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A inveja provinciana

08 de junho de 2013 0

Volto à coluna depois de um dia de descanso. E volto para afirmar peremptoriamente que é fácil admirar e elogiar quem não mora em nossa cidade.

Negamos calhordamente elogios a quem está próximo de nós, imaginando que competimos com ele.

Por isso é que se diz que santo de casa não faz milagre.

Esse fenômeno explica por que Elis Regina foi sempre menos apreciada no Rio Grande do Sul do que no resto do Brasil.

E também por que chegamos à audácia de afirmar uma bobagem estupenda: a de que Ronaldinho Gaúcho está jogando muito mais no Barcelona do que jogava no Grêmio. Quem não viu que o Ronaldinho Gaúcho que jogava no Grêmio era já naquele tempo o melhor jogador do mundo é cego. Repito, cego.

Como cegos e insensíveis eram todos os porto-alegrenses que cruzavam nas ruas aqui da Capital com Lupicínio Rodrigues e não sabiam que eram vizinhos ou conterrâneos de um gênio.

Lupicínio Rodrigues e Elis Regina foram se consagrar no Rio de Janeiro e São Paulo, aqui na sua terra não arranjavam nem para a pipoca.

Pelo mesmo fenômeno de rejeição pela proximidade é que Vincent van Gogh nunca teve o reconhecimento na Holanda, só foi usufruir algum destaque, assim mesmo social, porque foi fracassado na iniciativa comercial (só vendeu um quadro durante toda a sua vida), quando se mudou para Paris e andou vagando por Londres.

Foi tão grande a abjeção à arte de Van Gogh em seu meio social original que ele se desiludiu e foi estudar teologia, tornando-se temporariamente pastor.

É bem verdade que tanto Van Gogh quanto Lupicínio e Elis tinham sobre a cabeça a maldição de terem nascido na província.

Mas é exatamente isso que determina a inveja: ela é caracteristicamente provinciana, nasce nos corações dos homens pequenos e insignificantes.

É que na província todos os seus habitantes fazem um pacto entre si, ali ninguém será notável, todos têm de ser medíocres, ai de quem tentar se destacar entre eles: sofrerá desprezo e lhe serão negados selvagemente todos os elogios.

Entre os medíocres, fora da inveja não há salvação. Os medíocres só são notados quando invejam. E sempre invejam numa associação. Sozinhos, sua inveja não tem nenhuma eficácia.

O único invejoso solitário que se conhece foi Salieri, o medíocre que tentou disputar beleza com Mozart.

Mozart acabou célebre pelo seu gênio. E acho que foi muito bom que o mundo da música tivesse celebrado Salieri pela sua inveja.

Eu até me atreveria a dizer que o compositor Salieri foi um gênio da inveja, na música era um reles.

Os invejosos mereciam todos virar estátua. A única maneira que eles encontram para tentar rivalizar com os invejados é a inveja.

Os invejosos se reúnem em assembléia espúria e saem na calada da noite para incendiar as raras casas onde possa ter nascido ou ter morado um gênio.

Herodes mandou matar todas as crianças recém-nascidas de seu reino porque pensava que entre elas havia uma que haveria de sucederlhe em vida.

São assim todos os Herodes e Salieris da vida, eles não se conformam em serem segundos e tentam matar os primeiros.

Desconhecem que o reconhecimento póstero de seus invejados se dará exatamente porque foram objetos daquela inveja.

Não há ninguém que tenha êxito que não tenha sido invejado.

E não há nenhum invejoso que não tenha sido arremessado ao seu mórbido mister pelo fracasso.

*Publicado em 17/11/2005

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