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Posts do dia 27 junho 2012

Interpretações psicanalíticas

27 de junho de 2012 0

O psicanalista João Gomes Mariante faz interessantes perscrutações num artigo que escreveu na Zero Hora de ontem, sábado, sobre um tema que sempre me interessou: o suicídio.
Ele considera um pré-suicídio o comportamento auto-agressivo e destruidor que o ex-jogador Maradona vem mantendo nos últimos anos.
A parte mais intrigante do artigo, a meu ver, é quando o articulista pergunta: por que os triunfadores se matam? t É que eu fui rever o rol dos suicidas que eu conheci – e com quem convivi – e notei que exatamente eles foram, na maior parte de suas vidas, vencedores.
Cheguei à conclusão de que todos eles se mataram por não terem conseguido dar continuidade a seu êxito.
Em outras palavras, mataram-se de vergonha.
Ou seja, mataram-se porque a vida afinal acabou desmentindo a fama que tinham de talentosos.

Uma circunstância inseparável do suicídio é o fracasso.

O suicídio é em última análise a ausência total de solução.
O caso de Maradona não é o mesmo caso dos suicidas da minha convivência: não foi por culpa de Maradona que ele deixou de ser Maradona.
Se alguém foi culpado da interrupção de seu sucesso, foi a natureza, que reserva para os jogadores de futebol um cruel desfecho nas suas existências, eles têm uma vida profissional hábil de 10 anos, no máximo 14.
Ou seja, a vida os aparelha para a glória somente em uma parte da existência, os anos que se sucedem são de penumbra e inutilidade.

Eu prefiro analisar sobre outro ângulo o “ pré-suicídio” de Maradona.

Penso que ele se embriagou tanto com os aplausos dos gramados, que se chocou ao perceber que eles não poderiam mais ser obtidos após o encerramento de sua carreira.
Nem a glória do reconhecimento perpétuo bastou-lhe, ela passou a lhe soar apenas como esmola: em suma, recusa-se a ser apenas uma estátua viva, queria ter o direito de para sempre escutar as ovações da ribalta.

Atrevida e absurdamente chego a pensar que a relação com Pelé contribui para a náusea existencial de Maradona.
Ele começou a se drogar quando percebeu, em meio à carreira que se aproximava do fim, que não conseguiria superar o Rei.
Era impossível superar Pelé, se fossem subtraídos do rol de número de gols feitos por Pelé, quase 1.300, mil gols, ainda assim Pelé superaria Maradona em gols feitos.
E Pelé ganhou três Copas, Maradona só conseguiu ganhar uma.

E Maradona se frustra ao ver que em um só país do mundo o consideram melhor que Pelé: na Argentina.
Ou seja, Maradona percebe que os argentinos mentem para ele com o fim de mentirem para si próprios.
Eu vivo repetindo que a megalomania é o centro da conduta humana.
E se o fracasso é o elemento mais intrínseco do suicídio, acaba prodigiosamente, para um Maradona de tantos triunfos, sendo considerado um grande fracasso ter-se tornado tão-somente uma paródia de Pelé.

*texto publicado em 15/04/2007