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Posts de abril 2013

A burrice crônica

30 de abril de 2013 0

A natureza fez homens burros e homens inteligentes. Não quero me jactar, mas não sou burro. Posso não ser bonito, não ser forte, não ser musculoso, não ser rico, não ser jovem, mas tenho certeza de que não sou burro. Burrice é a dificuldade em raciocinar. Eu fico espantado com a burrice de certas pessoas. É fácil chegar-se a determinada conclusão, mas essas pessoas não atinam para o que é certo ou verdadeiro.

Mas há certos tipos enganosos de burrice. Há determinadas pessoas que são eloquentes, são cultas, mas são burras. A eloquência e a cultura delas servem de verniz para sua pseudointeligência. A burrice, por vezes, é tão ostensiva, que se torna irritante. Não se entende como é que evidentes verdades não entrem nas cabeças de algumas pessoas.

Existem no meu meio ou nas minhas circunstâncias algumas pessoas que são conhecidas como burras, sua burrice crônica tornou-se célebre nas conversas que temos sobre esse aspecto. São burrices de doer. E são burrices ilustres, diárias, permanentes, algumas até são burrices vencedoras, conseguiram destaque no meio social através da burrice.

Para muita gente inteligente, a burrice crônica é uma chatice. Embora, para mim e para alguns escolhidos amigos meus, a burrice às vezes seja uma atração: nós nos combinamos e fazemos uma pergunta para um burro, sabemos que a resposta que ele vai dar será completamente descolada da realidade e nos divertimos muito com aquela tacanhice esférica.

Vou dar um exemplo de burro bem-sucedido: é o burro que tem memória privilegiada. A memória é a maior auxiliar da inteligência. Minha memória é péssima. Se eu tivesse boa memória, seria um gênio. Então, temos que um indivíduo burro que tem excelente memória pode obter sucesso em muitas áreas culturais, sociais, profissionais. Quem tem boa memória pode muito bem enganar os outros, que pensam que estão tratando com um cara inteligente.

O exercício da boa memória se diferencia do exercício da inteligência. A memória é uma gravação na mente. Já a inteligência é um repente, um relâmpago. A memória retém, a inteligência dispara. Uma pessoa inteligente que não tem boa memória sofre muito para vencer na vida. Ao contrário dos burros com boa memória, que às vezes se tornam até notáveis.

Não adianta virem querer me dizer que tenho boa memória porque sei 3 mil letras de música e 800 sonetos e poemas, tudo de cor. Tenho sérios problemas de memória. Por exemplo, sempre me esqueço, invariavelmente me esqueço, do termo atávico. Sempre que raciocino em torno de caracteres que são recebidos de ascendentes remotos, procuro em vão a palavra que isso signifique e nunca topo em minha memória com atavismo.

Agora mesmo, para escrever essa palavra, tive de recorrer à memória e à inteligência do meu colega Olyr Zavaschi. É impressionante como muitas vezes me escapam palavras no breu do vazio memorial. E tenho também péssima memória topográfica. Se vou até um endereço da cidade hoje, amanhã não sei mais como chegar lá. E outros tipos de memória me são deficientes. Ah, se eu tivesse memória, seria um Albert Einstein ou um Leonardo da Vinci. Tenho certeza de que Einstein e Da Vinci, além de inteligentes, tinham memória afiada.

As responsabilidades do árbitro e de Luxemburgo na eliminação

29 de abril de 2013 0

Triste desclassificação do Grêmio no Gauchão. No sábado, no entanto, o Grêmio foi totalmente espoliado pela arbitragem que anulou dois gols legítimos de Barcos e Vargas.

Um bandeirinha foi cego ou parcial, o juiz foi um desastre.

***

Mas o Luxemburgo teve parte na derrota. Inventou a escalação estapafúrdia de Fábio Aurélio, quando tinham de ter jogado o Biteco ou o Marco Antônio de saída.

E é impressionante a teimosia e a birra de Luxemburgo: ele foi advertido por esta coluna na semana passada pela maneira errada com que os jogadores do Grêmio estão cobrando as faltas que têm de ser lançadas sobre a área adversária. Por sinal, recebi dezenas de cumprimentos por aquela coluna.

Escrevi que o ócio de Luxemburgo se ressalta porque ele não ensina a seus jogadores que devem lançar as bolas para a imediação da risca da grande área, fora da área de ação dos goleiros, nas faltas elevadas sobre a área adversária.

Pois sábado essa burrice esférica se verificou nas três faltas cobradas pelo Grêmio, uma delas de novo pelo Fábio Aurélio: todas foram parar nas mãos do goleiro. Ou seja, mesmo advertido por esta coluna, por orgulho ferido ou por alienação, ou até mesmo por surto de incompetência, Luxemburgo não corrigiu esse defeito vital: essas cobranças sobre a área são arma decisiva nos gols que as outras equipes marcam.

Mas o Luxemburgo encasquetou em não ver isso.

***

No entanto, discordo dos que falaram no rádio e na televisão que o Grêmio jogou contra o Juventude tão mal como já tinha jogado nos cinco compromissos anteriores.

Desta vez o Grêmio não jogou mal, Barcos fez um gol espetacular e Vargas marcou, mas a estupidez da arbitragem anulou o gol.

A atuação do Grêmio no sábado, desculpem o que disseram alguns outros, me anima um pouco para o jogo contra o Santa Fé depois de amanhã. Se o Luxemburgo não insistir erradamente com Fábio Aurélio.

***

Na entrevista coletiva pós-jogo e desclassificação, Luxemburgo prometeu à torcida que seu Grêmio vai ganhar o Brasileirão. Ou seja, às portas do inferno, o Luxemburgo promete o paraíso para os torcedores.

Ele deve estar se apoiando, assim para ser tão prometedor, na multa contratual gigantesca que impôs na assinatura de seu contrato com o Grêmio, hipótese em que for demitido.

***

O Grêmio não dá sorte com o comentarista Batista, da televisão. Em quase todos os lances polêmicos sobre arbitragem, ele assinala opinião contra o Grêmio. Em quase todos os lances, é demais!

O Batista jogou no Inter, depois jogou no Grêmio. Mas só guardou trauma do Grêmio.

Chegou ao ponto de sua opinião, sábado, contrastar frontalmente com a opinião do narrador em um lance polêmico e decisivo. O narrador deixou para lá para não armar um barraco na transmissão. E nesse lance a opinião de Batista foi também desfavorável ao Grêmio.

O Batista vai ter de autovigiar-se em seu subconsciente.

Canjas medicinais

28 de abril de 2013 0

Quando eu por acaso chego num bar noturno para dar uma canja aos músicos, canto para valer.

E aquele público todo me olhando, me ovacionando, alguns dançam ou dançaram, é chegado o momento em que falo com o público e digo sempre a mesma frase: “Tenham a certeza, meus queridos, de que aqui está muito melhor que lá na minha casa!”.

O pessoal cai na gargalhada.

***

Quando saio todas as noites do trabalho aqui de Zero Hora, muitos me perguntam:

– Sant’Ana, aonde vais agora?

Respondo imediatamente:

– Não sei, sinceramente, aonde eu vou. O que sei é o lugar para onde não vou: minha casa.

***

Outro dia, um amigo meu foi ao cardiologista, acompanhado da mulher.

O médico disse que estava ali com os exames clínicos do meu amigo, que estava tudo globalmente bem, mas havia um probleminha.

E que, por cautela, disse o médico, olhando para a mulher feia e gorda do meu amigo, “o senhor não pode ter emoções fortes, sexo só pode fazer em casa”.

***

E o Guerrinha foi fazer os exames anuais de check-up na central de atendimento médico dos funcionários, aqui na RBS.

O Guerrinha levou para os médicos os exames de fezes, urina, sangue, batimentos cardíacos etc.

Um dos médicos olhou para o Guerrinha e disse:

– Como o senhor está bem!

– Foi também o que outro médico disse a meu respeito.

– Quantos anos o senhor tem?

– 51.

– Muito bem, então vou lhe encaminhar para a esteira.

– Nada de esteira. Não aceito fazer esteira. Por que vocês, médicos, me dizem todos que estou bem mas ainda assim querem me mandar para a esteira? Recuso-me a fazer esteira. Porque, depois da esteira, eu já sei para onde vocês vão me mandar: a esteira é o passaporte para o crematório.

***

A loira andava a 140 quilômetros por hora na rodovia e foi atacada pelo soldado do trânsito.

O soldado pediu carteiras de motorista e identidade.

A loira disse:

– O senhor pode pegar aí no porta-luvas, só que vai encontrar junto seis quilos de cocaína.

– Cocaína?

– Sim e tem mais, seu guarda, lá no porta-malas há um cadáver de um homem que atropelei na estrada.

O soldado achou que cocaína no porta-luvas e cadáver no porta-malas tornavam o caso muito grave e foi chamar o capitão.

O capitão aproximou-se da loira, que ainda estava no volante, e pediu os documentos:

– Carteiras de motorista e identidade, por favor.

A loira mostrou tranquilamente os documentos, não havia cocaína nenhuma no porta-luvas.

O capitão foi lá vistoriar o porta-malas e não achou nada, nem sinal do cadáver.

“Como é que a senhora disse para o meu soldado que havia cocaína no porta-luvas e um cadáver no porta malas?”, indagou o capitão.

E a loira:

– Vai ver que esse mentiroso do seu soldado vai lhe dizer que eu andava a 140 quilômetros por hora.

O drama das diferenças

28 de abril de 2013 0

Já escrevi, mas repito, que nunca me conformei com as iniquidades que o destino comete.

Não passa pela minha intelecção que o destino, a Providência, Deus, seja lá quem for que lance seus desígnios sobre a sorte das pessoas, crie homens ricos e outros pobres.

Foge da minha inteligência que o destino – ou a fatalidade – crie homens talentosos e outros homens medíocres.

Grande injustiça!


***

Por que há homens fracos fisicamente e há outros homens de saúde física de ferro?

Por quê?

Por que há homens belos, cortejados pelas mulheres, enquanto há outros homens feios, indesejados, quando não desprezados pelas mulheres?

Por quê? Por quê?

***

Eu não exigiria que todos os homens fossem ricos, talentosos, fortes ou bonitos.

Não, não chegaria a tal ponto. Mas que pelo menos fossem ricos uns, mas não fossem miseráveis os outros, que tivessem pelo menos um padrão econômico-financeiro razoável.

Mas, não, há homens com a beleza física de um Adônis e outros com a feiura abominável de um Quasímodo!

É desigual, é injusto. E não é só minha inteligência que rejeita essa relação díspar. Também meu coração repele-a. Também minha compaixão disso se apieda.

***

Sei que há uma lei distributivo-qualitativa que impede valores iguais.

Sei que, se os homens fossem iguais em talento, força, aspecto físico ou aptidão financeira, esta vida seria maçante e inviável.

Mas sonho que pelo menos as diferenças fossem mais dignas.

Que alguns tivessem ouvido apurado, está bem, mas que outros não fossem completamente surdos. Meia-boca!

***

Em suma, eu não queria que as pessoas fossem todas iguais.

O que eu queria é que não fossem tão diferentes.

***

Por isso, mais ainda me impressionam as pessoas que nascem com esses desfavores, nascem pobres, medíocres, doentes, feios, e conseguem, apesar disso, dar a volta por cima e atingir o sucesso, o êxito.

Essas são as pessoas heróicas e admiráveis.

***

Por isso é que, quando os bebês nascem ou têm poucos dias de vida, os circunstantes vaticinam: “Como ele é belo, tem os olhos azuis!”. “Como ele é forte, nasceu com sete quilos!”. “Como ele é inteligente, sabe que chorando lhe darão de mamar”. Ou “como ele é feiozinho, com o tempo pode ficar mais bonito”.

Desde cedo, isso é o que me revolta, fica lançada a sorte das pessoas por toda a vida.

Malditas sejam todas as diferenças!

***

Mas sobre esse assunto eu tenho uma muito boa: nascer pobre é uma fatalidade, mas morrer rico é uma burrice.

O fanho e o aleijadinho

27 de abril de 2013 0

Eu não quero dizer que quem não sabe contar anedotas seja burro.

Mas quero afirmar que a pessoa que sabe contar anedotas é sempre inteligente.

Contar piadas é uma arte. É uma arte de construção. O contador da piada vai estruturando a sua história, construindo o seu edifício, que vai culminar no êxtase humorístico, não pode omitir nenhum detalhe que interesse ao clímax da história, vai tecendo a narrativa em bases sólidas de dialética, até que vem o final… e o delírio dos que ouviram.

Que tragédia ocorre quando uma pessoa que não sabe contar anedotas mete-se a tal. Que tragédia!

Pode ser a maior piada de todos os tempos, mas na voz e nos gestos do contador desastrado a história assume clima de velório.

Só tem uma coisa pior que mau contador de piadas: é piada sem graça contada por mau contador de piadas.

Embora toda piada fique sem graça quando a cargo de um contador sem graça ou desencontrado no relato.

Vejam a célebre piada do aleijadinho e do fanho.

Estava em pleno andamento a sessão de curas numa igreja, o pastor chamando os aleijados, os cegos, os surdos, os mudos, os fanhos ao palco, onde procederia à cura de cada um deles.

Chamou o aleijadinho e o fanho ao palco. Lá se foram eles, o aleijadinho com defeito básico em ambas as pernas e o fanho fanhando.

Então, o pastor milagroso mandou o fanho e o aleijadinho irem para trás da cortina do palco, com o fim de o público não vê-los e causar maior sensação na plateia.

Foi quando o pastor deu início ao ato milagroso-curativo. E pediu ao aleijadinho que atirasse a primeira muleta por cima da cortina, no chão do palco.

O fanho lá atrás da cortina viu quando o aleijadinho atirou a primeira muleta.

E o pastor, então, o momento se aproximando do culminante, mandou o aleijadinho atirar a segunda muleta por cima da cortina, com o que então iria se concluir o milagre, com o aleijadinho caminhando.

O aleijadinho atirou a segunda muleta e o pastor gritou:

— Fanho, como está a coisa por aí?

E o fanho respondeu gritando com alarma:

— O aleijadinho caiu!!!

Esta piada espetacular foi contada ontem no Sala de Redação e redundou num rotundo fracasso, só atenuado pela risada artificial do Ruy Ostermann.

E o desastre da narrativa só se deu por um detalhe, um único detalhe: o contador da piada substituiu a palavra muleta por bengala. Ora, bengala não podia substituir muleta, porque bengala é uma só que se usa, muleta, no caso do aleijadinho, ficava melhor, pois dava ideia de aleijume grave. Nunca na história se viu qualquer pessoa usar duas bengalas, duas muletas é curial.

Ou seja, qualquer descuido na narrativa é fatal para o contador de piadas.

Manias

26 de abril de 2013 0

Tenho horror a chamados, principalmente da campainha da minha casa ou do meu telefone celular.

Quando um dos dois toca, estremeço: ali vem notícia ruim.

***

Nunca a campainha da minha casa tocou para surgir uma pessoa que vá me ajudar.

Quase sempre a campainha da minha casa toca para me pedirem ajuda.

E o meu telefone celular quase sempre toca para me trazer uma má notícia.

***

Já tentei jogar fora o celular e tentei desligar a campainha da minha casa. Mas não consegui.

Parece que estou viciado em más notícias, acostumado a complicações.

***

Assim é uma mania que tenho nas sinaleiras. Há dias em que estou para não dar esmolas. Saio de casa com a firme determinação de não dar óbolos para ninguém.

E, por mais que me peçam ou implorem nas sinaleiras os mendigos ou inconvenientes, não dou esmola para nenhum deles.

Mas há dias em que dou esmola em todas as sinaleiras. São 17 sinaleiras da minha casa até Zero Hora. Então, separo 17 moedas e as guardo para dar aos pedintes.

Há dias em que estou tão à flor da pele, que, quando o mendigo me ataca na sinaleira, sinto ímpetos de sair do carro e deixar o veículo para o mendigo dirigir e fazer dele o que bem quiser, até mesmo vendê-lo.

E há dias em que brutalmente fecho o vidro do meu carro quando me aproximo da sinaleira. Não quero saber de mendigos.

Definitivamente, eu sou um ciclotímico.

***

E há dias em que estou para conversas. Chego a atacar pessoas para conversar com elas. Deito e me reviro nos assuntos.

Mas há dias, em contrapartida, em que não quero falar com ninguém, só quero ir pra casa fumar e dormir.

***

E, estranhamente, há dias em que estou para pagar contas. Pago tudo que está para ser pago, pago até contas atrasadas, acrescidas dos malditos juros.

Mas há dias em que me recuso de tal maneira a pagar contas, que não pago nem as contas que vencem naquele dia e vão me causar problemas de quitação depois.

Não pago, não pago e… pronto: vão cobrar do diabo!

***

São manias que tenho e não sei por que as tenho.

São manias, são princípios, enlouquecidos princípios.

Por exemplo, outra mania que tenho: nunca janto fora aos domingos e às segundas-feiras. Não adianta, se os jantares são em festas que caem na segunda ou no domingo, deixo de ir à festa.

Nos outros cinco dias da semana, saio para jantar fora em todos eles, estou gordo acho que por essa mania.

***

Mania é conduta que não se explica. Esta que tenho de só pegar e acender o isqueiro, sempre, com os dedos da mão esquerda, eu que sou destro, não tem explicação.

Outra mania que tenho, quando falando comigo uma pessoa joga perdigotos em meu rosto, delicadamente pergunto a ela se tem lenço. Ela pergunta por quê. E eu respondo que é para limpar os perdigotos que ela lançou no meu rosto.

Sei lá por que nós temos manias…

Eu só quero justiça!

25 de abril de 2013 0

Não quero que me julgue um juiz culto ou erudito.

Prefiro que me julgue um juiz justo.

Quero que me julgue um juiz piedoso e compassivo.

Mas que deixe de lado a compaixão, se for para ser justo.

Podem os juízes que me forem julgar ser severos ou condescendentes, desde que, ao me aplicarem a pena ou me absolverem, sigam somente os ditames de suas consciências cognitivas.

Prefiro que ao me julgarem os juízes se atenham menos à lei do que à vida.

E insisto que o juiz que me julgar leve em conta, ao me sancionar com a condenação ou me absolvendo, a possibilidade de minha regeneração.

Ou seja, que nenhuma pena se abata sobre mim se vier impossibilitar a hipótese de que eu nunca mais venha a delinquir.

Que o meu castigo não impeça jamais a minha recuperação.

***

Que o juiz que me for julgar tenha em conta, se me for condenar, a masmorra em que serei jogado, que tome consciência, sim, de que a pena que me impuser não poderá me destruir como ser humano, atirando-me a um antro prisional que destroçará em definitivo todos os meus valores que ainda restam.

Mas que leve em conta o juiz que me for julgar, essencialmente, o dano que causei à minha vítima e a seus familiares assim como se eles estão bradando veementemente por meu castigo. Em outras palavras, que a pena que se abata sobre mim, se eu for culpado, contenha influência da insistência e veemência do pranto dos familiares da vítima que produzi.

E, se for justo apenar-me, que me apene, mas sempre baseado na esperança de que eu venha na prisão a emendar-me.

Na esperança ou na perspectiva.

***

Que o juiz que me venha julgar olhe nos meus olhos, me ouça infatigavelmente, nunca por nenhum detalhe cerceie a minha defesa e tenha bem presente em sua mente a natureza, a extensão e o conteúdo da acusação que pesa sobre mim.

E principalmente deduza firmemente o juiz que me for julgar se ao cometer o delito eu poderia tê-lo evitado, se havia ou não inexigibilidade de outra conduta minha.

***

O juiz que me venha julgar, quando pronunciar a minha sentença, deve ter bem exato em sua mente que jamais se arrependerá dela, que jamais transigirá dela, no futuro, a não ser para beneficiar-me, no caso de que fique provado que errou ao condenar-me.

Mas exijo do juiz que me julgue que, se eu for substancialmente culpado, me condene e me deixe bem claro que não havia outra coisa a fazer em defesa da lei, do Estado e dos que danifiquei.

***

Quero que o juiz que me venha julgar não tenha pressa nem se mostre lento ou hesitante. E, se for hesitar, que seja apenas para acautelar-se de um grave erro de sentença.

Exijo também do juiz que me venha julgar que se fixe com obsessão nas provas que eventualmente haja contra mim, que nunca se afaste delas por nenhum milímetro, assim como o fará com as razões da minha defesa.

***

Finalmente, desejo ao juiz que me for julgar que se orgulhe da sentença que pronunciou, tenha sido para absolver-me ou para condenar-me, que depois de pronunciá-la o juiz ou a juíza que me for julgar se olhe no espelho em casa e se sinta digno de sua missão jurisdicional, que depois vá jantar à mesa com seu marido, com sua mulher e com seus filhos e grite intimamente: “Eu tenho convicção de que hoje fiz justiça”.

Velha rua do meu bairro

24 de abril de 2013 0

Cruzei a esquina do bairro com a mente povoada de recordações da adolescência e coração crivado de saudade dos amigos mortos ou distanciados.

Velha rua do meu bairro, onde senti as primeiras intensas emoções do encontro sempre conflitivo com a maturidade.

Velhos companheiros dos encontros febris da nossa camaradagem.

Eu daria tudo que tivesse para reviver aqueles momentos.

Mas o passado não volta mais, o futuro teima em me impor medos, e o presente quase sempre é um sobressalto.

***

Velha rua do meu bairro, onde tocava o realejo do periquito que escolhia a sorte num envelope cifrado.

Velha rua do meu bairro, onde passava a bandeira do Espírito Santo, entre foguetes e vivas, no meio da agitação das crianças e da admiração dos jovens.

Nós mal imaginávamos isso que a vida nos dá agora, repleta de incertezas e desenganos, suavizados pela esperança de que ainda podemos ser felizes. O último fio de esperança.

***

Velha rua do meu bairro, onde se vendia quentão e pinhão quente, outras vezes pipocas.

E a mania dos fogos de artifício: bomba-rojão, trique-traque, bombinhas, buscapés, lá adiante, a uma quadra de distância, sempre havia uma fogueira de São João ou de São Pedro e São Paulo, onde invariavelmente aparecia um louco para pisar nas brasas escaldantes, não lhe restando, por incrível que pareça, quaisquer queimaduras ou escaras na sola do pé intacta.

***

Velha rua do meu bairro, cuja paisagem de fevereiro era dominada pelo rubro das melancias partidas. Um talho na melancia, não há ritual mais saboroso que cortar uma melancia.

Velha esquina do meu bairro, onde aprendi os meus primeiros cânticos e ouvi as primeiras anedotas.

Tempo alegre em que a juventude teimava em não fugir de nós e a velhice era apenas uma lenda que continha ameaças perigosas.

Esquina onde se preparavam as pandorgas, os papagaios e os caixões para serem soltos lá ao longe, no riacho, que naquele tempo não era poluído e onde se podia arriscar algumas braçadas.

***

Mal pressentíamos que aquela paisagem urbana e humana iria para sempre quedar-se em nossas lembranças e alegrar nossas reminiscências.

Engraçado que naquele tempo não existia inveja, ciúme, fofoca, nada de ruim, ainda não tínhamos sido investidos da condição humana que agride os outros e nos transforma em feras na luta pela sobrevivência.

O que existia era namoro, era camaradagem, era amizade, um tempo poético de aventuras cotidianas.

O sexo, ah, o sexo era apenas um mistério, no máximo um plano, sufocado pelas obscuridades onanísticas.

***

Quem me dera reviver-te, velha rua do meu bairro, a festa na paróquia onde os alto-falantes ressoavam nas dedicatórias incessantes: “Alô, alô, uma menina de saia azul com blusa branca, um rapaz de calça marrom dedica-lhe com todo o carinho a música Pensando em ti, com Nélson Gonçalves.

E o tiro ao alvo, as pescarias, o carrossel, às vezes até a roda-gigante. E o amendoim torrado rolando com picolé e refresco.

Idiotamente arrisco dizer que se era mais feliz do que agora, pelo menos não se pensava no futuro, isso não acontece agora, o que nos aterroriza.

Floreando o galo

23 de abril de 2013 0

Tantas crianças e menininhas invadindo aqui a redação no dia de ontem, todas querendo tirar fotos comigo, queridinhos, sei lá por que gostam de mim, o que será que vêem em mim? Era uma pequena multidão de anjinhos, todos sorridentes, foram se chegando na redação, visitando as instalações, mas, em meio à azáfama, afetavam às mães que queriam tirar uma foto com o Paulo Sant’Ana.

Uma menina de dois anos, chamada Fernanda, apontou para meu peito: “ Eu vejo tu na televisão” ( as crianças adoravelmente não declinam os pronomes oblíquos).
São todas crianças alegres, ainda não lhes assustou nenhum fantasma da vida real, para elas a existência é um encantamento, exatamente porque não sabem o que é futuro, nem lhes pesa qualquer remorso do passado.
O garoto Juan, de seis anos, abriu um sorriso e me perguntou: “ Posso te dar um abraço?”.
E eu me envolvo no mistério do carinho de todos.
Não sei o que vêem em mim, mas, se por qualquer forma sou derivativo da infância delas, me satisfaço.

Depois de escrever uma coluna como aquela de ontem, deveriam meus superiores me conceder 90 dias de férias.
Nada igual ao que fiz ontem, quando me referi às hienas de jazigo, farei igual nos próximos 90 dias.
É aquele momento em que o colunista acerta na veia, depois de tanto tentar durante muito tempo.
Antes da publicação, quando a coluna ainda posava de larva no meu cérebro, chamei a atenção do David Coimbra e do Moisés Mendes para o que meus neurônios estavam elaborando.
Há colunas que vão fazer sucesso e a gente nem percebe que isso acontecerá.
Mas há colunas, como a de ontem, quando defendi a privacidade da memória do médico Marco Antonio Becker, em que a gente pressente que acertará em cheio no alvo.
Depois que se pressente, é só ajustar as letrinhas.

O mais importante numa coluna é a idéia.
Sem ela, ficamos horas tontos, sem iniciativa, sem nexo causal, penetramos num vazio de náusea.
Quando se alcança a idéia, quando surge a inspiração, o restante é só tarefa de artesanato.
A idéia é o grande clarão transbordante de luz para o processo de criação.
Imagino que os grandes quadros dos grandes pintores só começam a ser esboçados quando já sobreveio a idéia ao artista.
Já capturada a idéia, é mais fácil pincelar.
A idéia de que a vítima estava sendo esquartejada pelos boatos e de que se verificava então um segundo assassinato foi uma bela sacada.
Uma vez escrevi aqui, evidentemente que não a respeito de mim, que gênio é aquele que primeiro descobre o óbvio.
Investigar a vítima num caso de assassinato é um procedimento óbvio e indeclinável.
O que eu humildemente acho perigoso é que se enseje concluir que a vítima de assassinato afinal merecia o fim que teve.

Mas eu estou apenas driblando o leitor porque é impossível a qualquer colunista fazer duas colunas brilhantes consecutivas.
Nesta de hoje estou só floreando o galo.
Se a coluna de ontem terminou como um banquete oferecido ao leitor, a de hoje talvez consiga somente se constituir em um licor.

Massa, pizza e risoto

21 de abril de 2013 0

Pensara erradamente que a massa fosse o prato mais consumido e mais famoso da Itália.

Não era.

Fiquei sabendo em Turim, em 1990, quando lá me hospedei por 40 dias, durante a Copa do Mundo da Itália, que se rivalizam com a massa, em preferência dos italianos, a pizza e o risoto, acreditem.

Nos restaurantes de Turim, cataloguei 180 espécies de risoto. Mais que a massa, o arroz pode ser misturado a todos os tipos de alimentos vegetais e animais, era risoto de todos os tipos e para todos os gostos. E, como a região de Piemonte, onde está Turim, é a originária do risoto, então lá eles só comem risoto, noite e dia, muito mais que pizza e massa.

Aliás, o arroz pode ser misturado a tudo, repito, só nunca vi arroz misturado com massa. Massa com feijão, como quase todos os dias; arroz com feijão, como quase todos os dias.

Só nunca comi arroz misturado com massa.

*

Pois bem, interessante é que, quando se fala em pizza, logo se sabe que ela vem da Itália, dizem alguns audaciosos que não foi só a massa que Marco Polo, em suas viagens pelo Oriente, trouxe para a Itália. Trouxe também a pizza.

Nunca ouvi dizer que Marco Polo trouxe da China para a Itália o risoto, deve ter sido inventado pelos italianos mesmo.

O fato é que o risoto, a massa e a pizza são, parelhos em consumo, os três maiores pratos italianos.

Embora o alimento mais consumido no mundo seja o arroz, a massa, nos últimos anos, vem lhe seguindo as pegadas, devendo superar o arroz em volume de consumo.

*

Gosto de massa, tanto que é o único alimento que consigo comer no almoço e na janta do mesmo dia.

E gosto tanto de arroz, que o como uma vez por dia, na janta ou no almoço.

O mesmo não posso dizer da pizza, não é do meu gosto. Eu sou uma pessoa muito comodista e acho que não gosto de pizza porque tenho dificuldade para cortá-la em fatias.

É com certeza esse o motivo de minha ojeriza pela pizza, tanto que tanto a massa quanto o arroz não preciso cortá-los. Ou seja, não preciso de faca para comer massa e arroz. Já para a pizza, preciso dela.

Embora existam pessoas absurdas que cortam com a faca o espaguete e o talharim, o que é um sacrilégio: incrivelmente, massa cortada com faca perde o seu gosto original e se transforma num alimento vulgar.

*

Cerca de 90% dos restaurantes italianos não fornecem colher para os clientes comerem espaguete. Quando acontece esta estupidez comigo, a vontade que tenho é de retirar-me do estabelecimento sem comer.

Eu só como espaguete e até talharim com uma colher. Desenvolvi há decênios a técnica dos italianos de comer espaguete: vou enrolando o espaguete no garfo, de forma que a massa vai serpenteando em torno dos dentes do garfo, diminuindo a extensão dos seus fios.

Esqueci de dizer que esta operação é muito mais fácil quando se tem a colher, a que se encosta nos quatro dentes do garfo, manobra perfeita para a facilidade de comer o espaguete, mas incrivelmente fica a massa assim mais gostosa.

*

Já para o arroz, pode-se comê-lo de qualquer jeito, com garfo ou com colher.

Embora eu nunca tenha experimentado a delícia do arroz de leite comendo-o com garfo.

Irrite o chato

20 de abril de 2013 0

Se você quiser irritar um chato, finja que não o está escutando. O chato passa, então, para o terreno em que ele é mestre, o da repetição.

Continue fingindo que não está ouvindo o que o chato diz, o chato entra, então, em exasperação.

Se você for tenaz e se mantiver firme no fingimento, o chato se entrega e vai embora.

Há chato que diz: “Impressionante! É o terceiro surdo que encontro hoje. É muito azar. Mas vamos em busca do próximo”.

Encontro célebre entre mim e um chato, anteontem:

CHATO – Tu poderias me conceder 30 minutos do teu tempo, Sant’Ana?

EU – 30 minutos?

CHATO – É que eu tenho muitos assuntos para tratar contigo.

EU – O problema é a diversificação.

CHATO – Eu poderia abordar um só assunto, mas com profundidade.

EU – Não dá para reduzir a explanação do teu assunto para 15 minutos?

CHATO – Só se eu fizer um resumozinho.

O chato acabou me ocupando por 15 minutos, contados no relógio. Quando terminou o tempo, ele não tinha nem chegado ao âmago. Eu o interrompi e disse que não havia remédio, tinha de ir embora, estavam esgotados os 15 minutos.

E o chato desolado: “Mas não tem prorrogação?”.

O que melhor constrói a constância é a paciência. O que melhor constrói a ternura é a humildade. E o que melhor constrói a confiança é a experiência.

Já o que melhor constrói a coragem é a honradez. O que melhor constrói a inteligência é a clareza. E, por outra parte, o que melhor constrói a clareza é a simplicidade.

O que melhor constrói o ódio é a vingança. E o que melhor constrói a inconsciência é o esquecimento.

Já a amizade, o que melhor a constrói é a cumplicidade.

O que melhor constrói a desconfiança é a inconfidencialidade.

O que de mais doce e mais amargo ao mesmo tempo há na lembrança é a saudade.

O que ilumina a verdade é a lucidez.

O que se embute na perversidade é a mentira.

O que melhor constrói a adversidade é o erro na escolha.

O que melhor constrói a vibração é o entusiasmo.

O que melhor constrói a grandeza é a renúncia.

O que melhor constrói a pequeneza é a ardilosidade.

E o que melhor constrói a rudeza é o mau humor.

O que de mais característico há na chatice é a repetição.

O que melhor destrói a ansiedade é o cigarro.

Assim como o que mais destrói os alvéolos e os brônquios é o cigarro.

E de que adianta espantar a ansiedade se vão se destruindo os pulmões?

O que melhor constrói a malvadeza é a implacabilidade.

E, como se sabe, o que melhor constrói a eternidade é o amor.

Procura-se um psiquiatra

19 de abril de 2013 0

Barcos deu o passe para o gol de Zé Roberto. E Dida fez defesas e intervenções estupendas e decisivas.

Já se pode dizer, depois de ontem, que Dida e Barcos contribuíram decisivamente para a classificação do Grêmio.

Toda a minha inteligência e sensibilidade foram postas à disposição do Grêmio na escolha de Dida e Barcos como reforços para 2013.

Venho dizendo, no entanto, que não sou mais inteligente que ninguém. Sou mais velho, isto sim. Eu sou um bobo, mas um bobo antigo.

Viva Dida! Viva Barcos! Viva o Grêmio.

Ando atrás de um psiquiatra que tire da minha cabeça fatos que não me pertencem e cuja repetição eu não posso evitar.

Maltratam meu ser burrices, estupidezes e mediocridades de alguns. E eu fico matutando sobre eles, como se a responsabilidade desses atos ou palavras fosse minha.

Noto então que, além dos meus problemas, cai sobre meus ombros pesada carga dos defeitos de outros.

Um médico meu já me aconselhou a não dar bola para os problemas gerais. Disse-me que se eu só me fixar nos meus problemas e nas questões que cercam minha vida, sem me importar com os atos alheios que não me atingem, então serei menos infeliz.

Anteontem, por exemplo, em algum lugar do Brasil, parece-me que no Rio de Janeiro, um motorista completamente embriagado atropelou um carrinho de bebê e matou a criancinha que o ocupava.

Este fato não me saiu da cabeça por 48 horas e a revolta que se instalou em mim pela atitude do assassino corroeu minha mente.

Da mesma forma, não consigo tirar da minha cabeça o desperdício de centenas de bilhões de reais que estão sendo gastos pelos cofres públicos na construção de estádios para a Copa do Mundo a ser realizada no Brasil, enquanto milhares de brasileiros estão morrendo por não terem assistência médica. Este fato está me dilacerando, enquanto o certo é que eu não me preocupasse com ele e deixasse que esse desvario cessasse de dominar a minha mente. Eu, assim, ganharia muito mais em saúde mental e, quem sabe, até física.

O diabo é que tudo o que acontece de grave em minha volta e chega ao meu conhecimento passa a dominar meus pensamentos. Sendo assim, eu me desgasto e não consigo dormir direito, debruçado sobre as preocupações com o ocorrido.

Se um psiquiatra pudesse me desvencilhar dessa mania de achar que tudo o que ocorre em minha volta me pertence, eu pagaria bons honorários a ele.

Mas o que eu tenho que ver que seis taxistas tenham sido baleados na cabeça pelas costas e que o assassino esteja preso mas não será condenado à morte? O que eu tenho que ver com isso? Nada, absolutamente nada. Mas, então, por que esse fato me torna tão infeliz ao não sair da minha cabeça e teimar em me azucrinar com sua lembrança?

O terrível é que, numa espécie de megalomania, eu encuquei que tudo o que for humano me pertence, até mesmo os defeitos dos outros.

E não deve ser assim, cada um tem de se encarregar dos seus atos, nada me autoriza a querer transformar o mundo e querer mudar as coisas.

Se eu nem ligasse para acontecimentos sobre os quais eu não tivesse qualquer responsabilidade, a vida seria muito melhor para mim.

Qual é o psiquiatra que se atreve a me curar desse mal, obrigando-me a nem ligar para os desatinos dos outros?

E o pior é que sei que muitos dos meus leitores padecem desse mesmo erro que cometo.

Contente-se com o que tem

17 de abril de 2013 0

O negócio é o seguinte: é difícil, mas é também incrivelmente fácil, ser feliz.
Mais difícil vai ser eu explicar isso que escrevi acima.
Por exemplo, não pode ser feliz uma pessoa que tem 50 anos e viva dizendo que gostaria de voltar à idade de 30 anos. Não pode ser feliz uma pessoa assim. No entanto, se esta ou qualquer pessoa contentarem-se com a idade que têm, serão felizes. Até mesmo porque de que adianta não estar contente com a idade que se tem? Nenhuma força científica pode mudar a idade que a pessoa tem.

Pois bem, acabei prescrevendo aos meus leitores uma receita para ser feliz: estar satisfeito com a idade que tiver.

Quem é jovem não tem nada que estar desejando ser mais velho. Quem é velho comete uma imbecilidade julgando que não é feliz por não ser jovem.
A idade que a gente tem é a idade que a gente tem e… pronto. O negócio é fazer força para ser feliz com ela.
A gente tem de ter orgulho da idade que tem: o jovem por não ser velho e o velho por ter já sido jovem.

Uma vez dei de costados com uma sinagoga. Estava lotada de judeus e de curiosos. Ali na Barros Cassal.
Falava no palco um rabino.
E disse o rabino que o sonho do homem se resume em três coisas: ser rico, ser forte e ser sábio.
E continuou o rabino: o homem quer ser forte, mas pensa que ser forte é dominar os outros. Engana-se, ser forte é dominar-se a si próprio.

Prosseguiu o rabino: o homem quer ser sábio, mas imagina que ser sábio é abeberar-se da cultura dos livros, dos ensinamentos que os sábios nos legaram pela escrita. Quando, na verdade, ser sábio é outra coisa: ser sábio é aprender com cada pessoa que se encontra na vida.

E terminou o rabino: o homem quer ser rico, mas não sabe o homem que ser rico não é amealhar toda a riqueza, ganhar e juntar todo o dinheiro que se possa. Ser rico, acrescentou por fim o rabino, é contentar-se com o que se tem.
Esta é a sabedoria, este é o jeito de ser feliz: mostrar-se satisfeito com o que se possui. E não querer se tornar feliz desejando aquilo que não se conseguiu ou não se pode conseguir.
Venham por mim.

Sobre aquela coluna que escrevi a respeito de que sempre – ou quase sempre – recebemos o mal em pagamento do bem, que basta fazermos algo de bem para alguém para receber em troca o mal, colhi nas ruas uma frase esplendorosa: “Por que me odeias e agrides, se nunca te fiz nenhum favor?”.

Perguntam-me o endereço do bistrô de comidas e salgadinhos maravilhosos e ideal para namorar, a que me referi nesta coluna: Avenida Bastian, 121, Bistrô As Santas.

Aurora e Crepúsculo

16 de abril de 2013 0

Esses dias, um amigo meu se recusou a ir tomar um cafezinho no bar e fumar um cigarro no fumódromo em minha companhia, alegando que tinha muito que fazer e não podia me dar esse prazer. Eu, então, abandonado, gritei a plenos pulmões aqui na sala: “Como é chato ser dependente de um amigo!”.

Examinando bem a frase que gritei, chegaremos à conclusão de que ela encerra uma grande verdade: a gente se torna refém de todas as pessoas que ama ou que estima.
E tem o outro lado da coisa: quando se estima ou ama outra pessoa, exige-se tudo dela, comer churrasco conosco, fumar no fumódromo conosco, ir até o bar ou bistrô ou cinema conosco, enfim queremos tomar conta do ser amado ou estimado. Eu fiquei fulo da cara quando meu amigo me disse que não podia ir até o fumódromo comigo.
Quando a gente ama ou estima alguém, acha que esse alguém tem de estar sempre à nossa disposição. E não é assim, para a pessoa a quem amamos, somos apenas uma parte de sua vida. Parte importante, mas não única.
Uma vez, soube que no horóscopo chinês os signos são representados por animais. Gêmeos, por exemplo, no horóscopo chinês, é cachorro, Sagitário é cavalo. Um dia, eu encontrei uma mulher casada com um amigo meu que era cavalo no horóscopo chinês.
Essa senhora era muito ciumenta de seu marido, o tal meu amigo. E eu a aconselhava a não ser ciumenta, a não querer prender seu marido dentro de casa, não obrigá-lo a sempre estar ao lado dela.
Olhem o que eu disse a ela:
– É bobagem você querer dominá-lo e tê-lo sempre junto de si. Você tem de fazer exatamente o contrário. Porque ele é cavalo no horóscopo chinês e sabe o que diz o horóscopo chinês para os que são do signo de cavalo? Diz o seguinte: “Se queres prendê-lo, solta-lhe as rédeas”.
Os chineses são sábios, eles sabem que quanto mais você oprimir seu parceiro na relação, mais ele se cansará de você. Solte-o a galopar nas campinas repletas de fêmeas equinas.
Cá para nós, se você tem um marido – ou uma mulher –, se você tem um(a) namorado(a) e sabe que ele vem mantendo alguns namoriscos de pequenas consequências, cá para nós, que ninguém nos ouça, faça que não vê, não dê pelota, deixa ele seguir com seu retoço externo, que em seguida ele cansa e volta para seu remanso.
Não se pode querer tomar conta total de quem se ama ou estima. Pode e deve acarinhá-lo, mas não o sufoque.
Cá para nós, se amamos profundamente alguém, até é bom que esse nosso amor circule pelo mundo e mantenha estreitas relações de amizade com outras pessoas. Quando voltar de suas relações de amizade, será muito mais afetivo e estuante de amor conosco.
E, lembre-se bem, se você ama ou estima alguém, tenha sempre tolerância com ele. A tolerância é fundamental em qualquer relação amorosa ou de amizade. Está totalmente incapacitado para amar ou ser amigo quem não dedica tolerância à pessoa amada ou estimada. A tolerância é a aurora de qualquer relação, a intolerância é o crepúsculo.

Três palavrinhas

15 de abril de 2013 0


Doem-me como se eu fosse atingido pelo corte profundo e frio de um punhal os silêncios que algumas pessoas fazem a meu respeito.

Foi dessa dor que me surgiu a seguinte verdade: nem as palavras mais ofensivas que possam me dirigir me afligem mais que os silêncios propositais a meu respeito, que tinham de ser preenchidos gentilmente de referências sobre mim nas eventualidades.

Os que silenciam intencionalmente a meu respeito, portanto, saibam que atingiram na mosca o desprezo que pretendem com isso me dedicar.

Que gente má.

***

Ontem foi dia de o Ambulatório de Otite Média do Hospital de Clínicas de Porto Alegre comemorar o milésimo paciente que passou por lá nos últimos oito anos.

Os amigos do ambulatório estavam todos exultantes com o êxito desse serviço modelar do HCPA, criado pelo médico otorrino Sadi Selaimen da Costa.

Deve-se ressaltar que desses mil pacientes atendidos, todos já pra lá foram encaminhados com prescrição de cirurgia.

O Dr. Sadi não cabia em si de contente ontem no churrasco comemorativo havido na Sociedade Libanesa.

***

Tem uma canção em língua espanhola muito conhecida, chamada Alma, Corazón y Vida, cujo trecho eu adoro:

Toma esta canción callada
alma, corazón y vida
esas tres cositas nada más te doy.
Como no tengo fortuna
esas tres cosas te ofrezco,
alma, corazón y vida
Y nada más.
Alma para conquistarte
Corazón para tenerte
Y vida para vivirla junto a ti

***

Pois em face desta canção, aqui neste bistrô em que nos encontramos, na Avenida Bastian, este lugar talhado para bebermos e comermos petiscos de entusiástica delícia, a par de decoração tão propícia a que nos queiramos, quero dizer-te que só existo para um dia ouvir somente três palavrinhas tuas.

Tudo o que sonho agora e aqui onde me encontro mais uma vez extasiado com tua companhia é que um dia, daqui a dois ou 10 anos, tu venhas a pronunciar estas três palavrinhas tão ansiadas.

Que num dia abençoado, pode ser de outono ou inverno, nem sonho que seja de primavera, em que me açoite o frio, a propósito até que tua frase mais que me acalore, me incendeie, estas três palavrinhas sejam disparadas de teu cérebro, corram até tua laringe e despenquem de tua língua e dos teus lábios em direção dos meus ouvidos, que não acreditarão na sua euforia timpânica ao escutá-las retumbantes e carregadas de triunfo, esperadas três palavrinhas, extremosas três palavrinhas que me redimirão como ser humano, que me dotarão enfim de uma dignidade existencial incomparável, benditas e excelsas três palavrinhas de resgate para tantas aflições e dores de procura, aguardadas três palavrinhas mais que o Éden, confortadoras três palavrinhas mais que um perdão, amada, querida, adorada, vida minha, que bom ouvir finalmente soltas de suas rédeas, libertadas de suas algemas, desamarradas de seus grilhões, da flor de teus lábios definitivamente pronunciadas para o ardor de meu deleite, somente e tão somente, como se não fossem tudo, estas três para todo o sempre suficientes palavrinhas: “Eu te amo”.