Não sei por que, mas dói mais na alma da gente a morte de uma criança do que a de qualquer adulto.
As crianças tinham de vir imunizadas tanto contra a morte quanto contra o sofrimento.
Como parecem ser imunizadas contra a tortura.
Nunca ouvi falar que uma criança tenha sido torturada, deve haver aí um desígnio da Providência.
Mas a morte de qualquer criança me abala triplamente.
Eu botei na cabeça loucamente, por exemplo, que as crianças que são atacadas pelos cães ferozes sofrem muito mais do que os adultos vítimas da mesma situação.
Sei que não é verdade, mas me comove mais o martírio das crianças.
Talvez seja porque as crianças são apanhadas pela doença, pelo sofrimento ou pela morte, sem a consciência do que está lhe ocorrendo, o que na minha delirante imaginação soa como um sacrifício maior.
Da mesma forma, quando tomamos conhecimento das dificuldades extremas de uma família pobre ou miserável para sobreviver, apiedamonos muito mais das crianças do que dos adultos atingidos.
Por que será? É que talvez julguemos os adultos mais resistentes às adversidades.
Será que, por racionalizar a sua tragédia, um adulto sofre menos que uma criança? Que ser especial é este – a criança – entre os humanos, que acaba merecendo de nós as maiores atenções? Uma criança é sempre para nós uma gracinha, um ser frágil e indefeso, incapaz de compreender ou de reagir a uma agressão.
Isso também acontece nas esquinas e nas ruas.
Somos pelo turbilhão da vida cotidiana levados a uma indiferença brutal mas sem saída com as pessoas que mendigam.
Mas quando é uma criança que está pedindo uma esmola, então estremecemos, sentimos um choque: como pode aquele filhote, aquele projeto de pessoa já estar se afligindo com a sua sobrevivência? Não sei por que entendemos que é mais injusto socialmente que uma criança esteja a pedir esmolas do que um adulto, quando em realidade não há diferença, senão a de que a cena nos passa a impressão de que, se não estendermos a esmola, a criança não terá outra forma de solucionar a sua crise econômica e existencial, enquanto que, por comodidade psíquica, imaginamos que se recusarmos uma esmola a um adulto, ele encontrará ali adiante uma outra forma para ultrapassar o obstáculo que a vida está lhe oferecendo.
Por isso é que não me absolvo das duas únicas vezes em minha vida que cometi a insânia de dar palmadas vigorosas em meus filhos para corrigir-lhes uma travessura ou teimosia.
Até hoje, doem-me aquelas palmadas.
Quando as dei, não dormi direito durante vários dias.
Como posso ter punido um ser impunível? Será que aqueles educadores do passado não foram perseguidos a vida inteira por fantasmas de consciência, que lhes cobravam a crueldade de terem infligido sessões de palmatória aos alunos rebeldes e desaforados? Se há alguma coisa com a qual não me conformo na natureza das coisas e das gentes é que as crianças, até adquirirem a dominância cerebral, não tenham vindo ao mundo blindadas de alguma forma contra a dor, o frio e a fome.
Todos podiam ser infelizes, prega a minha tolice, menos as crianças.
*texto publicado em 09/09/2007



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