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Chutar o balde

31 de maio de 2013 0

Mando-te notícias, meu amigo, como pediste.
A vida aqui está transcorrendo pesada, sem graça, sem horizonte, desânimo sem quartel.
O grosso das pessoas cada vez mais se prende justamente às circunstâncias que mais odeiam, não conseguem se desvencilhar delas, ou melhor, não têm coragem de se livrar delas.
Só alguns iluminados rompem a rotina e alcançam a felicidade.
Um truque para ser feliz é chutar o balde.
Corre um grande risco quem chuta o balde, mas é impossível ser feliz sem chutar o balde.

Todos me parecem aprisionados a seus destinos, não se atrevem a modificá-los.
E eu só agora percebo que não há forma de realização que não seja mudar-se o que a vida nos prescreveu.
Tudo que está prescrito é contrário à felicidade.
É imprescindível imprimir novos rumos à existência, fazer velas ao mar: uma coisa é certa, a felicidade não está aqui nesta modorra, é preciso dar um basta a esta astenia existencial diária que vai se eternizando.
É impossível ser feliz permanecendo no mesmo lugar, na situação a que nos impusemos.
O deleite da vida está na movimentação, na fuga.
Quem não arremeter se submete, quem se submete se escraviza.
É preciso perder alguma coisa para alcançar coisa melhor.
E assim, meu amigo, todos à minha volta e eu parecemos rendidos.
Raros são os que decidem dar um sofrenão na vida e arremessar-se para a liberdade.
Só há duas condições na vida, a liberdade e a escravidão.
Entenda-se liberdade como fazer-se o que se quer.
Entendase escravidão como fazer-se o que os outros querem ou nos determinaram.

Escravidão é ir aos poucos se aferrando a valores atraentes que vão perdendo seu fulgor, mas que já nos agrilhoaram.
Liberdade é não se fixar a valor algum do qual não podemos nos livrar.
Escravidão é apaixonar-se.
Liberdade é enamorar-se.
Escravidão é o compromisso.
Liberdade é o desapego.

Assim, amigo, por aqui – creio que em toda parte; por aí onde estás, a julgar pelo que me relatas, também – temos caminhado com grilhões.
Caminhar com grilhões é andar, andar e não sair do mesmo lugar.
É caminhar fazendo voltas.
Chegou a tal ponto nossa estagnação existencial, que as pessoas aqui estão correndo para o aeroporto, antes um dos lugares mais aprazíveis, onde se ia realizar o sonho, em busca de um pesadelo: quem compra uma passagem de avião, mune-se de dois medos, o de atrasar ou ver cancelado o vôo e o medo de embarcar.
Não tem saída.
A pior face da vida é quando ela se torna um beco sem saída.

Sustenta-nos assim, meu amigo, somente a esperança.

Não a esperança covarde de que algum dia a vida – ou a morte – resolva o nosso impasse.
E sim a esperança de que venhamos a ter, a qualquer momento, contrariando tudo que temos sido até agora, a coragem de chutar o balde.
Lançar o bloco na rua e botar pra quebrar.
Lembranças a todos e reza por nós.

*texto publicado em 29/07/2007

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