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Posts de outubro 2012

A arte de esperar

31 de outubro de 2012 0

Texto publicado em 29/04/2011.

Agente tem de se conformar com o engarrafamento. Em realidade, a vida é feita de espera. A primeira vez que esperei de verdade foi quando, moço ainda, comprei o meu primeiro imóvel: um apartamento para morar com a família. O prazo de pagamento era de 20 anos (240 meses). Era no tempo em que havia o Banco Nacional de Habitação, uma forma para facilitar a aquisição da casa própria. Mas vejo só agora o horror: levar 20 anos para adquirir um imóvel. Acho que foi ali que aprendi a esperar.

Esperei para me formar em Direito, levei 10 anos. Esperei para ser delegado de Polícia, fui inspetor de Polícia durante 17 anos. Esperei para ter filhos; depois de longa espera, esperei para ter netos. Antes de ter carro, esperei durante muitos anos o ônibus; antes, quando ainda criança, esperava o bonde. Espero que cozinhem minhas comidas, espero que gelem minhas bebidas. Plantei um abacateiro e esperei muitos anos para que ele desse abacates. Esperei durante cinco horas, num nervosismo ímpar, para subir ao palco com Julio Iglesias. Esperei durante muitos anos para que trocassem minha coluna das páginas de esporte para esta página na qual agora me encontro. Deus sabe que espera angustiante.

Vejo só agora, neste balanço de esperas, que sempre houve desfecho para todas as minhas esperas. E estranhamente concluo que foram bons os desfechos de todas as esperas, com raras exceções. Nunca esperei ser rico, por exemplo. Ou apostar na Mega Sena, como aposto, é esperar uma fortuna? Acho que não: entre as esperas não se pode incluir os sonhos. Esperar é uma coisa, sonhar é outra. Esperar implica alguma materialidade no desejo. Sonhar já entra noutra esfera. É tão grande o que se pretende, que nem se exige do destino que ele nos dê tamanho contentamento. Ou euforia.

Em verdade, lhes digo, das coisas que me aconteceram na vida, uma só, uma única não esperei: a velhice. Ela foi chegando sorrateiramente, sem prenúncio, sem aviso, com leves indícios: uma vontade de não tomar banho pela manhã foi o primeiro pipocar da velhice. Logo em seguida, foi uma dificuldade em sair do táxi, as dobradiças do corpo da gente parecem que estão enferrujando. E as moças, em toda a parte que se vai, começam a nos chamar de“senhor”.

Velhice não tem espera, ela ataca à traição.Velhice é a pior doença. E ela ainda carrega consigo a pior maldição: é quando se tem pela primeira vez a ideia da morte. Mas esperar é sempre não a minha sina, mas a de todas as pessoas. Esperar que a pessoa amada diga sim.

Esperar de quem nos ofende gratuitamente uma explicação. Esperar que nunca um amigo pronuncie uma recusa. E uma espera que confesso me consumiu sempre em toda minha vida: a espera de uma reconciliação. Há ex-amigos que morreram brigados comigo, foi em vão a espera de que tivéssemos feito as pazes. Muito triste, desolador… A vida só é feita de esperas. Desde as mais curtas até as mais longas. E a mais dolorosa, a pior de todas as esperas, é a inútil.

O segredo

30 de outubro de 2012 0

Texto publicado em 25/11/2010.

Tenho particularmente fascínio por um tema: o segredo. Acho até que uma das grandes atrações da vida é poder guardar um segredo. Há diversas nuanças entre os segredos. Vou pinçar agora uma: duas pessoas se amam e mantêm em segredo o seu amor. Ele é curtido silenciosamente entre os dois, as outras pessoas todas que vivem ao derredor  desses dois enamorados desconhecem completamente que eles se amam. Evidentemente que os compromissos e as convenções sociais impelem esses dois namorados secretos a manterem seu segredo.

Se por um lado custa-lhes muito caro manter esse segredo, que caso fosse violado ameaçaria a sobrevivência do amor oculto, por outro é extremamente delicioso para os dois amantes que eles não confiem a ninguém o seu segredo. Os dois comparecem a reuniões, almoços, jantares, festas, ninguém desconfia deles. E eles curtindo saborosamente o seu segredo.

O diabo é que o segredo sempre carrega dentro de si uma culpa, uma vontade de desabafar, um ímpeto de gritar ao mundo que todos deveriam ficar sabendo daquilo, libertar-se assim dos grilhões que amarram o seu segredo. “Ela sabe que eu a amo, eu sei que a amo, isto é o suficiente.”Será mesmo isso suficiente? Quantos e quantos casos de amor inundam o cotidiano, nos quais a marca mais genuína é a confidencialidade? Este segredo em amar é muito frequente em pessoas casadas, que querem manter seus laços conjugais e temem mergulhar nos riscos da aventura extraconjugal ou da separação, se o segredo for violado.

Mais frequente que o segredo guardado a sete chaves por duas pessoas é o segredo que pertence a uma só pessoa. Ela ama, mas ninguém sabe que ela ama, nem mesmo a pessoa que por ela é amada. Parece uma idiotice não noticiar a uma pessoa a quem se ama que ela é assim intensamente amada, mas não é. A vida trata ela mesma de antepor obstáculos vários entre as pessoas que amam. Quando alguém ama e a pessoa amada não tem conhecimento disso, imaginem a tensão, o nervosismo, a intensa emoção da pessoa que ama quando se encontra com a pessoa amada, o seu constrangimento em não revelar por nenhum gesto ou palavra o seu segredo!

Sempre, o detentor de qualquer segredo é um prisioneiro dele. Ele não vai dormir por sequer qualquer noite sem preocupar-se com seu segredo. E muitas vezes aquele segredo amassa tanto seu detentor, que ele não resiste e acaba rompendo o segredo. Se por um lado arrastará todas as consequências da violação do seu sigilo, por outro quem conta um segredo saboreia a deliciosa sensação de liberdade, tirou de cima do seu corpo aquele fardo pesado e insuportável. Pronto, não existe mais o segredo. Mas de que irá viver daqui para a frente quem não tem mais um segredo sob sua guarda? O violador do segredo mergulha num escuro abismo de vazio.

O ciumento profissional

29 de outubro de 2012 0

Texto publicado em 23/01/2003.

Aparentemente, os pelos que crescem no nosso corpo são os da cabeça: o cabelo, o bigode, a barba, as sobrancelhas e os pelos do meato externo do ouvido. Os outros pelos, todos abaixo do pescoço, não crescem, ficam sempre do mesmo tamanho. Os pelos da minha axila, por exemplo, têm o mesmo comprimento de quando eu tinha 18 anos. Os pelos pubianos também estacionam no tamanho, o mesmo com os pelos dos braços e das pernas. Mas alguém me advertiu que não é bem assim a coisa: todos os pelos que cortamos ou raspamos crescem. Se os das axila não crescem infinitamente é porque nunca os cortamos. Será mesmo assim?

Isso me veio ao raciocínio porque já é de uso antigo a depilação masculina: os homens há muito tempo depilam as sobrancelhas e a cavidade externa do ouvido. Só que agora surgiu a moda do homem depilar todos os seus pelos. Eu estava caminhando na Rua da Praia com um amigo, quando ele me disse: “Vou ter de te deixar, tenho hora marcada com a depiladora”. “Mas como, vais depilar o quê?”, perguntei-lhe. E ele me disse que iria tirar, pelo método da cera quente, muito dolorido, os pelos das pernas, dos braços, do peito, das costas e do abdome. Cai duro para trás. Perguntei-lhe se não ia também depilar os pelos pubianos, ele me disse que por enquanto não, mas quando a moda o exigisse ele o faria.

Foi-se portanto o tempo em que os homens desejavam ser cabeludos, dizia-se que se tornavam mais atraentes às mulheres. Circulava até uma anedota que eram vendidas perucas de peito. É tudo uma questão de avanço dos costumes. Muitos homens desconhecem que ficam com má
aparência quando não cortam os pelos dos ouvidos. E passam a vida inteira com os ouvidos peludos. O mesmo com as sobrancelhas. Mas se alguém os adverte para aquele mau aspecto dos  ouvidos peludos ou da assimetria na linha ou altura das sobrancelhas, eles concordam em se depilar. O que comanda é a aparência. Mas a vaidade comanda também. Estes homens que estão depilando as costas, as pernas, os braços e os peitos, fazem-no porque entendem que seus músculos ficam melhor definidos e as mulheres gostam disso. Os tradicionalistas consideram a depilação masculina uma frescura, mas os modernos nem ligam para essa acusação, alegam que a depilação, pelo contrário, acentua-lhes a masculinidade.

Em breve os homens estarão depilando até os pelos pubianos, como fazem todas as mulheres que usam tanga ou biquíni. E nesse ritmo os carecas se tornarão em apelos irresistíveis de sensualidade. Excetuadas as preferência exóticas, do campo do fetiche, a regra de senso estético comum é a de que os pelos têm de ser raspados, cortados ou aparados, caso do cabelo, da barba, dos ouvidos ou das sobrancelhas. Só que agora estão cortando ou depilando também os pelos dos membros inferiores e superiores, dos peitos e das costas. E até das axilas! Uma revolução. Que vai acabar com o homem usando batom. E o marco-limite dessa feminilização masculina está muito bem fixado na nossa lembrança, foi há uns quarenta anos: depois que o homem adotou a bolsa  leva-tudo, não parou mais de desmunhecar.

Esperteza na gasolina

29 de outubro de 2012 0

Leio uma notícia inacreditável: “A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis irá investigar se houve aumento generalizado no preço da gasolina nos postos do Rio Grande do Sul.”

Investigar o quê? Todos os postos gaúchos aumentaram os preços, não precisa investigar. Isto é um escândalo.

E a Refinaria Alberto Pasqualini tem o dever de indenizar todos os gaúchos que estão pagando a mais pela gasolina, já que ela foi responsável pelo desabastecimento que provocou o aumento e a ação de aproveitadores.

O povo brasileiro está indefeso ante esses espertalhões e várias patifarias de cartéis. Dá engulhos ser brasileiro.

Isto é um desgoverno total.

E, para mal dos pecados, vem aí uma paulada maior: anuncia-se, calculem a maldade e a esperteza, aumento de 10% no preço dos combustíveis, “depois do segundo turno das eleições”, segundo se apurou junto a fontes governamentais e da Petrobras.

Mas não é cretinice oficializada?

Locupletam-se os infames à custa da economia popular.

Se houvesse governo dinâmico e operoso, o povo não seria assim explorado. E se houvesse método eficiente de Justiça, os consumidores não seriam assim indefesos a essa sanha desastrosa.

Já estou favorável a que voltem a ser tabelados os preços dos combustíveis.

Em terra de canibais mercantis, não funcionam preços liberados. Livre concorrência num país bagunçado?

***

Já ensinei mil vezes ao meu motorista que ele tem de dirigir prevendo os erros dos outros motoristas no trânsito.

Então, levo um susto porque quase acontece o acidente, e o meu motorista se defende: “Mas foi o outro que errou!”.

Ora, se eu já tinha observado a ele que os outros motoristas iriam errar, tinha de se acautelar com os erros dos outros.

Não adianta, meu motorista nunca vai aprender isso.

Até no sinal verde para ele, advirto-o, tem de prever que um japonês possa atravessar no vermelho.

Um motorista é vário, tem de dirigir por si e pelos outros.

Não há profissão que mais exija do seu titular, nem a de cirurgião, do que a do motorista.

***

Um dia fui depor na Justiça sobre um acidente de trânsito em que me envolvi.

Na hora do meu depoimento, eu disse ao juiz: “Excelência, não tive nenhuma culpa no acidente, bati no carro desse senhor que está aqui e foi ele quem errou. No entanto, devo confessar a Vossa Excelência que me sobravam razões para eu adivinhar que esse senhor iria cometer o erro que cometeu. Nesse ponto, errei.”

***

Bendito sejam os modelistas de calçados que fazem sapatos destinados ao conforto dos pés dos adquirentes.

E que sejam malditos e jogados no inferno os modelistas de calçados que causam desconforto ou dor aos pés dos usuários.

Tentações à solidão

28 de outubro de 2012 0

Texto publicado em 03/04/2005.

Em realidade, a criatura humana debate-se em torno de seus dois grandes flagelos: a solidão e a vida em comum. A solidão pode ser para o homem a sua grande vitória ou sua grande frustração.

A solidão não é a vocação do homem, que nasce com a tendência para a vida em comum, embora nasça só. Tanto a solidão é incompatível com o homem, que só as pessoas com pendores singulares, entre elas os sacerdotes e as religiosas, fazem voto de castidade e celibato. Tanto a solidão é uma violência ao homem, que é necessário aos religiosos prometer sob juramento que não vão casar-se. Da mesma forma, a vida em comum tanto se parece com uma adversidade forçada, que nas cerimônias matrimoniais os nubentes são obrigados a jurar perpétua fidelidade.

Quando o homem procura a companhia de um animal para livrar-se da solidão, é quase certo que fará somente bem à sua companhia – e esta a ele. Já quando o homem procura a companhia de outro humano para fugir da solidão, é grande o risco de que faça mal a ele ou dele o receba.

O homem só tenta se livrar da solidão quando sente que já está fazendo má companhia a si próprio. E o homem só tenta se livrar da vida em comum quando percebe que, mesmo acompanhado, retornou à condição aflitiva da solidão. Não há pior aflição do que estar-se na companhia de outrem e sentir-se só, assim como estar-se só sentindo a falta de outrem.

A boa solidão conduz ao céu, a má companhia ao inferno. Assim como a solidão ruim é o pedágio da estrada do inferno, a boa companhia pode ser o passaporte para o céu. É preferível a eloqüência da solidão que o silêncio de uma companhia.

Só sente-se em vida recompensado aquele que, depois de sentir-se só em meio à multidão, sentir-se acalorado pelas multidões quando está recolhido à solidão.

Já não me basta e portanto me enfara a serenidade da solidão, aguça-me a tentação do entusiasmo do companheirismo, apesar de todos os seus riscos.

Ou será que daqui a pouco estarei enojado das incompreensões, ingratidões e deslealdades do companheirismo e estarei querendo me arremessar para o descanso e segurança da solidão, apesar do seu tédio?

A única intranquilidade que me inspira a solidão é a de que eu possa cair sem ter ninguém que me erga e o único horror da vida em comum é que, em caso da minha queda, a minha companhia recuse-se a me erguer ou se mostre inepta para isso.

Atribula-me a solidão tanto quanto a vida gregária, se estou lá, tenho que vir, se estou aqui eu tenho de voltar.

Se quanto maior for o número de pessoas com quem convivemos no tumulto da civilização, maior será o perigo que corremos, parece então que, quanto mais sós estivermos, mais nos sentiremos seguros. Mas de que vale a vida sem riscos da solidão, se uma das maiores tentações da existência é correr riscos? Ou será que o maior risco é o da solidão?

Confesso que me assombra a dúvida: a solidão como refúgio ou a vida em comum como guarida? O ideal talvez fosse saborear fortes doses de solidão na vida em comum ou permitir-se rápidas licenciosidades de convivência como lapsos da solidão.

Encanto indecifrável

27 de outubro de 2012 0

Texto publicado em 11/01/2004.

Sempre me intrigou a palavra carisma. É a única palavra do dicionário que não tem significado definido. Todos sabem o que é carisma e ninguém sabe o que é carisma. Leio que vem do grego chárisma. E o dicionário, num esforço considerável e ineficaz, deu-a como sinônimo de dom.

Eu lembro de duas pessoas que tinham ou têm carisma: Jânio Quadros e Zeca Pagodinho. Era estupendo ouvir o Jânio Quadros discursar. Mas não era preciso ouvir o Jânio Quadros discursar para admirá-lo. Antes mesmo do discurso, ele já era atraente. E no seu discurso, embora suas palavras fossem precisas e suas ideias claras e inteligentes, o que se passava em seu ser durante o discurso, fora das palavras, era o seu grande magnetismo. Jânio Quadros tinha o que se chama de carisma.

O caso do Zeca Pagodinho é ainda mais intrigante. Ele não é melhor cantor de samba do que o foram Jorge Veiga, Germano Matias, Roberto Ribeiro ou João Nogueira. No entanto ele é mais atraente do que todos esses. Emana dele uma aura de simpatia extraordinária. Eu acho que carisma tem muito a ver com autenticidade. É próprio das pessoas que não escondem o que são, mesmo que isso possa parecer extravagante.

No caso do Zeca Pagodinho, ele transmite a ideia de que, mesmo milionário, permanece sendo o malandro carioca simples, pobre, despojado, bebedor, mal trajado, quase sujo, gordo, descuidado, um sujeito autêntico. Ele canta como  qualquer pessoa afinada canta, nada de especial no seu canto, mas emana da sua voz uma sedução ímpar, a voz fica inseparável da pessoa. Zeca Pagodinho possui uma atração estranha, mágica, indecifrável, é a isso que se dá o nome de carisma.

Entre tantas mulheres bonitas reunidas em uma sala ou numa ocasião qualquer, surge de repente uma mulher que não se equipara a nenhuma das outras em beleza, mas é a que chama mais atenção, só não se pode chamá-la de feia porque seduz a todos, como dizia o Lupicínio, “ilumina mais a sala do que a luz do refletor”. Essa é a mulher que possui carisma. Todas as outras belas ficam sendo chatamente belas perto dela, é dela que nós queremos nos aproximar, ela que gostaríamos de amar, viver sempre a seu lado, inebriados pelo seu carisma.

O carisma é irradiante, não é à toa que se dá também a carisma o sinônimo de liderança. É uma confiança que a gente empresta a uma pessoa pelo seu encanto inexprimível, algo que enche o ar de uma fantasia que nos hipnotiza e que não sabemos bem como definir. Carisma também pode significar talento. Já nasceu com a pessoa, independentemente da sua cultura, da sua inteligência, da sua beleza.

É um dote que a pessoa tem e que foi transmitido por Deus, raras são as pessoas a quem foi concedido este atributo. Quase sempre o que vemos numa pessoa que tem carisma é que nós desejávamos ser como ela é, como não é possível, gastamos todo o tempo em aproveitarmos as chances de admirá-la. Carisma em suma é aquilo que possuem as pessoas que jamais serão capazes de cansar-nos ou de chatear-nos.

A competência do coração

26 de outubro de 2012 0

Texto publicado em 05/06/2007.

A menina loira e gentil me atacou na saída do estúdio do Jornal do Almoço, ontem. E disse ter uma grande admiração por mim, há muitos anos lê a minha coluna todos os dias. “Todos os dias?”, pergunto. Ela responde que sim. E diz que a mais bela coluna que escrevi foi lá pelos idos de 1997, cujo título era “A competência do coração”. “Mas será que faz tanto tempo que escrevi aquela coluna?”, indago dela. Ela disse que sabe o dia, o mês e o ano em que foi publicada.

Eu duvido. Ela diz que agora iria fazer uma coisa para que eu não mais duvidasse: recitar a coluna. Duvidei ainda mais. Como ela poderia ter decorado uma coluna inteira e guardado na memória? Ela começa a recitar, palavra por palavra: “O coração não sente ciúme. O coração só ama. Quem sente ciúme é o cérebro. Por isso se diz que o ciúme é coisa da cabeça da gente. O ciúme é um sentimento tão pérfido, que não cabe no coração. O ódio também não é detonado pelo coração, ao contrário do que muito já se disse. O ódio também vem do cérebro. Por isso é que se diz que estamos com a cabeça quente.

O coração só ama. Ternura vem do coração. Tolerância vem do coração. Bondade só vem do coração. Quando alguém trai a quem ama ou estima, é porque o coração foi superado na luta que ele mantém contra os outros órgãos. Não existe mau caráter original. O caráter só será mau quando o coração não tiver influência sobre ele. E será bom quando o coração o tiver envolvido. Tanto prova, que é corrente a expressão ‘mau-caráter’. Mas nunca se ouviu dizer ‘mau-coração’. Porque no coração só cabem as coisas boas. A lixeira do homem está em outras partes, algumas bem notáveis, do seu corpo. No coração não cabe nem um argueiro”.

Eu me quedo perplexo. A mocinha vai recitando sem parar toda a minha coluna. Tive essa experiência em 1998, no Estádio Saint Denis, em Paris. Encontrei, horas antes de França x Brasil, o Chico Buarque no bar do estádio. Como ele não sabia quem eu era, comecei a cantar para ele as suas músicas. Cantei Folhetim, Valsinha, Olê, Olá, Todo o Sentimento. O Chico parecia adorar o que eu estava fazendo, ele não teve dúvidas de que, não fosse gastar o tempo, e eu interpretaria todas as canções dele. Pois a garota estava fazendo o mesmo comigo. Se fosse uma música ou um poema, vá lá que ela tivesse decorado, mas uma coluna! Foi uma coisa que estava me envaidecendo.

Ela continuou: “O coração é a parte nobre do corpo humano, todas as outras são plebeias, porque se conspurcam. A bênção sai do coração, o impropério salta do cérebro. Saudade nasce no coração, rancor vem do cérebro. Quem dispara a lágrima é o coração. Quem dispara o revólver é o cérebro. E sempre se travará a luta, descrita pelos filósofos, entre o cérebro e o coração. E o incrível é que nesta luta, vença quem vencer, a razão sempre está com o coração.

Quando enfrenta o coração, o cérebro perde a razão. ‘E o coração tem razões que a própria razão desconhece’. Razão só tem aquele que tiver coração. Coração só tem aquele que mostrar boa
razão. O cérebro é, portanto, um mero rival do coração. E o homem se corrompe quando o cérebro toma o lugar do coração. Eu às vezes amo tanto, que penso que tenho dois corações, o segundo no lugar do cérebro. Sem cérebro, eu enlouqueço de tanto amar, porque só o cérebro pode travar a corrida alucinada do coração para o amor”.

A menina prosseguia, comigo incendiado de orgulho. Uma garota guardara durante tanto tempo, na memória, todas as frases de uma coluna minha escrita há anos. Comovente. Ela ia recitando com a certeza de que estava me deliciando. E chegou ao fim da coluna como se tivesse cumprido uma difícil tarefa de gincana: “Daí que quem pensa não ama, e quem ama não pensa.

Se o destino tiver que escolher entre me avariar o cérebro ou o coração, que me preserve o coração e dane-se meu cérebro. Mil vezes ser um encefalopata do que um cardiopata. Prefiro vegetar como um idiota, mas tonto de amor”. Bravos, menina! Como posso ter escrito tão bem assim? E como é maravilhoso tocar uma pessoa com o que se escreve a ponto de que ela recite o nosso texto todos os dias para que nunca mais ele lhe saia da lembrança.

O ministro Toffoli

26 de outubro de 2012 0

Fiquei impressionado que o ministro Dias Toffoli, do Supremo, absolveu, em um minuto, sete réus do mensalão.

Para mim e para meus leitores, não causou surpresa: eu afirmara nesta coluna que o ministro Toffoli tinha o dever, antes do julgamento, de declarar-se suspeito e afastar-se da lide, em face de que tinha sido empregado de José Dirceu e por outros motivos que o ligaram no passado ao PT.

***

Pois bem, depois de absolver a maioria dos réus que lhe competia julgar, o ministro Toffoli voltou à carga na etapa da dosimetria das penas: ele insistiu em participar da dosagem das penas.

De início, sua pretensão pareceu escandalosa: como um ministro que absolveu vai querer participar da dosagem das penas?

Logo todos imaginaram que ficaria ridículo o ministro declarando, por exemplo: “Absolvo inteiramente o réu José Dirceu e aplico-lhe a pena de um ano de prisão”.

“Mas como? Ele absolveu e agora apena o próprio réu absolvido por ele?”, se espantariam todos.

Felizmente, colocada em votação a aparente contradição, por maioria os ministros decidiram que os que absolveram não poderiam participar da dosimetria das penas.

***

Só que o presidente do STF, ministro Ayres Britto, votou a favor de que Toffoli participasse da dosagem das penas, foi vencido mas votou.

E Ayres Britto é um monumento de integridade e saber.

Fui, então, tentar reunir grande parte dos meus neurônios para saber quais os elementos favoráveis à tese de que quem absolve deve também e ainda participar do cálculo e aplicação das penas.

***

E pensei comigo: quem absolve um réu, ou teve compaixão dele, ou se convenceu de que ele era inocente.

Como se iria então tirar do ministro que absolveu o réu o direito de continuar julgando, até mesmo na dosagem das penas aos réus condenados?

Como se iria tirar esse direito do ministro, pois, se ele absolveu o réu, o seu intuito foi favorecer o réu – então, ele tem o direito de continuar favorecendo o réu, votando na dosimetria por uma pena o menor possível para o condenado.

Foi assim que concluí. A pretensão do ministro Toffoli, que me parecia antes absurda, tinha agora na minha mente, pelo meu raciocínio, mérito indiscutível.

***

Mesmo assim, a atuação do ministro Toffoli no julgamento do mensalão foi deprimente.

Ele permitiu que todos percebessem quais seriam seus votos antes mesmo de o julgamento ter início, o que por si só já oferece um desconforto ao Supremo e ao próprio ministro.

E ele saiu distribuindo absolvições a granel, obcecado pela indulgência indiscriminada e quase sempre calado, sem expor as razões dos seus pacotes absolutórios.

O ministro Toffoli deu uma lição a todos os magistrados do Brasil de como não deve se comportar um juiz isento.

Lamentável.

Prostituta goza?

24 de outubro de 2012 0

Texto publicado em 28/05/2003.

Três leitores (dois homens e uma mulher) de diferentes pontos do Estado, em datas também diferentes, numa curiosa coincidência, fazem-me a mesma pergunta: prostituta goza? Vou discorrer a pedido deles sobre o tema, sempre presente no imaginário das pessoas.

A prostituição é uma profissão como qualquer outra. As profissões são exercidas através de atos mecânicos, rotineiros, às vezes maçantes. Mas de repente um violonista, em meio a um concerto, é tomado de um êxtase indescritível. Assim também um jornalista, quando acerta na veia em uma matéria ou artigo que escreva, domina-se por um prazer ou orgulho inefáveis. Isso acontece também com as prostitutas, que não raro, ao entregarem a seus clientes o mais profundo recôndito de sua privacidade, de repente, numa ação nada reflexa, despegam-se do automatismo de sua prática e entregam-se ao deleite de uma relação que tinha tudo para ser fria, mas se tornou incidentalmente prazerosa.

Toda prostituta gosta de alguém. Alguém a quem deseja ou alguém que mantém com ela relação permanente, seja o parceiro que a possui amadoristicamente, seja o rufião que a explora. Nesse particular, a prostituta é um singular tipo que tem a seu favor, na relação de ciúme com seu parceiro, a impunidade profissional. O amante de uma prostituta vive atormentado pela dúvida sobre se ela goza ou não goza com seus clientes. E gozar com eventuais clientes é a única forma que a prostituta tem de se vingar do seu amado, a quem ela não perdoa pela sua indiferente permissividade ao mantê-la pública.

Muito frequentemente entram no lupanar dois amigos. Têm toda a postura de serem homens economicamente iguais, ou seja, se porventura vierem a fazer sexo com ela, a recompensarão com a mesma quantia. No entanto, secreta ou ostensivamente, a prostituta faz a sua escolha, preferiria ir para a cama com um deles, o que lhe agradou mais. Essa preferência, nascida de um repente na sociabilidade do prostíbulo, tem tudo para redundar no orgasmo da prostituta na alcova, que ficará tendente a orgulhar-se de que exercitou desta vez, ao contrário do comum, o seu direito de escolha.

É também muito frequente que uma prostituta tenha aquilo que eu denominaria de orgasmo funcional, que também ocorre com a mulher que não ama o marido e vice-versa.

Por outro lado, quase todos os clientes das prostitutas procuram-nas com a esperança de lhes dar prazer. É um desafio gigantesco proporcionar sensação agradável a uma mulher que está movida centralmente pelo dinheiro. Pensam os homens que fazem sexo com elas que o maior galardão que podem atingir é o de provocar orgasmo numa prostituta. Se atingirem esse alvo, alimenta-lhes o ego a perspectiva de que podem ser irresistíveis a todas as outras categorias de mulheres.

Eu escrevi que “quase” todos os homens sonham em proporcionar orgasmo a uma prostituta porque é célebre e proverbial o caso daquele indivíduo que, estando debaixo dos lençóis com uma prostituta, de repente estranhou que ela o enchesse de carícias, gemesse e gritasse lancinantemente de prazer, pelo que interrompeu bruscamente o intercurso e advertiu-a severamente:

– Vamos reiniciar agora, mas desta vez pare com este fingimento escandaloso. Aqui só quem goza sou eu.

Uma pessoa singular

23 de outubro de 2012 0

Os meus amigos mais íntimos e muitas pessoas que me encontram na rua querem que eu pare de fumar e de comer doces. Esses meus amigos e essa parte do público deseja que eu me prepare inteiramente para sofrer.

Apavora-me que a minha sorte, como a de todos, inclusive os leitores desta coluna, esteja todos os dias sendo decidida por uma só pessoa. Uma só pessoa decide, por exemplo, se eu vou ser demitido. Para quem está à procura de emprego, uma pessoa só decidirá se a vaga será preenchida por aquele candidato. Uma pessoa só decide se vai separar-se de mim no casamento. Uma pessoa só, se eu ficar solteiro, decidirá se vai casar-se comigo.

Assim como uma só pessoa decidirá no banco se me será concedido um empréstimo. E se estou sendo operado no hospital, a minha sorte estará sendo decidida por uma só pessoa: o cirurgião chefe. O remédio que tenho de tomar para curar minha doença, será escolhido por uma só pessoa: o médico que procurei. Se eu for assaltado, quem decidirá sobre se me tira a vida ou não é o assaltante único ou o chefe do bando de assaltantes.

Tudo que nos toca vitalmente é decidido por uma só pessoa. Ou seja, nós nos salvamos ou somos condenados pela instância singular, isto é, a primeira instância. Para precaver-se desse risco colossal, a Justiça criou o método de não deixar que um só juiz condene ou absolva uma pessoa. Criou outras instâncias, que não são singulares, são coletivas. Em segunda e terceira instâncias, seremos julgados em votação por vários juízes de um órgão. Desaparece o risco de que uma pessoa só decida pelo nosso destino.

Se isso é um risco, então por que para me parcelar uma dívida impagável, que estragará minha vida se não for parcelada, só uma pessoa decide? É injusto. Em todos os momentos da vida, nas questões importantes, tínhamos de ser julgados por um colegiado. De uma cabeça só, pode não sair uma justa decisão. De várias cabeças também pode não sair uma justa decisão, mas a chance de isso ocorrer é menor. Também por isso a vida encerra grande perigo. Sempre estamos no fio da navalha do juízo singular.

Se você trabalha no serviço público ou na empresa privada, em qualquer organização, e lhe for perguntado se é lá bem aproveitado, responderá com um sonoro não. Isso acontece tanto porque nós superestimamos nossa capacidade quanto porque nossos superiores a subestimam. Tanto melhor e mais próspera será uma empresa ou um serviço público quanto melhor souber aproveitar o talento e os esforços de seus servidores. O perigo de não aproveitá-los é fazer espalhar o desânimo.

A reportagem esportiva estava impagável no rádio, ontem, antes do jogo Caxias x Internacional. 1º repórter: “O público está se dirigindo para o lado do meio (!!!)”; 2º repórter: “Já aqui onde estou, o público se dirige para a porta do portão(!!!)”. Os repórteres de rádio não dispõem da vantagem que tenho nesta coluna, por exemplo: se erro, há sempre alguém que me corrige antes de baixar o jornal.

Texto publicado em 14/04/2008.

Marido e Mulher

22 de outubro de 2012 0

Em princípio, tenho um pé atrás com essas pessoas que apresentam sua mulher assim: “Esta é minha esposa”. Minha desconfiança se deve a que “minha mulher” não tem de ser trocada pela expressão “minha esposa”. É pernosticismo, é afetação chamar “minha mulher” de minha esposa.

Já sei que os objetadores de plantão irão contrapor que, então, as mulheres não devem dizer “meu marido”, e sim “meu homem”. É diferente. No caso, “meu homem” é chocante, porque na nossa língua e no nosso costume vernacular “meu homem” quer dizer “meu macho”. E não fica bem a uma mulher classificar seu marido de seu macho porque, como se sabe, o homem, para a mulher, tem mais de 1001 utilidades do que ser macho. “Meu esposo”, para mim também é uma expressão pedante. A colocação politicamente certa é “meu marido”.

Da mesma forma, desconfio de todas as pessoas, homens e mulheres, que chamam suas empregadas domésticas de “secretária”. Empregada doméstica é uma profissão honrosa, digna, de grande utilidade social. Não precisa da classificação de “secretária”, que é outra coisa completamente diferente. E o pior é que quase todas as pessoas que chamam suas empregadas domésticas de secretárias não lhes dão salários de secretárias, mas sim de empregadas domésticas. Secretária só no nome. Enquanto muita gente que chama suas empregadas domésticas de “empregadas domésticas” paga-lhes o salário superior de secretárias.

Além disso, nesse caso de empregada doméstica e secretária, mulher e esposa, cada dupla de palavras não se constitui de sinônimos, portanto não têm o mesmo sentido. Já a expressão “minha patroa”, no lugar de “minha mulher”, é muito simpática, é a cordial e bem resignada manifestação do marido de que é dominado pela mulher. Exatamente por isso é que soaria muito mal a uma mulher apresentar seu marido como “meu patrão”. Indevido. Porque nenhum marido manda na mulher.

Por sinal, esta palavra “patroa” só se aplica bem no feminino, como mostrei acima. Ninguém gosta de apresentar numa roda alguém como “meu patrão”. Não sei bem por que, mas parece pejorativo a quem é empregado. Eu, de minha parte, desde o tempo em que trabalhei na feira livre até os dias de hoje, em que sou jornalista, apresento meus patrões assim, circunstancialmente, em uma roda:

– Apresento-lhe meu ‘amigo’.

Talvez seja porque nunca consegui trabalhar de empregado de alguém por algum tempo sem torná-lo meu amigo. Sempre que meu patrão deixou de ser meu amigo, pedi demissão de meus empregos. Não tem sentido trabalhar com um “inimigo” ou um “indiferente” como patrão. Só há sentido, principalmente em empresas pequenas, trabalhar para patrão de quem a gente se orgulhe e o mesmo serve para o patrão: tem de se orgulhar de seu empregado. Em caso contrário, vai e vem e se instala o conflito.

Mas os tempos mudaram. E hoje é muito comum que aquilo que é certamente uma relação entre marido e mulher seja classificado assim por um dos dois parceiros: “Apresento-lhe meu namorado”. Às vezes, dura há anos a relação conjugal e os dois se apresentam para o meio social como “namorados”. Os que fazem isso para mim são sábios: têm convicção de que não é perpétua aquela relação e assim se previnem contra o fatalismo quase inarredável da separação. Se nunca se separarem, melhor. Ou pior.

Texto publicado em 12/11/2006.

Guri irresponsável

20 de outubro de 2012 0

Texto publicado em 21/05/2011.

Quando eu era guri e soltava pandorgas, nem passava pela minha cabeça o que seria de mim, o que iria me acontecer neste mistério fantástico da vida. Não tinha medo. Eu apenas vivia, extasiado pela vida, sem me importar com o sentido de viver. Quando eu era guri e soltava pandorgas, não sabia que a vida se dividia entre sofrimentos e venturas. Talvez pensasse até que a vida se resumisse só à infância, que a gente passasse aqui como um anjo, flanando, sem os percalços sérios das vicissitudes.

Quando eu era menino e soltava pandorgas, não me importava andar só. Até acho que me empenhava em estar só, isto é, não conseguia compreender o que entenderia mais tarde: que a solidão tem um punhal afiado que fere fundo. Nada disso. Eu só queria soltar pandorgas e jogar bola de gude. Eu só queria derrubar com uma vara de bambu as cachopas de marimbondos que se dependuravam nos beirais das casas, desfolhando depois aquele papel machê à procura de mel.

Quando eu era guri e soltava pandorgas, todas as manhãs quando eu me acordava, saltava da cama preparado para as surpresas da vida, não sabia que haveria competição, sequer cogitava da luta pela vida, pensava que tudo era um encanto e não haveria pesadelos. Desfrutava da saúde como um bem perene, não passava pela minha cabeça que um dia a saúde enfraquece e a gente tromba com seu tratamento.

Quando eu era menino e soltava pandorgas e jogava bolinha de gude, não tinha ideia de que eu integrava uma família e dia haveria em que eu iria formar a minha própria família. Quando eu era menino e jogava taco com casinha derrubada, era um tempo bom, sem apreensões, que só se tisnou a partir do dia em que comecei a me preocupar com o futuro, com a carreira, com o orçamento, com a previdência.

Eu até penso hoje que a gente tem boas recordações da infância porque quando se é criança não se tem nenhuma responsabilidade. O homem deixa um pouco de ser feliz quando se torna responsável. É aí que ele percebe que tem de prestar contas. Quando menino, a gente não tem encargos, a vida é grátis e nem se imagina que um dia ela vai apresentar as prestações para serem pagas. Vê-se agora que seria bom voltar àquele tempo de criança quando a gente só brincava. E, se por acaso se precisasse de alguma coisa, ela nos era alcançada. Hoje, não, quando a gente precisa de alguma coisa, é a gente que tem de dar um jeito. E é muito difícil dar  um jeito na solidão.

Os sete pecados capitais

19 de outubro de 2012 0

Texto publicado em 15/07/2009.

Ando tão azarado, tão encrencado, tão carregado que, se eu comprar um circo:

1) o anão cresce
2) o gigante encolhe
3) o elefante emagrece
4) os leões e os tigres ficam desdentados
5) o engolidor de espadas tem faringite
6) o equilibrista pega labirintite
7) o palhaço entra em depressão
8) a mulher barbuda se torna imberbe
9) dá tendinite coletiva nos trapezistas
10) por um defeito elétrico-mecânico no carrinho do vendedor, nunca as pipocas espocarão

Por uma classificação tomista (São Tomás de Aquino) mais recente, são estes os sete pecados capitais:

1) Ira
2) Inveja
3) Luxúria
4) Soberba
5) Gula
6) Preguiça
7) Avareza

Meditando bem sobre estes sete pecados principais do comportamento humano, cheguei à conclusão de que não os pratico regularmente.

Mas confesso que já os pratiquei todos. A ira, quando estou eufórico, sobressai-se como meu pior impulso negativo, por vezes me sinto apto a matar ou morrer numa briga de trânsito, principalmente quando vejo algum motorista não respeitar pedestre na faixa de segurança ou quando saio atrás de um motorista que me fechou algumas quadras antes.

A inveja. Decididamente, não sou um invejoso. Sou capaz até de torcer pelo êxito dos outros. Não sei, no entanto, se sou capaz de torcer pelo sucesso de um inimigo ou rival meu. Desconfio que não sou capaz.

A luxúria. Já a tive no grau mais exasperado. Tive febres de concupiscências.

Lembro-me que na mocidade eu praticava os mais extremos atos de luxúria, porém em pensamento. Sonhei muito com lascívia em nível até de cobiçar a mulher do próximo quando eu era rapaz.

Mas nessas minhas tonteiras oníricas de jovem, jamais admiti qualquer ato ou pensamento de luxúria que implicasse a não concorrência da vontade da parceira.

Pensava que era lícita toda a luxúria concorde entre um homem e uma mulher.

Soberba. Eis o pecado capital que mais pratico, tenho quase toda a certeza. Sou megalomaníaco confesso. Conheço mil megalomaníacos, estou cercado por dezenas. Mas todos eles têm pejo de confessar que são narcisistas. Talvez eu o confesse para que possa transitar mais livre e naturalmente a expressão compulsiva da minha autoestima.

Quanto à gula, sou adepto dela em alguns alimentos: sorvete, por exemplo, nunca como menos de um quilo.

Melancia, o mínimo que como é uma inteira. E antes de me tornar diabético furava com um prego duas latas de leite condensado e chupava-as inteirinhas.

Preguiça: este pecado, decididamente, não o pratico.

Avareza: dizem meus filhos e meus netos que sou um bárbaro e atroz pecador nesse item. Na minha defesa, acuso-os de serem mórbidos perdulários.

Conclusão: já me dediquei com afinco a seis dos sete pecados capitais. E quem não pecou ainda com tanta variedade e insistência, que atire a primeira pedra.

Megalomania e insegurança

18 de outubro de 2012 0

Texto publicado em 30/08/2009.

Não sei se o pensamento a seguir transcrito embute uma verdade, mas estou meditando bastante sobre ele: “É melhor morrer crendo do que viver duvidando”. E me inclino a adotá-lo.

Eu não concordo em largar o cigarro, mas se aparecer uma mente brilhante que me argumente lucidamente sobre a vantagem que terei deixando de fumar, cedo e faço o sacrifício da renúncia a esse prazer, digamos assim, quase incomparável.

Acho mesmo que só largaria o cigarro se me ressurgisse de repente, numa esquina da vida, um daqueles templários de priscas eras e me convencesse a substituir o cigarro por algum prazer físico ou espiritual que me fizesse esquecer o cigarro.

Largar o cigarro, só pela substituição. Substituir o cigarro por um grande amor por exemplo. Será? Mas não será que, arranjando um grande e incontrastável amor, terei, por isso mesmo, nervoso, emocionado e inseguro, que fumar mais ainda cigarros do que hoje repelentemente fumo?

O diabo do cigarro é que a gente sempre arranja para que ele se conjugue com outro prazer, com o cafezinho, com o almoço recém saboreado ou até mesmo nos instantes que se seguem aos jogos de amor bem realizados, entre os lençóis.

Por sinal, os lençóis podem servir como excelente combustível tanto para as labaredas do amor quanto para uma brasa caída do cigarro logo após o intercurso ou durante a irrupção do sono, naquele estado de lassidão e languidez que se sucede ao orgasmo.

Por falar em orgasmo, o que vem a ser ele? É mesmo o ápice da excitação? Mas, se é o ápice, isso transmite a ideia de que nada melhor há que o orgasmo na excitação. E, se nada é melhor do que o orgasmo e ele é o ápice, isso não subentende que o orgasmo é também a extinção, o fim da excitação?

E, se o orgasmo é o fim da excitação, se ele extingue a excitação, ele é uma sensação bemvinda ou malvinda? Digo isso porque o ideal seria que a excitação se prolongasse indefinidamente: não fosse interrompida pelo orgasmo. Todo esse meu último e intrincado silogismo sobre o orgasmo se destrói porque dizem os sexólogos que algumas mulheres têm o privilégio de sentir o orgasmo múltiplo, ou seja, uma metralhadora de prazer.

Atenção psiquiatras, analistas, psicólogos e outros terapeutas adjacentes: surgiu-me de repente o raciocínio de que todos os homens, portanto eu e meus leitores incluídos, somos ao mesmo tempo megalomaníacos e inseguros. Dirão alguns terapeutas e filósofos que a insegurança peculiar nossa nasce exatamente da nossa megalomania.

Ou seja, que todos somos megalomaníacos, disso não resta dúvida: todos exacerbamos nossa autoestima. Mas o interessante é que somos megalomaníacos porque no fundo desconfiamos da nossa real capacidade. Então, tiro na mosca: é justamente porque somos megalomaníacos que somos simultaneamente inseguros.

Tiro e queda.

Bálsamo conjugal

17 de outubro de 2012 0

Um amigo meu chegou a um consenso com a mulher: saiu do quarto do casal e passou a dormir em outro quarto da casa. Ambos concordaram que era impossível a convivência entre ele, que é fumante, e ela, que não fuma, no mesmo quarto. Algum tempo depois, ele deixou de fumar. A mulher deixou passar um ano, quando viu que ele não reincidiria mais no antigo vício, propôs que voltasse para o quarto.

Ele voltou para o quarto e 15 dias depois estava fumando novamente. Atualmente, eles estão em quartos separados novamente e ele voltou a deixar de fumar. Mas já faz cinco anos que dormem separados. O meu amigo chegou à conclusão de que a aflição que o levava a buscar no cigarro um bálsamo era justamente originada no confronto direto de temperamentos que o quarto comum provocava. A fricção conjugal que o quarto de casal encerra acaba transtornando marido e mulher, o que pode levar os dois ou algum deles a procurar um vício para atenuar o nervosismo ou a depressão.

Há pesquisas que demonstram que cônjuges que moram no mesmo quarto estão sujeitos a consumir até três maços de cigarros por dia, cada um. Isso foi verificado porque constatou-se que esses maridos, quando se separavam de quarto com a mulher, dias depois baixavam o consumo para apenas dois maços por dia. E os casais que decidiam morar em casas diferentes, embora permanecesse o casamento, fumavam apenas um maço por dia, cada um. Se passassem a morar em cidades diferentes, deixariam de fumar.

Outras pesquisas divulgadas nos EUA atestam que o vício do cigarro pode estar mesmo ligado à convivência conjugal. Há muitos casais que não fumavam enquanto solteiros, adquiriam o vício depois do casamento. Entre os não-fumantes e os ex-fumantes está comprovado que a maior incidência está justamente entre os solteiros ou os que se separaram ou divorciaram-se e não voltaram a casar.Já entre os casados verifica-se uma maior resistência para deixar o vício.

As pesquisas também indicam que só existe um tipo de pessoa que fuma mais que os casados: são os que vivem separações não bem solucionadas, permanecendo os atritos após as desuniões. Entre esses últimos, verificou-se que é quase impossível aos maridos que se separam e pagam pensões alimentícias às ex-mulheres deixarem de fumar. Os fumantes mais compulsivos, podem notar, são aqueles que se separam, pagam pensões alimentícias às ex-mulheres e casam novamente. Os pulmões dessa última categoria são verdadeiras fornalhas de nicotina e alcatrão.

* Texto publicado em 10/10/2004.