Vamos combinar o seguinte: se morarmos com nossos filhos e uma enteada num apartamento e de repente aflorar em um de nós dois um instinto bestial que faça com que punamos uma travessura da filha e da enteada com severidade, transcendendo logo em seguida para a crueldade, com o que o resultado que obtemos para esse comportamento é um ferimento grave e um esganamento mortal na menina, com o que nos assustamos por depararmo-nos com uma tragédia, em primeiro lugar tenhamos calma.
Logo em seguida, pondo os nervos em ordem, desfaçamo-nos do corpo, uma vez que com esta criança que nos parece morta aqui, restando inanimada neste apartamento que é nosso e dominamos, só poderão concluir que fomos nós que a matamos.
Se a atirarmos para fora, no entanto, com a queda aqui deste sexto andar, desaparecerão os vestígios do espancamento e esganamento que infligimos à criança.
E principalmente nos livramos do corpo, mandamolo para outra esfera que não é a do nosso domínio, poderemos alegar que a menina desequilibrou-se e caiu ou até mesmo se suicidou.
O que não podemos é ficar com este corpo aqui junto de nós dentro deste apartamento, com estas marcas que a criança tem das nossas agressões e os vestígios do esganamento, todas as acusações estarão voltadas contra nós.
Obviamente que haverá sempre alguém acusando a nós dois.
Mas se nós dois mantivermos a versão de que um terceiro personagem foi o autor do homicídio, nestes tempos que correm em que a insegurança anda solta por todos os quadrantes, esta poderá ser uma versão que sustentaremos com galhardia.
É bem verdade que vão se aproveitar da fragilidade do nosso argumento no que se refere ao corpo atirado do sexto andar: todos dirão com razão que não podia haver nenhum interesse por parte do terceiro personagem que criamos em jogar o corpo lá de cima.
Por que o faria? Isso não tem nexo.
Um ladrão que houvesse invadido o apartamento em poucos minutos, ainda assim teria levado algum objeto.
E não havia razão para um monstro qualquer que tivesse invadido o apartamento trucidar a Isabella, uma menina não teria capacidade para reagir nem intimidar o agressor.
Entende uma coisa, nós estamos em apuros, este argumento de que foi uma terceira pessoa que invadiu o apartamento é frágil, não se sustenta, mas é o único argumento que temos.
Sem esse argumento, só nos restaria confessar.
E com este argumento nós vamos resistir dois ou três anos, podemos até ter chance de sermos absolvidos, dependendo dos trâmites do processo e do julgamento, ou até chance de sermos condenados com pena mínima.
O que precisamos é manter o argumento, ainda que absurdo, o que precisamos é resistir até o fim.
Caso contrário, se um de nós dois fraquejar, tomba.
E confessa.
Nesse caso, inapelavelmente, como de saída negamos a autoria do crime, seremos ambos condenados.
E se a opinião pública estiver se corporificando contra nós, temos de tomar uma providência.
Vamos escolher um espaço de televisão na Rede Globo, um canhão de audiência.
Não pode ser o Jornal Nacional porque o espaço de tempo é pequeno.
Tem de ser no Fantástico, grande audiência e tempo de sobra para que possamos tentar modificar a tendência da opinião pública com nossas explicações.
Veja bem, tenha em mente sempre o seguinte: é preciso chorar.
Tem de chorar sempre que possa chorar.
Para isso tem de usar a técnica de imaginar o que será de nós e de nossos filhos se formos para a cadeia.
Chore, que eu vou tentar chorar também sempre que puder.
Chore e, se o repórter perguntar sobre aspectos técnicos do crime, desconverse.
Se perguntar, por exemplo, como havia manchas de sangue no nosso carro, diga que não sabe.
Desconverse.
O que interessa é chorar e falar muito na ternura que comandou a família unida até agora.
Chore e fale na Isabella amada por nós dois e principalmente fale nos instantes felizes que sempre vivemos com Isabella, chore, venha por mim, chore e elogie Isabella e fundamentalmente finja que nós amávamos mais Isabella do que aos nossos outros filhos.
Tem de fingir, tem de chorar.
Tem de tergiversar.
É o nosso único recurso.
Se não for assim, estamos fritos.
*texto publicado em 23/04/2008



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