Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Sant'Ana Digital

05 de outubro de 2013 1

ArteBlogantigo

O brutal preconceito

27 de junho de 2013 0

Eu completei 28 anos de jornalismo. Nestes anos todos, tive somente três causas obsessivas: o abrandamento da discriminação contra os negros, a atenuação da política que barra nas empresas privadas o ingresso de empregados com mais de 40 anos e a humanização dos presídios.

Mesmo quando eu era exclusivamente cronista esportivo, defendia estas três causas com entusiasmo nos meus comentários, embora minha posição tivesse sido sempre isolada e sem repercussão.

Desta forma, eu só posso saudar a notícia que ontem vi estampada em Zero Hora: a prefeitura de Porto Alegre inicia esta semana a negociação de um acordo com a rede Zaffari em torno da construção de um novo hipermercado no bairro Tristeza, Zona Sul.

Segundo o noticiário, uma cláusula inédita e polêmica será inserida no acordo: ficará estabelecida uma cota racial, ou seja, a garantia de que pelo menos 5% dos empregados do hipermercado sejam negros ou pardos ( mestiços).

Além disso, o hipermercado garantirá também que pelo menos 10% dos seus funcionários serão recrutados entre pessoas de mais de 30 anos.

Mas como é que eu não vou saudar a primeira medida que vi qualquer entidade ou governo tomar nestes meus 28 anos de jornalismo a favor de duas modestas mas nobres bandeiras deste colunista, contra a violência surda do preconceito que não admite negros nem pessoas de idade avançada nos postos de trabalho exeqüíveis na iniciativa privada? Podem classificar de exótica ou de demagógica a medida.

Podem os racionalistas pregarem que não é com esses paliativos duvidosos que se vai pôr fim às discriminações.

No meu singelo posto de observador da temperatura social do meu país e do meu meio, sou obrigado a encarar a iniciativa como luminosa.

Porque nestes meus 28 anos de jornalismo nunca vi qualquer legislador, qualquer governante, qualquer entidade privada mexer uma palha para exorcizar da superfície social brasileira estes dois cancros malignos da discriminação racial e etária, que infelicita as suas vítimas silenciosamente, sem que nenhuma ação concreta os debele.

Só eu conheço as cartas ou depoimentos pessoais comoventes dessas pessoas que vagam como sombras macabras atrás de uma vaga de trabalho, mortas em vida, sem esperança, condenadas ao mais completo vazio existencial pela miséria. Tudo porque não são jovens ou brancos.  As mulheres negras sendo recusadas como balconistas de lojas, recepcionistas etc.  Os homens negros sendo subjugados apenas às tarefas mais rudes e insalubres.

E, como os automóveis, as pessoas de idade mais avançada são jogadas ao submercado do desprezo ou do preço vil pelo seu trabalho: o mercado dos automóveis usados, o mercado sem horizonte dos homens e das mulheres usados.

Sei que não vai ser um acordo entre uma prefeitura e uma rede de supermercados que vai solucionar este problema. Mas sei que a iniciativa foi tomada por pressão das entidades comunitárias que sentem na carne os dois preconceitos.

Desde que percebi que se pregará sempre no deserto contra o preconceito racial e etário, intuí que a única forma de viabilizar a luta em favor dos discriminados é o estabelecimento de leis de cotas, a exemplo dos Estados Unidos: tanto por cento das vagas nas universidades, nos cargos públicos, nos cargos privados serão destinados aos negros e aos pobres, tanto por cento das vagas de trabalho serão destinados às pessoas que não são mais jovens. Por lei. Só a lei pode derrubar o preconceito.

Essa consciência precisa ser ativada, até que se ponha fim a esta chacina social.  Até que a lei instrumentalize a coerção.  De outra forma, conviveremos com esse preconceito até o fim dos tempos, porque tudo que se quiser fazer contra ele será classificado de romântico ou demagógico.

Por isso é que saúdo esta negociação entre a prefeitura de Porto Alegre e o Zaffari.
É um clarão de luz sobre este hipócrita oceano de sombras. É um início, uma semente de libertação dos excluídos, que pode durar um século para que se realize, mas um dia há de se realizar.

Mas eu não vou deixar que passe este século em que nasci e vivi com a mancha sobre a minha consciência de que não bradei contra esta brutal e imensa injustiça enraizada e institucionalizada, acobertada pela ignorância, pelo fingimento, pela insensibilidade ou pela indiferença.

* Texto publicado em 29.12.2002.

O pecado da gula

25 de junho de 2013 0

Já repararam os leitores que as propagandas de alimentos com alto teor de gordura, açúcar e sal são exibidas mais intensamente na televisão perto do almoço e durante a tarde?

Por quê? Exatamente porque esse tipo de propaganda visa a atingir as crianças, altamente vulneráveis a esses tipos de anúncios. E as crianças costumam ver televisão nos horários diurnos, quando são exibidos desenhos animados e outras atrações para o público infantil.

Vai daí que os índices de diabetes e doenças do coração já se vêem incentivados desde a infância pela propaganda de alimentos gordurosos.

É grande a incidência de obesidade entre as crianças e os adolescentes. E não pode um fato exercer pior influência psicológica numa criança ou num adolescente que elas se tornarem obesas.

Além da desconstituição de sua auto-estima, as crianças e jovens gordos sofrem a troça dos seus colegas e amigos, sofrendo muito com essa pressão.

Por isso é que o Ministério da Saúde está lançando uma ofensiva para regulamentar a propaganda de alimentos com açúcar, sal e gorduras na televisão, licenciando a sua veiculação apenas para após as 21h, horário em que as crianças assistem menos televisão.

A propaganda de fast-food, guloseimas e sorvete, biscoitos, bolos e doces, refrigerantes e sucos artificiais constitui-se em 72% dos anúncios de alimentos veiculados na televisão.

Quase sempre esses anúncios são associados a personagens de programas assistidos pelas crianças, inclusive em desenhos animados que anunciam alimentos sedutores do público infantil.

Diz o Ministério da Saúde que não é uma questão de cercear a liberdade de expressão, mas sim de regular uma prática publicitária de mercado.

Uma das coordenadoras da pesquisa sobre esse tipo de propaganda, Elisabeta Racine, propõe que quem tem até 12 anos não consegue discernir entre o que é desenho animado e o que é propaganda de um produto apresentado por um personagem desses. “A criança”, diz ela, “não tem esse filtro. A televisão é chave na formação de hábitos dos pequenos, por isso é preciso controlar a propaganda de alimentos, sim”.

Assim como a propaganda de cigarro na televisão é obrigada a acrescentar aviso sobre os males de saúde que encerra o tabagismo, o Ministério da Saúde quer que, em anúncio de alimento com altas taxas de açúcar, tenha de ser exibida mensagem de que há risco de o consumidor desenvolver obesidade e cárie dentária.

E no caso de anúncio com alimentos que contenham muito sal, um aviso de que pode causar problemas de pressão alta e doenças do coração.

É mais uma das brigas a que se atira o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Ele já comprou encrenca com o cigarro e as cervejas, envolvendo até atrito com o cantor Zeca Pagodinho.

Ele tem a idéia fixa de que a sedução que certos produtos exercem sobre os consumidores, quando são pregados por anúncios bem elaborados pela arte publicitária, tromba muitas vezes com a saúde pública.

Realmente, não só em crianças, como também em adultos, certas delícias nos chamam para devorá-las ou bebê-las quando expostas em colorido musical da televisão.

Dá vontade de a gente beber e comer o que está sendo anunciado.

E, como tudo que é bom, cigarro, bebida, em suma, todos os prazeres são nocivos à saúde, agora chegou a hora dos alimentos.

Não é por outro motivo que um dos sete pecados capitais é a gula.

* Texto publicado dia 28/06/2008

A roupa e a nudez

21 de junho de 2013 0

Quais terão sido os primeiros impulsos humanos? Depois que os bebês choraram, única prática humana sem aprendizado, foram ensinados a se alimentar, a engatinhar, a falar e a caminhar. Então a criança defrontou-se com seu corpo e sentiu pudor, também ensinado. Tratou aí de encobrir seu corpo, uma maneira de não entregar-se totalmente aos outros, a castidade é uma forma de poupança, ela será entregue como um tesouro para quem a merecer, devem ter pensado as virgens virtuosas.

Assim os homens (e as mulheres) decidiram desde cedo que encobririam seus corpos, alguns com vegetais, cordas, madeiras, os guerreiros com metais. Mas convencionou-se finalmente que a nudez seria coberta por roupas. E as roupas acabaram por valorizar a nudez.

Em alguns países muçulmanos, a nudez é ainda mais valorizada porque as mulheres são obrigadas a cobrirem-se da cabeça aos pés. Talvez, assim, lá a lascívia e a concupiscência mais incendeiem a imaginação masculina: é que o desejo é ainda mais ardente quando não se conhece o objeto desejado.

Já nós, ocidentais, fomos aos poucos expondo nossos corpos num processo milenar. As luvas deram lugar aos anéis, os sapatos às sandálias, as calças às bermudas, as saias às minissaias e aos shorts. E, no campo feminino principalmente, até os talhes foram brindados com os decotes, tudo em função da sedução. As roupas, que tinham o pretexto do agasalho, foram assumindo a função exponencial de atrair o sexo oposto, de mãos dadas com a vaidade.

No sentido contrário do chador árabe, as roupas ocidentais partiram para a atração explícita, em vez do segredo muçulmano de vestimentas que deixavam o corpo blindado a sete chaves, abriram-se para os olhares alheios. Os corpos inteiros encobertos pelo vestuário foram dando aos poucos lugar às roupas sumárias, só deixando indescobertas as partes pudendas, a atração primal, embora os seios já tenham desabrochado para um processo de total exposição.

No meio dessa evolução surgiram tanto as roupas transparentes quanto as justas no corpo, as que melhor e sedutoramente configuram as verdadeiras formas corporais. De tal sorte a moda se incorporou à civilização que certa vez uma mulher célebre declarou que quando se mostrava bem-vestida isso lhe dava uma tal tranquilidade interior que nem a religião podia lhe transmitir.

De tal sorte o vestuário se transformou de obstáculo em cúmplice da nudez que se consagraram no mundo inteiro as lojas de lingerie. Com a lingerie, a arte e a ciência encontraram um meio de a mulher tornar-se mais sedutora com aquela roupa leve e suave do que se estivesse nua. É o homem substituindo o criador, a técnica do design superando a natureza.

* Texto publicado em 19/02/2006:

Meu sonho. Ou esperança

18 de junho de 2013 0

Passo ocasionalmente por um cinema e me chama a atenção o nome de um filme: Coisas que Você Pode Dizer só de Olhar para Ela.

Fico encantado com o título do filme.

Quem nunca se queda assim extasiado toda vez que se depara ante um homem ou uma mulher especiais? Eu, por exemplo, sinto-me investido de uma sensação térmica de 60ºC quando estou falando com ela no bar.

É um calorão por todo o meu corpo, quase me ponho dormente, domina-me uma lassidão febril, ao mesmo tempo que se excita a minha imaginação a ponto de crêla meu Éden, a minha única salvação, a última e definitiva enseada em que se amainará a tempestade.

Olha ela ali se aproximando! Não me viu? Ou finge, para se valorizar?

Aquela outra vez, realmente não me percebe, mas meus olhos de predador a perseguem devotadamente.

Vendo-a por apenas um instante, já me enche o dia.

Esquecendo-a por apenas um momento, sinto que desperdiço toda a vida.

Sua voz me soa a cântico de pássaro em bando folgazão.

Seu sorriso se abre para mim como uma corola de açucena.

Com quem ela se encontra quando não a tenho próxima?

Será que é tão terna também com os outros?

Aquela frase que me insinuou é uma sua constante em todos os seus circunlóquios?

Quando sem propósito me toca, ali onde me toca, minha pele fica coberta de um pólen de excitação e de ternura que se gruda à epiderme por vários dias.

Dissimuladamente, cruzo por onde ela passa, torcendo por um seu olhar, por uma palavra, ah, se ela demonstrasse contentamento em me ver!

Quando se ausenta por alguns dias, estou me asfixiando.

Quando volta, sinto falta de ar.

Quando me ignora, o dia todo é depressivo.

Quando me nota, sinto-me eterno.

Quando me zomba, decaio.

Quando me acaricia, estremeço.

Quando sei que vou vê-la, entonteço nos deveres.

Quando não a vejo, sinto que não me diferencio de um crustáceo.

Ela é o meu sol, a minha essência, meu horizonte, meu sopro de brisa, minha pétala, minha água de coco, meu samba de raiz, minha filha e minha mãe, meu ideal e minha utopia.

Meu sonho!

Ou minha esperança.

E pior – ou melhor – é que ela não sabe nada disso tudo.

(Crônica publicada em 29/07/2001)

Infância feliz de hoje

17 de junho de 2013 0

Entende-se de baixo nível a televisão brasileira, mas desconhece-se a função primordial de lazer que ela encerra para as multidões brasileiras.

Eu me lembro de que, na infância, há 50 anos, a única diversão que eu tinha era anunciada: a matinê de domingo no Cinema Brasil, Avenida Bento Gonçalves, ou no Cinema Miramar, na Aparício Borges.

Eu ficava a contar os tostões durante toda a semana, na esperança de que eles pudessem bastar para comprar a entrada da matinê de domingo. Era um dia só de diversão, uma data marcada, uma solenidade para o espírito, a única grande atração da arrastada existência infantil daquele tempo.

E lá ia eu para ver o Gunga Din, Sansão e Dalila, com Hedy Lamarr e Victor Mature, todos os filmes de Robin Hood, os seriados completos ou parte deles, Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, o sonho de criança embalado uma vez por semana, apenas uma tarde, o resto era estudo ou trabalho.

À noite, nós, crianças, íamos dormir cedo, logo depois da janta. O rádio era odiosamente privativo dos nossos pais, que o colocavam na cabeceira da cama de casal do quarto e ficavam até tarde a ouvir as novelas ou os programas de auditório. Se por vezes algum programa nos interessava, tínhamos que ir de pé em pé até a porta do quarto dos pais e espreitar na escuta clandestina.

Hoje, quando vejo as crianças de posse do seu televisor no quarto, ou até mesmo dividindo com os pais o aparelho da sala, os mais bem dotados com seu computador particular, noto que nem imaginam como são felizes em comparação com a nossa infância oprimida e sem acesso à cultura e ao divertimento.

As crianças de antigamente viviam na escuridão, escravizadas na relação tímida com as outras na escola ou nos folguedos das ruas, sem a visão universal da realidade que a televisão hoje lhes empresta, tornando-as desde cedo intelectualmente mais ágeis, na verdade mais preparadas para a vida, sem a prisão dos tabus, sem medo do sexo, sem segredos, mas principalmente mais divertidas e prazerosas, curtindo a existência em todos os momentos do dia.

Se as crianças de hoje soubessem como foi triste e monótona a vida de seus avós e ancestrais, se apiedariam deles e ao mesmo tempo agradeceriam aos céus a vida venturosa que têm, incomparavelmente mais atraente e mais vasta, melhor curtida, mais intensamente vivida, justamente no período mais fértil da formação do espírito e da inteligência.

Não tenho dúvida de que o passado apenas serviu para emburrecer as gerações, em comparação com a civilização atual. Uma criança de hoje, na média, seria considerada gênio perto de uma criança de antigamente. E a diferença é a alegria do conhecimento que a criança de hoje desfruta, enquanto as crianças de outrora eram condenadas a só o acessarem nos burocráticos e frios bancos escolares.

Este é o mais importante lado do progresso, que nos passa despercebido. Se o homem mergulha hoje na depressão e no estresse muito mais do que antigamente, é também porque se verifica um choque entre a sua infância bem nutrida de conhecimento e lazer e a dura realidade da vida de adulto, que tem de dar duro para subsistir.

Enquanto antigamente as crianças se libertavam do seu período de sombras da infância quando se tornavam adultos, hoje se verifica o contrário. O trabalho, que antes era o céu para o homem que se livrava das cavernas da infância, hoje, até mesmo pela incerteza do desemprego ou dos salários insuficientes, é a grande decepção dos adultos que viveram um tempo de deliciosas aventuras pelo terreno de sonho da infância descompromissada diante da televisão.

(Crônica publicada em 12 de abril de 1999)

Peça demissão, Luxa!

15 de junho de 2013 0

A julgar pelos últimos acontecimentos, não resta mais dúvida de que o treinador Vanderlei Luxemburgo pretende que o Grêmio o demita e com isso ele receba a multa contratual milionária a que terá direito.

Só pode ser isso. De onde Luxemburgo tirou Welliton para pôr no lugar de Elano no jogo contra o São Paulo? De onde ele sacou essa ferida?

***

O que acrescentou o Welliton inventado por Luxemburgo? Nada, absolutamente nada.

Saiba o Luxemburgo que foi a primeira vez na história de 110 anos do Grêmio que um treinador foi vaiado e chamado de burro pela torcida antes de um jogo, exatamente quando soube que Elano não jogaria e em seu lugar atuaria o caricato Welliton. Pois a torcida tinha conhecimento de que Welliton não joga nada.

O que já disse outro dia repito agora: Luxemburgo parece estar superado. O sujeito, pra inventar aquela escalação exótica antes de um jogo decisivo, só pode estar lunático. Nem treinou o Welliton no time, o inventor ilusionista Luxemburgo. Inventou esse absurdo cinco minutos antes da partida.

***

Ou, então, está desafiando o clube a indenizá-lo, demitindo-o. Por sinal, no Atlético Mineiro já aconteceu isso. Luxemburgo treinava o Galo e começou a cometer desatinos, pretendendo que o clube o demitisse e assim embolsaria, como agora no Grêmio, milionária indenização.

Mas a diretoria do Atlético optou por queda de braço com Luxemburgo, que mais tarde pediu demissão. Pois apelo a Luxemburgo, como o Grêmio não tem dinheiro para pagar-lhe a multa de demissão, que faça o mesmo que fez no Galo. Ele próprio peça demissão.

***

Inventar o Welliton foi um desaforo que Luxemburgo fez para a torcida, para os comentaristas e para o Grêmio. Ninguém entendeu. Logo, os comentaristas criticaram, minutos antes do jogo, e a torcida passou a vaiar, antes de a bola rolar, o treinador por sua invencionice.

***

Saiba, o inventor Luxemburgo, que os gremistas não o querem mais no Grêmio. O Grêmio só não o põe no olho da rua porque não tem dinheiro para indenizá-lo. Mas com o Welliton iniciando o jogo foi demais, ninguém aguenta, fica insuportável. Vá inventar assim no ABC de Natal. No Grêmio, não, seu Luxemburgo, que aqui ninguém é trouxa.

***

Se fosse só uma invenção, não era nada. Mas é o mesmo Luxemburgo que colocou quatro reservas no primeiro jogo do Brasileirão do ano passado, contra o Vasco, o que nos custou o título.

É o mesmo Luxemburgo que deixou no banco Moreno e André Lima, os dois únicos centroavantes que possuía, na decisão da Copa do Brasil contra o Palmeiras, pelo que fomos tragicamente desclassificados.

E é o mesmo Luxemburgo que inventou na Libertadores Adriano com Fernando no banco, pelo que fomos novamente desclassificados.

É muita invencionice, o homem está superado.

Pois, então, que peça ele mesmo sua demissão esta semana.

Para o bem do Grêmio.

* Texto publicado na Zero Hora deste sábado, 15/06/2013.

Casas separadas

09 de junho de 2013 0

Cena 1

O marido chega em casa esfuziante e fala para a mulher: “Querida, comprei um apartamento!”

A mulher responde entusiasmada: “Que ótimo para nós, meu amor!”

O marido: “Tens razão, será ótimo para nós, exatamente porque irás morar nele sozinha”.

A mulher, perplexa: “Como?”

O marido: “Resolvi seguir o conselho do Paulo Sant’Ana, a melhor maneira de perenizar um casamento é o casal morar em casas separadas”.

A mulher: “Tu estás me dizendo que vais continuar morando aqui neste inferno do nosso atual apartamento?”

O marido: “Quando te mudares para o outro apartamento, este aqui vai se transformar no mesmo dia num paraíso. Da mesma forma, como vais morar sozinha no outro apartamento, lá será outro paraíso”.

Cena 2

O mesmo marido e a mesma mulher. O marido retorna à iniciativa: “Querida, quero te informar que o apartamento que comprei para ti é um JK”.

A mulher: “Mas como? Se este apartamento onde moramos hoje já é pequeno para nós, como vais me enfiar agora numa quitinete. Isto é desumano”.

O marido: “Enganas-te redondamente: sem mim, o teu JK será para ti um salão de festas. Esqueces que o espaço que ocupo junto à tua vida é gigantesco, eu vivo grudado na tua pele durante todo o nosso cotidiano, tu podes até não perceber, mas tolho todos os teus movimentos e te privo completamente de tua liberdade de dia e de noite, perpetuamente. Vais ver que tua quitinete, sem mim, se tornará para ti numa imensa planície arquitetônica, terás de comprar uma moto para tripulá-la dentro de teu JK, vais ver que teu novo apartamento será de uma amplidão melíflua, um lugar sem limites territoriais, sentimentais e sexuais. Terás a liberdade tão sonhada por todo e qualquer ser humano, poderás convidar todos os dias para visitar-te a quem bem entenderes, não será como este apartamento em que moramos hoje, quando em realidade tu topas todos os dias, sem qualquer falha, somente comigo, teu colossal obstáculo. Lá no teu novo lar tu poderás escolher entre assistires, por teus convites e escolhas, o desfile da raça humana. Ou então, o que é também recompensador, poderás te recolher a uma deliciosa solidão, sensação maravilhosa que nunca conseguiste aqui: repito que tenho sido para ti o que tens sido para mim, me tiras da solidão sem me fazer companhia e eu, por outro lado, te privo da minha companhia por não te tirar da solidão. Foi a idéia mais genial que tive em minha vida, ou melhor, foi a idéia mais genial do Paulo Sant’Ana, a quem eu estou imitando vergonhosa e sublimemente. Vai, querida! Vai em busca da felicidade, ao mesmo tempo em que me retribuirás com a bemaventurança!”

E a mulher, finalizando: “Pensando bem, concordo. Mas logicamente tu terás de pagar a taxa de condomínio do meu JK”. E o marido: “Vejo que vais mudar de apartamento mas não mudarás nunca de mentalidade. Vou telefonar agora mesmo para a imobiliária e desfazer o negócio. Foi só um sonho. Prefiro pagar só uma taxa de condomínio, a deste nosso atual apartamento, à felicidade perpétua. Nunca o nosso permanente infortúnio vai custar tão pouco: a reles economia de R$ 100 mensais”.

(Crônica publicada em 30/12/2005)

A inveja provinciana

08 de junho de 2013 0

Volto à coluna depois de um dia de descanso. E volto para afirmar peremptoriamente que é fácil admirar e elogiar quem não mora em nossa cidade.

Negamos calhordamente elogios a quem está próximo de nós, imaginando que competimos com ele.

Por isso é que se diz que santo de casa não faz milagre.

Esse fenômeno explica por que Elis Regina foi sempre menos apreciada no Rio Grande do Sul do que no resto do Brasil.

E também por que chegamos à audácia de afirmar uma bobagem estupenda: a de que Ronaldinho Gaúcho está jogando muito mais no Barcelona do que jogava no Grêmio. Quem não viu que o Ronaldinho Gaúcho que jogava no Grêmio era já naquele tempo o melhor jogador do mundo é cego. Repito, cego.

Como cegos e insensíveis eram todos os porto-alegrenses que cruzavam nas ruas aqui da Capital com Lupicínio Rodrigues e não sabiam que eram vizinhos ou conterrâneos de um gênio.

Lupicínio Rodrigues e Elis Regina foram se consagrar no Rio de Janeiro e São Paulo, aqui na sua terra não arranjavam nem para a pipoca.

Pelo mesmo fenômeno de rejeição pela proximidade é que Vincent van Gogh nunca teve o reconhecimento na Holanda, só foi usufruir algum destaque, assim mesmo social, porque foi fracassado na iniciativa comercial (só vendeu um quadro durante toda a sua vida), quando se mudou para Paris e andou vagando por Londres.

Foi tão grande a abjeção à arte de Van Gogh em seu meio social original que ele se desiludiu e foi estudar teologia, tornando-se temporariamente pastor.

É bem verdade que tanto Van Gogh quanto Lupicínio e Elis tinham sobre a cabeça a maldição de terem nascido na província.

Mas é exatamente isso que determina a inveja: ela é caracteristicamente provinciana, nasce nos corações dos homens pequenos e insignificantes.

É que na província todos os seus habitantes fazem um pacto entre si, ali ninguém será notável, todos têm de ser medíocres, ai de quem tentar se destacar entre eles: sofrerá desprezo e lhe serão negados selvagemente todos os elogios.

Entre os medíocres, fora da inveja não há salvação. Os medíocres só são notados quando invejam. E sempre invejam numa associação. Sozinhos, sua inveja não tem nenhuma eficácia.

O único invejoso solitário que se conhece foi Salieri, o medíocre que tentou disputar beleza com Mozart.

Mozart acabou célebre pelo seu gênio. E acho que foi muito bom que o mundo da música tivesse celebrado Salieri pela sua inveja.

Eu até me atreveria a dizer que o compositor Salieri foi um gênio da inveja, na música era um reles.

Os invejosos mereciam todos virar estátua. A única maneira que eles encontram para tentar rivalizar com os invejados é a inveja.

Os invejosos se reúnem em assembléia espúria e saem na calada da noite para incendiar as raras casas onde possa ter nascido ou ter morado um gênio.

Herodes mandou matar todas as crianças recém-nascidas de seu reino porque pensava que entre elas havia uma que haveria de sucederlhe em vida.

São assim todos os Herodes e Salieris da vida, eles não se conformam em serem segundos e tentam matar os primeiros.

Desconhecem que o reconhecimento póstero de seus invejados se dará exatamente porque foram objetos daquela inveja.

Não há ninguém que tenha êxito que não tenha sido invejado.

E não há nenhum invejoso que não tenha sido arremessado ao seu mórbido mister pelo fracasso.

*Publicado em 17/11/2005

Uma mulher estonteante

06 de junho de 2013 0

Texto publicado em 22/05/2005.

Deus ou a natureza não são justos na distribuição dos dons e atributos aos seres humanos. Constatei isto sexta-feira quando me defrontei no estúdio do Jornal do Almoço com a atriz Cláudia Raia. Não sei quem foi o inspiradíssimo tecelão ou ourives que presidiu o design daquela acetinada e apetitosa pele. A pele da Cláudia Raia me pareceu um deslumbrante embrulho para presente.

Os seus pés de dedos simétricos e perímetro de harmônicas sinuosidades pareceram-me plasmados por um gênio da estatuária. Pés que ela astuciosamente permite que sejam entrevistos pelas fendas inteligentes das tiras das sandálias. Quem foi o escultor renascentista que desenhou aquele conjunto esplêndido da sua boca ornada pela serpentina de seus lábios desejantes e por dentes alvos e parelhos, coordenados com perfeição estética às duas paredes laterais de  seu rosto e à planície sedosa da sua testa, decorada delicadamente por insinuantes sobrancelhas?

Não falei de seu nariz porque a instigante perspectiva do seu perfil levou-me imediatamente a elogiá-la, quando ela disse que aquilo era obra de “um cirurgião plástico” e não da mão divina, que só ali falhara no talhe original. Vê-se assim que esta mulher ciclópica teve seu arcabouço de beleza indizível plasmado pela natureza, mais tarde aperfeiçoado pela ciência humana da cirurgia plástica rinofacial, da ginástica, da dança, das massagens e dos melhores cremes para a pele das mais destacadas grifes estrangeiras.

Por isso é que quando eu fazia este louvor desbragado a Cláudia Raia, perante várias mulheres circunstantes, a opinião delas foi unanimemente sincrônica e ressentida: “Se eu tivesse tempo e dinheiro para exercitar-me e para comprar os cremes que ela usa e fazer a plástica que me falta, se não tivesse que me preocupar com a cozinha e a organização da casa, poderia me aproximar do seu poder de atração”. Talvez pudessem?

Por que abri esta coluna escrevendo que há uma injustiça social na forma como Deus ou a natureza distribuíram entre os homens os seus dons e atributos? Porque, além da beleza acintosa e discriminatória com que dotaram Cláudia Raia, os deuses deram-lhe também talento e uma singular simpatia repleta de cordialidade, de que sua voz e gestos cativantes são instrumentos notáveis.

A injustiça é a seguinte: como pode haver só uma mulher assim ou talvez algumas outras raras que a ela se equiparem? E da mesma forma como ela ostenta esse privilégio, por que ele se estende a um homem só que possa desfrutá-lo? Por que o paraíso na Terra é concedido brutalmente a tão poucas pessoas? Uma só Cláudia Raia para um só homem desfrutá-la é como um clássico do futebol com portões fechados.

Esportivas

04 de junho de 2013 0

O notável cirurgião torácico José Camargo, que também é colunista de ZH, afirma que o problema do atual time do Grêmio está localizado na precariedade da preparação física. Camargo diz que foi um erro o Grêmio desfazer-se do preparador físico Paulo Paixão.

Já o gremistão Fernando Ernesto Corrêa diz que o problema atual do time do Grêmio é sua covardia tática, faz um gol e recua miseravelmente.

***

Não entendo como se levanta a dúvida sobre quem jogará amanhã contra o Vitória, se Kleber ou Welliton.

Pelo amor de Deus, é a hora do Kleber. Se ele não jogar agora, nunca mais jogará.

Justiça seja feita, Luxemburgo não tem essa dúvida. Se por acaso não escalasse Kleber, estaria delirante.

***

O Internacional não dá sorte com treinadores que foram ídolos do clube: Falcão não deu certo como treinador no Inter. O mesmo com Fernandão. O mesmo com Figueroa.

Paulo César Carpegiani também não deu certo treinando o Inter.

Minha pergunta: Dunga dará certo como treinador no Inter?

A regra a respeito tem sido quase sempre a seguinte: quem foi grande jogador será treinador medíocre, quem foi mau jogador, caso de Luiz Felipe e Luxemburgo, pode vir a ser grande treinador.

***

Faço um balanço sobre as duas contratações que ajudei a fazer no Grêmio: Dida vem se constituindo em figura ímpar, fez duas defesas espetaculares e milagrosas quando estava 0 a 0 contra o Santa Fe e se constitui em tranquilidade da torcida nas intervenções em bolas altas e reposição da bola.

Já com Barcos não acontece o mesmo: ele está jogando muito aquém do que rendia no Palmeiras. Não sei o que está acontecendo com Barcos, embora o esquema tático fajuto que o Grêmio está empregando não o ajude, tanto que ele recua lá para a meia-cancha em busca de maior participação.

***

Luxemburgo deu a entender que deverá poupar Elano e Zé Roberto neste Brasileirão, por vezes revezando-os, em face da veterania deles.

Não concordo a respeito de Elano, ele tem apenas 31 anos de idade, Ronaldinho Gaúcho tem 33 anos e é o melhor jogador brasileiro da atualidade. Consta que não foi convocado para a Seleção Brasileira apenas por motivos boêmios.

Então, que história é essa de poupar Elano?

Quanto a Zé Roberto, concordo. Ele tem 39 anos, foi garçom da Ceia de Cristo, merece certos descansos.

Ademais, jogador a ser poupado tem de ser o ruim.

Jogador ruim no plantel é um perigo, dali a pouco ele entra numa emergência e sempre nada resolve.

* Texto publicado na Zero Hora desta terça-feira, 04/06/2013

As Damas de Branco

03 de junho de 2013 0

Estranho: de uns dias para cá, está desfilando pelas ruas de Havana, Cuba, um grupo de mães e mulheres de presos políticos cubanos, protestando contra o regime de Fidel e Raúl Castro e contra a prisão de seus parentes. Já foi para o quarto dia de protestos, apesar de que o grupo, denominado Damas de Branco, vem sendo fortemente repudiado nas ruas por partidários do governo. O grupo promete que vai continuar com as manifestações.

*

“Estamos pedindo a liberdade de nossos homens de maneira pacífica e vamos continuar até que eles sejam libertados ou que o regime cubano nos mate e derrame nosso sangue pelas ruas de Havana”, afirmou à imprensa internacional Bertha Soler, integrante do grupo.

“Queremos que o mundo inteiro veja que este é um governo ditador”, declarou Bertha, que é casada com Ángel Maya Acosta, preso desde 2003 e condenado a 20 anos de prisão por “atentar contra a independência e a integridade territorial do Estado”.

Ela diz que “conversei por telefone com meu marido e ele me disse que não era para ter medo, que devemos continuar protestando”.

*

Nas primeiras horas de anteontem, cerca de 30 integrantes das Damas de Branco reuniram-se para assistir a uma missa na Igreja de la Merced, em Havana Velha. De lá, saíram em marcha silenciosa, carregando flores e vestidas de branco, debaixo de insultos de 800 partidários de Fidel Castro, que as cercavam.

Policiais à paisana formaram um cordão de proteção em torno das mulheres para evitar o confronto entre os dois grupos, diferentemente do que acontecera dias atrás, quando as mulheres foram arrastadas pelos cabelos e obrigadas a entrar em ônibus do governo.

Desta vez, as forças de segurança não interferiram na manifestação.

*

Esses fatos, no entender deste colunista, mostram que está havendo uma quase imperceptível abertura em Cuba. A última imagem que se tinha de confronto entre a resistência ao regime e as forças de segurança deu-se durante o que se chamou de “primavera negra”, dia 18 de março de 2003, resultando na prisão e condenação pesada de 75 dissidentes.

Agora, não. A polícia permite as manifestações das Damas de Branco e coloca até mesmo agentes de segurança para proteger a passeata delas pelas ruas de Havana.

Essas manifestações, além disso, têm cobertura da imprensa internacional, que manda fotos sobre os comícios para todos os cantos do mundo.

No meu ver, há um leve aroma de abertura na ditadura cubana, talvez determinada pela sucessão no poder, desde que Raúl Castro substituiu seu irmão na cúpula governamental.

*

A Anistia Internacional está pedindo ao governo cubano que não persiga as Damas de Branco e trate de libertar aqueles que estão presos há anos e sentenciados em julgamentos “por acusações que, com frequência, não têm nenhum fundamento”.

Torça-se para que Cuba se democratize, que solte os seus presos de consciência, mancha escura dos regimes ditatoriais, e ao mesmo tempo se decrete um fim ao odioso bloqueio econômico de que é vítima há várias décadas a ilha de Fidel.

* Texto publicado dia 20/03/2010

Conversa entre gênios

02 de junho de 2013 0

Estava o Jô Soares entrevistando na última semana o Caetano Veloso. 
Parei para ouvir, era uma entrevista que se prenunciava interessantíssima. 
O Jô Soares é um grande ator de talk-show, ele fala inglês corretamente, toca pistom, tem apurado senso de humor, há 20 anos que assisto, todas as madrugadas, às entrevistas do Jô. 
Eu só desligo a televisão e vou dormir quando o Jô Soares leva artistas ou diretores de teatro para entrevistas. 
Aí não dá para agüentar. 
Simplesmente porque eu não sou ligado em teatro, 95% da população brasileira não é ligada em teatro. 
Então, eu não sei por que o Jô Soares gasta assim tanta pólvora em chimango. 
Como quase que invariavelmente o Jô abre o seu programa com entrevistas sobre teatro, isso tem me feito dormir mais cedo. 
Não dá para suportar.

No entanto, quinta-feira passada se encontraram no programa o Jô Soares e o Caetano Veloso, uma dupla talentosa do maior respeito. 
Fiquei ouvindo e me deliciando. 
Até que, estando torcendo eu para que eles abordassem o assunto Chico Buarque de Holanda, acertei na mosca: os dois passaram a abordar o Chico. 
Foi quando fiquei sabendo que o Caetano Veloso tem a maior admiração pelo Chico Buarque. 
Ele é vidrado no Chico Buarque. 
Chegou até a passar a impressão de que gostaria de ser o Chico Buarque.

Em determinada parte da entrevista, eu fiquei sabendo pelo Caetano Veloso que o Chico Buarque é um grande improvisador, algo assim como era um outro gênio, o gaúcho Jayme Caetano Braun. 
Era só dar o assunto para o Jayme Caetano Braun, que ele saía na hora fazendo versos sobre aquele tema, fosse na mesa do bar, numa reunião entre amigos ou mesmo no palco. 
Esses poetas do improviso, muito comuns no Nordeste ou entre os trovadores gaúchos, talvez sejam a maior expressão da arte falada que se conheça, superior até àquela que julgo a maior de todas as artes: a oratória. 
Pois além da oratória, os poetas de improviso constroem versos com a sua fala, empilham rimas, não há nada mais saboroso na face da Terra do que ouvilos.

Vai daí que o Caetano Veloso disse que o Chico Buarque é capaz de na hora, numa conversa, de improviso, construir a letra de uma música ou de um poema com o maior brilhantismo. 
E a noção e memória de Chico Buarque sobre rima é um caso espantoso, disse o Caetano. 
Chico é um poeta nato, congênito, miraculoso, deu-nos a entender o Caetano. 
Eu não sabia disso, mas fiquei ainda mais abismado com o gênio de Chico Buarque, para mim, insuperável.

Depois, o Caetano e o Jô abordaram outro gênio. 
E também tocaram no lado assombroso que sempre destaco a respeito de Noel Rosa. 
Não é crível que tendo morrido com apenas 26 anos, o estro de Noel Rosa tenha sido tão fantástico como é a sua obra de mais de 300 gravações, algumas delas antológicas, como Gago Apaixonado ( samba do gago), em que ele construiu rimas gaguejando, Último Desejo, Feitiço da Vila, Palpite Infeliz. 
Que gênio, o Noel Rosa.

Naquela que considero a melhor das músicas de Noel, ele se esmera de uma tal sorte na posição de um verso sobre o outro que ninguém até hoje o superou, nem o próprio Chico Buarque com A Rita. 
Refiro-me à obra-prima de Noel chamadaConversa de Botequim, cuja primeira parte é um prodígio de brasileirismo e um conjunto preciosíssimo de expressões:

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada 
Um pão bem quente com manteiga à beça 
Um guardanapo, um copo d’água bem gelada 
Feche a porta da direita com muito cuidado 
Que não estou disposto 
A ficar exposto 
Ao sol 
Vá perguntar ao seu freguês do lado 
Qual foi o resultado do futebol.

Nunca vi nada igual. 
Um portento, uma das sete maravilhas da música brasileira. 
Notável. 
Extraordinário. 
O mundo é mais para os gênios.

*Texto publicado em 31/08/2008

Carro que não acaba mais

01 de junho de 2013 0

Não foi por mim que escrevi na última semana uma crônica com preocupação profunda pelos engarrafamentos de trânsito em Porto Alegre. 
Foi por piedade às almas penadas de milhares de motoristas que se acotovelam nos engarrafamentos. 
Foi por compaixão das centenas de milhares de pessoas que andam de ônibus e concorrem nos engarrafamentos com os carros. 
Há pessoas que levam até quatro horas – ou mais – presas no trânsito, por dia, gastando, só em transportar-se, metade ou mais do tempo em que se ocupam no trabalho.

Não há um levantamento em Porto Alegre a respeito, mas em São Paulo a velocidade média no pico da tarde de um carro diminuiu de 18 km/ h para 15 km/ h. 
Imagine você comprar um carro para deslocar-se com mobilidade na cidade e ter de imprimir somente 15 km/ h! Os carros em São Paulo, pasmem, andam em velocidade média inferior à de um campeão da Corrida de São Silvestre. 
E a velocidade tão lenta, que se assemelha à que uma galinha pode atingir.

A principal causa dos engarrafamentos em Porto Alegre é a mesma de São Paulo: a expansão da frota. 
Por dia, são acrescidos à frota mil veículos, quase 400 mil por ano. 
Não há cidade que suporte. 
Agora mesmo, ficou ainda mais fácil comprar um carro novo, os prazos de financiamento se alongam a perder de vista: voltaram a ser vendidos carros com 80 prestações. 
Os bancos e as financeiras, sem qualquer controle, oferecem carros em “ condições imperdíveis” e com “ pagamento só depois da Copa”. 
Não importa que quem compre um carro com prazo de pagamento de 80 meses pague o dobro do preço real em juros. 
Todo mundo se atira na compra de carros.

Lembro-me que anos atrás havia um celular para cada sete habitantes do Brasil. 
Agora, o número de celulares no Brasil é maior que o número de habitantes. 
O mesmo está acontecendo com os carros: hoje, já existe no Brasil um carro para cada sete habitantes. 
Em breve, o número de carros vai encostar no número de habitantes e eu não sei o que será do trânsito nas cidades.

Essa licenciosidade é de uma irresponsabilidade gigantesca dos governos: não podiam liberar a venda de carros sem abrigo deles na malha viária das cidades. 
Além disso, a gravidade maior de todas. 
Um veículo obrigado a fazer a média de 15 km/ h no trânsito ou a média de 2 km/ h nos engarrafamentos gasta de duas a cinco vezes mais combustível do que em fluxo dito normal. 
Ou seja, ninguém calcula, mas todos nós, que somos vítimas dos engarrafamentos, pagamos duas ou três vezes mais por combustível do que deveríamos pagar.

Para amortizar os efeitos da expansão da frota, em Porto Alegre teria de ser construída uma Avenida Ipiranga por mês.
No entanto, a malha viária permanece a mesma há vários anos e são despejados milhares de carros por ano na frota já esgotada.

Em São Paulo, tentam atenuar os engarrafamentos com obras. 
A partir do mês que vem, serão inaugurados três empreendimentos de grande porte: a alça sul do Rodoanel, a primeira fase da ampliação da Marginal Tietê e a linha 4 do metrô. 
E aqui em Porto Alegre? Absolutamente nada. 
Absolutamente nada. 
Vai quebrar.

*Texto publicado em 07/03/2010

Chutar o balde

31 de maio de 2013 0

Mando-te notícias, meu amigo, como pediste.
A vida aqui está transcorrendo pesada, sem graça, sem horizonte, desânimo sem quartel.
O grosso das pessoas cada vez mais se prende justamente às circunstâncias que mais odeiam, não conseguem se desvencilhar delas, ou melhor, não têm coragem de se livrar delas.
Só alguns iluminados rompem a rotina e alcançam a felicidade.
Um truque para ser feliz é chutar o balde.
Corre um grande risco quem chuta o balde, mas é impossível ser feliz sem chutar o balde.

Todos me parecem aprisionados a seus destinos, não se atrevem a modificá-los.
E eu só agora percebo que não há forma de realização que não seja mudar-se o que a vida nos prescreveu.
Tudo que está prescrito é contrário à felicidade.
É imprescindível imprimir novos rumos à existência, fazer velas ao mar: uma coisa é certa, a felicidade não está aqui nesta modorra, é preciso dar um basta a esta astenia existencial diária que vai se eternizando.
É impossível ser feliz permanecendo no mesmo lugar, na situação a que nos impusemos.
O deleite da vida está na movimentação, na fuga.
Quem não arremeter se submete, quem se submete se escraviza.
É preciso perder alguma coisa para alcançar coisa melhor.
E assim, meu amigo, todos à minha volta e eu parecemos rendidos.
Raros são os que decidem dar um sofrenão na vida e arremessar-se para a liberdade.
Só há duas condições na vida, a liberdade e a escravidão.
Entenda-se liberdade como fazer-se o que se quer.
Entendase escravidão como fazer-se o que os outros querem ou nos determinaram.

Escravidão é ir aos poucos se aferrando a valores atraentes que vão perdendo seu fulgor, mas que já nos agrilhoaram.
Liberdade é não se fixar a valor algum do qual não podemos nos livrar.
Escravidão é apaixonar-se.
Liberdade é enamorar-se.
Escravidão é o compromisso.
Liberdade é o desapego.

Assim, amigo, por aqui – creio que em toda parte; por aí onde estás, a julgar pelo que me relatas, também – temos caminhado com grilhões.
Caminhar com grilhões é andar, andar e não sair do mesmo lugar.
É caminhar fazendo voltas.
Chegou a tal ponto nossa estagnação existencial, que as pessoas aqui estão correndo para o aeroporto, antes um dos lugares mais aprazíveis, onde se ia realizar o sonho, em busca de um pesadelo: quem compra uma passagem de avião, mune-se de dois medos, o de atrasar ou ver cancelado o vôo e o medo de embarcar.
Não tem saída.
A pior face da vida é quando ela se torna um beco sem saída.

Sustenta-nos assim, meu amigo, somente a esperança.

Não a esperança covarde de que algum dia a vida – ou a morte – resolva o nosso impasse.
E sim a esperança de que venhamos a ter, a qualquer momento, contrariando tudo que temos sido até agora, a coragem de chutar o balde.
Lançar o bloco na rua e botar pra quebrar.
Lembranças a todos e reza por nós.

*texto publicado em 29/07/2007