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Posts de maio 2013

Chutar o balde

31 de maio de 2013 0

Mando-te notícias, meu amigo, como pediste.
A vida aqui está transcorrendo pesada, sem graça, sem horizonte, desânimo sem quartel.
O grosso das pessoas cada vez mais se prende justamente às circunstâncias que mais odeiam, não conseguem se desvencilhar delas, ou melhor, não têm coragem de se livrar delas.
Só alguns iluminados rompem a rotina e alcançam a felicidade.
Um truque para ser feliz é chutar o balde.
Corre um grande risco quem chuta o balde, mas é impossível ser feliz sem chutar o balde.

Todos me parecem aprisionados a seus destinos, não se atrevem a modificá-los.
E eu só agora percebo que não há forma de realização que não seja mudar-se o que a vida nos prescreveu.
Tudo que está prescrito é contrário à felicidade.
É imprescindível imprimir novos rumos à existência, fazer velas ao mar: uma coisa é certa, a felicidade não está aqui nesta modorra, é preciso dar um basta a esta astenia existencial diária que vai se eternizando.
É impossível ser feliz permanecendo no mesmo lugar, na situação a que nos impusemos.
O deleite da vida está na movimentação, na fuga.
Quem não arremeter se submete, quem se submete se escraviza.
É preciso perder alguma coisa para alcançar coisa melhor.
E assim, meu amigo, todos à minha volta e eu parecemos rendidos.
Raros são os que decidem dar um sofrenão na vida e arremessar-se para a liberdade.
Só há duas condições na vida, a liberdade e a escravidão.
Entenda-se liberdade como fazer-se o que se quer.
Entendase escravidão como fazer-se o que os outros querem ou nos determinaram.

Escravidão é ir aos poucos se aferrando a valores atraentes que vão perdendo seu fulgor, mas que já nos agrilhoaram.
Liberdade é não se fixar a valor algum do qual não podemos nos livrar.
Escravidão é apaixonar-se.
Liberdade é enamorar-se.
Escravidão é o compromisso.
Liberdade é o desapego.

Assim, amigo, por aqui – creio que em toda parte; por aí onde estás, a julgar pelo que me relatas, também – temos caminhado com grilhões.
Caminhar com grilhões é andar, andar e não sair do mesmo lugar.
É caminhar fazendo voltas.
Chegou a tal ponto nossa estagnação existencial, que as pessoas aqui estão correndo para o aeroporto, antes um dos lugares mais aprazíveis, onde se ia realizar o sonho, em busca de um pesadelo: quem compra uma passagem de avião, mune-se de dois medos, o de atrasar ou ver cancelado o vôo e o medo de embarcar.
Não tem saída.
A pior face da vida é quando ela se torna um beco sem saída.

Sustenta-nos assim, meu amigo, somente a esperança.

Não a esperança covarde de que algum dia a vida – ou a morte – resolva o nosso impasse.
E sim a esperança de que venhamos a ter, a qualquer momento, contrariando tudo que temos sido até agora, a coragem de chutar o balde.
Lançar o bloco na rua e botar pra quebrar.
Lembranças a todos e reza por nós.

*texto publicado em 29/07/2007

Casas separadas

28 de maio de 2013 0

Cena 1

O marido chega em casa esfuziante e fala para a mulher: “Querida, comprei um apartamento!”

A mulher responde entusiasmada: “Que ótimo para nós, meu amor!”

O marido: “Tens razão, será ótimo para nós, exatamente porque irás morar nele sozinha”.

A mulher, perplexa: “Como?”

O marido: “Resolvi seguir o conselho do Paulo Sant’Ana, a melhor maneira de perenizar um casamento é o casal morar em casas separadas”.

A mulher: “Tu estás me dizendo que vais continuar morando aqui neste inferno do nosso atual apartamento?”

O marido: “Quando te mudares para o outro apartamento, este aqui vai se transformar no mesmo dia num paraíso. Da mesma forma, como vais morar sozinha no outro apartamento, lá será outro paraíso”.

Cena 2

O mesmo marido e a mesma mulher. O marido retorna à iniciativa: “Querida, quero te informar que o apartamento que comprei para ti é um JK”.

A mulher: “Mas como? Se este apartamento onde moramos hoje já é pequeno para nós, como vais me enfiar agora numa quitinete. Isto é desumano”.

O marido: “Enganas-te redondamente: sem mim, o teu JK será para ti um salão de festas. Esqueces que o espaço que ocupo junto à tua vida é gigantesco, eu vivo grudado na tua pele durante todo o nosso cotidiano, tu podes até não perceber, mas tolho todos os teus movimentos e te privo completamente de tua liberdade de dia e de noite, perpetuamente. Vais ver que tua quitinete, sem mim, se tornará para ti numa imensa planície arquitetônica, terás de comprar uma moto para tripulá-la dentro de teu JK, vais ver que teu novo apartamento será de uma amplidão melíflua, um lugar sem limites territoriais, sentimentais e sexuais. Terás a liberdade tão sonhada por todo e qualquer ser humano, poderás convidar todos os dias para visitar-te a quem bem entenderes, não será como este apartamento em que moramos hoje, quando em realidade tu topas todos os dias, sem qualquer falha, somente comigo, teu colossal obstáculo. Lá no teu novo lar tu poderás escolher entre assistires, por teus convites e escolhas, o desfile da raça humana. Ou então, o que é também recompensador, poderás te recolher a uma deliciosa solidão, sensação maravilhosa que nunca conseguiste aqui: repito que tenho sido para ti o que tens sido para mim, me tiras da solidão sem me fazer companhia e eu, por outro lado, te privo da minha companhia por não te tirar da solidão. Foi a idéia mais genial que tive em minha vida, ou melhor, foi a idéia mais genial do Paulo Sant’Ana, a quem eu estou imitando vergonhosa e sublimemente. Vai, querida! Vai em busca da felicidade, ao mesmo tempo em que me retribuirás com a bemaventurança!”

E a mulher, finalizando: “Pensando bem, concordo. Mas logicamente tu terás de pagar a taxa de condomínio do meu JK”. E o marido: “Vejo que vais mudar de apartamento mas não mudarás nunca de mentalidade. Vou telefonar agora mesmo para a imobiliária e desfazer o negócio. Foi só um sonho. Prefiro pagar só uma taxa de condomínio, a deste nosso atual apartamento, à felicidade perpétua. Nunca o nosso permanente infortúnio vai custar tão pouco: a reles economia de R$ 100 mensais”.

(Crônica publicada em 30/12/2005)

Os homens errados

27 de maio de 2013 0

É a mais importante frase, o mais fundamental pensamento que li sobre a revolução que está dominando as relações amorosas e conjugais, no que se refere às profundas modificações no comportamento da mulher na passagem de século.

A frase, que não é unicamente uma frase, mas uma ecoante lição, é de impressionante realidade. Foi vista no peito de uma mulher, na praia, escrita em sua camiseta: “Enquanto não encontro o homem certo, vou me divertindo com o errado”.

Sei de amigas minhas que delirarão com essa frase. Sei que essa frase vai agitar o raciocínio e os sentimentos de uma grande multidão de mulheres que porão os olhos nesta coluna e cultivarão esta frase como se fosse um ensinamento bíblico.

A frase, assim como está escrita, serve para muitas mulheres monógamas, as que se dedicam sexualmente a um homem só. Para as mulheres que costumam ter aventuras amorosas com mais de um homem, para fazer melhor sentido e ficar melhor assentada a elas esta frase, teria que ser mudada: “Enquanto não encontro o homem certo, vou me divertindo com os errados”. A frase, assim, ganha um outro impacto, embora ambas as frases sejam dilacerantes para a consciência do macho moderno.

Esta frase é a síntese do ponto principal da revolução do comportamento feminino que estamos presenciando: a grande mudança é que as mulheres começaram a descobrir aquilo que os homens sempre souberam exercitar: fazer sexo sem amor.

Esse era um privilégio dos homens, que submetem há séculos as mulheres à condição de objeto sexual. E, nesse sentido, nesse ritual que significava a liberdade sexual do homem, as mulheres iniciaram um processo de igualdade com os homens, significando essa metamorfose em suas vidas a conquista de muitas liberdades.

Em realidade, as mulheres em geral sempre se entregaram ao sexo pagando o tributo do amor ou da paixão, como me ensinou a psicanalista Maria Rita Kehl. E agora descobriram que não é mais preciso pagar esse preço para se realizar sexualmente ou ter uma vida sexual razoável: é bem possível obter esse prazer ou esse divertimento sem estar amando. Aí é que reside a superioridade feminina na revolução sexual a que estamos assistindo, que veio afinal dar mais segurança às mulheres e acabou por deixar perplexos os homens.

Enquanto não acham os homens certos, as mulheres vão se divertindo com os errados, esse é um comportamento feminino atual que passava despercebido até mesmo a algumas mulheres que o exercitavam. Elas o faziam inconscientemente, depois que lerem estas linhas vibrarão com a conscientização de seus atos.

Quando falei isso tudo o que escrevi acima a um amigo que está se separando de sua mulher, por vontade unilateral dela, ele me disse com tristeza as seguintes palavras: “Agora que estou deixando a mulher certa, passarei a me divertir com as erradas”.

* Publicado em Zero Hora no dia 20/08/2010.

É proibido beijar

24 de maio de 2013 0

Os restaurantes, mas principalmente os bares noturnos com música ao vivo, sofreram nos últimos tempos dois rudes golpes.

O primeiro foi quando proibiram fumar. Como se sabe, os boêmios e os que cultivam alma noturna gostam de fumar.

O segundo golpe foi a Lei Seca para os motoristas, como é que uma pessoa vai beber num bar ou restaurante se depois não pode dirigir?

Ambas as leis são justas e adequadas, mas elas feriram quase que de morte os bares noturnos, para tristeza de seus proprietários e frequentadores, que os viram esvaziar-se.

***

É um tempo de proibições. Não faz muito, um shopping de Porto Alegre proibiu os casais de se beijarem no interior das lojas e também nos corredores.

Ficou interessante: quem quisesse se beijar ou fumar tinha de sair lá para a rua.

Será que um casal se beijando dentro de um shopping comete atentado ao pudor?

Eu confesso que beijos de boca insistentes e acintosos entre casais num ambiente público parecem um pequeno acinte, principalmente quando são tão lânguidos, que fazem suspeitar que, daqui a pouco, o casal vai deitar no chão, tirar a roupa e amar-se. Mas daí a proibir o beijo é um exagero.

O fato é que essas proibições do álcool, do fumo e do beijo têm no seu cerne a intenção de ferir de morte a alegria das pessoas. No fundo, quem proíbe tem inveja da alegria dos outros.

***

No caso do cigarro, na marcha em que vai o ódio dos não fumantes e dos ex-fumantes a quem fuma, em breve será proibido fumar, além de em lugares públicos fechados, também nas ruas.

No início dessa onda antitabagista, reagi com fúria, cheguei a fumar ligado nos tubos de uma UTI de hospital.

Hoje já me conformo com a proibição de fumar em todos os lugares que frequento. Ao fumar com alguém por perto, o fumante agride o direito dos outros à higiene e à saúde.

***

A gente tem de manter no ar a peteca da música ao vivo nos bares noturnos de Porto Alegre, são raras as casas que contratam músicos, que ganham uma miséria.

Por isso é que aconselho que compareçam os leitores às terças-feiras à noite no Restaurante Terra Nova, na Rua Santa Cecília esquina com Rua Neusa Brizola, onde se apresentam os cantores e músicos Clayton Franco, Silvana Prunes e Helena Ruperti, música e comida da melhor qualidade e ótimo preço.

E nas outras noites há várias outras atrações.

***

Ia esquecendo: não se pode fumar no Terra Nova, mas em compensação é permitido beijar.

* Texto publicado na Zero Hora desta sexta-feira, 24/05

A roupa e a nudez

23 de maio de 2013 0

Quais terão sido os primeiros impulsos humanos? Depois que os bebês choraram, única prática humana sem aprendizado, foram ensinados a se alimentar, a engatinhar, a falar e a caminhar. Então a criança defrontou-se com seu corpo e sentiu pudor, também ensinado. Tratou aí de encobrir seu corpo, uma maneira de não entregar-se totalmente aos outros, a castidade é uma forma de poupança, ela será entregue como um tesouro para quem a merecer, devem ter pensado as virgens virtuosas.

Assim os homens (e as mulheres) decidiram desde cedo que encobririam seus corpos, alguns com vegetais, cordas, madeiras, os guerreiros com metais. Mas convencionou-se finalmente que a nudez seria coberta por roupas. E as roupas acabaram por valorizar a nudez.

Em alguns países muçulmanos, a nudez é ainda mais valorizada porque as mulheres são obrigadas a cobrirem-se da cabeça aos pés. Talvez, assim, lá a lascívia e a concupiscência mais incendeiem a imaginação masculina: é que o desejo é ainda mais ardente quando não se conhece o objeto desejado.

Já nós, ocidentais, fomos aos poucos expondo nossos corpos num processo milenar. As luvas deram lugar aos anéis, os sapatos às sandálias, as calças às bermudas, as saias às minissaias e aos shorts. E, no campo feminino principalmente, até os talhes foram brindados com os decotes, tudo em função da sedução. As roupas, que tinham o pretexto do agasalho, foram assumindo a função exponencial de atrair o sexo oposto, de mãos dadas com a vaidade.

No sentido contrário do chador árabe, as roupas ocidentais partiram para a atração explícita, em vez do segredo muçulmano de vestimentas que deixavam o corpo blindado a sete chaves, abriram-se para os olhares alheios. Os corpos inteiros encobertos pelo vestuário foram dando aos poucos lugar às roupas sumárias, só deixando indescobertas as partes pudendas, a atração primal, embora os seios já tenham desabrochado para um processo de total exposição.

No meio dessa evolução surgiram tanto as roupas transparentes quanto as justas no corpo, as que melhor e sedutoramente configuram as verdadeiras formas corporais. De tal sorte a moda se incorporou à civilização que certa vez uma mulher célebre declarou que quando se mostrava bem-vestida isso lhe dava uma tal tranquilidade interior que nem a religião podia lhe transmitir.

De tal sorte o vestuário se transformou de obstáculo em cúmplice da nudez que se consagraram no mundo inteiro as lojas de lingerie. Com a lingerie, a arte e a ciência encontraram um meio de a mulher tornar-se mais sedutora com aquela roupa leve e suave do que se estivesse nua. É o homem substituindo o criador, a técnica do design superando a natureza.

Texto publicado em 19/02/2006

Guri irresponsável

22 de maio de 2013 0

Quando eu era guri e soltava pandorgas, nem passava pela minha cabeça o que seria de mim, o que iria me acontecer neste mistério fantástico da vida. Não tinha medo. Eu apenas vivia, extasiado pela vida, sem me importar com o sentido de viver. Quando eu era guri e soltava pandorgas, não sabia que a vida se dividia entre sofrimentos e venturas. Talvez pensasse até que a vida se resumisse só à infância, que a gente passasse aqui como um anjo, flanando, sem os percalços sérios das vicissitudes.

Quando eu era menino e soltava pandorgas, não me importava andar só. Até acho que me empenhava em estar só, isto é, não conseguia compreender o que entenderia mais tarde: que a solidão tem um punhal afiado que fere fundo. Nada disso. Eu só queria soltar pandorgas e jogar bola de gude. Eu só queria derrubar com uma vara de bambu as cachopas de marimbondos que se dependuravam nos beirais das casas, desfolhando depois aquele papel machê à procura de mel.

Quando eu era guri e soltava pandorgas, todas as manhãs quando eu me acordava, saltava da cama preparado para as surpresas da vida, não sabia que haveria competição, sequer cogitava da luta pela vida, pensava que tudo era um encanto e não haveria pesadelos. Desfrutava da saúde como
um bem perene, não passava pela minha cabeça que um dia a saúde enfraquece e a gente tromba com seu tratamento.

Quando eu era menino e soltava pandorgas e jogava bolinha de gude, não tinha ideia de que eu integrava uma família e dia haveria em que eu iria formar a minha própria família. Quando eu era menino e jogava taco com casinha derrubada, era um tempo bom, sem apreensões, que só se tisnou a partir do dia em que comecei a me preocupar com o futuro, com a carreira, com o orçamento, com a previdência.

Eu até penso hoje que a gente tem boas recordações da infância porque quando se é criança não se tem nenhuma responsabilidade. O homem deixa um pouco de ser feliz quando se torna responsável. É aí que ele percebe que tem de prestar contas. Quando menino, a gente não tem encargos, a vida é grátis e nem se imagina que um dia ela vai apresentar as prestações para serem pagas. Vê-se agora que seria bom voltar àquele tempo de criança quando a gente só brincava. E, se por acaso se precisasse de alguma coisa, ela nos era alcançada. Hoje, não, quando a gente precisa de alguma coisa, é a gente que tem de dar um jeito. E é muito difícil dar um jeito na solidão.

* Texto publicado em 21/05/2011

Grêmio e OAS chegam a acordo e a Arena agora é nossa!

21 de maio de 2013 0

Apesar da desclassificação do Grêmio na Libertadores, o ano de 2013 promete ainda grandes alegrias para a torcida tricolor.

É que acaba de ser concluído entre Grêmio e OAS o pacto de readequação do contrato original sobre a Arena e Olímpico, trazendo em seu bojo grandes vantagens para os dois lados.

O pacto foi conduzido magistralmente pela face gremista de Fábio Koff.

Entre tantas brilhantes ideias que vão povoar o pacto, que será assinado por esses dias, imaginem, quase não dá para acreditar, o Grêmio terá participação nos lucros imobiliários do empreendimento que será erguido no local hoje ainda ocupado pelo Olímpico.

Afora isso, a obrigação que o Grêmio tinha de saldar com a OAS a dívida relativa à adaptação dos direitos dos sócios gremistas à Arena, que era prevista para curto prazo, foi parcelada e o Grêmio terá condições de saldá-la quase que inteira somente com o atingimento da meta de 100 mil sócios, quando hoje há somente 30 mil sócios pagantes.

Pelo novo e estupendo pacto, fruto da sensibilidade de Koff e dos dirigentes da OAS, cai por terra a afirmação de que a “Arena não é nossa” e Koff poderá agora bater no peito e proclamar: “A Arena finalmente é nossa”.

Vejam só, repito porque é importante: pelo contrato original, o Grêmio só tinha direito de rendimentos no complexo imobiliário e comercial em torno da Arena, no entanto agora o Grêmio terá rendimentos também no complexo imobiliário e comercial no terreno relativo ao Olímpico a ser erguido na Azenha. Um achado, um milagre da nova negociação!

Com essa novidade, recai sobre o futebol do Grêmio, seja ele comandado na beira do gramado por Luxemburgo ou qualquer outro treinador, a responsabilidade de fazer o Grêmio não só retornar aos tempos áureos das grandes vitórias e conquistas como também a de arremessar o clube para um porvir de glórias, como uma pirâmide em demanda do infinito.

Como todos os gremistas, fiquei arrasado com o resultado obtido na Colômbia. Mas a notícia dessa repactuação injetou-me um sopro no coração e passo a alimentar notáveis esperanças nunca antes cogitadas.

Por essas coisas é que foi resolvido que o Grêmio se cognominaria de “imortal”. Imortal, no caso quer dizer que das cinzas do Olímpico e fraldas do contrato original com a OAS ressurge agora um Grêmio prometedor e profundamente alentado.

Fatalmente, não há outro caminho a ser trilhado pelo Grêmio, por esse horizonte aberto pela repactuação, que não seja o do esplendor gremista em futuro próximo, senão quase atual.

Hosanas, Arena! Tu serás o templo de remissão!

* Texto publicado na Zero Hora desta terça-feira, 21/05/13

A sorte de Luxemburgo

20 de maio de 2013 0

Chego à Redação exatamente ao meio-dia de domingo, o tempo está enfarruscado, chove de vez em quando, uma chuvinha rala como a minha esperança.

Já lá se vão cerca de 2,3 mil domingos em que trabalho, dentro das 16 mil colunas que já escrevi em ZH nos últimos 43 anos.

Os dias se sucedem entre empolgantes e maçantes, o importante é que estou vivo e continuo trabalhando e subindo na vida, como uma pirâmide em demanda do infinito.

*

Depois de ler esta coluna, você, leitor ou leitora, terá mais condições de concluir se Luxemburgo fica no Grêmio ou será demitido.

Como já se sabe, a multa que o Grêmio terá de pagar a ele, caso o demita, soma vários milhões de reais.

Aí é que está a coisa: se o Grêmio não o demitir só para evitar de pagar a multa, então estará estabelecido que não o quer mais, mas não o demite só para não lhe pagar a fortuna, até mesmo porque dinheiro no Grêmio é coisa que anda em falta.

Nessa hipótese, muito concreta e que no meu entender é a que acontecerá, teremos um clube que não quer mais seu treinador mas terá de suportá-lo, o que caracterizará os próximos meses como repletos de constrangimento mútuo.

*

O Grêmio teria motivos fundados para demitir Luxemburgo. Ele não ganhou coisa alguma até agora, desclassificou seu time em vários campeonatos.

Além disso, saiu da cabeça do Luxemburgo um dia a ideia infeliz e errática de deixar Fernando no banco e botar um tal de Adriano no time, um absurdo que não se espera de um treinador que não esteja superado.

Três dias depois, a comprovar a estultice de Luxemburgo, Felipão convocou Fernando para a Seleção Brasileira.

Além disso, em decisão estapafúrdia, Luxemburgo decidiu a classificação da Copa do Brasil do ano passado com o Palmeiras, deixando estupidamente Moreno e André Lima, os dois únicos centroavantes que ele tinha, no banco. Perdeu de 2 a 0 como castigo à sua cegueira.

E, para coroar esse rosário de burrices, Luxemburgo levou o time para ficar 10 dias na Colômbia, onde decidiria a classificação com o Santa Fe, e retrancou-se humilhantemente em campo, afirmando com isso a mediocridade espantosa de declarar ao mundo que o Grêmio só buscava um resultado: o 0 a 0. E qualquer criança sabe, desde que foi inventado o futebol, que quem joga para empatar acaba perdendo.

Então, motivos não faltam para demitir Luxemburgo, o que pode faltar é dinheiro para pagar a multa que ele espertamente exigiu que fosse colocada como cláusula do seu contrato.

*Texto publicado na Zero Hora desta segunda-feira, 20/05/2013.

Os insones

18 de maio de 2013 0

De repente, me assalta indagar sobre o que vem a ser a insônia.

Só se apercebem que a insônia é uma doença os que de uma hora para outra, em noites sucessivas, se veem impedidos de conciliar o sono.

Logo lhes ocorre que a insônia deve ser uma súbita supremacia das preocupações contra o sono.

Mas sempre tiveram preocupações e nunca deixaram de dormir, como agora lhes sucede isso?

É preciso dormir para descansar e alimentar os músculos e os ossos, recuperar-se do dia fatigante.

E o sono não vem. Mas como é que antes vinha?

O sono é um dos prazeres da vida. Outro prazer é o paladar. Mas nunca ouvi dizer que alguém tivesse perdido o paladar como se perde o sono.

É possível que a algum desfavorecido da sorte tenha lhe desaparecido o paladar. Reflito, então, que a falta do sono é igual à falta do paladar.

Porque são transcendentais à sobrevivência humana os atos de comer e dormir. Ambos têm a salutar função de alimentar o corpo.

E, se não há notícia de que tenham falhado as glândulas gustativas de alguém, no entanto nos jornais e revistas pululam pessoas se queixando de insônia. E como resolvem suas insônias os que são atacados por elas?

Fatalmente recorrerão aos soníferos, agentes artificiais do sono. Mas não pode uma pessoa tomar um, dois ou mais comprimidos todas as noites antes de dormir, pode criar uma dependência perigosa.

Então, como resolvem a insônia as vítimas dela? E, se há assim tantas vítimas de insônia espalhadas pelo mundo, por certo haverá já setores da medicina ocupados exclusivamente com doentes de insônia.

Raciocino assim, voltando ao que pensei antes, que não são as preocupações que levam à insônia. Acontece o seguinte: não podendo dormir, os insones em sua vigília anormal mergulham nas preocupações.

As pessoas normais vão para a cama absortas em preocupações, nem por isso deixam de dormir, até mesmo para fugir delas.

Os insones é que, impossibilitados de dormir, não têm outra coisa que fazer que não seja preocupar-se.

Não fosse assim, os que têm outras doenças, os endividados, os presidiários, os mal-amados, os gremistas, não dormiriam.

E, no entanto, todos dormem. Só não dormem os insones, embora tenham sono.

Como sei, pelos e-mails que recebo, que muitos leitores meus padecem de insônia, quero daqui enviar-lhes o meu respeito e minha solidariedade.

Pode ser que esta coluna por alguma forma os ajude a dormir nalguma noite.

A bela sozinha

17 de maio de 2013 0

Estou no fumódromo e uma das cadeiras ocupadas o é por uma linda moça, ali pelos 20 anos, no máximo 22. Um portento de senhorita.

Pernas torneadas, cabelo alinhado, pés e mãos com dedos simétricos, deixa antever duas maçãs nos seios que se forem se libertar do sutiã parecerão dois pombos assustados.

Bela senhorita.
Além de tudo, é portadora de uma meiguice encantadora.

Pergunto-lhe de chofre: “Deve ser fácil para você arranjar um namorado?”.

Ela respondeu prontamente: “Tá muito difícil”.

Fico a cismar no que deseja mais a minha curiosidade que não seja perscrutar a alma da forçosa moça.

No entanto, está difícil para ela arranjar um par. Imagino como são idiotas os rapazes que deixam de explorar aquela energia desaproveitada.

Como dizem na rua, o difícil é a relação. Aquela moça por exemplo está prestes a ser conquistada, no apogeu da sua formosura e juventude.

E no entanto não lhe surge o príncipe encantado.

Falta um estalo para aquela moça ou para cada um dos seus prováveis pretendentes.

É só uma questão de encaixe, alguém que adivinhe ou simplesmente constate os seus encantos.

Mas está ali aquela moça abandonada, amor febril para doar, estuante, pronta para a entrega, ou apta para a pronta entrega, e não aparece nenhum imbecil para desfrutá-la.

Como são intrincadas as relações humanas! Como é penoso livrar-se da solidão, mesmo que estejam aptas as pessoas para se entrelaçarem!

Aquela senhorita não pode continuar sozinha. Mas visivelmente há algo nela que a impede de aproximar-se de alguém que a entenda e mostre interesse.

E assoma como transcendental a sua beleza, o seu aspecto frágil de gata esquiva apelando por um adestrador.

Quantos e quantos desperdícios como esse espalhados por aí! Quanta gente à procura de um cais onde atraque seu vulto esplêndido de jovem bela e oferecida à procura de quem a guie pelos caminhos deliciosos do amor!

Mas por que prosperam assim tantas incompletudes? Por que tanta ânsia desatendida, por que tantos fastios desanimados?

Por que é indispensável que a mulher se una ao homem para realizar-se? Por que, enquanto não se dá esse encontro, uma frustração amassante percorre esses seres dilacerados, essas almas abandonadas à procura de um refúgio, de uma realização?

Por quê? Para que serve a semente sem germinação? Mas por que é tão difícil encontrar terra fértil e propícia em que prospere?

O que intriga é que eu não esteja aqui com piedade de uma mulher feia, sem atrativos, indesejável.

O que me deixa estupefato é que estou sentindo compaixão por uma mulher bela e desejante, capaz também pela sua ternura de fazer qualquer homem feliz.

Será a timidez que a impede de relacionar-se? A ofuscante beleza é que não é.

O relógio e o espelho

16 de maio de 2013 0

Até o máximo possível e permitido, nunca se deve dar relógio de presente para crianças. O primeiro passo para a aflição do homem é o relógio. A criança é feliz porque não tem noção das horas, do compromisso, do dever com hora marcada.

Nunca vi em minha vida uma criança acordar-se e ver que horas são. Este é o reflexo imediato de qualquer adulto. Depois do sono reparador, do desligamento da vida, retornamos às nossas preocupações.

O sono é o céu do vazio, do nirvana, o relógio traz-nos de volta ao inferno das obrigações.

***

Consulte seu passado, o tempo mais feliz de sua vida foi aquele em que não usava relógio, indiscutivelmente.

O relógio é o instrumento que mede a vida e dá-nos a consciência da morte, a pior desgraça dos humanos. Os animais são felizes porque não sabem que terão de

pagar o preço da morte. O homem começa a ter noção de que sua vida terá um fim quando põe pela primeira vez um relógio no pulso, ignorando que aquela é a algema que o amarra ao tempo, portanto à finitude.

***

Eu nunca daria de presente um relógio a uma criança. Gostaria que ela permanecesse indiferente e imune aos prazos, solta, que não tivesse nem noção do dia e da noite, apenas fosse dormir e despertasse quando tivesse sono ou dele se saciasse.

Ter hora para dormir, para acordar-se, para trabalhar, para comparecer à audiência ou ao encontro, estas horas fatais todas é que vão destruindo as pessoas e aproximando-as da morte, senão pelo fato, mas pela perspectiva.

***

O paraíso de Adão e Eva dá-se exatamente porque não havia lá um relógio, nem o casal primevo conhecia quem o antecedera, o que significaria a morte.

Os tempos da infância e da juventude são os mais felizes pela inconsciência da morte. Até quando fiz 40 anos, eu pensava que era imortal. E essa é a sensação de todos os jovens.

O jovem sabe que vai morrer, mas está tão distante da morte, que consegue ignorá-la, ela não passa de uma utopia diante da vida estuante que se oferece à sua frente. Tem mais é que pensar na vida, o prazo da morte desaparece em meio à delícia existencial.

***

Não há instante mais crucial da vida que aquele em que o homem se olha no espelho e vê que não é mais aquele. O primeiro inimigo do homem é o relógio, o segundo é o espelho.

Reparem que as crianças nunca se olham no espelho, a não ser quando cobiçam idiotamente tornaremse adultas. Já o adulto olha-se no espelho sempre com um pé atrás, sabendo que seu aspecto só pode retroceder.

O homem que olha para o relógio ou para o espelho está sendo aos poucos aniquilado pela maior adversária do homem, que é a pressa.

Não conheço pessoa madura que não seja escrava prestativa do relógio ou do espelho, instrumentos da sua agonia.

Nunca dê um relógio ou um espelho para uma criança. Ela só é feliz porque estes dois objetos sãolhe absolutamente dispensáveis.

A morte piedosa

15 de maio de 2013 0

Chamou-me a máxima atenção o caso do belga Rom Houben, que todos acreditavam passar por estado vegetativo, em coma que durou 23 anos, mas agora se comunicou com os médicos e declarou que esteve consciente durante esse tempo todo, sem contato nenhum com o mundo externo que não fossem seus ouvidos.

O caso é realmente fantástico.
O cérebro do jovem belga esteve raciocinando durante 23 anos, mas ele não podia cometer qualquer movimento que pudesse acusar seu estado consciente para suscitar providências médicas respectivas.

Acho até que não posso usar esta expressão, mas esse heroico cidadão belga esteve em coma consciente por 23 anos.

Como disse Zero Hora anteontem, Rom foi prisioneiro do próprio corpo por 23 longos anos. Não tinha como sair de si e ter contato com o mundo externo.

Imagine-se o sofrimento
desse homem. Nem sei como não enlouqueceu. Ele ouvia tudo o que diziam em torno de si os médicos e seus familiares, devia munir-se de intensa e crucial agonia, querendo transmitir sua consciência mas não podendo mover nenhuma parte de seu corpo, nem as pálpebras, impotente, desanimado, exangue, inerte, um morto-vivo mergulhado nas trevas do coma.

Foram 23 anos de cativeiro. Sabe-se lá de que mecanismos mentais teve de se valer para manter intactas as faculdades mentais, ele raciocinava como qualquer pessoa.

É impressionante este caso. Esse homem tem de ser entrevistado para que se saiba por que não se lhe desfaleceram as forças e ele resistiu até não deixar de raciocinar nunca.

Se para um paciente recolhido por meses a um hospital, podendo mexer-se e comunicar-se com todos os que entram no quarto, já é um suplício este internamento, imaginem um corpo preso a si próprio durante 23 anos, com o cérebro funcionando, em plena consciência, como há de ter sobrevivido esse homem?

E como seu desespero não virou loucura?

Este caso, se por um lado revela ao mundo que há vidas estuantes atrás dos muros do estado comatoso, há de remeter mais ainda para o debate sobre a eutanásia.

Dirão os humanistas que, enquanto houver vida, ninguém pode extingui-la. Ninguém tem o direito, argumentarão, de interromper uma vida, por mais inútil e sofrida que seja.

E eu não me envergonho de declarar que mais ainda me torno adepto da eutanásia depois de conhecer o caso de Rom Houben, o belga que mergulhou nas trevas do estado comatoso, sem perder a consciência, isto é, em últimas palavras, entregue miseravelmente a um sofrimento atroz e permanente.

Neste caso e em tantos outros, creio firmemente que se aplica a morte piedosa.

A ciência não tem o direito, a meu ver, de prolongar indefinidamente esse gigantesco sofrimento. Quando a um homem que sofre assim tão eloquentemente é negado o direito de pôr fim à sua vida, o ambiente externo tem de assisti-lo e socorrê-lo no caminho da morte.

Por entre as reportagens em torno desse caso, está faltando um só dado: se em meio ao monumental tormento de que foi e é vítima, o belga infeliz pensava em sobreviver ou acalentava o sonho da morte, desejando-a para colocar um fim na sua cruz.

Tenho certeza de que ele sonhava que alguma mão compassiva e inteligente pusesse fim à sua vida.

A vida das abelhas

14 de maio de 2013 0

Um jovem haitiano de 24 anos foi salvo dos escombros depois de permanecer 11 dias em um espaço de apenas um metro quadrado.

Deve ter sido um sofrimento terrível. Ele trabalhava no bar de um hotel, que caiu todo sobre seu corpo.

Completamente coberto pelo pó dos destroços, declarou, ao ser salvo, que sobreviveu comendo pequena quantidade de biscoitos durante os 11 dias, mas principalmente bebendo Coca-Cola.

Sabe-se que o organismo humano sobrevive a dezenas de dias sem alimentos sólidos, mas perece se não tomar líquido.

Calculei que a Coca-Cola que esse homem bebia para sustentar seu metabolismo não era Coca Light nem Coca Zero. Era Coca normal mesmo. Só com muito açúcar, ele pôde manter firme seu esqueleto.

Cismei também sobre a sorte desse rapaz: ele ficou restrito a espaço de apenas um metro quadrado e os refrigerantes que lhe restaram ali não eram dietéticos. Fossem-no e ele teria morrido.

Sobre refrigerantes dietéticos tenho um depoimento que pode alterar a ciência da apicultura.

Estava tomando minha Coca Zero no famoso Miau da Cabral, que serve, ali naquela rua com esquina para Miguel Tostes, deliciosos espetinhos de picanha, queijo, toscana, xixo, calabresa e outros, quando percebi que um bando de abelhas voejava em torno à minha mesa.

Pensei comigo que aquelas abelhas estavam loucas, a Coca-Cola que eu bebia não era normal, não havia açúcar nela.

Então por que estavam sendo atraídas pelo líquido?

Elas foram levitando como helicópteros em direção à lata de Coca-Cola, uma a uma iam pousando no bojo da lata e penetrando pelo furo, desaparecendo no fundo.

Daí que cheguei a uma conclusão laica: o que atrai as abelhas não é o açúcar, mas o doce. O líquido melífluo da Coca Zero é também saboreado pelas abelhas, o que quer dizer que o aspartame ou outro ingrediente das substâncias dietéticas são do interesse proteico das abelhas.

Fiquei intrigado sobre se o mel que aquelas abelhas produzirão depois de terem ingerido Coca Zero será dietético ou não.

E, na minha investigação alienada sobre a origem do mel, cheguei à conclusão de que as flores onde as abelhas vão buscar o néctar para produzir o mel contêm forte quantidade de açúcar.

Nunca reparei quando mastiguei pétalas ou cílios de flores que eles eram doces. Será que o pólen é doce? Vou prová-lo uma hora dessas nas margaridas que tenho na sacada da minha casa.

Fico sabendo à última hora que as abelhas têm cinco olhos, três deles no topo da cabeça e dois olhos compostos, maiores, na frente.

E que uma abelha produz cinco gramas de mel por ano. Para produzir um quilo de mel, as abelhas têm de visitar 5 milhões de flores.

E que só as abelhas fêmeas trabalham, os machos servem apenas para fecundar a abelha rainha. E, se nascerem duas abelhas rainhas, elas entram em luta, até que uma delas morra.

E que, no fim do verão, depois que os machos já tenham fecundado a rainha, as operárias fecham a porta da colmeia e deixam os machos lá fora morrerem de frio e de fome.

A abelha rainha vive durante quatro anos e as operárias apenas 45 dias.

Dizer que eu só fui adquirir esse conhecimento a partir da minha Coca Zero!

O segredo

13 de maio de 2013 0

Tenho particularmente fascínio por um tema: o segredo. Acho até que uma das grandes atrações da vida é poder guardar um segredo. Há diversas nuanças entre os segredos. Vou pinçar agora uma: duas pessoas se amam e mantêm em segredo o seu amor. Ele é curtido silenciosamente entre os dois, as outras pessoas todas que vivem ao derredor  desses dois enamorados desconhecem completamente que eles se amam. Evidentemente que os compromissos e as convenções sociais impelem esses dois namorados secretos a manterem seu segredo.

Se por um lado custa-lhes muito caro manter esse segredo, que caso fosse violado ameaçaria a sobrevivência do amor oculto, por outro é extremamente delicioso para os dois amantes que eles não confiem a ninguém o seu segredo. Os dois comparecem a reuniões, almoços, jantares, festas, ninguém desconfia deles. E eles curtindo saborosamente o seu segredo.

O diabo é que o segredo sempre carrega dentro de si uma culpa, uma vontade de desabafar, um ímpeto de gritar ao mundo que todos deveriam ficar sabendo daquilo, libertar-se assim dos grilhões que amarram o seu segredo. “Ela sabe que eu a amo, eu sei que a amo, isto é o suficiente.”Será mesmo isso suficiente? Quantos e quantos casos de amor inundam o cotidiano, nos quais a marca mais genuína é a confidencialidade? Este segredo em amar é muito frequente em pessoas casadas, que querem manter seus laços conjugais e temem mergulhar nos riscos da aventura extraconjugal ou da separação, se o segredo for violado.

Mais frequente que o segredo guardado a sete chaves por duas pessoas é o segredo que pertence a uma só pessoa. Ela ama, mas ninguém sabe que ela ama, nem mesmo a pessoa que por ela é amada. Parece uma idiotice não noticiar a uma pessoa a quem se ama que ela é assim intensamente amada, mas não é. A vida trata ela mesma de antepor obstáculos vários entre as pessoas que amam. Quando alguém ama e a pessoa amada não tem conhecimento disso, imaginem a tensão, o nervosismo, a intensa emoção da pessoa que ama quando se encontra com a pessoa amada, o seu constrangimento em não revelar por nenhum gesto ou palavra o seu segredo!

Sempre, o detentor de qualquer segredo é um prisioneiro dele. Ele não vai dormir por sequer qualquer noite sem preocupar-se com seu segredo. E muitas vezes aquele segredo amassa tanto seu detentor, que ele não resiste e acaba rompendo o segredo. Se por um lado arrastará todas as consequências da violação do seu sigilo, por outro quem conta um segredo saboreia a deliciosa sensação de liberdade, tirou de cima do seu corpo aquele fardo pesado e insuportável. Pronto, não existe mais o segredo. Mas de que irá viver daqui para a frente quem não tem mais um segredo sob sua guarda? O violador do segredo mergulha num escuro abismo de vazio.

*Texto publicado em 25/11/2010.

Beber no bico

12 de maio de 2013 0

Eu ia dizer que tenho um vício, além do cigarro, qual seja o de tomar refrigerantes.

Bebo cerca de 10 refrigerantes por dia. Não é vício porque, ao contrário do cigarro, não me faz mal.

Mas essa disposição duradoura que tenho para repetir com frequência o ato de beber refrigerante se incorporou de tal forma à minha conduta, que levanto pela manhã e já está martelando em meu cérebro a vontade de tomar um refrigerante.

Ainda mais constante se torna esse hábito porque os fabricantes de refrigerante tiveram a ideia de nos proporcionar um líquido doce como o mel, que no entanto não contém açúcar.

Essa ânsia louca que tenho por ingerir açúcar, ou melhor, por saborear açúcar, é aplacada em seus efeitos devastadores pelos refrigerantes diet.

Se inventassem esse mesmo simulacro para o cigarro, eu estaria feito na vida, imaginem um cigarro sem nicotina e alcatrão que tivesse o mesmo gosto que este cigarro que fumo! Seria uma grande invenção.

Por isso é que avalio que o refrigerante doce sem açúcar é uma das maiores invenções da humanidade.

O que ninguém me explica é como, não sendo um vício, o refrigerante no entanto vicia.

Um hábito que vicia. Vou lhe dizer uma coisa, não vivo sem refrigerante, não como sem refrigerante. E, quando não como, no entanto estou tomando sempre um refrigerante.

O monumental volume de refrigerantes que é vendido me dá conta de que sou apenas um dos tantos milhões de viciados em refrigerantes.

Por sinal, esses dias li em Zero Hora que o Rio Grande do Sul é o Estado em que mais se bebe refrigerante no Brasil.

Que mania de beber o gaúcho tem, desde o chimarrão até a cachaça, agora também o refrigerante, o gaúcho está sempre bebendo.

Gasto tanto de gasolina e de cigarros quanto gasto de refrigerantes. Sou um grande pagador de impostos.

Agora que extinguiram a Coca Light, entrei em confusão. Ela era a minha preferida e, embora eu esteja na fase de indecisão quanto ao refrigerante que a sucederá na minha preferência, continuo bebendo a mesma quantidade: cerca de 10 por dia.

Bem geladinhos.

Como é doce este Sprite! E como é deliciosa esta Guaraná Antarctica Diet. E não existe diferença nenhuma entre a Coca-Cola normal e a Coca Zero, nenhuma.

As pessoas que tomam a Coca-Cola normal desconhecem que a Coca-Cola Zero é igual. Bastaria para elas, se não quisessem engordar, ficar tomando a Coca-Cola Zero durante 15 dias e se fixariam nela, não notariam a diferença.

Mas agora inventaram a H2O e a Aquarius, interessantes derivativos, com muitos consumidores. Já bebi. Gostei. Mas é que são embaladas em plástico e aí não calham como minha praia.

Por sinal, até contra a lata dos refrigerantes eu tenho preconceito: o bom mesmo dos refrigerantes é quando todos vinham nas garrafas.

Não existia maneira mais gostosa e eficaz de matar a sede do que beber refrigerante no bico.

Que saudade do bico!