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O marido feliz

11 de março de 2013 0

Estávamos todos os oito amigos, dia desses, em volta da grande mesa do restaurante, no jantar que prosaicamente realizamos de dois em dois meses. Chegamos todos quase ao mesmo tempo, às 21h. E logo espocou na roda aquela camaradagem conquistada nas várias etapas da vida, dois recordavam a infância juntos vivida, outros a adolescência, outros a universidade, mais outros o serviço público ou a iniciativa privada.

Os oito casados. Por evidência, o assunto central da reminiscência coletiva eram as esposas. A maioria afetava relação conjugal escravagista; é claro, eles como escravos, as esposas como senhoras. Queixavam-se sete de nós da mais absoluta condição de inferioridade com relação às esposas, envergonhando-se os sete da humilhante submissão.

Foi quando o oitavo praticamente esbofeteou moralmente os sete queixosos e bradou, entre dois goles de vinho: “Eu sou feliz com minha mulher”. A roda tonteou. Olhamos todos estupefatos para o “feliz”. E quisemos saber dos detalhes daquela ventura acintosa, repleta da jactância.

Ele nos explicou que sua mulher não marcava horário, ao contrário de seis dos presentes, que são obrigados pelas esposas a chegar em casa antes do Jornal Nacional, a gabolice do marido “feliz” retinia pelas paredes do restaurante: “Minha mulher nunca marca horário para eu chegar em casa, se eu chegar à meia-noite ou de madrugada ela está esperando, acordada ou despertada pela minha chegada, com sorrisos nos lábios e candura na voz. Não me exige presença permanente no lar nem frequência nas relações carnais. Quase todas as noites, entrego-me ao deleite de outras mulheres, ao inefável prazer das aventuras extraconjugais. Minha mulher ou é sincera quando diz que acredita em minha fidelidade, ou finge espetacularmente que acredita em minha lealdade fora dos limites territoriais do nosso apartamento. Ela crê piamente em que gasto meu tempo só com o trabalho e, nas horas de folga, longe dela, dedico-me somente à camaradagem com meus amigos, a exemplo deste jantar em que confraternizamos nós, os oito, todos homens, sem que sequer passem ao largo, neste restaurante discreto, quaisquer sombras femininas. Nas raras vezes em que vou para casa cedo, sou recompensado pelo remanso delicioso do corpo de minha mulher, que se oferece generoso ao meu prazer. Tenho o cuidado de recompensá-la com o prazer carnal economicamente, até mesmo porque não suportaria fornecer-lhe amor com assiduidade, tal a intensidade com que me atiro nos braços de minhas parceiras eventuais na rua. Cumpro o ritual de almoçar fora com minha mulher todos os domingos. Mas quase chega a ser mensal a ocasião que reservo para jantar com ela, em casa. Nas outras 29 noites do mês, mergulho nas farras gastronômicas, etílicas e sexuais com minhas namoradas. Nunca houve um só sussurro ou muxoxo de queixa de minha mulher pela minha ausência, ela não demonstra a mínima desconfiança de que eu possa me ocupar, como me ocupo, quando estou longe dela, dos meus deliciosos festins orgíacos. Sou feliz, engulam-me, eu sou feliz. Sou feliz com minhas múltiplas e revezadas namoradas, mas sou principalmente feliz porque, quando me recolho pela madrugada ao mundo abençoado do meu lar, lá vou encontrar a minha cidadela dominada pela presença calma, cordata, cordial, conformadamente compreensiva e solidária de minha mulher. Eu sou feliz! E tenho compaixão de vocês por não terem tido a minha habilidade, destreza e sabedoria. Engulam-me com esta janta que nos servem agora. Eu sou feliz”.

Aquele discurso ostensivamente gabola do nosso amigo soou a nós todos como um acinte, ficamos os sete sentindo um misto de inveja e ódio contra o “feliz”. Já era meia-noite quando um de nós sete recebeu no celular o telefonema de sua esposa. Ele se defendia: “Estou entre amigos, no restaurante, somos todos homens. Já estou indo embora para casa, vamos apenas alinhavar os últimos papos, pagar a conta e em seguida estou em casa”. Do outro lado, se chegava a ouvir, a esposa do nosso amigo gritava, ordenando que ele estivesse em casa dentro de 15 minutos.

Desesperado, ele me entregou o telefone, implorando que eu convencesse sua mulher de que lhe fosse consentido ficar mais uma hora naquele convívio fraterno. Peguei o telefone e falei: “Querida Vilma, deixa que o Alfredo fique só mais uma hora aqui, é um jantar entre oito homens. Ele só quer ficar mais uma hora, só até a uma da manhã”. E ela sentenciou no telefone, cruelmente despótica: “Paulo Sant’Ana, não te mete nisso. O alvará de soltura dele esgotou-se pontualmente à meia-noite”. E eu também, por osmose, antecipei-me no pagamento da cota da conta e saí de fininho para casa.

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