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Posts de setembro 2012

Regras da separação

30 de setembro de 2012 0

Há homens que se separam das mulheres e rompem a relação conjugal com uma atitude de extrema coragem: dão todos os seus bens materiais, imóveis, automóveis, telefones etc. para suas ex-esposas. Ficam de mãos abanando. Não vamos longe, temos notícias de muitos; um deles foi o jogador Valdo, que era do Grêmio. Deu tudo que tinha para sua ex-esposa, confiava no seu taco, acabou se tornando no maior jogador de futebol da França e deve ter reconstruído seu patrimônio com uma segunda fortuna. A primeira ele depôs varonilmente diante da mulher, na audiência da separação.

Conheço inúmeros homens que deixaram todo o seu patrimônio, inteirinho, para suas ex-mulheres, quando se separaram. Assim como conheço outros que não deram nenhum centavo ou qualquer bem para as mulheres na separação. É verdade que tiveram nisso o auxílio das ex-mulheres, que, por uma questão de orgulho ou por confiarem em si mesmas a respeito de seu futuro, recusaram-se a partilhar o patrimônio conjugal.

Goethe dizia que a verdade se encontra sempre no “dourado caminho do meio”. A maioria dos casais que se separam adota a máxima goethiana, preferindo o caminho jurídico da meação para solucionar patrimonialmente a sua ruptura. Metade para ele, metade para ela. Taco a taco, e cada um vai tentar viver a sua vida sem nunca mais se incomodar entre si. Só tentam.

Mas me interessa mais o tipo de homem radical, que dá tudo para a mulher, ficando com as mãos e os cofres vazios quando se separa. O que move essa espécie de exmarido a tal tipo de heróica renúncia? Eu poderia dizer que só um homem que odeia muito sua mulher, que quer se ver livre dela para sempre, que nunca mais quer vê-la ou se incomodar com futuros pleitos é capaz de deixar tudo que tem para ela, quando se separa. Mas não seria absurdo se eu afirmasse exatamente o contrário: só um homem que ama apaixonadamente sua mulher é capaz de deixar para ela todo o seu patrimônio quando da extinção da relação conjugal. Ela era, é e continuará sendo a sua deusa, sua musa, sua cara e eterna carametade, portanto pertence a ela também a metade dele, que junto com a metade material dela formam um inteiro, que é deixado todo para ela usufruir.

Tenho um amigo que só não se separa da sua mulher porque será obrigado a dar metade do patrimônio para ela. Em compensação, tenho outro que não se separa porque afirma que, se o fizer, terá que dar todo o patrimônio para ela; é de seu temperamento ser altivo, mas ele ficará pobre, e isso não é uma solução, e será criado um problema maior do que continuar casado. A maior parte dos cônjuges pertence à categoria dos que se casam amando-se loucamente ou amando o patrimônio do outro e por isso assinam o contrato conjugal com comunhão de bens. Em poucos anos, estão se odiando e tornam-se escravos daquele consórcio material, que amaldiçoam durante todas as suas vidas. Finalmente há os que, prevendo tudo isso, casamse com cláusulas sólidas e pétreas de separação de bens no contrato matrimonial. Idiotas: não sabem que, como em quase todo o casamento, a separação de bens vem sempre acompanhada da comunhão de males.

(Crônica publicada em 06/06/1995)

O retrato de Jesus

29 de setembro de 2012 0

Eu me emocionei quando li, por gentileza de um leitor, repercutindo aquela coluna que fiz sobre a frase desesperada de Jesus antes de morrer. É o mais abrangente escrito que já me passou pelos olhos sobre a figura de Jesus e explica muito, profunda e comovedoramente, o significado e a importância para a humanidade da passagem do mais ilustre homem sobre a Terra.

Não vou furtar meus leitores deste documento de impacto, que está arquivado e exposto em Jerusalém, cuja cópia me veio ontem às mãos. Faço-o até para deixá-lo registrado nos arquivos de Zero Hora como o mais fiel perfil de Jesus, superior até à imagem que se retira dos textos bíblicos.

É o mais impressionante depoimento que li sobre Jesus Cristo, eis que o retrata física e espiritualmente e foi prestado por um romano que servia o imperador na Judéia, portanto uma testemunha ocular da presença de Jesus naquelas paragens, homem que assistiu a muitos comícios do Nazareno e que mandou a seguinte carta ao imperador Tibério César, antes, é claro, da morte de Jesus:

“Sabendo que desejais conhecer quanto vou narrar-vos, escrevo-vos esta carta. Nestes tempos apareceu na Judéia um homem de virtudes singulares, que se chama Jesus e que pelo povo é chamado de ‘O Grande Profeta’. Seus discípulos dizem ser ele o ‘Filho de Deus’. Em verdade, ó César, cada dia dele se contam raros prodígios: ressuscita os mortos, cura todas as enfermidades e tem assombrado Jerusalém com sua extraordinária doutrina. É de estatura elevada e nobre, e há tanta majestade em seu rosto que aqueles que o vêem são levados a amá-lo ou a temê-lo. Tem os cabelos cor de amêndoa madura, separados ao meio, os quais descem ondulados sobre os ombros, ao estilo dos nazarenos. Tem fronte larga e aspecto sereno. Sua pele é límpida e corada: o nariz e a boca são de admirável simetria. A barba é espessa e tem a mesma cor dos cabelos. Suas mãos são finas e longas e seus braços de uma graça harmoniosa. Seus olhos são plácidos e brilhantes, e o que surpreende é que resplandem no seu rosto como raios do sol, de modo que ninguém pode olhar fixo o seu semblante, pois quando refulge, faz temer, e quando ameniza, faz chorar”.

Prossegue o relato estupendo: “É alegre e grave ao mesmo tempo. É sóbrio e comedido em seus discursos. Condenando e repreendendo, é terrível; instruindo e exortando, sua palavra é doce e acariciadora. Ninguém o tem visto rir. Muitos, porém, o têm visto chorar. Anda com os pés descalços e com a cabeça descoberta. Há quem o despreze vendo-o à distância, mas estando em sua presença não há quem não estremeça com profundo respeito. Dizem que este Jesus nunca fez mal a ninguém, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm andado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde. Afirma-se que um homem como esse nunca foi visto por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, nunca se viram tão sábios conselhos e tão belas doutrinas. Há todavia os que o acusam de ser contra a lei de Vossa Majestade, porquanto afirma que reis e escravos são iguais perante Deus. Vale, da Majestade Vossa, fidelíssimo e obrigadíssimo. (ass.) Públio Lêntulo, Presidente da Judéia”.

(Crônica publicada em 26/02/97)

Meu sonho. Ou esperança

28 de setembro de 2012 0

Passo ocasionalmente por um cinema e me chama a atenção o nome de um filme: Coisas que Você Pode Dizer só de Olhar para Ela.

Fico encantado com o título do filme.

Quem nunca se queda assim extasiado toda vez que se depara ante um homem ou uma mulher especiais? Eu, por exemplo, sinto-me investido de uma sensação térmica de 60ºC quando estou falando com ela no bar.

É um calorão por todo o meu corpo, quase me ponho dormente, domina-me uma lassidão febril, ao mesmo tempo que se excita a minha imaginação a ponto de crêla meu Éden, a minha única salvação, a última e definitiva enseada em que se amainará a tempestade.

Olha ela ali se aproximando! Não me viu? Ou finge, para se valorizar?

Aquela outra vez, realmente não me percebe, mas meus olhos de predador a perseguem devotadamente.

Vendo-a por apenas um instante, já me enche o dia.

Esquecendo-a por apenas um momento, sinto que desperdiço toda a vida.

Sua voz me soa a cântico de pássaro em bando folgazão.

Seu sorriso se abre para mim como uma corola de açucena.

Com quem ela se encontra quando não a tenho próxima?

Será que é tão terna também com os outros?

Aquela frase que me insinuou é uma sua constante em todos os seus circunlóquios?

Quando sem propósito me toca, ali onde me toca, minha pele fica coberta de um pólen de excitação e de ternura que se gruda à epiderme por vários dias.

Dissimuladamente, cruzo por onde ela passa, torcendo por um seu olhar, por uma palavra, ah, se ela demonstrasse contentamento em me ver!

Quando se ausenta por alguns dias, estou me asfixiando.

Quando volta, sinto falta de ar.

Quando me ignora, o dia todo é depressivo.

Quando me nota, sinto-me eterno.

Quando me zomba, decaio.

Quando me acaricia, estremeço.

Quando sei que vou vê-la, entonteço nos deveres.

Quando não a vejo, sinto que não me diferencio de um crustáceo.

Ela é o meu sol, a minha essência, meu horizonte, meu sopro de brisa, minha pétala, minha água de coco, meu samba de raiz, minha filha e minha mãe, meu ideal e minha utopia.

Meu sonho!

Ou minha esperança.

E pior – ou melhor – é que ela não sabe nada disso tudo.

(Crônica publicada em 29/07/2001)

Um vídeo sobre Grohe

27 de setembro de 2012 0

Reajo a toda mudança

26 de setembro de 2012 0

Tenho muita dificuldade em me adaptar a esses revolucionários avanços da tecnologia, principalmente os da comunicação.

Entre todos eles, o que mais me perturba e agita, embora também empolgue muitas vezes, é a interatividade na comunicação. Por ela, nós, comunicadores, principalmente de rádio e de jornal, compartilhamos nossos espaços com os leitores e os ouvintes.

Pela interatividade, nós, os comunicadores, renunciamos à unilateralidade de nossos papéis e os dividimos com o nosso público consumidor.

Em outras palavras, damos lugar no palco que era só nosso, na ribalta iluminada que era privativa nossa, aos novos atores que constituem as pessoas que antes eram meros alvos de nossa comunicação.

Põe mudança nisso. E ao que parece uma sublime mudança, pela qual os ouvintes e os leitores deixam de ser apenas interlocutores inativos para se tornarem personagens de atuação tão efetiva quanto eficaz. Por esse modo é que muitas vezes escrevo minha coluna influenciado pela opinião de um leitor que me passou um e-mail ou me telefonou – ou me mandou um torpedo – e todo o texto é inspirado na opinião ou impressão do leitor.

Por essa forma é que às vezes acontece o que ocorreu sábado passado: minha coluna inteira foi ocupada por um e-mail que me mandara uma leitora de 60 anos, narrando o suplício que tem sido para ela entrar pela porta da frente do ônibus e ter de atravessar uma multidão que se acotovela no corredor até chegar, nem tão sã e salva assim, depois de quase infindáveis trancos e barrancos do percurso espinhoso, até a porta de trás e de saída do coletivo.

A aflição dessa senhora pela modificação feita pelas autoridades é a aflição de milhares de idosos porto-alegrenses.

Pelo milagre da interatividade do jornalista com o leitor, todo o Rio Grande ficou sabendo dela sábado em minha coluna.

Mas eu falava da minha dificuldade em assimilar as mudanças através dos tempos. Sou tão reacionário às mudanças, que até hoje, depois de 50 anos de implantação, não me conformo com a troca na cozinha brasileira da banha pelo azeite.

Nunca mais comi comida tão deliciosa como a que minha madrasta fazia com banha. Há 50 anos que me dão comida feita com azeite. Desculpem os modernos e os progressistas, mas com banha era maravilhosamente melhor a comida, o pastel, o arroz, a panqueca, tudo com banha era maná dos céus. E hoje com azeite tudo tem um gosto tão estranho, meio insosso, sem aquela delícia que a banha imprimia aos alimentos.

E como me dá saudade daquele meu tempo de guri em que minha madrasta me dava dinheiro para comprar um pacote paralelepipedal de banha no armazém da esquina!

Porque para eu-menino aquela banha significava a certeza de que ao meio-dia haveria comida boa.

Outra mudança que também me atarantou foi quando trocaram o bonde pelo ônibus. Trocaram a poesia do bonde gaiola Duque ou Gasômetro pelo massacre coletivo que é o ônibus Gravataí-Porto Alegre ou o rali terrível do ônibus Porto Alegre-Viamão.

Violentaram-me muito quando trocaram a máquina de escrever com que trabalhava para fazer minha coluna ao tempo que ingressei em ZH, em 1971, por este computador em que até hoje faço minha coluna. Havia um sincopado harmônico e delicioso aos ouvidos na batida da máquina de escrever que este computador em que escrevo hoje não tem e nunca terá.

Havia uma poesia ambulatória por toda a Redação com a máquina de escrever que não há mais hoje com o computador, a Redação hoje é tão fria, que mais parece uma agência do antigo SNI, todos ligados nos tubos dos computadores, sem conversar, sem trocar idéias, sem cantar, sem agitar, sem baderna.

E a máquina de escrever era propiciatória da baderna na Redação.

A azáfama e a baderna são componentes essenciais de uma Redação.

Redação não é mosteiro, jornalista não é anacoreta.

Viva a baderna na Redação, viva até a baderna na vida.

Porque eu acredito na rapaziada, que vai em frente e segura o rojão!

A maldade humana

25 de setembro de 2012 0

A maldade humana Uma das características humanas que mais me intrigam é a delícia em se comprazer da morte dos outros homens ou dos animais.

Um exemplo entre mil: as touradas.

Todas as pessoas que se dirigem a uma praça de touros vão movidas pelo prazer de ver sangue, de assistir a um sacrifício.

A maioria dos aficionados, certamente, vai ver o sacrifício do touro. Mas há uns, entre eles inúmeros turistas, que se apiedam do touro e, conseqüentemente, torcem pelo sacrifício do toureiro, não há outra saída.

O indubitável é que todos que vão lá são inspirados para celebrar o espetáculo de uma desgraça alheia.

É esse impulso ancestral do homem que me deixa atônito. Ele é muito eloqüente nas grandes lutas que se travavam na antigüidade, exemplo as liças do Coliseu, onde em uma só tarde morriam às centenas os humanos e os animais.

E quantos mais morressem, mais se satisfazia a turba. E quantos mais morressem, mais se tornavam populares os governantes da época, os imperadores, por terem proporcionado aos seus súditos aqueles jogos de indizível prazer ótico.

É de tal sorte esse sadismo humano, que se inventam lutas entre galos, entre canários, entre cães e entre outros animais como diversão em que são feitas gordas apostas ou se cobra ingresso pelos espetáculos.

E têm sucesso extraordinário em todo o mundo as lutas de todos os tipos que são travadas entre os próprios homens, entre elas o boxe, a luta-livre, o judô, o sumô, ao fim de tais embates muitas vezes saem feridos os litigantes, quando não acontecem as mortes.

Algumas dessas lutas alcançam tal sucesso em todo o mundo que quantias imensas são comercializadas pela televisão para transmiti-las para diversos continentes. Outras apaixonam seus torcedores em vários países, que lotam os estádios semanalmente, sendo também transmitidas preciosamente pela televisão.

Tudo isso com o assistente das platéias ou os telespectadores babando de gozo com o sofrimento dos lutadores. Quanto maior o sucesso de uma agressão, maior o prazer, que vai até a euforia, do espectador.

Isto desde que o mundo foi criado.

Até os dias de hoje, quando nos gabamos de ter ingressado num milênio civilizado.

Qual o impulso que nos leva a ver a luta pela sobrevivência no mundo animal, principalmente nas savanas e selvas africanas, que nos mostra diariamente o canal Discovery, da TV a cabo?

Sem dúvida alguma, o momento mais importante para o espectador, o que mais o atrai a permanecer com o televisor ligado, é o do embate entre o animal presa e o animal predador.

Se há um bando de impalas, veados, gazelas, búfalos, sob a mira de leões, tigres, leopardos, hienas, aproxima-se para o telespectador o instante máximo da transmissão: aquele em que as feras atacarão suas vítimas alimentares.

Quando um leopardo sai correndo atrás de uma gazela, o telespectador nutre até uma compaixão pela presa.

Pode até torcer que ela escape, mas só estará satisfeito como assistente daquela corrida em busca da sobrevivência, embora isso possa se dar no plano do inconsciente, se ela tiver um desfecho que é quase sempre invariável: a vitória da fera sobre o seu petisco.

Essa inclinação do homem em ter prazer com a dor alheia me atormenta.

Porque fico pensando que é traço essencial da nossa natureza humana a maldade, verificada até mesmo em pessoas consideradas boas e decentes.

Se se for verificar a história humana através dos tempos, vai se notar que ela se dá em cima de guerras, destruições e dominações de uns homens sobre os outros.

Mas será que isso nos autoriza a pensar que o homem intrinsecamente é mau? Eu sempre pensei que sim. Mas há teorias que me desautorizam essa conclusão.

Só que essas teorias trombam espetacularmente com os fatos.

Meus secretos amigos

24 de setembro de 2012 1

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos! Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles… Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.

Essa mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles!

Eles não iriam acreditar! Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação dos meus amigos, mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não o declare e não os procure.

Às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles e me envergonho porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bemestar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamento sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos e, principalmente, os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus verdadeiros amigos!!!

A gente não faz amigos, reconhece-os!

A magia dos pés

23 de setembro de 2012 0

É imprescindível esmalte nas unhas do pé, das mãos nem tanto. São indispensáveis dedos simétricos, tanto nos pés quanto nas mãos.

O dedão do pé não pode ser exatamente um dedão redondo e largo, tem de guardar uma justa proporção geométrica com os outros quatro dedos, sem agredi-los pelo vulto.

É preferencial que o pé seja pequeno ou médio, embora se encontre sem muito grande freqüência pés grandes de harmonia estética e apelo afrodisíaco consideráveis.

O dedo limítrofe do dedão, sob pena de sacrilégio e veto inapelável, não poderá jamais exceder em comprimento ao dedão.

E os três dedos seguintes irão gradativa e discretamente diminuindo de comprimento na relação de um com o outro, até o quinto dedo, que terá de ter a graça desafiadora de uma cereja.

O corte das unhas dos pés tem de ser desenhado em linha convexa, isto é, com curva mais elevada no meio que nas bordas.

Fica fora de concurso o pé que contenha unhas cortadas em linha reta, do tipo para não encravar. Não há nada mais desanimador.

Há pés tão encantadores e espirituais, que o aperto de mãos deveria ser dado com eles.

Se os olhos são as janelas da alma, os pés são os portais do instinto.

Os pés são a credencial da sensualidade, as outras partes do corpo se constituem apenas em insígnias suplementares.

Os pés têm tal poder hipnótico, que, quando dotados de sedução irresistível, fazem emanar uma tal atração, que não resta outro recurso aos seus espectadores, mesmo que nenhuma palavra tenha sido ainda pronunciada, senão sucumbirem de paixão.

E esta paixão será mais duradoura que as outras paixões todas, porque os pés têm a capacidade incrível de envelhecer menos ou quase nada na relação com os outros redutos corporais.

A lascívia pelos pés é eterna.

As sandálias são os biquínis dos pés, porque os desnudam. Os sapatos são os véus dos pés, porque os ocultam sedutoramente.

Conheço maníacos de pés que se apaixonam por sapatos de salto alto, basta-lhes curtir o delírio lúbrico do imaginário concupiscente dos pés que os portam ou portaram.

O pecado ancestral da escultura e da pintura foi não ter dado relevo aos pés.

Só recentemente a moda vingouse desse cochilo monumental dos mestres das artes plásticas, criando graciosos modelos de calçados femininos, que realçam a importância e o destaque dos pés na sensualidade da mulher.

A julgar pelos novos anéis de dedos dos pés que estão sendo lançados aos magotes, os anéis e alianças de silicone para os dedos dos pés, as tatuagens de hena, as tornozeleiras que vão acabar tornando superadas as pulseiras, esses emergentes e luzidios adereços que irrompem vitoriosos nos pés femininos, em breve as jóias mais cintilantes e mais caras se transferirão dos pescoços, dos dedos da mão e dos pulsos femininos para os pés.

Isso só demonstra que nós, os ardorosos amantes dos pés, os fanáticos podófilos de todos os tempos, é que estávamos com a razão.

O mundo descobriu finalmente a nossa secreta e deliciosa usufruição.

E o nosso fetiche privativo virou finalmente uma mania universal.

A alma da Pink

19 de setembro de 2012 0

Morreu minha cadelinha Pink, com 13 anos de idade.

Era a única pessoa que me fazia festa quando eu chegava em casa. Era de ver-se a alegria de que ficava tomada, saltando, latindo, esperando de mim uma reação afetiva.

Morreu a minha cadelinha poodle, pelos eriçados, cor de chumbo, olhos alertas, uma alegria de viver que se transmitia a todos.

Morreu minha cadelinha Pink, e eu ainda tropeço nela no corredor como se ela ainda existisse, tenho o cuidado de fechar a porta do quarto para que ela não entre e não suje o tapete. É incrível, mas eu procedo ainda como se ela vivesse. Impregnou-se tanto em minha vida, que a minha existência prossegue tendo-a como companheira de todas as horas.

Não dá para esquecer que, quando eu saía de casa, ela mostrava uma angústia tremente, parecendo que ia me perder para sempre.

Como eu, tinha labirintite. Como eu, deve ter sofrido muito. Em seus últimos dias, tossia muito a pobrezinha, sobrevivia à custa de muitos remédios, mas ostentava um petulante orgulho de viver.

O que me amassava era que ela não podia transmitir o seu sofrimento. O que será que pensava quando a tontura lhe tirava o apetite de viver? Como deve ter na sua mudez se desesperado por não poder dizer o que sentia. Era uma dor sozinha, um isolamento, sei lá como se sentem os animais quando adoecem e talvez não percebam que podem morrer.

Um vazio percorre a casa. Aquela ânsia permanente por outra comida que não fosse a ração, aquela curiosidade por tudo o que se fazia em torno dela, aquele rosnar furioso e com latidos quando a gente ameaçava, brincando, que iria tocar na sua cama e no seu lençol, são todas imagens que não se apagam da minha lembrança.

Os cães têm alma, tenho certeza disso. Se ela não tivesse alma, não teria deixado tamanha saudade. Não tivesse e não se apoderaria de mim esta tristeza que me penetra como um punhal de nostalgia da Pink.

Aquele sonho de que, depois da morte, iremos encontrar com nossos seres queridos tem no meu caso como centro a figura da Pink.

Mimosa, querida, adorada, vai estar no céu entre meus amigos e meus parentes, agitando a todos com seus latidos e aquele olhar suplicante por comida diferente.

Mimosa, dedico todos os dias para ti uma boa e quieta quantidade de lágrimas.

* Texto publicado em 09/12/2009

Fernandão amigo

18 de setembro de 2012 0

O melhor negócio que o Internacional fez foi não trazer Fernandão.

Assim, ficando em Goiás, junto da sua fazenda, cuidando de perto seus bois, Fernandão pôde teoricamente dar o título deste Brasileirão para o Internacional ontem no Beira-Rio.

Bastou ser expulso e colaborar com o seu querido Internacional na conquista do Brasileirão, ontem.

E, se alguém duvidar do que estou escrevendo, desafio-o a me responder o seguinte: quando o Goiás jogar contra o Grêmio neste segundo turno, Fernandão será também expulso?

Claro que não será expulso. E mais: deve marcar, segundo deduzo, dois gols contra o Grêmio lá no Serra Dourada.

Assim não dá para torcer no futebol. É desigual.

Mais útil do que foi ao Internacional não poderia ser Fernandão. Nem que viesse de volta para Porto Alegre, em vez de ir para Goiás.

E o cúmulo da ironia é que Fernandão prestou ontem este grande serviço ao Internacional no Beira-Rio, palco onde ele se consagrou, erguendo taças, algumas conquistadas longe daqui.

Ele delicadamente prestou ao clube do seu coração, o Internacional, este gigantesco serviço aqui no Sul. Não foi lá em Goiás, foi aqui.

Lá para Goiás, Fernandão está preparando um requinte para seu amantíssimo coração colorado, conjugado com o ódio que tem do Grêmio: lá em Goiânia, Fernandão marcará dois gols contra o Grêmio.

Só faltará que o terceiro gol do Goiás seja marcado por… Iarley.

Não adianta quererem justificar a goleada de ontem no Beira-Rio, como o fez a totalidade dos analistas, pelas grande atuações de Marquinhos, de Magrão e Giuliano, estes três gênios, como os chamaram os analistas, só sobressaíram depois da expulsão de Fernandão.

Objetivamente, materialmente, a goleada, não a vitória, que esta até poderia ter vindo, se apoia numa só pilastra dialética: a expulsão de Fernandão.

Aos que não me acreditam, lembro só de um fato indeclinável: com o Goiás tendo 11 homens em campo, o jogo estava só em 1 a 0, ou seja, com possibilidade de endurecer.

O resto é conversinha.

Agora, abordo obrigatoriamente o Grêmio. Até pouco antes de terminar o jogo, o Grêmio figurava no quinto lugar da tabela do Brasileirão.

Mas, infelizmente, um jogo de futebol tem de modo maldito a duração de 90 minutos.

Já lá se vão oito derrotas fora e três empates.

Não se vá atribuir isso ao azar ou a causas misteriosas que importam o enigma de um time que é o melhor do Brasileirão em sua casa e um dos piores fora.

A causa principal é a modéstia do time gremista.
Eu não queria escrever a palavra porque ela pode ser dura, implacável, por demais severa, mas é a mediocridade do time gremista que o leva a não ganhar fora. Mediocridade, é bom que se diga, vem de “médio” filologicamente, isto é, na origem da palavra.

O Grêmio é, portanto – está bem, concedo –, um time médio que só sabe ganhar quando é apoiado por sua grande torcida.

Órfão da torcida, nos jogos de fora, o Grêmio expõe aos analistas, que não enxergam porque são cegos, a sua mediocridade.

Lembram-se daquele time gremista treinado por Mano Menezes? Deu-se com ele exatamente o que se dá com o time de Paulo Autuori, não ganhava fora de casa e no Olímpico vencia todos os jogos.

Sabem como é que terminou aquele time do Mano Menezes? Perdendo para o Boca Juniors, no jogo de Buenos Aires e na partida daqui por, 5 a 0. Uma tragédia por mim esperada.

* Texto publicado em 31 de agosto de 2009

O erro estrutural

17 de setembro de 2012 0

Cada um sabe onde lhe dói o calo. Cada um sabe qual é o seu maior problema.

Sendo assim, elejo como as três grandes obras prioritárias para o Rio Grande: 1) o metrô de Porto Alegre; 2) A ponte sobre o Guaíba; 3) o bar da Redação da Zero Hora.

Todo secretário de Transparência de qualquer governo deveria usar óculos escuros.

O nó górdio da questão carcerária gaúcha e brasileira é que está escrito em lei que a administração das penas é da competência do Poder Judiciário.

Ao natural, quem administra as penas tem também de administrar os presídios.

Entre nós, o Poder Judiciário administra, através das Varas de Execuções Criminais, mas quem administra os presídios, erradamente, é o Poder Executivo.

Vai daí que as verbas carcerárias entram no imenso cesto orçamentário do Poder Executivo, que tira de lá toda sorte de verbas menos as carcerárias, que não dão votos.

Aí está a razão estrutural do abandono dos presídios. Se o Poder Judiciário, com sua importância e influência, manejasse as verbas carcerárias, não teríamos este caos.

Ontem, um dos corregedores de Justiça declarou na Rádio Gaúcha que atualmente cerca de 500 detentos já atingiram o regime de progressão, isto é, estão aptos a serem transferidos para o regime semiaberto.

Como não há vagas no regime semiaberto, esses 500 presos permanecem, erradamente e injustamente, nos presídios, não abrindo vagas para os novos candidatos.

Soube-se ontem que o estrangulamento populacional nas prisões não se dá só no regime fechado.

É uma crise de todos os regimes.

A repercussão sobre a minha coluna de anteontem foi enorme. Zero Hora ocupou com ela as páginas 4 e 5 de ontem, o jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, encorpou sua edição de ontem na discussão sobre a coluna que escrevi, instalando um interessante debate entre leitores e jornalistas.

Descanse o casal de testemunhas, não se pode atribuir qualquer responsabilidade aos dois no crime.

Mas não era de se exigir de todos que a conduta deles não fosse examinada.

O episódio serviu para que a sociedade adquira a consciência de que não pode cruzar as mãos quando uma agressão (ou um crime) está se desenrolando.

No livro Nada Precisa Ser Como É, o psicanalista Paulo Sérgio Rosa Guedes aborda num poema os pensamentos recorrentes dos homens da terceira idade:

Tenho me surpreendido pensando na morte;

não bem na morte, mas no fim da minha vida.

Tenho me surpreendido pensando na doença,

destino inexorável para quem envelhece

mas não morre. Coisa sabida.

Tenho então olhado a morte,

também como uma sorte, até como uma solução,

dura, é verdade, duríssima, mas talhada

para quem que, como eu, não entende a vida morna,

vida que torna a vida um nada – ou a mantém calada.

Minha a morte, ideia estranha… muito estranha…

Nunca a preferi à vida. Nunca!

A vida forte

A vida que, também por sorte,

A tive quase toda, inteira;

a vida

que cria vida e aceita o fim

que nutre a emoção e dela se alimenta,

que busca , sem parar, dizer que sim.

(a morte,

a sorte,

o fim…

Nunca pensei estas questões

ligadas a mim).

* Texto publicado em 27 de maio de 2009

O milagre da televisão

16 de setembro de 2012 0

Já fiz uns 80 Jornal do Almoço no Interior. Percorri como um mascate todo o Rio Grande do Sul, num exercício delicioso de sentimentalidade.

Ainda na sexta-feira, fui a Igrejinha para a Oktoberfest de lá.

Quando volto, trago os bolsos cheios de mensagens carinhosas dos telespectadores, cestos e cestos de doces e de bombons, garrafas de vinho e de cachaça, fumo em rolo, vidros com melado e doces em calda, camisetas dos clubes de futebol locais, fotografias de craques do passado, cucas, pedaços de lingüiça, nacos de nabos e cabeças de beterrabas, gaiolas com pássaros e ratos, até um filhote de gato siamês uma vez me presentearam em Cruz Alta.

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É uma ânsia das pessoas em agradar-nos. Quando desço do carro ou do ônibus que nos leva e traz pela viagem, sou obrigado a contratar sempre alguém para me ajudar a transportar todas as quinquilharias e frutos da terra que me presenteiam.

É uma ânsia emocionada das pessoas em transmitir-nos a sensação de que somos parte de suas vidas pelo convívio estreito que se estabelece durante décadas entre o apresentador de televisão e os telespectadores.

Há pessoas que se destacam do meio da multidão nas praças em que nos apresentamos e nos beijam e abraçam, banhadas em lágrimas, dizendo-nos que aquele encontro significa o momento em que mais sonharam durante a vida, a mim me deixam aparvalhado pelo que me parece um exagero, mas a sinceridade de suas palavras e gestos acabam por comover-nos.

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Quanto maior a distância de Porto Alegre das cidades, maior é o fervor dos telespectadores com a nossa presença.

Em sua simplicidade, as pessoas parecem encarar os apresentadores de televisão como seres mitológicos, a quem nunca terão acesso. E quando de repente eles visitam sua cidade, consideram isso um prodígio e são tomados por um arrebatamento incontível.

Se é assim comigo, imagino como será se aparecer numa dessas cidades gaúchas que por vezes visitamos os artistas da Globo, como um Lima Duarte, um Tony Ramos, um Thiago Lacerda, uma Priscila Fantin.

Devem rasgar-lhes das roupas.

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A televisão é uma milagrosa relação entre os que a fazem e o público telespectador.

O público considera os artistas e apresentadores como integrantes de sua existência, como personagens de sua rotina, como familiares com quem se encontram todos os dias e não podem deixar de vê-los.

E como eu já faço o Jornal do Almoço há 36 anos, foram já cerca de 12 mil programas de que participei, com abrangência diária em todo o Estado, sou mais conhecido que Coca-Cola nos recantos gaúchos todos.

Doze mil programas compreendem várias gerações. Há pessoas que começaram a nos ver quando eram crianças, dizem-me elas no Interior, e hoje já são avós. E vão lá no banco da praça da cidade que visitamos e levam seus filhos e netos, como se estivessem nos dizendo que nossas figuras se transmitem como heranças genéticas entre seus familiares.

Que programa de sucesso este Jornal do Almoço! Há 36 anos no ar, dominando a audiência no horário, ligado ao gaúcho como chimarrão.

É muito difícil um programa de televisão enraizar-se assim tão perpetuamente numa terra e num povo.

Para mim, um delicioso espectro da minha vida.

Plágio póstumo

15 de setembro de 2012 0

Só ontem fiquei sabendo que circula em todo o Brasil, pela internet, um célebre poema de Vinicius de Moraes, intitulado Amigos. Já em julho do ano passado, no Dia do Amigo, o poema foi enviado por milhares de pessoas aos seus amigos, vários colegas aqui de Zero Hora receberam o texto.

Ontem foi o meu dia de receber a homenagem. O colega Emanuel de Mattos felicitou-me por meu aniversário e finalizou sua mensagem assim: %22Esse poema que segue, do grande Vinicius de Moraes, que certamente conheces bem, vale hoje como minha modesta homenagem por todos os dias em que teu texto deixou de ser apenas um colírio para os olhos e virou bálsamo da minha vida%22.

Preparei-me para ler o poema de Vinicius.

Até que cheguei à seguinte parte: %22Muitos dos meus amigos que estão lendo estas linhas não percebem o quanto são meus amigos nem quanto os adoro e são indispensáveis ao meu equilíbrio vital. A alguns deles não procuro. Basta-me somente saber que eles existem. Só isso me encoraja a seguir em frente pela vida… Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns de meus amigos. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer. Se alguma coisa me consome e me envelhece, é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre a meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos. E, principalmente, os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!%22

Quando dei os olhos nesse trecho, exclamei: %22Que Vinicius, nada! Este texto é meu, foi publicado há anos neste espaço de Zero Hora. Faz parte do meu livro O Gênio Idiota. Lembro-me de que essa coluna, sob o título de Meus secretos amigos, fez tanto sucesso, que as pessoas recortavam-na e a colavam nas paredes de suas cozinhas%22. E incrivelmente o meu amigo Emanuel me mandou o poema como se fosse de Vinicius de Moraes, achando que tinha tudo a ver comigo.

Não só tinha a ver comigo, como era meu. E está lá na internet, em página adornada, com excelente desenho ilustrativo, assinado por Vinicius de Moraes, acrescido de um regalito: %22in Antologia Poética%22. Agora mesmo, a colega Lurdete Ertel, que trabalha aqui ao meu lado na Redação, afirma-me que recebeu no ano passado o mesmo poema, enviado por um amigo, como sendo de Carlos Drummond de Andrade.

Quero dizer que isso, a par de me envaidecer, me enfurece: vou acionar na Justiça por usurpação de direitos autorais as nove viúvas do Vinicius de Moraes. Estes grandes poetas brasileiros não passam de meros plagiadores.

Quinhentos talheres

14 de setembro de 2012 0

Eu senti que estava apaixonado irremediavelmente por aquela mulher quando não encontrava defeitos nela. E sequer adivinhava pudesse ter defeitos. E estava tão envolvido por aquela mulher, amando-a, nutrindo ardente paixão por ela — sei lá como definir aquele fogo que incendiava meu corpo e minha mente — , que flagrava a todo instante os seus atributos e qualidades. E quando não os flagrava, adivinhava-os.

E era tão mágica minha sintonia com aquele ser envolventemente superior, aquela jóia rara que encontrei por acaso num cantinho despretensioso do meu cotidiano, exatamente no fumódromo, um lugar talhado para irromper uma grande paixão, eis que ali todos ficam absortos em seus pensamentos e tecem balanços da sua vida, insinuando que poderão mudar seu rumo, que antes mesmo que ela falasse eu já sabia o que ia dizer, antes que palpitasse eu me capacitava do que ela estava sentindo, antes que me deliciasse com sua declaração de amor eu já usufruía daquela delícia de rendição sentimental.

Estávamos os dois completamente apaixonados um pelo outro e tudo que nos cercava na vida perdia a sua importância intrínseca e objetiva para se tornar apenas complemento do nosso já histórico caso de amor, sem dúvida o maior que já nos acontecera e jamais aconteceria no futuro em nossas vidas algo igual.

***

Eu já transportava a imagem daquela mulher, nas configurações tresloucadas do amor delirante, para além da vida. E já a via como uma branca visão que entre os sepulcros erra, visitando o meu túmulo após a minha morte, à sombra dos ciprestes.

E quando ela lesse a minha lápide (%22aqui jaz um homem que não fez outra coisa na vida senão amar e entregar-se às suas amadas e às suas causas%22), meu coração estaria palpitando de amor dentro da terra.

Ah, o amor, quando virei por fim a cansar-me dele, a desistir dele, a afastar-me dele, a desiludir-me dele? Quando? Se ele é que me move e ergue, se não há sentido na vida sem ele, embora sua inevitável frustração seja exatamente o que torna a vida sem sentido, então só no dia que minha alma e meu coração se tornem inférteis ao amor — só neste dia, se não me sobrevier a morte, encontrarei a paz. Nem que seja a paz dos cemitérios.

Ocorre-me neste instante que nos cemitérios, como nos necrotérios, são ali os únicos lugares da face terrestre em que convivem em contubérnio sublime ou terrível a morte e a vida.

***

Mas voltando ao amor, afastando de mim estes solavancos de intimidade com a idéia da morte, que me perseguem em pesadelos diários, só ele, amor, consegue me transportar para o terreno da ternura suprema. Quando amo, parece que estou levitando, que, como o profeta Elias, estou subindo para o céu num carro azul de glórias.

Ah, o amor, quanto me fez feliz, mas também quanto me fez infortunado.

Ah, o amor, quanto me tornou sábio, mas também quanto me fez restar tonto.

Ah, o amor, lembro-me bem que uma vez, quando minha amada saciou-me de amor na alcova, deu-me fome e era tão linda que decidi ir mostrá-la, num ímpeto de exibicionismo, aos perplexos freqüentadores da churrascaria mais famosa de Porto Alegre. E quando nós passávamos pelo corredor em busca de nossa mesa — eu fiz aquilo de propósito decidido —, ela era tão bonita e tão apetitosa, que, à nossa passagem, os olhos de todos só se fixavam no corpo e no rosto dela, os garfos das pessoas derrubavam-se de suas bocas e caíam no chão!

Eu já amei tanto na vida — e tão bem — que até provocava nos restaurantes o tilintar dos garfos no chão.

Mas era pouco o tilintar de meia dúzia de garfos para homenagear uma mulher para 500 talheres.

Gostosas rapadurinhas

11 de setembro de 2012 0

A Porto Alegre dos serviços. Ontem fui me servir dos serviços de barbearia e bar da cidade.

Só ontem me apercebi de que não fui engraxate na infância. Fui vendedor de pastéis, fui entregador de jornais, mas nunca me dei bem com trabalhos manuais, decerto por isso não me atraiu a caixa de engraxate, que era um derivativo dos meninos da minha idade.

Ontem pensava nisso enquanto me atendia o engraxate do salão Dia e Noite, na Rua Andrade Neves.

Os preços do engraxate são atraentes: graxa preta, R$ 4,50; graxa marrom, R$ 5; tinta e graxa preta, R$ 7; tinta e graxa marrom, R$ 9; graxa bota pequena, R$ 8; graxa bota grande, R$ 10; tinta e graxa bota pequena, R$ 10; tinta e graxa bota grande, R$ 15; graxa branca, R$ 15.

Bons preços, atraentes preços, o engraxate que me atendeu deixa o sapato como se fosse novo.

Depois fui lavar a cabeça com a cabeleireira Denice. Depois de lavados, meus cabelos recebem um xampu cinza, muito cuidado para não entrar água nem xampu nos ouvidos, espera 15 minutos enquanto a cor do xampu se impregna nos cabelos, depois um banho lustral, quando se aplica o secador nos cabelos, fica uma beleza.

Após fazer as unhas com a manicure Loreni, desci até o Bar Tuim, na Ladeira, onde saboreei o melhor chope da cidade. Os chopes que o David Coimbra descobre e intenta na Calçada da Fama não podem atar as chuteiras do chope cremoso do Tuim, a técnica empregada para tirá-lo e a qualidade do equipamento fazem do Tuim o templo do chope na cidade.

Acompanhado evidentemente dos bolinhos de bacalhau do Tuim, ainda os melhores da cidade. Os bolinhos de bacalhau do Restaurante Pampulhinha, um dos dois mais caros da cidade, não chegam nem perto em delícia dos do Tuim.

Já estiveram melhores do que estão hoje os bolinhos de bacalhau do Tuim, mas ainda são os melhores da Capital.

Eu e a Denice comemos 12 bolinhos, com três chopes, a conta somou singelos R$ 42. Vale a pena a gente ser feliz em uma hora por um preço acessível.

Negócio bom no Centro é estacionamento. Todos os da Rua Andrade Neves estavam lotados pela tarde de ontem. E o preço é salgado, tudo acima de R$ 10, estão fazendo fortunas os donos de estacionamentos, que previ seria o negócio deste século que se inicia, ao lado da industrialização da água.

Faz tanto tempo, mas ainda povoam a minha memória as doceiras da minha infância. Faziam as rapaduras em casa e seus filhos vendiam em torno dos quartéis das Bananeiras.

Eram cocadas alvas, cocadas marrons, cocadas negras, paçocas de amendoim, pés de moleque, havia até rapadurinhas de abacaxi, uma delícia, também olhos de sogra, papos de anjo secos e em calda, doces de batata e abóbora caramelados, rapadurinhas de banana, creiam, assim como havia balas quebra-queixo e o supremo ideal dos glicosados, que era o doce de goiaba.

Já escrevi que minha madrasta fazia um doce de melancia, tirado daquela faixa branca da fruta que fica abaixo da casca, parecido com o doce de abóbora, mas o de melancia nunca mais topei com ele. Que saudade!

E havia um doce nos botecos que era a preferência da garotada, tanto pelo preço baratíssimo quanto pelo seu grande tamanho: o mata-fome.

O mata-fome era um almoço. Felizes dos dias raros em que eu podia juntar um dinheirinho para comer um mata-fome, acompanhado de um refrigerante, que podia ser Crush (o que tinha polpa de laranja no líquido), Marabá, Grapette, Cyrillinha, quem sabe até uma gasosa.

Que festa!

* Texto publicado em 5 de novembro de 2009