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Posts de janeiro 2013

Teus olhos

31 de janeiro de 2013 0

Olhos de mormaço e de plenilúnio. Olhos azuis ou esverdeados de interrogação e consentimento.

Olhos de promessas, fianças de ventura. Olhos de ternura permanente e definitiva, garantidores de serena e duradoura paz.

Basta-me a curta distância desses olhos para arremessar-me com coragem às tempestades e a certeza de que, sempre que retornar, eles me recompensarão com a felicidade.

Olhos de mistério e de clareza. Embriagadores olhos que avistei um dia por acaso, arrebatadores olhos que me seduziram à fortuna de me terem cativado.

Olhos que se somam e se sobrepõem a teu sorriso de brancura desejante. Olhos de princesa e de serva, de rainha e de súdita, dominadores olhos que irradiam também submissão.

Olhos faiscantes de candura e desafio. Pedras preciosas e raras, olhos de gemas fulvas, olhos que penetraram meus olhos até o desconcerto e a estupefação.

Nada há que se compare na natureza ou no sonho à utopia dos teus olhos. Olhos de garça tímida e de pantera temível, olhos inquietos de malícia e mansos de esperança.

Olhos de romance e de poema, olhos de aventura e de recato. Olhos mediúnicos de transcendência, metafísicos olhos de reflexão.

Olhos impudicos de lascívia e de vestal pureza, olhos de ambição e de humildade. Como pude emaranhar-me nestes olhos a ponto de me tornar para sempre peregrino de sua luz?

Olhos de que nunca irei fartar-me, que me arrancaram para sempre do tédio e tornaram minha existência vibrátil como um pássaro que se joga ao espaço oferecido.

Olhos como a criação jamais ousou plasmar assim tão belos, de estro insuperável, olhos de melodia suprema, de horizonte infinito à disposição do vôo e da superação.

Olhos de dons e de lavores jamais imaginados, irreais e concretos olhos que socorreram e curaram minha incerteza e meu desespero.

Olhos salvadores que me surgiram quando todas as minhas forças já quase desfaleciam, revigorantes olhos da minha regeneração, novo e empolgante sentido da minha vida que já cambaleava.

Olhos do meu refúgio, olhos do meu cais, olhos da minha vinda e da minha volta, olhos desanimadores da minha despedida, impulsionadores do meu arremessamento, fiadores da minha realização.

Não posso crer que me apareceram quando a vida se me tornava cada vez mais menos apetecida!

Olhos que me cegam de paixão e me descobriram para o verdadeiro amor que supunha e cria jamais experimentar. Olhos só teus que agora creio também só meus.

Olhos capazes de me fazer esquecer e renunciar a todos os meus outros valores, insuperáveis olhos que só agora me fazem sentir pela primeira vez ser um homem, completo ser que se desvencilhou do vazio de antes do avistar e do compreender desses olhos de divino fulgor.

Eis-me aqui, para sempre e irremediavelmente só tendo olhos para estes teus olhos, querida, amada, idolatrada mulher da minha vida!

(Crônica publicada em 28/10/2001)

Da Fronteira

30 de janeiro de 2013 0

Muito obrigado, mas muito obrigado mesmo a todos que me tocaram perto ou longe.

*

Recebo de Rivera: “Pauuuulo Sant’Aaaaana, como diria Pedro Ernesto!! Bueno, pra mim, que sou um ignorante literário mas não menos burro sei admirar, apreciar e me apaixonar. Pra ficar bem claro esclareço.

Bom, sou casado e minha esposa está grávida (só pra explicar o termo… me apaixonar). Paulo, senhor Paulo Sant’Ana, eu conheço inúmeros apaixonados por você, dentre eles, colorados fanáticos e, você sabe, colorado é bucha de aguentar, pior se fanáticos. Minha satisfação é imensurável quando leio na Zero Hora (internet) e diz o seguinte…. ‘Sant’Ana não escondia a emoção nos seus autógrafos e, diversas vezes, interrompia o que estava fazendo para enxugar as lágrimas’. Porque você não imagina o quanto representa para o Rio Grande do Sul. Talvez imagine, mas sua ‘modéstia’ o impeça de reconhecer isso.

Sou um cronista ‘pra meu consumo’, escrevo coisas quando perco o sono à noite, exponho indignações entranhadas na essência de minha ignorância, pois não vejo saída para algumas coisas e não sei que mundo minha filha irá encontrar e isso me incomoda muito, muito mesmo.

Bom, descobri há muito tempo que o conhecimento é maldito, pois, a partir daí (descoberta do conhecimento), o ser humano não consegue ser feliz, certamente aí se justifica a felicidade da criança. Então, quero ser o cara mais ignorante, alienado, e leio e procuro me informar para ser ignorante e não tenho conseguido. Se deixar de ler, ver e ouvir noticiários, parece que não consigo ficar ignorante e alienado, pois via de regra são eles que assim nos deixam. Incrivelmente, o consumo de notícias trágicas faz com que se mova a indústria jornalística, mas aí aparece quem???? Pablo Sant’Ana.

Então, você é o idiota que me faz pensar e perder o sono, descobri que você é o culpado de minha insônia. Então, descobri que, para fechar os olhos para as atrocidades políticas, imorais e tendenciosas entre outras, é melhor não ler sua coluna todos os dias. Então, o meu sono volta, mas, como um vício invencível, torno a ler, a ouvir e sinceramente meu cérebro faz com que seja feliz sabendo que você sente as coisas que sinto e para mim isso é um prazer e uma realização, pois não sofro sozinho. Cara, desculpa os erros de português, haja vista que fui alfabetizado em Rivera, no Uruguai, e mesmo tendo me esmerado para saber escrever melhor, ainda não consegui chegar ao nível satisfatório.

Quando digo ‘idiota’, por favor, não é pejorativo, é provocativo. Não conheço uma pessoa que não goste de você, inclusive os colorados mais fanáticos, tenho um tio que disse ‘o dia que o Paulo Sant’Ana morrer, não sei o que vai ser de mim nem da Zero Hora’… Colorado é que nem petista, não sabe administrar sentimento sem ser fanático. Grande abraço, muita saúde, aqui em casa somos apaixonados por você, ‘seu idiota que me faz pensar’. Parabéns pelo livro. E o teu sucesso é o meu sucesso.” (ass.) Julián Fontes, residente em Caxias do Sul, natural de Rivera, Uruguai”.

Noite de São João

29 de janeiro de 2013 0

Ontem e anteontem, era noite de São João. Atravessei a cidade inteira e não vi uma só fogueira de São João.

E me senti infeliz, e constatei o quanto nós somos infelizes: nenhuma fogueira de São João. Eram milhares de fogueiras de São João na nossa infância em Porto Alegre.

Esperávamos ansiosos pela noite de São João, as mães preparavam os doces, compravam pinhões, as rapaduras, as pipocas, os amendoins, o quentão, até que chegava a grande noite.

Podia-se ver numa só rua várias fogueiras, que eram acesas alternadamente, quando queimava uma, a gente ia assistir ao fogo da outra, uma noite inteira de festas, de bombas, de busca-pés, de triquetraques, de rojões, confraternizações, de correrias, de brincadeiras arrabaldinas que nunca mais vão sair de nossa memória.

Encantadora época dos nossos sonhos infantis, todos pulando as fogueiras, a provar que a verdadeira felicidade reside nas coisas mais simples e singelas. Como éramos felizes nas festas juninas e na malhação de Judas, outra festa desaparecida tristemente do nosso folclore!

Doeu no meu coração ter atravessado a cidade ontem sem avistar sequer uma fogueira de São João.

O nosso encantamento, as nossas esperanças, a nossa alegria foram sepultadas pelo progresso e pela fúria imobiliária.

Nós somos infelizes e não nos apercebemos.

***

Sei ainda de cor, do grande Lupicínio Rodrigues e que foi gravada por Francisco Alves, a notável canção Pra São João Decidir:

Naquele dia levantei de madrugada
Porque na noite passada
Eu não consegui dormir
Rosinha disse que ia pôr num papelzinho
O meu nome e o do vizinho
Pra São João decidir
O que estivesse de manhã mais orvalhado
Ia ser seu namorado
Ia consigo casar
E eu tinha tanta confiança no meu santo
Que apostei um conto e tanto
Como era eu que ia ganhar
Sabe o que foi que aconteceu no dia
Vi foguete que explodia
Busca-pé, bomba-rojão
Era o vizinho que já tinha triunfado
Festejando entusiasmado
O dia de São João
Então de noite foi mais grossa a brincadeira
Acendeu-se uma fogueira
Todo mundo foi pular
Só eu chorando a traição daquele santo
Soluçava no meu canto
Vendo a lenha se queimar.

***

Pensamento de Wianey Carlet, na Gaúcha, ontem: No tempo de Abel, formou-se uma panelinha entre os jogadores, dirigentes não apitavam lá. O Inter era administrado como se fosse um presídio. Dirigentes não entravam na galeria”.

***

Frase do comentarista Cláudio Cabral, da Band: “No Brasileirão, o empate é irmão gêmeo da derrota”.

* Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Força e beleza

28 de janeiro de 2013 0

Às vezes, fico me perguntando por que motivo oculto não fui escolhido na loteria da criação para ser um antílope, um marabu, uma hiena, um gnu ou um cabrito-montês, e viver nas savanas ou montes africanos, percorrendo 1,5 mil quilômetros em busca das chuvas, até que as monções me oferecessem folhas ou carne para o meu sustento.

Por que Deus, a Providência ou o destino não me encarregaram de ser um elefante-marinho na Patagônia ou babuíno no sul da África, o primeiro animal a ter de disputar com outros machos cerca de às vezes até 200 fêmeas, em lutas ciclópicas, que vão determinar qual o macho dominante que submeterá o imenso harém aos seus caprichos eróticos exclusivos?

E se fosse eu um macho de elefante-marinho, depois de derrotado pelo macho dominante, ainda reuniria forças para de vez em quando, de dois em dois anos, sub-repticiamente, conseguir manter um rápido congresso carnal com uma fêmea, aproveitando-me do descuido do macho dominante?

E se fosse eu um babuíno, pertencente a uma espécie que não costuma empenhar-se em lutas para escolher o seu macho dominante, preferindo manter essa disputa no nível das caretas, teria força e destreza nas mandíbulas e nos lábios para atemorizar os meus concorrentes com caretas suficientes para aterrorizá-los com a mostra de minhas duas terríveis presas tentaculares a ponto de intimidá-los a ceder o plantel feminino para a minha sanha afrodisíaca?

Estranho método esse de determinadas espécies de disputar na força bruta ou nas caretas as suas mordomias sexuais com suas fêmeas, tornando o prazer ditatorial, ao contrário daquelas gigantescas nuvens de milhões de pardais africanos e outros pássaros da savana, que por serem em número incontável, democratizam o sexo, impossibilitados de formarem uma cadeia de controle sobre suas fêmeas e permitindo que todos usufruam da lubricidade e da procriação.

Já com os homens, mais inteligentes e mais sensíveis, esses currais sexuais se constroem sob o signo da beleza, do talento e do dinheiro, armas que os machos usam para atrair as fêmeas, embora o acasalamento seja um traço da civilização, daí que o homem inventou o casamento para democratizar melhor o sexo, tentando estabelecer que cada mulher deverá pertencer a um único homem, o que oferece mais chances a todos para os prazeres da concupiscência, beneficiando-se assim até mesmo os fracos, os pobres e os incultos.

Eu sinto uma pena dos machos de elefantes-marinhos que, vencidos em combate pelo macho dominante, são obrigados a permanecer a vida inteira nas praias, ao lado das fêmeas formosas e estuantes, sem no entanto poderem atrever-se a tocar nelas, sem poderem usufruir do próprio apetite e do apetite sexual delas, 200 fêmeas para um só macho dominante é um grande desperdício, por certo essa regra deixa também insatisfeitas as fêmeas, que também se tornam abstinentes pelo monopólio aterrador do macho dominante.

Melhor se conduzem certamente outras espécies de mamíferos e de peixes ou crustáceos, entre as quais o sexo é livre e os machos se entregam à poligamia e as fêmeas à poliandria, ninguém é de ninguém, como de certo decretou a natureza e teimam em contrariá-la os elefantes-marinhos e os babuínos, empenhados num imperialismo sexual arrogante e aviltante para os machos vencidos.

Evidentemente que algumas outras espécies animais devem praticar muito antes dos homens as leis de cotas sexuais, pela qual os fracos, os oprimidos, os destituídos de força e de beleza, estes têm o direito da prática sexual, ainda que menos freqüente, mas pelo menos digna e não ultrajante.

Isso tudo me vem à mente porque um dos defeitos mais graves da criação e da natureza é a diferenciação entre os indivíduos, de modo que desde o nascimento até a morte alguns tipos são marcados pela fraqueza ou pela feiúra, privilegiando os fortes ou os belos, tornando um paraíso a vida de uns e a dos outros um inferno.

Fosse perfeita a natureza, todos os seres humanos ou animais seriam completamente iguais, diferentes no aspecto, mas todos atraentes, capazes de exercitarem junto ao sexo oposto a mesma força de sedução.

Mas fico pensando: se todos fossem iguais, como se destacariam a liderança e o domínio? Pelo talento, ora pois.

Mas a natureza ou a criação ao designarem quem haveria de ter maior e menor talento não estariam assim também discriminando?

É uma encrenca.

* Texto publicado na página 51 de Zero Hora dominical

Postado por Sant`Ana

De partir o coração!

27 de janeiro de 2013 0

Eu sei que muita gente morre por falta de atendimento hospitalar. Eu sei que muita gente sofre agruras inenarráveis por falta de atendimento hospitalar.

As autoridades se desdobram para conseguir leitos para todas as pessoas. Eu exageraria, no entanto, se dissesse que nos faltam milhares de leitos hospitalares?

Não exageraria, milhares de pessoas morrem por falta de atendimento hospitalar. Centenas, se quiserem, mas, se somadas a outras centenas, são milhares.

O repórter Maurício Gonçalves, da RBS TV, escreveu-me compungido por um desses casos, dos quais, sempre que tomo conhecimento, sinto-me como se fosse parente de uma das vítimas.

Ele me conta que a feirante Juracy Benedet, com 60 anos, teve um AVC no dia 4 de março corrente.

Foi internada então no Hospital Dom João Becker, em Gravataí. Só que naquele hospital não existe neurocirurgião, atendimento de que ela necessitava.

Ela ficou esperando a morte naquele hospital, à procura de uma vaga onde se pudesse prestar-lhe o atendimento necessário.

Não se diga que seus familiares ficaram inertes. Sem vaga em nenhum hospital, com a morte se aproximando, enfrentaram uma cruzada contra o tempo. Um advogado conseguiu três liminares com ordens para internamento imediato de dona Juracy num hospital competente. As três ordens judiciais foram ignoradas.

Dona Juracy continuava a morrer abandonada.

Até que veio a morrer, com total falta de recursos no último sábado, dia 13 de março.

O repórter me escreveu, certamente porque sabe que tradicionalmente me ocupo com falta de atendimento de saúde: “Fui designado para cobrir o caso desse drama para o Jornal do Almoço, rumei para Gravataí. Depois de 15 anos como jornalista, é em momentos como esse que dá vontade de largar tudo. Me sinto um derrotado. Porque a gente mostra, vive mostrando, mostra de novo o drama da falta de atendimento de saúde, mês após mês, e nada muda. Gente morrendo por falta de leito! É surreal demais!”.

Já que não há vagas nos presídios para os criminosos, o mínimo requisito para que nos considerássemos uma sociedade civilizada, com parco sentido de organização, é que tivéssemos leitos nos hospitais para toda pessoa paciente de doença grave. No mínimo isso.

Mas nem isso nós temos. Como é que se pode compreender um meio social em que quem adoece não recebe atendimento em hospital? Como?

Este caso da morte da dona Juracy abandonada pelos meios de atendimento de saúde é raro no seguinte sentido: a imprensa tomou conhecimento dele.

Na grande parte dos casos, milhares de pessoas morrem ou vão definhando de posto de saúde em posto de saúde, sem o devido atendimento hospitalar, sem que a sociedade tome conhecimento desses fatos escabrosos.

Eu não entendo como possam funcionar o Executivo, o Legislativo e o Judiciário de uma sociedade que nega atendimento médico para seus integrantes. Não tem sentido erguerem-se as instituições se não se dá hospital para doente grave. Não tem sentido.

Até quando vamos encenar eleições sobre eleições, governos sucedendo uns aos outros, se não há lugar nos hospitais para os doentes?

Até quando?

É o fim da picada.

O ex-amor

26 de janeiro de 2013 0

Não há sensação mais assustadora do que reencontrar-se depois de muitos anos, em qualquer lugar, com alguém que foi o nosso grande e insubstituível amor.

De repente, num restaurante, num bar, numa festa, na rua, topamos com aquela mulher ou aquele homem que julgávamos seria inseparável das nossas vidas – e que pelos caprichos da existência tornou-se apenas numa vaga lembrança, afastada do nosso caminho, tornada desimportante pelo novo rumo que enveredamos.

Mas está ali presente, ao nosso lado, às vezes até conversando conosco, aquela pessoa que era a razão da nossa existência.

Somos então tomados invariavelmente por uma náusea. Algo assim que atinge os que fazem regressão e voltam a vidas passadas. Aquele grande examor afirma que tínhamos outra identidade, embora fôssemos nós mesmos.

Sucedem-se em nossa alma então as mais variadas e contraditórias emoções, desde o arrependimento e o remorso até a vergonha e o desvario.

Imediatamente, assalta-nos a quase certeza de que as outras pessoas que sucederam àquele grande ex-amor em nosso coração e em nossa vida não passaram de invasoras e intrusas, posseiras espoliadoras de algo ou de alguém que não lhes pertencia, tomado à força do legítimo dono.

E um profundo tédio nos domina, uma melancolia de danar a alma, uma dor do ideal perdido, do amor que se finou sem ter-se concluído, um imenso desperdício, um abismo de sonho desfeito, um mal que a gente fez a si próprio sem querer, uma culpa tremenda pela tristeza do que se acabou sendo e o libelo do que se deixou de ser.

A vida tinha que nos poupar do reencontro com o ex-amor. Não há mal que mais nos vergaste que os sonhos frustrados, a lembrança do que tinha de ser e evaporou-se nas sombras, do querido e não conseguido, do palpável e não tocado, do atingível e não resultado.

E ficamos a contabilizar os nossos danos e a imaginar os danos que causamos àquela pessoa que como um fantasma agora vem nos acusar. Que dor!

A dor do destino que não se traçou, da viagem naufragada contra os rochedos, embora a bússola nos advertisse sem sucesso.

O sentimento de autotraição, covardia, um chute na lucidez, a irrecuperável derrota da energia desaproveitada.

Poupe-nos a vida de nos reencontrarmos com os nossos ex-amores. Nós que tanto driblamos a sua recordação, que por autopiedade fingimos que os esquecemos, tentando cultuar novos valores.

Mas que diabo, cedo ou tarde verificamos que aquela ferida ainda sangra e, na melhor das hipóteses, se no futuro não for de novo pelos reencontros remexida, ainda assim se tornará numa inocultável e horrenda cicatriz.

A cicatriz da marca de ferro em brasa no pêlo e couro das cavalgaduras.

(Crônica publicada em 16/05/1999 )

Ódio aos aposentados

25 de janeiro de 2013 0

Segundo se noticia, o governo federal se recusa a conceder reajuste de 7,7% aos aposentados do INSS que ganham acima do salário mínimo, aprovado pela Câmara e pelo Senado.

No entanto, este mesmo governo concedeu anteontem aumento de salários para 32 mil funcionários federais, sob a forma eufêmica de vantagens que vão custar aos cofres públicos R$ 800 milhões.

Não há dúvida de que o que existe é ódio aos aposentados.

Eles são considerados escória pelo governo.

*

Um ingrediente infalível na dinâmica brasileira é a bitributação.

Um entre vários exemplos: o sujeito gasta uma fortuna para formar-se em Direito. Forma-se, e a Ordem dos Advogados declara que ele ainda não está formado, tem de fazer o exame da Ordem.

E aí aumenta o preço da inscrição ao exame de R$ 130 para R$ 200.

Em todos os setores, vão descarnando o nosso povo.

*

Há um mistério que ronda a suposta reforma tributária: todos são a favor dela, a sociedade, os trabalhadores, os empresários, os governantes.

Mas, na hora de aprová-la, não se consegue aprová-la.

Será que só quem lucra com a alta tributação é que tem poder de fogo para aprovar e/ou rejeitar a reforma?

*

Mais uma vez sofreu atraso o projeto para o trem-bala entre São Paulo e Rio de Janeiro, por desentendimento na licitação.

O trem vai ser rápido, mas não existe nada mais lento que o seu projeto.

*

Por que será que, onde se precisa de polícia, só há ladrão? E onde não existe ladrão tem sempre bastante polícia?

*

Como fumante inveterado e abjeto, protesto: nos lugares em que há televisão e freezer, é proibido fumar; no fumódromo, não há televisão e freezer.

Não é uma discriminação?

*

No debate da Confederação Nacional da Indústria, entre os três presidenciáveis, mais uma vez a candidata do Partido Verde, Marina Silva, empolgou a plateia.

Ela suscitou entre alguns empresários lágrimas na plateia.

E pronunciou sob gargalhadas a sua frase padrão: “No primeiro turno, a gente vota em quem gosta; no segundo, a gente se desvia do pior”.

*

O perigo dessa inversão de mão que a EPTC cogita para as artérias da Capital, no sentido de combater o engarrafamento, está em que numa esquina um azulzinho inverta a mão e na esquina seguinte outro azulzinho multe por trafegar contra a mão.

*

Um componente decisivo nas partidas de futebol não é encarado com relevância pelos comentaristas esportivos: a sorte.

E, no entanto, a sorte decide 60% dos jogos de futebol.

Justamente por isso é que o futebol atrai multidões: é um jogo.

*

Está tudo trocado.

O goleiro Victor do Grêmio declarou: “Eu não preciso de psicólogo”.

Absolutamente certo. Eu é que andei precisando de goleiro.

*

Mas foi um alívio a vitória gremista de ontem contra o Avaí. O rebaixamento andava rondando.

O horário da novela

24 de janeiro de 2013 0

A minha turma da Rua Padre Chagas é teimosa em dar apelidos aos outros.

Há um advogado que senta com a gente no café e para tudo que se diz ele responde com a mesma expressão: “Há nexo”.

Se se fala que os terroristas islâmicos atam bombas a seu próprio corpo e as explodem nas áreas inimigas, ele intervém: “Há nexo”.

Se a conversa gira em torno da adoção de crianças por casal de gays, ele lasca: “Há nexo”.

Para tudo que acontece no mundo ele tem uma sentença: “Há nexo”.

Foi aí que a turma da Padre Chagas já o apelidou de Anexo.

*

Já um tipo extrovertido que senta à mesa de vez em quando e se deita a narrar suas aventuras eróticas a turma da Padre Chagas apelidou com um primor vernacular.

O sujeito afirma sempre em suas narrativas que, durante os frequentes congressos carnais que mantém fora do casamento, pauta sua conduta por ficar trocando palavras obscenas com as parceiras enquanto se dedica ao intercurso.

Ele só tem prazer no sexo quando ele e a parceira pronunciam obscenidades durante os jogos de amor.

Sente mais prazer nas palavras do que no sexo propriamente dito.

A turma da Padre Chagas já o apelidou de Sexófono.

*

Mas sempre ronda a mesa de rua do café um vendedor de bugigangas, um tipo muito simpático, que no entanto apresenta um defeito físico bem acentuado: todo o seu corpo é coberto de verrugas.

Ele mostra verrugas nas mãos, nos braços, no rosto.

A turma da Padre Chagas foi cruel e infame ao apelidá-lo de Chokito.

*

É, existem os apelidos cruéis. Como aquele muito conhecido do sujeito manco: Deixa que eu chuto.

*

Há jogos como o de ontem à noite entre São Paulo e Internacional que se pode chamar de eletrizantes.

Para quem não é ligado a futebol, ilustro que são partidas em que as pessoas que torcem ficam moídas por dentro de tensão e nervosismo, parece que cruzam por um corredor em que a qualquer momento podem cair no abismo do inferno ou no paraíso do céu.

Tudo se decide nesses jogos, que significam muito mais para os colorados torcedores e gremistas secadores, caso de ontem, do que qualquer jogo de Copa do Mundo ou corrida decisiva da Fórmula-1.

Quando é pela televisão, como ontem, os torcedores e secadores vão para casa e lá no recôndito do lar curtem uma agonia tão exasperante que só poderá se extinguir com uma vitória consagradora.

*

E há, no entanto, alguns torcedores ou secadores, conheço muitos deles, que têm uma reação estapafúrdia: recusam-se a ver os jogos, e vão ao cinema ou se escondem dentro de sua próprias casas, sem ver televisão.

Escolhem saber do resultado só no fim do jogo e vão apalpando o rádio e a televisão, temendo que lhes tenha sido desfavorável.

Essa voltagem de sensação é a matriz do futebol, algo assim como se sentem os soldados que participam de uma guerra e não têm tempo nem para dormir, a cada batalha sangrenta que se sucede.

É o mistério do futebol, a magia do futebol, o segredo do futebol, a que não têm acesso pessoas que não gostam desse esporte.

O futebol, com essa vertigem, já conseguiu todas as façanhas, só não alcançou uma, que permanece indiferente e insolente a ele: o futebol ainda não conseguiu milagrosamente mudar o horário da novela.

Um século de luz

23 de janeiro de 2013 0

Estávamos no aceso da discussão sobre a adoção de crianças por casais gays, quando do alto de sua sabedoria e experiência o amigo Fernando Ernesto Corrêa sentenciou, com silêncio respeitoso da roda:

– Acho que uma criança tem muito mais chance de ser feliz e realizada se for adotada por um casal gay. As relações entre casais gays são muito mais estáveis e harmoniosas do que entre casais héteros. Além disso, nunca vi a separação entre um casal gay. Enquanto as separações entre casais héteros somam-se aos milhares. Também é de se notar que, quando ocorrem as separações entre casais héteros, o mundo vem abaixo, dá-se a separação debaixo de conflitos e atritos profundos, dificilmente cicatrizáveis. E, quando por acaso se dá a separação entre casais gays, ela se caracteriza por condutas recíprocas civilizadas, não restando maiores sequelas emocionais e rancores. Por tudo isso, é que julgo serem muito mais provavelmente felizes as adoções de crianças por gays do que por héteros.

Não pensem que a opinião racional e arrazoada do meu amigo foi recebida com aplausos unânimes.

Foi recebida com respeito e acatamento. Eu, em particular, aplaudi intimamente a manifestação de Fernando Ernesto.

É que custei muito a perceber, mas percebi, que o homossexualismo não é uma opção de vida escolhida pelos gays: é, outrossim, uma destinação genética, um genoma inafastável, uma imposição natural a que são submetidos os gays, igual em tudo à situação dos héteros.

É que custei a perceber, na minha burrice esférica tradicional, que homossexualismo não é uma doença.

E como custei a perceber, incrivelmente, que existiam duas inclinações sexuais, a hétero e a gay.

-

Levei muito tempo para discernir que as perseguições sociais a que foram submetidos – e ainda o são – os gays eram fruto de um odioso preconceito.

Perseguiram-se e desprezaram-se os gays como foram perseguidos e desprezados – e agredidos – os negros, os judeus, os velhos, os ex-detentos etc.

Desde que percebi que os gays eram humanos, essencialmente humanos, capazes de todos os defeitos e virtudes intrínsecos à natureza dos homens, aceitei-os plenamente.

Ou melhor, não os aceitei, porque sendo assim parece que fiz uma concessão. Nada disso, considerei-os normais à luz da natureza humana e me propus, onde quer que eu fosse e me dessem a oportunidade, inclusive nesta coluna, a defender a condição dos gays como integrante comezinha da sociabilidade.

-

Aí me surge lá por trás do biombo da discussão uma opinião atrevida: “E se porventura tivesses, Sant’Ana, um filho gay? Como procederias?”.

Eu procederia como se ele fosse um filho hétero, com a diferença de que me aliaria a ele com todas as forças do meu entusiasmo para lutar contra o preconceito e a cegueira sociais.

E daria as mãos para ele e iríamos seguindo pelas mesmas ruas, com a coragem e a lucidez dos justos, para tentarmos vencer toda a escuridão que durante séculos assolou os gays e penetrarmos confiantes na dimensão de luz que começa a iluminar a humanidade, a ponto de nestes dias, só um exemplo, a Argentina ter legalizado o casamento gay.

À vitória!

Minha máxima culpa

22 de janeiro de 2013 0

Texto publicado em 02/04/2000.

Por que, diabos, tudo que me dá prazer ou me proporciona felicidade sempre vem acompanhado de culpa? Se como doces, o que me significa suprema delícia, como-os com culpa, eles podem fazer subir perigosamente minha glicemia. Não há para mim nada que se compare em sabor gastronômico àquela faixa litorânea de gordura de uma picanha. Mas a sensação de culpa colesteroliana que me invade quando estou mastigando a gordura da picanha me leva direto ao corredor espiritual da morte.

Se fumo, envergonho-me de dizer que é o maior dos meus prazeres, então se desata sobre mim uma culpa dantesca, uma culpa de Pilatos que vai me levar para o inferno logo depois do enfisema. Tudo que extasia os meus sentidos provoca-me culpa. E tudo que encantou o meu coração acabou em culpa.

A vez primeira que amei, por exemplo, aquele amor desmedido, crescente, correspondido, eternamente inesquecível, tanto que até hoje sinto o perfume das plantas silvestres que nos envolviam quando deitamos sobre a relva e nos beijamos furiosamente contra o chão. E já faz 30 anos! Pois carrego daquele amor a culpa da traição. Traí-a miseravelmente, abandonei-a, sem perceber que estava eu próprio me abandonando para sempre.

As outras vezes todas e poucas que amei com desvario me inculparam de todas as formas. Todos os meus casos de amor terminaram por culpa minha. Culpa de não ter tempo, culpa da desatenção, culpa por insistir na brasa da lubricidade quando tinha de aquecer só com o fogo da ternura. Eu me declaro culpado aqui neste tribunal, perante todos os juízes e jurados, de ter desperdiçado, por desaviso ou loucura, todos os grandes amores que o acaso me proporcionou. Eu só fui o culpado. E a pena que os senhores têm de aplicar é a mais terrível de todas as penas, não há no inferno alguma que se a equipare. É a pena que já estou cumprindo, mas que deve ser agora decretada como perpétua por vós, meus julgadores: a pena da solidão.

Quem não soube amar, quem deixou escapar a magnífica oportunidade de amar para sempre e cada vez mais, tem que, como eu, ser condenado à solidão. Quem, como eu, permitiu quase sempre que o abandono, o desdém sincero ou o desdém fingido dessem lugar paulatinamente ao fastio merece o castigo máximo: a solidão. Quem, como eu, não entendeu que, se era necessário trair, havia que traí-la com ela própria, reinventando-a nos meus braços, na minha fantasia e nos meus sonhos, merece a pena letal da solidão.

Quem, como eu, não teve o engenho de preenchê-la no que lhe faltava, de socorrê-la de seus medos com a minha coragem ou de encorajá-la a me livrar dos meus medos, merece cumprir a pena amarga e terrível da solidão. E é porque eu sempre cumprirei a maldição que sobre mim foi atirada de nutrir culpa por tudo que me maravilha que hoje vago em andrajos e tonto pela vida que me sorriu sedutoramente e desdenhei. Por minha culpa, minha máxima culpa, minha clara e inequívoca culpa, é que vou purgar até o meu fim a farsa que fui e o esplendor do que deixei de ser.

Viva a alegria!

21 de janeiro de 2013 0

O tédio tem de ser um aborrecimento passageiro.
Se a pessoa está permanentemente dominada pelo tédio, isto deixa de ser tédio para ser melancolia grave ou até depressão.
O tédio e a rotina são inimigos perversos do homem.
Há o tédio da rotina e a rotina do tédio.
Só a segunda é uma doença.
É preciso ter muita inventividade para driblar tanto o tédio quanto a rotina.

O tedioso é um ser inviável.

Ele tanto pode ter tédio por estar desempregado quanto por estar empregado e não satisfeito com seu emprego.
Casado ou solteiro, o tedioso terá argumentos contra sua condição.
Ele está sempre querendo estar onde não está.
Tanto pode odiar a pobreza porque ela o aflige por não poder fazer o que pretendia quanto odeia também a riqueza porque ela lhe impõe o tédio de impedi-lo de ter ambições.

O tédio é filho legítimo do pessimismo.

O pessimismo é um dos mais terríveis defeitos ou doenças mentais.
Para o pessimista, não há salvação.
Quando ele está bem, acha que não vai durar a sua situação.
Quando está mal, acha que vai durar infindavelmente a sua situação.
O pessimista confia na infelicidade e desconfia da felicidade.
Ele se julga imerecedor da felicidade.
Quando o pessimista está feliz, ele pensa que algo de errado está acontecendo.
Se a alegria bater na porta do pessimista, ele manda dizer que não está.
Se no entanto o sofrimento bater à porta do pessimista, ele se apresenta a ele, manda que entre, sente-se e sinta-se como se estivesse em sua casa.

Se o tédio é filho legítimo do pessimismo, o mau humor é filho legítimo do tédio.

Não pode haver pessoa menos capacitada para as relações humanas do que o mal-humorado.
Toda a alegria dos circunstantes ao mal-humorado tromba com o mau humor dele.
O mal-humorado é mais nocivo no meio social do que o chato.
Ainda se convive com um chato, mas não há como tolerar um mal-humorado, até mesmo porque ele se mostra sempre intolerante com os outros.
Quase todos os tipos de agressões verbais ou gestuais nascem do mau humor.
Não há nada mais agradável nas relações humanas do que topar com um bem-humorado.
Mesmo que ele esteja amargurado, sua conduta sempre se caracteriza pela alegria.
É um método inteligente que ele usa para espantar a tristeza.
E consegue.
O bom humor é o mais valioso dos atributos humanos.

E antes de ser um atributo, o bom humor é um dever: ninguém que seja gregário tem o direito de ser mal-humorado.

Por isso, o mal-humorado deve possuir a autocrítica de se tornar sozinho, com a finalidade de não empestar as pessoas que o cercam.
A conseqüência natural do mau humor é a agressividade.
A gentileza, o afeto, o amor, todos esses gestos ou sentimentos são incompatíveis com o mau humor.

Os tediosos e os mal-humorados têm de realizar o esforço supremo de alimentarem-se de luz e nutrirem-se de alegria.

Isso inicialmente pode ser apenas um drible na sua alegria ou um fingimento.
Mas não há outra forma de escapar ao mau humor ou ao tédio do que começar por fingir.
E o bom humor, mesmo que fingido, pode depois incorporar-se definitivamente à personalidade, afastando verdadeiramente o tédio.
Alegria, alegria! Alegria é um dever social.

*texto publicado em 06/07/2008

Mais nostalgia

20 de janeiro de 2013 0

Mais que a todos, a passagem dos séculos me assombra.
Tem gente por aí convivendo comigo que já nasceu sob o signo da insegurança pública e do desemprego.
Eu não, sou do tempo das cadeiras preguiçosas ou de palha nas calçadas.
Do tempo em que o trem vinha até a Voluntários da Pátria e se ia até Santa Maria num vagão com restaurante.
Sou do tempo da Bandeira do Divino, ela era precedida nas ruas e nos becos por foguetes, entrava nas casas, punha-se um donativo numa caneca e cortava-se um pedacinho de fita da bandeira para abençoar a casa.
Sou do tempo do Armazém Riograndense, sou do tempo dos cubeiros, que vinham em caminhões com cubos limpos de madeira envernizada e os trocavam nas latrinas por cubos cheios de fezes humanas.
E as mães diziam para os filhos: “ Se não te comportares e não estudares, vais ser cubeiro”.
Sou do tempo das Lojas Krahe, da Casa Coates e da carrrocinha dos cachorros, que recolhia os cães vadios mas junto com eles arrastava por laços asfixiantes nos pescoços os cães das famílias, o que por vezes causava uma tal revolta no arrabalde que as carroças eram destroçadas, os cães soltos e os funcionários municipais espancados.

Sou do tempo da Casa das Sedas, da Xangrilá e da espiriteira de álcool e do fogareiro de bomba.

Sou do tempo da Sloper, da Tschiedel, do caminhão do gelo que trazia longas barras que eram carregadas nos ombros dos geleiros, protegidos por sacos de aniagem.
Não havia refrigeradores, eram geladeiras, nasceu neste processo a cerveja bem gelada.
Sou do tempo do Anil Reckitt, do Vinho Doce Sabiá e do emplastro poroso do mesmo nome para torcicolo.
Sou do tempo do Kirk e da Senador, da Ferragem Pimenta, do pião, do bilboquê, depois do ioiô, do jogo de bambá com cascas de laranja, do jogo de taco com casinha derrubada, do Mercado Livre das frutas e verduras na Mauá, da vela espermacete, do refresco Hidrolitrol, do cartaz no bonde

“Veja ilustre passageiro/ o belo tipo faceiro/ que o senhor tem a seu lado/ e no entretanto ( sic) acredite/ quase morreu de bronquite/ salvou-o o Rhum Creosotado”.

Sou do tempo do bambolê, do sapato tressê, da bolinha de inhaque e da “ aça” que arrastava todas pela frente.
Sou do tempo dos cines Coliseu e Central.
Sou do tempo do Brizola governando o Estado e atrasando o pagamento do funcionalismo por longos e tenebrosos cinco meses.
Por isso, ao mesmo tempo que nada me surpreende, tudo me arrasa e espanta.

*texto publicado em 23/03/2007

Botão com casa

19 de janeiro de 2013 0

Fico absurdo a cismar que uma das maiores invenções humanas é o botão com casa.
Já inventaram colchetes, fechos, pregas, laços, encaixes, mas nada supera o botão com casa.

Interessante, por vezes, o botão, como um cavalo indomado, reluta em entrar na casa, esperneia até que enfim se aquieta e fica seguro.
Segurado pela casa.

O botão com casa deve ter sido inventado nos tempos medievais.
Ele deveria ser apenas um adereço, um enfeite.
Até que um dia alguém deve ter tido a luminosidade de dar esta esplêndida utilidade ao botão, alojando-o na casa.
De lá para cá, as costureiras e os alfaiates em todo o mundo não fazem outros designs que não sejam os botões nas casas.
Há até determinados fabricantes de roupas tão fixados no botão com casa que cometem o erro de colocá-lo nas cuecas, um desastrado desvio da sua eficácia original.
Um mandamento inarredável da indústria de confecções é não colocar botões nas roupas íntimas.
Quando se chega à roupa íntima, nenhum obstáculo mais deve sobrar.
O botão, assim como é a porta da liberdade, também é a chave que cerra a clausura.

A gente fala com seus botões.

A gente pena com seus botões, a gente segreda para seus botões, tudo isso se abotoa na linguagem e na literatura, mas onde o botão se sublima e se alcandora é preso na casa.
Na casa, o botão não responde para a gente, ele fica amarrado e imóvel, indefeso, à espera da tão sonhada liberdade, que só virá no fim do dia, ironicamente quando a gente chega em casa e tira a roupa.

O botão é tão inspirador, que os poetas resolveram criar a bela e intrigante expressão: “ Botão de rosa”.
O botão de rosa é a rosa nascitura, a rosa infantil, a rosacriança.
É a rosa do futuro.
Toda rosa um dia foi botão, como todo pão um dia foi grão de trigo.

Tudo isso se transforma, se multifaceta, mas a origem calma, singela, unívoca, transcendental é o botão com casa.
É na casa que se conhece o verdadeiro botão.
O botão é como o bom marido, só se revela quando preso na casa.

Quando a gente desabotoa os botões da blusa de uma mulher bonita, começa a transpor o portal do paraíso.
Olhaí de novo a teoria da segurança quanto aos botões: uma mulher só pode se sentir segura enquanto os botões de sua blusa estiverem amarrados às casas.
Se ousar desabotoar, desanda a ambrosia, nada mais pode ser contido.

Aproveitando que Roberto Carlos está entre nós e realiza hoje mais um show no Gigantinho, é sempre bom lembrar uma letra de sua música que se refere ao botão: “ Os botões da blusa que você usava E meio confusa desabotoava Iam pouco a pouco me deixando ver No meio de tudo Um pouco de você”

*texto publicado em 18/08/2009

O que e como se faz

18 de janeiro de 2013 0

Não se faz omelete sem ovos, não se faz quindim sem coco, não se faz mocotó sem vinho, nem se faz coluna sem entusiasmo.

Não se faz panqueca sem guisado moído, guisado graúdo é incompatível com a panqueca, não se faz arroz de leite sem canela, não se faz polenta sem milho, não se faz churrasco sem calor. São, por sinal, necessários dois calores para fazer churrasco: o calor das brasas e o calor humano.

Não se faz justiça sem clemência, não se faz administração sem planejamento, não se deve fazer filhos sem amor, não se faz investimento sem crédito, não se faz gemada sem açúcar, não se sente inveja sem admiração, não se faz espaguete sem água quente nem se faz doce de coco que não seja desfiado.

Não se deve fazer texto sem conteúdo, não se faz birra sem motivo, não se faz pandorga sem cordão nem se faz compota sem calda.

Não se pratica crime sem intenção, não se faz presídio sem associação do público com o privado (não é, doutor Tarso Genro?), não se faz jogo de carta sem valer dinheiro, ainda que seja pouco, não se faz Mega Sena sem sonho.

Não se faz, pelo menos não se deve fazer, saia sem decote, não se faz fumódromo sem fumantes, não se fazem drogas sem usuários.

Não se faz remédio sem prevenção, nem polícia sem prevenção, não se faz administração pública sem sonegação, não se criam impostos sem sonegação.

Não se faz música popular sem letra, não se faz suor sem catinga, não se faz SUS sem médicos, não tem sentido existirem doentes e não existirem leitos nos hospitais.

Não se faz demanda sem fila, não se faz banco sem dinheiro, tampouco se faz banco sem assalto (ao banco ou aos clientes).

Não se faz polícia sem cassetete, dizia-se e hoje não se diz mais, depois das aventuras do Bruno, que não se faz crime sem cadáver.

Não se deve fazer provimento de cargos sem concurso, não se faz dívida sem previsão nem se faz lombinho de porco sem pingar gotas de limão.

Não se faz merengue mole sem uma lasca de casca de laranja, não se fazem doces de Pelotas sem ovos, não se faz denúncia sem comprovação.

Não se faz sexo sem camisinha e, do jeito que a coisa anda, deve-se usar camisinha até quando se faz sexo sozinho.

Não se faz agudo sem tenor nem grave sem contralto, não se faz presidente da República sem voto, os feitos com as armas eram ilegítimos.

Não se faz samba sem pandeiro nem tango sem bandoneon, apesar de que no tempo de Gardel não existia bandoneon, era só na base de guitarras.

Não se faz bíblia sem profetas, não se faz calvário sem cruz nem se faz libelo sem provas.

E a partir de hoje fica definitivamente provado que é possível fazer uma ótima coluna sem assunto.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

A sina do homem

17 de janeiro de 2013 0

É preciso largar o cigarro. É preciso largar o açúcar. É preciso largar ou moderar os carboidratos, essa montanha de massas, pães, biscoitos que ingiro, que ingerimos. Eu não bebo, mas quem bebe tem de largar a bebida etc.

E ficar com o quê?

A vida, primeiro, é uma aceitação dos prazeres ou até uma adaptação consumista às necessidades. Lá mais adiante, nos submetem à imperiosidade da renúncia.

No início, é preciso fisgar essa mulher, atraí-la, enchê-la de afeto, satisfazê-la na lascívia, é uma mão de obra descomunal a conquista.

Mais tarde, é preciso largar esta mulher (ou este homem). Ela não era quem eu pensava ou simplesmente me cansou. Mas como largar esta mulher agora que os laços econômicos, sociais, existenciais se estreitaram tanto?

Como largar o cigarro se ele já se incorporou ao meu metabolismo de tal sorte que não suporto a ideia de viver sem ele?

Como largar o arroz de leite, o quindim, os ovos-moles, o pudim de laranja que se esparramam todos diante dos meus olhos na carta de sobremesas?

Mas, então, no meio ou no fim da minha vida, terei de me privar de todos os prazeres a que estou acostumado?

Terei de criar outras delícias, aprender a comer peixe cru como os japoneses? Mas peixe cru não desliza mais pela garganta e pelas glândulas salivares da minha formação alimentar e hedônica. O que desliza redondo em mim, tornando meu dia prazeroso e minha vida feliz, é o sagu com creme de leite.

Então, a vida é um pega e larga constante. Pega o sal, larga o sal, mas só larga o sal depois que estiver bem acostumado com o sal. Com a mulher também. Com os doces, com as massas.

Depois que gostou do sexo, viciou-se no sexo, tem agora de usar a camisinha. O doce é maravilhoso, mas engorda ou eleva perigosamente a taxa glicêmica. Vê se passa para o alimento dietético, mas o alimento dietético e a camisinha são umas porcarias.

A vida é um incessante pegar e largar. Pega o namorado, larga o namorado. Pega o emprego, larga o emprego e mergulha no desespero do desemprego.

Pegar é bom, largar é um inferno. Casar é bom, tanto que todos se casam, mas descasar, que teria também de ser bom, vira um inferno.

Então tem-se de ser muito forte para viver. O homem é um animal muito forte, o mais forte de todos os animais. Porque ele está sempre tendo de iniciar alguma coisa e logo em seguida é obrigado a interromper o processo. E recomeçar tudo de novo.

Não há mente nem corpo que resistam. Se o homem fosse como o camelo ou a capivara, que sempre bebem e comem a mesma coisa, que fazem sexo sem divórcio e não cuidam da saúde nem têm sequer ideia nem medo da morte e do futuro, só então poderia ser feliz.

(Crônica publicada em 21/02/1999)