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O melhor dia do ano

28 de junho de 2012 0

Não sei como as crianças de hoje encaram a Páscoa, só sei que era na minha infância a data mais aguardada.
As crianças dormem o sono dos anjos, não precisam de soníferos para dormir.
Mas a noite do sábado de Aleluia era para mim, dos cinco aos 11 anos de idade, a noite em que eu não conseguia pegar no sono.
Revirava-me na cama, tenso, na dúvida se o coelhinho pascal ia deixar ou não debaixo da minha cama o ninho com as guloseimas.

Garantem os endocrinologistas que o diabetes surge para uma pessoa sem ter nenhuma importância se ela come muito açúcar ou não.

Garantem os médicos que o consumo vasto e insistente do açúcar não vai determinar se a pessoa será diabética.
No meu caso, sinceramente, vou apor a minha dúvida.
O que eu comia de doces, rapadurinhas de toda espécie, fôrmas inteiras de pudim, papos-de-anjo, quindins e, todos os dias, uma lata de leite condensado, não tinha no gibi.
Esse farrancho de açúcares que cercou a minha infância, a minha adolescência e a minha primeira maturidade só podia redundar num desastre: foi assim que um dia, quando tinha 53 anos, recebi a notícia de que era diabético.

Inicialmente, tratei o diabetes somente com comprimidos, naquele tempo tinham o nome de Daonil.

Mais tarde, só os comprimidos não foram suficientes para debelar minha alta glicemia e solenemente me foi declarado que eu passava a ser um insulinodependente.
Faço todos os dias duas injeções de insulina no mínimo, no meu caso são duas, pois há 40 anos não tomo café da manhã, só almoço e janto.
Há 40 anos, até as 14h não ingiro um grama sequer de alimento.

Mas, voltando à minha melifluidade ( se é que posso criar esta palavra para significar a vocação obsessiva que sempre tive para ingerir açúcar), quando me era proporcionada a inesquecível e estupenda alegria de acordar-me nos domingos de Páscoa da minha infância e, nervoso pela expectativa, arredar a colcha ou cobertor e pôr os olhos debaixo da cama, constatando que lá estava o ninho de doçuras que o coelhinho havia deixado.
Aquele passava a ser o dia mais importante do ano para mim.

Sempre vinha um coelho de chocolate.

E muitos ovinhos de chocolate.
Mas meus olhos brilhavam quando eu topava com os ovos de açúcar ( não de chocolate) que se faziam antigamente, todos enfeitados, ornados de desenhos coloridos por açúcar cristal.
Aqueles ovos de açúcar eu nunca mais vou esquecer.
Durava no máximo dois dias o meu ninho de Páscoa.
No terceiro dia eu ainda dava bicadas no ninho do meu irmão.
Dá-me vontade de chorar agora quando me lembro daquele surto de alegria de que eu era tomado quando corria para a rua, sobraçando o ninho de vime seguro pela alça, cheio de balas, ovos e coelho, indo cotejar com os outros meninos para saber quem de nós havia ganho mais e melhores presentes.
Na vida, a fantasia sempre dá de goleada em prazer na realidade.

*texto publicado em 08/04/2007

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