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Posts de maio 2012

O sono na direção

30 de maio de 2012 0

O sono na direção R epercutiu bem a coluna de ontem, quando aconselhei a todos os passageiros de ônibus que conversem com o motorista durante o trajeto.
Não deu outra: o motorista do caminhão que ia em direção ao Chuí e bateu no ônibus depôs ontem que dormiu muito pouco antes da viagem.
Foi o que calculei: quem está na estrada às 6h da manhã, seja no fim ou no início do trajeto, em qualquer caso está com sono: por não ter dormido ainda ou por ter dormido pouco antes de sair.
Sei porque já senti sono dirigindo em viagem turística.
E teimosamente queria levar a viagem adiante.
Outras vezes foi tão nocauteador o sono, que parei à margem da estrada e dormi por cerca de uma hora.
Imaginem o caso dos caminhoneiros e dos motoristas de ônibus que são obrigados a cumprir o trajeto dentro de determinado horário, não podem parar para dormir.
O sono se torna fatal.
Quantas e quantas vezes os motoristas param em postos de gasolina para molhar o rosto e os olhos, com a finalidade de afastar o sono!  Esta sacada que tive de pregar que se converse com o motorista, ao contrário do que pedem os cartazes, me surgiu quando analisei o mais famoso dos soníferos vendidos em farmácia: o Dormonid ( receituário azul).
O Dormonid serve também como anestésico nos hospitais.
Fui ler a bula do Dormonid: este poderoso remédio para dormir nada mais é do que um inibidor da memória.
Ou seja, nós só não dormimos porque estamos com a memória a funcionar.
Se estancarmos a memória, entramos em sono profundo.
Por isso é que, concluo eu, quando temos um problema grave para resolver, não conseguimos dormir.
Ou seja, pensamos fixamente no problema, o que quer dizer que nossa memória está trabalhando, em atividade intensa.
Em vista disso, aconselhei que se converse com os motoristas, enquanto eles estão dirigindo, isso estimula o seu raciocínio e espanta o sono.
“ Distraia o motorista”, ordenei eu.
Quando uma anencéfala idéia corrente quer o contrário, que o motorista não se distraia, nem com o cigarro, mandam os idiotas.
Nada disso, o rádio no veículo é permitido para distrair o motorista.
E enquanto estiver distraído, isto é, ouvindo rádio, fumando, conversando, o sono não ataca o motorista.
Às vezes penso que o meu ofício na vida é pensar.

*texto publicado em 27/09/2008

O lado do paciente

29 de maio de 2012 0

Esta semana, houve um momento em que, no programa Polêmica, na Rádio Gaúcha, o condutor Lauro Quadros apresentou assim um debatedor: “ E agora fala o inteligente psiquiatra Jaime Vaz Brasil”.
Em seguida, o Lauro Quadros corrigiu-se: “ Se eu disse que o apresentado era psiquiatra, não era necessário dizer que era inteligente.
Fui redundante”.

Essa é a impressão preconceituosa que temos de todos os psiquiatras: de que eles são todos inteligentes.
Devo acrescentar de passagem que nunca vi um psiquiatra burro.
Mas nem todos que conheci eram muito inteligentes, embora muitos fossem brilhantes.

Mas para o consenso geral – que é o que interessa – tomamos todos os psiquiatras como inteligentes, haja vista o reconhecimento do Lauro Quadros.
Da minha parte, como paciente em potencial dos psiquiatras, não exijo que o meu terapeuta seja essencialmente inteligente.
O que exijo é que tenha a consciência nítida e inalterável de que o que interessa não é a realidade que me cerca, mas a leitura que eu faço dessa realidade.
Por exemplo, não pode um psiquiatra incorrer no erro crasso em que incorrem os não psiquiatras que me cercam no cotidiano e que me afirmam nas conversas de bar e de corredor que eu tenho tudo para ser feliz e não entendem por que eu não me julgo feliz.
O que eu idealizo no meu psiquiatra é que ele vá ao fundo da minha questão e procure a origem de eu estar procedendo a uma leitura errada da minha realidade.

A segunda e última exigência que eu teoricamente faria a um provável analista que me tratasse é a de que tenha a noção inarredável de que não tem poder para me fazer mudar no meu comportamento as coisas imodificáveis.
Por exemplo, ao meu analista não compete insistir em que eu pare de fumar.
Na segunda vez que me aconselhar isso e sentir que não terá sucesso em sua intenção, terá de desistir terminantemente de me pedir para parar de fumar.
A não ser que eu tenha ido ao psiquiatra para tentar que ele me tratasse para deixar de fumar.
Aí, é outra conversa.
Mas se não foi para isso que recorri aos providenciais e indispensáveis serviços dele, desista de me tornar abstêmio da nicotina e concentrese mais nos seus esforços de desentortar outros impulsos meus autonocivos, capazes de serem mudados.
E principalmente busque saber o porquê dos meus procederes erráticos e depois engendrar mecanismos que me conscientizem disso e me modifiquem através de comportamentos autodissuasórios.

E não sei se estou certo, mas exijo também que o meu terapeuta revele para mim o diagnóstico.
Até pode ser que nenhum terapeuta esconda o diagnóstico do seu paciente, mas é que eu não posso ficar desconfiado por nenhuma forma de que isso está acontecendo.
Se desconfiar, desmorona tudo.
Finalmente, sobre a diferença básica entre psicólogos e psiquiatras, a de que os segundos podem receitar remédios e os primeiros não, quero dizer a esse respeito que nenhuma exigência tenho como paciente a respeito.
Pelo simples fato de que não entendo nada de farmacologia.
O que eu entendo é de conversa, que isso afinal é a síntese da análise.
E porque entendo de conversa é que me aventuro ousadamente a dar os palpites que exercitei acima.

*texto publicado em 06/06/2009

Tudo pronto

28 de maio de 2012 1

Aconteceu-me um fato estranho que gostaria de relembrar.
Numa das principais avenidas, uma cigana pediu para ler minha mão.
Era muito simpática a cigana e não fumava.
Não há nada mais raro que uma cigana que não fuma.
Quando pôs os olhos nas linhas da minha mão, a cigana empalideceu.
Perguntei-lhe por que mudara de cor e ela gritou: “ Não posso ler a tua mão”.
“ Por quê?”, indaguei.
E a cigana me disse que algo muito sério a impedia de ler minha mão.
Era um prenúncio espetacular, emocionante, mas ela não podia me revelar, sob pena de eu vir a mudar meu destino para pior e trágico, se eu soubesse do que se tratava.

Tentei convencer a cigana a me contar o segredo.

Ela me convenceu de que nem que lhe desse tudo o que possuía leria a minha mão.
“ Por quê?”, gritei.
E ela me respondeu: “ Por ética”.
Ao que eu saiba, nenhuma vidente do mundo se escora na ética para não revelar o que sabe.
O que era então que aquela mulher misteriosa queria me ocultar? Eu disse a ela que, ao pegar na minha mão e se negar a ler minha sorte, ela é que estava violando a ética dos ciganos, que consiste num código de obrigação básica: pegou na mão, tem que ler a sorte, a menos que o cliente não pague.
E tudo o que eu queria, naquele momento, era pagarlhe o que fosse para que lesse meu destino.

Não teve jeito.

A cigana correu, fugindo de mim, sem levar um centavo, nem um cigarro.
E quando ia desaparecendo na esquina, me gritou: “ O senhor ainda vai mudar o mundo, mais do que até agora o mundo o mudou”.

Está tudo pronto para cirurgia da que serei alvo ainda esta semana.

Todos em seus postos, o cirurgião, o anestesista, os médicos que tratam agora do pré-operatório e tratarão do pósoperatório, mais evidentemente o paciente, que se prepara também e espera resignado e esperançoso.
Volto com certeza daqui a dois fins de semana a esta coluna.
Agradeço as mensagens de solidariedade que tenho recebido dos mais variados pontos do RS, agradeço também as orações que me dedicam muitos gaúchos.
Vai dar tudo certo.
Porque tudo está sendo feito para dar certo.
Sob a supervisão do Senhor Deus, meu forte aliado.
E da Virgem, minha mãe protetora.

*texto publicado em 07/09/2009

Chutar o balde

27 de maio de 2012 0

Mando-te notícias, meu amigo, como pediste.
A vida aqui está transcorrendo pesada, sem graça, sem horizonte, desânimo sem quartel.
O grosso das pessoas cada vez mais se prende justamente às circunstâncias que mais odeiam, não conseguem se desvencilhar delas, ou melhor, não têm coragem de se livrar delas.
Só alguns iluminados rompem a rotina e alcançam a felicidade.
Um truque para ser feliz é chutar o balde.
Corre um grande risco quem chuta o balde, mas é impossível ser feliz sem chutar o balde.

Todos me parecem aprisionados a seus destinos, não se atrevem a modificá-los.
E eu só agora percebo que não há forma de realização que não seja mudar-se o que a vida nos prescreveu.
Tudo que está prescrito é contrário à felicidade.
É imprescindível imprimir novos rumos à existência, fazer velas ao mar: uma coisa é certa, a felicidade não está aqui nesta modorra, é preciso dar um basta a esta astenia existencial diária que vai se eternizando.
É impossível ser feliz permanecendo no mesmo lugar, na situação a que nos impusemos.
O deleite da vida está na movimentação, na fuga.
Quem não arremeter se submete, quem se submete se escraviza.
É preciso perder alguma coisa para alcançar coisa melhor.
E assim, meu amigo, todos à minha volta e eu parecemos rendidos.
Raros são os que decidem dar um sofrenão na vida e arremessar-se para a liberdade.
Só há duas condições na vida, a liberdade e a escravidão.
Entenda-se liberdade como fazer-se o que se quer.
Entendase escravidão como fazer-se o que os outros querem ou nos determinaram.

Escravidão é ir aos poucos se aferrando a valores atraentes que vão perdendo seu fulgor, mas que já nos agrilhoaram.
Liberdade é não se fixar a valor algum do qual não podemos nos livrar.
Escravidão é apaixonar-se.
Liberdade é enamorar-se.
Escravidão é o compromisso.
Liberdade é o desapego.

Assim, amigo, por aqui – creio que em toda parte; por aí onde estás, a julgar pelo que me relatas, também – temos caminhado com grilhões.
Caminhar com grilhões é andar, andar e não sair do mesmo lugar.
É caminhar fazendo voltas.
Chegou a tal ponto nossa estagnação existencial, que as pessoas aqui estão correndo para o aeroporto, antes um dos lugares mais aprazíveis, onde se ia realizar o sonho, em busca de um pesadelo: quem compra uma passagem de avião, mune-se de dois medos, o de atrasar ou ver cancelado o vôo e o medo de embarcar.
Não tem saída.
A pior face da vida é quando ela se torna um beco sem saída.

Sustenta-nos assim, meu amigo, somente a esperança.

Não a esperança covarde de que algum dia a vida – ou a morte – resolva o nosso impasse.
E sim a esperança de que venhamos a ter, a qualquer momento, contrariando tudo que temos sido até agora, a coragem de chutar o balde.
Lançar o bloco na rua e botar pra quebrar.
Lembranças a todos e reza por nós.

*texto publicado em 29/07/2007

Penetra do Bolshoi

26 de maio de 2012 0

O David Coimbra contou ontem no Sala de Redação que naquele momento estava no interior da Vila Pan-Americana, lá onde moram os milhares de atletas, feita exatamente para eles morarem durante os jogos que se disputam no Rio de Janeiro, um lugar vigiado severamente pelos aparelhos de segurança.
Contou o David que naquele local não podiam ingressar jornalistas, somente os atletas e os treinadores.
Mas ele estava lá porque se tornara um “ penetra”.
Enquanto ingressava pelos portões uma comitiva que acompanhava a ministra Marta Suplicy, ele se embarafustara entre os visitantes e ganhara o território da intimidade dos atletas como se fosse uma autoridade.

Quero dizer que durante a minha meninice e adolescência adquiri com notável maestria a técnica de “ furar” eventos.
Durante oito anos, desde a inauguração do Estádio Olímpico, assisti a todos os jogos de futebol ali realizados mercê de uma esperteza que adotei para não pagar ingressos.
Havia um portão, ali onde está hoje o Largo dos Campeões, com duas enormes semiportas de madeiras, destinado aos sócios que entravam com seus carros no estádio.
O sócio buzinava do lado de fora e dois porteiros abriam as duas semiportas.
O sócio se identificava e, no exato momento em que o sócio-motorista arrancava o carro, eu engrenava a minha corrida e passava correndo em disparada pelo portão.
Os dois porteiros restavam imóveis e ficavam somente a olhar o meu sucesso no rumo das escadarias das arquibancadas.
Anos e anos, a cerca de 250 jogos assisti por esse expediente de solerte esperteza.

O “ penetra” tem de possuir extrema frieza.

Tem de saber qual o instante exato em que vai passar pelos porteiros, quase sempre no seio de um grupo de figurões que não possuem ingressos mas têm entrada livre e respeitosa.
Tem de mostrar ar de superioridade e até desdém pelos porteiros, de forma que eles se sintam inferiorizados por aquela pessoa que possui direito a entrar, embora não possua ingresso.

Estava eu, incrivelmente, em Moscou, na primavera de 1973.

Pouco tempo antes eu era um caixeiro da feira livre em Porto Alegre e de, repente, como por um milagre, me vi na Praça Vermelha, visitando o túmulo de Lenin, o grande patriarca do comunismo, embalsamado, com seu bigode e barbas negros, no fim de uma escadaria escura, que era iluminada apenas por archotes, aquela luz penumbral transmitia a todos os visitantes do esquife um ar de eternidade – e dava-se de cara com o Pai da Pátria.
Não se podia parar, olhava-se caminhando para aquela figura impressionante, uma impressão muito mais impactante do que a produzida no túmulo de Napoleão Bonaparte, nas Tulherias.

Eu pagara ingresso e vira Lenin como se estivesse vivo.

Faltava apenas para coroar minha visita a Moscou uma incursão: o Balé Bolshoi.
Ir a Moscou e não ver o Bolshoi parecia para mim um misto de frustração e desperdício.
Fui até o Teatro Bolshoi, numa rua central de Moscou, e lá fiquei sabendo que ingressos só eram conseguidos com três anos de antecedência.
Ainda assim, dirigi-me ao teatro numa noite fria, embora primaveril.
Era uma noite dedicada apenas para espectadores militares.
Por sinal, nunca vi tantos militares em minha vida como em Moscou.
No dia que jogaram URSS x Brasil, partida que me tinha levado lá pela Rádio Gaúcha, 80% do estádio era constituído por militares, muitos deles de olhos rasgados, russos mas amarelos, provindos das províncias soviéticas próximas da China.

E eu ali em Moscou.

Na capa do Pravda, Leonid Brejnev, então primeiroministro, dava um beijo de foto aberta em Richard Nixon, em visita a Washington, aonde, segundo o Pravda, tinha ido para trazer eletrodomésticos para a URSS, principalmente televisores.
Na noite dos militares no Bolshoi, não tive chance de “ furar” o Bolshoi.
Mas na noite seguinte era para civis.
Esperei na porta do teatro durante uma hora.
Até que desceu de um ônibus uma imensa comitiva de autoridades, os homens com seus gorros cossacos, casualmente eu estava com um que comprara pela tarde.
E quando a comitiva foi penetrando a porta principal do teatro, incorporei-me sorrateiramente a ela.
Assumi um ar de naturalidade mas uma cara respeitosa.
E fui entrando com a comitiva, a cabeça erguida, com jeito de que não tinha nada a temer e ai daquele porteiro que ousasse barrar-me.
Lá estava eu, dentro do Bolshoi.
Não tinha ingresso, lugar marcado, no entanto, fiquei vagando pelo hall e quando se apagaram as luzes, subi por um elevador para o quinto mezanino e assisti nuns bancos que pareciam uns poleiros ao espetáculo de dança a que jamais imaginara poder assistir em minha vida.
Eu me inscrevia na história como um dos raros “ penetras” do Bolshoi.
Técnica de “ penetra” adquirida na Azenha.

*texto publicado em 13/07/2007

Salto mortal na trave

25 de maio de 2012 0

Não noto muito entusiasmo no público telespectador pelas provas das Olimpíadas, embora alguns amigos meus me digam que passam a manhã inteira com os olhos grudados nas televisões assistindo aos jogos.
Não consigo entender o judô, por mais que me expliquem.
Nunca vi nada mais sem graça.
Cai um lutador derrubado pelo outro, mas o juiz não marca pontos para o derrubador.
Não adianta, não entendo.
O que gosto mais é do atletismo, assim mesmo das provas de corridas, que aos meus olhos ainda não apareceram, devem começar hoje ou amanhã.
Também não vejo graça na natação, mas isso não é surpresa, as corridas de Fórmula-1 nunca me atraíram, igualmente com as corridas de turfe.
Eu não sou muito ligado em páreos, com exceção das corridas atléticas.

Mas quando aparecem as ginásticas artísticas de solo, aquele tipo em que a nossa Daiane dos Santos destacou-se mundialmente, então fixo os meus olhos na competição e me deixo atrair.
No entanto, há uma modalidade da ginástica que deixa meus olhos deslumbrados: a da trave.
Se já o salto mortal de frente das ginastas sobre a trave me fascina, quando, no entanto, elas dão o salto mortal para trás, indo pousar seus pés na trave estreita, que deve medir cerca de 10 centímetros, então fico aturdido com a proeza extraordinária.
Já um salto mortal para trás na ginástica de solo carrega um atrativo de façanha, imaginem então um salto mortal para trás em cima da trave, quando o ginasta se arremessa a um vôo cego, sem poder ver onde seus pés irão pousar, tendo somente que calcular a extensão e direção do salto.
E à espera dos pés da ginasta está apenas uma trave de 10 centímetros de largura, uma destreza ímpar, um fato humano fabuloso.
E a ginasta intenta o salto como se estivesse com os olhos vendados, num sentido de direção fantástico: quando seus pés vão cair sobre a trave, ela tem ainda que colocar um pé à frente e um atrás, pois os dois lado a lado não cabem na trave.
Que feito histórico!

Assim como no futebol, quando os grandes craques desse esporte nem percebem que estão começando a treinar nas peladas, aos seis, sete, oito anos de idade, as ginastas começam a ser adestradas na infância.
Um exercício como esse do salto mortal de costas sobre a trave deve levar uns 10 anos de treinamento, todos os dias, quase 4 mil dias de treinos, para depois brindar o mundo com o espetáculo de sua apresentação de magnífico equilíbrio.
Talvez só nos circos se veja algo igual, mas nos circos os ginastas são impulsionados por aparelhos, por trapézios, enquanto que na ginástica artística os atletas contam somente com seus corpos para catapultarem-se em direção aos seus alvos.
Também se pode ver, nos circos e outros espetáculos, animais estupendamente adestrados pelo instinto ou por inteligência inferior à dos homens, no entanto o tirocínio humano supera a destreza animal pela arte, pela estética, pela iniciativa nos exercícios, pelo improviso na criação, enquanto os animais obedecem apenas a seus adestradores na obediência das prescrições.
Aí também está a diferença entre o homem e o animal.

*texto publicado em 15/08/2008

Nós, os medíocres

24 de maio de 2012 1

Nós, os medíocres, somos a alavanca do mundo.
Não porque sejamos destacados, mas porque somos numerosos, somos a maioria esmagadora.
Medíocre não quer dizer burro nem nulidade.
Medíocre se refere a médio.

Eu, por exemplo, não me ofendo quando me chamam de medíocre.

Porque tenho bem consciente que com relação a Freud, a Einstein e a Shakespeare eu sou medíocre.
Eu me ofenderia se me chamassem especificamente de medíocre com relação a Hugo Chávez.

Bem, mas os medíocres são o sal da terra.

Há entre os medíocres uma espécie nojenta: a dos invejosos.
Não os ciumentos, que estes não são repelentes, pelo contrário, os ciumentos são amoráveis, são seres repletos de sensibilidade.
Porque o ciúme só pode existir num coração que tem amor.
Ou pelo menos admiração cativa.
Mas os invejosos são erva daninha.
Eles se unem para atacar os que são superiores sob qualquer aspecto a eles.
Se unem estrategicamente, porque sozinhos não metem medo a ninguém.
Os invejosos, unidos, metem medo porque atacam como atacam os formigueiros, em massa, levando tudo de roldão.

Saindo um pouco da subespécie dos invejosos, voltemos ao tronco principal dos medíocres.

Os medíocres se dividem entre os medíocres humildes e os medíocres petulantes.
Os medíocres humildes têm consciência da sua mediocridade e se aquietam.
Ficam na sua.
Não se metem em briga de cachorro grande.
Já os medíocres petulantes se revelam teimosos com as pessoas brilhantes e as enfrentam com estóica coragem, vão para cima dos brilhantes envergando a couraça da estupidez ou da incapacidade inalterável que têm para raciocinar.

Aí um parêntese: há pessoas que pensam somente.

E há pessoas singulares que, além de pensarem, raciocinam.
Chega a ser lamentável a incapacidade de muitos medíocres de raciocinar.
Há casos de medíocres que escrevem todos os dias em jornais há 30, 40 anos, ou falam em microfones, ou dão aulas nas universidades, ou se destacam em seus meios de atividades quaisquer, de quem as pessoas que as cercaram ou as ouviram nesses anos todos não guardaram nunca uma só frase, um só raciocínio.
São os medíocres lineares: eles nunca tiveram um rasgo, um lampejo, um fulgor.
São os medíocres que só vieram à Terra para cumprir o carnê.
São os medíocres que não marcaram, que não se distinguiram.
Mas não marcaram nem se distinguiram uma só única vez.
Mas são pessoas que vivem, que criam seus filhos, que são justas, são retas, são cumpridoras de seus deveres, recebem medalhas de reconhecimento.
Mas são tristemente medíocres.
Porque a face do planeta foi talhada para receber os medíocres.

Eu também sou medíocre.

Não posso me comparar a um Michelângelo, a um Gandhi, a um Machado de Assis, a um Pelé, uma Madre Teresa de Calcutá.
A um Leonardo da Vinci.
Sou medíocre comparado a esses.
Mas a diferença é que sou um medíocre, modéstia à parte, com sazonalidades de gênio.
Algumas frases minhas são recitadas diariamente por passantes e sentantes da Rua Padre Chagas.
Eu estou no rebanho dos medíocres, mas sou uma rês que por vezes se destaca na disparada da boiada.
E é por isso que não raro me atinge o laço firme do boiadeiro.
E é por isso que certamente vou para o matadouro antes do grosso da tropa.
Só imploro que não me abatam a marteladas.

*texto publicado em 16/03/2008

Engolindo sapos

23 de maio de 2012 2

Chama a atenção a agressividade de certos motoristas que parecem se atirar às ruas para arranjar brigas.
Dizem que as mulheres não dirigem bem, mas nunca vi uma mulher ser agressiva no trânsito.
Ela pode até atrapalhar as manobras, mas não é capaz de ser acintosa em gestos e palavras.
Eu, por exemplo, não tenho nenhum medo de mulher no trânsito.

Já com os homens, não é o mesmo.

Durante a vida, já tive dezenas de conflitos com motoristas masculinos.
Ontem, por exemplo, por duas vezes, fui xingado veementemente por dois motoristas.
O certo é a gente não andar armado, nem com um revólver, nem com um pedaço de ferro.
Uma arma no porta-luvas ou em qualquer parte do carro é passaporte certo para a tragédia.

Eu já tenho saído de casa disposto a suportar ofensas e mal-entendidos no trânsito.
Qualquer reação mais forte que eu tiver vai redundar num desastre de comportamento.
Então tento me munir de uma serenidade que consiste em ser ofendido sem reagir.
O sujeito me xinga, me diz desaforos de longe, sinto ímpetos de manobrar meu carro e persegui-lo.
Mas me contenho, não vale a pena.
Estou diplomado em engolir sapos no trânsito.

Uma colega minha estava me contando esses dias, no fumódromo, que o caudal de ofensas que se desata no seu condomínio e no edifício ao lado, durante e principalmente logo após um Gre-Nal, é algo de assustador.
Os seus vizinhos abrem suas janelas e vão gritar para os outros do mesmo edifício ou do prédio ao lado os piores palavrões, de corar frades-de-pedra.
Então ela já sabe, basta haver um Gre-Nal para o ajuste violento de contas verbais ser instalado com uma agressividade ímpar.

É que milhares de pessoas são dotadas de sérios distúrbios emocionais de irritabilidade agressiva.
Nós não as conhecemos, por isso não somos alvos nem vítimas delas.
Mas, se somos vizinhos dessas pessoas, cedo explodirão os conflitos.

E o trânsito é o momento adequado para que se instalem esses conflitos.
Pessoas que não conhecemos, que não nos dizem nada e portanto não têm como nos importunar ou agredir.
Com milhares delas, no entanto, nos enfileiramos e cruzamos no trânsito.
E então o trânsito vira o momento exato para toparmos com essas pessoas disturbadas, malhumoradas, agressivas, violentas.
Se nós também formos portadores de distúrbios emocionais ou não tivermos paciência, resignação, conformismo, está formado o bolo, que vai num crescendo da ofensa e da lesão corporal até o homicídio.
Tem muita fera solta por aí no trânsito, o melhor é não aceitar provocações, como aliás tenho presenciado em muitas pessoas sensatas, que preferem ouvir ofensas a enfrentar os agressores.
Se enfrentarem, não se sabe se encontrarão compreensão em quem for julgar esse confronto.

Portanto, feche os vidros das portas do carro, evitando ouvir as ofensas e provocações, e siga em frente.
Não vale a pena incomodar-se.
Porque existe muita gente neurótica – milhares – que sai para as ruas no volante para comprar brigas.
Que comprem com outros.

*texto publicado em 16/08/2008

O olfato das mulheres

22 de maio de 2012 2

Chuvas insistentes ontem e anteontem sobre a cidade colocaram-me na posição cismadora de quem só vê vultos em todas as sombras e não vê mais que sombras em todos os vultos.
Um amigo meu me disse que sua mulher, sempre que chega em casa à noite, diz-lhe que sabe que jantou comigo ou esteve comigo em algum lugar.
Meu amigo pergunta: “ Como sabes que estive com o Sant’Ana?” E a mulher responde: “ Porque senti o cheiro de fumaça nas tuas roupas”.

É impressionante como as mulheres sentem o cheiro de sua fortuna ou de sua desgraça nos corpos de seus homens.
Havia uma outra mulher de outro amigo meu que controlava toda a vida sexual de seu marido, com eventualidade de aventuras extraconjugais, cheirando-lhe as cuecas quando ele chegava em casa.
Não me perguntem como ela detectava traição no cheiro das cuecas de seu marido, o certo é que ela nunca errou sequer uma vez.

É fato indiscutível que as mulheres possuem propriedades olfativas extraordinárias, comandam o seu controle sensorial sobre os maridos através de suas narinas infalíveis.
Rigorosamente, uma mulher sabe exatamente se seu marido lhe é fiel ou se ele a trai mediante o que ela cheira nele, à proximidade ou à distância.
A mulher sabe se o marido a trai não por ter premonições mediúnicas, mas por possuir apuros olfativos inimagináveis.
Por sinal, a expressão “ não fede nem cheira” vem daí, é o marido que nem tem atitudes infiéis, nem tem qualquer cheiro de infidelidade no corpo ou nas roupas.

Há maridos que percebem esse dom demoníaco das mulheres e engendram antídotos, como o de usarem perfumes de essências fortes que superam qualquer aroma adulterino que possa ter restado de alguma relação espúria.
Se o marido trai com alguma amante que usa perfume também forte e impregnante, está frito.
Há certos maridos que, surpreendidos com perfumes femininos em seus corpos, alegam que passaram num magazine e uma demonstradora passou-lhes para os corpos alguma amostra de essência para mulheres, por engano.
Outros há que, tendo-lhes sido passado por suas amantes algum cheiro de perfume ou colônia feminina, antes de voltarem para casa besuntam-se de óleo de cebola ou de queijo provolone, com o fim de anular o aroma denunciador.

Ao sentirem cheiro de cebola nos corpos de seu maridos, há esposas que se atiram ao sarcasmo: “ Ou vieste de uma churrascaria ou estavas a me trair com alguma pilantra perfumada”.
No entanto, há uma tese ousada que é defendida por alguns maridos: a de que a mulher sempre gosta de desconfiar que seu marido a trai.
Veja bem, eles defendem que a mulher não quer saber que é traída, mas adora desconfiar que seu marido a trai.
Por isso alguns maridos se dedicam à ciência de fabricar vestígios de sua traição para que suas mulheres os notem e sintam-se enciumadas, o que as faz mais ainda excitadas e propícias ao amor conjugal.
É tudo um jogo de dissimulações, de fingimentos, de pequenas farsas, de máscaras, que temperam o casamento e não permitem que o insosso do fastio e da fadiga da convivência abalem ou destruam a relação.
Mas em todo o caso, repito aos maridos desavisados: a arma mais poderosa das mulheres é o olfato.
O olfato, por sinal, envia ao cérebro mensagens da mais alta e profunda eficácia.

*texto publicado em 13/09/2010

Logo o Falcão

21 de maio de 2012 6

*texto publicado na Zero Hora desta segunda-feira, 21/05/2012.

O ex- jogador de futebol Falcão, atual treinador do Bahia, nega- se a dar entrevista para Zero Hora.
O repórter Luís Henrique Benfica, que cobriu Bahia x Grêmio na semana passada, em Salvador, solicitou a Falcão cinco minutos para uma pequena entrevista e uma foto e Falcão foi taxativo:“ Não tem entrevista e ponha uma foto minha 3×4 no seu jornal”.

Impressiona esta indelicadeza, para não dizer agressão, de Falcão a Zero Hora.
Ele não se recusa a dar entrevista para todas as emissoras de televisão e rádio, para todos os jornais do Brasil.
Mas se recusa a dar entrevista para Zero Hora.
Justamente o jornal que o acolheu como jornalista, não sendo ele jornalista, durante os longos anos em que ele foi colunista esportivo de Zero Hora.
Falcão não escrevia para O Globo, para a Folha de S.
Paulo, para o Correio do Povo.
Ele escreveu durante muitos anos para Zero Hora.
E justamente para o jornal que o contratou como colunista é que ele se recusa a dar entrevista, sabe- se lá por que motivo.

Eu, que convivi com Falcão durante todos esses anos aqui em ZH, fiquei muito triste e pesaroso com a atitude dele.
Afinal, emanou desse vínculo profissional de Falcão com Zero Hora nos últimos tempos uma relação também afetiva.
Ele, que é catarinense, tornou- se praticamente gaúcho, foi neste Estado que ele se consagrou como futebolista – e Zero Hora é gaúcha e prestigiou Falcão e foi prestigiada por ele durante tantos anos.
Não tem explicação essa agressividade de Falcão com nosso jornal.

Já não dar entrevista para jornal revela uma falta de sentido democrático e civilizatório para qualquer homem público.
Mas como é Zero Hora ligada ao Falcão por laços futebolísticos, tanto que nunca um jogador gaúcho foi tão justamente glorificado em suas páginas como o foi Falcão, é este mesmo jornal que sofre essa grave incordialidade de Falcão, mais se lamentando assim o episódio desagradável e aparentemente despropositado.

Não tenho condições de informar o motivo que levou Falcão a essa deselegância.
Pensei em telefonar para ele para que me dissesse a razão de sua aspereza.
Mas pensei comigo que, como sou de Zero Hora, poderia ser recebido por ele com outra agressiva negativa em falar comigo a respeito.
Falcão volta a Porto Alegre esta semana para o jogo Grêmio x Bahia.
Se ele tem justificativa para sua descortesia com Zero Hora, ofereço- lhe esta coluna para que esclareça a origem de sua incompreensível atitude.

Oradores sem microfone

21 de maio de 2012 0

Sempre me intrigou profundamente como os antigos lidavam com o problema de falar com as multidões.
Nunca ouvi dizer que Cícero, o grande orador romano, assim como Demóstenes, notável orador grego, que era gago, usava megafone para se dirigir às suas grandes plateias.

Então não sei como fizeram Moisés e Jesus Cristo para pregar os seus estupendos sermões a multidões de judeus.
Como tecnicamente se dirigiu a seu povo Moisés, quando desceu do Monte Sinai e foi anunciar à planície repleta de seus seguidores que ele tinha conversado com Deus no cimo do monte e trouxera- lhes duas pedras que continham os 10 Mandamentos?

Como Cristo fez para pronunciar seu lendário Sermão da Montanha, se devia haver pelo menos 8 mil ouvintes? Imagino a dificuldade dele para se fazer escutar por toda aquela gente: “ Bem- aventurados os humildes de espírito porque deles é o Reino do Céu.
Bemaventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem- aventurados os mansos porque possuirão a Terra.
Bemaventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados.
Bem- aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de Mim”.
Cristo foi um grande orador.
O mais famoso discurso que um homem já fez na Terra foi esse Sermão da Montanha.
Mas temo que muitas pessoas que estavam lá naquele dia histórico e lendário não ouviram nem de longe o que Cristo estava dizendo.
Será que imagino tolamente que havia taquígrafos entre os fiéis?

Para mal dos pecados, Moisés também era gago.
E, na dificuldade que ele teve para anunciar os 10 Mandamentos, quem me diz que, pela precariedade de sua fonação e dicção, não eram 20 os Mandamentos?

No célebre discurso de Marco Antônio junto ao cadáver de César assassinado, Roma inteira estava diante do Senado, como pôde Marco Antônio ser escutado por aquela multidão estupenda? E, no Coliseu de 50 mil pessoas, como podiam elas ouvir os imperadores, antes, durante e depois dos torneios mortíferos que lá se travavam? Os imperadores falavam, discursavam, condenavam, perdoavam durante as justas do Coliseu.
Será que alguém os escutava? Ou o que eles diziam ia aos poucos se transmitindo entre o povo, aos recados, aos boatos, aos rumores? Há grandes oradores referidos pela História, antes e depois da invenção do microfone.
Mas os de antes do surgimento do microfone foram heroicos.

*texto publicado em 15/04/2011

Remédio trigueiro

20 de maio de 2012 2

Como sou diabético e fumo três maços de cigarro por dia, corro um risco muito grande.
Por isso, fiquei tentado no ano passado por um remédio do qual se diziam maravilhas, sendo classificado entre os médicos como o mais poderoso medicamento para curar o vício do tabagismo.
Nome do remédio: Champix.
Preço da caixa do remédio: em torno de R$ 1 mil, mas com muitos comprimidos, um tratamento de meses.
Nome do laboratório: Pfizer.

Comprei a caixa do remédio.
Me parece que o tratamento se iniciava com meio comprimido diário, depois ia aumentando.
Fui tomando o remédio, e era tal a sua fama, que, por via das dúvidas, saboreei ainda mais os cigarros que ia fumando.
Afinal, me preparei para abandonar o supremo êxtase de fumar.

Aumentei a dose como mandava a sofisticada bula, fui tomando, fui tomando.
E cada vez fumava mais, na ânsia de me despedir com exuberância irracional do vício tão estimado por mim.
Sabem como é, o cigarro se incorporou de tal forma à minha personalidade e ao meu metabolismo, que sempre o considerei ser indissociável do meu ser.

Enquanto isso, os amigos me diziam que finalmente eu acertara.
O remédio tinha um prestígio notável no meio médico e era cantado em prosa e verso por muita gente que tinha deixado de fumar com o tratamento.
Não me lembro ainda qual o prazo que a bula do remédio me dava para deixar de fumar, enquanto prosseguiria ingerindo os comprimidos.
Mas, enquanto eu podia fumar, fumava.
E ia tomando o remédio.

Lá pelos 50 dias de tratamento, comecei a notar leves mas perceptíveis sinais de transformação no meu hábito de fumar.
Eu já não fumava três carteiras por dia, passei para duas e meia, o nível de exigência do meu paladar diminuíra.
Logo em seguida, um sinal mais perturbador: gradativamente, à medida que os dias iam passando, notei uma diferença no gosto do cigarro.
Ele já não me apetecia tanto quanto no tempo em que eu não usava o remédio.
Achei aquilo estranho, mas o meu médico me disse que o plano estava dando certo, aqueles eram mesmo os sintomas esperados para o sucesso do empreendimento.

O que me atormentava especialmente era que, antes de terminar o prazo para eu cessar de fumar, embora mantivesse o tratamento, eu estava ingressando no perigoso terreno de enjoar de cigarro.
Já não o acendia ansioso para tragá-lo, já não comprava com ímpeto as várias carteiras que sempre reservei a um estoque considerável.
Meu apetite pela fumaça diminuíra violentamente.

Até que baixei a cota para duas carteiras de cigarros por dia.
Parece-me que a índole do remédio é essa, diminui-se o número de cigarros que se fuma, naturalmente, por falta de demanda instintiva, enquanto a dose do medicamento aumenta.

Para abreviar, até mesmo porque minha memória é péssima e eu não lembro de alguns detalhes, cheguei à conclusão de que eu estava perdendo o gosto pelo vício e não tinha mais aquele prazer antigo e inesquecível de saborear os cigarros.
Fiz uma imediata reunião comigo mesmo e decidi radicalmente: “ Sabe de uma coisa, na marcha que vai, se eu continuar tomando este remédio, vou acabar perdendo inteiramente o gosto pelo cigarro e terei de inevitavelmente parar de fumar”.
E concluí botar aquela porcaria do remédio fora, antes que ele me separasse para sempre de um dos dois únicos grandes prazeres que me restaram.
E como parei de tomar o remédio, prossigo novamente a fumar três carteiras por dia.
Mas estou feliz, isto é o que interessa.
Com medo concreto de que o cigarro me venha a ser fatal, mas feliz.

*texto publicado em 26/04/2009

Meu violeiro

19 de maio de 2012 0

O professor de violão Darci Alves, o violeiro, grande mestre de serenatas Darci Alves, disse anteontem na Rádio Gaúcha, recordando sua carreira, que ele não seria nada, não existiria sem o violão.
E eu respondi que certa vez me veio parar nas mãos, sei lá por que força do destino, um belo violão abandonado.
Eu fiquei a fitar aquele violão sozinho e concluí que ele também não valia nada, não existia sem o Darci Alves.

E qualquer medida de política carcerária, por mais absurda que possa ser considerada, no entanto se torna justificada e procedente quando possa vir para corrigir o colapso estrondoso do sistema prisional gaúcho.
Vá lá, a intervenção federal nos presídios do Rio Grande do Sul, solicitada por um procurador de Justiça ontem, parece ser esdrúxula, mas muitos espíritos a saudaram como o início da salvação do sistema carcerário rio-grandense.
Andou muito bem o procurador Lenio Luiz Streck.

Da mesma forma, cogita-se a parceria público-privada na construção e administração dos presídios gaúchos.
Excelsa ideia! Chegou a tal ponto, que qualquer ideia nova e diferente que venha a ser aplicada na questão prisional gaúcha é bem-vinda, por mais extravagante que possa parecer.
Fiquei intrigado e fascinado com uma possibilidade que se anuncia na privatização dos presídios gaúchos: as empresas privadas que administrarem as cadeias concedidas serão multadas caso haja fugas ou motins.
Sensacional! Porque não se conhece que alguém seja punido por fugas e motins no sistema público de administração das prisões.

Outro fato intrigante: não são verificadas fugas em cadeias privatizadas que existem até agora no Brasil.
É tão grande a segurança existente lá, que não há notícia de presos que fujam.
Lógico que em cadeias fechadas, porque atualmente se computam como fugas o abandono dos detentos aos albergues no sistema semiaberto.
E à persistência dessas fugas do sistema semiaberto nem as prisões privadas resistiriam – e, caso fossem multadas por isso, entrariam em curso falimentar.

O fato é que, como nunca, a sociedade gaúcha está conscientizada de que é necessário tomar uma medida revolucionária para acabar com a situação degradante dos presos em nossas cadeias, condição que é expressamente proibida no artigo 5 º da Constituição Federal.
Raciocinou-se brilhantemente que aqui, por final, não haverá nunca segurança nas ruas quando ela não haja nos presídios e sem preservar a dignidade do ser humano encarcerado.
Começa-se a pensar por aqui que está sendo abolido o perverso axioma de que prisões não dão votos.
Ou seja, se o povo está clamando por segurança pública, então construir presídios pode começar a ser vantagem eleitoral para os governos que isso fizerem.

Eu sei tudo isso mais do que o Eclesiastes, quero dizer que não sou sábio em questão prisional por ser inteligente, mas por ser velho, como diz o poeta argentino que escreveu Martín Fierro.
Repito, porque a minha insistência foi talvez um dos fatores da criação dessa nova consciência, que não se faz omelete sem ovos, assim como não se faz boa segurança pública e tranquilidade das pessoas nas ruas e em suas casas, sem a construção permanente de presídios.
Permanente.
E não em surtos de 50 em 50 anos.

*texto publicado em 17/06/2009

Voo de galinha

18 de maio de 2012 1

Não sei o que foi mais deplorável, se a convocação de Dunga ou se a catastrófica entrevista coletiva que deu para o anúncio da convocação.
A entrevista foi a mais embaralhada e desastrada tentativa de um homem para tentar sair da escuridão dos seus limites para alçar voos intelectualoides às regiões da luz, a que é avesso por natureza.
A inteligência brasileira deveria ter sido poupada da pantomima de Dunga ao definir, numa caricatura sociológica, o que tinha sido a ditadura e a escravidão.
Um fiasco memorável.
Além disso, foi uma aula de patotismo e de xerifismo, deixando claro que os valores a serem respeitados para a convocação da Seleção para a Copa do Mundo em nada dizem respeito ao talento e ao desempenho dos jogadores, mas, sim, a enganadores princípios de panelismo e subserviência.
Foi um voo de galinha sobre o altiplano das ciências psicossociais.

Mas não se exige de um treinador da Seleção Brasileira que ele não seja analfabeto nem que seja um intelectual.
O que se exige como mínimo requisito de um treinador da Seleção Brasileira é que ele entenda de futebol.
E, ao não convocar Neymar e Ganso e ao assassinar a pretensão de Victor de ser convocado por ser o melhor goleiro entre todos os que jogam no país e atuam no estrangeiro, Dunga revelou toda a sua incompetência, o seu mandonismo, a sua megalomania e sua prepotência.

Não há como tirar Neymar da Seleção.
Como ousou esta insolência à sensibilidade futebolística, Dunga se autonomeou como um Exterminador do Futuro, a natureza deu asas a Neymar, e Dunga prendeu-lhe o voo impiedosamente.
Nenhum dos 23 convocados por Dunga possui metade do talento de Neymar.
Não tem explicação que este menino-deus do futebol seja afastado assim pela violência de Dunga dos quadros da Seleção.
Só pode ser pela vaidade e pela megalomania do treinador, que não admite que a opinião pública e a opinião dos entendidos possa superar a sua soberana opinião.

Este é o perigo que corre a escolha de um treinador que tenha sido um tacanho jogador.
Quando rejeita acintosamente convocar Neymar e Ronaldinho Gaúcho, Dunga está cometendo um atentado contra o talento, contra a arte, contra a beleza do futebol, o que já sob certo aspecto fazia quando ele era jogador de futebol e incrivelmente até hoje não deixou no espírito de ninguém saudade ou sequer lembrança de sequer uma jogada sua nos campos em que atuou.
Jogador grosso, trombadão, tosco, enrolado, que só joga à base do físico e do fôlego, fatalmente, se se tornar treinador, vai carregar para a nova profissão todos os defeitos da anterior.

Depois da entrevista trágica de Dunga ontem, restou por todo o espírito da nação o remorso e a injustiça da não convocação de Neymar e de Ganso.
E, particularmente para nós, gaúchos, que temos assistido às grandes e inigualáveis atuações de Victor nos jogos do Grêmio, uma raiva incontida pela perversidade de sua não convocação.
Não tem explicação, a não ser pelos desvios mórbidos que presidem os recalques.
Saí sem saber se o mais deplorável foi a convocação ou a entrevista coletiva do Dunga.
Mas agora, depois da antevisão de parte do que vai ser estampado nos jornais de hoje aqui no meu computador, posso garantir que não foi a entrevista do Dunga nem a convocação o mais deplorável.
O mais deplorável de tudo foi que há gente que gostou da entrevista do Dunga, consideroua histórica e intelectualmente irretocável.
Tem gosto pra tudo.

*texto publicado em 12/05/2010

Os chatos do hospital

16 de maio de 2012 1

O chato já tinha me chateado três vezes em espaços de tempo diferentes, quando meia hora depois ele me abordou novamente na calçada traseira do Hospital Mãe de Deus, onde passei quase toda a sextafeira.
O chato atacou-me novamente.
Indefeso, cedi.
Desta vez ele tentou me seduzir com outro assunto.
Obviamente era de novo um assunto chato.
Repeli o assunto, quando ele , sem desistir, demonstrou intimidade inaudita, metendo a mão no bolso da minha camisa, sacando o meu maço de cigarros e me perguntando: “ E isto aqui, quando é que vais parar de fumar? Um médico me disse certa vez, quando eu fumava, que, se eu não quisesse me desfazer do prazer de fumar, tinha de imaginar um prazer indiscutivelmente maior: o de não fumar”.
Eu disse ao chato que já tinha ouvido e lido mais de 400 vezes aquele raciocínio e que ele me deixasse ficar sozinho com a aflição que me carregara para o hospital.
“ Vá adiante e por compaixão me dê uma folga!”, murmurei.
Afastei-me do chato e ele ficou chateando minha mulher.
Foi aí que eu vi que quando o sujeito é chato, se não tem uma pessoa famosa para chatear, serve qualquer vítima, desde que ele possa continuar chateando, é preciso prosseguir na sua obra.

Cansado do chato, fui fumar debaixo de uma árvore.
É que não se pode fumar mais em lugar nenhum, hospital muito menos.
Eu então estava fumando lá na calçada traseira do hospital.
E ainda me afligia o sufoco do chato, quando estou fumando debaixo da árvore e passa uma senhora de mais ou menos 85 anos de idade.
E me diz: “ Fumando, não é?”.
E eu respondi pronto para ela: “ Sim, fumando, o que a senhora queria que eu estivesse fazendo aqui debaixo da árvore, jogando tênis?”.

Foi quando, à espera de minha mulher, fiquei debaixo da mesma árvore e apaguei o cigarro, só para ver o que ainda me esperava naquele cortejo de chatos.
Fiquei parado, sem fumar.
Passou um baixote, parou diante de mim e com a visível intenção de estabelecer conversa comigo, começou: “ Ué, é a primeira vez que te vejo sem estares fumando!”.

Vejam, então, que em qualquer hospital proliferam, dentro, as bactérias.
E fora, na calçada, proliferam os chatos.
No caso do Mãe de Deus, equipes chefiadas pelo diretor médico Alberto Kaemmerer e outros diretores estão em permanente higienização das instalações, no combate às bactérias.
Mas não descobriu ainda a ciência infectologista uma maneira de desinfetar os chatos circunstanciais das calçadas fronteiras, laterais e traseiras dos hospitais.

Em conversas e aulas dos últimos dias com quatro infectologistas porto-alegrenses, alguns dos mais ilustres, eles me falaram sempre na “ flora bacteriana”.
Foi quando, de tanto ouvir a expressão, me rebelei: “ Se os micróbios são chamados de ‘ bichinhos’, não se trata de flora bacteriana, mas de fauna bacteriana”.
E os infectologistas concordaram comigo, daí por que daqui por diante está instalada uma mudança célebre na semântica científica.

O grande médico gaúcho Eduardo Faraco, o homem que concluiu o Hospital de Clínicas em Porto Alegre e foi reitor magnífico da UFRGS, evitava o aperto de mãos.
Exatamente como eu venho evitando nos últimos dias.
Mas quando a pessoa insistia muito para apertarlhe a mão, ele cedia.
Só que tirava em seguida um vidrinho de álcool que trazia no bolso e desinfetava a mão apertada.
Quem me contou isso foi o ortopedista Marczyk ( pronuncia-se Marcheque) Isto quer dizer que eu estou no caminho da ciência quando aconselho aos gaúchos que passem a não se apertarem mais as mãos, evitando assim a transmissão de bactérias.

*texto publicado em 13/04/2008