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Posts de julho 2012

Infância feliz de hoje

31 de julho de 2012 0

Entende-se de baixo nível a televisão brasileira, mas desconhece-se a função primordial de lazer que ela encerra para as multidões brasileiras.

Eu me lembro de que, na infância, há 50 anos, a única diversão que eu tinha era anunciada: a matinê de domingo no Cinema Brasil, Avenida Bento Gonçalves, ou no Cinema Miramar, na Aparício Borges.

Eu ficava a contar os tostões durante toda a semana, na esperança de que eles pudessem bastar para comprar a entrada da matinê de domingo. Era um dia só de diversão, uma data marcada, uma solenidade para o espírito, a única grande atração da arrastada existência infantil daquele tempo.

E lá ia eu para ver o Gunga Din, Sansão e Dalila, com Hedy Lamarr e Victor Mature, todos os filmes de Robin Hood, os seriados completos ou parte deles, Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, o sonho de criança embalado uma vez por semana, apenas uma tarde, o resto era estudo ou trabalho.

À noite, nós, crianças, íamos dormir cedo, logo depois da janta. O rádio era odiosamente privativo dos nossos pais, que o colocavam na cabeceira da cama de casal do quarto e ficavam até tarde a ouvir as novelas ou os programas de auditório. Se por vezes algum programa nos interessava, tínhamos que ir de pé em pé até a porta do quarto dos pais e espreitar na escuta clandestina.

Hoje, quando vejo as crianças de posse do seu televisor no quarto, ou até mesmo dividindo com os pais o aparelho da sala, os mais bem dotados com seu computador particular, noto que nem imaginam como são felizes em comparação com a nossa infância oprimida e sem acesso à cultura e ao divertimento.

As crianças de antigamente viviam na escuridão, escravizadas na relação tímida com as outras na escola ou nos folguedos das ruas, sem a visão universal da realidade que a televisão hoje lhes empresta, tornando-as desde cedo intelectualmente mais ágeis, na verdade mais preparadas para a vida, sem a prisão dos tabus, sem medo do sexo, sem segredos, mas principalmente mais divertidas e prazerosas, curtindo a existência em todos os momentos do dia.

Se as crianças de hoje soubessem como foi triste e monótona a vida de seus avós e ancestrais, se apiedariam deles e ao mesmo tempo agradeceriam aos céus a vida venturosa que têm, incomparavelmente mais atraente e mais vasta, melhor curtida, mais intensamente vivida, justamente no período mais fértil da formação do espírito e da inteligência.

Não tenho dúvida de que o passado apenas serviu para emburrecer as gerações, em comparação com a civilização atual. Uma criança de hoje, na média, seria considerada gênio perto de uma criança de antigamente. E a diferença é a alegria do conhecimento que a criança de hoje desfruta, enquanto as crianças de outrora eram condenadas a só o acessarem nos burocráticos e frios bancos escolares.

Este é o mais importante lado do progresso, que nos passa despercebido. Se o homem mergulha hoje na depressão e no estresse muito mais do que antigamente, é também porque se verifica um choque entre a sua infância bem nutrida de conhecimento e lazer e a dura realidade da vida de adulto, que tem de dar duro para subsistir.

Enquanto antigamente as crianças se libertavam do seu período de sombras da infância quando se tornavam adultos, hoje se verifica o contrário. O trabalho, que antes era o céu para o homem que se livrava das cavernas da infância, hoje, até mesmo pela incerteza do desemprego ou dos salários insuficientes, é a grande decepção dos adultos que viveram um tempo de deliciosas aventuras pelo terreno de sonho da infância descompromissada diante da televisão.

* texto publicado  em 12/4/1999

O brutal preconceito

29 de julho de 2012 0

Eu completei 28 anos de jornalismo. Nestes anos todos, tive somente três causas obsessivas: o abrandamento da discriminação contra os negros, a atenuação da política que barra nas empresas privadas o ingresso de empregados com mais de 40 anos e a humanização dos presídios.

Mesmo quando eu era exclusivamente cronista esportivo, defendia estas três causas com entusiasmo nos meus comentários, embora minha posição tivesse sido sempre isolada e sem repercussão.
Desta forma, eu só posso saudar a notícia que ontem vi estampada em Zero Hora: a prefeitura de Porto Alegre inicia esta semana a negociação de um acordo com a rede Zaffari em torno da construção de um novo hipermercado no bairro Tristeza, Zona Sul.
Segundo o noticiário, uma cláusula inédita e polêmica será inserida no acordo: ficará estabelecida uma cota racial, ou seja, a garantia de que pelo menos 5% dos empregados do hipermercado sejam negros ou pardos ( mestiços).
Além disso, o hipermercado garantirá também que pelo menos 10% dos seus funcionários serão recrutados entre pessoas de mais de 30 anos.
Mas como é que eu não vou saudar a primeira medida que vi qualquer entidade ou governo tomar nestes meus 28 anos de jornalismo a favor de duas modestas mas nobres bandeiras deste colunista, contra a violência surda do preconceito que não admite negros nem pessoas de idade avançada nos postos de trabalho exeqüíveis na iniciativa privada? Podem classificar de exótica ou de demagógica a medida.
Podem os racionalistas pregarem que não é com esses paliativos duvidosos que se vai pôr fim às discriminações.
No meu singelo posto de observador da temperatura social do meu país e do meu meio, sou obrigado a encarar a iniciativa como luminosa.
Porque nestes meus 28 anos de jornalismo nunca vi qualquer legislador, qualquer governante, qualquer entidade privada mexer uma palha para exorcizar da superfície social brasileira estes dois cancros malignos da discriminação racial e etária, que infelicita as suas vítimas silenciosamente, sem que nenhuma ação concreta os debele.
Só eu conheço as cartas ou depoimentos pessoais comoventes dessas pessoas que vagam como sombras macabras atrás de uma vaga de trabalho, mortas em vida, sem esperança, condenadas ao mais completo vazio existencial pela miséria. Tudo porque não são jovens ou brancos.  As mulheres negras sendo recusadas como balconistas de lojas, recepcionistas etc.  Os homens negros sendo subjugados apenas às tarefas mais rudes e insalubres.
E, como os automóveis, as pessoas de idade mais avançada são jogadas ao submercado do desprezo ou do preço vil pelo seu trabalho: o mercado dos automóveis usados, o mercado sem horizonte dos homens e das mulheres usados.
Sei que não vai ser um acordo entre uma prefeitura e uma rede de supermercados que vai solucionar este problema. Mas sei que a iniciativa foi tomada por pressão das entidades comunitárias que sentem na carne os dois preconceitos.
Desde que percebi que se pregará sempre no deserto contra o preconceito racial e etário, intuí que a única forma de viabilizar a luta em favor dos discriminados é o estabelecimento de leis de cotas, a exemplo dos Estados Unidos: tanto por cento das vagas nas universidades, nos cargos públicos, nos cargos privados serão destinados aos negros e aos pobres, tanto por cento das vagas de trabalho serão destinados às pessoas que não são mais jovens. Por lei. Só a lei pode derrubar o preconceito.
Essa consciência precisa ser ativada, até que se ponha fim a esta chacina social.  Até que a lei instrumentalize a coerção.  De outra forma, conviveremos com esse preconceito até o fim dos tempos, porque tudo que se quiser fazer contra ele será classificado de romântico ou demagógico.
Por isso é que saúdo esta negociação entre a prefeitura de Porto Alegre e o Zaffari. É um clarão de luz sobre este hipócrita oceano de sombras. É um início, uma semente de libertação dos excluídos, que pode durar um século para que se realize, mas um dia há de se realizar.
Mas eu não vou deixar que passe este século em que nasci e vivi com a mancha sobre a minha consciência de que não bradei contra esta brutal e imensa injustiça enraizada e institucionalizada, acobertada pela ignorância, pelo fingimento, pela insensibilidade ou pela indiferença.

* Texto publicado em 29/12/2002

Olimpíada da cegueira

28 de julho de 2012 0

Há fatos do noticiário que a gente não entende. Esta de o presidente Lula declarar que confia que o povo brasileiro vai impedir que haja corrupção nas obras da Olimpíada do Rio de Janeiro é de cabo de esquadra.

Todos sabem que o povo não tem instrumentos para controlar ou impedir a corrupção, como é então que Lula declara isso?
Quer dizer, então, que o governo de então vai pagar aos empreiteiros a fortuna colossal para a construção de obras da Olimpíada e o encargo de fiscalizar para que não haja corrupção pertence ao povo brasileiro? Isso soa como uma brincadeira. Ou como escárnio.
Pelo menos, Lula é a primeira voz governamental que admite que vai haver corrupção… se o povo não fiscalizar.
Isso também qualquer criança de colégio sabe: vai haver corrupção. E da grossa. Da grossura do tamanho do que vão custar as obras, isto é, corrupção amazônica.
O Brasil quer realizar uma Olimpíada vestindo calça de veludo.
O Brasil vai gastar para fazer a Olimpíada igual fortuna que gastou o Egito para construir as pirâmides ainda existentes de Queóps, Quéfren e Miquerinos.
Com a diferença de que as três pirâmides vão atravessar a eternidade e as obras da Olimpíada do Rio de Janeiro vão desaparecer 15 dias depois como palavras ao vento.
Existe uma omissão colossal na Constituição brasileira: qualquer gasto que fosse superior a, digamos, R$ 50 bilhões tinha de ter autorização do Congresso.
No caso da Olimpíada, quatro vezes mais que aquele teto, qualquer governo só poderia gastar essa fortuna se fosse autorizado por um plebiscito.
Nenhum governo tem autoridade para gastar o que se vai gastar com a Olimpíada, ainda mais um governo que nem vai estar no poder quando do gasto.
Pelo menos aqui em Zero Hora não estou sozinho sendo contra a Olimpíada: o colega Flávio Tavares, que escreve aos domingos, também oferece inúmeras restrições básicas à iniciativa desastrosa.
E ainda se é obrigado a ouvir vozes concordinas que dizem que o Brasil ingressará no Primeiro Mundo quando realizar a Olimpíada.
Não sabem que o Brasil pode realizar mil olimpíadas mas só entrará para o Primeiro Mundo quando tiver vagas nos hospitais para seus filhos idôneos e vagas nos presídios para os inidôneos.
A garota Franciele Cunha Brandão, residente à Rua Fernando Abott 715, POA, com 22 anos de idade, tem glaucoma desde que nasceu.
Já perdeu um olho a pobrezinha, está devagarinho perdendo o outro.
O SUS de Porto Alegre declara que não há aqui em nossa cidade nem médico nem equipamento para salvar a menina da cegueira que assim se torna inevitável.
Há tratamento para o olho dessa menina em Goiás e talvez São Paulo. Mas o SUS não move há nove anos uma palha para tentar a cura da doença que fará na tenra idade uma garota ficar cega.
Não movem uma palha, os pusilânimes.
E ainda há gente querendo fazer Olimpíada no Brasil.
Era o caso de os partidos aliados do governo federal, por seus parlamentares, convocarem o presidente Lula a salvar essa menina.
Salvem-na ou não durmam direito até o fim de seus dias os que podem salvá-la e se omitem!
Olimpíada no Rio? Que desaforo!

* texto publicado em 06/10/09


A dor da genialidade

24 de julho de 2012 2

Um dos equívocos mais correntes no mundo moderno é a confusão que se faz com o homem culto, preparado, eficaz nas suas ações particulares e profissionais e o mesmo homem sem nenhum talento e inteligência. Não raro se considera inteligente um equilibrista ou um trapezista que obtêm algum destaque em sua atividade circense mas que nunca obtiveram do público um estrondoso aplauso porque nunca criaram um lance de cabo de aço ou de trapézio em que tenham sido pronunciados o seu talento e sua criatividade de modo a empolgar a plateia ou levá-la ao delírio.

E, na vida real, em todas as profissões, tudo acontece como no futebol: há os jogadores medíocres e há os craques. Já citei o caso de escritores que escrevem durante uma vida inteira, alguns até adquirem prestígio junto a determinado público não diferenciado, mas não vendem seus livros. Houve até aqui no Rio Grande do Sul, poucas décadas atrás, o caso de um escritor muito conhecido que no entanto não era lido pelo público.

Há casos também de jornalistas que passam 50, 40 anos escrevendo em jornais e o público leitor nunca registrou na memória o que escreveram, não se conhece nenhuma frase deles e não se lembra qualquer matéria de sua autoria. São essas pessoas admiráveis que passam pela vida sem destacar-se, mas nem por isso deixam de ser úteis para seus tempos e para seus espaços, nunca alçam voos de águia ou condoreiros, mas seus voos de galinha são insistentes e esforçados.

Essas multidões de medíocres são os donos do mundo, constituem-se em expressivas maiorias em suas colmeias de trabalho, não raro suplantam em mérito e em nome os que não são medíocres e possuem talento, seja pela esperteza delas, seja pelo esforço que mascara a inteligência, seja também porque os raros gênios que vicejam no seu meio ou não são reconhecidos, ou são amassados pelo tropel do rebanho.

Mas quando uma inteligência superior irrompe entre a horda de mediocridade, quando a flor do pensamento superior,
como a aptidão singular para o raciocínio luminoso, surge em qualquer agrupamento humano, então jorra uma
tal luz transcendente sobre esse ambiente restrito que os raios desse brilho ofuscante não só se espalham pelo chão e pelo ar que cerca os integrantes embasbacados dessa coletividade como se arremessam para além do perímetro grupal e vão inundar de sabedoria ou arte, de conhecimento ou talento, de poesia, humor, ciência, outras cidades, os Estados, os países e o mundo.

Só que um gênio só se revela depois de muita dor e sofrimento. E principalmente de muita dúvida que se manifeste sobre ele. Um gênio só se conhece depois que milhares de pessoas garantam que têm talento igual ao dele.

* Texto publicado em 17/04/2008.

Uma mulher estonteante

23 de julho de 2012 0

Deus ou a natureza não são justos na distribuição dos dons e atributos aos seres humanos. Constatei isto sexta-feira quando me defrontei no estúdio do Jornal do Almoço com a atriz Cláudia Raia. Não sei quem foi o inspiradíssimo tecelão ou ourives que presidiu o design daquela acetinada e apetitosa pele. A pele da Cláudia Raia me pareceu um deslumbrante embrulho para presente.

Os seus pés de dedos simétricos e perímetro de harmônicas sinuosidades pareceram-me plasmados por um gênio da estatuária. Pés que ela astuciosamente permite que sejam entrevistos pelas fendas inteligentes das tiras das sandálias. Quem foi o escultor renascentista que desenhou aquele conjunto esplêndido da sua boca ornada pela serpentina de seus lábios desejantes e por dentes alvos e parelhos, coordenados com perfeição estética às duas paredes laterais de  seu rosto e à planície sedosa da sua testa, decorada delicadamente por insinuantes sobrancelhas?

Não falei de seu nariz porque a instigante perspectiva do seu perfil levou-me imediatamente a elogiá-la, quando ela disse que aquilo era obra de “um cirurgião plástico” e não da mão divina, que só ali falhara no talhe original. Vê-se assim que esta mulher ciclópica teve seu arcabouço de beleza indizível plasmado pela natureza, mais tarde aperfeiçoado pela ciência humana da cirurgia plástica rinofacial, da ginástica, da dança, das massagens e dos melhores cremes para a pele das mais destacadas grifes estrangeiras.

Por isso é que quando eu fazia este louvor desbragado a Cláudia Raia, perante várias mulheres circunstantes, a opinião delas foi unanimemente sincrônica e ressentida: “Se eu tivesse tempo e dinheiro para exercitar-me e para comprar os cremes que ela usa e fazer a plástica que me falta, se não tivesse que me preocupar com a cozinha e a organização da casa, poderia me aproximar do seu poder de atração”. Talvez pudessem?

Por que abri esta coluna escrevendo que há uma injustiça social na forma como Deus ou a natureza distribuíram entre os homens os seus dons e atributos? Porque, além da beleza acintosa e discriminatória com que dotaram Cláudia Raia, os deuses deram-lhe também talento e uma singular simpatia repleta de cordialidade, de que sua voz e gestos cativantes são instrumentos notáveis.

A injustiça é a seguinte: como pode haver só uma mulher assim ou talvez algumas outras raras que a ela se equiparem? E da mesma forma como ela ostenta esse privilégio, por que ele se estende a um homem só que possa desfrutá-lo? Por que o paraíso na Terra é concedido brutalmente a tão poucas pessoas? Uma só Cláudia Raia para um só homem desfrutá-la é como um clássico do futebol com portões fechados.

*Texto publicado em 22/05/2005.

O segredo

22 de julho de 2012 0

Tenho particularmente fascínio por um tema: o segredo. Acho até que uma das grandes atrações da vida é poder guardar um segredo. Há diversas nuanças entre os segredos. Vou pinçar agora uma: duas pessoas se amam e mantêm em segredo o seu amor. Ele é curtido silenciosamente entre os dois, as outras pessoas todas que vivem ao derredor  desses dois enamorados desconhecem completamente que eles se amam. Evidentemente que os compromissos e as convenções sociais impelem esses dois namorados secretos a manterem seu segredo.

Se por um lado custa-lhes muito caro manter esse segredo, que caso fosse violado ameaçaria a sobrevivência do amor oculto, por outro é extremamente delicioso para os dois amantes que eles não confiem a ninguém o seu segredo. Os dois comparecem a reuniões, almoços, jantares, festas, ninguém desconfia deles. E eles curtindo saborosamente o seu segredo.

O diabo é que o segredo sempre carrega dentro de si uma culpa, uma vontade de desabafar, um ímpeto de gritar ao mundo que todos deveriam ficar sabendo daquilo, libertar-se assim dos grilhões que amarram o seu segredo. “Ela sabe que eu a amo, eu sei que a amo, isto é o suficiente.”Será mesmo isso suficiente? Quantos e quantos casos de amor inundam o cotidiano, nos quais a marca mais genuína é a confidencialidade? Este segredo em amar é muito frequente em pessoas casadas, que querem manter seus laços conjugais e temem mergulhar nos riscos da aventura extraconjugal ou da separação, se o segredo for violado.

Mais frequente que o segredo guardado a sete chaves por duas pessoas é o segredo que pertence a uma só pessoa. Ela ama, mas ninguém sabe que ela ama, nem mesmo a pessoa que por ela é amada. Parece uma idiotice não noticiar a uma pessoa a quem se ama que ela é assim intensamente amada, mas não é. A vida trata ela mesma de antepor obstáculos vários entre as pessoas que amam. Quando alguém ama e a pessoa amada não tem conhecimento disso, imaginem a tensão, o nervosismo, a intensa emoção da pessoa que ama quando se encontra com a pessoa amada, o seu constrangimento em não revelar por nenhum gesto ou palavra o seu segredo!

Sempre, o detentor de qualquer segredo é um prisioneiro dele. Ele não vai dormir por sequer qualquer noite sem preocupar-se com seu segredo. E muitas vezes aquele segredo amassa tanto seu detentor, que ele não resiste e acaba rompendo o segredo. Se por um lado arrastará todas as consequências da violação do seu sigilo, por outro quem conta um segredo saboreia a deliciosa sensação de liberdade, tirou de cima do seu corpo aquele fardo pesado e insuportável. Pronto, não existe mais o segredo. Mas de que irá viver daqui para a frente quem não tem mais um segredo sob sua guarda? O violador do segredo mergulha num escuro abismo de vazio.

* Texto publicado em 25/11/2010.

A doninha e a lebre

21 de julho de 2012 0

Ontem, eu perguntei se a maldade humana que se espelha em todos os atentados noticiados diariamente pela imprensa eram fruto da natural perversidade da criatura humana ou estávamos vivendo apenas uma época especial em que de repente aflorou na civilização a índole perversa do homem.

***

Mas aí me lembrei de que, até a Revolução Francesa, o grande monumento de liberdade e de garantia dos direitos individuais, em 1789, a lei francesa admitia, a exemplo de outros países destacados na época, a tortura e o suplício como métodos de apuração penal.

Ou seja, qualquer pessoa acusada de crime poderia ser submetida à tortura e ao suplício pela polícia, com o que fatalmente confessaria tudo que lhe tivessem imputado.

E a confissão naquele tempo era considerada pelo Direito Penal como “a rainha de todas as provas”.

Isso foi há 220 anos, um caos.

***

De lá para cá, o mundo civilizado evoluiu, foi erigida a ampla defesa para os acusados de qualquer crime, há a presunção de inocência até a condenação. Perto do que acontecia há dois séculos, a Justiça aperfeiçoou-se.

***

Mas continuaram a proliferar as injustiças e os bárbaros ataques às garantias individuais nos países dominados por regimes autoritários, as chamadas ditaduras.

Até o país que é considerado a maior democracia do mundo, os Estados Unidos, sob o governo de George W. Bush, cometeu a maior heresia penal há uns cinco anos: criou uma lei que autorizou o Exército e a polícia a “usar métodos especiais em interrogatórios de acusados de terrorismo”. Em suma, a tortura.

Era a forma de os EUA lidar com o Iraque e o Afeganistão.

Surgiram então os escândalos de torturas nas prisões do Iraque e de Guantánamo.

***

Como se vê, o homem sempre foi mau, sempre foi cruel, sempre foi e é perverso.

E, acima de tudo, a sociedade humana sempre foi injusta.

A respeito disso, tem uma história que gosto muito. No auge da Cortina de Ferro, uma doninha e uma lebre encontraram-se na fronteira da União Soviética, de onde a lebre estava fugindo.

A doninha perguntou à lebre por que ela fugia da URSS. A lebre respondeu que era porque mandaram prender todos os camelos.

A doninha disse: “Ué, mas você não é camelo!”.

E a lebre respondeu: “Mas como é que vou provar isso?”.

***

Ou seja, a maldade e a injustiça existiam no tempo de Gengis Khan e sobrevivem até os tempos modernos.

Não são as épocas as culpadas, o culpado é um só: o caráter do homem.

* Texto publicado em 14/03/2009.

Por que gostam tanto de mim?

20 de julho de 2012 1

Digo-o sem nenhum pejo: às vezes, fico matutando sobre como as pessoas gostam tanto de mim.


O que fiz eu para que as pessoas gostem tanto de mim? Gostam de mim mais as pessoas aproximadas de mim, os que me veem todos os dias ou em média uma vez por semana, estes são apaixonados por mim.

***

Gosta tanto de mim o Moisés Mendes, que mergulhou na internet e gravou para mim dezenas de tangos clássicos, de domínio público, como Malena, interpretado magistralmente por Adriana Varela, Volver, Mano a Mano, La Cumparsita e Viejo Ciego, este cantado pelo imortal Roberto Goyeneche.


Deu-se à pachorra, o Moisés, de dar-me de presente esta coleção memorável de tangos, construída com sua paciência e bom gosto ao escolher as músicas e dar-mas de presente para que eu me delicie no toca-discos do meu carro.


É gostar de mim ou não é?

***

Vejam o caso de Loraine Chaves, a mulher de Kadão, o Ricardo Chaves, fotógrafo de ZH.


Pois a Loraine deu-se à pachorra de fazer um arroz de leite, com o arroz cozido não na água, mas no próprio leite, misturar não sei com que técnica a gemada no arroz de leite, e dar-me de presente a insuperável iguaria, dentro de uma grande vasilha.


Outras pessoas me dão arroz de leite de todos os tipos. Mandam-me doces de Pelotas, de Encruzilhada do Sul, aqui da Capital, doces e mais doces, empanturram-me de doces, principalmente de papo de anjo com calda. E eu, descuidadamente, relapsamente não devolvo suas vasilhas.

***

Por que gostam tanto de mim as pessoas, que algumas me telefonam e quando eu respondo alô elas imediatamente desligam, só estavam com saudade da minha voz?


Por que me amam tanto assim as pessoas, que se acercam de mim espertamente para só estar comigo e deliciarem-se com minha companhia?


Por que me amam tanto as pessoas, que quando ameaço que vou deixar esta sala em que escrevo, por aqui não me deixarem fumar, é uma correria entre o Clóvis Malta, o Olyr Zavaschi, o Nílson Souza e a Suzete Braun para que eu não os abandone. Não me deixam fumar, mas quando ameaço trocar de sala me fazem todas as outras vontades, comoventemente.

***

Por que me amam tanto as pessoas, que uma senhora se empenhou durante uma semana inteira em dar-me a imagem de uma santinha, a sagrada Virgem Maria, para que eu a depositasse no quarto do hospital, em busca da esperança da minha cura?


Por que me amam tanto a Rosane Marchetti e a Cristina Ranzolin, que vivem perguntando para mim e para os que me cercam quando, afinal, curado, eu voltarei para o lado delas no Jornal do Almoço?


Por que me amam? Que atração irresistível de afeto eu inspiro às pessoas?


Por que me amam tanto as pessoas, que as raríssimas que me odeiam ou me invejam não o fazem por me odiar ou me invejar, mas por me admirar, numa teia psicológica intrincada que afirma cada vez mais que inveja é sinônimo de admiração?


Por que me amam? Vale a pena viver quando se é por esta forma amado e admirado.


Pois eu quero dizer a todos os que me amam que aproveitem os últimos melhores momentos de minha vida e banqueteiem-se de mim, usufruam de mim todinho.


Ligeiro, que falta pouco!

* Texto publicado em 29/09/2009.

O voo das borboletas

19 de julho de 2012 0

O meu tema hoje se refere a um aspecto da vida humana que me tem intrigado a sobejo: a liderança.

Seja a liderança de qualquer grupo ou em qualquer situação, seja a liderança de uma nação, de um Estado, de uma empresa, enfim, de qualquer conglomerado humano grande ou pequeno.

O líder é sempre uma pessoa atormentada. Quase sempre pela responsabilidade.

Ocorre-me agora, exatamente agora enquanto escrevo, que toda professora é uma líder, ela é quem conduz os alunos e a sala de aula.

Por sinal, no fim desta coluna estarei abordando a face mais característica de um líder, que é a condução dos seus liderados.

Do líder emanam as instruções para seu grupo, emanam as luzes para seu grupo, emanam o otimismo e a confiança, tudo emana do líder.

É prosaico dizer, mas um grupo sem líder é como um corpo sem cabeça.

Um grupo sem líder é como uma mulher sem pés e mãos bonitos, empaca tudo ali, e nem uma mulher assim, sem encantos nos pés e nas mãos, mesmo que seja bela, pode ser considerada bela.

Vejam o caso dos animais. Todas as espécies, em todos os grupos, têm líderes.

Por trás de qualquer manada de elefante, embora não se perceba, nas longas caminhadas da manada em busca de água ou de qualquer outro alimento, existe um líder. E, nas manadas de elefantes e nos bandos de leões, não raramente, os líderes são femininos.

Não faz estranhar que as fêmeas de algumas espécies animais sejam as líderes, porque na espécie humana, em última análise, as mulheres também são as líderes. Basta que se diga que se criou o termo dona de casa, que indica claramente quem manda na célula principal do agrupamento, que é a família, o domicílio.

Líder, portanto, é quem vai na frente, quem está na frente, quem conduz os outros.

O líder é uma pessoa diferenciada, há até casos raros em que o líder não é quem comanda, não é quem vai na frente e sim quem está por trás.

O líder tanto distribui as coordenadas quanto as recebe dos liderados, o líder costura, inflama, constrói, anima, mentaliza o que os outros confeccionam.

Dá para sintetizar numa só imagem o papel do líder: a de uma fileira indiana de pessoas que caminham no meio de uma floresta selvagem.

Lá vai a fila indiana de pessoas em busca de um objetivo.

E, na frente da fila indiana, de umas 30 pessoas, vai o líder, é lógico.

Ao líder, que vai na frente da fila na floresta, cabe desbastar o caminho com o facão. Vai avançando a trilha a golpes de facão que vão derrubando os galhos, os nós, os cipós. É estafante o trabalho do líder na abertura da trilha. Os outros todos vão apenas atrás, na cauda, no rastro da tarefa do líder.

Além de ter de desbastar os vegetais da trilha, o único que corre risco entre toda a fila indiana é o líder: é ele, por ir na frente, quem tem a posição temerária de receber as mordidas das serpentes. Mas é claro: por vir na frente, o líder é quem primeiro invade os ninhos das serpentes e por isso pode receber a dura punição das picadas venenosas das cobras.

Parece, portanto, que vida dura é a do líder. No entanto, apesar dessa dureza, ao líder é que cabe o esfuziante privilégio, o deleite inimitável, o prazer incomensurável de, por seguir na frente dos outros na trilha, sendo o primeiro que sacode os galhos da floresta, por isso conseguir ver, o primeiro e único a assistir ao alçar do voo das borboletas.

Quem já assistiu ao espetáculo extraordinário do alçar de voo das borboletas coloridas na floresta?

Assistir primeiro e unicamente a esse espetáculo é privilégio, compensação e recompensa do líder durante a caminhada.

* Texto publicado em 30/09/2009.

Tatuagem

18 de julho de 2012 2

Descobri em mim há pouco tempo uma capacidade: eu estou apto para todos os encontros. Se, como disse o Vinícius, a vida é a arte do encontro, então eu sou um artista. Mas eu contrariaria o grande poetinha, afirmando que a vida consiste também na arte da despedida. Porque muitas vezes um novo encontro depende vitalmente de uma anterior despedida. E eu não tenho nenhuma aptidão para as despedidas, daí porque sinto-me incapacitado para a vida.

Ninguém que não conseguiu despedir-se é capaz de encontrar-se novamente. Todo encontro é sempre informal, não o presidem quaisquer compromissos, nem o sucesso dele próprio. Já as despedidas, estas são solenes e formais, pesadas, derrubadoras, repletas e gritantes, de fracasso, até mesmo as despedidas agradáveis, imaginem as indesejáveis. Livrem-me de todos os adeuses, até mesmo porque todos são hipócritas, ninguém pode separar-se daquilo ou de quem já amou, mesmo que não ame mais. Mais atroz que uma chacina será então um adeus ao que ainda se ama. Eu expliquei isso uma vez aqui, quando afirmei que as pessoas que largam o cigarro o fazem por não terem amado o cigarro. Como vou deixar um vício que amo e me consome? Todos os amores são vícios que consomem.

Ainda tentando desmentir o grande poeta: o amor e a afeição não são infinitos enquanto durem, são eternos mesmo depois que acabam.

Quando me entrego a alguém ou algo nunca mais disso me libertarei. Em pouco tempo verei que aquilo que eram laços, embora desatados, permanecendo como grilhões. Só para dar um exemplo, é apenas um exemplo, nada tem com o concreto que faz desabafar assim: venho encontrando mais de uma vintena de amigos que se tornaram ex-fumantes, a quem interrogo sobre sua experiência. Quase todos eles me dizem que às vezes sonham com o cigarro, têm pesadelos desejantes de cigarro, vacilam dramaticamente em voltar ao cigarro, a maioria não volta de vergonha, medo da vaia íntima ou exterior, ou porque seria um retrocesso desperdiçante do enorme sacrifício imposto pela renúncia.

É isto. Tudo que nosso coração conquista ou o que por ele é conquistado, disso ele se torna para sempre prisioneiro. Não há jamais como fugir-se daquilo ou de quem se amou, mesmo que agora se o odeie. E é mortal que a gente se afaste de quem ou de que se ama. Tolice o que se ouve: só um outro amor pode substituir um grande amor. Nada há que cure o que se cravou uma vez no coração, mesmo que já se tenha desencravado.

No coração plasmam-se impressões digitais indestrutíveis, são definitivamente dele, ele nunca conseguirá abdicar delas podem até despegar-se dele suas substâncias, mas lá continuará o desenho de suas linhas, como uma tatuagem inapagável.

Esqueça de esquecer o que um dia incendiou o seu coração. São labaredas eternas. O sopro de um vento ou de um tufão podem amainá-las, mas logo em seguida elas voltam a crepitar. Nós somos vassalos do que bem queremos e escravos eternos de nossos ex-amores. Ninguém servirá dedicadamente a um novo amor, desde que já tenha assim se entregue o outro.

O que passou não passou. A não ser que não tenha se passado.

* Texto publicado em 30/01/2008.

Pablo, personagem da cidade

17 de julho de 2012 2

Sou um rei na minha cidade. Se me queixo, é de barriga cheia. Por onde vou, saltam as pessoas para de alguma forma me homenagear.

Se vou no Gambrinus, tratam de cozinhar um prato especial, fora do cardápio, para me agradar. Ninguém, absolutamente ninguém, além de mim, saboreia a Tainha Frita que o Gambrinus só pra mim prepara.

No Panchos, onde todos se empanturram de parrillas, para mim é servida uma galinha com arroz molhada, úmida, molho parece que só de tomate de tão rubro.

Se vou nos diversos pontos onde servem churrasco de gato, para mim é servido espetinho de filé mignon ornado e entremeado de bacon.

Se vou no Insano, bar da Lima e Silva, a orquestra, composta de instrumentos de corda e de metalurgia, prepara introduções dos sambas mais antológicos para eu cantar nas quintas-feiras.

Se vou na casa do João de Almeida Neto e da Jane, onde me preparam assados divinos ao som de violões uma vez por semana, cerveja uruguaia, Patricia, Pilsen, Norteña, todas as marcas que dão de 10 nas nacionais me são oferecidas. E bebo até a madrugada.

Se passo na Praça Montevidéu, largo da prefeitura, as pombas saltam, palavra de honra, nas minhas omoplatas, algumas fazem cocô no meu cabelo, tão grande é a intimidade das aves com Pablo. Que o digam os pardais da Avenida Mauá, junto ao Muro ou na calçada fronteira. Os pardais da Mauá, pasmem, dançam ciranda no ar para encantar Pablo.

Se simplesmente me planto na Redação, chegam os pacotes contendo ovos-moles do Zélio Hocsman e da Zoia, quando não são arrozes de leite da Loraine Chaves, doces de Pelotas feitos falsariamente e maliciosamente em Rio Grande, não deixando mesmo assim de serem deliciosos.

E se por acaso vou visitar algum colégio, naquele dia podem crer que não há mais aulas, tal o alvoroço que Pablo causa no estabelecimento.

E se vou a algum asilo, os velhinhos e velhinhas se levantam de seus leitos de velhice cansada e ficam saltitando na minha frente como se fossem pimpolhos.

E se vou a algum cinema de shopping, basta passarem alguns minutos na escuridão e dali a pouco os espectadores começam a me abordar, oferecendo-me pipocas e balas de goma. É tanta a alaúza, que outros espectadores começam a vaiar a bagunça que se cria em torno de Pablo na sala de projeção.

E, nos mictórios públicos, insistem, dentro desses recintos sanitários, para que eu dê autógrafos e tire fotografias com todos, antes de fazer pipi, frisam, o que me causa transtornos e não raro molha as minhas calças!

Não sei onde me meter na minha cidade que não seja saudado como um mito, uma lenda viva, um fogo-fátuo, um El Cid do povo de todas as gerações.

Eu sou um rei na minha cidade, em Porto Alegre estou em casa, é a minha família, as pessoas se declaram iguais a mim, embora umas sejam gremistas outras coloradas. Mas quando eu chego ficam todas iguais.

Iguais em desejo de se aproximar de mim, de me tocar, de me ouvir, de se fazerem ouvir, e prometem que me vão mandar livros, fotos, álbuns, jornais, revistas, fazem de tudo para me agradar.

E onde Pablo passou, resta sempre um rastro de rumor de cantochões.

Pablo é rei em sua cidade.

Pablo é imperador nas margens do Guaíba.

Pablo é escravo e senhor dos porto-alegrenses.

A capital dos gaúchos nunca se orgulhou tanto de alguém, nem de Bento Gonçalves, nem de Getúlio Vargas, como se orgulha de Pablo.

E Pablo quase não acredita no que será que fez para cativar tanto os gaúchos.

* Texto publicado em 30/10/2009.

Os sobreviventes

16 de julho de 2012 0

Estava eu esperando, como sempre faço há muitos anos, a hora da minha entrada no Jornal do Almoço, quando anunciaram um músico e cantor nativista: João Chagas Leite.

Fiquei vendo e ouvindo ele dedilhar o violão e cantar a sua música. Mais atentamente notei uma anormalidade na sua mão direita: ele simplesmente não tinha mão.

Perguntei o que lhe tinha acontecido e ele me disse que nascera assim, só as unhas da mão direita e um toquinho do dedão.

Mas como é que podia tocar violão aquele homem sem mão? Como é que ele conseguira segurar o braço do violão com a sua mão direita e dedilhar as seis cordas com aquele toquinho de dedão esquerdo?

***

Ele me disse também que já gravou 13 CDs. Mas que força extraordinária levou este homem descontado fisicamente a dar a volta por cima e se tornar um artista reconhecido no meio nativista?

Parece que estou vendo, ele foi levando a vida em frente, nunca deve ter se queixado do destino, a vida lhe deu um limão e ele fez uma limonada.

São uns heróis estes sobreviventes. Lembro-me de um pensamento magistral de um grande autor: “Não importa o que fizeram de nós, importa o que nós fizemos do que fizeram de nós”.

Aquele cantor e violonista de sucesso é bem um exemplo de que muitas vezes a vida nos tira algo, mas não nos tira a essência. E o que importa é essa essência, com ela recobraremos tudo que possa nos ter sido tirado.

***

Dali a pouco, enquanto não chegava a hora de eu falar no programa, a Rosane Marchetti entrevistou um jovem bombeiro que tinha sido resgatado com vida de um salvamento de que participara no Vale do Itajaí, durante as chuvas que provocaram aquela tragédia.

Ele há poucos dias conheceu a morte de perto, soterrado enquanto salvava pessoas dos deslizamentos.

Viveu instantes em que imaginou talvez que não fossem resgatá-lo. Mas resistiu e acabou salvo.

Estava agora sendo entrevistado e me surpreendeu o que disse: “Agora não faço mais planos, não penso no futuro, agora só quero viver”.

***

Interessante. Aquele bombeiro retirado do fundo da lama, antes de cair no fundo daquele abismo e ver sua vida ameaçada, não tinha consciência do significado de sua vida.

Ele só foi perceber que vivia, ele foi só dar valor à sua vida quando quase a perdeu.

E agora só quer colher o momento que passa, tudo é lucro para ele.

Além disso, passa pela sua cabeça o quanto é frágil a existência humana, quanto é possível a qualquer instante que por qualquer circunstância sobrevenha a nossa morte.

Por isso então é preciso viver. Celebrar o que resta da vida.

É preciso viver com pressa de viver.

***

Existem os viventes e existem os sobreviventes. Os sobreviventes, como o cantor sem mão e o bombeiro resgatado, têm outra idéia da vida.

Os sobreviventes são os que passaram pelo grande susto, superaram-no com esforço destemido ou com sorte — e são superiores aos outros porque têm idéia nítida do que é a morte.

Por conhecerem a morte ou o grande desfavor, valorizam mais a vida que as pessoas que só tiveram até agora olhos para a vida e muitas vezes não sabem o que fazer dela.

Quem esteve à beira da morte ou já foi impactado pela desgraça, estes imprimem a seus dias um significado de maior conteúdo.

Os sobreviventes são diferenciados, têm consciência de que nada de pior pode vir a lhes ocorrer, eles já foram testados.

E estão aprovados para vencer na vida e para enxergar nelas delícias das quais não nos apercebemos.

Uma das experiências mais raras e mais ricas da vida é renascer.

Muito pouca gente percebe que não há outra forma de justificar-se na vida senão pela grande façanha pessoal do renascimento.

Uma coisa é aquilo para o que nascemos. Outra bem diferente — e só isso interessa — é o rumo diferente que designamos para nosso destino.

* Texto publicado em 23/12/2008.

A delícia do medo

15 de julho de 2012 0

Se há uma sensação que consome o homem, aniquila-o, vai devorando-o aos poucos, é o medo. O medo acompanha o homem desde o seu nascimento e só desaparece com a morte.

Quando experimenta o medo real, o homem passa a enfrentar outra tragédia: o medo imaginário, o medo sem razão de ser, sem aparente causa concreta, que se transforma em devoradora doença mental, marcada pelas atrozes e assustadoras fobias.

Alguém que já tenha alguma vez na vida  experimentado a sensação da fome, nunca mais se livrará dela: pelo medo de que por alguma forma aquele fato se repita.

A pessoa que tem medo exacerbado sofre mil vezes antes que a circunstância temida se verifique. É possível que nunca aquela ameaça se concretize, no entanto quem tem medo de que ela venha a ocorrer vê-se consumido pelo terror, embora realmente muitas vezes não tenha sequer corrido o menor risco material de vir a ser atingido pelo mal imaginário.

Estranha pois que esse inimigo maior da mente e do equilíbrio humano seja tão almejado pelas pessoas que vão ao cinema ou se fixam na televisão para assistir a filmes de terror. Isso só pode ser explicado pela lei filosófica que estabelece ser o medo o módulo principal do instinto de sobrevivência dos homens e dos animais. Segundo essa lei, sem o medo o homem não sobreviveria, ele se tornaria facilmente vulnerável a todas as adversidades.

Agora mesmo estão sendo lançados no Brasil dois filmes de terror que prometem levar multidões ao cinema: O Amigo oculto e uma nova versão de O Massacre da Serra Elétrica.

Afinal, que motivo arrasta as pessoas ao cinema para experimentarem essa sensação tão sofrida e indesejável que é o medo?

Há quem não perca filme de terror. Esses espectadores sentem-se tomados pelo mesmo medo apavorante que domina os personagens ameaçados no filme. Sofrem gratuitamente com o horror sentido pelas vítimas escolhidas pelo autor da história, pagam ingresso para sofrer.

Só pode haver delícia nesse sentimento masoquista.

Tenho que atribuir a um fator psíquico essa obstinação das pessoas em procurar o medo: de alguma forma a pessoa se deixa mergulhar em tal terror, que, passada a cena horrorizante ou o filme inteiro, o espectador se dá conta de que nada aconteceu com ele, que os perigos configurados por sua mente não redundaram em qualquer dano a si, o que lhe causa um grande alívio.

E essa sensação de ter-se preservado íntegro depois de correr tantos perigos é profundamente deliciosa, um verdadeiro orgasmo cataclísmico. Ou seja, as pessoas que são viciadas em filmes de terror acabam atraídas para o cinema ou televisão pelo prazer sadomasoquista de que, mesmo sentindo um medo gélido e arrepiante, que se abate logicamente também sobre os personagens da ficção, safam-se ao fim das cenas, ou do filme, de todos os riscos e perigos por que passaram ao investirem-se no papel das vítimas da história a que estão assistindo, festejando  íntima e efusivamente, ao irem embora para casa, que nada lhes aconteceu, ao contrário dos  que tombaram durante o decorrer da película.

O fato gritante é que o homem detesta o medo, mas paradoxalmente o procura, parecendo não  poder viver sem ele.

É o caso dos esportes radicais: que impulso ou sentimento leva as pessoas, por exemplo, a deixarem-se amarrar num pé a uma corda elástica de 70 metros de altura e lançarem-se num abismo? É verdade que sentem-se seguras de que não vão se despedaçar no  solo, no entanto o medo devastador que sentem no percurso não é presumivelmente suficiente para recompensar-lhes o golpe terrificante que sofrem até que a corda se estique.

O mesmo com os pára-quedistas, com os domadores de feras, com os pilotos de corridas, eles  sentem um prazer carnal, uma euforia hedônica ao arriscarem suas vidas.

Não resta dúvida de que estranha e exoticamente o homem busca o medo como forma inseparável de continuar existindo, ou seja, como simplesmente viver já se constitui num risco, não correr risco é morrer.

Não fosse assim e desde o início da humanidade quatrilhões de pessoas não teriam se atirado obstinada, obsessiva, fatal e inevitavelmente ao trágico ou arriscado desatino do casamento.

* Texto publicado em 27/02/2005.

Ser velho

14 de julho de 2012 1

Eu sei muito bem o que é ser jovem, mas seguidamente me confunde o conceito de “velho”.

O que é “velho”? Seguidamente vejo as pessoas consolando os velhos: “Velho é um estado de espírito, a velhice não está no corpo, está na cabeça. Velho é aquele que perdeu o entusiasmo etc”.

E citam Sófocles: “Ninguém ama tanto a vida como aquele que está envelhecendo”.

E eu penso o seguinte sobre isso: se é preciso dizer todas essas coisas para acalmar os velhos, então não é bom ser velho.

O nosso cardiologista Fernando Lucchese está num livro de citações que folheio com a seguinte frase de sua autoria: “Se a palavra ‘envelhecer’ o incomoda, você ainda tem muito que aprender”.

Parece-me que Lucchese quis dizer que toda pessoa que se ofende quando a chamam de “velho” ainda não está velha.

É o contrário exatamente do que acontece com os burros: se você chamar alguém de burro e ele se ofender, então é porque ele é burro.

A palavra “velho” é ofensiva por um lado, mas carinhosa por outro. “Tu és um velho” é uma frase demasiadamente agressiva, está se chamando determinada pessoa de gasta pelo uso, antiquada, obsoleta.

No entanto, quando se diz que fulano “é um velho amigo” está-se fazendo um grande elogio àquele amigo.

Ou quando numa família se diz assim: “O velho aqui resolve tudo para nós”, está-se rendendo um preito de admiração ao pai ou ao avô.

Mas o que eu noto principalmente é uma reação íntima irada por parte de quem é classificado como velho. Tenho um amigo que pinta os cabelos e tem 70 anos.

Tem direito à isenção da passagem de ônibus, mas não a usa, puxa do bolso o dinheiro e paga a passagem: não quer que ninguém no ônibus o considere um velho. Observem que no caso desse amigo, como paga passagens todos os dias e durante anos, sendo isento, custa-lhe mais caro afetar juventude.

Eu incorporaria no dicionário como sinônimo de “velho” a palavra “tio”. Digo isso porque se eu fosse moço, os meninos que pedem esmolas nas sinaleiras não me chamariam sempre de “tio”. Eu disse “sempre”.

Quando se é jovem, nunca passa pela cabeça a idéia nem da velhice nem da morte.

É tal o extasiamento da juventude pela vida, que nem remotamente se lhe acode a possibilidade de ficar velho ou de morrer.

Mas a velhice vai chegando aos poucos, a pessoa não se apercebe de sua aproximação.

Sente-se principalmente a velhice quando se desce uma escada, só aí é que a gente nota que existe uma coisa chamada corrimão.

E se desce a escada olhando fixamente para os degraus. Juventude significa descer escada sem apoiar-se no corrimão e olhando para a frente ou para cima, desconhecendo os degraus.

Por falar nisso, nunca esqueço o letreiro que havia no Restaurante Gambrinus, no Mercado Público: “Cuidado com esta escada, principalmente na descida”. Eu botei isso na coluna e, no dia seguinte, o Antoninho, dono do Gambrinus, arrancou o letreiro de lá. Pior se tivesse demolido a escada.

De minha parte, para concluir, quero deixar bem claro o que penso sobre a velhice: está definitivamente velho, irrecuperavelmente velho, tristemente velho aquele que não mais consegue suscitar paixão em ninguém ou não tem mais nenhuma aptidão por apaixonar-se por alguém.

Isto vai até além da velhice. É a morte em vida.

* Texto publicado em 12/01/2007.

A sina do homem

13 de julho de 2012 0

É preciso largar o cigarro. É preciso largar o açúcar. É preciso largar ou moderar os carboidratos, essa montanha de massas, pães, biscoitos que ingiro, que ingerimos. Eu não bebo, mas quem bebe tem de largar a bebida etc.

E ficar com o quê?

A vida, primeiro, é uma aceitação dos prazeres ou até uma adaptação consumista às necessidades. Lá mais adiante, nos submetem à imperiosidade da renúncia.

No início, é preciso fisgar essa mulher, atraí-la, enchê-la de afeto, satisfazê-la na lascívia, é uma mão de obra descomunal a conquista.

Mais tarde, é preciso largar esta mulher (ou este homem). Ela não era quem eu pensava ou simplesmente me cansou. Mas como largar esta mulher agora que os laços econômicos, sociais, existenciais se estreitaram tanto?

Como largar o cigarro se ele já se incorporou ao meu metabolismo de tal sorte que não suporto a ideia de viver sem ele?

Como largar o arroz de leite, o quindim, os ovos-moles, o pudim de laranja que se esparramam todos diante dos meus olhos na carta de sobremesas?

Mas, então, no meio ou no fim da minha vida, terei de me privar de todos os prazeres a que estou acostumado?

Terei de criar outras delícias, aprender a comer peixe cru como os japoneses? Mas peixe cru não desliza mais pela garganta e pelas glândulas salivares da minha formação alimentar e hedônica. O que desliza redondo em mim, tornando meu dia prazeroso e minha vida feliz, é o sagu com creme de leite.

Então, a vida é um pega e larga constante. Pega o sal, larga o sal, mas só larga o sal depois que estiver bem acostumado com o sal. Com a mulher também. Com os doces, com as massas.

Depois que gostou do sexo, viciou-se no sexo, tem agora de usar a camisinha. O doce é maravilhoso, mas engorda ou eleva perigosamente a taxa glicêmica. Vê se passa para o alimento dietético, mas o alimento dietético e a camisinha são umas porcarias.

A vida é um incessante pegar e largar. Pega o namorado, larga o namorado. Pega o emprego, larga o emprego e mergulha no desespero do desemprego.

Pegar é bom, largar é um inferno. Casar é bom, tanto que todos se casam, mas descasar, que teria também de ser bom, vira um inferno.

Então tem-se de ser muito forte para viver. O homem é um animal muito forte, o mais forte de todos os animais. Porque ele está sempre tendo de iniciar alguma coisa e logo em seguida é obrigado a interromper o processo. E recomeçar tudo de novo.

Não há mente nem corpo que resistam. Se o homem fosse como o camelo ou a capivara, que sempre bebem e comem a mesma coisa, que fazem sexo sem divórcio e não cuidam da saúde nem têm sequer ideia nem medo da morte e do futuro, só então poderia ser feliz.

* Texto publicado em 21/02/1999.