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Posts de novembro 2012

Marchinhas de Carnaval

29 de novembro de 2012 0

A história política de Getúlio também foi cantada em marchinhas/Dac/AI-RS
Vocês sabiam que eu sei cerca de 800 marchinhas de Carnaval?


Eis uma, de Haroldo Lobo e Marino Pinto:

Bota o retrato do velho outra vez
Bota no mesmo lugar
O sorriso do velhinho
Faz a gente trabalhar

Eu já botei o meu
E tu, não vai botar?
Já enfeitei o meu
E tu vais enfeitar?
O sorriso do velhinho
Faz a gente trabalhar

A música refere-se a Getúlio Vargas. Depois de 15 anos de governo ditatorial, em que a polícia de Vargas arrancava as unhas dos homens de oposição, nos porões da ditadura, o %22Pai dos Pobres%22 voltou ao poder por meio da democracia, sendo eleito pelo povo.

Além desta, coloco aqui no blog duas marchinhas excêntricas e extravagantes que eu cantei nesta manhã no programa Gaúcha Hoje. Ouçam!

Duas marchinhas excêntricas e extravagantes

Hisória do Brasil em marchinhas

Filosofia do amor

28 de novembro de 2012 0

Ilustração: Bebel
Enquanto não me vem o lombinho assado, vou filosofando no guardanapo da mesa da churrascaria.

O amor não resiste a distância nem à proximidade.

A distância gela-o, a proximidade torra-o.

O amor só sobrevive ao frio temperado ou ao fogo lento.

A certeza é avessa ao amor. A certeza só é apanágio da amizade.

A essência do amor é a dúvida.

A segurança é inimiga do amor.

Para que o amor cresça e se incendeie é preciso que ele corra perigo.

No amor, a consciência da posse tem de estar sempre acompanhada do medo da perda.

Só o medo da perda pode levar ao cultivo cuidadoso da posse.

Só o %22eu te amo%22 não basta como lema do amor. É imprescindível o %22eu te amo cada vez mais%22.

Porque o amor é uma sucessão de degraus, é uma escalada incessante.

A estabilidade da paixão redunda em cansaço e fastio, é o fim do amor.

O amor é um rali, uma gincana, um kerb.

Só um Indiana Jones pode enfrentar as sucessivas armadilhas do amor.

Só os fortes amam, os fracos vão sucumbindo.

Exatamente como no vôo persecutório dos zangões na corrida altista da abelha rainha.

Aquele que cansa do amor, desaba das alturas.

Quem não quiser arriscar-se no jogo perigoso que leva às inefáveis delícias do amor, que permaneça no insosso do chão vegetativo.

E os que se verem tentados a amar, saibam que se atiram à glória ou à desgraça.

À felicidade ou ao abismo.

Se houve impacto especial no beijo ou no olhar, não tem mais volta.


A dor da genialidade

27 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 17/04/2008.

Um dos equívocos mais correntes no mundo moderno é a confusão que se faz com o homem culto, preparado, eficaz nas suas ações particulares e profissionais e o mesmo homem sem nenhum talento e inteligência. Não raro se considera inteligente um equilibrista ou um trapezista que obtêm algum destaque em sua atividade circense mas que nunca obtiveram do público um estrondoso aplauso porque nunca criaram um lance de cabo de aço ou de trapézio em que tenham sido pronunciados o seu talento e sua criatividade de modo a empolgar a plateia ou levá-la ao delírio.

E, na vida real, em todas as profissões, tudo acontece como no futebol: há os jogadores medíocres e há os craques. Já citei o caso de escritores que escrevem durante uma vida inteira, alguns até adquirem prestígio junto a determinado público não diferenciado, mas não vendem seus livros. Houve até aqui no Rio Grande do Sul, poucas décadas atrás, o caso de um escritor muito conhecido que no entanto não era lido pelo público.

Há casos também de jornalistas que passam 50, 40 anos escrevendo em jornais e o público leitor nunca registrou na memória o que escreveram, não se conhece nenhuma frase deles e não se lembra qualquer matéria de sua autoria. São essas pessoas admiráveis que passam pela vida sem destacar-se, mas nem por isso deixam de ser úteis para seus tempos e para seus espaços, nunca alçam voos de águia ou condoreiros, mas seus voos de galinha são insistentes e esforçados.

Essas multidões de medíocres são os donos do mundo, constituem-se em expressivas maiorias em suas colmeias de trabalho, não raro suplantam em mérito e em nome os que não são medíocres e possuem talento, seja pela esperteza delas, seja pelo esforço que mascara a inteligência, seja também porque os raros gênios que vicejam no seu meio ou não são reconhecidos, ou são amassados pelo tropel do rebanho.

Mas quando uma inteligência superior irrompe entre a horda de mediocridade, quando a flor do pensamento superior,
como a aptidão singular para o raciocínio luminoso, surge em qualquer agrupamento humano, então jorra uma
tal luz transcendente sobre esse ambiente restrito que os raios desse brilho ofuscante não só se espalham pelo chão e pelo ar que cerca os integrantes embasbacados dessa coletividade como se arremessam para além do perímetro grupal e vão inundar de sabedoria ou arte, de conhecimento ou talento, de poesia, humor, ciência, outras cidades, os Estados, os países e o mundo.

Só que um gênio só se revela depois de muita dor e sofrimento. E principalmente de muita dúvida que se manifeste sobre ele. Um gênio só se conhece depois que milhares de pessoas garantam que têm talento igual ao dele.

Um dos equívocos
mais correntes no
mundo moderno
é a confusão que
se faz com o homem culto,
preparado, eficaz nas suas ações
particulares e profissionais e o
mesmo homem sem nenhum
talento e inteligência.
Não raro se considera
inteligente um equilibrista
ou um trapezista que obtêm
algum destaque em sua
atividade circense mas que
nunca obtiveram do público
um estrondoso aplauso porque
nunca criaram um lance de cabo
de aço ou de trapézio em que
tenham sido pronunciados o
seu talento e sua criatividade de
modo a empolgar a plateia ou
levá-la ao delírio.

E, na vida real, em todas as
profissões, tudo acontece como
no futebol: há os jogadores
medíocres e há os craques.
Já citei o caso de escritores
que escrevem durante uma vida
inteira, alguns até adquirem
prestígio junto a determinado
público não diferenciado, mas
não vendem seus livros.
Houve até aqui no Rio Grande
do Sul, poucas décadas atrás,
o caso de um escritor muito
conhecido que no entanto não
era lido pelo público.
Há casos também de
jornalistas que passam 50, 40
anos escrevendo em jornais e o
público leitor nunca registrou
na memória o que escreveram,
não se conhece nenhuma frase
deles e não se lembra qualquer
matéria de sua autoria.
São essas pessoas admiráveis
que passam pela vida sem
destacar-se, mas nem por isso
deixam de ser úteis para seus
tempos e para seus espaços,
nunca alçam voos de águia ou
condoreiros, mas seus voos
de galinha são insistentes e
esforçados.

Essas multidões de medíocres
são os donos do mundo,
constituem-se em expressivas
maiorias em suas colmeias de
trabalho, não raro suplantam
em mérito e em nome os que
não são medíocres e possuem
talento, seja pela esperteza delas,
seja pelo esforço que mascara
a inteligência, seja também
porque os raros gênios que
vicejam no seu meio ou não são
reconhecidos, ou são amassados
pelo tropel do rebanho.
Mas quando uma inteligência
superior irrompe entre a horda
de mediocridade, quando a
flor do pensamento superior,
como a aptidão singular para
o raciocínio luminoso, surge
em qualquer agrupamento
humano, então jorra uma
tal luz transcendente sobre
esse ambiente restrito que os
raios desse brilho ofuscante
não só se espalham pelo
chão e pelo ar que cerca os
integrantes embasbacados
dessa coletividade como
se arremessam para além
do perímetro grupal e vão
inundar de sabedoria ou arte,
de conhecimento ou talento, de
poesia, humor, ciência, outras
cidades, os Estados, os países e o
mundo.

Só que um gênio só se
revela depois de muita dor e
sofrimento. E principalmente de
muita dúvida que se manifeste
sobre ele.
Um gênio só se conhece
depois que milhares de pessoas
garantam que têm talento igual
ao dele.


Um dos equívocos
mais correntes no
mundo moderno
é a confusão que
se faz com o homem culto,
preparado, eficaz nas suas ações
particulares e profissionais e o
mesmo homem sem nenhum
talento e inteligência.
Não raro se considera
inteligente um equilibrista
ou um trapezista que obtêm
algum destaque em sua
atividade circense mas que
nunca obtiveram do público
um estrondoso aplauso porque
nunca criaram um lance de cabo
de aço ou de trapézio em que
tenham sido pronunciados o
seu talento e sua criatividade de
modo a empolgar a plateia ou
levá-la ao delírio.

E, na vida real, em todas as
profissões, tudo acontece como
no futebol: há os jogadores
medíocres e há os craques.
Já citei o caso de escritores
que escrevem durante uma vida
inteira, alguns até adquirem
prestígio junto a determinado
público não diferenciado, mas
não vendem seus livros.
Houve até aqui no Rio Grande
do Sul, poucas décadas atrás,
o caso de um escritor muito
conhecido que no entanto não
era lido pelo público.
Há casos também de
jornalistas que passam 50, 40
anos escrevendo em jornais e o
público leitor nunca registrou
na memória o que escreveram,
não se conhece nenhuma frase
deles e não se lembra qualquer
matéria de sua autoria.
São essas pessoas admiráveis
que passam pela vida sem
destacar-se, mas nem por isso
deixam de ser úteis para seus
tempos e para seus espaços,
nunca alçam voos de águia ou
condoreiros, mas seus voos
de galinha são insistentes e
esforçados.

Essas multidões de medíocres
são os donos do mundo,
constituem-se em expressivas
maiorias em suas colmeias de
trabalho, não raro suplantam
em mérito e em nome os que
não são medíocres e possuem
talento, seja pela esperteza delas,
seja pelo esforço que mascara
a inteligência, seja também
porque os raros gênios que
vicejam no seu meio ou não são
reconhecidos, ou são amassados
pelo tropel do rebanho.
Mas quando uma inteligência
superior irrompe entre a horda
de mediocridade, quando a
flor do pensamento superior,
como a aptidão singular para
o raciocínio luminoso, surge
em qualquer agrupamento
humano, então jorra uma
tal luz transcendente sobre
esse ambiente restrito que os
raios desse brilho ofuscante
não só se espalham pelo
chão e pelo ar que cerca os
integrantes embasbacados
dessa coletividade como
se arremessam para além
do perímetro grupal e vão
inundar de sabedoria ou arte,
de conhecimento ou talento, de
poesia, humor, ciência, outras
cidades, os Estados, os países e o
mundo.

Só que um gênio só se
revela depois de muita dor e
sofrimento. E principalmente de
muita dúvida que se manifeste
sobre ele.
Um gênio só se conhece
depois que milhares de pessoas
garantam que têm talento igual
ao dele.


Só pode ser amor

26 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 30/05/2004.

Eu já devia ter pressentido que era amor quando curtia magnífico prazer somente em olhá-la de longe. Eu já devia saber que era amor quando vibrava com seus êxitos e me entristecia com seus embaraços. Eu tinha que ter percebido que era amor quando me sentia invulnerável à solidão se me aproximasse dela a um raio de 20 metros.

Só podia ser amor aquele estremecimento que me percorria todo o corpo quando ouvia sua voz se dirigindo para os outros. E quando num ambiente repleto de pessoas eu passava a não distinguir as feições de todos, vendo-os apenas como vultos expletivos, realçando-se como esplendorosamente icônica sua figura arrebatadora, já naquele tempo eu não deveria ter duvidado de que era amor.

Já era fortemente suspeito que durante as minhas tristezas elas desaparecessem como por um milagre se eu usasse  como antídoto a simples lembrança do seu meigo sorriso. E que, quando diante da visão dela por apenas um segundo, durante o resto do dia os meus passos e gestos se impregnassem de alegre coragem de viver. Ou como naquele dia em que topei abruptamente com ela no estacionamento e fiquei tão ruborizado que parecia estar focado pelo facho de luz emanado da palavra de um profeta.

Não podia ser outra coisa aquela constante palpitação, aquela ruidosa esperança, aquele contentamento ansioso nas manhãs e o meu pulsante e taquicárdico coração vibrando ante a obsequiosa visão de sua esplendente silhueta vespertina. Só podia ser amor a minha alma assim tão cheia de cuidados para preservar o meu segredo, o medo de que minha palavra ou o meu escrito, num escorregão, violassem o esplêndido sigilo do sentimento abrasador que me dominava.

Só podia ser amor que, depois de ela ter surgido luminosa na escarpa da caverna da minha solidão, eu deixasse de me entregar ao exercício fastidioso da comparação. Ninguém ou nada mais se equivalia ou se assemelhava a ela, mãe, irmã, parceira, namorada, companheira. Cheguei loucamente a pensar que a única cidadela capaz de manter íntegro aquele meu frágil amor inconfessável era mantê-lo em segredo, imune ao conhecimento dos outros e até mesmo  incrivelmente dela. Dar a conhecê-lo arrastaria ao tremendo risco de fazê-lo soçobrar ali adiante, presa fácil do fastio da convivência ou de uma resposta contundentemente adversa.

Ah, silencioso amor cheio de delícias e ilusões. Precavido amor que não se declara com medo da quebra do cristal. Ah, amor que quanto mais distante mais crescente, quanto mais errante mais certeiro, quanto mais secreto mais ditoso, quanto mais expectante mais real, quanto menos empírico mais ideal, quanto menos dela mais meu, quanto mais irrealizado mais duradouro, quanto mais prometido mais honrado. Quanto menos compartilhado, mais definitivo. Amor por eleição, tão alto, tão profundo, tão desinteressado que não importa sequer o que faça dele e do seu mandato a sua eleita. Nem que o malbarate por não pressenti-lo.

Minha máxima culpa

25 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 02/04/2000.

Por que, diabos, tudo que me dá prazer ou me proporciona felicidade sempre vem acompanhado de culpa? Se como doces, o que me significa suprema delícia, como-os com culpa, eles podem fazer subir perigosamente minha glicemia. Não há para mim nada que se compare em sabor gastronômico àquela faixa litorânea de gordura de uma picanha. Mas a sensação de culpa colesteroliana que me invade quando estou mastigando a gordura da picanha me leva direto ao corredor espiritual da morte.

Se fumo, envergonho-me de dizer que é o maior dos meus prazeres, então se desata sobre mim uma culpa dantesca, uma culpa de Pilatos que vai me levar para o inferno logo depois do enfisema. Tudo que extasia os meus sentidos provoca-me culpa. E tudo que encantou o meu coração acabou em culpa.

A vez primeira que amei, por exemplo, aquele amor desmedido, crescente, correspondido, eternamente inesquecível, tanto que até hoje sinto o perfume das plantas silvestres que nos envolviam quando deitamos sobre a relva e nos beijamos furiosamente contra o chão. E já faz 30 anos! Pois carrego daquele amor a culpa da traição. Traí-a miseravelmente, abandonei-a, sem perceber que estava eu próprio me abandonando para sempre.

As outras vezes todas e poucas que amei com desvario me inculparam de todas as formas. Todos os meus casos de amor terminaram por culpa minha. Culpa de não ter tempo, culpa da desatenção, culpa por insistir na brasa da lubricidade quando tinha de aquecer só com o fogo da ternura. Eu me declaro culpado aqui neste tribunal, perante todos os juízes e jurados, de ter desperdiçado, por desaviso ou loucura, todos os grandes amores que o acaso me proporcionou. Eu só fui o culpado. E a pena que os senhores têm de aplicar é a mais terrível de todas as penas, não há no inferno alguma que se a equipare. É a pena que já estou cumprindo, mas que deve ser agora decretada como perpétua por vós, meus julgadores: a pena da solidão.

Quem não soube amar, quem deixou escapar a magnífica oportunidade de amar para sempre e cada vez mais, tem que, como eu, ser condenado à solidão. Quem, como eu, permitiu quase sempre que o abandono, o desdém sincero ou o desdém fingido dessem lugar paulatinamente ao fastio merece o castigo máximo: a solidão. Quem, como eu, não entendeu que, se era necessário trair, havia que traí-la com ela própria, reinventando-a nos meus braços, na minha fantasia e nos meus sonhos, merece a pena letal da solidão.

Quem, como eu, não teve o engenho de preenchê-la no que lhe faltava, de socorrê-la de seus medos com a minha coragem ou de encorajá-la a me livrar dos meus medos, merece cumprir a pena amarga e terrível da solidão. E é porque eu sempre cumprirei a maldição que sobre mim foi atirada de nutrir culpa por tudo que me maravilha que hoje vago em andrajos e tonto pela vida que me sorriu sedutoramente e desdenhei. Por minha culpa, minha máxima culpa, minha clara e inequívoca culpa, é que vou purgar até o meu fim a farsa que fui e o esplendor do que deixei de ser.

A magia dos pés

24 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 22/12/2002.

É imprescindível esmalte nas unhas do pé, das mãos nem tanto. São indispensáveis dedos simétricos, tanto nos pés como nas mãos. O dedão do pé não pode ser exatamente um dedão redondo e largo, tem de guardar uma justa proporção geométrica com os outros quatro dedos, sem agredi-los pelo vulto. É preferencial que o pé seja pequeno ou médio, embora se encontre sem muito grande frequência pés grandes de harmonia estética e apelo afrodisíaco consideráveis.

O dedo limítrofe do dedão, sob pena de sacrilégio e veto inapelável, não poderá jamais exceder em comprimento ao dedão. E os três dedos seguintes irão gradativa e discretamente diminuindo de comprimento na relação de um com o outro, até o quinto dedo, que terá de ter a graça desafiadora de uma cereja. O corte das unhas dos pés tem de ser desenhado em linha convexa, isto é, com curva mais elevada no meio que nas bordas. Fica fora de concurso o pé que contenha unhas cortadas em linha reta, do tipo para não encravar. Não há nada mais desanimador.

Há pés tão encantadores e espirituais que o aperto de mãos deveria ser dado com eles. Se os olhos são as janelas da alma, os pés são os portais do instinto. Os pés são a credencial da sensualidade, as outras partes do
corpo se constituem apenas em insígnias suplementares. Os pés têm tal poder hipnótico que, quando dotados de sedução irresistível, fazem emanar uma tal atração que não resta outro recurso aos seus espectadores, mesmo que nenhuma palavra tenha sido ainda pronunciada, senão sucumbirem de paixão. E esta paixão será mais duradoura que as outras paixões todas, porque os pés têm a capacidade incrível de envelhecer menos ou quase nada na relação com os outros redutos corporais. A lascívia pelos pés é eterna.

As sandálias são os biquínis dos pés, porque os desnudam. Os sapatos são os véus dos pés, porque os ocultam sedutoramente. Conheço maníacos de pés que se apaixonam por sapatos de salto alto, basta-lhes curtir o delírio lúbrico do imaginário concupiscente dos pés que os portam ou portaram. O pecado ancestral da escultura e da pintura foi não ter dado relevo aos pés. Só recentemente a moda vingou-se desse cochilo monumental dos mestres das artes plásticas, criando graciosos modelos de calçados femininos, que realçam a importância e o destaque dos pés na sensualidade da mulher.

A julgar pelos novos anéis de dedos dos pés que estão sendo lançados aos magotes, os anéis e alianças de silicone para os dedos dos pés, as tatuagens de hena, as tornozeleiras que vão acabar tornando superadas as pulseiras, esses emergentes e luzidios adereços que irrompem vitoriosos nos pés femininos, em breve as joias mais cintilantes e mais caras se transferirão dos pescoços, dos dedos da mão e dos pulsos femininos para os pés. Isso só demonstra que nós, os ardorosos amantes dos pés, os fanáticos podófilos de todos os tempos, é que estávamos com a razão. O mundo descobriu finalmente a nossa secreta e deliciosa usufruição. E o nosso fetiche privativo virou finalmente uma mania universal.

A arte de esperar

23 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 29/04/2011.

Agente tem de se conformar com o engarrafamento. Em realidade, a vida é feita de espera. A primeira vez que esperei de verdade foi quando, moço ainda, comprei o meu primeiro imóvel: um apartamento para morar com a família. O prazo de pagamento era de 20 anos (240 meses). Era no tempo em que havia o Banco Nacional de Habitação, uma forma para facilitar a aquisição da casa própria. Mas vejo só agora o horror: levar 20 anos para adquirir um imóvel. Acho que foi ali que aprendi a esperar.

Esperei para me formar em Direito, levei 10 anos. Esperei para ser delegado de Polícia, fui inspetor de Polícia durante 17 anos. Esperei para ter filhos; depois de longa espera, esperei para ter netos. Antes de ter carro, esperei durante muitos anos o ônibus; antes, quando ainda criança, esperava o bonde. Espero que cozinhem minhas comidas, espero que gelem minhas bebidas. Plantei um abacateiro e esperei muitos anos para que ele desse abacates. Esperei durante cinco horas, num nervosismo ímpar, para subir ao palco com Julio Iglesias. Esperei durante muitos anos para que trocassem minha coluna das páginas de esporte para esta página na qual agora me encontro. Deus sabe que espera angustiante.

Vejo só agora, neste balanço de esperas, que sempre houve desfecho para todas as minhas esperas. E estranhamente concluo que foram bons os desfechos de todas as esperas, com raras exceções. Nunca esperei ser rico, por exemplo. Ou apostar na Mega Sena, como aposto, é esperar uma fortuna? Acho que não: entre as esperas não se pode incluir os sonhos. Esperar é uma coisa, sonhar é outra. Esperar implica alguma materialidade no desejo. Sonhar já entra noutra esfera. É tão grande o que se pretende, que nem se exige do destino que ele nos dê tamanho contentamento. Ou euforia.

Em verdade, lhes digo, das coisas que me aconteceram na vida, uma só, uma única não esperei: a velhice. Ela foi chegando sorrateiramente, sem prenúncio, sem aviso, com leves indícios: uma vontade de não tomar banho pela manhã foi o primeiro pipocar da velhice. Logo em seguida, foi uma dificuldade em sair do táxi, as dobradiças do corpo da gente parecem que estão enferrujando. E as moças, em toda a parte que se vai, começam a nos chamar de“senhor”.

Velhice não tem espera, ela ataca à traição.Velhice é a pior doença. E ela ainda carrega consigo a pior maldição: é quando se tem pela primeira vez a ideia da morte. Mas esperar é sempre não a minha sina, mas a de todas as pessoas. Esperar que a pessoa amada diga sim.

Esperar de quem nos ofende gratuitamente uma explicação. Esperar que nunca um amigo pronuncie uma recusa. E uma espera que confesso me consumiu sempre em toda minha vida: a espera de uma reconciliação. Há ex-amigos que morreram brigados comigo, foi em vão a espera de que tivéssemos feito as pazes. Muito triste, desolador… A vida só é feita de esperas. Desde as mais curtas até as mais longas. E a mais dolorosa, a pior de todas as esperas, é a inútil.

Fórmula chinesa

22 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 08/12/2006.

Ando seguindo algumas novas e sedutoras regras para atingir a felicidade. A felicidade está localizada nas coisas mais simples da vida. Por exemplo, se algum leitor ou leitora quer conceder-me um instante de máxima felicidade, é só me convidar para um sítio ou uma casa de campo e fazer-me reviver um dos momentos mais felizes da minha vida: aquele em que eu puxava do fundo de uma cacimba um balde, amarrado a uma corda, cheio de água cristalina.

Se me querem ver feliz, convidem-me para arrancar com um balde do ventre da terra alguns litros de água. Não há no mundo uma água mais fresca que aquela vinda num balde do fundo de um poço. Tanto não há água mais fresca e gelada que a água de cacimba, que antigamente se descia num balde uma melancia até o fundo do poço e lá se a deixava por uma hora: e a melancia era devorada geladinha pela família.

Tirar água de cacimba, a gente mesmo entrar na casa da gente pela porta dos fundos, pode-se negar esmolas durante o ano inteiro, mas chega um dia em que se dá uma esmola de R$ 50 a um mendigo. É de se ver o contentamento de quem recebe uma esmola desse vulto, só que a alegria de quem dá uma esmola dessas é incomparavelmente maior do que a de quem a recebe. São essas coisas simples e serenas da vida os sólidos alicerces da felicidade. Uma cacimba, uma porta dos fundos, uma grande esmola.

Eu, por exemplo, tenho um conhecido que é um homem muito milionário. Tanto, que ele tem um jatinho. Pois nunca vi esse meu conhecido feliz e realizado dentro do seu jatinho. Ele só se mostra feliz e realizado quando está de chinelo de dedos, ali na simplicidade do seu traje e na vagabundagem da sua postura é que ele se sente feliz. Então, a felicidade se encontra nos momentos serenos e sem sofisticação.

Só se pode ser feliz quando soubermos, pela busca da simplicidade, afastarmo-nos da preocupação. Só se pode ser feliz se não nos desiludirmos. E para não nos desiludirmos é preciso claramente que não tenhamos ilusões. E é também uma regra infalível para atingirmos a felicidade que não nutramos esperanças disparatadas ou sonhos extravagantes. Só assim não haverá como nos decepcionarmos com a vida e o destino, imprecando contra a nossa sorte. Se não ambicionarmos uma grande sorte, de que forma poderemos arrasar-nos com o que nos for dado ou sobrevier brutalmente no decurso de nossa vida?

Sendo assim, estou definitivamente inclinado a seguir a principal linha da filosofia chinesa: um alheamento, um total distanciamento daquilo que se considera as coisas mais importantes na vida. E por conseguinte uma fixação nas coisas mais simples, singelas e aparentemente não decisivas da vida. Por esse desprendimento mental e postural é que, enquanto no Ocidente há tantos loucos, que os encarceramos nos manicômios, na China os loucos são tão raros, que são estimados, queridos, apreciados e quase endeusados. Os loucos são raros nos lugares em que se sabe viver.

Volto hoje para o Jornal do Almoço, para o Sala de Redação e para o Gaúcha Hoje. E segue a vida enquanto ela vai triunfando sobre a morte.

Ando seguindo algumas
novas e sedutoras regras
para atingir a felicidade.
A felicidade está
localizada nas coisas mais simples da
vida. Por exemplo, se algum leitor ou
leitora quer conceder-me um instante
de máxima felicidade, é só me
convidar para um sítio ou uma casa
de campo e fazer-me reviver um dos
momentos mais felizes da minha
vida: aquele em que eu puxava do
fundo de uma cacimba um balde,
amarrado a uma corda, cheio de água
cristalina.
Se me querem ver feliz, convidemme
para arrancar com um balde do
ventre da terra alguns litros de água.
Não há no mundo uma água mais
fresca que aquela vinda num balde do
fundo de um poço.
Tanto não há água mais fresca e
gelada que a água de cacimba, que
antigamente se descia num balde
uma melancia até o fundo do poço e
lá se a deixava por uma hora: e a
melancia era devorada geladinha pela
família.
t
Tirar água de cacimba, a gente
mesmo entrar na casa da gente pela
porta dos fundos, pode-se negar
esmolas durante o ano inteiro, mas
chega um dia em que se dá uma
esmola de R$ 50 a um mendigo. É de
se ver o contentamento de quem
recebe uma esmola desse vulto, só
que a alegria de quem dá uma esmola
dessas é incomparavelmente maior
do que a de quem a recebe.
São essas coisas simples e serenas
da vida os sólidos alicerces da
felicidade.
Uma cacimba, uma porta dos
fundos, uma grande esmola.
t
Eu, por exemplo, tenho um
conhecido que é um homem muito
milionário. Tanto, que ele tem um
jatinho.
Pois nunca vi esse meu conhecido
feliz e realizado dentro do seu jatinho.
Ele só se mostra feliz e realizado
quando está de chinelo de dedos, ali
na simplicidade do seu traje e na
vagabundagem da sua postura é que
ele se sente feliz.
Então, a felicidade se encontra nos
momentos serenos e sem
sofisticação.
t
Só se pode ser feliz quando
soubermos, pela busca da
simplicidade, afastarmo-nos da
preocupação.
Só se pode ser feliz se não nos
desiludirmos. E para não nos
desiludirmos é preciso claramente
que não tenhamos ilusões.
E é também uma regra infalível
para atingirmos a felicidade que não
nutramos esperanças disparatadas
ou sonhos extravagantes.
Só assim não haverá como nos
decepcionarmos com a vida e o
destino, imprecando contra a nossa
sorte.
Se não ambicionarmos uma grande
sorte, de que forma poderemos
arrasar-nos com o que nos for dado
ou sobrevier brutalmente no decurso
de nossa vida?
t
Sendo assim, estou definitivamente
inclinado a seguir a principal linha da
filosofia chinesa: um alheamento, um
total distanciamento daquilo que se
considera as coisas mais importantes
na vida. E por conseguinte uma
fixação nas coisas mais simples,
singelas e aparentemente não
decisivas da vida.
Por esse desprendimento mental e
postural é que, enquanto no Ocidente
há tantos loucos, que os
encarceramos nos manicômios, na
China os loucos são tão raros, que são
estimados, queridos, apreciados e
quase endeusados.
Os loucos são raros nos lugares em
que se sabe viver.
t
Volto hoje para o Jornal do Almoço,
para o Sala de Redação e para o
Gaúcha Hoje.
E segue a vida enquanto ela vai
triunfando sobre a morte.

Ando seguindo algumas
novas e sedutoras regras
para atingir a felicidade.
A felicidade está
localizada nas coisas mais simples da
vida. Por exemplo, se algum leitor ou
leitora quer conceder-me um instante
de máxima felicidade, é só me
convidar para um sítio ou uma casa
de campo e fazer-me reviver um dos
momentos mais felizes da minha
vida: aquele em que eu puxava do
fundo de uma cacimba um balde,
amarrado a uma corda, cheio de água
cristalina.
Se me querem ver feliz, convidemme
para arrancar com um balde do
ventre da terra alguns litros de água.
Não há no mundo uma água mais
fresca que aquela vinda num balde do
fundo de um poço.
Tanto não há água mais fresca e
gelada que a água de cacimba, que
antigamente se descia num balde
uma melancia até o fundo do poço e
lá se a deixava por uma hora: e a
melancia era devorada geladinha pela
família.
t
Tirar água de cacimba, a gente
mesmo entrar na casa da gente pela
porta dos fundos, pode-se negar
esmolas durante o ano inteiro, mas
chega um dia em que se dá uma
esmola de R$ 50 a um mendigo. É de
se ver o contentamento de quem
recebe uma esmola desse vulto, só
que a alegria de quem dá uma esmola
dessas é incomparavelmente maior
do que a de quem a recebe.
São essas coisas simples e serenas
da vida os sólidos alicerces da
felicidade.
Uma cacimba, uma porta dos
fundos, uma grande esmola.
t
Eu, por exemplo, tenho um
conhecido que é um homem muito
milionário. Tanto, que ele tem um
jatinho.
Pois nunca vi esse meu conhecido
feliz e realizado dentro do seu jatinho.
Ele só se mostra feliz e realizado
quando está de chinelo de dedos, ali
na simplicidade do seu traje e na
vagabundagem da sua postura é que
ele se sente feliz.
Então, a felicidade se encontra nos
momentos serenos e sem
sofisticação.
t
Só se pode ser feliz quando
soubermos, pela busca da
simplicidade, afastarmo-nos da
preocupação.
Só se pode ser feliz se não nos
desiludirmos. E para não nos
desiludirmos é preciso claramente
que não tenhamos ilusões.
E é também uma regra infalível
para atingirmos a felicidade que não
nutramos esperanças disparatadas
ou sonhos extravagantes.
Só assim não haverá como nos
decepcionarmos com a vida e o
destino, imprecando contra a nossa
sorte.
Se não ambicionarmos uma grande
sorte, de que forma poderemos
arrasar-nos com o que nos for dado
ou sobrevier brutalmente no decurso
de nossa vida?
t
Sendo assim, estou definitivamente
inclinado a seguir a principal linha da
filosofia chinesa: um alheamento, um
total distanciamento daquilo que se
considera as coisas mais importantes
na vida. E por conseguinte uma
fixação nas coisas mais simples,
singelas e aparentemente não
decisivas da vida.
Por esse desprendimento mental e
postural é que, enquanto no Ocidente
há tantos loucos, que os
encarceramos nos manicômios, na
China os loucos são tão raros, que são
estimados, queridos, apreciados e
quase endeusados.
Os loucos são raros nos lugares em
que se sabe viver.
t
Volto hoje para o Jornal do Almoço,
para o Sala de Redação e para o
Gaúcha Hoje.
E segue a vida enquanto ela vai
triunfando sobre a morte.

Carta de princípios

21 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 15/11/2009.

Esta coluna, escrevia quinta-feira pela madrugada, enquanto lutava contra a insônia, elucubrando sobre a vida e sobre a minha vida.

Deixem que eu diga aos leitores que é uma das melhores colunas que escrevi em minha vida, ótimas assim como esta sempre foram as colunas que escrevi quando a vigília vencia o sono. Deliciem-se, leitoras, banqueteiem-se com este texto aí debaixo. É a minha homenagem aos assinantes deste jornal ao qual sirvo com lealdade há 38 anos. Quando dei esta coluna para Fé Emma lê-la, ela caiu em pranto. Ei-la:

Eu sonho ser generoso com todos de quem eu me apiede. Eu desejo instalar em meu coração um plantão permanente de caridade e solidariedade. Eu preciso me abrir a todos que choram, suplicam ou sofrem silenciosamente. Eu necessito me render aos que precisam de amparo, estendendo-lhes minha mão e meu auxílio. Porque não há outro sentido na vida que não seja viver para os outros.

Deus me livre de pensar em mim antes de dirigir meu pensamento ao próximo. Antes de acusar, tenho de perdoar. Antes de condenar, tenho de me colocar no lugar de quem está sendo julgado e me persignar como benevolente. Antes de virar as costas, tenho de enfrentar. Em vez de invejar, tenho de compreender. Em vez de agredir, devo acariciar. Em vez de fugir, abraçar. Em vez de contornar, inteirar-me. Em vez de recuar, cumpre-me progredir. Até que eu chegue à perfeição de amar quem me odeia e servir a quem me trata com desdém. Até que eu chegue à perfeição de corar quando alguém me agradeça e de encher de mesuras a quem me vilipendia.

Que eu nunca me envergonhe de ser bom e jamais deixe de estar pronto para uma generosidade. Que eu nunca me afaste dos bons e jamais deixe de tentar dissuadir os inclementes. Que eu nunca me impeça de dividir com os outros o que tenho, mesmo que seja pouco, ou muito, mesmo que depois me venha a fazer falta. Que eu impulsione mais ainda quem está subindo e faça tudo para conter e reverter quem está caindo.

Que eu nunca me afaste dos bons e dos maus, dos primeiros para imitá-los, dos segundos para tentar regenerá-los. Que eu seja assim, benévolo, condescendente, piedoso, construtivo, diligente no bem e corajoso e compreensivo quanto ao mal. Que eu sempre tente e nunca desista de estimular os bons e mitigar os maus. A quem me dedicar inveja, que eu a traduza como admiração. A quem possivelmente me dedicar ódio, que eu o traduza tão somente por incompreensão. Para que eu possa antes de morrer, altivo, gritar aos que testemunharam este meu tipo de conduta, gritar a todos bem alto: “Não abro mão do céu”.

Só Freud explica

14 de novembro de 2012 0

Ilustração: Fraga
Preparem-se agora para ler uma das maiores colunas que já escrevi nestes meus 30 anos de Zero Hora. Urdi-a ontem à tarde em meu intelecto, em cima de uma recordação.

Lembro-me do dia em que a avistei e decidi que tinha de ser minha. Exuberante mulher, cujos encantos físicos iam ainda mais ser realçados, depois que conversamos, pela sua extraordinária sensibilidade, aliada a uma aguda inteligência. E dançamos, dançamos, toda a noite, no bar noturno da orla de Ipanema, antes de chegar ao pequeno morro da Praia do Espírito Santo.

E quanto mais dançávamos, mais nos enamorávamos: há uma estranha e divina cumplicidade de paixão na harmonia dos passos dançarinos de qualquer parelha que deslize por uma pista musical. E parecia que eu dançara com ela nos últimos 10 anos inteiros, tal a desenvoltura espontânea dos nossos passos simétricos e simultâneos. E quando tocava a nós dançarmos um bolero, então nossos corpos eram tomados de um êxtase subcutâneo que nos fazia adivinhar estarem ardendo as nossas entranhas, centelhas de fogo romântico tostavam nossos corações enternecidos.

Quando depois de várias horas de dança devotada fomos beber algo na mesa, estávamos exangues, como se todo o combustível daquele amor repentino e profundo tivesse se esgotado na realização. Foi quando conversamos muito, olhos nos olhos. E ela me disse que eu acabara de conquistá-la. Iam já lá pelas três da madrugada, hora máxima talvez para que os casais das aventuras noturnas se recolham à alcova concupiscente.

Ela me disse: %22Pronto, chegaste onde querias. Eu já te amo. Faze de mim o que bem quiseres%22.

Quando saímos do bar, olhei a praia e vi o que Olavo Bilac registrou naquele soneto célebre: a Via Láctea como um pálio aberto cintilava… Não havia outra forma de coroar aquele encontro memorável que não fosse o conúbio carnal. Ela estava entregue. E eu era senhor absoluto da situação. Foi quando lhe fiz a pergunta incrivelmente ainda decisiva: %22Tu és casada, noiva, tens namorado?%22 E ela me respondeu que não era nenhuma das três coisas, que era uma mulher absolutamente livre, nenhum homem a tocava naquele momento, nem nos últimos meses.

Nunca tive maior decepção. Quase dilacerado, expliquei meu drama e minha recusa:

%22Querida, vou então deixar-te em casa. Nada de mais acontecerá entre nós que já não tenha acontecido nesta noite maravilhosa em que nos apaixonamos dançando. É que, se não és casada, não és noiva e não és namorada, eu não sinto nenhum ímpeto em te amar. Eu só me empolgo com uma aventura amorosa, eu só me entusiasmo com uma paixão quando há uma terceira pessoa que afete prejuízo por meu ato.

Eu sou um inveterado, um fanático curtidor de triângulos. É preciso, urgente, minha querida, que arranjes um namorado. Mas é necessário também que te envolvas com este namorado até a medula para que eu possa me arremessar sobre ti com toda a força da minha paixão e a intensidade do meu amor, mais, é claro, a volúpia do meu sexo. Arranja depressa um namorado para que demos um fim retumbante a esse nosso caso%22.

E ante a estupefação daquela mulher espetacular, que suplicava que eu lhe explicasse meu gesto de insânia, ainda eu disse uma frase antes de levá-la embora para sua casa:
— Se eu não traio, não me atraio.


Texto publicado em 10/10/2001 em Zero Hora

A magia dos boleros

12 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 12/10/2001

O Zê, que junto com o Claiton Franco e o Gago animam agora as noites do Maloca Querida, na Cristiano Fischer, deveria conhecer, quando acompanha com seu violão sapeca e talentoso aqueles boleros cantados com emoção naquela sala, que este colunista tem em sua bagagem musical um episódio de lembrança preciosa e inesquecível: para que saiba com quem está tratando, cantei no Jornal do Almoço, há uns oito anos, o bolero Contigo Aprendi, o mais célebre de todos os boleros, de autoria de Armando Manzanero.

E sabem quem me acompanhou no piano este bolero magnífico? Nada mais, nada menos que o legendário Armando Manzanero, não só autor daquele bolero que cantei com ele, mas também compositor de outra página memorável do cancioneiro mexicano, que é o bolero Esta Tarde Vi Llover.

Esta tarde vi llover
Vi gente correr
Y no estabas tu

E tantas outras músicas que fizeram de Manzanero uma relíquia cultural e folclórica do México e da América.

Agora, imaginem o Zê e os leitores o meu êxtase ao cantar ao piano do próprio Manzanero a sua canção mais bela, a mais estupenda canção do imaginário daquele miúdo, quase anão, criador de tantos e tão talentosos números musicais.

Armando Manzanero é um índio maia, nascido na província de Yucatán, ali mesmo onde está encravada Cancún.

Deve ser homem de seus 70 anos, mas o naipe índio da sua pele e do seu sangue fazem-no parecer um homem de 40 anos.

A sua vozinha insinuante e emocionada faz adivinhar que é um homem de extraordinária sensibilidade. Toda a sua obra conta casos de amor, ele tece a melodia e os versos de seus poemas musicais em cima de um único tema: o amor.

E ele cantava um verso do Contigo Aprendi e eu cantava outro. Deixei para ele o agudo supremo da música, o tom era alto, eu podia me quebrar.

Mas ele me concedeu o fecho, quando então enchi os pulmões e pronunciei: “ E contigo aprendi/ que yo nasci nel dia em que te conoci”.

Restei em lágrimas quando terminou, porque não é qualquer dia que se canta em companhia daquele gigante da música romântica latino-americana.

Da mesma forma, naquela noite que ameaçava chuva, no Beira-Rio com 50 mil pessoas, pode o Zê imaginar qual era o meu nervosismo quando Julio Iglesias, depois de ter cantado oito músicas, disse assim no microfone: “ Quiero llamar al palco um gran amigo, Pablo Sant’Ana”.

Eu vim lá do camarim e via estrelas, não enxergava aquela multidão à minha frente.

E cantei com Julio Iglesias As Veces si, as Veces no, cantei não tão bem quanto no ensaio que tivera com ele no mesmo palco pela tarde, quando o grande cantor espanhol chegou a se entusiasmar com meu desempenho.

Mas na hora do espetáculo, eu que lia a letra da música por não sabê-la de cor, em face das luzes intensas que se jogavam dos spots sobre o palco, não podia distinguir bem a letra e me atrapalhei um pouco. Mas Julio me ajudou e chegamos ao fim da música sob os aplausos do público e o som potente da orquestra.

Então, Zê, calma lá quando tu e o Cleiton vierem me dar carteiraços com estes boleros com que vocês encantam o público daqui de nossa capital.

Calma lá, que eu sou cobra criada, eu sou vinho de outra pipa, eu não sou um qualquer, eu já cantei com Julio Iglesias, com Armando Manzanero ( sabem os conhecedores que este é um privilégio impagável), eu já cantei com Alcione, com Caubi Peixoto, com Simonal, com Jamelão, com Cartola, com Lupicínio, eu já cantei com nomes que fizeram e fazem a história da canção brasileira e americana.

Por isso, quando eu entrar na roda de boleros e de sambas de vocês, Zê, façam uma reverência. Porque aí vem Pablo, porque chegou Pablo, que nasceu para encantar os videntes e dar luz aos cegos em matéria de música popular, setor em que conheço até rengo sentado.

Está bem que vocês, Zê, são profissionais e se esmeram em suas interpretações.

Mas o que admira em Pablo, o que espanta em Pablo, é que ele é um cantor amador, como vocês bem sabem pelas rodas de música de que seguidamente participamos, que ninguém supera Pablo em repertório raro – e para vocês inédito – nem ninguém consegue superar Pablo em músicas tiradas do fundo do baú, simplesmente porque tenho 2,5 mil músicas decoradas, que vão do tempo de Noel Rosa, passando por Discépolo, até João Nogueira.

Então, calma lá, que quando eu entrar no recinto, curvem-se e façam uma reverência. Porque Pablo, vocês sabem, é uma grande referência.

A parte do leão

11 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 12/01/2002:

A princípio ninguém acreditou, mas em seguida a verdade alarmante foi divulgada para todo o Brasil: em cada litro de gasolina, os Estados arrecadam R$ 0,50 de ICMS.

Não dá para crer: aqui no lado da Zero Hora a gasolina comum está sendo cobrada a R$ 1,59, um dos preços mais baratos do Estado. Pois só de ICMS o governo estadual fatura cerca de 34% de imposto sobre este valor de venda. Ou seja, mais de um terço do preço que o consumidor paga pela gasolina é destinado aos cofres estaduais.

Ou seja, os cofres estaduais ganham sobre a gasolina mais do que os Emirados Árabes. E ganham sem ter tido qualquer relação com o produto, sem tocá-lo, sem risco e gasto algum de distribuição e comercialização. Não é aqui no Rio Grande do Sul, é em todo o Brasil.

Se se for contar em qualquer parte do mundo que isso acontece no Brasil, as pessoas se escabelarão. Porque não pode num produto qualquer, exceção feita ao cigarro, que uma só esfera fiscal ganhe sobre sua venda a parte do leão, no caso um terço sobre o valor total, justamente aquele setor arrecadador que nada tem a ver de intrínseco com a produção e venda desse produto, nenhuma relação com o insumo.

A conclusão a que se chega é de que a fortuna que os governos estaduais estão arrecadando com a gasolina é algo colossal. De tirar qualquer governo da dificuldade, é um paraíso fiscal em que os funcionários públicos, por exemplo, têm de ter imediatamente 100% de aumento em seus vencimentos, em que não pode faltar remédio para os doentes e o tratamento de saúde gratuito tem de ser em nível de Primeiro Mundo.

Porque este é apenas um dos inúmeros itens de incidência do ICMS, o mais universal, mas nos telefones a fortuna que o povo vem pagando de ICMS é algo fantástico. Impressiona incrivelmente que esses dias o governo estadual gaúcho mandou à Assembleia um projeto em que queria aumentar ainda mais a alíquota sobre gasolina e telefonia.

Se a Assembleia tivesse aceito, seria um absurdo histórico. Pois atonitamente muitos deputados da oposição queriam votar a favor do projeto, sob o pretexto de estímulo fiscal para outros produtos.

Quase foi aprovado o projeto. Se o governo tivesse maioria na Assembleia, pela primeira proposta, hoje todos os gaúchos estariam pagando de ICMS na gasolina mais de um terço do valor total da venda, o que equivaleria, e já acontece atualmente, ao maior imposto de qualquer governo no planeta sobre qualquer produto. Exceção feita, sempre relevo, à fenomenalidade da incidência do imposto federal sobre os cigarros.

É tão espantoso o que os governos estaduais lucram na gasolina, dinheiro retirado diretamente da bolsa popular, agravando ainda mais o custo de vida, desde que se sabe que do preço dos combustíveis deriva repercussão direta
no preço de venda de todos os produtos e itens de consumo, que o presidente da República, desde anteontem, estava apelando aos governos estaduais para que diminuíssem imediatamente o valor da incidência do ICMS sobre a gasolina, eis que numa esperteza espetacular, o preço da refinaria baixou em 25% e as fazendas estaduais não diminuíram um centavo na sua gana de arrecadação.

Espera-se que o bom senso assalte os governadores e eles voltem atrás hoje dessa ânsia louca de arrecadar. Mas algo precisa ser dito no final: por isso é que esta coluna tem pregado que os proprietários de postos de gasolina necessitam ter consciência social: não adianta nada os governos estaduais reduzirem sua arrecadação de ICMS sobre a gasolina e nos postos o preço permanecer lá em cima.

Porque, entre ser explorado pelo governo estadual, cuja arrecadação reverte para a população, e ser
explorado por particulares que cobram preço extorsivo, melhor, muito melhor, a primeira hipótese. O que se espera é que governo estadual e postos de gasolina tenham consciência social e esta redução do preço ao consumidor se verifique imediatamente e beire os 20% dos 25% concedidos pelas refinarias. É o mínimo racionalmente aceitável.

Partilha

10 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 29/10/2006:

Acontece o seguinte: já escrevi várias vezes um trecho monumental de autoria de Ernesto Cardenal, poeta nicaragüense, padre, ex-ministro da Cultura de seu país. Sempre que escrevo estas estrofes geniais da literatura latinoamericana, nos anos seguintes as pessoas me escrevem e pedem que eu repita. Ou porque esqueceram, ou porque perderam, querem rever novamente o trecho do poema. Pois hoje, com tradução de minha autoria e de Doroteo Fagundes, vou escrever novamente o trecho. Guardem-no, que ele é um dos diamantes mais preciosos da poesia moderna:

“Tu e eu, ao perdermos
um ao outro,
Ambos perdemos.
Eu, porque tu eras o que
eu mais amava,
Tu, porque eu era quem
te amava mais.
Mas, entre nós dois,
Tu perdes mais do que eu.
Porque eu poderei amar
a outras
Como amei a ti.
Mas a ti nunca ninguém
jamais amará
Como eu te amei”.

E como o dia é de poesia, surge de repente, sem que o Brasil se aperceba, uma letra de samba de extraordinário fulgor. Feita por dois despretensiosos negrinhos e favelados cariocas, de quem, imaginem, nem sei o nome, e lançou a dupla na praça, na voz do saudoso sambista Roberto Ribeiro, esta composição imortal, coisa de valor literário nunca jamais visto, um poema musical digno de um Chico Buarque.

É um tema batido, o do casal que se separa e começa a arrolar as coisas, os objetos que ficarão com um e outro, a célebre encrenca que vai parar nas varas de família dos tribunais. O nome do samba me parece que é Partilha. E é simplesmente inebriante:

“(Refrão) Já que não existe mais
Aquele amor tão profundo
O melhor que a gente faz
É dividir nosso mundo.

Você fica com a vitrola
E os quadros na parede,
Que eu fico com a viola,
O meu samba e a minha sede.
Você fica com a gaiola
E o passarinho verde,
Que em qualquer bico
de argola
Eu penduro a minha rede.

Você fica com as crianças
E com toda esta mobília,
Que eu levo as esperanças
Que não cabem na partilha.
Você leva as alianças,
Que eu farei na minha ilha,
Com a poeira das
lembranças,
O meu álbum de família.

E pra não dizer depois
Que vontade é que não falta,
Que este amor não deu
pra dois
E sai das luzes da ribalta,
No teu rosto, o pó-de-arroz,
No meu peito a cruz-demalta!

Um marido assim vascaíno e uma esposa tricolor não podiam nunca mesmo dar certo. Guardem estas duas letras e não venham depois me pedir para repeti-las novamente na coluna, como acontece há tantos anos.

Do jeito que falta pouco para mim, talvez não dê tempo para reproduzi-las.

A tristeza dos autores

09 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 29/08/2007:

Fui criado apreciando a música popular brasileira e a poesia dos sonetistas líricos ou trágicos, com os versos revelando sempre uma tristeza e uma nostalgia mais próprias do tango. Os compositores e os poetas traziam sempre consigo um banzo dilacerante. O que não fosse triste era rejeitado. Alegria, mesmo, só nos quatro dias de Carnaval.

Eu não precisava ouvir rádio para aprender as canções tristes e patéticas de um dos maiores ídolos da música brasileira, o tenor abaritonado Vicente Celestino. Bastava que eu atravessasse toda a Avenida Aparício Borges, do Partenon até a Glória, e me dirigisse até a casa da tia Veni, na Rua Campos Elísios.

Ali eu ficava debaixo de uma parreira e me deitava a ouvir durante toda a  tarde um rapazinho dos seus 16 anos que se encarapitava nos altos de uma árvore e cantava de lá todo o repertório de Vicente Celestino: “Vinha por este mundo sem um teto/ dormia as noites num banco tosco de jardim/ sem ter a proteção de um afeto/ todas as portas estavam cerradas para mim./ Mas Deus, que tudo vê e que consola/ em seu sagrado templo me acolheu/ e ao dar-me a proteção daquela esmola/ o meu destino transformou/ meu sofrimento acabou/ e a minha vida renasceu”.

Mal sabia eu que na minha mente imatura de 11 anos de idade estava se formando um gosto delicioso pela sonoridade dos versos e das palavras, sem dúvida o germe para a minha inclinação para a poesia popular, romântica ou desolada, própria dos autores da época, sempre inundando seus versos de pessimismo e tragédia.

Tanto que todos os dias, ao meio-dia, quando os ponteiros do relógio se encontravam, Francisco Alves, o Rei da Voz, cantava sua característica musical na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, ouvido por todos os brasileiros nos rádios de válvulas: “Porém neste abandono interminável/ no espinho de tão negra solidão/ eu tenho um companheiro inseparável/ na voz do meu plangente violão”.

Era sempre a dor, a amargura, a solidão, a ingratidão da amada, o sofrimento. Esta foi a minha cultura e daí deriva o meu pessimismo, só agora compreendo essa doença. Fui eu que a classifiquei como doença perante os psiquiatras céticos, o pessimismo é, sim, uma doença do caráter.

Daí para idolatrar o mais pessimista de todos os poetas, o vate da dor e da melancolia, Augusto dos Anjos, foi um passo. E até hoje os seus versos desesperados ecoam na minha consciência: “Ser homem é escapar de ser aborto/ sair de um ventre inchado que se anoja/ comprar vestidos pretos numa loja/ e andar de luto pelo pai que é morto”.

Ou então: “O homem sobre quem caiu a praga/ da tristeza do mundo, o homem que é triste/ para todos os séculos existe/ e nunca mais o seu pesar se apaga”. E, mais adiante, os dois quartetos mais desventurados da expressão brasileira: “Bati nas pedras de um tormento rude/ e a minha mágoa de hoje é tão intensa/ que eu penso que a alegria é uma doença/ e a tristeza é a minha única saúde/ Melancolia, estende-me tua asa/ és a árvore em que devo reclinar-me/ e se algum dia o prazer vier procurar-me/ dize a este monstro que fugi de casa”.

Por isso é que, quando ontem um amigo me acendeu o cigarro e perguntou-me por que ando tão triste, respondi: “Eu não ando triste, eu nasci triste, eu fui educado para ser triste”.

Dever de cordialidade

08 de novembro de 2012 0

Texto publicado em 16/04/2005:

Muitas pessoas encontram percalços em suas relações cotidianas por um simples defeito de comunicação: esquecem-se de que ao se dirigirem a outrem devem observar uma regra universal de educação e respeito, que manda usarem-se as expressões “por favor” no início da conversação e “muito obrigado” no fim.

Qualquer pessoa que seja abordada por outra terá muito melhores condições de desempenhar seu papel na relação que acaba de se instalar se for brindada com a expressão “por favor” no início da conversa, mesmo que o abordado tenha o dever funcional de atender a quem o aborda.

“Por favor” é uma expressão mágica para iniciar qualquer encontro: significa de plano que quem a pronunciou não está impondo nada, é uma técnica de humildade que facilita todas as relações, motivando a pessoa a quem se solicita algo a nos atender cordialmente.

Outra expressão muito usada que tem o condão de abrir caminhos para a solução que pretendemos é “o senhor (ou senhora) quer ter a bondade de me informar onde fica a rua…”.

Quando instamos uma pessoa a “ter a bondade”, estamos fazendo-a crer que é capaz de ser generosa e atender a nossa solicitação. Ou seja, quem é premiado com essa expressão sente-se orgulhoso de que um desconhecido supõe que o abordado é uma pessoa virtuosa a ponto de brindá-lo com a cortesia do atendimento.

E a expressão “muito obrigado”, além de ser um dever de educação de quem a pronuncia como agradecimento por ter sido atendido, ainda carrega o sentido daquela pessoa que nos prestou aquele serviço sentir-se satisfeita por ter sido reconhecida, além de aprestar-se a atender todas as outras pessoas que venham a abordá-la no futuro do mesmo modo atencioso, certa de que será sempre alvo de gratidão.

Além disso, a expressão “muito obrigado” ou “agradecido” transmite a quem a ouve uma sensação orgulhosa de utilidade.

Não temo estar sendo óbvio, piegas ou redundante ao pregar por esta coluna a civilidade de pronunciarmos a todo instante, no turbilhão da vida cotidiana, “muito obrigado” e “por favor”, principalmente se alguém que estiver lendo esta coluna já seja observador constante dessa regra de elegância.

É que tenho visto, não por rudeza de certas pessoas, mas por mecanicidade, que elas não pronunciam essas expressões, principalmente quando quem as atende tem obrigação de fazê-lo, tanto sejam funcionários públicos quanto trabalhadores de empresas privadas.

Muitas vezes nem percebem essa omissão.

E noto no ar um mal-estar por parte dos abordados, quando não uma má vontade no atendimento.

Quando é tão fácil habituar-se a usar essas expressões, de tanto empregá-las, elas acabam para sempre automáticas em nossos lábios, capazes de tornar muito mais milagrosamente aprazíveis e eficazes as nossas dezenas de contatos diários.

Centenas por mês, milhões pela existência.

Muitas pessoas
encontram
percalços em suas
relações cotidianas
por um simples defeito de
comunicação: esquecem-se de que
ao se dirigirem a outrem devem
observar uma regra universal de
educação e respeito, que manda
usarem-se as expressões “por
favor” no início da conversação e
“muito obrigado” no fim.
Qualquer pessoa que seja
abordada por outra terá muito
melhores condições de
desempenhar seu papel na relação
que acaba de se instalar se for
brindada com a expressão “por
favor” no início da conversa,
mesmo que o abordado tenha o
dever funcional de atender a
quem o aborda.
n  n  n
“Por favor” é uma expressão
mágica para iniciar qualquer
encontro: significa de plano que
quem a pronunciou não está
impondo nada, é uma técnica de
humildade que facilita todas as
relações, motivando a pessoa a
quem se solicita algo a nos
atender cordialmente.
Outra expressão muito usada
que tem o condão de abrir
caminhos para a solução que
pretendemos é “o senhor (ou
senhora) quer ter a bondade de
me informar onde fica a rua…”.
Quando instamos uma pessoa a
“ter a bondade”, estamos
fazendo-a crer que é capaz de ser
generosa e atender a nossa
solicitação. Ou seja, quem é
premiado com essa expressão
sente-se orgulhoso de que um
desconhecido supõe que o
abordado é uma pessoa virtuosa a
ponto de brindá-lo com a cortesia
do atendimento.
n  n  n
E a expressão “muito obrigado”,
além de ser um dever de educação
de quem a pronuncia como
agradecimento por ter sido
atendido, ainda carrega o sentido
daquela pessoa que nos prestou
aquele serviço sentir-se satisfeita
por ter sido reconhecida, além de
aprestar-se a atender todas as
outras pessoas que venham a
abordá-la no futuro do mesmo
modo atencioso, certa de que será
sempre alvo de gratidão.
Além disso, a expressão “muito
obrigado” ou “agradecido”
transmite a quem a ouve uma
sensação orgulhosa de utilidade.
n  n  n
Não temo estar sendo óbvio,
piegas ou redundante ao pregar
por esta coluna a civilidade de
pronunciarmos a todo instante, no
turbilhão da vida cotidiana,
“muito obrigado” e “por favor”,
principalmente se alguém que
estiver lendo esta coluna já seja
observador constante dessa regra
de elegância.
É que tenho visto, não por
rudeza de certas pessoas, mas por
mecanicidade, que elas não
pronunciam essas expressões,
principalmente quando quem as
atende tem obrigação de fazê-lo,
tanto sejam funcionários públicos
quanto trabalhadores de empresas
privadas.
Muitas vezes nem percebem
essa omissão.
E noto no ar um mal-estar por
parte dos abordados, quando não
uma má vontade no atendimento.
Quando é tão fácil habituar-se a
usar essas expressões, de tanto
empregá-las, elas acabam para
sempre automáticas em nossos
lábios, capazes de tornar muito
mais milagrosamente aprazíveis e
eficazes as nossas dezenas de
contatos diários.
Centenas por mês, milhões pela
existência.

Muitas pessoas
encontram
percalços em suas
relações cotidianas
por um simples defeito de
comunicação: esquecem-se de que
ao se dirigirem a outrem devem
observar uma regra universal de
educação e respeito, que manda
usarem-se as expressões “por
favor” no início da conversação e
“muito obrigado” no fim.
Qualquer pessoa que seja
abordada por outra terá muito
melhores condições de
desempenhar seu papel na relação
que acaba de se instalar se for
brindada com a expressão “por
favor” no início da conversa,
mesmo que o abordado tenha o
dever funcional de atender a
quem o aborda.
n  n  n
“Por favor” é uma expressão
mágica para iniciar qualquer
encontro: significa de plano que
quem a pronunciou não está
impondo nada, é uma técnica de
humildade que facilita todas as
relações, motivando a pessoa a
quem se solicita algo a nos
atender cordialmente.
Outra expressão muito usada
que tem o condão de abrir
caminhos para a solução que
pretendemos é “o senhor (ou
senhora) quer ter a bondade de
me informar onde fica a rua…”.
Quando instamos uma pessoa a
“ter a bondade”, estamos
fazendo-a crer que é capaz de ser
generosa e atender a nossa
solicitação. Ou seja, quem é
premiado com essa expressão
sente-se orgulhoso de que um
desconhecido supõe que o
abordado é uma pessoa virtuosa a
ponto de brindá-lo com a cortesia
do atendimento.
n  n  n
E a expressão “muito obrigado”,
além de ser um dever de educação
de quem a pronuncia como
agradecimento por ter sido
atendido, ainda carrega o sentido
daquela pessoa que nos prestou
aquele serviço sentir-se satisfeita
por ter sido reconhecida, além de
aprestar-se a atender todas as
outras pessoas que venham a
abordá-la no futuro do mesmo
modo atencioso, certa de que será
sempre alvo de gratidão.
Além disso, a expressão “muito
obrigado” ou “agradecido”
transmite a quem a ouve uma
sensação orgulhosa de utilidade.
n  n  n
Não temo estar sendo óbvio,
piegas ou redundante ao pregar
por esta coluna a civilidade de
pronunciarmos a todo instante, no
turbilhão da vida cotidiana,
“muito obrigado” e “por favor”,
principalmente se alguém que
estiver lendo esta coluna já seja
observador constante dessa regra
de elegância.
É que tenho visto, não por
rudeza de certas pessoas, mas por
mecanicidade, que elas não
pronunciam essas expressões,
principalmente quando quem as
atende tem obrigação de fazê-lo,
tanto sejam funcionários públicos
quanto trabalhadores de empresas
privadas.
Muitas vezes nem percebem
essa omissão.
E noto no ar um mal-estar por
parte dos abordados, quando não
uma má vontade no atendimento.
Quando é tão fácil habituar-se a
usar essas expressões, de tanto
empregá-las, elas acabam para
sempre automáticas em nossos
lábios, capazes de tornar muito
mais milagrosamente aprazíveis e
eficazes as nossas dezenas de
contatos diários.
Centenas por mês, milhões pela
existência.