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Usei o Viagra

27 de agosto de 2012 0

Usei o Viagra. Na sexta-feira. Consegui dois comprimidos com um amigo recém-chegado dos EUA, que me obrigou à promessa de que eu só usaria o estimulante sob controle médico.

Fui ao médico, que me interrogou por 60 minutos. Fixou-se principalmente no meu status circulatório. Como não tenho e nunca tive qualquer cardiopatia, porque é meu médico, indagou-me de como anda minha glicemia. Disse-lhe dos meus últimos índices medidos de açúcar no sangue e ele decidiu, após ler a extensa e cansativa bula . “Usa o máximo de dois comprimidos e não me incomoda mais. Telefona-me somente no caso de sentires algo anormal. E passa aqui depois para eu ouvir o relato da experiência”.

E ainda brincou o meu médico: “Não consegues dois comprimidos para mim” Calculei o momento do encontro amoroso e ingeri o comprimido uma hora antes, como manda a bula. Por demora circunstancial, o encontro ocorreu 80 minutos após a ingestão do comprimido.

Nada de não-costumeiro, palpável (ou sensível), verificou-se em mim até o primeiro roçar dos corpos nus. Nem durante o sexo, a potência não é problema meu. O surpreendente, o novo, o que eu classificaria de incrível, se desenrolou após o meu orgasmo: como já não me acontecia há 20 anos, permaneceu intacta minha função erétil. Desapareceu o habitual e relativo fenecimento pós-orgasmo, estado a que eu já me habituara nas duas últimas décadas.

Estava intocável a minha capacidade para prosseguir no sexo. Como notei receptividade na parceira, depois de fumar um cigarro, fato inédito em minha vida, excetuado o período da minha juventude, voltei à carga amorosa com ímpeto e decisão.

Foi com surpresa e indisfarçável contentamento dela, que já me conhece há tanto tempo, que voltamos à prática carnal. Minha atividade era incessante, prazerosa, orgulhosa acima de tudo da euforia sensorial que estava provocando na parceira pela minha insistência e disposição inquebrantável.

E o mais fantástico: após o segundo intercurso, presumivelmente interrompido por um clímax dela, o terceiro ou quarto, ouviu-se um apelo, colocado num balbucio dela: %22Vamos descansar um pouco…%22

Saboreei naquele instante o que a literatura chama de glória. Estava totalmente rendida a outrora dama insaciável.

Agora a impressão da cobaia aqui sobre os aspectos sociológicos do Viagra, associada ao que sentiu o meu amigo que me cedeu os comprimidos e que já os experimentara, diferenciando-se sua experiência da minha em mínimos detalhes e ambas identificando-se profundamente nos ângulos principais.

O Viagra é a terceira grande transformação do final de milênio nos hábitos sexuais e na tendência demográfica sobre o planeta, junto com os anticoncepcionais farmacêuticos e a camisinha.

Este comprimido vai modificar o mundo e as gentes. Se a camisinha ora desestimulava o sexo, ora colaborava decisivamente no controle da natalidade, o Viagra impele ao sexo insopitavelmente e o que é mais significativo: soará como uma bomba arrasa-quarteirão na tentativa até agora bem-sucedida da humanidade de diminuir os nascimentos e conter a fertilidade.

Outra constatação da minha memorável experiência: o Viagra não deverá aumentar consideravelmente o número de orgasmos masculinos num só encontro. Mas multiplicará o número de orgasmos femininos geometricamente, levando o macho à realização mais completa, que é, psicanaliticamente, antes que satisfazer-se, satisfazer por inteiro a sua fêmea.

E agora, depois desta notícia espetacular para os homens e bombástica para as mulheres, a grande revolução na relação sexual e existencial que esta pílula estupenda irá provocar em todo o milênio seguinte: o homem se igualará à mulher em uma das suas grandes desvantagens, desde Adão e Eva, que era a aptidão da mulher para fingir no sexo.

Até ontem, a mulher era apenas receptáculo, isto é, podia fazer sexo sem amor. Em suma, pertencia só à mulher a faculdade do fingimento. Ao contrário, ao homem não era concedido este recurso: só podia fazer sexo se tivesse vontade, a não-ereção o denunciaria como sem libido, só a ereção era documento hábil para atestar sua sinceridade.

Pelo que senti e pude depreender, deixou de ser privativo da mulher o fingimento no sexo, abre-se ao homem com o Viagra a possibilidade de ocultar também o seu impulso volitivo, a sua voltagem de vontade. Porque, se é verdade que a libido continua indispensável à ação do Viagra, isto só se verifica antes do primeiro orgasmo. Logo em seguida a ele, a ereção permanece firme, apesar da ausência da libido. Ou seja, a função primacial do Viagra é prolongar milagrosamente a ereção.

Finalmente, a minha observação jornalística sobre estes boatos de mortes causadas pelo Viagra. São inconsistentes, em suma. Há que se olhar, como todos os medicamentos que mexem com o metabolismo, quais são as contra-indicações, isso é muito importante.

Mas, caso não haja contra-indicações, sendo aconselhável o meu procedimento de consultar um médico antes, há que se tomar o Viagra. Repito: há que se tomar o Viagra, que será colocado à venda no Brasil esta semana. Não importa o preço caro que ele custará.

O encontro com a felicidade não tem preço. E o Viagra é o elixir da juventude e da felicidade.

* Texto publicado em 31/05/1998

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