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Casas separadas

09 de junho de 2013 0

Cena 1

O marido chega em casa esfuziante e fala para a mulher: “Querida, comprei um apartamento!”

A mulher responde entusiasmada: “Que ótimo para nós, meu amor!”

O marido: “Tens razão, será ótimo para nós, exatamente porque irás morar nele sozinha”.

A mulher, perplexa: “Como?”

O marido: “Resolvi seguir o conselho do Paulo Sant’Ana, a melhor maneira de perenizar um casamento é o casal morar em casas separadas”.

A mulher: “Tu estás me dizendo que vais continuar morando aqui neste inferno do nosso atual apartamento?”

O marido: “Quando te mudares para o outro apartamento, este aqui vai se transformar no mesmo dia num paraíso. Da mesma forma, como vais morar sozinha no outro apartamento, lá será outro paraíso”.

Cena 2

O mesmo marido e a mesma mulher. O marido retorna à iniciativa: “Querida, quero te informar que o apartamento que comprei para ti é um JK”.

A mulher: “Mas como? Se este apartamento onde moramos hoje já é pequeno para nós, como vais me enfiar agora numa quitinete. Isto é desumano”.

O marido: “Enganas-te redondamente: sem mim, o teu JK será para ti um salão de festas. Esqueces que o espaço que ocupo junto à tua vida é gigantesco, eu vivo grudado na tua pele durante todo o nosso cotidiano, tu podes até não perceber, mas tolho todos os teus movimentos e te privo completamente de tua liberdade de dia e de noite, perpetuamente. Vais ver que tua quitinete, sem mim, se tornará para ti numa imensa planície arquitetônica, terás de comprar uma moto para tripulá-la dentro de teu JK, vais ver que teu novo apartamento será de uma amplidão melíflua, um lugar sem limites territoriais, sentimentais e sexuais. Terás a liberdade tão sonhada por todo e qualquer ser humano, poderás convidar todos os dias para visitar-te a quem bem entenderes, não será como este apartamento em que moramos hoje, quando em realidade tu topas todos os dias, sem qualquer falha, somente comigo, teu colossal obstáculo. Lá no teu novo lar tu poderás escolher entre assistires, por teus convites e escolhas, o desfile da raça humana. Ou então, o que é também recompensador, poderás te recolher a uma deliciosa solidão, sensação maravilhosa que nunca conseguiste aqui: repito que tenho sido para ti o que tens sido para mim, me tiras da solidão sem me fazer companhia e eu, por outro lado, te privo da minha companhia por não te tirar da solidão. Foi a idéia mais genial que tive em minha vida, ou melhor, foi a idéia mais genial do Paulo Sant’Ana, a quem eu estou imitando vergonhosa e sublimemente. Vai, querida! Vai em busca da felicidade, ao mesmo tempo em que me retribuirás com a bemaventurança!”

E a mulher, finalizando: “Pensando bem, concordo. Mas logicamente tu terás de pagar a taxa de condomínio do meu JK”. E o marido: “Vejo que vais mudar de apartamento mas não mudarás nunca de mentalidade. Vou telefonar agora mesmo para a imobiliária e desfazer o negócio. Foi só um sonho. Prefiro pagar só uma taxa de condomínio, a deste nosso atual apartamento, à felicidade perpétua. Nunca o nosso permanente infortúnio vai custar tão pouco: a reles economia de R$ 100 mensais”.

(Crônica publicada em 30/12/2005)

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