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Mais nostalgia

09 de junho de 2012 2

Mais que a todos, a passagem dos séculos me assombra.
Tem gente por aí convivendo comigo que já nasceu sob o signo da insegurança pública e do desemprego.
Eu não, sou do tempo das cadeiras preguiçosas ou de palha nas calçadas.
Do tempo em que o trem vinha até a Voluntários da Pátria e se ia até Santa Maria num vagão com restaurante.
Sou do tempo da Bandeira do Divino, ela era precedida nas ruas e nos becos por foguetes, entrava nas casas, punha-se um donativo numa caneca e cortava-se um pedacinho de fita da bandeira para abençoar a casa.
Sou do tempo do Armazém Riograndense, sou do tempo dos cubeiros, que vinham em caminhões com cubos limpos de madeira envernizada e os trocavam nas latrinas por cubos cheios de fezes humanas.
E as mães diziam para os filhos: “ Se não te comportares e não estudares, vais ser cubeiro”.
Sou do tempo das Lojas Krahe, da Casa Coates e da carrrocinha dos cachorros, que recolhia os cães vadios mas junto com eles arrastava por laços asfixiantes nos pescoços os cães das famílias, o que por vezes causava uma tal revolta no arrabalde que as carroças eram destroçadas, os cães soltos e os funcionários municipais espancados.

Sou do tempo da Casa das Sedas, da Xangrilá e da espiriteira de álcool e do fogareiro de bomba.

Sou do tempo da Sloper, da Tschiedel, do caminhão do gelo que trazia longas barras que eram carregadas nos ombros dos geleiros, protegidos por sacos de aniagem.
Não havia refrigeradores, eram geladeiras, nasceu neste processo a cerveja bem gelada.
Sou do tempo do Anil Reckitt, do Vinho Doce Sabiá e do emplastro poroso do mesmo nome para torcicolo.
Sou do tempo do Kirk e da Senador, da Ferragem Pimenta, do pião, do bilboquê, depois do ioiô, do jogo de bambá com cascas de laranja, do jogo de taco com casinha derrubada, do Mercado Livre das frutas e verduras na Mauá, da vela espermacete, do refresco Hidrolitrol, do cartaz no bonde

“Veja ilustre passageiro/ o belo tipo faceiro/ que o senhor tem a seu lado/ e no entretanto ( sic) acredite/ quase morreu de bronquite/ salvou-o o Rhum Creosotado”.

Sou do tempo do bambolê, do sapato tressê, da bolinha de inhaque e da “ aça” que arrastava todas pela frente.
Sou do tempo dos cines Coliseu e Central.
Sou do tempo do Brizola governando o Estado e atrasando o pagamento do funcionalismo por longos e tenebrosos cinco meses.
Por isso, ao mesmo tempo que nada me surpreende, tudo me arrasa e espanta.

*texto publicado em 23/03/2007

Comentários (2)

  • Chicão diz: 9 de junho de 2012

    Santana, sou também desta época, um pouco saudoso e nostálgico de certos momentos que o desenvolvimento tratou de nos fazer esquecer, salvo quando algumas crõnicas nos remetem ao passado e voltamos a nos lembrar do que foi a nossa infãncia.
    Sim, os cubeiros, que cheiravam à distãncia...
    Eu morava na Gomes Jardim, esquina com o Riacho, pois não havia a avenida, claro, extamente onde é hoje a Dimed, em 1.950!
    Sequer a rua era calçada, ainda de chão batido, que se jogava bola no meio dela por não haver movimento de carros.
    Voltando aos cubeiros, a comparação que faço hoje com o caminhão cheio de excrementos, e não com os trabalhadores que tinham um serviço deplorável, é com a nossa política, fedorenta, nauseabunda, cujas entranhas das nossas casas legislativas apenas expelem o efeito das atitudes dos nossos parlamentares, lotando caminhões com tanta podridão que produzem!
    Claro, e nós somos os cubeiros a descarregar as carrocerias atulhadas de excrementos que podem ser traduzidos em corrupção desmedida, ilicitudes, desonestidades, compras de partidos, descasos com a educação, saúde e segurança!
    Jamais imaginei que aquele caminhão mal cheiroso, nojento, que fazia com que as crianças saíssem correndo de perto dele e berrando brincavam com aqueles trabalhadores humildes que ganhavam seus sustentos daquela forma, que a nossa política seria um dia sinônimo de merda, e que cidadãos decentes iriam correr dela pelo asco que ocasiona e contaminação contida nesses cubos, atualmente conhecidos como Câmaras, Assembléias e Congresso Nacional!

  • José antonio Oliveira diz: 12 de junho de 2012

    Sr. Paulo Sant´Ana, magnífica coluna, isto nao é nostalgia, isto é vida vivida com dignidade e saudade (aquela palavra que somente nós da lingua portuguesa a temos, com tanto significado). Tenho 60 anos, sou gaúcho, estou lhe escrevendo daqui do extemo sul da Argentina, com emocao. E aquele trem ia até Uruguaiana e, para quem tivesse que ir até Rosário, ou Livramento, se tinha que fazer baldeacao em Cacequi. Durante a viagem passava um vendedor (funcionário do restaurante) vendendo guaraná e uma balas (em uma bandeija de madeira a tiracolo). Em Cacequi, na estacao passavam vendedores vendendo artesanatos feitos pelos presidiários. E a máquina era "maria fumaca"... Obrigado Sr.Paulo Sant´Ana.

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