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Posts de dezembro 2012

Os homens errados

31 de dezembro de 2012 0

É a mais importante frase, o mais fundamental pensamento que li sobre a revolução que está dominando as relações amorosas e conjugais, no que se refere às profundas modificações no comportamento da mulher na passagem de século.

A frase, que não é unicamente uma frase, mas uma ecoante lição, é de impressionante realidade. Foi vista no peito de uma mulher, na praia, escrita em sua camiseta: “Enquanto não encontro o homem certo, vou me divertindo com o errado”.

Sei de amigas minhas que delirarão com essa frase. Sei que essa frase vai agitar o raciocínio e os sentimentos de uma grande multidão de mulheres que porão os olhos nesta coluna e cultivarão esta frase como se fosse um ensinamento bíblico.

A frase, assim como está escrita, serve para muitas mulheres monógamas, as que se dedicam sexualmente a um homem só. Para as mulheres que costumam ter aventuras amorosas com mais de um homem, para fazer melhor sentido e ficar melhor assentada a elas esta frase, teria que ser mudada: “Enquanto não encontro o homem certo, vou me divertindo com os errados”. A frase, assim, ganha um outro impacto, embora ambas as frases sejam dilacerantes para a consciência do macho moderno.

Esta frase é a síntese do ponto principal da revolução do comportamento feminino que estamos presenciando: a grande mudança é que as mulheres começaram a descobrir aquilo que os homens sempre souberam exercitar: fazer sexo sem amor.

Esse era um privilégio dos homens, que submetem há séculos as mulheres à condição de objeto sexual. E, nesse sentido, nesse ritual que significava a liberdade sexual do homem, as mulheres iniciaram um processo de igualdade com os homens, significando essa metamorfose em suas vidas a conquista de muitas liberdades.

Em realidade, as mulheres em geral sempre se entregaram ao sexo pagando o tributo do amor ou da paixão, como me ensinou a psicanalista Maria Rita Kehl. E agora descobriram que não é mais preciso pagar esse preço para se realizar sexualmente ou ter uma vida sexual razoável: é bem possível obter esse prazer ou esse divertimento sem estar amando. Aí é que reside a superioridade feminina na revolução sexual a que estamos assistindo, que veio afinal dar mais segurança às mulheres e acabou por deixar perplexos os homens.

Enquanto não acham os homens certos, as mulheres vão se divertindo com os errados, esse é um comportamento feminino atual que passava despercebido até mesmo a algumas mulheres que o exercitavam. Elas o faziam inconscientemente, depois que lerem estas linhas vibrarão com a conscientização de seus atos.

Quando falei isso tudo o que escrevi acima a um amigo que está se separando de sua mulher, por vontade unilateral dela, ele me disse com tristeza as seguintes palavras: “Agora que estou deixando a mulher certa, passarei a me divertir com as erradas”.

O cego Justimiano

30 de dezembro de 2012 0

O cego Justimiano, marido da dona Malvina, avô do Japir, foi um personagem importante da minha infância.

Criança, eu não entendia nada sobre as diferenças sociais ou pessoais.
Melhor dizendo, até hoje não entendo por que umas pessoas são cegas e outras enxergam, umas são ricas, outras miseráveis.

O que mudou foi que quando eu era criança não me apiedava dos cegos e dos pobres.

Era assim e eu aceitava que fosse assim. Hoje me rebelo contra o destino e meu coração agoniza quando me debruço sobre a sorte dos desfavorecidos.

***

O cego Justimiano era um até as cinco horas da tarde, outro depois das cinco.
É que às cinco horas da tarde dona Malvina liberava a cachaça para o cego Justimiano e ele se deitava a uma falação imparável.

Antes das cinco, o cego Justimiano era um ser inerme, inerte, mudo, ninguém ligava para ele e para sua solidão.

Só agora fico imaginando a aflição daquele homem que era obrigado a ficar calado durante toda a manhã e metade da tarde, à espera da redentora aguardente que serviria como um bálsamo para sua cegueira, um anestésico para sua tristeza, um alívio para sua vida sem atrativos, desesperada vida de um homem diferente de todos os outros, aprisionado nos grilhões implacáveis da escuridão perpétua.

***

Nenhuma vida é feita só de alegrias. Mas muitas vidas são feitas só de infortúnio e de sofrimentos.

A vida do cego Justimiano era infortunada como a vida dos reclusos, dos inválidos, dos miseráveis necessitados.

Esse é um dos mistérios mais intrigantes da condição humana: por que uns são mais infelizes do que os outros, por que algumas pessoas vivem pregadas nas cruzes do seu martírio durante todo o decorrer de suas existências?

Esses suplícios têm o seu significado sonegado à compreensão humana. É inútil perquirir sobre eles, ao homem não é permitido perscrutar sobre a razão do sofrimento, uma parede sólida se interpõe entre a inteligência e a curiosidade filosófica.

É impossível decifrar a desigualdade que diferencia brutalmente as pessoas, umas superiores às outras, umas mais belas, mais lúcidas, mais fortes, mais ricas que as outras.

***

O cego Justimiano foi um marco dessa minha estupefação com o discriminatório desígnio da vida, que divide os homens, desde o seu nascimento, entre álacres e tristes, conforme os papéis existenciais que lhes foram destinados.

E me surpreendeu que eu tivesse sido indiferente à sorte sinistra do cego Justimiano quando eu era criança.

E que essa compaixão terna que sinto por ele tenha irrompido somente ontem à tarde, quando me lembrei de repente do cego Justimiano embebedando-se debaixo da bergamoteira depois das cinco da tarde, único horário que lhe permitiam para esquecer da sua desgraça.

Doença da solidão

29 de dezembro de 2012 0

Há quem pense que dor de dente só dá em pobre e depressão em rico.

Realmente, nunca se ouviu dizer que um pedreiro tivesse depressão.

Eu entendo que o pedreiro possa ter depressão, mas ele tem tanto a sofrer pela sua pobreza, que não há de querer atribuir a uma outra causa a sua tristeza que não seja o ganhar pouco e quase não poder manter-se com o pouco que ganha.

Então, o pedreiro depressivo segue a vida sem se dar conta de sua depressão.

***

Já a pessoa, digamos assim, que ganha em torno ou mais de 10 salários mínimos, esta tem sua sobrevivência garantida e sem aflições e, quando se apanha envolta em tristeza permanente, cogita que tenha depressão.

***

O fato é que a depressão existe, sim, e é alvo de atenção de psiquiatras e outros cientistas afins.

É um estado permanente de grave tristeza. Às vezes tem motivo, outras vezes as pessoas que são alvo dela não atinam para o que possa estar assim as derrubando, sem alegria, a vida sem sentido, uma pura desistência.

O sorriso, a pilhéria, a confraternização, qualquer comemoração, são fatos violentamente adversos à depressão.

***

Se uma pessoa depressiva receber um convite escrito para uma festa, fará com aquele papel o que faz com todos os papéis sem importância: irá jogá-lo na cesta do lixo.

Um depressivo estraga qualquer festa a que vá. Pelo menos chateia a todos os que o circundarem com um mau humor intolerável.

***

Porque todos os que vão a uma festa são os insistentes: estão lá porque são os combatentes, os que persistem em serem alegres e encarar a vida com otimismo.

E o depressivo nem vai à festa, não tem nada que fazer lá.

Se for à festa, trombará inapelavelmente com a alegria dos outros, não verá sentido para si por tanto contentamento e otimismo… dos outros.

***

É uma doença séria a depressão, mas felizmente já existem remédios ótimos para essa melancolia, além da psicoterapia.

Além de depressivo, como se viu acima, o triste depara com uma profunda solidão, pois ele se separa dos outros, qualquer companhia agravará ainda mais o seu problema.

E, se não é doença a solidão deliberada, a autocondenação à não convivência, então não sei mais o que é doença.

Tudo o que dói é doença.

O segredo do amor

28 de dezembro de 2012 0

Falemos de amor. Deixemos de lado as questões graves e profundas que nos cercam e mergulhemos nesta ânsia infindável de felicidade que domina o homem sobre a Terra.

Em realidade, a vida não é mais que a busca da felicidade. E, trágica ou sublimemente, o homem só se faz feliz pelo amor. A única forma de ser feliz é amar. A tristeza não é outra coisa que a ausência do amor. A depressão é quase sempre detonada pela absoluta impossibilidade de acesso ao amor. O amor é o único veículo que encaminha para a realização.

Pode ser o amor sexual, entendido assim como o de uma mulher para um homem ou o inverso ou o recíproco. Pode ser o amor a uma causa, o amor ao próximo, o amor até a um objeto, a um conjunto de coisas materiais ou afetivas, o amor ao próximo, que incendeia as almas e os espíritos dos religiosos e dos samaritanos, aqueles que atingem a suprema felicidade da existência ao doarem-se generosamente aos seus semelhantes.

O tipo de amor sobre o qual eu gostaria de discorrer hoje é aquele sentimento romântico de um homem sobre uma mulher ou o contrário. Aquele amor que em última análise importa mais do que tudo porque é dele que emana a sobrevivência da espécie humana. Aquele amor que leva à animalidade, mas no caminho é adornado belamente por uma pureza de sentimento, por um querer bem, por uma eleição magnífica, por uma escolha fulgurante, por um encontro, um achado casual ou procurado, mas sempre secretamente esperado dentro da aptidão que os seres vivos devem sempre manter para amar, se quiserem ser felizes.

O que eu queria dizer é que não há nada mais delicioso no amor que mantê-lo sob segredo, sem que o alvo dele conheça o seu crepitar. Em suma, não há nada mais entusiástico no amor do que o desejo. Goethe, um dos maiores pensadores da raça humana, tocou nisso magistralmente: “Vou ébrio do desejo ao prazer. E no prazer, ah que saudade do desejo!”.

O namoro, o flerte, a amizade dissimulada e o amor cercando essas escaramuças, mantido em segredo. O instante mais ardentemente saboroso do amor é quando se está perto da pessoa amada, quando se a vê ou com ela a gente se encontra todos os dias, ela está bem próxima de nós, conversa conosco, convive conosco, mas desconhece que a amamos. Talvez o tempero mais picante dessa relação de cuidados e estudos mútuos seja que ela desconfie de que nós a amamos. Que um e outro suspeitem que se amam. Este é o momento eterno e infinito do amor.

Eu sempre achei que o amor começa a terminar quando ele é declarado. A sentença de morte do amor é “eu te amo”. Esta revelação é sinistra, ela carrega em seu conteúdo a destruição do amor.

Se se pudesse – e não se pode – levar o amor em segredo ou em suspeita por todo o tempo, jamais se perderia o amor, jamais o fastio ou as outras todas nuanças que tornam o amor finito se deflagrariam. Tanto que o que leva o desejo a tornar-se exercício do amor é o medo da perda. Quando na verdade a perda é originada somente pelo amor concreto e exercitado.

Em toda a minha vida, os únicos grandes registros de saudade, dignos de serem recordados como momentos da mais plena felicidade, foram aqueles em que eu sabia que amava e o objeto do meu amor desconhecia essa circunstância. Ou, então, quando eu desconfiava profundamente de que estava sendo amado, sem que no entanto jamais eu pudesse me debruçar nessa certeza.

Como era estupendo saber que se amava, sem deixar que ninguém soubesse, nem a amada, do que se sentia. Fingindo. E é incomparavelmente grande o deleite de imaginar-se que aquela a quem se ama finge apenas que não nos ama.

Só enquanto isso, é grande e infindável o amor. Quando ele se decifra, morre.

*Texto publicado em Zero Hora deste domingo

Ai de quem for alegre

27 de dezembro de 2012 0

Temos uma confraria, uns oito amigos, que se reúne uma vez por mês num restaurante, onde ficamos em média três horas e meia. São médicos, comerciantes, pequenos empresários e profissionais liberais. Intuitivamente, fomos percebendo, com o passar das reuniões, que nos encontrávamos para nos queixar da vida.

O denominador comum das manifestações era o lamento das coisas, os problemas conjugais, a rotina massacrante. Enfim, as dificuldades todas que a gente enfrenta para levar adiante o barco. Quem fala mal da vida, quem prega que não há horizontes para a existência, é ouvido com reverência e só falta arrancar aplausos dos outros confrades.

Até que um dia, inadvertidamente, um dos confrades atreveu-se a fazer um discurso otimista. Disse que era feliz com a sua mulher, que seus negócios iam de vento em popa e que tudo dava certo para ele na vida. Os outros sete confrades restaram estupefatos. Com que audácia, auditório de pessimistas e queixosos da vida, aquele integrante do comitê do desânimo e da tristeza contrariava todos os cânones sobre os quais foram erigidas as reuniões mensais!

Era de se ver no semblante confrades a desilusão com o otimista. Como era possível existir alguém feliz entre nós? Que peito, que coragem desafiar aquela plateia de céticos e desmoronados e, ainda por cima, jogar nas caras que era um homem realizado, contrariando toda a construção filosófica da roda, baseada no lema de que a vida é uma droga.

Foi evidente e amassante o malestar que se formou na nossa roda de pesarosos. Os descrentes resolveram agir e consideraram aquela manifestação de hino à vida um desaforo. Aos poucos, o otimista e feliz foi deixando de ser convidado, restando tacitamente expulso da confraria. Ficamos nós, os queixosos e pessimistas, a desfiar todos os meses as nossa mágoa, a nossa náusea existencial, a nossa descrença.

Mas na nossa confraria, como em todas, a gente só conversa. E a conversa vai girando naturalmente, sem censura, até que esses dias um outro conviva, em meio a uma conversa, disse o seguinte: “A vida é bela”. Foi um alvoroço. Outro dissidente? Como ousara pronunciar frase tão acintosa. Todos se voltaram para ele revoltados. Urgia uma explicação, numa sociedade de desanimados, era uma afronta emitir tal conceito.

Acabou aquela reunião num mal-estar nauseante, decidindo os outros membros que na próxima reunião o apóstata teria de dar explicações sobre a sua frase subversiva. Além disso, o companheiro que arriscara dizer entre nós que a vida é bela é muito querido entre nós, seria uma lástima e um desastre expulsá-lo do nosso convívio. Deliberou-se então que ele destrincharia o seu conceito no jantar do mês seguinte, explicando como a vida pode ser bela.

Veio o outro jantar e todos ficamos ansiosos sobre as explicações do rebelde. Ele não se fez de rogado e explicou a sua frase hedionda: “A vida é bela, nós é que a estragamos”. Todos se sentiram aliviados e desculparam o herege. Afinal, constava de seu conceito que a vida era uma instituição estragada e inviável. Segue avante a confraria com seus lamentos e desilusão.

* Texto publicado em 10.02.2010.

Previna-se para a surpresa

17 de dezembro de 2012 0

Temos que estar sempre prevenidos para a surpresa. Esta frase que acabo de fazer dá um tratado.

Todo o infortúnio humano está contido em não se saber conviver com o inesperado. E a surpresa é um fenômeno repetitivo na vida, talvez o maior significado dela, desde que toda a existência é sempre presidida pelo que vai acontecer, o futuro, o que será será, o transcurso e o embalo do destino.

O homem se despedaça quando se defronta com a surpresa. Tanto com a má surpresa quanto com a boa surpresa.

Um exemplo de como a má surpresa nos faz desmoronar é a morte de um ser querido nosso.

E um exemplo, entre milhares, de que o homem pode aniquilar-se diante da boa surpresa é o inferno que vira a vida de muitos que ganham os grandes prêmios da loteria.

Foi assim que ela uma vez me surgiu de surpresa, na esquina movimentada. E o fulgor dos seus olhos veio se encontrar com os meus olhos já há tanto tempo desanimados e sem desejo.

E ela puxou conversa e veio de mansinho e aos poucos floreando o galo da minha desilusão.

E foi se esgueirando entre os carvalhos de fastio plantados no chão árido do meu coração.

E veio degelando a friagem do meu desencanto com a lava incandescente do seu vulcão desejante da minha poesia e de auxílio obstinado ao meu desamparo.

E foi me alegrando e foi crivando todo o meu corpo e minha alma com as setas do seu entusiasmo.

E foi atrevida e imperante dias depois, quando me disse: “Agora tu já és meu, agora todas estas aventureiras que tentaram te tocar sem o cacife da afetividade que me sobra restarão frustradas. Agora tu és só meu. E todas elas, que vão capinar!”.

E foi armando seu acampamento ao redor do meu coração. E foi fixando residência ali mesmo com intenções de todo o sempre, tecendo o teto de santa-fé de sua cabana com os meus aurículos e ventrículos, tornando-se em apenas 20 dias dona de mim, submissa por mim, rainha e escrava, amada que jamais esquecerei.

Aquela foi a maior, a mais inteira e magnífica surpresa que eu soube manejar, um sol que entrou pela minha janela escura e úmida e resplandeceu por muito tempo, um tempo que, pela força da tatuagem que não saiu mais da minha pele e pelas lembranças que nunca mais deixaram de iluminar o meu espírito, posso hoje chamar de eternidade.

Que amor que eu vivi com ela! Que ensandecido amor celebramos pelos becos, pelos gramados, pelas praias, pelas ruas, pelos escritórios, porque onde eu ia ela ia junto, seguindo-me por todos os caminhos, já que era impossível estarmos um instante só de qualquer dia separados, que incrivelmente tínhamos saudade um do outro após segundos de afastamento.

Que amor! E da vida só se leva o amor! Mesmo que tenha sido passado, mesmo que se tenha esperança de que ele ressurja em outra no futuro.

(Crônica publicada em 28/04/2000)

Volta à tristeza

16 de dezembro de 2012 0

Voltando ao âmbito da psicanálise, que é o meu campo de ação preferido. Ou melhor, aquele em que atuo com maior desenvoltura.

Como paciente, é lógico.

É que um psicoterapeuta me falou que estava tratando uma paciente jovem, que tinha profunda depressão.

Prescreveu-lhe dois antidepressivos e foi levando a jovem na manha, isto é, psicoterapia.

E ali ficaram o psiquiatra e a paciente, só na lábia, durante mais ou menos umas 20 sessões.

A melhora da paciente foi espantosa. Era uma outra menina, agitada, febril, sociável, saiu definitivamente de seu quarto e arremessou-se para a vida, foi desfrutar o mundo, embriagada de alegria.

Um belo dia, a garota entrou no consultório do nosso psiquiatra e desabafou: “Estou com saudade da minha tristeza”.

Este é um dos momentos culminantes não da relação terapeuta-paciente, mas da relação da pessoa humana com o mundo. Ou melhor, da relação entre a pessoa humana, a realidade e a leitura que esta pessoa faz da realidade.

“Ah, que saudade da minha depressão”, pois, pois.

Não é novidade esse apego que o paciente tem por seu transtorno, de tal forma radical que parece não poder mais viver sem ele.

Um dos maiores, senão o maior poeta brasileiro – talvez só eu saiba disso – Augusto dos Anjos, o mais ilustre paraibano de todas as épocas, se constituiu no símbolo deste verdadeiro devotamento que o paciente tem por sua doença emocional:


Bati nas pedras de um tormento rude

E a minha mágoa de hoje é tão intensa

Que eu penso que a alegria é uma doença

E a tristeza é a minha única saúde.


“Tristeza é minha única saúde”, pois, pois.

Há um momento ainda mais terrificante na opção trágica e sublime de Augusto dos Anjos em favor do seu infortúnio, o instante em que ele constata que inevitavelmente ele ama a sua depressão e não quer jamais afastar-se dela:


Melancolia, estende-me tua asa,

És a árvore em que devo reclinar-me.

E se algum dia o prazer vier procurar-me,

Dize a este monstro que eu fugi de casa.


Notem pelo poeta que há pessoas – ou pacientes – que de tal forma se acostumaram à sua depressão, de tal jeito a dor permanente se incorporou a seus seres e grudou na sua pele, como uma tatuagem inapagável, que eles passam a amar e a idolatrar seu sofrimento e então se empenham terminantemente em considerar o prazer um inimigo, enxotando-o de suas vidas.

Por isso que estes despedaçados portadores de depressão se isolam como anacoretas em seus quartos de apartamentos e recusam-se a sair dali, assombrando-se quando alguém tenta buscá-los para um divertimento qualquer.

Eles não vão a qualquer parte em que possam alegrar-se, a festas nem pensar.

Não vão a festas por isso e também porque acreditam que sua tristeza e mau humor serão capazes de estragar qualquer festa.

Não vão a festa os deprimidos porque não acham graça em qualquer festa. E também porque não querem, indo a festas, estragar as festas dos outros.

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes, tanto que no auge da minha maior depressão, em 2002, um certo dia em que fui convidado para três festas, não fui a nenhuma – e encerrado sozinho em meu quarto abri uma champanha, enchi uma taça, ergui-a no ar e fiz um brinde reverencial à minha, só minha, querida desolação.

(Crônica publicada em 04/12/2005)

O fim do amor

15 de dezembro de 2012 0

Será possível esquecer um grande amor, mesmo que não sobreviva mais o amor?

Mais fortes que o desejo de esquecer são as transformações físicas que se abatem sobre quem terminou um grande amor, coração batendo a mil, adrenalina, borboletas no estômago.

Os médicos dizem que quem terminou um grande amor tem de reforçar as emoções negativas ligadas à pessoa e mudar o foco.

Em suma, dá para traduzir, para se esquecer um grande amor e expulsá-lo das nossas entranhas só existe uma receita: arranjar um outro grande amor.

Caso contrário, vai se repetir o ramerrão.

*

E diz mais um famoso neurologista: ficar só, não amar mais, não ajuda a superar o caso.

Vejam que mão de obra: seu amor pode ter azedado, mas as lembranças negativas permanecem e fazem disparar as reações físicas adversas. Ou seja, o amor perdido permanece no ser da gente, ainda que as lembranças últimas que se tenha dele sejam negativas.

Porque as impressões do namoro permanecem inalteradas.

*

Quando se acaba um grande amor, as impressões residuais, inclusive as manifestações físicas delas decorrentes, sequestram os pensamentos, não precisa que a gente se recorde do ex, o córtex pré-frontal traz à tona as lembranças da relação perdida, mesmo que a pessoa não faça mais parte da sua vida.

É tão grande o dano causado a uma pessoa que terminou uma relação de amor, que dificilmente ele se apagará.

O que remete ao risco que todo grande amor encerra: o do fim. Encerrar um caso de amor, portanto, não é dar fim à dor. É dar trânsito a ela com o distanciamento.

*

O tempo, pois, não apaga a lembrança de um grande amor. Essa recordação incômoda ou cruciante é como os vícios, não se pode livrar-se deles.

Por isso é que às vezes constatamos pessoas que praticamente tiveram suas vidas tortas ao findarem um relacionamento: por mais que dissimulem, não é difícil notar que a vida para elas se acabou.

*

Por onde for alguém que teve um grande amor interrompido, a lembrança dolorida do caso irá também trilhando as mesmas ruas.

Um grande amor perdido se cola ao corpo, senão como tatuagem, então como cicatriz.

É impossível apagar a sua marca. Porque ele deixou vestígios irremovíveis.

Se não arranjar um outro grande amor, você será para sempre um ser arrastado e inútil.

*

Pressentindo isso é que muitas pessoas revelam um temor, que chega quase à ojeriza, em se apaixonarem: sabiamente intuem que o amor pode terminar um dia e será impossível sustentar a dor da lembrança dele, repito, mesmo que já não se ame mais a outra pessoa.

É o tal de medo do amor, medo do envolvimento.

Não amar, por incrível que pareça, é melhor do que ter o coração dilacerado pela separação amorosa.

Escultura calva

14 de dezembro de 2012 0

Às vezes olhamos para um artista de televisão ou de cinema e nem imaginamos o que está por trás daquela aparência saudável e bela.

Nos extasiamos com aquele rosto perfeito e sequer podemos calcular o que se esconde sob aquela aparência atraente.

*

Digo isso porque fiquei sabendo ontem que Michael Jackson era careca.

Não sei se tem importância este detalhe na história deste pop star, mas o fato é que o grande Michael Jackson era careca.

E só a necropsia foi revelar que ele era careca. É de se imaginar durante quantos anos Michael Jackson e sua entourage lidaram com as providências para ocultar do público este segredo. Deus o livre que os fãs do cantor e dançarino soubessem que ele tinha uma pronunciada e extensa calvície frontal.

*

Seria absolutamente inviável, penso eu, não sei se equivocadamente, que Michael Jackson se tornasse o superídolo que foi e continuará sendo, se o público conhecesse que o grande ícone era careca.

Será que ele teria sobrevivido como ídolo se o público tivesse sabido que por trás daquela peruca havia uma calva?

A minha impressão é a de que isso seria fatal para Jackson.

*

Nenhuma necropsia de qualquer artista em todos os tempos foi tão meticulosa como a de Michael Jackson.

Por ela, foram localizadas no corpo do cantor inúmeras cicatrizes de cirurgias plásticas no nariz, joelhos, ombros, pulsos e orelhas.

E todo o seu corpo era pontilhado de tatuagens escuras de todos os tipos, com exceção da tatuagem nas sobrancelhas, que era cor de rosa.

*

Pode interessar a alguém que o caixão em que foi sepultado Michael Jackson tinha a cor amarela com revestimento de seda azul?

Todos já sabiam que Michael Jackson tinha a doença do vitiligo, que manchava de branco extensas partes de seu corpo, só não se sabia se ela era originária dos produtos químicos que ele usava para embranquecer a sua pele ou se foi espontânea.

Jackson se recusava estranhamente a ser negro.

*

Jackson morreu por intoxicação aguda provocada por profonol, uma dose equivalente à que é usada como anestesia em cirurgia de grande porte.

Os médicos dizem que o profonol não é usado contra a insônia, o que quer dizer que o mal central do cantor era a insônia.

Um grande ídolo, um cantor e dançarino que não podia sair à rua de tão famoso, sofria o coitado de insônia e de outros males.

E que foi enterrado com uma peruca escura e longa para esconder talvez o maior segredo entre tantos que ele tinha.

Pobre criança!

13 de dezembro de 2012 0

Acho muito saudável que a imprensa esteja dando enorme destaque em todos os seus espaços para o assassinato da menina Isabella Nardoni.


É uma forma loquaz de a sociedade mostrar a sua revolta e o seu protesto com o tratamento que um casal de assassinos deu para uma menina indefesa.

Por algum jeito está se fazendo a todos a advertência de que qualquer mau trato violento a uma criança se constitui num ato hediondo, exorcizando-se na consciência da coletividade tantos milhões de maus exemplos como esse, tanto sofrem em todas as latitudes as crianças com atos perversos cometidos por adultos.

Quanto mais se abordar esse assunto, mais agressões a crianças serão evitadas em todas as partes.

Qualquer perseguição que se exerça sobre os dois culpados do bárbaro assassinato de Isabella, seja pela imprensa, seja pelo clamor popular, isso se constituirá em advertência aos potenciais autores de violência contra crianças para que se intimidem com sua vocação sinistra e se abstenham de suas fúrias agressivas ou homicidas.

Se todos os assassinatos como este ou similares fossem assim intensamente abordados pela imprensa, haveria menos assassinatos.

Porque o pai e a madrasta da menina Isabella estão condenados desde já, antes de ser pronunciada a sentença, ao desprezo da sociedade pelo ato vil que cometeram.

Esse desprezo ficará incrustado em suas peles como uma tatuagem, até o fim de suas vidas. Tudo isso pela divulgação da mídia.

Os que assassinam e não têm seus episódios divulgados pela mídia, logo vêem seus casos caírem no esquecimento e têm vida folgada para sempre.

Com esse casal não, por onde forem, em qualquer lugar do país em que estiverem, até o fim de suas vidas, estarão assombrados pela culpa e terão os dedos acusadores das multidões voltados contra si.

Outro aspecto que muito se discute é que a imprensa se fixa em demasia nos casos de violência.

Eu respondo com o que disse certa vez um gênio: %22Nada do que é humano me é estranho%22.

Da minha parte, como jornalista, me recuso a esconder debaixo do tapete a violência.

Até mesmo porque uma das manifestações mais intrigantes da mente humana é a maldade, é imperioso ressaltá-la, quanto menos na tentativa de compreendê-la, ainda que se revele sempre infrutífera.

É que cada vez mais se manifesta incontornável a maldade do homem. Topa-se com ela e cai-se num abismo de incompreensão.

Não cabe em qualquer equipamento cognitivo o massacre de um homem sobre outro homem, quanto mais o massacre de uma criança.

Enche-nos de arrepio só pensar que a menina Isabella estava dentro de um carro com seu pai e sua madrasta, duas pessoas que tinham o dever de guardá-la e zelar por ela – e de repente ela tenha sido acometida do sobressalto aterrorizante de que os dois adultos caíram sobre ela, com golpes e com esganamento, não cessando em seus ataques enquanto não a tivessem matado.

Causa arrepios. Pobre criança. Como devem ter sido horrorizantes aqueles instantes de dor que ela sofreu dentro do carro. O que se passou na mente de Isabella?

Certamente ela pensou que seu pai e sua madrasta eram duas feras. E que ela se enganara a respeito das pessoas. E que a ternura e a amizade podem muitas vezes ser apenas máscaras de uma maldade monstruosa.

Pobre criança!

A magia dos pés

12 de dezembro de 2012 0

É imprescindível esmalte nas unhas do pé, das mãos nem tanto. São indispensáveis dedos simétricos, tanto nos pés quanto nas mãos.

O dedão do pé não pode ser exatamente um dedão redondo e largo, tem de guardar uma justa proporção geométrica com os outros quatro dedos, sem agredi-los pelo vulto.

É preferencial que o pé seja pequeno ou médio, embora se encontre sem muito grande freqüência pés grandes de harmonia estética e apelo afrodisíaco consideráveis.

O dedo limítrofe do dedão, sob pena de sacrilégio e veto inapelável, não poderá jamais exceder em comprimento ao dedão.

E os três dedos seguintes irão gradativa e discretamente diminuindo de comprimento na relação de um com o outro, até o quinto dedo, que terá de ter a graça desafiadora de uma cereja.

O corte das unhas dos pés tem de ser desenhado em linha convexa, isto é, com curva mais elevada no meio que nas bordas.

Fica fora de concurso o pé que contenha unhas cortadas em linha reta, do tipo para não encravar. Não há nada mais desanimador.

Há pés tão encantadores e espirituais, que o aperto de mãos deveria ser dado com eles.

Se os olhos são as janelas da alma, os pés são os portais do instinto.

Os pés são a credencial da sensualidade, as outras partes do corpo se constituem apenas em insígnias suplementares.

Os pés têm tal poder hipnótico, que, quando dotados de sedução irresistível, fazem emanar uma tal atração, que não resta outro recurso aos seus espectadores, mesmo que nenhuma palavra tenha sido ainda pronunciada, senão sucumbirem de paixão.

E esta paixão será mais duradoura que as outras paixões todas, porque os pés têm a capacidade incrível de envelhecer menos ou quase nada na relação com os outros redutos corporais.

A lascívia pelos pés é eterna.

As sandálias são os biquínis dos pés, porque os desnudam. Os sapatos são os véus dos pés, porque os ocultam sedutoramente.

Conheço maníacos de pés que se apaixonam por sapatos de salto alto, basta-lhes curtir o delírio lúbrico do imaginário concupiscente dos pés que os portam ou portaram.

O pecado ancestral da escultura e da pintura foi não ter dado relevo aos pés.

Só recentemente a moda vingou-se desse cochilo monumental dos mestres das artes plásticas, criando graciosos modelos de calçados femininos, que realçam a importância e o destaque dos pés na sensualidade da mulher.

A julgar pelos novos anéis de dedos dos pés que estão sendo lançados aos magotes, os anéis e alianças de silicone para os dedos dos pés, as tatuagens de hena, as tornozeleiras que vão acabar tornando superadas as pulseiras, esses emergentes e luzidios adereços que irrompem vitoriosos nos pés femininos, em breve as jóias mais cintilantes e mais caras se transferirão dos pescoços, dos dedos da mão e dos pulsos femininos para os pés.

Isso só demonstra que nós, os ardorosos amantes dos pés, os fanáticos podófilos de todos os tempos, é que estávamos com a razão.

O mundo descobriu finalmente a nossa secreta e deliciosa usufruição.

E o nosso fetiche privativo virou finalmente uma mania universal.

Crônica publicada em 22/12/2002

Luz infinda dos poetas

11 de dezembro de 2012 0

Ah, meus poetas portugueses e brasileiros que me formaram em letras quando eu era apenas um adolescente.

Ler-vos já valia por um curso de gramática e de filosofia. E eu me embebedando nos vossos versos, decorando as mais belas páginas de poesia romântica e lírica dos que manejavam a flor do Lácio, que nunca mais se encontraria depois de vós e de Vieira.

Acabei de recitar para o Olyr Zavaschi, aqui na sala em que me encontro, alguns poucos dos mais belos e definitivos quartetos ou tercetos de nossa língua.

Entre eles, estas eternas tábuas de verdade da autoria do grande Vicente de Carvalho, só elas bastariam para explicar toda a perplexidade humana:

Essa felicidade que supomos

Árvore milagrosa que sonhamos

Toda arriada de dourados pomos

Existe, sim, mas nós não a encontramos

Porque está sempre apenas onde a pomos

Mas é que nunca a pomos

onde estamos.


Ou quando Olavo Bilac, tendo sido abandonado pela noiva por estar tuberculoso, tendo ela imediatamente se casado com um capitão da Marinha de Guerra, 20 anos depois encontrou-a de mãos dadas numa solenidade com o esposo, já então almirante.


E, diante de centenas de convidados, Bilac recitou com voz enérgica e embargada:


Se por vinte anos, nesta furna escura,

Deixei dormir a minha maldição,

Hoje, velha e cansada da amargura,

Minhalma se abrirá como um vulcão.


E em torrentes de cólera e loucura,

Sobre a tua cabeça ferverão

Vinte anos de silêncio e de tortura,

Vinte anos de agonia e solidão…


Maldita sejas pelo ideal perdido!

Pelo mal que fizeste sem querer!

Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!


Pela tristeza do que eu tenho sido!

Pelo esplendor do que deixei de ser!


A senhora deixou-se cair desmaiada nos braços do almirante.


Ou como quando o pernambucano Maciel Monteiro fez elogio insuperável à beleza de uma mulher que conhecera e desejava conquistar:


Formosa, qual pincel em tela fina

Debuxar jamais pôde ou nunca ousara;

Formosa, qual jamais desabrochara

Na primavera a rosa purpurina;


Formosa, qual se a natureza e a arte,

Dando as mãos em seus dons, em seus lavores

Jamais soube imitar no todo ou parte;

Mulher celeste, oh! anjo de primores!


Quem pode ver-te, sem querer amar-te?

Quem pode amar-te, sem morrer de amores?

Ainda o homem traído

07 de dezembro de 2012 0

O homem traído vive e respira a traição de sua mulher. Se sua mulher fosse fiel, se tornaria completamente enfadonha ao homem traído, ela só o interessa agora e o empolga por não ser sincera (já escrevi sobre a intrínseca e sedutora capacidade da mulher de fingir e a atração que o fingimento feminino exerce sobre o homem).

É da natureza da mulher fingir. Aquela ali que passa no corredor do shopping e atrai a atenção de todos nos arredores da zona de alimentação usa uma mentira, se quiserem, um fingimento, para se tornar assim um objeto de fascínio dos homens: ela usa sandálias espetacularmente altas.

Se usasse tênis, ninguém jogaria um só olhar para ela, penso enquanto a observo deixando tontos os homens que a seguem com olhares voluptuosos.

No entanto, parece a todos no shopping absolutamente natural que aquela mulher esteja aumentando artificialmente a sua altura em 12 centímetros com aquele salto alto que a faz andar com uma sensualidade capaz de, agora, neste instante, fazer um rapaz sujar-se todo com o sorvete, distraído por aquela aparição fulminante da gata estupenda.

Então é dado o direito de fingir à mulher: esta do shopping finge que é alta e os homens se põem loucos a mirá-la. Todos sabem que ela ficará insignificante se descer das sandálias. Mas o que eu quero observar é que a mulher é tão mais atraente para os homens quanto mais finge.

Mais ali adiante outra fingirá que tem o rosto estonteantemente belo porque usa uma maquiagem de Cleópatra. Não importa a nenhum dos embasbacados homens que se deslumbram com seu rosto adornado por aqueles vivos, inquietos e desafiadores olhos que certamente a beleza daquela mulher se desmerecerá e ruirá desvanecida como uma miragem, caso ela se despoje das tintas magnificamente artesanais, porém claramente artificiais, da sua maquiagem.

Porque o homem vê e quer a mulher como uma fantasia. O homem valoriza a mulher pelo poder que ela tenha para seduzi-lo, enquanto não for sua, e o poder que terá para seduzir os outros homens e incutir-lhes inveja de si, seu dono, depois que ela for sua.

Voltando ao homem traído, que se encaixa perfeitamente na tese de que a grande atração da mulher é o fingimento. O grande êxtase do homem traído é a extraordinária capacidade de afetação da mulher que o trai: ele se ergue, se alimenta, se alegra e se realiza com o grande aparato de palavras, de gestos e desculpas que lhe lança a mulher no seu jogo de delícias dissimulatórias.

“Me engana que eu gosto” não é uma frase sem conteúdo ou significação. É uma das frases mais importantes das relações humanas. Uma mulher que não minta, que não finja, que não tenha segredos impublicáveis, eis aí uma mulher absolutamente desinteressante para um homem.

Um homem pode até não gostar de saber que é traído, mas ele só nutre entusiasmo por uma mulher quando pairar sobre ele, mesmo remota, a ameaça de ser traído. Aí é que ele se esmerará em cuidados, atenções, carinhos, homenagens a esta mulher, de tal sorte que tentará, por todos os meios do seu engenho, superar todo e qualquer eventual e intruso vulto que possa vir a substituí-lo no coração e no desejo dela.

Já o homem que sabe que é traído passou do estágio magnificamente alentador, extraordinariamente orgástico do homem que tem dúvida se é traído, a maior delícia da existência.

O homem que é traído realmente, este passa a nutrir-se de outra forma de realização: a esperança de que a mulher que o trai capacite-se em tempo muito próximo de que sua traição redundará finalmente numa grande decepção: o rival intrometido, na avaliação dela e presunção dele, não tinha condições de superar nem emocional nem corporalmente o homem desperdiçadamente traído.

E junto com isso os saborosos encantos da mulher que trai, a mentira ferina, a lânguida dissimulação, os artifícios todos para escapar da vigilância, as farpas de falso ciúme, essas emocionantes fibrilações que adubam o romance e a empreitada da reconquista.

Uma prova de que o fingimento, a afetação e a mentira inspiram piedade ou admiração na mulher e asco quando emanam do homem o Brasil teve tempos atrás. Quando foram acareados Antonio Carlos Magalhães, José Roberto Arruda e a diretora Regina Célia, os três envolvidos numa fraude no sistema de votação do Senado Federal.

Os três estavam meticulosamente preparados para fingir e mentir. Os dois senadores nos causaram revolta.

Regina Célia nos inspirou simpatia e compaixão.

Porque pertence à natureza intrínseca da mulher e a seu congênito encanto de feminilidade o direito inalienável de fingir e de até mentir.

Frases de caminhão

06 de dezembro de 2012 0

Raquel Heidrich, Banco de Dados - 01/06/2006

Se for dirigir, não beba. Se for beber, me chama.

* * *

Todo homem tem a fantasia de fazer sexo com duas mulheres ao mesmo tempo. As mulheres deveriam gostar da idéia. Pelo menos teriam com quem conversar depois que ele pegasse no sono.

* * *

Se dentista é especialista em dente, paulista é especialista em quê?

* * *

Sabe o que é a meia-idade? É a altura da vida em que o trabalho já não dá prazer e o prazer começa a dar trabalho.

* * *

Sempre que possível, converse com um saco de cimento. Nessa vida, só devemos acreditar no que é concreto!

* * *

Se o horário oficial é o de Brasília, por que a gente tem que trabalhar na segunda e na sexta?

* * *

As nuvens são como os chefes… quando desaparecem, o dia fica lindo!!!

* * *

Alguns homens amam tanto suas mulheres, que para não gastá-las preferem usar as dos outros.

* * *

Por maior que seja o buraco em que você se encontra, sorria, porque, por enquanto, ainda não há terra em cima.

* * *

Homem é igual a caixa de isopor, é só encher de cerveja que você leva para qualquer lugar.

* * *

A vida é para quem topa qualquer parada, e não para quem pára em qualquer topada.

* * *

Se você está se sentindo sozinho, abandonado, achando que ninguém liga pra você… atrase um pagamento.

* * *

Se não puder ajudar, atrapalhe. Afinal, o importante é participar.

* * *

Errar é humano. Colocar a culpa em alguém é estratégico.

* * *

Cabelo ruim é que nem assaltante… ou tá armado ou tá preso.

* * *

Não beba dirigindo! Você pode derrubar a cerveja.

* * *

Os homens mentiriam muito menos se as mulheres fizessem menos perguntas.

* * *

Carioca é assim, já nem liga mais para bala perdida. Entra por um ouvido e sai pelo outro.

* * *

Bebo porque sou egocêntrico… gosto quando o mundo gira ao meu redor.

* * *

Aquele que, ao longo de todo o dia, é ativo como uma abelha, forte com um touro, trabalha que nem um cavalo e, ao fim da tarde, se sente cansado que nem um cão… deveria consultar um veterinário. É bem provável que seja um grande burro.

Fingimento obsessivo

05 de dezembro de 2012 0

Ilustração: Rodrigo Rosa

Em uma das minhas crônicas escrevi que é muito melhor para um homem a mulher fingida que a mulher sincera. A mulher fingida afeta que tudo está bem, a mulher sincera só repassa para seus gestos e palavras a dura, desgastante e desagradável realidade da vida.

Agora me chega ao conhecimento um caso que sob certo aspecto confirma inteiramente aquela minha opinião. Vou dar nomes fictícios aos dois personagens por motivos óbvios.

Ana Paula e Ramiro casaram-se e viveram cinco longos anos de felicidade aparente. Só aparente. Porque um segredo guardado fielmente por Ana Paula servia de garantia a esta felicidade: durante estes cinco extensos anos, Ana Paula não tivera sequer um orgasmo nas relações sexuais freqüentes e constantes com seu marido.

Mas em todos os conúbios, em todas as noites de entrega e solicitude de seu corpo a Ramiro, Ana Paula fingia que tinha orgasmos. E Ramiro quase explodia de realização existencial pela felicidade que encontrava na relação sexual com Ana Paula.

Mas o segredo de Ana Paula a consumia, foi-lhe desgastando o espírito dilacerando-lhe o corpo, embora nunca cessasse de afetar os orgasmos nos congressos carnais com Ramiro. De tal sorte amassou-a esta pressão que Ana Paula decidiu analisar-se. E durante dois anos Ana Paula submeteu-se a duas sessões por semana de psicanálise.

Foi tal a catarse desenvolvida por Ana Paula na análise que, como por um milagre, ao cabo dos mais de 700 dias de terapêutica, ela estava saboreando os mais intensos e deliciosos orgasmos nos jogos de amor com Ramiro, tinha descoberto o prazer, o êxtase, a realização.

Só que, desde o primeiro orgasmo até o último, por centenas deles, todos, Ana Paula fingiu, fingia, finge e teve certeza de que sempre fingirá que não tem orgasmos.

Por um desses estranhos desvios do cérebro, essa indecifrável engenhoca humana, Ana Paula se reprimiu ao fingimento contrário: agora, a par dos orgasmos que convulsionam os seus centros de lascívia e se espalham afrodisiacamente por todo seu corpo, algo lhe impede de exteriorizá-los e ela se finca resolutamente na dissimulação de que não sente qualquer prazer.

Fingia antes e finge também agora. E como todas as mulheres, os únicos seres que Freud não decifrou e para tal se declarou impotente em seus escritos, queda-se no leito conjugal como uma esfinge fria, distante e insondável, apegada firmemente ao seu novo segredo.

Parece cômico, mas é a verdade: tudo estourou em Ramiro, que agora decidiu que ele é que vai analisar-se por dois anos.

No que a meu ver fez muito bem. Porque pode residir nele a solução para este espetacular mistério. Vá lá alguém querer atrever-se a explicar as causas dos intrigantes meandros das fenomenalidades conjugais!

*Texto publicado em 25/03/2001