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Minha máxima culpa

10 de julho de 2012 3

Por que, diabos, tudo que me dá prazer ou me proporciona felicidade sempre vem acompanhado de culpa? Se como doces, o que me significa suprema delícia, como-os com culpa, eles podem fazer subir perigosamente minha glicemia. Não há para mim nada que se compare em sabor gastronômico àquela faixa litorânea de gordura de uma picanha. Mas a sensação de culpa colesteroliana que me invade quando estou mastigando a gordura da picanha me leva direto ao corredor espiritual da morte.

Se fumo, envergonho-me de dizer que é o maior dos meus prazeres, então se desata sobre mim uma culpa dantesca, uma culpa de Pilatos que vai me levar para o inferno logo depois do enfisema. Tudo que extasia os meus sentidos provoca-me culpa. E tudo que encantou o meu coração acabou em culpa.

A vez primeira que amei, por exemplo, aquele amor desmedido, crescente, correspondido, eternamente inesquecível, tanto que até hoje sinto o perfume das plantas silvestres que nos envolviam quando deitamos sobre a relva e nos beijamos furiosamente contra o chão. E já faz 30 anos! Pois carrego daquele amor a culpa da traição. Traí-a miseravelmente, abandonei-a, sem perceber que estava eu próprio me abandonando para sempre.

As outras vezes todas e poucas que amei com desvario me inculparam de todas as formas. Todos os meus casos de amor terminaram por culpa minha. Culpa de não ter tempo, culpa da desatenção, culpa por insistir na brasa da lubricidade quando tinha de aquecer só com o fogo da ternura. Eu me declaro culpado aqui neste tribunal, perante todos os juízes e jurados, de ter desperdiçado, por desaviso ou loucura, todos os grandes amores que o acaso me proporcionou. Eu só fui o culpado. E a pena que os senhores têm de aplicar é a mais terrível de todas as penas, não há no inferno alguma que se a equipare. É a pena que já estou cumprindo, mas que deve ser agora decretada como perpétua por vós, meus julgadores: a pena da solidão.

Quem não soube amar, quem deixou escapar a magnífica oportunidade de amar para sempre e cada vez mais, tem que, como eu, ser condenado à solidão. Quem, como eu, permitiu quase sempre que o abandono, o desdém sincero ou o desdém fingido dessem lugar paulatinamente ao fastio merece o castigo máximo: a solidão. Quem, como eu, não entendeu que, se era necessário trair, havia que traí-la com ela própria, reinventando-a nos meus braços, na minha fantasia e nos meus sonhos, merece a pena letal da solidão.

Quem, como eu, não teve o engenho de preenchê-la no que lhe faltava, de socorrê-la de seus medos com a minha coragem ou de encorajá-la a me livrar dos meus medos, merece cumprir a pena amarga e terrível da solidão. E é porque eu sempre cumprirei a maldição que sobre mim foi atirada de nutrir culpa por tudo que me maravilha que hoje vago em andrajos e tonto pela vida que me sorriu sedutoramente e desdenhei. Por minha culpa, minha máxima culpa, minha clara e inequívoca culpa, é que vou purgar até o meu fim a farsa que fui e o esplendor do que deixei de ser.

*Texto publicado em 02/04/2000.

Comentários (3)

  • Marcio Alexandro cavalheiro diz: 10 de julho de 2012

    Caro Sant´Ana,cara sou um fã teu a muitos anos,emociono-me também só de ler teus artigos,enfureço-me quando te desrespeitam”cito o discussão com o kenny”
    Saibas que te amo sem te conhecer,meu velho mago da escrita.
    Que DEUS sempre te acompanhe e vida longa a Sant´ Ana.

  • silvia diz: 10 de julho de 2012

    Já li esse texto, mas ele aparece aqui novamente. Sempre lia a coluna do Santana, mas meus interesses de leitura mudaram. Agora, casualmente, me deparo com esse texto e me deu vontade de dizer que a única culpa que deves carregar é pelo estrago que estás fazendo no teu corpo. Não sei como estás de saúde, mas o enfisema é uma das mortes mais horriveis que o ser humano passa. Fumei há 20 anos e um dia um médico amigo me falou “se tu fosses a um hospital e visses as pessoas morrendo por causa do cigarro, nunca mais colocarias um na boca.” Bateu fundo, e parei de fumar. Santana, tu não te amas, não prezas a tua vida, não gostas de teu corpo, não crescestes espiritualmente, manténs uma mente de criança. Sinto muita pena, mas nada posso fazer, a não ser escrever isso.

  • Raphael diz: 11 de julho de 2012

    Belo texto! As palavras desse gênio sempre me fazem refletir; sempre leio antes de dormir. É uma pena que não tenham mais textos diariamente aqui no site, mas apenas publicações de outrora, embora continuem atuais e sempre inspiradoras. Eu moro em SC e gostaria de saber o motivo de só publicarem artigos antigos aqui no site. De qualquer forma, um grande ao mestre e gremista Paulo Sant’Ana!

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