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Posts de junho 2012

As frágeis crianças

29 de junho de 2012 0

Não sei por que, mas dói mais na alma da gente a morte de uma criança do que a de qualquer adulto.
As crianças tinham de vir imunizadas tanto contra a morte quanto contra o sofrimento.
Como parecem ser imunizadas contra a tortura.
Nunca ouvi falar que uma criança tenha sido torturada, deve haver aí um desígnio da Providência.
Mas a morte de qualquer criança me abala triplamente.
Eu botei na cabeça loucamente, por exemplo, que as crianças que são atacadas pelos cães ferozes sofrem muito mais do que os adultos vítimas da mesma situação.
Sei que não é verdade, mas me comove mais o martírio das crianças.
Talvez seja porque as crianças são apanhadas pela doença, pelo sofrimento ou pela morte, sem a consciência do que está lhe ocorrendo, o que na minha delirante imaginação soa como um sacrifício maior.
 Da mesma forma, quando tomamos conhecimento das dificuldades extremas de uma família pobre ou miserável para sobreviver, apiedamonos muito mais das crianças do que dos adultos atingidos.
Por que será? É que talvez julguemos os adultos mais resistentes às adversidades.
Será que, por racionalizar a sua tragédia, um adulto sofre menos que uma criança? Que ser especial é este – a criança – entre os humanos, que acaba merecendo de nós as maiores atenções? Uma criança é sempre para nós uma gracinha, um ser frágil e indefeso, incapaz de compreender ou de reagir a uma agressão.
 Isso também acontece nas esquinas e nas ruas.
Somos pelo turbilhão da vida cotidiana levados a uma indiferença brutal mas sem saída com as pessoas que mendigam.
Mas quando é uma criança que está pedindo uma esmola, então estremecemos, sentimos um choque: como pode aquele filhote, aquele projeto de pessoa já estar se afligindo com a sua sobrevivência? Não sei por que entendemos que é mais injusto socialmente que uma criança esteja a pedir esmolas do que um adulto, quando em realidade não há diferença, senão a de que a cena nos passa a impressão de que, se não estendermos a esmola, a criança não terá outra forma de solucionar a sua crise econômica e existencial, enquanto que, por comodidade psíquica, imaginamos que se recusarmos uma esmola a um adulto, ele encontrará ali adiante uma outra forma para ultrapassar o obstáculo que a vida está lhe oferecendo.
 Por isso é que não me absolvo das duas únicas vezes em minha vida que cometi a insânia de dar palmadas vigorosas em meus filhos para corrigir-lhes uma travessura ou teimosia.
Até hoje, doem-me aquelas palmadas.
Quando as dei, não dormi direito durante vários dias.
Como posso ter punido um ser impunível? Será que aqueles educadores do passado não foram perseguidos a vida inteira por fantasmas de consciência, que lhes cobravam a crueldade de terem infligido sessões de palmatória aos alunos rebeldes e desaforados? Se há alguma coisa com a qual não me conformo na natureza das coisas e das gentes é que as crianças, até adquirirem a dominância cerebral, não tenham vindo ao mundo blindadas de alguma forma contra a dor, o frio e a fome.
Todos podiam ser infelizes, prega a minha tolice, menos as crianças.

*texto publicado em 09/09/2007

Agradecimento

29 de junho de 2012 0

O melhor dia do ano

28 de junho de 2012 0

Não sei como as crianças de hoje encaram a Páscoa, só sei que era na minha infância a data mais aguardada.
As crianças dormem o sono dos anjos, não precisam de soníferos para dormir.
Mas a noite do sábado de Aleluia era para mim, dos cinco aos 11 anos de idade, a noite em que eu não conseguia pegar no sono.
Revirava-me na cama, tenso, na dúvida se o coelhinho pascal ia deixar ou não debaixo da minha cama o ninho com as guloseimas.

Garantem os endocrinologistas que o diabetes surge para uma pessoa sem ter nenhuma importância se ela come muito açúcar ou não.

Garantem os médicos que o consumo vasto e insistente do açúcar não vai determinar se a pessoa será diabética.
No meu caso, sinceramente, vou apor a minha dúvida.
O que eu comia de doces, rapadurinhas de toda espécie, fôrmas inteiras de pudim, papos-de-anjo, quindins e, todos os dias, uma lata de leite condensado, não tinha no gibi.
Esse farrancho de açúcares que cercou a minha infância, a minha adolescência e a minha primeira maturidade só podia redundar num desastre: foi assim que um dia, quando tinha 53 anos, recebi a notícia de que era diabético.

Inicialmente, tratei o diabetes somente com comprimidos, naquele tempo tinham o nome de Daonil.

Mais tarde, só os comprimidos não foram suficientes para debelar minha alta glicemia e solenemente me foi declarado que eu passava a ser um insulinodependente.
Faço todos os dias duas injeções de insulina no mínimo, no meu caso são duas, pois há 40 anos não tomo café da manhã, só almoço e janto.
Há 40 anos, até as 14h não ingiro um grama sequer de alimento.

Mas, voltando à minha melifluidade ( se é que posso criar esta palavra para significar a vocação obsessiva que sempre tive para ingerir açúcar), quando me era proporcionada a inesquecível e estupenda alegria de acordar-me nos domingos de Páscoa da minha infância e, nervoso pela expectativa, arredar a colcha ou cobertor e pôr os olhos debaixo da cama, constatando que lá estava o ninho de doçuras que o coelhinho havia deixado.
Aquele passava a ser o dia mais importante do ano para mim.

Sempre vinha um coelho de chocolate.

E muitos ovinhos de chocolate.
Mas meus olhos brilhavam quando eu topava com os ovos de açúcar ( não de chocolate) que se faziam antigamente, todos enfeitados, ornados de desenhos coloridos por açúcar cristal.
Aqueles ovos de açúcar eu nunca mais vou esquecer.
Durava no máximo dois dias o meu ninho de Páscoa.
No terceiro dia eu ainda dava bicadas no ninho do meu irmão.
Dá-me vontade de chorar agora quando me lembro daquele surto de alegria de que eu era tomado quando corria para a rua, sobraçando o ninho de vime seguro pela alça, cheio de balas, ovos e coelho, indo cotejar com os outros meninos para saber quem de nós havia ganho mais e melhores presentes.
Na vida, a fantasia sempre dá de goleada em prazer na realidade.

*texto publicado em 08/04/2007

Interpretações psicanalíticas

27 de junho de 2012 0

O psicanalista João Gomes Mariante faz interessantes perscrutações num artigo que escreveu na Zero Hora de ontem, sábado, sobre um tema que sempre me interessou: o suicídio.
Ele considera um pré-suicídio o comportamento auto-agressivo e destruidor que o ex-jogador Maradona vem mantendo nos últimos anos.
A parte mais intrigante do artigo, a meu ver, é quando o articulista pergunta: por que os triunfadores se matam? t É que eu fui rever o rol dos suicidas que eu conheci – e com quem convivi – e notei que exatamente eles foram, na maior parte de suas vidas, vencedores.
Cheguei à conclusão de que todos eles se mataram por não terem conseguido dar continuidade a seu êxito.
Em outras palavras, mataram-se de vergonha.
Ou seja, mataram-se porque a vida afinal acabou desmentindo a fama que tinham de talentosos.

Uma circunstância inseparável do suicídio é o fracasso.

O suicídio é em última análise a ausência total de solução.
O caso de Maradona não é o mesmo caso dos suicidas da minha convivência: não foi por culpa de Maradona que ele deixou de ser Maradona.
Se alguém foi culpado da interrupção de seu sucesso, foi a natureza, que reserva para os jogadores de futebol um cruel desfecho nas suas existências, eles têm uma vida profissional hábil de 10 anos, no máximo 14.
Ou seja, a vida os aparelha para a glória somente em uma parte da existência, os anos que se sucedem são de penumbra e inutilidade.

Eu prefiro analisar sobre outro ângulo o “ pré-suicídio” de Maradona.

Penso que ele se embriagou tanto com os aplausos dos gramados, que se chocou ao perceber que eles não poderiam mais ser obtidos após o encerramento de sua carreira.
Nem a glória do reconhecimento perpétuo bastou-lhe, ela passou a lhe soar apenas como esmola: em suma, recusa-se a ser apenas uma estátua viva, queria ter o direito de para sempre escutar as ovações da ribalta.

Atrevida e absurdamente chego a pensar que a relação com Pelé contribui para a náusea existencial de Maradona.
Ele começou a se drogar quando percebeu, em meio à carreira que se aproximava do fim, que não conseguiria superar o Rei.
Era impossível superar Pelé, se fossem subtraídos do rol de número de gols feitos por Pelé, quase 1.300, mil gols, ainda assim Pelé superaria Maradona em gols feitos.
E Pelé ganhou três Copas, Maradona só conseguiu ganhar uma.

E Maradona se frustra ao ver que em um só país do mundo o consideram melhor que Pelé: na Argentina.
Ou seja, Maradona percebe que os argentinos mentem para ele com o fim de mentirem para si próprios.
Eu vivo repetindo que a megalomania é o centro da conduta humana.
E se o fracasso é o elemento mais intrínseco do suicídio, acaba prodigiosamente, para um Maradona de tantos triunfos, sendo considerado um grande fracasso ter-se tornado tão-somente uma paródia de Pelé.

*texto publicado em 15/04/2007

Abandono

26 de junho de 2012 0

Aquela pessoa a quem mais amo, estranhamente, é a que mais me odeia.

Por que ela se recusa a vir ver o ritual solene do meu definhamento? Por que não me estende a mão de seu socorro?

Por que me fere com sua distância e aguça a minha dor com seu silêncio?

Se algum crime cometi, eis-me a declarar que sou culpado, mas não mereço a pena máxima do seu abandono.

Melhor seria então que eu me fosse e lhe deixasse por isso imersa no remorso.

Já paguei demais pelo seu rancor. Já perdi demais, quase tudo, pelo seu desprezo.

Inútil prosseguir sem o seu perdão. A maldade humana não tem limites, toda a capacidade dela se derrubou sobre mim.

Estou apenas à espera de que daqui a 15 dias ela me desfira o último golpe.

Toma, minha jugular é aqui, enterra bem fundo o aço frio do teu punhal, se só isto sacia o teu ódio indomável.

Amantíssima assassina da minha esperança.

Em face desse meu drama, me socorro nos versos providenciais do insuperável Augusto dos Anjos:

Como um fantasma que se refugia

Nas solidão da natureza morta,

Por trás do ermos túmulos um dia

Eu fui refugiar-me à tua porta.

Fazia frio e o frio que fazia

Não era esse que a carne nos conforta.

Era o mesmo frio que em carniçaria

O aço das facas incisivas corta.

E tu não vieste ver minha desgraça.

E eu saí como quem tudo repele,

Velho caixão a carregar destroços,

Levando apenas na tumbal carcaça

O pergaminho singular da pele

E o chocalho fatídico dos ossos.

Mudando de assunto, aterrado e aterrorizado com as centenas de milhares de escutas nos grampeamentos autorizados e nos não autorizados que circulam no Brasil, tenho o dever de consciência de declarar o que penso a respeito.

Declaro que sou contra todos os grampeamentos de telefones, até mesmo e principalmente os que servem de provas para comprovar delitos.

Porque entendo que todos os grampeamentos, autorizados ou não autorizados, ferem o intocável direito à privacidade inscrito sublimemente na Constituição.

Só admito um tipo de grampeamento, aquele que visa a salvar vidas, como no caso de sequestros em andamento.

Os demais grampeamentos, cumpro dizer mesmo que não tenha nenhuma importância o que digo para meu meio social, são um lixo espúrio da nossa realidade.

Ah, existe um outro, apenas outro grampeamento que consinto: o que possa servir ao amplo direito de defesa de um réu.

Aí, então, para o amplo direito de defesa, que se utilize o grampeamento.

Mas que jamais se o utilize para o restrito direito da acusação.

Em nome da liberdade é que o afirmo.

*texto publicado em 20/06/2009

Mais uma chacina

25 de junho de 2012 0

Eu sofro mais do que meus circunstantes porque me preocupo com fatos que não são preocupação da classe média.

E, como só a classe média tem poder para pressionar os governos, os alvos das minhas preocupações continuam abandonados à própria sorte.

É que a classe média nem liga para as brutais chacinas que acontecem com frequência na Grande Porto Alegre.

E eu considero da mais alta gravidade esses crimes encomendados que vitimam famílias inteiras nas vilas populares que nos circundam.

O alvo principal das chacinas é sempre um homem que está num casebre ou num bar, acompanhado de familiares ou de amigos.

E não é só este alvo principal que é eliminado. As pessoas que estão em sua companhia são também atingidas pelas balas assassinas.

Quem comete assim essas chacinas nas vilas pobres detém um poder singular: julga e executa.

E quem assim julga e executa fica solto e certamente praticará outros crimes.

Ou seja, são uma espécie de milícia a serviço do tráfico ou do roubo que se encoraja pela impunidade e reina nos territórios de sua ação.

Quantas e quantas pessoas que não são mortas porque se submetem a esses esquadrões criminais? Quantas?

Evidentemente que estou escrevendo isso em face da chacina que vitimou quatro pessoas ontem na Vila Bom Jesus.

Como sempre acontece, os assassinos invadiram um casebre onde moravam as vítimas, pela noite, e despejaram dezenas de tiros sobre os quatro corpos.

Na grande maioria das chacinas, é divulgado que foi um ajuste de contas entre criminosos.

E a opinião pública, que optou por festejar que criminosos sejam mortos, encara com indiferença esses trágicos episódios.

Quanta violência, quanta chantagem, quanto amedrontamento, quanto medo, quantos cerceamentos de liberdade impostos pelos criminosos a moradores dessas vilas estão por trás das chacinas!

Fica muito claro que este terror criminal dividiu o nosso meio social em duas fatias muito bem definidas: a classe média e os abastados que vivem do lado de cá e os pobres do lado de lá, estes últimos encravados em um território em que reina a violência e o medo.

Há um apartheid nítido na sociedade e os que não são pobres encaram com indiferença toda sorte de violência impune que grassa entre as comunidades destituídas.

A classe média só se revolta ou se comove quando um dos seus membros é atingido por essa violência que fatalmente respinga, por assalto ou assassinato, nos segmentos mais favorecidos.

Mas, se as chacinas ocorrem nos casebres pobres ou miseráveis, nos cantões onde reinam soberanos os criminosos armados e organizados em grupos, a classe média, a chamada sociedade, que afinal detém o poder político, dá de ombros e não se importa com o noticiário, pouco se lhe dá que várias chacinas se verificaram do último ano até ontem ou anteontem, morrendo sempre a cada evento três, quatro ou cinco pessoas.

Só que os atores criminais estão espalhados ao redor das cidades. Fatalmente, eles atacarão as cidadelas, tanto que dentro delas hoje impera em nossos espíritos o medo, por onde quer que transitemos e muitas vezes até onde quer que moremos.

Eu sofro porque me dói, me punge e me revolta a sorte dessas vítimas das chacinas. Além de que esses atos, por serem em sua alentada maioria impunes, darão lugar obrigatoriamente a outros eventos igualmente trágicos.

É imperioso que todos nós, pelo menos, nos munamos da consciência de que vivemos num ambiente moral infecto e que, tanto dentro quanto fora dos presídios, a atmosfera que nos cerca é de perigo e dor.

E que as chacinas que ocorrem na Grande Porto Alegre são manifestações muito claras de que o crime está nos devorando como se devora mingau quente, pelas beiradas.

*texto publicado em 12/02/2009

Transtorno do coração

22 de junho de 2012 0

C omo vimos em colunas anteriores, existem vários transtornos da psiquê que são catalogados pela Organização Mundial de Saúde como doenças mentais.
Mas é que eu detectei ultimamente um tipo outro de transtorno: o do coração.
Pelo transtorno do coração, o paciente muda o fulcro do seu sentimento, no caso o amor.
Ele deixa normalmente de canalizar o seu sentimento na direção do objeto amado para invejar e desejar o mal a outro objeto, o que é adverso ao primeiro.

O mais famoso transtorno do coração é a secação no futebol.
Quarta-feira passada, o transtorno da secação manifestou-se intensa e doentiamente no jogo Veranópolis x Internacional.

O Rio Grande inteiro ficou tomado pelo jogo de quarta-feira passada.
Havia menos colorados na televisão para ver o jogo do que os que não eram colorados, entre eles os indiferentes, os neutros e principalmente os secadores.
O fenômeno da secação ao Inter hipertrofiou-se profundamente depois da conquista colorada no Japão.
De alguma forma, os secadores pretendem se vingar da ofensa do Inter ter conseguido ser campeão mundial.

No Sala de Redação de quinta-feira, um dia após o grande jogo em que o Internacional, para estupefação de todos os telespectadores, desclassificou-se das quartas-de-final do Gauchão aos 93 minutos de partida, logo que o Cacalo começou a falar notei que ele estava inteiramente rouco.
Ou seja, o Cacalo, durante o emocionante jogo de Veranópolis, tinha gritado, vociferado, berrado, torcido para que o Inter perdesse como é certo que ele não torce assim com tanto entusiasmo para que o Grêmio, que ele ama, ganhe.

Este é o transtorno do coração.
Por essa estranha e exótica cardiopatia, o indivíduo torce menos pelo bem do seu time do que pela desgraça do rival do seu time.
É um desvio do sentimento.
O amor dá lugar a outro sentimento dominante: a secação do rival.
Torcer para o clube do seu coração passa a ser sentimento secundário.
Ele erige como prioridade secar o time que ameaça ser ou é superior ao time que ele ama.
Por outro ângulo entende o secador, no seu desvio coronariano, que só pode ser exaltado o clube que ele ama se for avariado o clube que ele seca.
Ele só não vai ao estádio para secar o grande rival porque acha vergonhoso ou porque entende isso como temerário, mas preferiria isso a ver o clube que ama.
Mas ele acompanha a escalação do time que ele seca com muito mais atenção do que a do time que ele ama.
Vibra quando o time que ele seca entra em crise, se o rival vai para a segunda divisão, ele delira.
Há secadores que vibram mais quando o time que eles secam vai para a segunda divisão ou se desclassifica no Gauchão do que vibraram quando seu clube foi campeão mundial no Japão.

Eles escondem isso, mas prefeririam ser chamados de anticolorados e não de gremistas.
Ou de antigremistas e não de colorados.
Foi uma nova vida, um novo ideal que criaram para eles.
Tanto que aconteceu um extravagante fenômeno após o emocionante jogo de Veranópolis, espalhado por grande parte da torcida gremista e que pode ser sintetizado na opinião de um torcedor tricolor que me disse o seguinte: “ Para mim, terminou o Gauchão.
Não tenho mais nada que fazer neste campeonato.
Com a desclassificação do Inter, o meu objetivo principal já foi atingido.

*texto publicado em 09/04/2007

O vinho

21 de junho de 2012 0

Um amigo meu, casado, engenheiro, foi jantar com outra mulher num restaurante fino da cidade.
Era uma bela loira a aventura adulterina do meu amigo.
Dois dias depois, a esposa do meu amigo chamou-o a um canto do lar conjugal: “ Adolfo, foste visto jantando anteontem no Restaurante Tal com uma linda moça.
O que tens a me dizer?”.

Meu amigo empalideceu, mas tentou se recuperar: “ Era uma colega engenheira de uma firma que tem consórcio conosco e a única ocasião que ela dispunha para tratar da nossa transação imobiliária era aquela noite.
Por isso travamos um jantar profissional”.

A esposa do meu amigo retrucou rapidamente: “ Tudo bem, mas e o…  vinho?”.

Nocaute.

Uma frase que vem se ajuntar oportunissimamente à campanha que a RBS vem realizando sobre a droga maldita, de autoria do neurologista Clovis Francesconi: “ Quem vai tirar a primeira pedra?’’.

Sei agora por que Deus decreta a morte de pessoas queridas.

Ele quer testar a capacidade de suportar a dor por parte dos parentes e amigos da pessoa que morre.
Se alguém consegue sobreviver à morte de um filho, de um pai, de uma mãe ou de qualquer pessoa amada, então pode declarar que conheceu a face mais dolorosa da vida, pode declarar que é enfim uma pessoa humana apta a todos os embates que ainda poderão advir.

Cheguei a um ponto da existência em que me interessam menos as mulheres do que os doces.
Eu me apaixono cada vez mais pela goiabada cascão, pelo rei alberto, pelos pastéis de santa clara, pelos ovos-moles, sem falar, é claro, nos meus dois engates históricos: o sagu com creme e o papo de anjo.

Uma vez escrevi aqui nesta coluna que gosto tanto de sagu que na mesa do jantar tomo vinho Sabiá e no sagu uso o vinho Châteaunef-du-Pape.

Nos doces de Pelotas não quero nem falar.

Depois de um casamento de 10 anos com o ninho, separei-me definitivamente dele porque me apaixonei pelas trouxinhas, mas há tempo ando traindo-as com os olhos de sogra.

Em Pelotas, deveriam expulsar todos os habitantes que fossem diabéticos.

Porque ser diabético e morar em Pelotas é como dormir ao lado de um vulcão.
E, finalmente uma declaração de princípios: não me venham jamais impingir-me doces dietéticos.

Doce tem de ter açúcar puro.

Bastante açúcar como no doce de coco e no – está bem, concedo em me interessar por mulheres – no divinal baba de moça.

*texto publicado em 08/07/2009

Olhar para o rabo

20 de junho de 2012 0

Pus-me a observar dois cruzamentos da Rua Voluntários da Pátria, ontem pela manhã.
Num deles, um carro atrasou-se na sinaleira e ficou no centro da travessia, impedido de prosseguir por causa do fluxo caudaloso e ameaçador.
Nenhum dos cerca de 50 veículos que cruzavam por ele teve a bondade de parar para que ele completasse a travessia.
Nenhum.

Todos seguiam implacavelmente, indiferentes à sorte daquele motorista em apuros.
Como todos desviavam dele, o atraso daquele carro ofereceu risco ao trânsito, qualquer um dos que seguiam seu rumo na perpendicular dele poderia chocar-se com ele.
Mas ninguém deu vez para que o pobre homem passasse.
E foi assim até o sinal voltar para o motorista em desvantagem.
Uma indiferença total ao motorista em desvantagem.

Na esquina seguinte, uma mulher idosa também tentava atravessar e não podia.
Ficou no meio da travessia.
Nenhum carro parou para dar-lhe passagem.
Ali estava uma mulher idosa exposta ao trânsito veloz e agressivo, sem qualquer cortesia de sequer um das dezenas de veículos que seguiam à frente, sem diminuir a velocidade, todos sem perder a vez e em desabalada carreira, pondo em risco visível a pobre senhora.

Informam espantosamente as estatísticas que mais de 60% das pessoas atropeladas em Porto Alegre têm idade superior a 60 anos.
Ainda ontem, quando lamentava a falta de sorte do motorista encalhado no cruzamento e da senhora impedida de completar a travessia da rua, ouvia a notícia de que uma mulher tinha sido atropelada pela manhã.
Fiquei aguardando para saber a idade dela: dito e feito, tinha 75 anos.
Então, há um massacre às pessoas idosas no trânsito da Capital.
Evidentemente porque elas não têm agilidade nem mobilidade para atravessar as ruas e avenidas.
E pouco está ligando para isso a quase totalidade, senão totalidade, dos motoristas em ação no cenário do trânsito.

Aí ficamos lamentando a atrocidade dos massacres que sofrem determinadas vítimas, entre elas o menino de 14 anos em Caxias, que foi assassinado a pedradas e pauladas por outros jovens.
Quando nosso comportamento no trânsito é exatamente igual aos dos massacradores.
Ou seja, o problema está no nosso caráter de povo, o traço geral e comum do nosso caráter é de agressividade, de indiferença ao desfavor do próximo.
Não há no trânsito qualquer sintoma de delicadeza, de espírito fraterno e solidário.
Não há cortesia no trânsito.
Nem há compaixão.
Todos só querem seguir à frente a qualquer preço.

Então, assaltantes ou motoristas, somos um povo com o mesmo gene de crueldade.
Uns agridem nos assaltos, outros agridem no trânsito.
É difícil de entender, mas somos todos iguais.
Reclamamos da corrupção dos políticos, mas, em realidade, se tivéssemos a oportunidade de sermos eleitos, também nos corromperíamos.

Aqui no Brasil, 90% das pessoas só são honestas e não cometem crimes por medo de serem apanhadas.
Por inteireza de caráter, só 10% não cometem crimes.

São os que deixam de se corromper, mesmo sabendo que se o fizessem não seriam descobertos.
Tanto nos assaltantes quanto nos políticos, eles são exatamente o que nós, povo, o somos.
Fazemos parte de uma sociedade só, perversa e corrupta.
Basta olharmos para nosso próprio rabo.

*texto publicado em 10/07/2007

Os outros

18 de junho de 2012 6

Quando eu era criança, nunca tive desejo de ter um carro.
Porque morava num lugar em que não passavam carros.
Lá distante, onde era a Avenida Aparício Borges, onde só minha vista alcançava, eu via que passavam os carros, mas não fazia a menor idéia de quem eram seus donos.
Eu só fui ter desejo de ter um carro quando identifiquei os donos dos carros e vi que eles eram diferentes de mim por eu não ter carro.
Foi a minha primeira comparação, o abismo que me levou a achar que os outros eram mais felizes do que eu.

O que quero dizer é o seguinte: se olharmos só para o que somos, temos mais chances de sermos felizes.
O diabo é que não é isso que acontece: vivemos nos espelhando nos outros, a nossa aflição consiste em tentarmos ter o que os outros têm, quando não termos mais do que os outros, sermos melhores ou iguais aos outros.

Em Cuba, por exemplo, onde todos são pobres, todos ganham pouco, ninguém se julga infeliz.
Os cubanos infelizes são aqueles que sabem que a poucos quilômetros da ilha existe Miami, os EUA, onde as condições de vida dos norteamericanos são infinitamente melhores que as dos cubanos.
Isso passa a ser insuportável, pois se instala neles a idéia de que suas vidas são muito piores que as dos seus vizinhos norte-americanos.

Em outras palavras, só pode ser feliz quem não acha os outros mais felizes.
Toda a encrenca humana reside em nos compararmos com nossos vizinhos, isto é, com os outros.
Sempre que acharmos que alguém é mais feliz do que nós, acabaremos sendo infelizes.
É muito difícil para os humanos encarar com naturalidade a felicidade dos outros, até mesmo porque aos nossos olhos invejosos os outros são mais felizes do que realmente o são.
O próprio Sartre disse que “ o inferno são os outros”.
O que quer dizer que nós teríamos muito mais chances de sermos felizes e realizados se olhássemos só para nós.

Por isso é que os livros sagrados dizem que ser rico não é possuir todas as riquezas, no nosso caso muito dinheiro, muitas propriedades, viajar para onde nos apetecer.
Ser rico, dizem os livros sagrados, é contentar-se com o que se tem.
Se há um segredo de felicidade é este: achar que é bastante o que se possui, sem olhar para o que possuem os outros.
Sei que estou dando uma receita quase impossível de seguir, mas também sei que é a única receita capaz de levar uma pessoa a ser feliz.

Pelo amor de Deus, isso não quer dizer que o homem não deva ambicionar, até mesmo porque a razão central do progresso dos homens e das nações é a ambição.
Mas a ambição deve ser uma meta, uma trilha a seguir, e não o despeito por ver que os outros têm mais do que nós.
Ou seja, a felicidade está apenas no que somos e no que desejamos ser, mas sem nos importarmos com o parâmetro alheio.
Assim, justo é que queiramos crescer porque vemos que há espaço para crescermos – e não porque entendemos que os outros estão mais crescidos.
Fôssemos ser infelizes porque possuímos menos do que os outros, teríamos que paralisar, cruzar os braços e nunca mais avançar quando constatássemos que outros possuem muito menos do que nós.


*texto publicado em 14/09/2008

Retrato de Jesus

17 de junho de 2012 2

Republico hoje, a pedido de inúmeros leitores que me têm solicitado isto há vários meses, uma coluna que publiquei aqui em 1997 e a repeti em 2001.
Mas é um texto de uma beleza tão fulgurante, que precisa ser sempre lembrado.
Sempre que o leio, me emociono.
E muitos leitores já me escreveram dizendo que sentem o mesmo.
Trata-se de um relato fiel do aspecto de Jesus, feito por um alto funcionário da Judéia ( presidente) dirigido ao imperador Tibério César, claro que um testemunho dos passos de Jesus ao redor de Jerusalém, texto elaborado, é claro, antes da morte de Cristo e durante sua vida, com todas as repercussões populares que a vida do Nazareno causava naquele tempo por aqueles caminhos e lugares sagrados.
É o mais fiel perfil de Jesus que se conhece, superior até ao que emana dos textos bíblicos, evocado pelo autor em razão de inúmeros comícios realizados por Jesus nos lugares santos.
Ei-lo em carta ao imperador romano:

“ Sabendo que desejais conhecer quanto vou narrar-vos, escrevo-vos esta carta.
Nestes tempos apareceu na Judéia um homem de virtudes singulares, que se chama Jesus e que pelo povo é chamado de O Grande Profeta.
Seus discípulos dizem ser ele o Filho de Deus.
Em verdade, ó César, a cada dia, dele se contam raros prodígios: ressuscita os mortos, cura todas as enfermidades e tem assombrado Jerusalém com sua extraordinária doutrina.
É de estatura elevada e nobre, e há tanta majestade em seu rosto, que aqueles que o vêem são levados a amá-lo ou a temê-lo.
Tem os cabelos cor de amêndoa madura, separados ao meio, os quais descem ondulados sobre os ombros, ao estilo dos nazarenos.
Tem fronte larga e aspecto sereno.
Sua pele é límpida e corada: o nariz e a boca são de admirável simetria.
A barba é espessa e tem a mesma cor dos cabelos.
Suas mãos são finas e longas e seus braços de uma graça harmoniosa.
Seus olhos são plácidos e brilhantes, e o que surpreende é que resplendem no seu rosto como raios do sol, de modo que ninguém pode olhar fixo o seu semblante, pois, quando refulge, faz temer e, quando ameniza, faz chorar”.

Prossegue o relato estupendo: “ É alegre e grave ao mesmo tempo.
É sóbrio e comedido em seus discursos.
Condenando e repreendendo, é terrível; instruindo e exortando, sua palavra é doce e acariciadora.
Ninguém o tem visto rir.
Muitos, porém, o têm visto chorar.
Anda com os pés descalços e com a cabeça descoberta.
Há quem o despreze vendo-o a distância, mas estando em sua presença não há quem não estremeça com profundo respeito.
Dizem que este Jesus nunca fez mal a ninguém, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm andado afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde.
Afirma-se que um homem como esse nunca foi visto por estas partes.
Em verdade, segundo me dizem os hebreus, nunca se viram tão sábios conselhos e tão belas doutrinas.
Há todavia os que o acusam de ser contra a lei de Vossa Majestade, porquanto afirma que reis e escravos são iguais perante Deus.
Vale, da Majestade Vossa, fidelíssimo e obrigadíssimo.
( ass.) Públio Lêntulo, presidente da Judéia”.

*texto publicado em 06/09/2008

A competência do coração

16 de junho de 2012 1

A menina loira e gentil me atacou na saída do estúdio do Jornal do Almoço, ontem.
E disse ter uma grande admiração por mim, há muitos anos lê a minha coluna todos os dias.
“ Todos os dias?”, pergunto.
Ela responde que sim.
E diz que a mais bela coluna que escrevi foi lá pelos idos de 1997, cujo título era “ A competência do coração”.
“ Mas será que faz tanto tempo que escrevi aquela coluna?”, indago dela.
Ela disse que sabe o dia, o mês e o ano em que foi publicada.

Eu duvido.

Ela diz que agora iria fazer uma coisa para que eu não mais duvidasse: recitar a coluna.
Duvidei ainda mais.
Como ela poderia ter decorado uma coluna inteira e guardado na memória? Ela começa a recitar, palavra por palavra: “ O coração não sente ciúme.
O coração só ama.
Quem sente ciúme é o cérebro.
Por isso se diz que o ciúme é coisa da cabeça da gente.
O ciúme é um sentimento tão pérfido, que não cabe no coração.
O ódio também não é detonado pelo coração, ao contrário do que muito já se disse.
O ódio também vem do cérebro.
Por isso é que se diz que estamos com a cabeça quente.
O coração só ama.
Ternura vem do coração.
Tolerância vem do coração.
Bondade só vem do coração.
Quando alguém trai a quem ama ou estima, é porque o coração foi superado na luta que ele mantém contra os outros órgãos.
Não existe mau caráter original.
O caráter só será mau quando o coração não tiver influência sobre ele.
E será bom quando o coração o tiver envolvido.
Tanto prova, que é corrente a expressão ‘ mau-caráter’.
Mas nunca se ouviu dizer ‘ mau-coração’.
Porque no coração só cabem as coisas boas.
A lixeira do homem está em outras partes, algumas bem notáveis, do seu corpo.
No coração não cabe nem um argueiro”.

Eu me quedo perplexo.

A mocinha vai recitando sem parar toda a minha coluna.
Tive essa experiência em 1998, no Estádio Saint Denis, em Paris.
Encontrei, horas antes de França x Brasil, o Chico Buarque no bar do estádio.
Como ele não sabia quem eu era, comecei a cantar para ele as suas músicas.
Cantei Folhetim, Valsinha, Olê, Olá, Todo o Sentimento.
O Chico parecia adorar o que eu estava fazendo, ele não teve dúvidas de que, não fosse gastar o tempo, e eu interpretaria todas as canções dele.
Pois a garota estava fazendo o mesmo comigo.
Se fosse uma música ou um poema, vá lá que ela tivesse decorado, mas uma coluna! Foi uma coisa que estava me envaidecendo.

Ela continuou: “ O coração é a parte nobre do corpo humano, todas as outras são plebéias, porque se conspurcam.
A bênção sai do coração, o impropério salta do cérebro.
Saudade nasce no coração, rancor vem do cérebro.
Quem dispara a lágrima é o coração.
Quem dispara o revólver é o cérebro.
E sempre se travará a luta, descrita pelos filósofos, entre o cérebro e o coração.
E o incrível é que nesta luta, vença quem vencer, a razão sempre está com o coração.
Quando enfrenta o coração, o cérebro perde a razão.
‘ E o coração tem razões que a própria razão desconhece’.
Razão só tem aquele que tiver coração.
Coração só tem aquele que mostrar boa razão.
O cérebro é, portanto, um mero rival do coração.
E o homem se corrompe quando o cérebro toma o lugar do coração.
Eu às vezes amo tanto, que penso que tenho dois corações, o segundo no lugar do cérebro.
Sem cérebro, eu enlouqueço de tanto amar, porque só o cérebro pode travar a corrida alucinada do coração para o amor”.

A menina prosseguia, comigo incendiado de orgulho.

Uma garota guardara durante tanto tempo, na memória, todas as frases de uma coluna minha escrita há anos.
Comovente.
Ela ia recitando com a certeza de que estava me deliciando.
E chegou ao fim da coluna como se tivesse cumprido uma difícil tarefa de gincana: “ Daí que quem pensa não ama, e quem ama não pensa.
Se o destino tiver que escolher entre me avariar o cérebro ou o coração, que me preserve o coração e dane-se meu cérebro.
Mil vezes ser um encefalopata do que um cardiopata.
Prefiro vegetar como um idiota, mas tonto de amor”.
Bravos, menina! Como posso ter escrito tão bem assim? E como é maravilhoso tocar uma pessoa com o que se escreve a ponto de que ela recite o nosso texto todos os dias para que nunca mais ele lhe saia da lembrança.

*texto publicado em 05/06/2007

E o Estatuto?

15 de junho de 2012 5

Ou eu estou deslocado, ou atendo ao bom senso e revoltam a minha sensibilidade alguns atos incompreensivelmente perversos.
Belisquei-me para ver se o que estava vendo é real: lutas de boxe tailandês, tae kwon do ou seja lá o que for, entre crianças em torno de oito anos de idade.
E meninos de cinco anos já sendo adestrados para essas lutas.
E em Porto Alegre há já centros de prática dessas lutas.
É inacreditável.

Esse tal de boxe tailandês consiste no enfrentamento entre dois lutadores, num ringue, valendo socos, pontapés e joelhadas.
Só eu nunca pensara que pudessem colocar num ringue duas crianças de oito anos para exercitar tal tipo de violência, por todos os títulos já temerária entre adultos, que fará em crianças.
Não sabem os organizadores dessas lutas em Porto Alegre que foram aos milhares os boxeurs que restaram com sérias seqüelas mentais ocasionadas pelos golpes que levaram em suas carreiras? Não percebem que aos oito anos de idade, adestrados para essa violência, esses meninos podem se tornar no futuro, pelo exercício permanente e competitivo da violência, alguns deles, verdadeiras feras de agressividade no meio social?  Sei que usam proteção nas cabeças das crianças litigantes.
Mas isso não impede que os golpes que lhes são desferidos ou que desferem ocasionem lesões nos cérebros dos atingidos.
No cérebro e em outros órgãos, os chutes e pontapés vão aos poucos minando a sua energia muscular, o seu fígado, o seu pâncreas, os seus rins, até os seus pulmões.

Como é que podem existir pais e mães que carreguem para essa selvageria seus filhos? O que passa pela cabeça de um pai quando põe dentro de um ringue um filho cujo cérebro e teias musculares e ósseas ainda estão em formação e recebem todas as semanas pancadas de seus adversários? No caso desses esportes violentos em que intervêm os adultos, ainda se consente.
Porque o adulto tem vontade, tem autonomia volitiva, ele pode fazer do seu corpo o que quiser, não depende de autorização de ninguém.
Mas essas crianças que estão pondo nos ringues não possuem vontade reconhecida pela ciência e lei.
Necessitam da tutela paterna, que no entanto não possui o direito de fazê-las enfrentar em luta física encarniçadas outras crianças.
A tutela delas nesse caso passa para o Estado.
Que trauma deve se instalar nas mentes dessas crianças, inutilizandoas para toda a vida!

Eu vi com meus olhos entrevistarem, no Fantástico, uma criança dessas de oito anos, à beira do ringue e ao lado de seu pai.
O repórter perguntou à criança se ela gostava daquela luta de que participava.
Ela disse que não.
Então o repórter indagou dela, sob as vistas e ouvidos de seu pai, por que então ela lutava.
E ela respondeu que lutava porque se não lutasse seria surrada pelo pai.
O pai ficou sem jeito e tentou fazer graça com a resposta da criança, mas ficou nítido que aquela criança era forçada a lutar.
Revoltante.

O que mais me admirou é que fosse permitido esse tipo de luta.
Não tenho dúvida que ainda esta semana essas lutas serão proibidas pelos juizados de infância e adolescência.
Se até as lutas entre galos de rinha são proibidas, tendo como um dos pressupostos a proteção dos animais, que muitas vezes vão até a morte na litigância do tambor, com sangue para todos os lados, como pode o senso comum e a compreensão da sociedade permitir que crianças de oito anos se enfrentem a socos, pontapés e joelhadas, satisfazendo assim o sadismo de seus pais e espectadores? Aposto que essas lutas serão imediatamente proibidas.
Elas significam um atraso de 3 mil anos na civilização.

*texto publicado em 04/06/2008

Que tempos!

14 de junho de 2012 6

A inda as reminiscências: sou do tempo da cera de carnaúba.
Sou do tempo do Conhaque de Alcatrão São João da Barra, do Abrigo da Praça 15.
E ainda me lembro bem do tempo do Sabão Aristolino, líquido.
A Cafiaspirina existia muito marcadamente no meu tempo, é possível que ainda exista, mas sobrevieram muitas drogas análogas e isso me confunde.
Sou do tempo da gasosa.
E sou do tempo do Hidrolitrol, um refresco de sifão que se tomava ao lado da loja do saudoso Chico da Bruxa, na Rua da Praia.

Eu me orgulho de ser do tempo do guaraná de rolha, pouca gente recorda isso.
Sou do tempo do eslaque e do Linho S-120.
O traje de linho branco era inseparável no verão da elegância masculina.
Sou do tempo do Boa Noite, do Ipril e do Flit, no tempo em que os mosquitos infestavam a cidade, nem sei quem foi que, como secretário da Saúde, acabou com os mosquitos, se o Jair Soares ou se o saudoso Lamaison Porto.
Por isso é que toda a cidade usava mosquiteiro de filó.
Sou do tempo dos cobertores Parahyba, das lojas Tschiedel e Brutske.

E sou do tempo da Quina Petróleo Juvênia, da Acqua Velva, da pedra-pomes.
Sou do tempo dos bondes Petrópolis até João Abbott e Ivo Corseuil, do Teresópolis até a Pedreira, do Partenon até Luiz de Camões e Portuguesa, bonde Duque, que sempre era gaiola, do Gasômetro, precursor desses ônibus que hoje se intitulam, ainda não atinei por que, de Ts, fazia volta em todo o Centro, Bom Fim e Cidade Baixa, também do bonde Glória até Rua Nunes.
Sou do tempo em que nos bondes havia cobrador, motorneiro, fiscal, subinspetor, inspetor e chefe de linha.
Antônio Giudice, que me salvou quando eu era criança num incêndio na Rua Botafogo, era chefe de linha.
Sou do tempo em que sutiã se chamava corpinho, do tempo da Lambretta e da Romi-Isetta, precursoras precoces das motocicletas de hoje.
Sou do tempo do Simca Chambord, do Gordini.
E no meu tempo havia Manteiga Deal, o Renner, o Nacional da Chácara das Camélias, o Força e Luz da Timbaúva, o Grêmio do Fortim da Baixada, o Internacional dos Eucaliptos, o Cruzeiro da Colina Melancólica.

Sou do tempo do quebra-cabeças dos 15 números, do arquinho de aço empurrado pela trave, da bola de meia, do Carnaval do Clube Dinamite e do Panamirim.
Ah, que tempos saudosos aqueles em que a marchinha mais tocada em todos os bailes era Alalaô.
Era o tempo da Banda das Dores, do Rosário e do Julinho.
Ah, se me lembro e tanto do mil-folhas e da Coca-Cola no intervalo das aulas do Julinho, foram a primeira angústia que tive em minha vida, todos comiam no recreio e eu não tinha dinheiro para comprar.

Sou do tempo do lança-perfume Rhodia de embalagem dourada de metal, dos carrinhos de lomba nas competições da Rua Dom Pedro II, do pé-de-moleque, da rosquinha de polvilho, do creme de abacate, da bomba e do suco de salada de frutas da Banca 40 no Mercado Público.
Sou do tempo do Baile da Reitoria e da Cabana do Turquinho, dos bailes no Mil e Uma Noites, do passeio de barco no Lago da Redenção, da orquestra do Ary Barroso e outros grandes nomes nacionais no auditório da Rádio Farroupilha, na Duque, junto do Viaduto.
Sou do tempo das corridas de carros na Cavalhada, do Catarino Andreatta e do Norberto Young, que se não me engano era um piloto que só tinha um braço, não sei como dirigia.
Sou do tempo das nozes e das avelãs no Natal, dos ovos de açúcar e massa na Páscoa, do Congresso Eucarístico Internacional no Parque Farroupilha.
Sou do tempo dos blocos da Carnaval Céu Azul, Aratimbó, Nós os Democratas e das tribos As Iracemas, Xavantes, Caetés e Bororós.
Sou do tempo, finalmente, da Casa Reinaldo, “ a maluquinha da Praça do Portão”, o slogan referindo-se ao dono, que era homossexual.
É bobagem, mas foi um tempo que tinha alma.

*texto publicado em 08/09/2008

Viva a alegria!

13 de junho de 2012 2

O tédio tem de ser um aborrecimento passageiro.
Se a pessoa está permanentemente dominada pelo tédio, isto deixa de ser tédio para ser melancolia grave ou até depressão.
O tédio e a rotina são inimigos perversos do homem.
Há o tédio da rotina e a rotina do tédio.
Só a segunda é uma doença.
É preciso ter muita inventividade para driblar tanto o tédio quanto a rotina.

O tedioso é um ser inviável.

Ele tanto pode ter tédio por estar desempregado quanto por estar empregado e não satisfeito com seu emprego.
Casado ou solteiro, o tedioso terá argumentos contra sua condição.
Ele está sempre querendo estar onde não está.
Tanto pode odiar a pobreza porque ela o aflige por não poder fazer o que pretendia quanto odeia também a riqueza porque ela lhe impõe o tédio de impedi-lo de ter ambições.

O tédio é filho legítimo do pessimismo.

O pessimismo é um dos mais terríveis defeitos ou doenças mentais.
Para o pessimista, não há salvação.
Quando ele está bem, acha que não vai durar a sua situação.
Quando está mal, acha que vai durar infindavelmente a sua situação.
O pessimista confia na infelicidade e desconfia da felicidade.
Ele se julga imerecedor da felicidade.
Quando o pessimista está feliz, ele pensa que algo de errado está acontecendo.
Se a alegria bater na porta do pessimista, ele manda dizer que não está.
Se no entanto o sofrimento bater à porta do pessimista, ele se apresenta a ele, manda que entre, sente-se e sinta-se como se estivesse em sua casa.

Se o tédio é filho legítimo do pessimismo, o mau humor é filho legítimo do tédio.

Não pode haver pessoa menos capacitada para as relações humanas do que o mal-humorado.
Toda a alegria dos circunstantes ao mal-humorado tromba com o mau humor dele.
O mal-humorado é mais nocivo no meio social do que o chato.
Ainda se convive com um chato, mas não há como tolerar um mal-humorado, até mesmo porque ele se mostra sempre intolerante com os outros.
Quase todos os tipos de agressões verbais ou gestuais nascem do mau humor.
Não há nada mais agradável nas relações humanas do que topar com um bem-humorado.
Mesmo que ele esteja amargurado, sua conduta sempre se caracteriza pela alegria.
É um método inteligente que ele usa para espantar a tristeza.
E consegue.
O bom humor é o mais valioso dos atributos humanos.

E antes de ser um atributo, o bom humor é um dever: ninguém que seja gregário tem o direito de ser mal-humorado.

Por isso, o mal-humorado deve possuir a autocrítica de se tornar sozinho, com a finalidade de não empestar as pessoas que o cercam.
A conseqüência natural do mau humor é a agressividade.
A gentileza, o afeto, o amor, todos esses gestos ou sentimentos são incompatíveis com o mau humor.

Os tediosos e os mal-humorados têm de realizar o esforço supremo de alimentarem-se de luz e nutrirem-se de alegria.

Isso inicialmente pode ser apenas um drible na sua alegria ou um fingimento.
Mas não há outra forma de escapar ao mau humor ou ao tédio do que começar por fingir.
E o bom humor, mesmo que fingido, pode depois incorporar-se definitivamente à personalidade, afastando verdadeiramente o tédio.
Alegria, alegria! Alegria é um dever social.

*texto publicado em 06/07/2008