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Posts do dia 16 junho 2012

A competência do coração

16 de junho de 2012 1

A menina loira e gentil me atacou na saída do estúdio do Jornal do Almoço, ontem.
E disse ter uma grande admiração por mim, há muitos anos lê a minha coluna todos os dias.
“ Todos os dias?”, pergunto.
Ela responde que sim.
E diz que a mais bela coluna que escrevi foi lá pelos idos de 1997, cujo título era “ A competência do coração”.
“ Mas será que faz tanto tempo que escrevi aquela coluna?”, indago dela.
Ela disse que sabe o dia, o mês e o ano em que foi publicada.

Eu duvido.

Ela diz que agora iria fazer uma coisa para que eu não mais duvidasse: recitar a coluna.
Duvidei ainda mais.
Como ela poderia ter decorado uma coluna inteira e guardado na memória? Ela começa a recitar, palavra por palavra: “ O coração não sente ciúme.
O coração só ama.
Quem sente ciúme é o cérebro.
Por isso se diz que o ciúme é coisa da cabeça da gente.
O ciúme é um sentimento tão pérfido, que não cabe no coração.
O ódio também não é detonado pelo coração, ao contrário do que muito já se disse.
O ódio também vem do cérebro.
Por isso é que se diz que estamos com a cabeça quente.
O coração só ama.
Ternura vem do coração.
Tolerância vem do coração.
Bondade só vem do coração.
Quando alguém trai a quem ama ou estima, é porque o coração foi superado na luta que ele mantém contra os outros órgãos.
Não existe mau caráter original.
O caráter só será mau quando o coração não tiver influência sobre ele.
E será bom quando o coração o tiver envolvido.
Tanto prova, que é corrente a expressão ‘ mau-caráter’.
Mas nunca se ouviu dizer ‘ mau-coração’.
Porque no coração só cabem as coisas boas.
A lixeira do homem está em outras partes, algumas bem notáveis, do seu corpo.
No coração não cabe nem um argueiro”.

Eu me quedo perplexo.

A mocinha vai recitando sem parar toda a minha coluna.
Tive essa experiência em 1998, no Estádio Saint Denis, em Paris.
Encontrei, horas antes de França x Brasil, o Chico Buarque no bar do estádio.
Como ele não sabia quem eu era, comecei a cantar para ele as suas músicas.
Cantei Folhetim, Valsinha, Olê, Olá, Todo o Sentimento.
O Chico parecia adorar o que eu estava fazendo, ele não teve dúvidas de que, não fosse gastar o tempo, e eu interpretaria todas as canções dele.
Pois a garota estava fazendo o mesmo comigo.
Se fosse uma música ou um poema, vá lá que ela tivesse decorado, mas uma coluna! Foi uma coisa que estava me envaidecendo.

Ela continuou: “ O coração é a parte nobre do corpo humano, todas as outras são plebéias, porque se conspurcam.
A bênção sai do coração, o impropério salta do cérebro.
Saudade nasce no coração, rancor vem do cérebro.
Quem dispara a lágrima é o coração.
Quem dispara o revólver é o cérebro.
E sempre se travará a luta, descrita pelos filósofos, entre o cérebro e o coração.
E o incrível é que nesta luta, vença quem vencer, a razão sempre está com o coração.
Quando enfrenta o coração, o cérebro perde a razão.
‘ E o coração tem razões que a própria razão desconhece’.
Razão só tem aquele que tiver coração.
Coração só tem aquele que mostrar boa razão.
O cérebro é, portanto, um mero rival do coração.
E o homem se corrompe quando o cérebro toma o lugar do coração.
Eu às vezes amo tanto, que penso que tenho dois corações, o segundo no lugar do cérebro.
Sem cérebro, eu enlouqueço de tanto amar, porque só o cérebro pode travar a corrida alucinada do coração para o amor”.

A menina prosseguia, comigo incendiado de orgulho.

Uma garota guardara durante tanto tempo, na memória, todas as frases de uma coluna minha escrita há anos.
Comovente.
Ela ia recitando com a certeza de que estava me deliciando.
E chegou ao fim da coluna como se tivesse cumprido uma difícil tarefa de gincana: “ Daí que quem pensa não ama, e quem ama não pensa.
Se o destino tiver que escolher entre me avariar o cérebro ou o coração, que me preserve o coração e dane-se meu cérebro.
Mil vezes ser um encefalopata do que um cardiopata.
Prefiro vegetar como um idiota, mas tonto de amor”.
Bravos, menina! Como posso ter escrito tão bem assim? E como é maravilhoso tocar uma pessoa com o que se escreve a ponto de que ela recite o nosso texto todos os dias para que nunca mais ele lhe saia da lembrança.

*texto publicado em 05/06/2007