Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de fevereiro 2013

O valor da ajuda

28 de fevereiro de 2013 0

Sempre tive curiosidade para saber quem são as pessoas que se valem de albergues filantrópicos para serem neles hospedadas. Quais são suas dificuldades, como despencaram na escala social a ponto de não terem um lar ou uma moradia, que caminhos percorrem para voltarem à vida normal etc.?

Pois recebi um e-mail impactante, um homem que já foi professor e cursou a universidade teve, por essas quebradas da vida, de socorrer-se do abrigo noturno do Instituto Espírita Dias da Cruz.

O seu relato é emocionante. Quantos milhares já não tiveram essa experiência? A quantas e quantas pessoas o Dias da Cruz e outras entidades filantrópicas já ajudaram e recuperaram suas vidas?

Transmito aos leitores esta sublime aventura e lembro que hoje em Zero Hora há encartado um boleto de ajuda bancária ao Dias da Cruz.

“Acabei de ler tua coluna e não tive como me conter. Precisei mesmo desabafar e me colocar à disposição da campanha por aquela casa que é o motivo de eu estar cidadão digno na terra gaúcha. Espero que possas aproveitar meu testemunho e até por isso escrevi de forma compacta.

Claro que a história é rica e emocionante, mas em ocasião propícia contarei detalhes. Desde tempos, venho pensando numa forma de expressar gratidão pelos que lá me acolheram e vi no texto da tua coluna que o momento de agir chegou.

Sou porteiro em um condomínio horizontal no Três Figueiras. Leio ZH quando chega, toda madrugada, e a edição de sábado, 9 de maio, me estimulou a escrever o presente testemunho.

Considero-me culto, pelos livros que li e pelas atividades artísticas em que estive envolvido, como artes plásticas, teatro e literatura de cordel. Já fui universitário e cursei História na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Curso esse que acabei não concluindo por motivo alheio à minha vontade. Dei aulas de história e literatura durante 11 anos, além de trabalhar em bibliotecas e museus no meu Estado. A bagagem de todas essas atividades me levaram a imaginar um projeto de incentivo à leitura que hoje tenho como revolucionário. Em agosto se completam quatro anos de que desembarquei no boxe 48 da rodoviária de Porto Alegre com o dito projeto debaixo do braço e embriagado na mais pura utopia de querer transformar o mundo e garantir um futuro melhor para a humanidade. Porém, com o currículo de curso superior incompleto e atividade profissional toda ligada à área cultural, não foi nada fácil conseguir uma colocação no mercado de trabalho na capital gaúcha. Passando por algumas peleias, precisei amparar-me em um abrigo. Entrei na fila do albergue Dias da Cruz e fui recepcionado por ‘Seu Carlos’, que exigiu RG e tratava todos os desvalidos como ‘irmãozinhos’. O ano era 2007, precisamente final de janeiro e começo de fevereiro. Vi no interior da instituição muito além de um aconchego material humanizante. Vi um corpo de voluntários praticantes sinceros de valores cristãos.

Ressalto a importância dessas pessoas para a recuperação de cada indivíduo que ingressa na casa. Ao contar minha história ao Seu Carlos, pedi por caridade que me conseguisse uma tesoura, 1 quilo de cola e um punhado de jornais velhos para que pudesse fazer trabalhos manuais. Ele e mais uma boa alma do centro me conseguiram o que pedi, e em pouco tempo estava eu alugando um quarto na Vila São José. A solidariedade que encontrei quero retribuir de todo o coração e firmo compromisso de engrossar a campanha citada na coluna do Paulo Sant’Ana. Cada ser humano que na casa Dias da Cruz tem pouso digno é carregado de histórias com altos e baixos. Minha história é apenas mais uma. Quero somar minha história à nobre luta dos que fazem do albergue Dias da Cruz um lar de fraternidade. (ass.) Wagner Rondora da Silva (rondorasilva@gmail.com)”.

Ser velho

18 de fevereiro de 2013 0

Eu sei muito bem o que é ser jovem, mas seguidamente me confunde o conceito de “velho”.

O que é “velho”? Seguidamente vejo as pessoas consolando os velhos: “Velho é um estado de espírito, a velhice não está no corpo, está na cabeça. Velho é aquele que perdeu o entusiasmo etc”.

E citam Sófocles: “Ninguém ama tanto a vida como aquele que está envelhecendo”.

E eu penso o seguinte sobre isso: se é preciso dizer todas essas coisas para acalmar os velhos, então não é bom ser velho.

O nosso cardiologista Fernando Lucchese está num livro de citações que folheio com a seguinte frase de sua autoria: “Se a palavra ‘envelhecer’ o incomoda, você ainda tem muito que aprender”.

Parece-me que Lucchese quis dizer que toda pessoa que se ofende quando a chamam de “velho” ainda não está velha.

É o contrário exatamente do que acontece com os burros: se você chamar alguém de burro e ele se ofender, então é porque ele é burro.

A palavra “velho” é ofensiva por um lado, mas carinhosa por outro. “Tu és um velho” é uma frase demasiadamente agressiva, está se chamando determinada pessoa de gasta pelo uso, antiquada, obsoleta.

No entanto, quando se diz que fulano “é um velho amigo” está-se fazendo um grande elogio àquele amigo.

Ou quando numa família se diz assim: “O velho aqui resolve tudo para nós”, está-se rendendo um preito de admiração ao pai ou ao avô.

Mas o que eu noto principalmente é uma reação íntima irada por parte de quem é classificado como velho. Tenho um amigo que pinta os cabelos e tem 70 anos.

Tem direito à isenção da passagem de ônibus, mas não a usa, puxa do bolso o dinheiro e paga a passagem: não quer que ninguém no ônibus o considere um velho. Observem que no caso desse amigo, como paga passagens todos os dias e durante anos, sendo isento, custa-lhe mais caro afetar juventude.

Eu incorporaria no dicionário como sinônimo de “velho” a palavra “tio”. Digo isso porque se eu fosse moço, os meninos que pedem esmolas nas sinaleiras não me chamariam sempre de “tio”. Eu disse “sempre”.

Quando se é jovem, nunca passa pela cabeça a idéia nem da velhice nem da morte.

É tal o extasiamento da juventude pela vida, que nem remotamente se lhe acode a possibilidade de ficar velho ou de morrer.

Mas a velhice vai chegando aos poucos, a pessoa não se apercebe de sua aproximação.

Sente-se principalmente a velhice quando se desce uma escada, só aí é que a gente nota que existe uma coisa chamada corrimão.

E se desce a escada olhando fixamente para os degraus. Juventude significa descer escada sem apoiar-se no corrimão e olhando para a frente ou para cima, desconhecendo os degraus.

Por falar nisso, nunca esqueço o letreiro que havia no Restaurante Gambrinus, no Mercado Público: “Cuidado com esta escada, principalmente na descida”. Eu botei isso na coluna e, no dia seguinte, o Antoninho, dono do Gambrinus, arrancou o letreiro de lá. Pior se tivesse demolido a escada.

De minha parte, para concluir, quero deixar bem claro o que penso sobre a velhice: está definitivamente velho, irrecuperavelmente velho, tristemente velho aquele que não mais consegue suscitar paixão em ninguém ou não tem mais nenhuma aptidão por apaixonar-se por alguém.

Isto vai até além da velhice. É a morte em vida.

(Crônica publicada em 12/01/2007)

Banha ou azeite?

17 de fevereiro de 2013 0

Mas eu falava da minha dificuldade em assimilar as mudanças através dos tempos.

Sou tão reacionário às mudanças, que até hoje, depois de 50 anos de implantação, não me conformo com a troca na cozinha brasileira da banha pelo azeite.

Nunca mais comi comida tão deliciosa como a que minha madrasta fazia com banha. Há 50 anos que me dão comida feita com azeite. Desculpem os modernos e os progressistas, mas com banha era maravilhosamente melhor a comida, o pastel, o arroz, a panqueca, tudo com banha era maná dos céus. E hoje com azeite tudo tem um gosto tão estranho, meio insosso, sem aquela delícia que a banha imprimia aos alimentos.

E como me dá saudade daquele meu tempo de guri em que minha madrasta me dava dinheiro para comprar um pacote paralelepipedal de banha no armazém da esquina!

Porque para eu-menino aquela banha significava a certeza de que ao meio-dia haveria comida boa.

Que saudade do meu MP Lafer

16 de fevereiro de 2013 0

Que saudade do meu MP Lafer/Divulgação
Uma vez, contei aqui esta história: eu tinha um carro conversível, há 30 anos, um MP Lafer. Andei com ele pela cidade durante uns três anos, era o meu carrinho querido, eu ficava mais jovem e bonito dentro dele.


De repente, como estava já desgastado, resolvi vendê-lo.

Um belo dia, eu estava dirigindo já outro carro, quando vi o meu MP Lafer passar por mim, pintado, brilhando, já sendo dirigido por seu novo dono.

Corri em disparada atrás do MP Lafer, parecia que aquele motorista que o dirigia tinha roubado a minha mulher e a estava namorando!

Até lá pelos lados do aeroporto, quando vi que o MP Lafer iria se dirigir para Canoas, abandonei minha ridícula perseguição.

Mas estacionei meu novo carro no acostamento e derramei uma lágrima em homenagem ao antigo, em homenagem ao meu amor perdido, em homenagem ao que um crítico de literatura portuguesa que analisou um poema de Fernando Pessoa chamou de %22saudade do futuro%22.

Ou então, quando segui alucinadamente o ex-meu MP Lafer pelas ruas da cidade, fiz o que disse a respeito o poeta Guilherme de Almeida, é claro que de olho no meu carrinho querido que fui obrigado a vender:

%22Tenho ciúme de quem não te conhece ainda/ e cedo ou tarde te verá pálida e linda/ pela primeira vez%22.

Não sei se vou ou fico

15 de fevereiro de 2013 0

Mesmo quando a gente está em férias e viaja, sente nos primeiros dias de distância uma saudade do nosso lar, do papo com os amigos na cidade em que se mora, bate até uma falta enorme do ambiente de trabalho e também do próprio trabalho.

É um absurdo, uma besteira, mas a gente sente.

Eu sei que é o cúmulo da idiotia querer voltar para casa logo após ter deixado a casa em férias, mas é coisa que acontece muito freqüentemente.

Sobre esses dois corações que nos restam quando nos ausentamos do nosso ambiente original ou do nosso pago, no início de sua carreira, há 30 anos, Martinho da Vila compôs um samba exemplar nos primeiros versos:

Não sei se vou
Não sei se fico
Se fico aqui
Ou se eu fico lá
Se estou lá tenho que vir
Se estou aqui eu tenho de voltar.

Tem vários tipos de pessoas e vários tipos de síndromes entre os que se ausentam de casa.

Há os que carregam o mais vasto arsenal de material afetivo quando viajam: desde os chinelos até a cuia de chimarrão e a chaleira.

Há os que levam as fotos das paredes, há os que levam os cachorros, os que carregam a empregada, os que tiram fotos de suas camas, até de seu banheiro, só para se sentir em casa no lugar para onde vão.

E há os que transportam quase por inteiro a sua biblioteca, não vão ler nada, mas querem continuar perto de seus livros.

Há um tipo exótico de gente, passando agora para o terreno das afeições interpessoais, que leva na viagem a mulher, os filhos, mas também leva o melhor amigo. Não querem ficar sem nada que lhes pertença no lugar que escolheram para tirar as férias.

E há também o tipo mais especial mas também mais racional para essas hipóteses de afastamento dos seus valores habituais: é o sujeito que sabe que não pode ficar longe de suas coisas e das pessoas de que gosta e simplesmente se recusa a viajar, se é para ficar sentindo falta de tudo que o cerca, estragando assim a viagem, então se poupa desse incômodo ou tortura não se afastando de seu ambiente original.

De minha parte, faço exatamente o contrário dessas pessoas. Quando viajo, não levo nem escova nem pasta de dentes, compro tudo à chegada no lugar para onde me dirijo.

Tenho até exagerado nessa prática, muitas vezes não levo nem carteira de identidade, o que me tem causado imensas complicações.

Quero mudar completamente de ares. Sei que não conseguirei se carregar uma bagagem gigantesca de coisas identificadas com minha habitualidade.

Tive um amigo que viajava só com a roupa do corpo, não carregava bagagem para despachar, nem de mão. Entrava só com o corpo na viagem, assim mesmo um corpo modificado: raspava a cabeça e o bigode, cortava esmeradamente as unhas, até os óculos ele deixava em casa e logo à sua chegada no lugar de destino ia a um oculista e comprava outras lentes.

Sentia-se invejavelmente um homem novo em cada viagem. E se virava comprando de tudo no lugar da chegada, roupas, sapatos, alpargatas, remédios. E se esforçava com talento para achar lá uma outra mulher que não a sua, a qual deixava estrategicamente em sua cidade e em sua casa.

Um homem admirável aquele meu amigo no seu aferrado anti-sedentarismo.

Cá para nós, é uma idiotice viver em Porto Alegre e carregar todas as suas coisas para férias em Recife. Se todas as suas coisas e pessoas lhe acompanharem até Recife, vai ser a mesma coisa que estar novamente em Porto Alegre. Para que gastar na viagem?

Eu já decidi que não vou levar mais nada do que possuo quando viajar para longe, dentro do Brasil.

Não vou levar nada. Da minha cidade, posso levar só, contra meu esforço mental, raras recordações.

Já chegam os discursos ininteligíveis do Lula na televisão, que teimam em me acompanhar todos os dias, em todos os lugares brasileiros que visito.

Fazer falta

14 de fevereiro de 2013 0

Estava me dizendo ontem no fumódromo, onde se dizem e se sentem todas as coisas, a minha amiga Grazielle Badke, que chorou no dia em que ouviu no rádio a notícia da morte de George Harrison, o guitarrista dos Beatles, tão penetrante era em sua pele e em seus aurículos a melodia e a letra da sua célebre Something.

O que minha amiga queria me dizer é que, quando ouviu aquela notícia da morte de Harrison, teve a certeza de que sentiria para sempre falta dele em sua vida.

Uma vez escrevi aqui que o único dever que temos na vida é fazermos com que os outros sintam falta de nós.

Quando corro para tomar o café da manhã com um amigo, isto quer dizer que sinto falta dele. E se corro várias vezes para tomar o café da manhã com esse amigo, então mais do que necessário, esse amigo é-me imprescindível.

Quando morrem as pessoas que nos são imprescindíveis, sentimos ainda mais falta delas.

Mas o lindo é quando temos ao nosso redor, em contato todos os dias conosco, uma pessoa que amamos – e temos nítida noção de que sentimos profunda falta dela sempre que ela se afasta de nós, por dias, quando ela viaja ou nós viajamos, por minutos, quando ela sai da sala por qualquer motivo e já nos deixa repletos de saudade.

Noção da falta que eventualmente nos causa em vida.

Isto é que é ser útil! E, mais que útil, transcendental: é incutir nos outros a nossa falta.

Se me quiserem fazer um elogio inesquecível – e se dele eu for merecedor – , quereria que me dissessem que faço falta para os que o dizem.

E se quiserem me fazer um elogio para além da minha vida, um elogio póstero de valor incalculável, escrevam na minha lápide: %22Aqui jaz alguém que está nos fazendo falta%22.

Um simples, mas colossal elogio.

Eu só peço a Deus que nunca me dê susto ou pesadelo que consista em afastamento, distanciamento ou perda de pessoas que me fazem falta. Nunca. Nunca mais, tanto já me fez sofrer por isso.

Pelo contrário, peço a Deus que sempre me dote de mais e mais pessoas a meu redor que me façam falta. Os tais imprescindíveis.

Eu sei que os imprescindíveis são raros, mas por assim o serem é que quero encontrá-los em minha bateia, os que ainda não achei – e mantê-los em meu relicário, os que já possuo.

Nunca me afaste Deus de todos os que me dão ainda força para continuar vivendo. Nunca me afaste Deus dos que me entendem, dos que me toleram, dos que me perdoam, dos que me dizem coisas incentivadoras, dos que juram com sinceridade que me querem sempre a seu lado, dos que me garantem que para mim não falta pouco e a nossa vida em comum será, como por vezes tem sido, cheia de felicidade.

Esses são os que me fazem falta e o meu sonho e a minha utopia é que eu lhes faça falta.

Enquanto houver os que me fazem falta e enquanto porventura eu fizer falta a alguém, esta é a garantia de que fiz e estou fazendo jus à vida.

E que Deus me torne cada vez mais forte e talvez inquebrantável para continuar talvez fazendo falta a alguém, tomando para isso a providência permanente e perpétua de não afastar de mim os que me fazem falta.

O fundo da alma feminina

13 de fevereiro de 2013 0

Em primeiro lugar, nunca chame uma mulher de eterna. Ocorreu-me ontem de, ao ver uma amiga minha, apresentadora de televisão, no ar, telefonar imediatamente para ela e dizer: %22Como tu estás bem no vídeo, tu és eterna!%22

Que mancada que eu iria dar! Ao chamar uma mulher de eterna, estou concretamente designando-a como uma velha. Insinuar que uma mulher está velha é um dos dois maiores e mais capitais defeitos do homem.

O outro pecado capital do homem é chamar a mulher de gorda. Nunca faça isso, evite sempre a tentação de denunciar gordura numa mulher, mesmo que sua finalidade seja nobre: a de adverti-la de que ela perigosamente está roçando o limite máximo e tolerável de elegância de seu corpo.

Por dois anos ficou de mal comigo, deixou de falar comigo, afetava ódio por mim quando nos cruzávamos, uma colega da televisão que eu tive a infelicidade de cognominar de %22como estás gorda%22. Ela só voltou a falar comigo 24 meses depois da ofensa, assim mesmo porque finalmente tinha emagrecido. Aquela mulher odiava a mim em vez de odiar a sua gordura. Eu era para ela o culpado da sua gordura.

Com mulheres velhas e gordas, convém que sempre abordemos outros assuntos.

Eu tenho uma técnica infalível para agradar às mulheres. Digo assim: %22Como estás magra, não seria o caso de consultar um médico?%22 É de ver a alegria de que fica tomada a mulher que ouve isto. Sabe lá o que é ouvir de um homem que sua elegância é tão alarmante que passa por um problema de saúde?

E quando não vejo uma mulher há muitos anos, evidentemente que ela ressurge diante dos meus olhos bem mais velha, mais desmerecida. Então eu jogo-lhe um dardo de monumental eficiência: %22Poxa, mas há quanto tempo eu não te via! É incrível, tu estás a mesma!%22 Só falta ela se jogar de joelhos a meus pés diante do cavalheiresco elogio. Porque quando me viu e vê outras pessoas depois de alguns anos, ela treme de medo de que vão notar a implacável diferença.

Outro truque infalível que uso para adubar a vaidade feminina: %22Que coisa linda! Finalmente acertaste o teu penteado! Quem foi que fez?%22 Elas ficam possuídas de uma felicidade indizível.

Isso tudo é gentileza, é lhaneza masculina. Só que, de vez em quando, como não posso deixar escapar uma piada, um repente de inspiração, mesmo que ele sacrifique ou destrua o alvo da minha ironia, eu desmunheco e agrido. Foi o caso no ano passado de uma mulher que portava um vestido elegantíssimo, deixando à mostra metade de seus seios por um decote avançadíssimo. Eu não pude entender como uma mulher tão fina expunha assim ao público seios tão flácidos e derrubados.

E me arrependo até hoje da maldade que soltei: %22Espertinha, aderiste ao silicone%22. Para minha estupefação, a mulher explodiu de orgulho e contentamento. É inacreditável, mas aquela mulher nutre amor mórbido por seus seios decadentes.

Cinquenta anos de perucas

12 de fevereiro de 2013 0

Uma vez escrevi que a vida era a arte do passatempo. Sob certo aspecto, o passatempo é uma forma de driblar a paciência.

Chego agora à conclusão de que a vida é a arte da paciência. A paciência de esperar o elevador, por exemplo, pode existir algo mais cruciante? Talvez só a paciência do desempregado para esperar emprego.

A paciência infinita que se tem de ter, outro exemplo, para esperar no engarrafamento. E a inveja que se tem, com aqueles carros todos parados, da fila do lado, que anda enquanto a fila em que se está emperra…

Não existe paciência mais resignada do que a da fila do engarrafamento. Porque é a paciência de quem não tem outra coisa a fazer, a não ser esperar que desengarrafe o trânsito.

O pior do engarrafamento é que, quando se chegar ao fim da fila, vai se entrar noutra rua ou avenida onde nos esperará outro engarrafamento.

E a ausência de alternativa é massacrante. Não dá para ir pelos ares, não dá para se enfiar no fundo da terra, não adianta querer deixar de dirigir e optar pelo transporte coletivo ou seletivo, estão ali ao lado da gente os táxis e as lotações também engarrafados.

A solução seria mudar-se de cidade. Mas como fugir da vida que se leva aqui, o trabalho e a família estão aqui, o engarrafamento é o destino desesperado, sem solução?

Esses dias, ouvi um empresário executivo dizer que a maior parte do seu tempo de trabalho é ocupada escrevendo ou lendo no computador, enquanto está se deslocando pelo trânsito de São Paulo como passageiro de táxi.

Vejam que chegou ao ponto de as pessoas passarem a maior parte do tempo dentro dos táxis.

Exatamente como esses pobres e infelizes empregados humildes que levam tanto tempo sendo transportados pelos ônibus quanto o tempo que levam trabalhando: quatro horas para ir ao trabalho, mais quatro horas para voltar do trabalho, um tempo inútil, um vazio, a vida se desenrolando lá fora e a pessoa vendo-a consumir-se nas filas dos engarrafamentos.

É preciso ter paciência. Devia haver cursos para se adquirir paciência. Esperar pela sorte, esperar pelo transporte, esperar pela consulta, depois esperar pela cirurgia, esperar que a vida mude, esperar pelo fim de semana, esperar na vida pela morte.

Haja paciência para esperar por tudo.

Ora, se me lembro, faz mais de 50 anos que eu era guri ali na esquina da Barão do Triunfo com a 20 de Setembro, entre todos nós adolescentes agitados que não sabíamos que éramos pobres e não tínhamos tempo para sermos infelizes, sobressaía o Joel Silveira. Eu ia chamar agora o Dilamar Machado para que ele recordasse comigo o Joel Silveira ali da esquina da Barão. Mas o Dilamar também morreu, como o Joel. Talvez eu chame o Francisco Teles, o Chiquinho há de lembrar melhor.

E o Joel casou-se com a Jurema e fundaram um salão de beleza. E a semente daquele salão virou a empresa Perucas Jurema.

Vamos deixar que o filho do Joel fale:

“Prezado Paulo Sant’Ana. É com imensa alegria que a Perucas Jurema, após 50 anos de atividades, realiza o desejo de patrocinar a sua prestigiada coluna.

A partir da próxima quinta-feira, dia 24/12 (esta edição), estaremos no rodapé da página mais lida do veículo de informação mais importante do sul do país.

Nossa história, tu bem sabes como começou, pois estavas próximo da pessoa que a idealizou.

Meu pai. Teu amigo e companheiro de juventude Joel Silveira, que, se vivo estivesse, estaria muito feliz e orgulhoso.

Desejo a ti e a tua família muita saúde e felicidades, um bom Natal e um grande 2010. (As.) Emílio Silveira

O mistério do sono

11 de fevereiro de 2013 0

Um amigo desabafa comigo e diz que o único prazer que lhe resta é dormir.

Como pode ser bom dormir, penso com os meus botões, se quando se está dormindo nada se sente?

Que prazer é esse de alhear-se do mundo, mergulhar num sono que pode ser considerado uma morte passageira, uma fuga da vida?

Eu não tenho dúvida, aliás, de que os que procuram refugiar-se no sono estão fugindo de alguma coisa que só pode ser a vida.

Uma pessoa normal, que não esteja depressiva, só pode gostar do sono antes e depois de dormir.

Antes, como caminho, perspectiva e solução para o descanso. Depois, como dever de repouso cumprido.

*

Mas os depressivos detestam estar acordados, a vigília prolonga-lhes a aflição, o pesadelo de terem-se de encontrar com suas dificuldades.

O supremo ideal do depressivo é dormir e deixar para trás todas as suas preocupações. É só um adiamento.

*

Por sinal, vendo as crianças dormirem com aquela letargia, ocorre-me imaginar que as crianças dormem assim tão profunda e insistentemente porque não têm o que pensar, estão distantes de temer o futuro e não possuem ainda um passado para lamentar ou comemorar.

Por esse raciocínio, a vigília é própria dos que pensam no futuro e no passado, dos que têm do que se ocupar mentalmente.

E o sono, por conseguinte, é uma condição de paz e de tranquilidade.

*

Em estado de insônia ou fadiga, o homem se pune com as censuras que faz a si próprio, enquanto que, se adormecer, ele acalma a sua culpa.

O sono nada mais é, portanto, que um grande alívio.

Ao contrário, a vigília é um castigo. Manter-se acordado muitas vezes é autoinfligir-se uma condenação aflitiva, uma maneira de permanecer purgando as vicissitudes e as adversidades.

Nem dá para imaginar como seria a vida sem o sono, enfrentar o duro combate da existência sem nenhum intervalo provocaria uma existência cruciante. Ou a morte.

*

Do sono até a morte, o passo é pequeno. A natureza pode ter criado o sono para treinar as pessoas para a morte.

Quando não é crivado por sonhos, o sono é o nada, é o ingresso num vazio total de existência, um não ser, uma antivida, um armistício.

E, no entanto, o sono, por imposição natural, é um espaço de repouso físico e de folga para a consciência.

Como também o sono faz parte da vida, um homem de 60 anos terá passado 20 anos de sua vida dormindo. Parece, assim, um desperdício, mas a natureza deve ter tido razões sábias para obrigar o homem a dormir e para deixá-lo arrasado quando não consegue dormir.

*

E o que será que vem a ser um sono agitado ou a insônia, senão que a pessoa está se recusando a mergulhar no sono porque tem tantas coisas boas ou más para fazer na vida, que não poderia, assim, diante de tantos compromissos, ficar perdendo tempo a dormir.

Sobre o parentesco da morte com o sono, a melhor metáfora para mim é do compositor e jornalista Antônio Maria, que deixou para seu companheiro de quarto um recado escrito, antes de ir dormir: “Se eu estiver dormindo, deixa-me dormir. Se eu estiver morto, me acorda”.

A roupa e a nudez

10 de fevereiro de 2013 0

Quais terão sido os primeiros impulsos humanos? Depois que os bebês choraram, única prática humana sem aprendizado, foram ensinados a se alimentar, a engatinhar, a falar e a caminhar. Então a criança defrontou-se com seu corpo e sentiu pudor, também ensinado. Tratou aí de encobrir seu corpo, uma maneira de não entregar-se totalmente aos outros, a castidade é uma forma de poupança, ela será entregue como um tesouro para quem a merecer, devem ter pensado as virgens virtuosas.

Assim os homens (e as mulheres) decidiram desde cedo que encobririam seus corpos, alguns com vegetais, cordas, madeiras, os guerreiros com metais. Mas convencionou-se finalmente que a nudez seria coberta por roupas. E as roupas acabaram por valorizar a nudez.

Em alguns países muçulmanos, a nudez é ainda mais valorizada porque as mulheres são obrigadas a cobrirem-se da cabeça aos pés. Talvez, assim, lá a lascívia e a concupiscência mais incendeiem a imaginação masculina: é que o desejo é ainda mais ardente quando não se conhece o objeto desejado.

Já nós, ocidentais, fomos aos poucos expondo nossos corpos num processo milenar. As luvas deram lugar aos anéis, os sapatos às sandálias, as calças às bermudas, as saias às minissaias e aos shorts. E, no campo feminino principalmente, até os talhes foram brindados com os decotes, tudo em função da sedução. As roupas, que tinham o pretexto do agasalho, foram assumindo a função exponencial de atrair o sexo oposto, de mãos dadas com a vaidade.

No sentido contrário do chador árabe, as roupas ocidentais partiram para a atração explícita, em vez do segredo muçulmano de vestimentas que deixavam o corpo blindado a sete chaves, abriram-se para os olhares alheios. Os corpos inteiros encobertos pelo vestuário foram dando aos poucos lugar às roupas sumárias, só deixando indescobertas as partes pudendas, a atração primal, embora os seios já tenham desabrochado para um processo de total exposição.

No meio dessa evolução surgiram tanto as roupas transparentes quanto as justas no corpo, as que melhor e sedutoramente configuram as verdadeiras formas corporais. De tal sorte a moda se incorporou à civilização que certa vez uma mulher célebre declarou que quando se mostrava bem-vestida isso lhe dava uma tal tranquilidade interior que nem a religião podia lhe transmitir.

De tal sorte o vestuário se transformou de obstáculo em cúmplice da nudez que se consagraram no mundo inteiro as lojas de lingerie. Com a lingerie, a arte e a ciência encontraram um meio de a mulher tornar-se mais sedutora com aquela roupa leve e suave do que se estivesse nua. É o homem substituindo o criador, a técnica do design superando a natureza.

O manjar funéreo

06 de fevereiro de 2013 0

Já porque sei qual será a reação, depois de lerem esta coluna, advirto: não sou contra os proprietários de rottweilers e pitbulls, sou contra essas duas raças. Sou contra esses cães.

*

O Brasil está perplexo: 10 cães do Bola, o homem acusado de ter matado Eliza, ex-amante do goleiro Bruno, são acusados, em um depoimento, de terem devorado os restos mortais da moça.

Desculpem que eu me torne macabro, mas não sou eu o macabro, a vida é que é macabra.

*

Poodles, labradores e beagles não devorariam jamais um cadáver.

Sequer o cheirariam.

Não sou eu o macabro, é a realidade.

E, se não se combater a realidade de rottweilers e pitbulls convivendo entre as gentes humanas, estará se dando chance a que inúmeras pessoas sejam mortas – ou devoradas – por essas bestas.

*

Ontem, dois ex-proprietários de rottweilers me telefonaram e disseram que, imediatamente souberam desse fato escabroso do caso Bruno, um vendeu e outro deu o seu cão.

Não puderam suportar esse relato.

*

Sei qual era o pensamento dos 10 cães rottweilers, enquanto comiam a vítima: não gostaram só do banquete funéreo, eles lamentavam profundamente o fato de que não foram eles que mataram Eliza. Eles são sublimes, não quando se fartam no manjar tétrico, eles se sublimam é quando matam.

*

Se eu sou contra a que se crie um só rottweiler, imaginem o que penso de um homem que cria e alimenta 10 feras rottweilers!

Não pode ser normal uma pessoa que cria 10 rottweilers: já se conhece de antemão que haverá uma tragédia.

*

A polícia mineira, agora, investiga indícios de que o assassino da amante de Bruno já praticou outros dois homicídios anteriores ao de Eliza.

Se isso aconteceu, houve outros dois banquetes medonhos para os rottweilers.

*

Desculpem o uso de linguagem escatológica, mas, para que se evitem no futuro inúmeras outras mortes de brasileiros que foram trucidados por rottweilers e pitbulls, os acontecimentos têm de ser relatados com crueza.

*

Explico melhor o primeiro parágrafo desta coluna: sou contra as duas raças criminosas de cães.

Por isso é que não posso admitir que pessoas humanas os criem.

Só faltou que o Bola, o homem que assassinou Eliza, dissesse à polícia o que dizem todos os donos de rottweilers e pitbulls, depois que eles atacam crianças e idosos e os estraçalham: “Não entendo, eles eram tão mansinhos”.

A deserção de um amigo

05 de fevereiro de 2013 0

Nota-se no goleiro Bruno, enquanto a televisão o filma nos traslados de uma delegacia para outra, de uma capital para outra, um ar olímpico, a cabeça levantada, sobranceiro, diferente de Macarrão e de todos os outros presos que se veem conduzidos na televisão, que abaixam a cabeça e transmitem um ar de quem se envergonha do que fez.

Não o estou condenando por isso. No entanto, os seus passos firmes nos cortejos em que é custodiado por policiais passam a impressão de que ele defenderá a sua inocência até a morte.

Ou será que sua empáfia se origina pelo fato de que ele não manchou de sangue suas mãos, é apenas um mandante do crime, ficou olimpicamente distante de sua execução?

*

Para agravar ainda mais o componente macabro que há neste crime, o modo como foram eliminados os restos mortais da vítima foi terrível: o corpo esquartejado foi lançado para cães da raça rottweiler o devorarem.

Talvez haja mais crueldade e sangue-frio, do que assassinar uma mulher, em lançar suas partes esquartejadas para os cachorros devorarem.

É um crime perverso e imperdoável.

Se foi Bruno mesmo que mandou matar Eliza, mais ainda agrava sua autoria o fato de que eram de suas relações íntimas esses homens capazes de tanta crueldade.

Já para esquartejar um cadáver é necessário muito sangue-frio de um criminoso.

Mais ainda ele se torna culpado de crime sanguinário e hediondo quando lança o cadáver partido para os cães o devorarem.

Não estranha por isso que este fato venha tendo esta larga e ampla repercussão pela imprensa.

Alie-se a isso o fato de que o principal envolvido era goleiro do Flamengo, o clube mais popular do Brasil, e se compreende assim o imenso estrépito que o caso está tendo na mídia.

*

Onde estavas, quando mais precisei de ti? Por trás de que ermos túmulos te escondias quando eu mais necessitava de teu socorro?

Lamentei mais que tua ausência, lamentei a tua falta.

Pensara eu que tivesses a consciência de que, por teres me conquistado, jamais poderias me abandonar.

Fazia frio e o frio que fazia me amedrontava menos pelo tremendo obstáculo que tinha de enfrentar do que pela tua ausência.

Onde te metias? O que te fez me deixar sozinho diante de tantas adversidades intransponíveis?

*

Um grande amigo que deserta é como quando morre um filho ou o pai da gente.

Aí é que se vê quanto foi grande sua utilidade, aí é que se percebe que daqui por diante todos os obstáculos parecerão ainda mais intransponíveis.

Por que te distanciaste, onde foi que te decepcionei?

Como trilharei agora sem tua companhia as ruas difíceis desse tempo, agora ainda mais atribulado?

Onde estás que não percebes o meu vazio, o meu vácuo, a minha pane?

Não há mais graça nem eficácia na vida com um amigo desertor.

Floreando o galo

04 de fevereiro de 2013 0

Depois de escrever uma coluna como aquela de ontem, deveriam meus superiores me conceder 90 dias de férias.

Nada igual ao que fiz ontem, quando me referi às hienas de jazigo, farei igual nos próximos 90 dias.

É aquele momento em que o colunista acerta na veia, depois de tanto tentar durante muito tempo.

Antes da publicação, quando a coluna ainda posava de larva no meu cérebro, chamei a atenção do David Coimbra e do Moisés Mendes para o que meus neurônios estavam elaborando.

Há colunas que vão fazer sucesso e a gente nem percebe que isso acontecerá. Mas há colunas, como a de ontem, quando defendi a privacidade da memória do médico Marco Antonio Becker, em que a gente pressente que acertará em cheio no alvo.

Depois que se pressente, é só ajustar as letrinhas.

O mais importante numa coluna é a idéia. Sem ela, ficamos horas tontos, sem iniciativa, sem nexo causal, penetramos num vazio de náusea.

Quando se alcança a idéia, quando surge a inspiração, o restante é só tarefa de artesanato.

A idéia é o grande clarão transbordante de luz para o processo de criação.

Imagino que os grandes quadros dos grandes pintores só começam a ser esboçados quando já sobreveio a idéia ao artista.

Já capturada a idéia, é mais fácil pincelar.

A idéia de que a vítima estava sendo esquartejada pelos boatos e de que se verificava então um segundo assassinato foi uma bela sacada.

Uma vez escrevi aqui, evidentemente que não a respeito de mim, que gênio é aquele que primeiro descobre o óbvio.

Investigar a vítima num caso de assassinato é um procedimento óbvio e indeclinável.

O que eu humildemente acho perigoso é que se enseje concluir que a vítima de assassinato afinal merecia o fim que teve.

Mas eu estou apenas driblando o leitor porque é impossível a qualquer colunista fazer duas colunas brilhantes consecutivas.

Nesta de hoje estou só floreando o galo.

Se a coluna de ontem terminou como um banquete oferecido ao leitor, a de hoje talvez consiga somente se constituir em um licor.

As saudades de Pablo

03 de fevereiro de 2013 0

Há dias em que Pablo quase morre de saudade dos tempos em que soltava ou via soltar pandorgas na Rua dos Coqueiros, hoje 17 de Junho, junto do Arroio Dilúvio.

Era um folguedo só, o cordão da pandorga em uma mão, na outra cachos e cachos de amoras, do tempo em que se colhiam amoras nas cercas das casas no Menino Deus.

Há dias em que Pablo quase morre de saudade dos tempos em que, na Chácara das Bananeiras, se reunia com os outros garotos para jogar bola de meia, que não havia dinheiro para comprar bola de couro, sequer de borracha, mas como era feliz o tempo de pobreza de Pablo jogando peladas horas e horas com seus amigos.

Qualquer bola que passavam para Pablo ia parar dentro do gol. Uma unha encravada interrompeu a carreira de Pablo, que tinha tudo para ser o maior centroavante da história do futebol, acima de Di Stéfano.

*

Há dias em que Pablo quase morre de saudade quando lembra que ficava todos os dias ouvindo o regional do Sargento Pinto, na Rua Veiga, ou o regional do Homero, na Avenida Outeiro.

Pablo tinha apenas 14 anos e se deliciava com o que tocavam e cantavam os músicos, gostava tanto, que os músicos sempre permitiam que Pablo os ouvisse.

Era o tempo em que Pablo se guiava pelos acordes dos banjos, dos bandolins, dos cavaquinhos e dos violões e pela batida do surdo. Se havia acordes na rua, Pablo corria para lá.

Foi naquele tempo que Pablo decorou a letra de mais de mil músicas, que ainda hoje tem na memória, juntadas a outras 1,5 mil músicas que Pablo aprenderia mais tarde e que fazem a perplexidade dos circunstantes quando Pablo por vezes as canta: “Como é que tu sabes tantas músicas?”, perguntam a Pablo. E Pablo silencia. Sabendo que foi uma década inteira que ele gastou ouvindo os regionais do Partenon.

*

E, um dia, Pablo com 14 anos, o regional do Homero estava pronto para sair e tocar num baile da Rua Mansão, na Azenha, aqui perto dos cemitérios, quando ouviu dos músicos que adoecera o cantor e teriam que animar o baile sem ter quem cantasse.

Homero disse a Pablo: “Tu não te atreves a cantar conosco, guri?”.

E, à noite, no salão de bailes da Rua Mansão, lá estava Pablo à frente do regional do Homero, de calça e camisa modestas, nervoso, quase tremente, mas cantando um samba de sucesso daquela época, lembro-me como se fosse hoje:

Vagabundo que na minha cara der

Tem de fazer testamento, se despedir da mulher.

Se tiver filho, deixe uma recordação,

Cara que mamãe beijou, vagabundo nenhum põe a mão.

Tenho carteira de identidade

Posso provar minha idade

Não sou criança, isto não

Por isso aviso: folga e sopa eu não dou

Cara que mamãe beijou, vagabundo nenhum põe a mão.

*

Pablo quase morre de saudade ao recordar a noite em que, substituindo cantor adulto, cantou menino e tremente, à frente do regional do Homero.

Foi o primeiro e minúsculo cachê que Pablo ganhou por ser chegado à arte e às palavras.

Que noite de glória! Pablo a considera maior que aquela noite em que cantou, no Beira-Rio quase lotado, com Julio Iglesias.

Dalva e Herivelto

02 de fevereiro de 2013 0

Pouco menos de um ano atrás, escrevi uma coluna inteira sobre Dalva de Oliveira, sem sequer cogitar que a TV Globo estava preparando uma minissérie sobre a vida da cantora.

Quando escrevi sobre Dalva de Oliveira, pretendi tentar remotamente um resgate da memória da cantora, desconhecida hoje por todos. Daí que vibrei quando soube da minissérie, na esperança de que ela fosse celebrizar para as gerações atuais e futuras a obra dessa grande e máxima intérprete.

E digo assim porque na minha coluna sobre Dalva cometi com algum remorso a audácia de classificar a intérprete de Ave Maria no Morro como superior em vocalização a Elis Regina.

***

Esta é a bobagem que a gente comete de sempre querer saber quem foi a melhor, quem foi o maior, temos a mania de ranquear valores quando estamos a discuti-los, quando devíamos apenas examiná-los, sem querer saber qual foi melhor que o outro.

Imaginem, então, os leitores com que curiosidade fiquei aguardando a estreia de Dalva e Herivelto, Uma Canção de Amor.

E confesso ao leitores que me frustraram os dois primeiros capítulos da minissérie, transmitidos segunda e terça-feira.

Eu esperava mais. Eu esperava principalmente que o talento de Dalva de Oliveira fosse o centro da microssérie de apenas cinco capítulos.

Mas os dois primeiros se limitaram a mostrar Dalva de Oliveira cantando como participante do Trio de Ouro e a brigar repetidamente com Herivelto, um traindo o outro, não sei que diabo de canção de amor é essa em que se abre um torneio de guampas entre os dois personagens principais.

***

No meu fanatismo pela voz de Dalva de Oliveira, eu admitia que ela fosse mostrada na minissérie cantando no Trio de Ouro. Mas não tanto, eu queria vê-la cantando sozinha quase todo o tempo, com a finalidade de que o Brasil de hoje conhecesse o estupendo tesouro de sua voz, que todos hoje se assombrassem com o talento de Dalva de Oliveira, até agora não reconhecido.

E eu pensei que com a minissérie o talento de Dalva fosse finalmente reconhecido.

Mas, do jeito que vai, sem termos podido sentir a voz de Dalva nos dois primeiros capítulos, quase desaparecida entre o Trio de Ouro e com a insistência em mostrar a toda hora as brigas entre Dalva e Herivelto, sei lá, mas estou preparado para frustrar-me com o espetáculo.

***

É possível que nos três últimos capítulos os produtores valorizem a voz de Dalva de Oliveira, mas sozinha, porque foi ela a grande artista do Trio de Ouro. Herivelto acabou sendo um dos maiores compositores da música brasileira em todos os tempos, mas a arte, o talento na interpretação, estes brotavam de Dalva, cuja voz mais parecia um instrumento musical de tão perfeita e inebriante.

***

Fico torcendo para que a minissérie corrija o defeito de abordagem e volte todo o seu enfoque para o vulto de Dalva, botando-a a cantar sozinha, deixando-a vibrar aqueles trinados sublimes e envolventes, soltando a sua voz de pássaro trigueiro como nunca existiu igual na música brasileira.

Será que dá ainda para salvar essa minissérie? Talvez dê, é só pensar que Dalva está muito acima do Trio de Ouro e que seu talento de expressão dava de goleada nos dois outros componentes do conjunto.