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Ser velho

14 de julho de 2012 1

Eu sei muito bem o que é ser jovem, mas seguidamente me confunde o conceito de “velho”.

O que é “velho”? Seguidamente vejo as pessoas consolando os velhos: “Velho é um estado de espírito, a velhice não está no corpo, está na cabeça. Velho é aquele que perdeu o entusiasmo etc”.

E citam Sófocles: “Ninguém ama tanto a vida como aquele que está envelhecendo”.

E eu penso o seguinte sobre isso: se é preciso dizer todas essas coisas para acalmar os velhos, então não é bom ser velho.

O nosso cardiologista Fernando Lucchese está num livro de citações que folheio com a seguinte frase de sua autoria: “Se a palavra ‘envelhecer’ o incomoda, você ainda tem muito que aprender”.

Parece-me que Lucchese quis dizer que toda pessoa que se ofende quando a chamam de “velho” ainda não está velha.

É o contrário exatamente do que acontece com os burros: se você chamar alguém de burro e ele se ofender, então é porque ele é burro.

A palavra “velho” é ofensiva por um lado, mas carinhosa por outro. “Tu és um velho” é uma frase demasiadamente agressiva, está se chamando determinada pessoa de gasta pelo uso, antiquada, obsoleta.

No entanto, quando se diz que fulano “é um velho amigo” está-se fazendo um grande elogio àquele amigo.

Ou quando numa família se diz assim: “O velho aqui resolve tudo para nós”, está-se rendendo um preito de admiração ao pai ou ao avô.

Mas o que eu noto principalmente é uma reação íntima irada por parte de quem é classificado como velho. Tenho um amigo que pinta os cabelos e tem 70 anos.

Tem direito à isenção da passagem de ônibus, mas não a usa, puxa do bolso o dinheiro e paga a passagem: não quer que ninguém no ônibus o considere um velho. Observem que no caso desse amigo, como paga passagens todos os dias e durante anos, sendo isento, custa-lhe mais caro afetar juventude.

Eu incorporaria no dicionário como sinônimo de “velho” a palavra “tio”. Digo isso porque se eu fosse moço, os meninos que pedem esmolas nas sinaleiras não me chamariam sempre de “tio”. Eu disse “sempre”.

Quando se é jovem, nunca passa pela cabeça a idéia nem da velhice nem da morte.

É tal o extasiamento da juventude pela vida, que nem remotamente se lhe acode a possibilidade de ficar velho ou de morrer.

Mas a velhice vai chegando aos poucos, a pessoa não se apercebe de sua aproximação.

Sente-se principalmente a velhice quando se desce uma escada, só aí é que a gente nota que existe uma coisa chamada corrimão.

E se desce a escada olhando fixamente para os degraus. Juventude significa descer escada sem apoiar-se no corrimão e olhando para a frente ou para cima, desconhecendo os degraus.

Por falar nisso, nunca esqueço o letreiro que havia no Restaurante Gambrinus, no Mercado Público: “Cuidado com esta escada, principalmente na descida”. Eu botei isso na coluna e, no dia seguinte, o Antoninho, dono do Gambrinus, arrancou o letreiro de lá. Pior se tivesse demolido a escada.

De minha parte, para concluir, quero deixar bem claro o que penso sobre a velhice: está definitivamente velho, irrecuperavelmente velho, tristemente velho aquele que não mais consegue suscitar paixão em ninguém ou não tem mais nenhuma aptidão por apaixonar-se por alguém.

Isto vai até além da velhice. É a morte em vida.

* Texto publicado em 12/01/2007.

Comentários (1)

  • Jéssica diz: 18 de julho de 2012

    Linda mensagem! Adorei o texto!

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