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Eu só quero justiça!

29 de agosto de 2012 0

Não quero que me julgue um juiz culto ou erudito.

Prefiro que me julgue um juiz justo.

Quero que me julgue um juiz piedoso e compassivo.

Mas que deixe de lado a compaixão, se for para ser justo.

Podem os juízes que me forem julgar ser severos ou condescendentes, desde que, ao me aplicarem a pena ou me absolverem, sigam somente os ditames de suas consciências cognitivas.

Prefiro que ao me julgarem os juízes se atenham menos à lei do que à vida.

E insisto que o juiz que me julgar leve em conta, ao me sancionar com a condenação ou me absolvendo, a possibilidade de minha regeneração.

Ou seja, que nenhuma pena se abata sobre mim se vier impossibilitar a hipótese de que eu nunca mais venha a delinquir.

Que o meu castigo não impeça jamais a minha recuperação.

***

Que o juiz que me for julgar tenha em conta, se me for condenar, a masmorra em que serei jogado, que tome consciência, sim, de que a pena que me impuser não poderá me destruir como ser humano, atirando-me a um antro prisional que destroçará em definitivo todos os meus valores que ainda restam.

Mas que leve em conta o juiz que me for julgar, essencialmente, o dano que causei à minha vítima e a seus familiares assim como se eles estão bradando veementemente por meu castigo. Em outras palavras, que a pena que se abata sobre mim, se eu for culpado, contenha influência da insistência e veemência do pranto dos familiares da vítima que produzi.

E, se for justo apenar-me, que me apene, mas sempre baseado na esperança de que eu venha na prisão a emendar-me.

Na esperança ou na perspectiva.

***

Que o juiz que me venha julgar olhe nos meus olhos, me ouça infatigavelmente, nunca por nenhum detalhe cerceie a minha defesa e tenha bem presente em sua mente a natureza, a extensão e o conteúdo da acusação que pesa sobre mim.

E principalmente deduza firmemente o juiz que me for julgar se ao cometer o delito eu poderia tê-lo evitado, se havia ou não inexigibilidade de outra conduta minha.

***

O juiz que me venha julgar, quando pronunciar a minha sentença, deve ter bem exato em sua mente que jamais se arrependerá dela, que jamais transigirá dela, no futuro, a não ser para beneficiar-me, no caso de que fique provado que errou ao condenar-me.

Mas exijo do juiz que me julgue que, se eu for substancialmente culpado, me condene e me deixe bem claro que não havia outra coisa a fazer em defesa da lei, do Estado e dos que danifiquei.

***

Quero que o juiz que me venha julgar não tenha pressa nem se mostre lento ou hesitante. E, se for hesitar, que seja apenas para acautelar-se de um grave erro de sentença.

Exijo também do juiz que me venha julgar que se fixe com obsessão nas provas que eventualmente haja contra mim, que nunca se afaste delas por nenhum milímetro, assim como o fará com as razões da minha defesa.

***

Finalmente, desejo ao juiz que me for julgar que se orgulhe da sentença que pronunciou, tenha sido para absolver-me ou para condenar-me, que depois de pronunciá-la o juiz ou a juíza que me for julgar se olhe no espelho em casa e se sinta digno de sua missão jurisdicional, que depois vá jantar à mesa com seu marido, com sua mulher e com seus filhos e grite intimamente: “Eu tenho convicção de que hoje fiz justiça”.

* Texto publicado em 31/10/2009

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