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Posts de março 2013

Odone fala no Sala de Redação

25 de março de 2013 0

Sístole e diástole

22 de março de 2013 0

Descobrimos, ainda a tempo, que nós, brasileiros, estávamos descuidados com a saúde do nosso presidente Lula.

Assistimos ao esforço hercúleo do presidente atingir, só em 2009, 83 dias viajando pelo Brasil e ainda 91 dias no Exterior, visitando 31 países. Três meses viajando pelo Exterior, quase outros três meses viajando pelo Brasil.

São seis meses só de viagens. Só quem viaja sabe o quanto isso é desgastante.

E só agora, depois da crise hipertensiva de Lula às vésperas do embarque para Davos, na Suíça, é que fomos perceber que descuidávamos da saúde do presidente.

Esse incidente é que afinal nos levou a dar maior atenção à saúde presidencial.

Ficamos sabendo até o que vem a ser a pressão sanguínea, isto é, a pressão exercida pelo sangue contra a parede das artérias.

Soubemos até, só agora, depois do susto de Lula, que uma medida considerada ótima para pressão arterial é menor que 120mm/Hg na sístole (contração do átrio) e 80mm/Hg na diástole (relaxamento do átrio).

E que, quando a pressão está entre 140mm/Hg e 90mm/Hg, ou maior, já é considerada alta.

O normal (ideal) da pressão é, portanto, 12 por 8. E Lula apresentou esta semana 18 por 12, daí por que os médicos o impediram de ir a Davos receber o título de Estadista Global no Fórum Econômico.

Eu gostaria de saber como é que se decide suspender uma viagem dessas. Se o presidente está acima de todos, como podem os médicos ordenar que ele não viajará e não receberá um título importante desses?

O mais correto talvez fosse dizer que o presidente Lula foi quem decidiu não viajar, a conselho do médicos.

Desde 2003, quando assumiu, Lula passou nada menos do que 426 dias no Exterior, enquanto que às viagens nacionais dedicou quase 600 dias.

E, quando está em Brasília, Lula tem uma agenda diária de pelo menos 12 horas.

Bota trabalho e vigília nisso. É uma agenda apertada que exige saúde muito boa de quem a cumpre.

Agenda tão estafante, que o presidente não achou tempo para fazer o seu check-up de 2009.

Apesar de exercitar-se fisicamente todos os dias, quando não está viajando, mantendo hábitos morigerados, destoa no entanto o presidente quando fuma cigarrilhas.

Mas afirma o chefe do Departamento de Hipertensão do Hospital das Clínicas de São Paulo, Dr. Décio Mion Júnior, que não foram o cigarro, nem o resfriado, nem a dieta à base de proteína, as causas da crise sofrida por Lula.

Mion disse que o excesso de sal na alimentação ou de álcool também só afetam pessoas que já tenham um quadro hipertensivo, o que não é o caso de Lula.

Acrescentou o médico: “Se a pessoa acender um cigarro após o outro, pode sofrer uma elevação muito discreta da pressão, mas não uma crise aguda. O cigarro leva ao enfarte, não é recomendável, mas não age diretamente sobre a pressão”.

Admirável opinião médica esta que singularmente, em oposição à cascata que vem ao contrário, não atribui ao cigarro a causa de uma doença importante.

O fato é que depois desse conhecimento do quadro geral de Lula, que sentiu um desconforto, uma dor de garganta e apresentava uma coriza, nós, brasileiros, estamos advertidos de que temos que cuidar melhor da saúde do nosso presidente.

Os cuidados médicos são os seguintes: melhorar a alimentação, evitar o consumo de sal, exercitar-se e parar de fumar.

Filhos indesejados

19 de março de 2013 0

Tenho observado atentamente as vidas dos jovens casais que não são casados.

Sob certo aspecto, esses jovens casais obedecem ao meu conselho de que não devem amanhecer na mesma cama. Se possível, devem morar em casas diferentes.

Eles vão vivendo seus romances muitas vezes durante cinco ou sete anos. No entanto, a maioria dessas relações termina em meses.

O ponto a que eu queria chegar, entre as várias faces desses conúbios entre dois jovens de sexos diferentes, é a notícia de que a moça está grávida.

O auspício de que em breve ele será pai e ela mãe muitas vezes serve para uni-los ainda mais. Eles até celebram o casamento, vão morar juntos etc.

Ocorre no entanto que, outras muitas vezes, a notícia de que terão um filho, em vez de uni-los, separa-os definitivamente.

Quase sempre, quem refuga a relação quando aparece um filho é o homem, esse eterno fujão peregrino, que rejeita responsabilidades.

A mulher segue em frente, às vezes desamparada. Vai criar seu filho, depois aparece a história da pensão alimentícia etc., embora as mulheres de hoje sejam tão independentes, que por questão de dignidade recusam-se a aceitar pensão alimentícia.

Mas deixemos de perfumarias e voltemos ao fulcro da questão: o filho que surge depois de algum tempo de relação.

Há filhos bem-vindos e há filhos malvindos. Eu, por exemplo, fiquei sabendo por várias assistentes sociais que, na grande maioria, os filhos das pessoas muito pobres ou miseráveis são malvindos, indesejados: eles vão servir apenas de encrenca econômica e financeira para os casais desassistidos.

Eu sei de uma história de uma prostituta, a profissional que menos deseja ter um filho, justamente por não saber quem é o pai.

A prostituta ficou grávida e quase enlouqueceu. Não se perdoava.

Mas não era pelo filho que ela não se perdoava. Era por ela mesma.

Explico: não sei por que cargas d’água, ensinaram a essa prostituta, erradamente, que todo feto de mulher grávida foi concebido se a mulher teve prazer, ou melhor, orgasmo, no congresso carnal respectivo.

Disseram para ela: se tu gozares, pode nascer um filho.

E, desse caso que eu fiquei sabendo, disseram-me que a mulher não só se desesperou porque não cumpriu à risca o mandamento profissional de não gozar, como desconhecia quem era o pai de seu feto, isto é, tinha completa dificuldade em identificar o cliente com quem ela tivera um orgasmo: queria saber quem ele era para procurá-lo outra vez e ter outro orgasmo com ele. Dessa vez, sem punição, pois já estava grávida. Sem punição, mas com consciência.

Vejam como são as coisas na vida. Uma mulher culpando a si própria por abrigar em seu ventre um filho, que além de indesejado, sem pai conhecido, era fruto de um prazer que ela não sabia que tinha tido, nem com quem.

Por isto, eu digo sempre, amparando-me nos ditados célebres e sábios: o mundo dá tantas voltas, o tempo é o senhor da razão, aqui se faz e aqui se paga e a banca do cassino paga e recebe.

E com esta frase termino minha coluna, porque tenho de tomar meus remédios, preparando meu corpo e meu espírito para a cirurgia que vou fazer daqui a dias, na qual, cada vez mais me convenço, me safarei da doença mais temerária que tenho entre as quase uma dezena de outras.

E as outras eu depois curarei com menor dificuldade.

O marido feliz

11 de março de 2013 0

Estávamos todos os oito amigos, dia desses, em volta da grande mesa do restaurante, no jantar que prosaicamente realizamos de dois em dois meses. Chegamos todos quase ao mesmo tempo, às 21h. E logo espocou na roda aquela camaradagem conquistada nas várias etapas da vida, dois recordavam a infância juntos vivida, outros a adolescência, outros a universidade, mais outros o serviço público ou a iniciativa privada.

Os oito casados. Por evidência, o assunto central da reminiscência coletiva eram as esposas. A maioria afetava relação conjugal escravagista; é claro, eles como escravos, as esposas como senhoras. Queixavam-se sete de nós da mais absoluta condição de inferioridade com relação às esposas, envergonhando-se os sete da humilhante submissão.

Foi quando o oitavo praticamente esbofeteou moralmente os sete queixosos e bradou, entre dois goles de vinho: “Eu sou feliz com minha mulher”. A roda tonteou. Olhamos todos estupefatos para o “feliz”. E quisemos saber dos detalhes daquela ventura acintosa, repleta da jactância.

Ele nos explicou que sua mulher não marcava horário, ao contrário de seis dos presentes, que são obrigados pelas esposas a chegar em casa antes do Jornal Nacional, a gabolice do marido “feliz” retinia pelas paredes do restaurante: “Minha mulher nunca marca horário para eu chegar em casa, se eu chegar à meia-noite ou de madrugada ela está esperando, acordada ou despertada pela minha chegada, com sorrisos nos lábios e candura na voz. Não me exige presença permanente no lar nem frequência nas relações carnais. Quase todas as noites, entrego-me ao deleite de outras mulheres, ao inefável prazer das aventuras extraconjugais. Minha mulher ou é sincera quando diz que acredita em minha fidelidade, ou finge espetacularmente que acredita em minha lealdade fora dos limites territoriais do nosso apartamento. Ela crê piamente em que gasto meu tempo só com o trabalho e, nas horas de folga, longe dela, dedico-me somente à camaradagem com meus amigos, a exemplo deste jantar em que confraternizamos nós, os oito, todos homens, sem que sequer passem ao largo, neste restaurante discreto, quaisquer sombras femininas. Nas raras vezes em que vou para casa cedo, sou recompensado pelo remanso delicioso do corpo de minha mulher, que se oferece generoso ao meu prazer. Tenho o cuidado de recompensá-la com o prazer carnal economicamente, até mesmo porque não suportaria fornecer-lhe amor com assiduidade, tal a intensidade com que me atiro nos braços de minhas parceiras eventuais na rua. Cumpro o ritual de almoçar fora com minha mulher todos os domingos. Mas quase chega a ser mensal a ocasião que reservo para jantar com ela, em casa. Nas outras 29 noites do mês, mergulho nas farras gastronômicas, etílicas e sexuais com minhas namoradas. Nunca houve um só sussurro ou muxoxo de queixa de minha mulher pela minha ausência, ela não demonstra a mínima desconfiança de que eu possa me ocupar, como me ocupo, quando estou longe dela, dos meus deliciosos festins orgíacos. Sou feliz, engulam-me, eu sou feliz. Sou feliz com minhas múltiplas e revezadas namoradas, mas sou principalmente feliz porque, quando me recolho pela madrugada ao mundo abençoado do meu lar, lá vou encontrar a minha cidadela dominada pela presença calma, cordata, cordial, conformadamente compreensiva e solidária de minha mulher. Eu sou feliz! E tenho compaixão de vocês por não terem tido a minha habilidade, destreza e sabedoria. Engulam-me com esta janta que nos servem agora. Eu sou feliz”.

Aquele discurso ostensivamente gabola do nosso amigo soou a nós todos como um acinte, ficamos os sete sentindo um misto de inveja e ódio contra o “feliz”. Já era meia-noite quando um de nós sete recebeu no celular o telefonema de sua esposa. Ele se defendia: “Estou entre amigos, no restaurante, somos todos homens. Já estou indo embora para casa, vamos apenas alinhavar os últimos papos, pagar a conta e em seguida estou em casa”. Do outro lado, se chegava a ouvir, a esposa do nosso amigo gritava, ordenando que ele estivesse em casa dentro de 15 minutos.

Desesperado, ele me entregou o telefone, implorando que eu convencesse sua mulher de que lhe fosse consentido ficar mais uma hora naquele convívio fraterno. Peguei o telefone e falei: “Querida Vilma, deixa que o Alfredo fique só mais uma hora aqui, é um jantar entre oito homens. Ele só quer ficar mais uma hora, só até a uma da manhã”. E ela sentenciou no telefone, cruelmente despótica: “Paulo Sant’Ana, não te mete nisso. O alvará de soltura dele esgotou-se pontualmente à meia-noite”. E eu também, por osmose, antecipei-me no pagamento da cota da conta e saí de fininho para casa.

Uma mulher estonteante

10 de março de 2013 0

Deus ou a natureza não são justos na distribuição dos dons e atributos aos seres humanos. Constatei isto sexta-feira quando me defrontei no estúdio do Jornal do Almoço com a atriz Cláudia Raia. Não sei quem foi o inspiradíssimo tecelão ou ourives que presidiu o design daquela acetinada e apetitosa pele. A pele da Cláudia Raia me pareceu um deslumbrante embrulho para presente.

Os seus pés de dedos simétricos e perímetro de harmônicas sinuosidades pareceram-me plasmados por um gênio da estatuária. Pés que ela astuciosamente permite que sejam entrevistos pelas fendas inteligentes das tiras das sandálias. Quem foi o escultor renascentista que desenhou aquele conjunto esplêndido da sua boca ornada pela serpentina de seus lábios desejantes e por dentes alvos e parelhos, coordenados com perfeição estética às duas paredes laterais de  seu rosto e à planície sedosa da sua testa, decorada delicadamente por insinuantes sobrancelhas?

Não falei de seu nariz porque a instigante perspectiva do seu perfil levou-me imediatamente a elogiá-la, quando ela disse que aquilo era obra de “um cirurgião plástico” e não da mão divina, que só ali falhara no talhe original. Vê-se assim que esta mulher ciclópica teve seu arcabouço de beleza indizível plasmado pela natureza, mais tarde aperfeiçoado pela ciência humana da cirurgia plástica rinofacial, da ginástica, da dança, das massagens e dos melhores cremes para a pele das mais destacadas grifes estrangeiras.

Por isso é que quando eu fazia este louvor desbragado a Cláudia Raia, perante várias mulheres circunstantes, a opinião delas foi unanimemente sincrônica e ressentida: “Se eu tivesse tempo e dinheiro para exercitar-me e para comprar os cremes que ela usa e fazer a plástica que me falta, se não tivesse que me preocupar com a cozinha e a organização da casa, poderia me aproximar do seu poder de atração”. Talvez pudessem?

Por que abri esta coluna escrevendo que há uma injustiça social na forma como Deus ou a natureza distribuíram entre os homens os seus dons e atributos? Porque, além da beleza acintosa e discriminatória com que dotaram Cláudia Raia, os deuses deram-lhe também talento e uma singular simpatia repleta de cordialidade, de que sua voz e gestos cativantes são instrumentos notáveis.

A injustiça é a seguinte: como pode haver só uma mulher assim ou talvez algumas outras raras que a ela se equiparem? E da mesma forma como ela ostenta esse privilégio, por que ele se estende a um homem só que possa desfrutá-lo? Por que o paraíso na Terra é concedido brutalmente a tão poucas pessoas? Uma só Cláudia Raia para um só homem desfrutá-la é como um clássico do futebol com portões fechados.

Marido e Mulher

09 de março de 2013 0

Em princípio, tenho um pé atrás com essas pessoas que apresentam sua mulher assim: “Esta é minha esposa”. Minha desconfiança se deve a que “minha mulher” não tem de ser trocada pela expressão “minha esposa”. É pernosticismo, é afetação chamar “minha mulher” de minha esposa.

Já sei que os objetadores de plantão irão contrapor que, então, as mulheres não devem dizer “meu marido”, e sim “meu homem”. É diferente. No caso, “meu homem” é chocante, porque na nossa língua e no nosso costume vernacular “meu homem” quer dizer “meu macho”. E não fica bem a uma mulher classificar seu marido de seu macho porque, como se sabe, o homem, para a mulher, tem mais de 1001 utilidades do que ser macho. “Meu esposo”, para mim também é uma expressão pedante. A colocação politicamente certa é “meu marido”.

Da mesma forma, desconfio de todas as pessoas, homens e mulheres, que chamam suas empregadas domésticas de “secretária”. Empregada doméstica é uma profissão honrosa, digna, de grande utilidade social. Não precisa da classificação de “secretária”, que é outra coisa completamente diferente. E o pior é que quase todas as pessoas que chamam suas empregadas domésticas de secretárias não lhes dão salários de secretárias, mas sim de empregadas domésticas. Secretária só no nome. Enquanto muita gente que chama suas empregadas domésticas de “empregadas domésticas” paga-lhes o salário superior de secretárias.

Além disso, nesse caso de empregada doméstica e secretária, mulher e esposa, cada dupla de palavras não se constitui de sinônimos, portanto não têm o mesmo sentido. Já a expressão “minha patroa”, no lugar de “minha mulher”, é muito simpática, é a cordial e bem resignada manifestação do marido de que é dominado pela mulher. Exatamente por isso é que soaria muito mal a uma mulher apresentar seu marido como “meu patrão”. Indevido. Porque nenhum marido manda na mulher.

Por sinal, esta palavra “patroa” só se aplica bem no feminino, como mostrei acima. Ninguém gosta de apresentar numa roda alguém como “meu patrão”. Não sei bem por que, mas parece pejorativo a quem é empregado. Eu, de minha parte, desde o tempo em que trabalhei na feira livre até os dias de hoje, em que sou jornalista, apresento meus patrões assim, circunstancialmente, em uma roda:

– Apresento-lhe meu ‘amigo’.

Talvez seja porque nunca consegui trabalhar de empregado de alguém por algum tempo sem torná-lo meu amigo. Sempre que meu patrão deixou de ser meu amigo, pedi demissão de meus empregos. Não tem sentido trabalhar com um “inimigo” ou um “indiferente” como patrão. Só há sentido, principalmente em empresas pequenas, trabalhar para patrão de quem a gente se orgulhe e o mesmo serve para o patrão: tem de se orgulhar de seu empregado. Em caso contrário, vai e vem e se instala o conflito.

Mas os tempos mudaram. E hoje é muito comum que aquilo que é certamente uma relação entre marido e mulher seja classificado assim por um dos dois parceiros: “Apresento-lhe meu namorado”. Às vezes, dura há anos a relação conjugal e os dois se apresentam para o meio social como “namorados”. Os que fazem isso para mim são sábios: têm convicção de que não é perpétua aquela relação e assim se previnem contra o fatalismo quase inarredável da separação. Se nunca se separarem, melhor. Ou pior.

Bem e mal

07 de março de 2013 0

Era tão pessimista, que a cada um que encontrava não perguntava “ olá, tudo bem?”, indagava, isto sim, “ olá, tudo mal?”.
E ai de quem respondesse que ia tudo bem.
Acusava-o de ser fingido ou mentiroso.
Já a mim, quando perguntam se está tudo bem, respondo: está tudo normal.
Esta palavra, “ normal”, me parece ser uma boa resposta para quem quer saber como vai a minha vida.
Quando digo “ normal”, supõe-se qualquer coisa, que está tudo como sempre ou que ora vou bem, ora vou mal, que a vida é assim mesmo, cheia de altos e baixos.
E às pessoas mais inteligentes não escapa que dentro da palavra “ normal” está contida a palavra “ mal”.
Acontece que não me atrevo a dizer que está tudo bem e me envergonho de dizer que vai tudo mal.

Outras vezes, se não fosse enfadonho responder além da formalidade, gostaria de dizer que vai tudo bem porque está tudo tão mal, que já não há espaço para piorar.
Raras vezes, quando alguém é perguntado se está tudo bem, responderá que está tudo mal.
“ Olá, como vais, tudo bem?”.
O melhor é dizer que está tudo bem para não encompridar a conversa.
Porque, se a gente for dizer que está tudo mal, terá de obrigatoriamente explicar o que vai mal.
Não há nada mais cruelmente constrangedor do que, dito que está tudo mal, retruque alguém de “ por que está tudo mal? “.
Se alguém me pergunta por que está tudo mal, respondo que é porque não está tudo bem.
E a gente é tão comodista, que, se não está tudo bem, conclui-se, então, que vai tudo mal.
E mesmo quando não sentimos que está tudo mal, concluímos que isto não quer dizer que está tudo bem.

Ih, lá já vem aquele chato perguntar se está tudo bem.
Será que ele não é suficientemente sensível para saber que comigo tudo vai sempre mal? E gosto muito de uma outra resposta a essa pergunta que me fazem: quando alguém me indaga “ Como vais?”, respondo imediatamente: “ Vou indo”.
“ Vou indo” tonteia o curioso.
Ele vai quase a nocaute e puxa logo outro assunto.
“ Vou indo” é uma solução genial: ela tanto não nos obriga a dizer mentirosamente que vamos bem quanto não dá para quem pergunta a alegria da resposta de que vamos mal.

Além disso, na expressão “ vou indo”, está embutida uma forte carga de sinceridade.
É a mesma coisa que, indagado sobre “ como vais?”, a gente responder “ vou vivendo”.
“ Vou vivendo” resume tudo, quer dizer que ora se vai bem, ora se vai mal, bem assim como é a vida de todo mundo.
Quer dizer também que vai mal mas podia ser pior ou que vai bem mas bem que podia estar melhor.

“ Mal ou bem, eu vou indo bem” é uma resposta que quer dizer que “ eu vou regular”.
Uma outra resposta contundente é “ vou bem mal”.
Ou, então, quando indagado se vou bem, respondo: “ Bem, eu acho que vou mal”.
Ou, então, esta outra, mais tergiversativa: “ Mal e mal pressinto que vou bem”.

Megalomania e insegurança

06 de março de 2013 0

Não sei se o pensamento a seguir transcrito embute uma verdade, mas estou meditando bastante sobre ele: “É melhor morrer crendo do que viver duvidando”. E me inclino a adotá-lo.

Eu não concordo em largar o cigarro, mas se aparecer uma mente brilhante que me argumente lucidamente sobre a vantagem que terei deixando de fumar, cedo e faço o sacrifício da renúncia a esse prazer, digamos assim, quase incomparável.

Acho mesmo que só largaria o cigarro se me ressurgisse de repente, numa esquina da vida, um daqueles templários de priscas eras e me convencesse a substituir o cigarro por algum prazer físico ou espiritual que me fizesse esquecer o cigarro.

Largar o cigarro, só pela substituição. Substituir o cigarro por um grande amor por exemplo. Será? Mas não será que, arranjando um grande e incontrastável amor, terei, por isso mesmo, nervoso, emocionado e inseguro, que fumar mais ainda cigarros do que hoje repelentemente fumo?

O diabo do cigarro é que a gente sempre arranja para que ele se conjugue com outro prazer, com o cafezinho, com o almoço recém saboreado ou até mesmo nos instantes que se seguem aos jogos de amor bem realizados, entre os lençóis.

Por sinal, os lençóis podem servir como excelente combustível tanto para as labaredas do amor quanto para uma brasa caída do cigarro logo após o intercurso ou durante a irrupção do sono, naquele estado de lassidão e languidez que se sucede ao orgasmo.

Por falar em orgasmo, o que vem a ser ele? É mesmo o ápice da excitação? Mas, se é o ápice, isso transmite a ideia de que nada melhor há que o orgasmo na excitação. E, se nada é melhor do que o orgasmo e ele é o ápice, isso não subentende que o orgasmo é também a extinção, o fim da excitação?

E, se o orgasmo é o fim da excitação, se ele extingue a excitação, ele é uma sensação bemvinda ou malvinda? Digo isso porque o ideal seria que a excitação se prolongasse indefinidamente: não fosse interrompida pelo orgasmo. Todo esse meu último e intrincado silogismo sobre o orgasmo se destrói porque dizem os sexólogos que algumas mulheres têm o privilégio de sentir o orgasmo múltiplo, ou seja, uma metralhadora de prazer.

Atenção psiquiatras, analistas, psicólogos e outros terapeutas adjacentes: surgiu-me de repente o raciocínio de que todos os homens, portanto eu e meus leitores incluídos, somos ao mesmo tempo megalomaníacos e inseguros. Dirão alguns terapeutas e filósofos que a insegurança peculiar nossa nasce exatamente da nossa megalomania.

Ou seja, que todos somos megalomaníacos, disso não resta dúvida: todos exacerbamos nossa autoestima. Mas o interessante é que somos megalomaníacos porque no fundo desconfiamos da nossa real capacidade. Então, tiro na mosca: é justamente porque somos megalomaníacos que somos simultaneamente inseguros.

Tiro e queda.

Os sete pecados capitais

05 de março de 2013 0

Ando tão azarado, tão encrencado, tão carregado que, se eu comprar um circo:

1) o anão cresce
2) o gigante encolhe
3) o elefante emagrece
4) os leões e os tigres ficam desdentados
5) o engolidor de espadas tem faringite
6) o equilibrista pega labirintite
7) o palhaço entra em depressão
8) a mulher barbuda se torna imberbe
9) dá tendinite coletiva nos trapezistas
10) por um defeito elétrico-mecânico no carrinho do vendedor, nunca as pipocas espocarão

Por uma classificação tomista (São Tomás de Aquino) mais recente, são estes os sete pecados capitais:

1) Ira
2) Inveja
3) Luxúria
4) Soberba
5) Gula
6) Preguiça
7) Avareza

Meditando bem sobre estes sete pecados principais do comportamento humano, cheguei à conclusão de que não os pratico regularmente.

Mas confesso que já os pratiquei todos. A ira, quando estou eufórico, sobressai-se como meu pior impulso negativo, por vezes me sinto apto a matar ou morrer numa briga de trânsito, principalmente quando vejo algum motorista não respeitar pedestre na faixa de segurança ou quando saio atrás de um motorista que me fechou algumas quadras antes.

A inveja. Decididamente, não sou um invejoso. Sou capaz até de torcer pelo êxito dos outros. Não sei, no entanto, se sou capaz de torcer pelo sucesso de um inimigo ou rival meu. Desconfio que não sou capaz.

A luxúria. Já a tive no grau mais exasperado. Tive febres de concupiscências.

Lembro-me que na mocidade eu praticava os mais extremos atos de luxúria, porém em pensamento. Sonhei muito com lascívia em nível até de cobiçar a mulher do próximo quando eu era rapaz.

Mas nessas minhas tonteiras oníricas de jovem, jamais admiti qualquer ato ou pensamento de luxúria que implicasse a não concorrência da vontade da parceira.

Pensava que era lícita toda a luxúria concorde entre um homem e uma mulher.

Soberba. Eis o pecado capital que mais pratico, tenho quase toda a certeza. Sou megalomaníaco confesso. Conheço mil megalomaníacos, estou cercado por dezenas. Mas todos eles têm pejo de confessar que são narcisistas. Talvez eu o confesse para que possa transitar mais livre e naturalmente a expressão compulsiva da minha autoestima.

Quanto à gula, sou adepto dela em alguns alimentos: sorvete, por exemplo, nunca como menos de um quilo.

Melancia, o mínimo que como é uma inteira. E antes de me tornar diabético furava com um prego duas latas de leite condensado e chupava-as inteirinhas.

Preguiça: este pecado, decididamente, não o pratico.

Avareza: dizem meus filhos e meus netos que sou um bárbaro e atroz pecador nesse item. Na minha defesa, acuso-os de serem mórbidos perdulários.

Conclusão: já me dediquei com afinco a seis dos sete pecados capitais. E quem não pecou ainda com tanta variedade e insistência, que atire a primeira pedra.

Carta de princípios

04 de março de 2013 0

Esta coluna, escrevia quinta-feira pela madrugada, enquanto lutava contra a insônia, elucubrando sobre a vida e sobre a minha vida.

Deixem que eu diga aos leitores que é uma das melhores colunas que escrevi em minha vida, ótimas assim como esta sempre foram as colunas que escrevi quando a vigília vencia o sono. Deliciem-se, leitoras, banqueteiem-se com este texto aí debaixo. É a minha homenagem aos assinantes deste jornal ao qual sirvo com lealdade há 38 anos. Quando dei esta coluna para Fé Emma lê-la, ela caiu em pranto. Ei-la:

Eu sonho ser generoso com todos de quem eu me apiede. Eu desejo instalar em meu coração um plantão permanente de caridade e solidariedade. Eu preciso me abrir a todos que choram, suplicam ou sofrem silenciosamente. Eu necessito me render aos que precisam de amparo, estendendo-lhes minha mão e meu auxílio. Porque não há outro sentido na vida que não seja viver para os outros.

Deus me livre de pensar em mim antes de dirigir meu pensamento ao próximo. Antes de acusar, tenho de perdoar. Antes de condenar, tenho de me colocar no lugar de quem está sendo julgado e me persignar como benevolente. Antes de virar as costas, tenho de enfrentar. Em vez de invejar, tenho de compreender. Em vez de agredir, devo acariciar. Em vez de fugir, abraçar. Em vez de contornar, inteirar-me. Em vez de recuar, cumpre-me progredir. Até que eu chegue à perfeição de amar quem me odeia e servir a quem me trata com desdém. Até que eu chegue à perfeição de corar quando alguém me agradeça e de encher de mesuras a quem me vilipendia.

Que eu nunca me envergonhe de ser bom e jamais deixe de estar pronto para uma generosidade. Que eu nunca me afaste dos bons e jamais deixe de tentar dissuadir os inclementes. Que eu nunca me impeça de dividir com os outros o que tenho, mesmo que seja pouco, ou muito, mesmo que depois me venha a fazer falta. Que eu impulsione mais ainda quem está subindo e faça tudo para conter e reverter quem está caindo.

Que eu nunca me afaste dos bons e dos maus, dos primeiros para imitá-los, dos segundos para tentar regenerá-los. Que eu seja assim, benévolo, condescendente, piedoso, construtivo, diligente no bem e corajoso e compreensivo quanto ao mal. Que eu sempre tente e nunca desista de estimular os bons e mitigar os maus. A quem me dedicar inveja, que eu a traduza como admiração. A quem possivelmente me dedicar ódio, que eu o traduza tão somente por incompreensão. Para que eu possa antes de morrer, altivo, gritar aos que testemunharam este meu tipo de conduta, gritar a todos bem alto: “Não abro mão do céu”.