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O brutal preconceito

29 de julho de 2012 0

Eu completei 28 anos de jornalismo. Nestes anos todos, tive somente três causas obsessivas: o abrandamento da discriminação contra os negros, a atenuação da política que barra nas empresas privadas o ingresso de empregados com mais de 40 anos e a humanização dos presídios.

Mesmo quando eu era exclusivamente cronista esportivo, defendia estas três causas com entusiasmo nos meus comentários, embora minha posição tivesse sido sempre isolada e sem repercussão.
Desta forma, eu só posso saudar a notícia que ontem vi estampada em Zero Hora: a prefeitura de Porto Alegre inicia esta semana a negociação de um acordo com a rede Zaffari em torno da construção de um novo hipermercado no bairro Tristeza, Zona Sul.
Segundo o noticiário, uma cláusula inédita e polêmica será inserida no acordo: ficará estabelecida uma cota racial, ou seja, a garantia de que pelo menos 5% dos empregados do hipermercado sejam negros ou pardos ( mestiços).
Além disso, o hipermercado garantirá também que pelo menos 10% dos seus funcionários serão recrutados entre pessoas de mais de 30 anos.
Mas como é que eu não vou saudar a primeira medida que vi qualquer entidade ou governo tomar nestes meus 28 anos de jornalismo a favor de duas modestas mas nobres bandeiras deste colunista, contra a violência surda do preconceito que não admite negros nem pessoas de idade avançada nos postos de trabalho exeqüíveis na iniciativa privada? Podem classificar de exótica ou de demagógica a medida.
Podem os racionalistas pregarem que não é com esses paliativos duvidosos que se vai pôr fim às discriminações.
No meu singelo posto de observador da temperatura social do meu país e do meu meio, sou obrigado a encarar a iniciativa como luminosa.
Porque nestes meus 28 anos de jornalismo nunca vi qualquer legislador, qualquer governante, qualquer entidade privada mexer uma palha para exorcizar da superfície social brasileira estes dois cancros malignos da discriminação racial e etária, que infelicita as suas vítimas silenciosamente, sem que nenhuma ação concreta os debele.
Só eu conheço as cartas ou depoimentos pessoais comoventes dessas pessoas que vagam como sombras macabras atrás de uma vaga de trabalho, mortas em vida, sem esperança, condenadas ao mais completo vazio existencial pela miséria. Tudo porque não são jovens ou brancos.  As mulheres negras sendo recusadas como balconistas de lojas, recepcionistas etc.  Os homens negros sendo subjugados apenas às tarefas mais rudes e insalubres.
E, como os automóveis, as pessoas de idade mais avançada são jogadas ao submercado do desprezo ou do preço vil pelo seu trabalho: o mercado dos automóveis usados, o mercado sem horizonte dos homens e das mulheres usados.
Sei que não vai ser um acordo entre uma prefeitura e uma rede de supermercados que vai solucionar este problema. Mas sei que a iniciativa foi tomada por pressão das entidades comunitárias que sentem na carne os dois preconceitos.
Desde que percebi que se pregará sempre no deserto contra o preconceito racial e etário, intuí que a única forma de viabilizar a luta em favor dos discriminados é o estabelecimento de leis de cotas, a exemplo dos Estados Unidos: tanto por cento das vagas nas universidades, nos cargos públicos, nos cargos privados serão destinados aos negros e aos pobres, tanto por cento das vagas de trabalho serão destinados às pessoas que não são mais jovens. Por lei. Só a lei pode derrubar o preconceito.
Essa consciência precisa ser ativada, até que se ponha fim a esta chacina social.  Até que a lei instrumentalize a coerção.  De outra forma, conviveremos com esse preconceito até o fim dos tempos, porque tudo que se quiser fazer contra ele será classificado de romântico ou demagógico.
Por isso é que saúdo esta negociação entre a prefeitura de Porto Alegre e o Zaffari. É um clarão de luz sobre este hipócrita oceano de sombras. É um início, uma semente de libertação dos excluídos, que pode durar um século para que se realize, mas um dia há de se realizar.
Mas eu não vou deixar que passe este século em que nasci e vivi com a mancha sobre a minha consciência de que não bradei contra esta brutal e imensa injustiça enraizada e institucionalizada, acobertada pela ignorância, pelo fingimento, pela insensibilidade ou pela indiferença.

* Texto publicado em 29/12/2002

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