O David Coimbra contou ontem no Sala de Redação que naquele momento estava no interior da Vila Pan-Americana, lá onde moram os milhares de atletas, feita exatamente para eles morarem durante os jogos que se disputam no Rio de Janeiro, um lugar vigiado severamente pelos aparelhos de segurança.
Contou o David que naquele local não podiam ingressar jornalistas, somente os atletas e os treinadores.
Mas ele estava lá porque se tornara um “ penetra”.
Enquanto ingressava pelos portões uma comitiva que acompanhava a ministra Marta Suplicy, ele se embarafustara entre os visitantes e ganhara o território da intimidade dos atletas como se fosse uma autoridade.
Quero dizer que durante a minha meninice e adolescência adquiri com notável maestria a técnica de “ furar” eventos.
Durante oito anos, desde a inauguração do Estádio Olímpico, assisti a todos os jogos de futebol ali realizados mercê de uma esperteza que adotei para não pagar ingressos.
Havia um portão, ali onde está hoje o Largo dos Campeões, com duas enormes semiportas de madeiras, destinado aos sócios que entravam com seus carros no estádio.
O sócio buzinava do lado de fora e dois porteiros abriam as duas semiportas.
O sócio se identificava e, no exato momento em que o sócio-motorista arrancava o carro, eu engrenava a minha corrida e passava correndo em disparada pelo portão.
Os dois porteiros restavam imóveis e ficavam somente a olhar o meu sucesso no rumo das escadarias das arquibancadas.
Anos e anos, a cerca de 250 jogos assisti por esse expediente de solerte esperteza.
O “ penetra” tem de possuir extrema frieza.
Tem de saber qual o instante exato em que vai passar pelos porteiros, quase sempre no seio de um grupo de figurões que não possuem ingressos mas têm entrada livre e respeitosa.
Tem de mostrar ar de superioridade e até desdém pelos porteiros, de forma que eles se sintam inferiorizados por aquela pessoa que possui direito a entrar, embora não possua ingresso.
Estava eu, incrivelmente, em Moscou, na primavera de 1973.
Pouco tempo antes eu era um caixeiro da feira livre em Porto Alegre e de, repente, como por um milagre, me vi na Praça Vermelha, visitando o túmulo de Lenin, o grande patriarca do comunismo, embalsamado, com seu bigode e barbas negros, no fim de uma escadaria escura, que era iluminada apenas por archotes, aquela luz penumbral transmitia a todos os visitantes do esquife um ar de eternidade – e dava-se de cara com o Pai da Pátria.
Não se podia parar, olhava-se caminhando para aquela figura impressionante, uma impressão muito mais impactante do que a produzida no túmulo de Napoleão Bonaparte, nas Tulherias.
Eu pagara ingresso e vira Lenin como se estivesse vivo.
Faltava apenas para coroar minha visita a Moscou uma incursão: o Balé Bolshoi.
Ir a Moscou e não ver o Bolshoi parecia para mim um misto de frustração e desperdício.
Fui até o Teatro Bolshoi, numa rua central de Moscou, e lá fiquei sabendo que ingressos só eram conseguidos com três anos de antecedência.
Ainda assim, dirigi-me ao teatro numa noite fria, embora primaveril.
Era uma noite dedicada apenas para espectadores militares.
Por sinal, nunca vi tantos militares em minha vida como em Moscou.
No dia que jogaram URSS x Brasil, partida que me tinha levado lá pela Rádio Gaúcha, 80% do estádio era constituído por militares, muitos deles de olhos rasgados, russos mas amarelos, provindos das províncias soviéticas próximas da China.
E eu ali em Moscou.
Na capa do Pravda, Leonid Brejnev, então primeiroministro, dava um beijo de foto aberta em Richard Nixon, em visita a Washington, aonde, segundo o Pravda, tinha ido para trazer eletrodomésticos para a URSS, principalmente televisores.
Na noite dos militares no Bolshoi, não tive chance de “ furar” o Bolshoi.
Mas na noite seguinte era para civis.
Esperei na porta do teatro durante uma hora.
Até que desceu de um ônibus uma imensa comitiva de autoridades, os homens com seus gorros cossacos, casualmente eu estava com um que comprara pela tarde.
E quando a comitiva foi penetrando a porta principal do teatro, incorporei-me sorrateiramente a ela.
Assumi um ar de naturalidade mas uma cara respeitosa.
E fui entrando com a comitiva, a cabeça erguida, com jeito de que não tinha nada a temer e ai daquele porteiro que ousasse barrar-me.
Lá estava eu, dentro do Bolshoi.
Não tinha ingresso, lugar marcado, no entanto, fiquei vagando pelo hall e quando se apagaram as luzes, subi por um elevador para o quinto mezanino e assisti nuns bancos que pareciam uns poleiros ao espetáculo de dança a que jamais imaginara poder assistir em minha vida.
Eu me inscrevia na história como um dos raros “ penetras” do Bolshoi.
Técnica de “ penetra” adquirida na Azenha.
*texto publicado em 13/07/2007
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