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O perfume do sândalo

20 de agosto de 2012 0

Escrevo antes do jogo de ontem no Olímpico, os leitores vão em seguida saber por quê.
Vou só me referir à minha coluna da última quinta- feira.
Estive meditando sobre a enxurrada de e- mails que recebi a respeito.
Muitos apoiando a crítica acerba que fiz ao goleiro Marcelo Grohe, outros muitos afirmando que minha coluna foi desumana com o goleiro.
Acho que vou me fixar na “ desumanidade”.

Escrevi a coluna sob violenta emoção, vindo do Olímpico e apressado para baixar o meu espaço no jornal.
Era tarde da noite.
E, sob violenta emoção, posso ter- me excedido e por alguma forma danificado a personalidade do criticado.
E um bom jornalista tem de ter o cuidado de não danificar jamais a dignidade de uma pessoa que ele critica.
Sei que Marcelo Grohe é uma pessoa articulada e tem consciência de que se tornou um homem público mais visado ainda quando se tornou titular absoluto do Grêmio.
Enquanto foi reserva durante anos, não corria esse risco de ser veementemente criticado, embora eu não o tenha por nenhuma forma ofendido com palavras sem remendo.

Eu tenho de ter humildade para analisar o choque que houve na opinião pública com aquela minha coluna.
E, na imperiosa humildade, sou obrigado a admitir que eu possa ter me excedido.
Não é sobre a opinião que tenho e não vou deixar de ter, a menos que Marcelo Grohe se torne ainda um grande goleiro.
Mas é sobre o tal dano que eu possa ter causado à pessoalidade do goleiro.
Se o causei, peço desculpas a Grohe, ele sabe que sou gremista ferrenho e os ferrenhos podem muitas vezes se exceder.

Pedidas as desculpas, quero afirmar, por já ter lido muitas obras a respeito, que é muito grande a responsabilidade de jornalistas que são muito lidos e penetram no âmago da consciência popular.
Talvez seja essa a minha omissão: eu desconheci, às pressas, a penetração da minha coluna nas massas, daí a repercussão daquele meu espaço.
Não é a primeira vez que me acontece isso nesses meus 41 anos de Zero Hora.

Pois se feri, sem intenção, com aço frio a dignidade profissional de Marcelo Grohe, quero fazer com esta coluna, talvez pretensiosamente, o que a árvore sândalo fez com o machado que a derrubou, perfumando- o.
Permanece, no entanto, inalterável a minha liberdade crítica, construída com mais de quatro décadas de credibilidade, modéstia à parte.
E vamos para outra.
Eu, com mais uma lição aprendida.
O futebol é um campo fértil para as paixões, eu apenas tenciono por vezes mesclar a emotividade com colocações racionais.
Não abro mão disso, é enfim o meu cabedal.
Os meus leitores, há tanto tempo fiéis a mim, me conhecem.
A gente pode se exceder em algum dia, mas a humildade, esta nunca há de ser desnecessária e excessiva.


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