apropriada, pois na tristeza se percebe um sentido, uma direção; há um passado, um presente e um futuro”.

Na coluna anterior sobre o tema, surripiei a palavra “ melancolia” exatamente por estar inclinado a entender que depressão nada mais é do que os antigos chamavam de melancolia.
É que a minha definição sobre depressão, embora literária, mantenho-a firmemente, embora não seja bem uma definição, mas a essência do suporte sintomático que garante o diagnóstico: a mais completa incapacidade de sentir qualquer prazer – isto para mim é a depressão.
Já não tenho mais qualquer dúvida sobre a sinonímia entre melancolia e depressão, discordando do Scliar: é que um dos mais monumentais versos do meu poeta preferido, Augusto dos Anjos, trata da questão: “ Melancolia, estende-me tua asa/ és a árvore em que devo reclinar-me/ e se algum dia o prazer vier procurar-me/ dize a este monstro que fugi de casa”.

No tempo de Augusto dos Anjos, não existia a palavra depressão para o sentido que se dá a ela hoje.
Mas existia a doença.
Que se caracteriza também pela fuga total da sociabilidade, pela renúncia ou rejeição a qualquer ambiente agradável.
Parece ser claro que melancolia e depressão tendem a ser a mesma coisa.
Já a tristeza continua se diferenciando da depressão pelo fato de que quem sente tristeza está “ chateado”, mas segue em frente.
Enquanto o deprimido estaca, nada o demove a seguir o caminho.
E não raro vai além de estacionar e passa a caminhar para trás.
O triste é por alguma forma um enlutado, tem consciência de que seu mal pode findar, até pelo esquecimento.
Já o deprimido não acredita em mais nada, como diz o Vitor Rodrigues, quando tentamos alegrálo, levá-lo para locais de lazer ou insistir que ele se ajude, aumentamos seu mal-estar e causamos-lhe irritação.
O triste vai até a bilheteria da gare e adquire passagem para a felicidade.
O deprimido – ou melancólico – se recusa terminantemente a embarcar no trem.

*Texto publicado em 07/04/2003

Amor de mãe

21 de abril de 2012 0

C omo perdi minha mãe quando tinha apenas dois anos de idade, guardo uma idéia vaga do que seja uma mãe.
Mas sinto uma profunda inveja do amor que assisto aos outros dedicarem às suas mães.
Todos me deixam a impressão de que é de tal forma indispensável contar com uma mãe durante a vida, que me autocompadeço da minha sorte.

E fico atribuindo todas as minhas hesitações, erros e culpas à falta gigantesca dessa bússola na caminhada difícil que empreendi da meninice até aqui.
Deve ser por isso que tropecei tanto, que cambaleei, que tantas vezes me faltou coragem e ambição, que tantas vezes achei a vida sem sentido, que desconfiei terrivelmente de não ser capaz tanto de amar quanto de ser amado, de ser assaltado com freqüência da dúvida sobre a existência de Deus e da certeza de que o mal detém tantos poderes sobre os homens quanto o bem.

Deve ter sido por ter-me faltado essa noção básica de origem e vínculo que vaguei tonto por tantos períodos da minha vida, mergulhado na aflição de não saber de onde vim e nem para onde vou, órfão de orientação e de consolo, sem ter quem cuidasse com zelo das minhas roupas e dos meus sapatos e alguém que me esperasse sempre em sobressalto até que eu voltasse para casa.
Deve ter sido por isso que sempre olhei com desconfiança, que me envergonha, todas as pessoas que circunstancialmente foram por mim escaladas ou se escalaram para substituir a minha mãe.
Ninguém teve qualquer culpa, mas jamais foi preenchido o vazio do desaparecimento da minha mãe.
O preço que afinal paguei por esta desgraça foi o frio gélido da solidão.

Se ela não tivesse morrido quando eu tinha apenas dois anos, é quase certo que hoje não mais existisse.
No entanto, se a tivesse conhecido, eu me arremessaria com entusiasmo e otimismo para os embates da vida, encorajado pelas lembranças nítidas da nossa convivência, pelas recordações dos seus amparos e dos seus perdões, pelas vezes infinitas em que me protegeu e me guiou, pela certeza de que se algum dia eu fosse repelido, desprezado e amaldiçoado por todos à minha volta, em nada isso me abalaria quando me atirasse ao remanso doce dos seus braços absolutórios.

Assim, sem tê-la conhecido, falta-me a noção do seu vulto e da sua missão, embora perceba claramente que foi a imensidão da sua ausência a causa deste desesperado desalento que me causam as manhãs quando me levanto e do ímpeto de desistência de que impregno as noites quando me recolho.

Acho que sei o que comemoram neste Dias das Mães todas as pessoas que têm mães ou que conheceram as mães que vieram a perder: festejam o esplendor de serem amadas ou de terem sido amadas por uma pessoa única e insubstituível que nada lhes cobrou por amá-las tanto e definitivamente, pelo contrário, pagou-lhes com sua vida dedicada o amor desinteressado que lhes devotou.

*Texto publicado em 08/05/2005

Kit antiassédio

20 de abril de 2012 0

O pressuposto básico do assédio sexual é o encurralamento da vítima.
Só se caracteriza o assédio sexual quando não restar outra alternativa para a vítima, diante da coação partida do acusado, que não seja ceder.
O assédio sexual é uma espécie de tentativa de estupro social.
É um drástico e grave excesso do cavalheirismo e da galanteria.
Mas parece que precisa ficar caracterizada no assédio a moeda de troca: o assediador tem de prometer à assediada, expressa ou tacitamente, que irá favorecê-la por uma sua ação ou omissão.

Quando houver quatro homens e uma mulher para viajar num carro e se quiser evitar o assédio sobre a mulher, deve-se evitar que a mulher sente no banco de trás: ela fica muito vulnerável naquele aperto. O melhor é conceder que a mulher viaje ao lado do motorista, que ocupado com o volante terá muito menores chances de molestá-la. Uma mulher espremida entre dois homens no banco de trás é um convite ao assédio sexual.

Começa que as seis pernas haverão de fatalmente se tocar.

Convém à mulher que viaje espremida entre dois homens no banco de trás o uso de equipamento anticontato, recomendando-se tornozeleira, joelheira ou até mesmo aquelas extensas e sólidas caneleiras usadas pelos jogadores de futebol debaixo das meias.
Com esse aparato, a mulher que viajar prensada entre dois homens no banco de trás de um carro ficará imune à pressão física e terá a vantagem de também poder resistir à tentação.

Se, no entanto, os dois homens que estiverem sentados no banco de trás, ou um deles, possuírem antecedentes de assédio sexual, não bastam apenas essas barreiras de proteção das pernas da mulher.

Para descartar totalmente a possibilidade do assédio sexual, uma vez que é presumível que o assediador do banco de trás não se contentará com o entrechoque das pernas e avançará sobre o planalto da vítima, podendo tentar beijarlhe as orelhas e o pescoço, convém o uso de equipamentos de proteção especializada.

Para evitar o beijo na orelha, a mulher deve equipar-se desses capacetes que usam os motoqueiros, isso inibirá completamente o assediador de arremessar ósculos sobre os pavilhões auditivos da vítima.

Se ainda assim o pescoço da mulher ficar a descoberto, por ser zona altamente erógena, por isso apetecível ao assediador, é recomendável o uso pela mulher de um colar cervical, esse tipo de colete que as pessoas usam no pescoço para acertar desajuste na coluna.

Não existe nada mais antierótico que um colete cervical.

É capaz de espantar ou desanimar até mesmo um vampiro.

Com as transformações modernas, com a mulher tendo de sair de casa para trabalhar, estando quase sempre sob a chefia de homens, algumas cautelas têm de ser tomadas por elas. Depois que incrivelmente na passagem do século as cantadas masculinas sobre as mulheres evoluíram para a condição de assédio sexual, ilícito penal ou moral, é aconselhável que as mulheres tragam sempre dentro de uma bolsa um kit antiassédio, com todos os instrumentos acima descritos e mais alguns para eventos radicais.

Por exemplo: spray de pimenta ou de gás paralisante e cinto de castidade só em penúltimo e último caso, quando nada mais contém o assediador.

*Texto publicado em 20/05/2004

A modéstia

19 de abril de 2012 1

Modéstia A inda sobre os melhores momentos desta coluna.
Certa vez, escrevi: “ Diz o Gênesis que Deus fez a mulher da costela do homem.
Carne de segunda! Carne de segunda!”.

Outra vez escrevi: “ No dia 15 de junho de 1939, morria em Londres o maior psiquiatra da humanidade: Sigmund Freud.
No mesmo dia, mesmo ano, mesmo mês, nascia na Rua João Alfredo, em Porto Alegre, Francisco Paulo Sant’Ana, também chamado de Pablo.
Foi apenas uma passagem de bastão”.

Achei espetacular a piada que o leitor Luiz Carlos Melo, o Melinho, mandou para mim: O sujeito finalmente conseguiu realizar o seu sonho de comprar um Audi A4 1.8T, automático, conversível e blá, blá, blá…
Então, numa bela tarde, se mandou para uma auto-estrada para testar toda a capacidade da “ belezura”.
Capota abaixada, o vento na cara, o cabelo voando, resolveu ir fundo! Quando o ponteiro estava chegando aos 120, ele viu que um carro da Polícia Rodoviária o perseguia com a sirene a mil e as luzes piscando.
“ Ah, mas não vão alcançar este Audi de jeito nenhum”, pensou ele e atolou o pé no acelerador.
O ponteiro foi pros 140, 160, 200, e a patrulha atrás.
“ Que loucura!”, ele pensou e, então, resolveu encostar.
O guarda veio, pediu os documentos, examinou o carro e disse: “ Eu tive um dia muito duro e já passou do horário do meu turno.
Se me der uma boa desculpa, que eu nunca tenha ouvido, para dirigir desta maneira, deixo você ir embora”.
E o sujeito emendou: “ Na semana passada, minha mulher fugiu com um policial rodoviário e eu tive medo de que fosse ele querendo devolvê-la”.
“ Boa noite!!!”, disse o guarda.

O Mauro Saraiva Jr., repórter que fala do helicóptero da Rádio Gaúcha, citado na semana passada por esta coluna, imediatamente após ser citado, recebeu 1.048 e-mails e 363 torpedos em seu celular.

Não foi possível a ele responder a todos.

Ficou impressionado até a estupefação com o índice de leitura desta coluna.
Ele nunca foi tão procurado pelo público.
Veio correndo me contar tudo isso e me deu um abraço.
Recebi o abraço com a resignação discreta dos modestos.
Recebo de uma aparentemente aflita veranista: “ Paulo Sant’Ana, sou veranista do balneário de Mariluz ( Imbé) há mais de 40 anos, e sempre teve dois salva-vidas em cada guarita.
Este ano, a nossa querida governadora tomou a seguinte decisão: uma guarita tem um salva-vidas, a outra não tem nenhum.

A seguinte tem mais um, a outra não tem nenhum.
E assim por diante, até o fim das praias.

Como isso é possível? Cortar salva-vidas das praias, se o índice de afogamentos é grande e agora, com essa medida, com certeza vai aumentar? Noutro dia, um jovem estava se afogando, tivemos que fazer uma corrente humana para puxar o rapaz.
Como podemos continuar convivendo com esses absurdos que nossa governadora faz? Simplesmente ela brinca com a população.
Por favor, peço que mencione em sua coluna esses fatos que mais uma vez envergonham nosso Estado.
Obrigada…
saudações gremistas ( ass.
Marcia Kopczynski)”.

Vai estourar

18 de abril de 2012 2

O programa Polêmica, da Rádio Gaúcha, que vem sendo apresentado pelo André Machado, anteontem abordou a questão penitenciária, fazendo a seguinte pergunta a seus ouvintes: você é a favor da repressão ou de programas de recuperação dos presos nos presídios? Pois, como eu esperava, 77% dos ouvintes que ligaram se manifestaram a favor da repressão aos presos e somente 23% foram a favor de programas para recuperação dos detentos.

É enraizada na população a crença de que os presos têm de ser tratados com a máxima energia dentro dos presídios e que não lhes seja concedido o menor tratamento humanitário, devendo para a opinião pública sofrerem os piores tratos e vegetarem sob as mais precárias condições dentro de suas celas.

Só que a população não sabe – ou apenas finge não saber – que isso já acontece nos presídios, enquanto paralelamente as ruas estão entregues ao crime desabalado e a população dominada pelo medo concreto ou plausível de a qualquer momento vir a ser atacada por bandidos no seu cotidiano ameaçado.

Os debatedores do programa Polêmica de anteontem eram todos pessoas ligadas atualmente à área prisional ou que já passaram pelo setor.
Havia promotores, juristas e até o doutor Airton Michels, exsuperintendente dos Serviços Penitenciários.

Foram unânimes ao declarar que, em cadeia superlotada, o Estado perde completamente o controle sobre a vida dos presos dentro das galerias, apenas barganhando com eles sua condição de sobrevivência.

Ou seja, em cadeia superlotada, a administração do presídio delega para os presos o controle ambiental e administrativo da prisão.

Os presos se organizam e passam a obedecer a um líder ou “ prefeito”, que se cerca de auxiliares que tratam de fazer viger entre eles uma série de normas comportamentais, que vão desde a alimentação, passando pela organização do sono e da vigília, higiene dos recintos, distribuição de cigarros e de drogas conforme o poder aquisitivo de cada um ou de seu prestígio junto ao “ comitê executivo”.

A moeda de troca para as benesses ou para as satisfações mínimas das necessidades individuais são o dinheiro, as drogas e os cigarros, mas principalmente a violência empregada para subjugar os mais fracos e privilegiar os poderosos.
O Juizado de Pequenas Causas ou de Severos Castigos é todo ele integrado por presos ligados ao poder em cada galeria.

A sociedade toda finge que não sabe disso.

O Presídio Central de Porto Alegre é hoje uma das duas maiores cadeias superlotadas do país.
Sua população gira atualmente em torno de 4 mil apenados, em instalações que poderiam só abrigar 1,5 mil detentos.

Pode-se imaginar como vivem os presos do nosso Presídio Central, amontoados uns sobre os outros, num ócio total, o que presume que devem se entregar somente à competição diuturna de uns se prevalecerem sobre os outros com métodos de servidão e vassalagem que são estendidos até à mais deprimente pederastia, através de união estável entre parceiros ou poligâmica e eventual.

Os mais fracos não têm vontade, só obedecem aos mais fortes ou mais influentes junto à cúpula, silenciados definitivamente pelo medo e pelo terror.

Torce-se apenas pelo lado de fora das galerias e naturalmente pelo lado de dentro que os detentores do poder administrativo sobre os recintos sejam pessoas justas e equânimes, o que pelas condições culturais dos envolvidos e pelas condições lúgubres do ambiente é praticamente impossível, raro.

Por enquanto, o Presídio Central é apenas um barril de pólvora pronto a explodir.
Mas os candidatos ao cargo de governador do Estado nas próximas eleições vão ter de declarar como resolverão esta questão de 4 mil presos num lugar em que só cabem 1,5 mil.
E todo dia sobe a população, que vive como ratos em esgotos.

Dá para dizer, como as autoridades e estudiosos depõem que são os presos que administram o Presídio Central, que por enquanto a administração da cadeia vem sendo “ ótima”.
Mas vai estourar.

*Texto publicado em 15/07/2006

O abismo da idade

17 de abril de 2012 4

E ntre todos os tipos de cartas que recebo, o que mais me tem comovido nesses quase 40 anos de jornalismo é o daquelas pessoas que se declaram desempregadas, não há forma de conseguirem emprego, atribuindo claramente isso ao fato de terem em torno de 50 anos de idade.
Corta o coração ver pessoas que estão no auge de sua capacidade produtiva, que ostentam experiência profissional invejável, e no entanto são recusadas no mercado de trabalho somente por terem em torno de 50 anos de idade.
São chefes de família que têm o encargo do sustento de sua mulher e filhos, que ficam a rondar durante anos os departamentos pessoais das empresas, oferecendo-lhes seus currículos, na esperança dramática de serem aceitos para trabalhar, mas batem nos rochedos rudes do preconceito etário, a maior de todas as barreiras da nossa sociedade.

Recebi uma carta de um desses cinqüentões que me dilacerou o coração.
Ele já trabalhou como executivo em algumas das principais empresas do nosso Estado, inclusive multinacionais, já foi professor universitário, é pós-graduado e fluente em espanhol.
Nos últimos 18 meses, tem enviado currículos às empresas, respondido a ofertas de anúncios classificados, conversado com amigos e agências de empregos.
E nada.
Enquanto isso, vê pelos jornais serem batidos sucessivos recordes do nível de emprego com carteira assinada.
Vê as empresas declararem que os portadores de deficiência são bem-vindos.
E o número de empregos para jovens aumenta a cada dia.
E assiste surpreso aos profissionais de recursos humanos alegarem que não encontram mão-de-obra qualificada.

Só não enxerga no seu horizonte onde estão as vagas para os profissionais mais experientes e versáteis, para os que possuem maior capacidade de entender o mercado e potencial de gerar resultados de forma mais rápida e consistente para as empresas.
Criou-se um “ buraco” em nossa sociedade, onde por um lado aumenta a idade para a aposentadoria e por outra face não se dá oportunidade para que as pessoas cheguem a essa idade trabalhando e gerando riquezas.
Esse homem que me escreveu já vê se esgotarem todas as suas reservas financeiras e emocionais.
Ele diz que se avizinha o momento em que, para continuar vivendo e mantendo a esperança, terá de considerar a venda de um patrimônio que lhe reste e que levou uma vida inteira de trabalho para adquirir.
Ele continua tentando, embora as esperanças sejam cada dia menores.

Todas as cartas que recebi desse tipo de pessoas nos últimos decênios tinham as mesmas características; são recusadas no mercado de trabalho por não serem jovens, embora tenham todas as condições de produtividade de um jovem, sem contar a experiência.
Num tempo em que a expectativa de vida aumenta no Brasil, recusar pessoas que tenham em torno de 50 anos de idade no mercado de trabalho é uma crueldade incomparável.
Mas esse preconceito é surdo e não admitido pelos seus autores.
Quando topo com esses dramas pessoais chocantes, estrago meu dia e mergulho em desilusão.
Vou dar apenas o e-mail desse homem desesperado que me escreveu.
Quem sabe, ele possa emprestar sua capacidade de trabalho a alguém que o aceite.
Ele só quer trabalhar.
E só quer trabalhar se o julgarem útil, o que ele tem certeza de que é.
Seu e-mail: profissional50@ gmail. com.
Sabe lá se não foi providencial que ele me escrevesse.

Hoje é um dia de festa para todos os amigos do Maurício Estrougo.
Acontece que ele está comemorando 50 anos de idade.
É claro que a data festiva é dele, mas é muito mais dos seus amigos, que têm o privilégio de conhecê-lo, de privar com a delicadeza dos seus gestos, da sua simpatia irradiante e da forma afável e bemhumorada com que preside suas amizades.
Hoje, o Maurício Estrougo comemora meio século de estreitas e profícuas relações de cordialidade com os seus amigos.
Um abraço, companheirão.

*Texto publicado em 05/07/2008

Natureza desigual

16 de abril de 2012 2

H á poucos dias, escrevi sobre as diferenças pessoais, uns nascem ricos, outros pobres, uns nascem feios, outros bonitos, uns nascem ou se tornam gordos, outros magros, esbeltos, elegantes.
Isso faz uma diferença muito grande, embora alguns, com talento e/ ou esforço a superem.

Mas eu hoje quero falar sobre a diferença na natureza.
É que comparando o Rio Grande do Sul com Santa Catarina, a gente é obrigado a considerar que levamos de goleada em beleza natural, não dá nem para querer disputar com Santa Catarina.
Eu não sei de onde a criação tirou tanto talento para dotar as terras catarinenses de tanta beleza, praias luxuriantes, cercadas de matas, de cerros, de pedras lindíssimas, de rochedos, lagoas, rios, córregos, um cenário de beleza incomparável.
Eu já disse que quando o Grêmio foi campeão mundial em Tóquio, em 1983, não pude assistir à maior festa tricolor de todos os tempos, a chegada a Porto Alegre dos heróis da grande façanha, porque tinha marcado passagem para conhecer o Havaí, que conheci então, embora o remorso de não estar aqui junto com as 300 mil pessoas que foram receber o Grêmio no aeroporto e nas ruas de nossa cidade me corroa até hoje.

O Havaí é um arquipélago de seis ilhas.
Eu só visitei uma delas, Oahu, capital Honolulu.
Fiz a volta da ilha havaiana de barco e fiquei extasiado com a beleza natural das matas e das praias.
Voltei para Porto Alegre e no dia seguinte fui para Florianópolis.
E fiz a volta de barco pela Ilha de Florianópolis, quando novamente me quedei extasiado.
As duas ilhas são exatamente iguais em gritante beleza natural.
Quer dizer, Santa Catarina foi brindada com a graça dos deuses, é disparado um dos lugares mais bonitos do planeta.
Não dá para comparar com o Rio Grande do Sul, que tem só Torres como tímida reação a esta supremacia catarinense.
As nossas praias não têm água do mar cálidas como as tantas que podem ser encontradas no litoral catarinense.
Águas quentes e cristalinas.
Aqui, se você se arriscar a tomar um banho de mar em Tramandaí, apanha uma pneumonia.

Mas o que me interessa é a causa desequilibradora de Deus ter feito lugares tão bonitos e lugares tão feios na face da Terra.
Por quê? O povo gaúcho é bom, é hospitaleiro, é inteligente, dizem que é o mais politizado do Brasil.
Se tivéssemos, além disso, uma natureza formosa, seria uma demasia pedir isso a Deus?

Além disso, Santa Catarina tem uma riqueza que para o meu apetite e para o meu paladar é fundamental e imprescindível: o camarão.
O camarão é a maior delícia gastronômica do mundo.
Mas o camarão, para ser de notável sabor afrodisíaco, tem de ser fresco.
Tem de ter sido pescado há menos de 24 horas.
E em Santa Catarina o camarão vai morrer na panela.
Isto, o camarão exala seu último suspiro na panela, em Santa Catarina.
Comer camarão que já foi congelado é como fazer amor de camisinha.
Não há, portanto, um lugar mais belo e mais palatável na cozinha do que Santa Catarina.
Confessemos que nós, gaúchos, e os uruguaios e os argentinos morremos de inveja de Santa Catarina.
Deus foi benigno com Santa Catarina.
E fez uma ursada conosco.

*Texto publicado em 01/03/2008

Gaúcha Hoje

16 de abril de 2012 1

Ouça o comentário de Paulo Sant’Ana no programa Gaúcha Hoje desta segunda-feira, 16/04/2012.

Os hospitais

15 de abril de 2012 3

Deve ser pelas minhas reservas humanistas que tenho particular afeição sobre o tema hospitalar.
Há duas questões que me interessam vivamente, como devem notar meus leitores e leitoras: a hospitalar e a prisional.
Foi por isso que vibrei intensamente ontem com a notícia de que foi escolhido pelo prefeito Jairo Jorge de Canoas o Hospital Mãe de Deus como o novo administrador do complexo hospitalar da Ulbra, que como se sabe tinha ido para o espaço por conta de dívidas milionárias.
Eu conheço a capacidade do Mãe de Deus para gerir hospitais.
Não é, doutor Alberto Kaemmerer?                                                                                                                                                                   Mas, quando escrevi sobre a oferta radiofônica da Santa Casa de Rio Grande para operar a quem bem quiser pelo SUS, gratuitamente, acrescentando que a Santa Casa de Rio Grande está adquirindo equipamentos importados no valor de R$ 20 milhões, com a finalidade de ainda melhor atender os pacientes do SUS, eu adivinhara que viriam de Rio Grande críticas ao hospital.
E vieram: tenho em minhas mãos uns seis e- mails de rio- grandinos queixando- se de mau atendimento ou recusa de pacientes pela Santa Casa de Rio Grande.
Há também reclamações sobre a higiene do hospital, mormente nos banheiros.
Registro essas esparsas queixas por dever profissional.
Eu sou cobra criada em matéria hospitalar.
Sei, por exemplo, que por mais modelar que seja um hospital, sempre haverá queixas de pacientes contra ele.
É que a expectativa de quem está desesperado, recolhido a um hospital, é de que seu atendimento seja o ideal.
E muitas vezes pode não ser ideal.
E dói muito mais a um paciente, em face disso, qualquer mau atendimento que se dê num hospital do que dói a um cliente um mau atendimento em um restaurante.
O hospital é sempre um bazar de porcelanas e cristais.
Quem entra nele sempre carrega consigo o potencial de um elefante demolidor.
Mas Zero Hora, impressionada com os anúncios da Santa Casa na Rádio Gaúcha, oferecendo- se para cirurgias em massa pelo SUS, já está providenciando uma reportagem sobre esse fato.
E essa reportagem vai se fixar não só, tenho certeza, na disponibilidade milagrosa de atendimento pelo SUS, como também no tratamento que recebem os rio- grandinos e outros pacientes em sua Santa Casa.
Esse fato tem de ser esclarecido.
Por enquanto, vale o milagre de um SUS que dá lucro, o SUS da Santa Casa de Rio Grande.
Eu imagino, por exemplo, que em Rio Grande não tenha filas para consultas e cirurgias pelo SUS.
Será assim? Deus queira que seja.
Imagino além: que para Rio Grande corram os que estão na fila de cirurgias e consultas de outros municípios, em busca do Eldorado de saúde que existe lá.
E deixa eu ficar sonhando, e deixa a Santa Casa de Rio Grande ir em frente no seu trabalho de atendimento à saúde das multidões.
Eu só queria um lugarzinho para eu me orgulhar de esta coluna ser indômita no tratamento da questão da saúde entre os gaúchos.
Como é gratificante lidar com o bem social!

*Texto publicado em 04/12/2010