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Posts de agosto 2012

Os óculos escuros

31 de agosto de 2012 0

Dizem que os olhos são as janelas da alma. Então, os óculos escuros são as venezianas.

***

Sempre desconfiei de quem não tira os óculos escuros. Parece que quer esconder dos outros algo que oculta na alma por vergonha.

Se eu não tivesse meu olho esquerdo afetado por antiga paralisia facial, o que impede que suas pálpebras fechem por intuição, só por ato volitivo, nunca usaria óculos escuros. Só os uso para proteger o olho esquerdo do sol ou da luminosidade.

Mas, sempre que alguém se aproxima de mim para conversar, tiro depressa os óculos escuros. Os meus interlocutores não os merecem.

***

Quem usa óculos escuros esconde uma traição: já feita ou que está por vir.

Por sinal, há três profissões em que são intrínsecos os óculos escuros: cantor de rock ou de pop, segurança de casa noturna e general norte-americano ou brasileiro.

E segurança de casa noturna, além de óculos escuros, usa também indefectível traje inteiramente preto.

***

Experimente arrancar desses marmanjões possantes os seus óculos escuros. Como Sansão de quem rasparam a cabeleira, ele ficará tonto, sem saber o que fazer, parece que lhe tiraram a força, a energia do utilitário físico que ele representa, enfim, arrancam-lhe a personalidade.

Uma vez perguntei a uma freira por que usava óculos escuros. Ela me disse que para atenuar a visão ofuscante das injustiças do mundo e para lhe parecerem mais sombrios os brilhos que emanam dos rostos dos maus quando eles triunfam diante dos bons.

Outra vez perguntei a um general por que ele usava óculos escuros e ele me respondeu: “Porque não posso suportar o fulgor do meu tenente-coronel diante dos recrutas”.

***

Os atores da Globo também usam óculos escuros. Os banqueiros de jogo do bicho também usam óculos escuros. Os atores da Globo, deve ser porque lhes ofusca o próprio brilho. Os banqueiros de jogo do bicho, cogito que usam óculos escuros com medo de se encontrarem na rua com apostador a quem calotearam num prêmio ou com um policial honesto, que não pertence à sua lista de suborno.

***

Mas há profissões e situações que não comportam em nenhuma hipótese óculos escuros.

Caso de um casamento a que assisti esses dias, em que o padre oficiava o sacramento de óculos escuros. Parecia ter vergonha da encrenca em que estava metendo o pobre do noivo.

E juro para vocês que no cemitério São Miguel e Almas, em agosto, estava sendo velado em uma capela um defunto de óculos escuros, eu nunca tinha visto algo igual.

Talvez um parente piedoso do defunto tenha lhe colocado os óculos escuros para livrá-lo do rigor das labaredas do inferno com que ele dali a pouco se defrontaria.

***

Ocorre-me que só há dois tipos humanos que nunca vi com óculos escuros: os bebês e os hipnotizadores.

E, a uma pessoa que disse a um homem que este parecia um canalha de óculos escuros, o homem respondeu: “Só pareço um canalha? Se você visse meus olhos nuamente, então teria certeza de que eu sou um canalha”.

* Texto publicado em 31/10/2009

Pablo, personagem da cidade

30 de agosto de 2012 0

Sou um rei na minha cidade. Se me queixo, é de barriga cheia. Por onde vou, saltam as pessoas para de alguma forma me homenagear.

Se vou no Gambrinus, tratam de cozinhar um prato especial, fora do cardápio, para me agradar. Ninguém, absolutamente ninguém, além de mim, saboreia a Tainha Frita que o Gambrinus só pra mim prepara.

No Panchos, onde todos se empanturram de parrillas, para mim é servida uma galinha com arroz molhada, úmida, molho parece que só de tomate de tão rubro.

Se vou nos diversos pontos onde servem churrasco de gato, para mim é servido espetinho de filé mignon ornado e entremeado de bacon.

Se vou no Insano, bar da Lima e Silva, a orquestra, composta de instrumentos de corda e de metalurgia, prepara introduções dos sambas mais antológicos para eu cantar nas quintas-feiras.

Se vou na casa do João de Almeida Neto e da Jane, onde me preparam assados divinos ao som de violões uma vez por semana, cerveja uruguaia, Patricia, Pilsen, Norteña, todas as marcas que dão de 10 nas nacionais me são oferecidas. E bebo até a madrugada.

Se passo na Praça Montevidéu, largo da prefeitura, as pombas saltam, palavra de honra, nas minhas omoplatas, algumas fazem cocô no meu cabelo, tão grande é a intimidade das aves com Pablo. Que o digam os pardais da Avenida Mauá, junto ao Muro ou na calçada fronteira. Os pardais da Mauá, pasmem, dançam ciranda no ar para encantar Pablo.

Se simplesmente me planto na Redação, chegam os pacotes contendo ovos-moles do Zélio Hocsman e da Zoia, quando não são arrozes de leite da Loraine Chaves, doces de Pelotas feitos falsariamente e maliciosamente em Rio Grande, não deixando mesmo assim de serem deliciosos.

E se por acaso vou visitar algum colégio, naquele dia podem crer que não há mais aulas, tal o alvoroço que Pablo causa no estabelecimento.

E se vou a algum asilo, os velhinhos e velhinhas se levantam de seus leitos de velhice cansada e ficam saltitando na minha frente como se fossem pimpolhos.

E se vou a algum cinema de shopping, basta passarem alguns minutos na escuridão e dali a pouco os espectadores começam a me abordar, oferecendo-me pipocas e balas de goma. É tanta a alaúza, que outros espectadores começam a vaiar a bagunça que se cria em torno de Pablo na sala de projeção.

E, nos mictórios públicos, insistem, dentro desses recintos sanitários, para que eu dê autógrafos e tire fotografias com todos, antes de fazer pipi, frisam, o que me causa transtornos e não raro molha as minhas calças!

Não sei onde me meter na minha cidade que não seja saudado como um mito, uma lenda viva, um fogo-fátuo, um El Cid do povo de todas as gerações.

Eu sou um rei na minha cidade, em Porto Alegre estou em casa, é a minha família, as pessoas se declaram iguais a mim, embora umas sejam gremistas outras coloradas. Mas quando eu chego ficam todas iguais.

Iguais em desejo de se aproximar de mim, de me tocar, de me ouvir, de se fazerem ouvir, e prometem que me vão mandar livros, fotos, álbuns, jornais, revistas, fazem de tudo para me agradar.

E onde Pablo passou, resta sempre um rastro de rumor de cantochões.

Pablo é rei em sua cidade.

Pablo é imperador nas margens do Guaíba.

Pablo é escravo e senhor dos porto-alegrenses.

A capital dos gaúchos nunca se orgulhou tanto de alguém, nem de Bento Gonçalves, nem de Getúlio Vargas, como se orgulha de Pablo.

E Pablo quase não acredita no que será que fez para cativar tanto os gaúchos.

* Texto publicado em 30/10/2009

Eu só quero justiça!

29 de agosto de 2012 0

Não quero que me julgue um juiz culto ou erudito.

Prefiro que me julgue um juiz justo.

Quero que me julgue um juiz piedoso e compassivo.

Mas que deixe de lado a compaixão, se for para ser justo.

Podem os juízes que me forem julgar ser severos ou condescendentes, desde que, ao me aplicarem a pena ou me absolverem, sigam somente os ditames de suas consciências cognitivas.

Prefiro que ao me julgarem os juízes se atenham menos à lei do que à vida.

E insisto que o juiz que me julgar leve em conta, ao me sancionar com a condenação ou me absolvendo, a possibilidade de minha regeneração.

Ou seja, que nenhuma pena se abata sobre mim se vier impossibilitar a hipótese de que eu nunca mais venha a delinquir.

Que o meu castigo não impeça jamais a minha recuperação.

***

Que o juiz que me for julgar tenha em conta, se me for condenar, a masmorra em que serei jogado, que tome consciência, sim, de que a pena que me impuser não poderá me destruir como ser humano, atirando-me a um antro prisional que destroçará em definitivo todos os meus valores que ainda restam.

Mas que leve em conta o juiz que me for julgar, essencialmente, o dano que causei à minha vítima e a seus familiares assim como se eles estão bradando veementemente por meu castigo. Em outras palavras, que a pena que se abata sobre mim, se eu for culpado, contenha influência da insistência e veemência do pranto dos familiares da vítima que produzi.

E, se for justo apenar-me, que me apene, mas sempre baseado na esperança de que eu venha na prisão a emendar-me.

Na esperança ou na perspectiva.

***

Que o juiz que me venha julgar olhe nos meus olhos, me ouça infatigavelmente, nunca por nenhum detalhe cerceie a minha defesa e tenha bem presente em sua mente a natureza, a extensão e o conteúdo da acusação que pesa sobre mim.

E principalmente deduza firmemente o juiz que me for julgar se ao cometer o delito eu poderia tê-lo evitado, se havia ou não inexigibilidade de outra conduta minha.

***

O juiz que me venha julgar, quando pronunciar a minha sentença, deve ter bem exato em sua mente que jamais se arrependerá dela, que jamais transigirá dela, no futuro, a não ser para beneficiar-me, no caso de que fique provado que errou ao condenar-me.

Mas exijo do juiz que me julgue que, se eu for substancialmente culpado, me condene e me deixe bem claro que não havia outra coisa a fazer em defesa da lei, do Estado e dos que danifiquei.

***

Quero que o juiz que me venha julgar não tenha pressa nem se mostre lento ou hesitante. E, se for hesitar, que seja apenas para acautelar-se de um grave erro de sentença.

Exijo também do juiz que me venha julgar que se fixe com obsessão nas provas que eventualmente haja contra mim, que nunca se afaste delas por nenhum milímetro, assim como o fará com as razões da minha defesa.

***

Finalmente, desejo ao juiz que me for julgar que se orgulhe da sentença que pronunciou, tenha sido para absolver-me ou para condenar-me, que depois de pronunciá-la o juiz ou a juíza que me for julgar se olhe no espelho em casa e se sinta digno de sua missão jurisdicional, que depois vá jantar à mesa com seu marido, com sua mulher e com seus filhos e grite intimamente: “Eu tenho convicção de que hoje fiz justiça”.

* Texto publicado em 31/10/2009

Usei o Viagra

27 de agosto de 2012 0

Usei o Viagra. Na sexta-feira. Consegui dois comprimidos com um amigo recém-chegado dos EUA, que me obrigou à promessa de que eu só usaria o estimulante sob controle médico.

Fui ao médico, que me interrogou por 60 minutos. Fixou-se principalmente no meu status circulatório. Como não tenho e nunca tive qualquer cardiopatia, porque é meu médico, indagou-me de como anda minha glicemia. Disse-lhe dos meus últimos índices medidos de açúcar no sangue e ele decidiu, após ler a extensa e cansativa bula . “Usa o máximo de dois comprimidos e não me incomoda mais. Telefona-me somente no caso de sentires algo anormal. E passa aqui depois para eu ouvir o relato da experiência”.

E ainda brincou o meu médico: “Não consegues dois comprimidos para mim” Calculei o momento do encontro amoroso e ingeri o comprimido uma hora antes, como manda a bula. Por demora circunstancial, o encontro ocorreu 80 minutos após a ingestão do comprimido.

Nada de não-costumeiro, palpável (ou sensível), verificou-se em mim até o primeiro roçar dos corpos nus. Nem durante o sexo, a potência não é problema meu. O surpreendente, o novo, o que eu classificaria de incrível, se desenrolou após o meu orgasmo: como já não me acontecia há 20 anos, permaneceu intacta minha função erétil. Desapareceu o habitual e relativo fenecimento pós-orgasmo, estado a que eu já me habituara nas duas últimas décadas.

Estava intocável a minha capacidade para prosseguir no sexo. Como notei receptividade na parceira, depois de fumar um cigarro, fato inédito em minha vida, excetuado o período da minha juventude, voltei à carga amorosa com ímpeto e decisão.

Foi com surpresa e indisfarçável contentamento dela, que já me conhece há tanto tempo, que voltamos à prática carnal. Minha atividade era incessante, prazerosa, orgulhosa acima de tudo da euforia sensorial que estava provocando na parceira pela minha insistência e disposição inquebrantável.

E o mais fantástico: após o segundo intercurso, presumivelmente interrompido por um clímax dela, o terceiro ou quarto, ouviu-se um apelo, colocado num balbucio dela: %22Vamos descansar um pouco…%22

Saboreei naquele instante o que a literatura chama de glória. Estava totalmente rendida a outrora dama insaciável.

Agora a impressão da cobaia aqui sobre os aspectos sociológicos do Viagra, associada ao que sentiu o meu amigo que me cedeu os comprimidos e que já os experimentara, diferenciando-se sua experiência da minha em mínimos detalhes e ambas identificando-se profundamente nos ângulos principais.

O Viagra é a terceira grande transformação do final de milênio nos hábitos sexuais e na tendência demográfica sobre o planeta, junto com os anticoncepcionais farmacêuticos e a camisinha.

Este comprimido vai modificar o mundo e as gentes. Se a camisinha ora desestimulava o sexo, ora colaborava decisivamente no controle da natalidade, o Viagra impele ao sexo insopitavelmente e o que é mais significativo: soará como uma bomba arrasa-quarteirão na tentativa até agora bem-sucedida da humanidade de diminuir os nascimentos e conter a fertilidade.

Outra constatação da minha memorável experiência: o Viagra não deverá aumentar consideravelmente o número de orgasmos masculinos num só encontro. Mas multiplicará o número de orgasmos femininos geometricamente, levando o macho à realização mais completa, que é, psicanaliticamente, antes que satisfazer-se, satisfazer por inteiro a sua fêmea.

E agora, depois desta notícia espetacular para os homens e bombástica para as mulheres, a grande revolução na relação sexual e existencial que esta pílula estupenda irá provocar em todo o milênio seguinte: o homem se igualará à mulher em uma das suas grandes desvantagens, desde Adão e Eva, que era a aptidão da mulher para fingir no sexo.

Até ontem, a mulher era apenas receptáculo, isto é, podia fazer sexo sem amor. Em suma, pertencia só à mulher a faculdade do fingimento. Ao contrário, ao homem não era concedido este recurso: só podia fazer sexo se tivesse vontade, a não-ereção o denunciaria como sem libido, só a ereção era documento hábil para atestar sua sinceridade.

Pelo que senti e pude depreender, deixou de ser privativo da mulher o fingimento no sexo, abre-se ao homem com o Viagra a possibilidade de ocultar também o seu impulso volitivo, a sua voltagem de vontade. Porque, se é verdade que a libido continua indispensável à ação do Viagra, isto só se verifica antes do primeiro orgasmo. Logo em seguida a ele, a ereção permanece firme, apesar da ausência da libido. Ou seja, a função primacial do Viagra é prolongar milagrosamente a ereção.

Finalmente, a minha observação jornalística sobre estes boatos de mortes causadas pelo Viagra. São inconsistentes, em suma. Há que se olhar, como todos os medicamentos que mexem com o metabolismo, quais são as contra-indicações, isso é muito importante.

Mas, caso não haja contra-indicações, sendo aconselhável o meu procedimento de consultar um médico antes, há que se tomar o Viagra. Repito: há que se tomar o Viagra, que será colocado à venda no Brasil esta semana. Não importa o preço caro que ele custará.

O encontro com a felicidade não tem preço. E o Viagra é o elixir da juventude e da felicidade.

* Texto publicado em 31/05/1998

Por que o Grêmio venceu

26 de agosto de 2012 29

Vencemos por várias razões, mas a principal é de que, por felicidade ímpar, temos um grande, um talvez incomparável treinador.

Eu só lembro de que foi este mesmo Luxemburgo quem teve o rasgo de trocar Miralles por Elano, o autor do gol que catapultou o Grêmio para um confortabilíssimo terceiro lugar e fez o Internacional desabar na tabela. Que vitória!

Como a vitória, Luxemburgo conseguiu o milagre de tornar o Grêmio um candidato seríssimo à Libertadores-2013. E um candidato também talvez ao título deste Brasileirão.

Que depois de Luxemburgo a minha homenagem se dirija a Gilberto Silva, monumental.

E que depois eu faça um carinho no Pará, com grande atuação. E não esqueça de que o Marcelo Grohe ontem foi uma garantia debaixo dos paus.

E que não faça a injustiça de esquecer o esforço de Paulo Pelaipe para armar este time, sob o aval preocupado de Odone.

Que delícia!

Pizza em zona de guerra

26 de agosto de 2012 1

Considero que um dos direitos civis básicos é receber em casa pizza por tele-entrega. Uma das maiores invenções da civilização é, além do motoboy, o serviço de delivery, você em casa pode receber a sua pizza ou qualquer outra comida, o remédio da farmácia etc. Pois acreditem se quiserem, inúmeras pizzarias estão se recusando a fazer tele-entregas em bairros de Porto Alegre, alegando falta de segurança para seus entregadores.

Quem mora nos bairros Jardim Leopoldina e Rubem Berta, por exemplo, arrisca-se a não receber pizza em casa, em face de os dois bairros, além de outros bairros adjacentes, serem considerados pelas pizzarias como zonas de alta insegurança. A que ponto chegamos, muitas vezes as pessoas deixam de sair para jantar fora, receando a insegurança das ruas, pedem pela tele-entrega a pizza, que é recusada pelo motivo de que o autor do pretendido pedido mora em zona onde há muitos assaltos, o que poderia colocar em risco o entregador. Dizem-me que o mesmo já acontece em ruas em torno do Morro de Santa Tereza e em alguns locais do Partenon.

Recebi muitas reclamações de pessoas que moram dentro do Jardim Leopoldina e do Rubem Berta ou em zonas vizinhas. E me sensibilizo com seus protestos por entender que dessa forma é agredida sua cidadania. Essas pessoas são discriminadas em seus direitos. Na faixa da negociação, não seria o caso das pizzarias cobrarem uma taxa acessória para fazer entrega nesses locais que julgam perigosos? As pizzarias cobrariam uma “taxa de insegurança” e poderiam assim entregar os produtos. Mas, por outro lado, não seria uma forma de colocar em risco a vida dos entregadores em troca apenas da recompensa através da taxa?

Uma leitora, que não quis se identificar, alegou que defronte à sua casa nunca ocorreu qualquer assalto, como então pode a pizzaria classificar o lugar onde mora como inseguro? Eu calculo que a rua onde mora a leitora não seja insegura, porém o trajeto que o entregador tem de percorrer até chegar à sua residência mostra índices expressivos de assaltos. Fico pensando que na marcha que vai a insegurança das ruas, qualquer dia as pizzarias vão ter de usar carros-fortes para realizar suas tele-entregas.

E o cliente que for receber em casa a pizza por uma fresta do carro-forte, por onde passará também o dinheiro, deverá ter a cautela de usar colete à prova de balas.

A Rudder, por exemplo, uma das melhores empresas de segurança privada, poderia criar o segmento-pizza, que consistiria na tele-entrega do alimento em quaisquer recantos da cidade, mediante um séquito de seguranças e veículos protetores do ato de entrega das pizzas nas residências. Parece que estou vendo aquele batalhão precursor de batedores, seguido do carro-forte, invadindo a vila ao toque de sirenas. E todo o mundo perguntando na vila: “O que houve? Outro assalto?” E a resposta: “Não, a entrega de uma de atum e outra de calabresa.”

Só agora encontro explicação para um anúncio que li estes dias em ZH-Classificados: “Tratar diretamente com o proprietário. Vende-se casa nova, com dois pisos, uma garagem com três vagas, churrasqueira, em rua do bairro onde circula livremente qualquer serviço de tele-entrega”.

* Texto publicado em 28/02/2009

Todo burro é feliz

25 de agosto de 2012 0

Não há ser mais infeliz do que o lúcido. A lucidez é uma cruz.

Não há seres mais felizes que os medíocres, os inocentes, os burros.

Quando passarem por uma estrada, olhem para os bois pastando: não há seres mais tranqüilos, mais serenos, mais felizes do que eles.

Por que os bois são felizes na paisagem bucólica? Simplesmente porque desconhecem o seu futuro.

Não sabem os bois que vão morrer dali a meses a marretadas num matadouro. Isso os torna felizes e realizados.

Já os que sabem que vão morrer a marretadas, os que têm consciência de que estão disputando um campeonato de 38 jogos sem terem centroavante, os que têm consciência de que os aposentados não vão ser reajustados pela inflação em seus proventos, enquanto o salário mínimo é reajustado todos os anos em índices acima da inflação, os que têm consciência de que algumas categorias do funcionalismo público são reajustadas todos os anos em índices acima da inflação, enquanto outras não são reajustadas anos sobre anos, estes sabem que multidões vão morrer a marretadas ali adiante. Estes são os lúcidos, estes são profundamente infelizes, estes vão viver sempre atacados pelo infortúnio.

Não há pior maldição do que ser lúcido. E não há maior felicidade e maior realização do que ser burro.

***

Eu ontem me irritei e chamei um homem de burro. A sua resposta me desconcertou. Ele me disse que quer continuar sendo burro, que é muito confortável a sua condição de medíocre.

Eu sei por que a resposta do burro me desconcertou: porque ele revelou ser um burro lúcido. Quer continuar a ser burro, se ele deixar de ser burro vai deixar de ser feliz.

Primeira vez que eu topei com um burro lúcido.

Já eu, que me considero imodestamente um lúcido, gostaria de deixar de ser lúcido. Eu gostaria de me tornar burro. Afinal, no fim da vida, eu teria o direito de ser feliz.

***

Durante 37 anos, no Rio Grande do Sul, havia só uma pessoa preocupada com o caos carcerário. Sozinho, pregou no deserto a sua estranha e incompreensível tese de que quanto piores e mais precárias forem as condições físicas dos presídios, piores serão as condições de segurança pública fora dos presídios.

Ouviam esse disparatado e o consideravam um louco. Dedicaram-lhe 37 anos de indiferença.

Pois vejo agora que, ontem, 50 heróicos gaúchos foram até a Praça da Matriz e realizaram uma manifestação, lançando o Movimento Pela Consciência Prisional.

Já aderiram incrivelmente ao movimento juízes, promotores, policiais, cidadãos de todos os níveis, que querem chamar a atenção dos governantes para o fato de que enquanto os presídios permanecerem como um lúgubre amontoamento de seres animalescos, cercados de medo, violência, doenças irremovíveis e as mais desoladoras condições de higiene e dignidade pessoal, mais sérias e mais graves e aterrorizadoras serão as condições de segurança dos cidadão nas ruas, onde campeia o roubo por todas as formas de assalto e os assassinatos se empilham durante todas as semanas.

Havia um só gaúcho que pregava esta verdade acaciana, mas irritantemente incompreensível durante 37 anos.

Agora, há centenas de gaúchos que compreenderam esta verdade. E se lançaram ontem no Movimento Pela Consciência Prisional para dar um basta às pocilgas. Eles vão se atirar à tarefa sublime de convencer os três poderes a tornar dignos presídios e acabar com a idéia estúpida, burra, suicida, de que a sociedade tem de fazer sofrer os presos quanto mais o possa a fim de vingar-se deles.

* Texto publ



O barbeiro

24 de agosto de 2012 0

Gostei muito desta anedota: um homem sem dois braços foi ao barbeiro.

O barbeiro envolveu o cliente no penteador. Não me perguntem por que aquele imenso pano branco que os barbeiros lançam sobre os corpos dos clientes e amarram na altura de seus pescoços se chama penteador.

Não tem sentido, mas se chama penteador, sim, senhores.

Pois bem, o homem sem os dois braços estava sendo atendido pelo barbeiro.

Quando o barbeiro começou a cometer uma série de barbeiragens com o cliente sem os dois braços, cortando-lhe levemente o lábio superior ao aparar o bigode, logo em seguida cortando a orelha do cliente, o que ocasionou perda de sangue que foi estancada por uma pedra mágica usada pelos barbeiros, minutos depois dando um verdadeiro talho na bochecha do cliente na altura do osso zigomático, isto é, perto do ouvido, quem vem da direção do nariz, ali nas adjacências do rosto, quando também verteu sangue, igual e prontamente estancado pela pedra mágica.

***

Até que o barbeiro terminou de fazer a barba do cliente. Não me perguntem como um homem sem os dois braços, obviamente sem as duas mãos, consegue puxar dinheiro do bolso para pagar o barbeiro, o certo é que o cliente em causa não era inadimplente nem caloteiro e pagou o preço do serviço da barba ao barbeiro.

Foi quando o barbeiro, despedindo-se, cometeu a última tentativa de ser cordial, também para amenizar os pequenos estragos que fizera no rosto do paciente (nesta altura não era mais cliente, era paciente de três ameaças de incisões cirúrgicas).

***

O que perguntou na despedida o barbeiro para o cliente minutos antes sangrante: “Diga-me, eu já não tinha atendido o senhor numa outra vez?”.

E o cliente de pronto respondendo ao barbeiro: “Não. Nunca me atendeu antes. Eu perdi estes dois braços numa explosão na Guerra do Vietnã”.

Sensacional.

* Texto publicado em 31/07/2009

A mesma sensação

22 de agosto de 2012 0

Onde passo nas ruas, as pessoas me falam da coluna que escrevi pela morte da minha cadelinha Pink.

As mesmas emoções, mesmíssimas, são sentidas por todos que são donos de cães. Eles se referem à afeição que se instala entre pessoa e cachorro, de tal sorte que o cão passa a ser uma pessoa na relação do lar, passa a compor de forma importante a família.

E todas as pessoas que me escrevem a respeito levantam exatamente as mesmas sensações decorridas no relacionamento com seus cães, a mesma festa que eles fazem pela presença do dono, a angústia do animal quando o dono se afasta.

Resta pelos cães que morreram a mesma infinita saudade, as recordações do cotidiano repleto de ternura entre o dono e o animal, cenas que jamais vão sair de nossa lembrança.

***

Foi assim que revivi todos os momentos que usufruí com a Pink quando li a mensagem abaixo transcrita. Em tudo o poema que a dona de um cãozinho que morreu se parece com a coluna que fiz à ocasião:

“Sant’Ana, sei o que estás sentindo, só quem tem o amor de um cão pode entender.

Também perdi meu Dinho, tinha 12 anos, era um poodle branquinho e pesava menos de três quilos.

Era o bebê da casa, e ainda sinto a presença dele comigo, mesmo tendo se passado nove meses.

De repente a Pink e o Dinho se encontraram lá no Céu. Porque, se existe o Céu, os cães com certeza são os maiores merecedores dele.

Veja o que escrevi no dia em que ele se foi:

Ao cão Dinho
(14/04/1997-14/03/2009)
Era você a primeira figura que eu
Enxergava ao acordar de manhã.
E que figura!
Era você que me amava
Incondicionalmente, sem se
Importar com meus gestos,
Atitudes ou caráter.
Era você que abanava o rabinho
Quando eu abria a porta e vinha
Me encontrar tão feliz que não
Conseguia conter o resto do
Corpo já debilitado pela doença
E cansado pelo tempo…
Era você que me proporcionava
Tanta alegria que muitas vezes
Eu chegava a renunciar
Passeios, viagens, etc… Só para
Cuidar de você.
Era você um exemplo de amigo
Que só quem tem um cão pode
Entender.
Descanse em paz meu
Amiguinho!
Deus foi generoso porque deu
A você uma família que o
Amou e o cuidou como se você
Fosse um membro dela.
Deu-lhe uma vida longa e feliz e
Uma morte tranquila e assistida.
Nunca vou esquecer você meu
Cachorrinho!

*Texto publicado em 26 de dezembro de 2009

O perfume do sândalo

20 de agosto de 2012 0

Escrevo antes do jogo de ontem no Olímpico, os leitores vão em seguida saber por quê.
Vou só me referir à minha coluna da última quinta- feira.
Estive meditando sobre a enxurrada de e- mails que recebi a respeito.
Muitos apoiando a crítica acerba que fiz ao goleiro Marcelo Grohe, outros muitos afirmando que minha coluna foi desumana com o goleiro.
Acho que vou me fixar na “ desumanidade”.

Escrevi a coluna sob violenta emoção, vindo do Olímpico e apressado para baixar o meu espaço no jornal.
Era tarde da noite.
E, sob violenta emoção, posso ter- me excedido e por alguma forma danificado a personalidade do criticado.
E um bom jornalista tem de ter o cuidado de não danificar jamais a dignidade de uma pessoa que ele critica.
Sei que Marcelo Grohe é uma pessoa articulada e tem consciência de que se tornou um homem público mais visado ainda quando se tornou titular absoluto do Grêmio.
Enquanto foi reserva durante anos, não corria esse risco de ser veementemente criticado, embora eu não o tenha por nenhuma forma ofendido com palavras sem remendo.

Eu tenho de ter humildade para analisar o choque que houve na opinião pública com aquela minha coluna.
E, na imperiosa humildade, sou obrigado a admitir que eu possa ter me excedido.
Não é sobre a opinião que tenho e não vou deixar de ter, a menos que Marcelo Grohe se torne ainda um grande goleiro.
Mas é sobre o tal dano que eu possa ter causado à pessoalidade do goleiro.
Se o causei, peço desculpas a Grohe, ele sabe que sou gremista ferrenho e os ferrenhos podem muitas vezes se exceder.

Pedidas as desculpas, quero afirmar, por já ter lido muitas obras a respeito, que é muito grande a responsabilidade de jornalistas que são muito lidos e penetram no âmago da consciência popular.
Talvez seja essa a minha omissão: eu desconheci, às pressas, a penetração da minha coluna nas massas, daí a repercussão daquele meu espaço.
Não é a primeira vez que me acontece isso nesses meus 41 anos de Zero Hora.

Pois se feri, sem intenção, com aço frio a dignidade profissional de Marcelo Grohe, quero fazer com esta coluna, talvez pretensiosamente, o que a árvore sândalo fez com o machado que a derrubou, perfumando- o.
Permanece, no entanto, inalterável a minha liberdade crítica, construída com mais de quatro décadas de credibilidade, modéstia à parte.
E vamos para outra.
Eu, com mais uma lição aprendida.
O futebol é um campo fértil para as paixões, eu apenas tenciono por vezes mesclar a emotividade com colocações racionais.
Não abro mão disso, é enfim o meu cabedal.
Os meus leitores, há tanto tempo fiéis a mim, me conhecem.
A gente pode se exceder em algum dia, mas a humildade, esta nunca há de ser desnecessária e excessiva.


Azul e vermelho

19 de agosto de 2012 0

Há dois tipos de homens que agradam profundamente às mulheres: os recatados e os inofensivos.

Há dois tipos de mulheres que agradam profundamente aos homens: as que afetam que traem mas não traem e as que detestam shopping center.

O bom mesmo da nossa relação é quando ela desembesta.

O momento mais negativo e ao mesmo tempo culminante da festa foi quando o homenageado, no meio do discurso de improviso, esqueceu do texto que decorara.

E arrematou: “Sabem de uma coisa, estou tão emocionado que vou ficar por aqui. Muito obrigado”.

Os convidados ficaram indecisos entre bater palmas ou vaiar.

Atenção, publicitários, jornalistas e empresários: no jantar espetacular que 30 amigos ofereceram a este colunista esta semana, pela passagem dos 70 anos, na Agência Competence, de João Satt, ficou praticamente acertado que será desfechada logo em seguida campanha publicitária, em multimídia, que terá como ator Pablo.

Esses dias publiquei aqui uma nota em que citei o nome de Sérgio Jockymann, recordando-o como o grande nome da crônica em jornal e na televisão.

Jockymann, por muitos anos, fez tabela comigo no Jornal do Almoço. Ele foi contratado pelo programa para fazer frente, como colorado, a mim, que surgira como um bólido defendendo o Grêmio na imprensa.

Na Folha da Tarde, meses depois, ainda nos anos 70, Jockymann escreveu assim sobre meu surgimento na imprensa: “O Sant’Ana é gremista por desaforo. Em realidade, ele é o maior colorado da Coreia. O Sant’Ana fala em azul e a gente ouve em vermelho”.

Naquele tempo, eu não era o cronista moderado que sou hoje em matéria de rivalidade Gre-Nal, tenho sido sempre obsequioso e respeitoso com o Internacional. Eu batia duro.

Então respondi ao Jockymann assim, em Zero Hora: “Os colorados dizem que eu tenho tudo para ser colorado porque tenho cara de bagaceiro”.

E todos os dias eu me defrontava, nos anos que foram passando, com os colorados que se apresentavam de plantão: Ibsen Pinheiro, Cid Pinheiro Cabral, Hugo Amorim, Pilla Vares, Kenny Braga e Guerrinha. Ajudei sempre a criar estes empregos todos na RBS, claro que levando em conta o talento dos meus oponentes no microfone.

“Ah, que saudades que eu tenho/ da aurora da minha vida/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais”.

Escrevo antes do jogo Cruzeiro x Grêmio. Mas qualquer que tenha sido o resultado, ele se adapta à frase que pronunciei ontem no Jornal do Almoço, de Canoas: “Sobre este Gre-Cruz e as chances do Grêmio na Libertadores, lanço meu palpite à interpretação dos teólogos: tenho muita esperança e nenhuma fé”.

 * Texto publicado em 25/06/2009

As saudades de Pablo

18 de agosto de 2012 0

05 de junho de 2010
 
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Há dias em que Pablo quase morre de saudade dos tempos em que soltava ou via soltar pandorgas na Rua dos Coqueiros, hoje 17 de Junho, junto do Arroio Dilúvio.

Era um folguedo só, o cordão da pandorga em uma mão, na outra cachos e cachos de amoras, do tempo em que se colhiam amoras nas cercas das casas no Menino Deus.

Há dias em que Pablo quase morre de saudade dos tempos em que, na Chácara das Bananeiras, se reunia com os outros garotos para jogar bola de meia, que não havia dinheiro para comprar bola de couro, sequer de borracha, mas como era feliz o tempo de pobreza de Pablo jogando peladas horas e horas com seus amigos.

Qualquer bola que passavam para Pablo ia parar dentro do gol. Uma unha encravada interrompeu a carreira de Pablo, que tinha tudo para ser o maior centroavante da história do futebol, acima de Di Stéfano.

*

Há dias em que Pablo quase morre de saudade quando lembra que ficava todos os dias ouvindo o regional do Sargento Pinto, na Rua Veiga, ou o regional do Homero, na Avenida Outeiro.

Pablo tinha apenas 14 anos e se deliciava com o que tocavam e cantavam os músicos, gostava tanto, que os músicos sempre permitiam que Pablo os ouvisse.

Era o tempo em que Pablo se guiava pelos acordes dos banjos, dos bandolins, dos cavaquinhos e dos violões e pela batida do surdo. Se havia acordes na rua, Pablo corria para lá.

Foi naquele tempo que Pablo decorou a letra de mais de mil músicas, que ainda hoje tem na memória, juntadas a outras 1,5 mil músicas que Pablo aprenderia mais tarde e que fazem a perplexidade dos circunstantes quando Pablo por vezes as canta: “Como é que tu sabes tantas músicas?”, perguntam a Pablo. E Pablo silencia. Sabendo que foi uma década inteira que ele gastou ouvindo os regionais do Partenon.

*

E, um dia, Pablo com 14 anos, o regional do Homero estava pronto para sair e tocar num baile da Rua Mansão, na Azenha, aqui perto dos cemitérios, quando ouviu dos músicos que adoecera o cantor e teriam que animar o baile sem ter quem cantasse.

Homero disse a Pablo: “Tu não te atreves a cantar conosco, guri?”.

E, à noite, no salão de bailes da Rua Mansão, lá estava Pablo à frente do regional do Homero, de calça e camisa modestas, nervoso, quase tremente, mas cantando um samba de sucesso daquela época, lembro-me como se fosse hoje:

Vagabundo que na minha cara der

Tem de fazer testamento, se despedir da mulher.

Se tiver filho, deixe uma recordação,

Cara que mamãe beijou, vagabundo nenhum põe a mão.

Tenho carteira de identidade

Posso provar minha idade

Não sou criança, isto não

Por isso aviso: folga e sopa eu não dou

Cara que mamãe beijou, vagabundo nenhum põe a mão.

*

Pablo quase morre de saudade ao recordar a noite em que, substituindo cantor adulto, cantou menino e tremente, à frente do regional do Homero.

Foi o primeiro e minúsculo cachê que Pablo ganhou por ser chegado à arte e às palavras.

Que noite de glória! Pablo a considera maior que aquela noite em que cantou, no Beira-Rio quase lotado, com Julio Iglesias.

 * Texto publicado em 05/06/2010

Só interessa o início

17 de agosto de 2012 2

A mais importante revolução da passagem de século é a do sexo.

As pessoas da minha idade guardam como um remorso irreparável terem vivido a juventude sem fazer sexo.

Hoje, os pais não se sentem com autoridade moral para perguntar a suas filhas jovens se elas fazem sexo. Se se aventurarem a perguntar, serão atingidos pelo mofo e zombaria das filhas.

O normal é os namorados fazerem sexo nas casas dos pais. O normal é os namorados viajarem em grupos, por vários dias, praticando sexo à tripa forra.

Essa revolução para melhor, que mandou para as calendas o sexo reprimido e assustado, é estonteante: fazer sexo entre os jovens hoje é uma regra, há 40 anos era uma exceção.

*

Há 40 anos e antes disso, havia um terror a povoar as mentes de rapazes e moças: o risco da gravidez.

Com a vinda da pílula, os jovens fazem sexo impunemente, trocam de parceiros, experimentam-se, ficou quase impossível acontecer o que acontecia no passado: por não terem feito sexo antes do casamento, depois do casamento só é que notavam serem incompatíveis.

Hoje não, se sair um casamento, pode-se apostar que os dois nubentes se dão bem na cama, tiveram tempo e liberdade suficientes para se testarem antes de subir ao altar.

*

Isso inibe ostensivamente os pais de tentarem ministrar educação sexual a seus filhos.

Antigamente, uma mãe ainda se atrevia a ensinar a prática do sexo à sua filha noiva. Hoje é literalmente desnecessário.

A filha é que deveria ensinar a mãe, sabe muito mais do que ela.

Logo, em relação às gerações anteriores, a atual geração é muito mais feliz e aproveita a vida com todos os seus encantos e delícias.

Nós, das gerações passadas, fomos uns infelizes, reprimidos, vigiados, massacrados pela imposição de que sexo só podia ser feito depois do casamento.

Hoje, enfim, sexo não tem nada a ver com casamento.

*

Em plena Copa do Mundo, sábado passado, estourou uma notícia que batia de goleada todas as notícias que vêm da Copa do Mundo: o Internacional contratou Celso Roth para seu treinador.

Treinador competente o Celso Roth: já treina um dos quatro semifinalistas da Libertadores da América.

Todos os jornalistas davam palpite sobre quem seria o novo treinador do Internacional, nenhum deles, no entanto, nenhum de nós, em meio à enxurrada de palpites, previu que o nome era Celso Roth.

De início, antes que o Celso Roth seja campeão da América ou acabe derrotado na Libertadores, deve-se dizer que a direção colorada mostrou uma coragem ímpar: Celso Roth saiu do Grêmio sob grave desconfiança da torcida tricolor.

E como se falava que o novo treinador podia ser Luiz Felipe, Adilson Baptista ou Paulo Roberto Falcão, foi preciso ter coragem para escolher um nome de muito menor impacto do que os cogitados.

E sabe-se agora qual foi o critério que norteou a escolha: os dirigentes do Internacional foram vasculhar o currículo de Celso Roth e viram que ele sempre tinha sucesso no início de suas caminhadas nos clubes. Sempre começou ganhando, depois é que decaía.

Como o que interessa para o Internacional é só o início, a disputa na semifinal da Libertadores com o São Paulo, se o Celso Roth mantiver a tradição, a escolha terá sido definitivamente acertada.

Inteligente.

 * Texto publicado em 14/06/2010

Sala de Redação

16 de agosto de 2012 1

O fim do amor

16 de agosto de 2012 1

Será possível esquecer um grande amor, mesmo que não sobreviva mais o amor?

Mais fortes que o desejo de esquecer são as transformações físicas que se abatem sobre quem terminou um grande amor, coração batendo a mil, adrenalina, borboletas no estômago.

Os médicos dizem que quem terminou um grande amor tem de reforçar as emoções negativas ligadas à pessoa e mudar o foco.

Em suma, dá para traduzir, para se esquecer um grande amor e expulsá-lo das nossas entranhas só existe uma receita: arranjar um outro grande amor.

Caso contrário, vai se repetir o ramerrão.

*

E diz mais um famoso neurologista: ficar só, não amar mais, não ajuda a superar o caso.

Vejam que mão de obra: seu amor pode ter azedado, mas as lembranças negativas permanecem e fazem disparar as reações físicas adversas. Ou seja, o amor perdido permanece no ser da gente, ainda que as lembranças últimas que se tenha dele sejam negativas.

Porque as impressões do namoro permanecem inalteradas.

*

Quando se acaba um grande amor, as impressões residuais, inclusive as manifestações físicas delas decorrentes, sequestram os pensamentos, não precisa que a gente se recorde do ex, o córtex pré-frontal traz à tona as lembranças da relação perdida, mesmo que a pessoa não faça mais parte da sua vida.

É tão grande o dano causado a uma pessoa que terminou uma relação de amor, que dificilmente ele se apagará.

O que remete ao risco que todo grande amor encerra: o do fim. Encerrar um caso de amor, portanto, não é dar fim à dor. É dar trânsito a ela com o distanciamento.

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O tempo, pois, não apaga a lembrança de um grande amor. Essa recordação incômoda ou cruciante é como os vícios, não se pode livrar-se deles.

Por isso é que às vezes constatamos pessoas que praticamente tiveram suas vidas tortas ao findarem um relacionamento: por mais que dissimulem, não é difícil notar que a vida para elas se acabou.

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Por onde for alguém que teve um grande amor interrompido, a lembrança dolorida do caso irá também trilhando as mesmas ruas.

Um grande amor perdido se cola ao corpo, senão como tatuagem, então como cicatriz.

É impossível apagar a sua marca. Porque ele deixou vestígios irremovíveis.

Se não arranjar um outro grande amor, você será para sempre um ser arrastado e inútil.

*

Pressentindo isso é que muitas pessoas revelam um temor, que chega quase à ojeriza, em se apaixonarem: sabiamente intuem que o amor pode terminar um dia e será impossível sustentar a dor da lembrança dele, repito, mesmo que já não se ame mais a outra pessoa.

É o tal de medo do amor, medo do envolvimento.

Não amar, por incrível que pareça, é melhor do que ter o coração dilacerado pela separação amorosa.

 * Texto publicado em 12/06/2010