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Salto mortal na trave

25 de maio de 2012 0

Não noto muito entusiasmo no público telespectador pelas provas das Olimpíadas, embora alguns amigos meus me digam que passam a manhã inteira com os olhos grudados nas televisões assistindo aos jogos.
Não consigo entender o judô, por mais que me expliquem.
Nunca vi nada mais sem graça.
Cai um lutador derrubado pelo outro, mas o juiz não marca pontos para o derrubador.
Não adianta, não entendo.
O que gosto mais é do atletismo, assim mesmo das provas de corridas, que aos meus olhos ainda não apareceram, devem começar hoje ou amanhã.
Também não vejo graça na natação, mas isso não é surpresa, as corridas de Fórmula-1 nunca me atraíram, igualmente com as corridas de turfe.
Eu não sou muito ligado em páreos, com exceção das corridas atléticas.

Mas quando aparecem as ginásticas artísticas de solo, aquele tipo em que a nossa Daiane dos Santos destacou-se mundialmente, então fixo os meus olhos na competição e me deixo atrair.
No entanto, há uma modalidade da ginástica que deixa meus olhos deslumbrados: a da trave.
Se já o salto mortal de frente das ginastas sobre a trave me fascina, quando, no entanto, elas dão o salto mortal para trás, indo pousar seus pés na trave estreita, que deve medir cerca de 10 centímetros, então fico aturdido com a proeza extraordinária.
Já um salto mortal para trás na ginástica de solo carrega um atrativo de façanha, imaginem então um salto mortal para trás em cima da trave, quando o ginasta se arremessa a um vôo cego, sem poder ver onde seus pés irão pousar, tendo somente que calcular a extensão e direção do salto.
E à espera dos pés da ginasta está apenas uma trave de 10 centímetros de largura, uma destreza ímpar, um fato humano fabuloso.
E a ginasta intenta o salto como se estivesse com os olhos vendados, num sentido de direção fantástico: quando seus pés vão cair sobre a trave, ela tem ainda que colocar um pé à frente e um atrás, pois os dois lado a lado não cabem na trave.
Que feito histórico!

Assim como no futebol, quando os grandes craques desse esporte nem percebem que estão começando a treinar nas peladas, aos seis, sete, oito anos de idade, as ginastas começam a ser adestradas na infância.
Um exercício como esse do salto mortal de costas sobre a trave deve levar uns 10 anos de treinamento, todos os dias, quase 4 mil dias de treinos, para depois brindar o mundo com o espetáculo de sua apresentação de magnífico equilíbrio.
Talvez só nos circos se veja algo igual, mas nos circos os ginastas são impulsionados por aparelhos, por trapézios, enquanto que na ginástica artística os atletas contam somente com seus corpos para catapultarem-se em direção aos seus alvos.
Também se pode ver, nos circos e outros espetáculos, animais estupendamente adestrados pelo instinto ou por inteligência inferior à dos homens, no entanto o tirocínio humano supera a destreza animal pela arte, pela estética, pela iniciativa nos exercícios, pelo improviso na criação, enquanto os animais obedecem apenas a seus adestradores na obediência das prescrições.
Aí também está a diferença entre o homem e o animal.

*texto publicado em 15/08/2008

Nós, os medíocres

24 de maio de 2012 0

Nós, os medíocres, somos a alavanca do mundo.
Não porque sejamos destacados, mas porque somos numerosos, somos a maioria esmagadora.
Medíocre não quer dizer burro nem nulidade.
Medíocre se refere a médio.

Eu, por exemplo, não me ofendo quando me chamam de medíocre.

Porque tenho bem consciente que com relação a Freud, a Einstein e a Shakespeare eu sou medíocre.
Eu me ofenderia se me chamassem especificamente de medíocre com relação a Hugo Chávez.

Bem, mas os medíocres são o sal da terra.

Há entre os medíocres uma espécie nojenta: a dos invejosos.
Não os ciumentos, que estes não são repelentes, pelo contrário, os ciumentos são amoráveis, são seres repletos de sensibilidade.
Porque o ciúme só pode existir num coração que tem amor.
Ou pelo menos admiração cativa.
Mas os invejosos são erva daninha.
Eles se unem para atacar os que são superiores sob qualquer aspecto a eles.
Se unem estrategicamente, porque sozinhos não metem medo a ninguém.
Os invejosos, unidos, metem medo porque atacam como atacam os formigueiros, em massa, levando tudo de roldão.

Saindo um pouco da subespécie dos invejosos, voltemos ao tronco principal dos medíocres.

Os medíocres se dividem entre os medíocres humildes e os medíocres petulantes.
Os medíocres humildes têm consciência da sua mediocridade e se aquietam.
Ficam na sua.
Não se metem em briga de cachorro grande.
Já os medíocres petulantes se revelam teimosos com as pessoas brilhantes e as enfrentam com estóica coragem, vão para cima dos brilhantes envergando a couraça da estupidez ou da incapacidade inalterável que têm para raciocinar.

Aí um parêntese: há pessoas que pensam somente.

E há pessoas singulares que, além de pensarem, raciocinam.
Chega a ser lamentável a incapacidade de muitos medíocres de raciocinar.
Há casos de medíocres que escrevem todos os dias em jornais há 30, 40 anos, ou falam em microfones, ou dão aulas nas universidades, ou se destacam em seus meios de atividades quaisquer, de quem as pessoas que as cercaram ou as ouviram nesses anos todos não guardaram nunca uma só frase, um só raciocínio.
São os medíocres lineares: eles nunca tiveram um rasgo, um lampejo, um fulgor.
São os medíocres que só vieram à Terra para cumprir o carnê.
São os medíocres que não marcaram, que não se distinguiram.
Mas não marcaram nem se distinguiram uma só única vez.
Mas são pessoas que vivem, que criam seus filhos, que são justas, são retas, são cumpridoras de seus deveres, recebem medalhas de reconhecimento.
Mas são tristemente medíocres.
Porque a face do planeta foi talhada para receber os medíocres.

Eu também sou medíocre.

Não posso me comparar a um Michelângelo, a um Gandhi, a um Machado de Assis, a um Pelé, uma Madre Teresa de Calcutá.
A um Leonardo da Vinci.
Sou medíocre comparado a esses.
Mas a diferença é que sou um medíocre, modéstia à parte, com sazonalidades de gênio.
Algumas frases minhas são recitadas diariamente por passantes e sentantes da Rua Padre Chagas.
Eu estou no rebanho dos medíocres, mas sou uma rês que por vezes se destaca na disparada da boiada.
E é por isso que não raro me atinge o laço firme do boiadeiro.
E é por isso que certamente vou para o matadouro antes do grosso da tropa.
Só imploro que não me abatam a marteladas.

*texto publicado em 16/03/2008

Engolindo sapos

23 de maio de 2012 0

Chama a atenção a agressividade de certos motoristas que parecem se atirar às ruas para arranjar brigas.
Dizem que as mulheres não dirigem bem, mas nunca vi uma mulher ser agressiva no trânsito.
Ela pode até atrapalhar as manobras, mas não é capaz de ser acintosa em gestos e palavras.
Eu, por exemplo, não tenho nenhum medo de mulher no trânsito.

Já com os homens, não é o mesmo.

Durante a vida, já tive dezenas de conflitos com motoristas masculinos.
Ontem, por exemplo, por duas vezes, fui xingado veementemente por dois motoristas.
O certo é a gente não andar armado, nem com um revólver, nem com um pedaço de ferro.
Uma arma no porta-luvas ou em qualquer parte do carro é passaporte certo para a tragédia.

Eu já tenho saído de casa disposto a suportar ofensas e mal-entendidos no trânsito.
Qualquer reação mais forte que eu tiver vai redundar num desastre de comportamento.
Então tento me munir de uma serenidade que consiste em ser ofendido sem reagir.
O sujeito me xinga, me diz desaforos de longe, sinto ímpetos de manobrar meu carro e persegui-lo.
Mas me contenho, não vale a pena.
Estou diplomado em engolir sapos no trânsito.

Uma colega minha estava me contando esses dias, no fumódromo, que o caudal de ofensas que se desata no seu condomínio e no edifício ao lado, durante e principalmente logo após um Gre-Nal, é algo de assustador.
Os seus vizinhos abrem suas janelas e vão gritar para os outros do mesmo edifício ou do prédio ao lado os piores palavrões, de corar frades-de-pedra.
Então ela já sabe, basta haver um Gre-Nal para o ajuste violento de contas verbais ser instalado com uma agressividade ímpar.

É que milhares de pessoas são dotadas de sérios distúrbios emocionais de irritabilidade agressiva.
Nós não as conhecemos, por isso não somos alvos nem vítimas delas.
Mas, se somos vizinhos dessas pessoas, cedo explodirão os conflitos.

E o trânsito é o momento adequado para que se instalem esses conflitos.
Pessoas que não conhecemos, que não nos dizem nada e portanto não têm como nos importunar ou agredir.
Com milhares delas, no entanto, nos enfileiramos e cruzamos no trânsito.
E então o trânsito vira o momento exato para toparmos com essas pessoas disturbadas, malhumoradas, agressivas, violentas.
Se nós também formos portadores de distúrbios emocionais ou não tivermos paciência, resignação, conformismo, está formado o bolo, que vai num crescendo da ofensa e da lesão corporal até o homicídio.
Tem muita fera solta por aí no trânsito, o melhor é não aceitar provocações, como aliás tenho presenciado em muitas pessoas sensatas, que preferem ouvir ofensas a enfrentar os agressores.
Se enfrentarem, não se sabe se encontrarão compreensão em quem for julgar esse confronto.

Portanto, feche os vidros das portas do carro, evitando ouvir as ofensas e provocações, e siga em frente.
Não vale a pena incomodar-se.
Porque existe muita gente neurótica – milhares – que sai para as ruas no volante para comprar brigas.
Que comprem com outros.

*texto publicado em 16/08/2008

O olfato das mulheres

22 de maio de 2012 2

Chuvas insistentes ontem e anteontem sobre a cidade colocaram-me na posição cismadora de quem só vê vultos em todas as sombras e não vê mais que sombras em todos os vultos.
Um amigo meu me disse que sua mulher, sempre que chega em casa à noite, diz-lhe que sabe que jantou comigo ou esteve comigo em algum lugar.
Meu amigo pergunta: “ Como sabes que estive com o Sant’Ana?” E a mulher responde: “ Porque senti o cheiro de fumaça nas tuas roupas”.

É impressionante como as mulheres sentem o cheiro de sua fortuna ou de sua desgraça nos corpos de seus homens.
Havia uma outra mulher de outro amigo meu que controlava toda a vida sexual de seu marido, com eventualidade de aventuras extraconjugais, cheirando-lhe as cuecas quando ele chegava em casa.
Não me perguntem como ela detectava traição no cheiro das cuecas de seu marido, o certo é que ela nunca errou sequer uma vez.

É fato indiscutível que as mulheres possuem propriedades olfativas extraordinárias, comandam o seu controle sensorial sobre os maridos através de suas narinas infalíveis.
Rigorosamente, uma mulher sabe exatamente se seu marido lhe é fiel ou se ele a trai mediante o que ela cheira nele, à proximidade ou à distância.
A mulher sabe se o marido a trai não por ter premonições mediúnicas, mas por possuir apuros olfativos inimagináveis.
Por sinal, a expressão “ não fede nem cheira” vem daí, é o marido que nem tem atitudes infiéis, nem tem qualquer cheiro de infidelidade no corpo ou nas roupas.

Há maridos que percebem esse dom demoníaco das mulheres e engendram antídotos, como o de usarem perfumes de essências fortes que superam qualquer aroma adulterino que possa ter restado de alguma relação espúria.
Se o marido trai com alguma amante que usa perfume também forte e impregnante, está frito.
Há certos maridos que, surpreendidos com perfumes femininos em seus corpos, alegam que passaram num magazine e uma demonstradora passou-lhes para os corpos alguma amostra de essência para mulheres, por engano.
Outros há que, tendo-lhes sido passado por suas amantes algum cheiro de perfume ou colônia feminina, antes de voltarem para casa besuntam-se de óleo de cebola ou de queijo provolone, com o fim de anular o aroma denunciador.

Ao sentirem cheiro de cebola nos corpos de seu maridos, há esposas que se atiram ao sarcasmo: “ Ou vieste de uma churrascaria ou estavas a me trair com alguma pilantra perfumada”.
No entanto, há uma tese ousada que é defendida por alguns maridos: a de que a mulher sempre gosta de desconfiar que seu marido a trai.
Veja bem, eles defendem que a mulher não quer saber que é traída, mas adora desconfiar que seu marido a trai.
Por isso alguns maridos se dedicam à ciência de fabricar vestígios de sua traição para que suas mulheres os notem e sintam-se enciumadas, o que as faz mais ainda excitadas e propícias ao amor conjugal.
É tudo um jogo de dissimulações, de fingimentos, de pequenas farsas, de máscaras, que temperam o casamento e não permitem que o insosso do fastio e da fadiga da convivência abalem ou destruam a relação.
Mas em todo o caso, repito aos maridos desavisados: a arma mais poderosa das mulheres é o olfato.
O olfato, por sinal, envia ao cérebro mensagens da mais alta e profunda eficácia.

*texto publicado em 13/09/2010

Logo o Falcão

21 de maio de 2012 4

*texto publicado na Zero Hora desta segunda-feira, 21/05/2012.

O ex- jogador de futebol Falcão, atual treinador do Bahia, nega- se a dar entrevista para Zero Hora.
O repórter Luís Henrique Benfica, que cobriu Bahia x Grêmio na semana passada, em Salvador, solicitou a Falcão cinco minutos para uma pequena entrevista e uma foto e Falcão foi taxativo:“ Não tem entrevista e ponha uma foto minha 3x4 no seu jornal”.

Impressiona esta indelicadeza, para não dizer agressão, de Falcão a Zero Hora.
Ele não se recusa a dar entrevista para todas as emissoras de televisão e rádio, para todos os jornais do Brasil.
Mas se recusa a dar entrevista para Zero Hora.
Justamente o jornal que o acolheu como jornalista, não sendo ele jornalista, durante os longos anos em que ele foi colunista esportivo de Zero Hora.
Falcão não escrevia para O Globo, para a Folha de S.
Paulo, para o Correio do Povo.
Ele escreveu durante muitos anos para Zero Hora.
E justamente para o jornal que o contratou como colunista é que ele se recusa a dar entrevista, sabe- se lá por que motivo.

Eu, que convivi com Falcão durante todos esses anos aqui em ZH, fiquei muito triste e pesaroso com a atitude dele.
Afinal, emanou desse vínculo profissional de Falcão com Zero Hora nos últimos tempos uma relação também afetiva.
Ele, que é catarinense, tornou- se praticamente gaúcho, foi neste Estado que ele se consagrou como futebolista – e Zero Hora é gaúcha e prestigiou Falcão e foi prestigiada por ele durante tantos anos.
Não tem explicação essa agressividade de Falcão com nosso jornal.

Já não dar entrevista para jornal revela uma falta de sentido democrático e civilizatório para qualquer homem público.
Mas como é Zero Hora ligada ao Falcão por laços futebolísticos, tanto que nunca um jogador gaúcho foi tão justamente glorificado em suas páginas como o foi Falcão, é este mesmo jornal que sofre essa grave incordialidade de Falcão, mais se lamentando assim o episódio desagradável e aparentemente despropositado.

Não tenho condições de informar o motivo que levou Falcão a essa deselegância.
Pensei em telefonar para ele para que me dissesse a razão de sua aspereza.
Mas pensei comigo que, como sou de Zero Hora, poderia ser recebido por ele com outra agressiva negativa em falar comigo a respeito.
Falcão volta a Porto Alegre esta semana para o jogo Grêmio x Bahia.
Se ele tem justificativa para sua descortesia com Zero Hora, ofereço- lhe esta coluna para que esclareça a origem de sua incompreensível atitude.

Oradores sem microfone

21 de maio de 2012 0

Sempre me intrigou profundamente como os antigos lidavam com o problema de falar com as multidões.
Nunca ouvi dizer que Cícero, o grande orador romano, assim como Demóstenes, notável orador grego, que era gago, usava megafone para se dirigir às suas grandes plateias.

Então não sei como fizeram Moisés e Jesus Cristo para pregar os seus estupendos sermões a multidões de judeus.
Como tecnicamente se dirigiu a seu povo Moisés, quando desceu do Monte Sinai e foi anunciar à planície repleta de seus seguidores que ele tinha conversado com Deus no cimo do monte e trouxera- lhes duas pedras que continham os 10 Mandamentos?

Como Cristo fez para pronunciar seu lendário Sermão da Montanha, se devia haver pelo menos 8 mil ouvintes? Imagino a dificuldade dele para se fazer escutar por toda aquela gente: “ Bem- aventurados os humildes de espírito porque deles é o Reino do Céu.
Bemaventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem- aventurados os mansos porque possuirão a Terra.
Bemaventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados.
Bem- aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de Mim”.
Cristo foi um grande orador.
O mais famoso discurso que um homem já fez na Terra foi esse Sermão da Montanha.
Mas temo que muitas pessoas que estavam lá naquele dia histórico e lendário não ouviram nem de longe o que Cristo estava dizendo.
Será que imagino tolamente que havia taquígrafos entre os fiéis?

Para mal dos pecados, Moisés também era gago.
E, na dificuldade que ele teve para anunciar os 10 Mandamentos, quem me diz que, pela precariedade de sua fonação e dicção, não eram 20 os Mandamentos?

No célebre discurso de Marco Antônio junto ao cadáver de César assassinado, Roma inteira estava diante do Senado, como pôde Marco Antônio ser escutado por aquela multidão estupenda? E, no Coliseu de 50 mil pessoas, como podiam elas ouvir os imperadores, antes, durante e depois dos torneios mortíferos que lá se travavam? Os imperadores falavam, discursavam, condenavam, perdoavam durante as justas do Coliseu.
Será que alguém os escutava? Ou o que eles diziam ia aos poucos se transmitindo entre o povo, aos recados, aos boatos, aos rumores? Há grandes oradores referidos pela História, antes e depois da invenção do microfone.
Mas os de antes do surgimento do microfone foram heroicos.

*texto publicado em 15/04/2011

Remédio trigueiro

20 de maio de 2012 2

Como sou diabético e fumo três maços de cigarro por dia, corro um risco muito grande.
Por isso, fiquei tentado no ano passado por um remédio do qual se diziam maravilhas, sendo classificado entre os médicos como o mais poderoso medicamento para curar o vício do tabagismo.
Nome do remédio: Champix.
Preço da caixa do remédio: em torno de R$ 1 mil, mas com muitos comprimidos, um tratamento de meses.
Nome do laboratório: Pfizer.

Comprei a caixa do remédio.
Me parece que o tratamento se iniciava com meio comprimido diário, depois ia aumentando.
Fui tomando o remédio, e era tal a sua fama, que, por via das dúvidas, saboreei ainda mais os cigarros que ia fumando.
Afinal, me preparei para abandonar o supremo êxtase de fumar.

Aumentei a dose como mandava a sofisticada bula, fui tomando, fui tomando.
E cada vez fumava mais, na ânsia de me despedir com exuberância irracional do vício tão estimado por mim.
Sabem como é, o cigarro se incorporou de tal forma à minha personalidade e ao meu metabolismo, que sempre o considerei ser indissociável do meu ser.

Enquanto isso, os amigos me diziam que finalmente eu acertara.
O remédio tinha um prestígio notável no meio médico e era cantado em prosa e verso por muita gente que tinha deixado de fumar com o tratamento.
Não me lembro ainda qual o prazo que a bula do remédio me dava para deixar de fumar, enquanto prosseguiria ingerindo os comprimidos.
Mas, enquanto eu podia fumar, fumava.
E ia tomando o remédio.

Lá pelos 50 dias de tratamento, comecei a notar leves mas perceptíveis sinais de transformação no meu hábito de fumar.
Eu já não fumava três carteiras por dia, passei para duas e meia, o nível de exigência do meu paladar diminuíra.
Logo em seguida, um sinal mais perturbador: gradativamente, à medida que os dias iam passando, notei uma diferença no gosto do cigarro.
Ele já não me apetecia tanto quanto no tempo em que eu não usava o remédio.
Achei aquilo estranho, mas o meu médico me disse que o plano estava dando certo, aqueles eram mesmo os sintomas esperados para o sucesso do empreendimento.

O que me atormentava especialmente era que, antes de terminar o prazo para eu cessar de fumar, embora mantivesse o tratamento, eu estava ingressando no perigoso terreno de enjoar de cigarro.
Já não o acendia ansioso para tragá-lo, já não comprava com ímpeto as várias carteiras que sempre reservei a um estoque considerável.
Meu apetite pela fumaça diminuíra violentamente.

Até que baixei a cota para duas carteiras de cigarros por dia.
Parece-me que a índole do remédio é essa, diminui-se o número de cigarros que se fuma, naturalmente, por falta de demanda instintiva, enquanto a dose do medicamento aumenta.

Para abreviar, até mesmo porque minha memória é péssima e eu não lembro de alguns detalhes, cheguei à conclusão de que eu estava perdendo o gosto pelo vício e não tinha mais aquele prazer antigo e inesquecível de saborear os cigarros.
Fiz uma imediata reunião comigo mesmo e decidi radicalmente: “ Sabe de uma coisa, na marcha que vai, se eu continuar tomando este remédio, vou acabar perdendo inteiramente o gosto pelo cigarro e terei de inevitavelmente parar de fumar”.
E concluí botar aquela porcaria do remédio fora, antes que ele me separasse para sempre de um dos dois únicos grandes prazeres que me restaram.
E como parei de tomar o remédio, prossigo novamente a fumar três carteiras por dia.
Mas estou feliz, isto é o que interessa.
Com medo concreto de que o cigarro me venha a ser fatal, mas feliz.

*texto publicado em 26/04/2009

Meu violeiro

19 de maio de 2012 0

O professor de violão Darci Alves, o violeiro, grande mestre de serenatas Darci Alves, disse anteontem na Rádio Gaúcha, recordando sua carreira, que ele não seria nada, não existiria sem o violão.
E eu respondi que certa vez me veio parar nas mãos, sei lá por que força do destino, um belo violão abandonado.
Eu fiquei a fitar aquele violão sozinho e concluí que ele também não valia nada, não existia sem o Darci Alves.

E qualquer medida de política carcerária, por mais absurda que possa ser considerada, no entanto se torna justificada e procedente quando possa vir para corrigir o colapso estrondoso do sistema prisional gaúcho.
Vá lá, a intervenção federal nos presídios do Rio Grande do Sul, solicitada por um procurador de Justiça ontem, parece ser esdrúxula, mas muitos espíritos a saudaram como o início da salvação do sistema carcerário rio-grandense.
Andou muito bem o procurador Lenio Luiz Streck.

Da mesma forma, cogita-se a parceria público-privada na construção e administração dos presídios gaúchos.
Excelsa ideia! Chegou a tal ponto, que qualquer ideia nova e diferente que venha a ser aplicada na questão prisional gaúcha é bem-vinda, por mais extravagante que possa parecer.
Fiquei intrigado e fascinado com uma possibilidade que se anuncia na privatização dos presídios gaúchos: as empresas privadas que administrarem as cadeias concedidas serão multadas caso haja fugas ou motins.
Sensacional! Porque não se conhece que alguém seja punido por fugas e motins no sistema público de administração das prisões.

Outro fato intrigante: não são verificadas fugas em cadeias privatizadas que existem até agora no Brasil.
É tão grande a segurança existente lá, que não há notícia de presos que fujam.
Lógico que em cadeias fechadas, porque atualmente se computam como fugas o abandono dos detentos aos albergues no sistema semiaberto.
E à persistência dessas fugas do sistema semiaberto nem as prisões privadas resistiriam – e, caso fossem multadas por isso, entrariam em curso falimentar.

O fato é que, como nunca, a sociedade gaúcha está conscientizada de que é necessário tomar uma medida revolucionária para acabar com a situação degradante dos presos em nossas cadeias, condição que é expressamente proibida no artigo 5 º da Constituição Federal.
Raciocinou-se brilhantemente que aqui, por final, não haverá nunca segurança nas ruas quando ela não haja nos presídios e sem preservar a dignidade do ser humano encarcerado.
Começa-se a pensar por aqui que está sendo abolido o perverso axioma de que prisões não dão votos.
Ou seja, se o povo está clamando por segurança pública, então construir presídios pode começar a ser vantagem eleitoral para os governos que isso fizerem.

Eu sei tudo isso mais do que o Eclesiastes, quero dizer que não sou sábio em questão prisional por ser inteligente, mas por ser velho, como diz o poeta argentino que escreveu Martín Fierro.
Repito, porque a minha insistência foi talvez um dos fatores da criação dessa nova consciência, que não se faz omelete sem ovos, assim como não se faz boa segurança pública e tranquilidade das pessoas nas ruas e em suas casas, sem a construção permanente de presídios.
Permanente.
E não em surtos de 50 em 50 anos.

*texto publicado em 17/06/2009

Voo de galinha

18 de maio de 2012 1

Não sei o que foi mais deplorável, se a convocação de Dunga ou se a catastrófica entrevista coletiva que deu para o anúncio da convocação.
A entrevista foi a mais embaralhada e desastrada tentativa de um homem para tentar sair da escuridão dos seus limites para alçar voos intelectualoides às regiões da luz, a que é avesso por natureza.
A inteligência brasileira deveria ter sido poupada da pantomima de Dunga ao definir, numa caricatura sociológica, o que tinha sido a ditadura e a escravidão.
Um fiasco memorável.
Além disso, foi uma aula de patotismo e de xerifismo, deixando claro que os valores a serem respeitados para a convocação da Seleção para a Copa do Mundo em nada dizem respeito ao talento e ao desempenho dos jogadores, mas, sim, a enganadores princípios de panelismo e subserviência.
Foi um voo de galinha sobre o altiplano das ciências psicossociais.

Mas não se exige de um treinador da Seleção Brasileira que ele não seja analfabeto nem que seja um intelectual.
O que se exige como mínimo requisito de um treinador da Seleção Brasileira é que ele entenda de futebol.
E, ao não convocar Neymar e Ganso e ao assassinar a pretensão de Victor de ser convocado por ser o melhor goleiro entre todos os que jogam no país e atuam no estrangeiro, Dunga revelou toda a sua incompetência, o seu mandonismo, a sua megalomania e sua prepotência.

Não há como tirar Neymar da Seleção.
Como ousou esta insolência à sensibilidade futebolística, Dunga se autonomeou como um Exterminador do Futuro, a natureza deu asas a Neymar, e Dunga prendeu-lhe o voo impiedosamente.
Nenhum dos 23 convocados por Dunga possui metade do talento de Neymar.
Não tem explicação que este menino-deus do futebol seja afastado assim pela violência de Dunga dos quadros da Seleção.
Só pode ser pela vaidade e pela megalomania do treinador, que não admite que a opinião pública e a opinião dos entendidos possa superar a sua soberana opinião.

Este é o perigo que corre a escolha de um treinador que tenha sido um tacanho jogador.
Quando rejeita acintosamente convocar Neymar e Ronaldinho Gaúcho, Dunga está cometendo um atentado contra o talento, contra a arte, contra a beleza do futebol, o que já sob certo aspecto fazia quando ele era jogador de futebol e incrivelmente até hoje não deixou no espírito de ninguém saudade ou sequer lembrança de sequer uma jogada sua nos campos em que atuou.
Jogador grosso, trombadão, tosco, enrolado, que só joga à base do físico e do fôlego, fatalmente, se se tornar treinador, vai carregar para a nova profissão todos os defeitos da anterior.

Depois da entrevista trágica de Dunga ontem, restou por todo o espírito da nação o remorso e a injustiça da não convocação de Neymar e de Ganso.
E, particularmente para nós, gaúchos, que temos assistido às grandes e inigualáveis atuações de Victor nos jogos do Grêmio, uma raiva incontida pela perversidade de sua não convocação.
Não tem explicação, a não ser pelos desvios mórbidos que presidem os recalques.
Saí sem saber se o mais deplorável foi a convocação ou a entrevista coletiva do Dunga.
Mas agora, depois da antevisão de parte do que vai ser estampado nos jornais de hoje aqui no meu computador, posso garantir que não foi a entrevista do Dunga nem a convocação o mais deplorável.
O mais deplorável de tudo foi que há gente que gostou da entrevista do Dunga, consideroua histórica e intelectualmente irretocável.
Tem gosto pra tudo.

*texto publicado em 12/05/2010

Os chatos do hospital

16 de maio de 2012 1

O chato já tinha me chateado três vezes em espaços de tempo diferentes, quando meia hora depois ele me abordou novamente na calçada traseira do Hospital Mãe de Deus, onde passei quase toda a sextafeira.
O chato atacou-me novamente.
Indefeso, cedi.
Desta vez ele tentou me seduzir com outro assunto.
Obviamente era de novo um assunto chato.
Repeli o assunto, quando ele , sem desistir, demonstrou intimidade inaudita, metendo a mão no bolso da minha camisa, sacando o meu maço de cigarros e me perguntando: “ E isto aqui, quando é que vais parar de fumar? Um médico me disse certa vez, quando eu fumava, que, se eu não quisesse me desfazer do prazer de fumar, tinha de imaginar um prazer indiscutivelmente maior: o de não fumar”.
Eu disse ao chato que já tinha ouvido e lido mais de 400 vezes aquele raciocínio e que ele me deixasse ficar sozinho com a aflição que me carregara para o hospital.
“ Vá adiante e por compaixão me dê uma folga!”, murmurei.
Afastei-me do chato e ele ficou chateando minha mulher.
Foi aí que eu vi que quando o sujeito é chato, se não tem uma pessoa famosa para chatear, serve qualquer vítima, desde que ele possa continuar chateando, é preciso prosseguir na sua obra.

Cansado do chato, fui fumar debaixo de uma árvore.
É que não se pode fumar mais em lugar nenhum, hospital muito menos.
Eu então estava fumando lá na calçada traseira do hospital.
E ainda me afligia o sufoco do chato, quando estou fumando debaixo da árvore e passa uma senhora de mais ou menos 85 anos de idade.
E me diz: “ Fumando, não é?”.
E eu respondi pronto para ela: “ Sim, fumando, o que a senhora queria que eu estivesse fazendo aqui debaixo da árvore, jogando tênis?”.

Foi quando, à espera de minha mulher, fiquei debaixo da mesma árvore e apaguei o cigarro, só para ver o que ainda me esperava naquele cortejo de chatos.
Fiquei parado, sem fumar.
Passou um baixote, parou diante de mim e com a visível intenção de estabelecer conversa comigo, começou: “ Ué, é a primeira vez que te vejo sem estares fumando!”.

Vejam, então, que em qualquer hospital proliferam, dentro, as bactérias.
E fora, na calçada, proliferam os chatos.
No caso do Mãe de Deus, equipes chefiadas pelo diretor médico Alberto Kaemmerer e outros diretores estão em permanente higienização das instalações, no combate às bactérias.
Mas não descobriu ainda a ciência infectologista uma maneira de desinfetar os chatos circunstanciais das calçadas fronteiras, laterais e traseiras dos hospitais.

Em conversas e aulas dos últimos dias com quatro infectologistas porto-alegrenses, alguns dos mais ilustres, eles me falaram sempre na “ flora bacteriana”.
Foi quando, de tanto ouvir a expressão, me rebelei: “ Se os micróbios são chamados de ‘ bichinhos’, não se trata de flora bacteriana, mas de fauna bacteriana”.
E os infectologistas concordaram comigo, daí por que daqui por diante está instalada uma mudança célebre na semântica científica.

O grande médico gaúcho Eduardo Faraco, o homem que concluiu o Hospital de Clínicas em Porto Alegre e foi reitor magnífico da UFRGS, evitava o aperto de mãos.
Exatamente como eu venho evitando nos últimos dias.
Mas quando a pessoa insistia muito para apertarlhe a mão, ele cedia.
Só que tirava em seguida um vidrinho de álcool que trazia no bolso e desinfetava a mão apertada.
Quem me contou isso foi o ortopedista Marczyk ( pronuncia-se Marcheque) Isto quer dizer que eu estou no caminho da ciência quando aconselho aos gaúchos que passem a não se apertarem mais as mãos, evitando assim a transmissão de bactérias.

*texto publicado em 13/04/2008

1.300 assassinados

15 de maio de 2012 0

Uma manifestação pacífica de protesto voltou ao cenário das areias da praia de Copacabana anteontem, movida por entidades preocupadas com a violência.
Foi assinalado pelos manifestantes que, ainda não decorridos quatro meses do ano, já somam 1,3 mil as pessoas assassinadas na cidade do Rio de Janeiro em 2007.
Nos três primeiros meses do ano, os assassinados já tinham chegado ao número de mil.
Em menos de 20 dias de abril, já haviam sido acrescentados à fúnebre lista mais 300 cadáveres.

Talvez só as filas sinistras do SUS para cirurgias e consultas possam se equiparar em gravidade a esse morticínio no Rio de Janeiro.
E o ainda mais lamentável é que o número de assassinatos vem crescendo a cada ano e mês que passam, fugindo completamente ao controle das autoridades esse holocausto que leva todos a compararem-no ao que acontece no Iraque, um país ocupado.
Mas o Rio de Janeiro também é uma terra ocupada por bandidos, as favelas se derramam dos morros para as ruas e lá dentro delas há milícias armadas que ora entram em confronto, ora controlam os habitantes dos morros mediante tributação financeira ou de medo.

E vão sendo assassinadas 12 pessoas por dia na cidade.
Não incidentalmente, não em feriadões, como sempre é natural em todos os sítios, mas todos os dias, semana após semana, mês após mês.
E cada vez mais pessoas mortas, o que quer dizer que o crime se alastra entre a população e sempre mais bandidos novos são recrutados pelo crime.
O crime virou uma profissão e uma vocação.
Na falta geral de empregos, os meninos da favela já sabem que cedo terão de aderir à atividade criminosa, faz parte da carreira de muitos favelados entrar para a organização do tráfico de drogas e para os grupos armados que a protegem.

O desolador é que o Rio de Janeiro não enfrenta, como o Rio Grande do Sul, problemas financeiros: a exploração de petróleo em seu território rende dividendos bilionários ao Estado.
Não tem explicação que, mesmo assim, nadando em dinheiro, não consiga resolver nem atenuar os problemas criados pela criminalidade, que transformaram a antiga Cidade Maravilhosa em um campo de terror, capaz de amedrontar e encurralar seus habitantes e espantar milhões de turistas estrangeiros que se recusam a visitar a cidade com receio fundado de sofrerem assaltos e perderem a vida no turbilhão delinqüencial que varre aquela capital.

Eu sempre digo que não nasci para decidir, nasci para influir.
Foi assim que influí decisivamente para que o então governador Olívio Dutra fixasse um salário mínimo regional.
A lei permitia que os Estados fixassem piso salarial superior ao designado pelo governo federal e esta coluna inspirou o governo Olívio Dutra a dar aos trabalhadores gaúchos um salário mínimo muito maior que o oficial, benefício do qual desfrutam até hoje.
Agora, o ex-governador Antônio Britto declarou à revista Voto que, quando, em 1995, a Renault decidiu não instalar-se no Rio Grande do Sul, este colunista fez um comentário no Jornal do Almoço dizendo que ninguém no mundo empresarial gostava do Rio Grande do Sul, que nosso Estado só perdia, não conquistava grandes investidores.
E que aquele comentário inspirou-o a um discurso veemente na Federasul e foi decisivo para que seu governo acertasse a vinda da GM e da Ford, a última infelizmente preferindo, por cochilo e erro nosso, a Bahia.
Britto disse na entrevista que assim na “ raiva” e na “ raça” ficou demonstrado que o Rio Grande não só perdia, ganhara a GM.
Bem, se meu comentário teve tanta importância, cumpri com meu dever precípuo: influir.

*texto publicado em 21/04/2007

Frases de caminhão

14 de maio de 2012 4

Se for dirigir, não beba.
Se for beber, me chama.

Todo homem tem a fantasia de fazer sexo com duas mulheres ao mesmo tempo.
As mulheres deveriam gostar da idéia.
Pelo menos teriam com quem conversar depois que ele pegasse no sono.

Se dentista é especialista em dente, paulista é especialista em quê?  Sabe o que é a meia-idade? É a altura da vida em que o trabalho já não dá prazer e o prazer começa a dar trabalho.

Sempre que possível, converse com um saco de cimento.
Nessa vida, só devemos acreditar no que é concreto!

Se o horário oficial é o de Brasília, por que a gente tem que trabalhar na segunda e na sexta?

As nuvens são como os chefes...
quando desaparecem, o dia fica lindo!!!

Alguns homens amam tanto suas mulheres, que para não gastá-las preferem usar as dos outros.

Por maior que seja o buraco em que você se encontra, sorria, porque, por enquanto, ainda não há terra em cima.

Homem é igual a caixa de isopor, é só encher de cerveja que você leva para qualquer lugar.

A vida é para quem topa qualquer parada, e não para quem pára em qualquer topada.

Se você está se sentindo sozinho, abandonado, achando que ninguém liga pra você...
atrase um pagamento.

Se não puder ajudar, atrapalhe.
Afinal, o importante é participar.

Errar é humano.
Colocar a culpa em alguém é estratégico.

Cabelo ruim é que nem assaltante...
ou tá armado ou tá preso.

Não beba dirigindo! Você pode derrubar a cerveja.

Os homens mentiriam muito menos se as mulheres fizessem menos perguntas.

Carioca é assim, já nem liga mais para bala perdida.
Entra por um ouvido e sai pelo outro.

Bebo porque sou egocêntrico...
gosto quando o mundo gira ao meu redor.

Aquele que, ao longo de todo o dia, é ativo como uma abelha, forte com um touro, trabalha que nem um cavalo e, ao fim da tarde, se sente cansado que nem um cão...
deveria consultar um veterinário.
É bem provável que seja um grande burro.

*texto publicado em 26/05/2008

Bem e mal

13 de maio de 2012 0

E ra tão pessimista, que a cada um que encontrava não perguntava “ olá, tudo bem?”, indagava, isto sim, “ olá, tudo mal?”.
E ai de quem respondesse que ia tudo bem.
Acusava-o de ser fingido ou mentiroso.
Já a mim, quando perguntam se está tudo bem, respondo: está tudo normal.
Esta palavra, “ normal”, me parece ser uma boa resposta para quem quer saber como vai a minha vida.
Quando digo “ normal”, supõe-se qualquer coisa, que está tudo como sempre ou que ora vou bem, ora vou mal, que a vida é assim mesmo, cheia de altos e baixos.
E às pessoas mais inteligentes não escapa que dentro da palavra “ normal” está contida a palavra “ mal”.
Acontece que não me atrevo a dizer que está tudo bem e me envergonho de dizer que vai tudo mal.

Outras vezes, se não fosse enfadonho responder além da formalidade, gostaria de dizer que vai tudo bem porque está tudo tão mal, que já não há espaço para piorar.
Raras vezes, quando alguém é perguntado se está tudo bem, responderá que está tudo mal.
“ Olá, como vais, tudo bem?”.
O melhor é dizer que está tudo bem para não encompridar a conversa.
Porque, se a gente for dizer que está tudo mal, terá de obrigatoriamente explicar o que vai mal.
Não há nada mais cruelmente constrangedor do que, dito que está tudo mal, retruque alguém de “ por que está tudo mal? “.
Se alguém me pergunta por que está tudo mal, respondo que é porque não está tudo bem.
E a gente é tão comodista, que, se não está tudo bem, conclui-se, então, que vai tudo mal.
E mesmo quando não sentimos que está tudo mal, concluímos que isto não quer dizer que está tudo bem.

Ih, lá já vem aquele chato perguntar se está tudo bem.
Será que ele não é suficientemente sensível para saber que comigo tudo vai sempre mal? E gosto muito de uma outra resposta a essa pergunta que me fazem: quando alguém me indaga “ Como vais?”, respondo imediatamente: “ Vou indo”.
“ Vou indo” tonteia o curioso.
Ele vai quase a nocaute e puxa logo outro assunto.
“ Vou indo” é uma solução genial: ela tanto não nos obriga a dizer mentirosamente que vamos bem quanto não dá para quem pergunta a alegria da resposta de que vamos mal.

Além disso, na expressão “ vou indo”, está embutida uma forte carga de sinceridade.
É a mesma coisa que, indagado sobre “ como vais?”, a gente responder “ vou vivendo”.
“ Vou vivendo” resume tudo, quer dizer que ora se vai bem, ora se vai mal, bem assim como é a vida de todo mundo.
Quer dizer também que vai mal mas podia ser pior ou que vai bem mas bem que podia estar melhor.

“ Mal ou bem, eu vou indo bem” é uma resposta que quer dizer que “ eu vou regular”.
Uma outra resposta contundente é “ vou bem mal”.
Ou, então, quando indagado se vou bem, respondo: “ Bem, eu acho que vou mal”.
Ou, então, esta outra, mais tergiversativa: “ Mal e mal pressinto que vou bem”.

*texto publicado em 10/05/2009

Sala de Redação

12 de maio de 2012 5

Ouçam o Sala de Redação da última sexta-feira.

Jornalismo ao lado do povo

12 de maio de 2012 0

Há uns leitores que escrevem para que volte o Pablo a escrever esta coluna, ultimamente só o Paulo aborda os assuntos.
Estão com saudade do Pablo sentimental, poético, às vezes frívolo, outras vezes filosófico, a tratar dos assuntos do coração, da infidelidade, do ciúme, da inveja, do amor, do ódio, do fingimento, das relações conjugais etc.
Muitas dessas crônicas foram condensadas no livro O melhor de mim, editado aqui pela RBS, completamente esgotado, mas que será reedidato com milhares de exemplares em meados do próximo mês, aproveitando a aproximação do Natal.
Outras crônicas foram parar na Internet, uma delas, aquela em que me refiro aos meus amigos de quem me distanciei mas permanecem intactos e frementes em minha memória e lembrança, atribuída a Vinicius de Moraes, o que me encheu de orgulho.

Acontece, no entanto, que existe o ângulo social do jornalismo, a mídia se tornou uma espécie de grande e penúltima defensoria dos cidadãos, atribulados por inúmeros males.
Cedi à tentação de dar utilidade social a esta coluna.
Num tempo de graves aflições econômicas e financeiras para as populações, esta coluna decidiu sair em defesa dos consumidores e usuários de serviços públicos concedidos.
Na semana passada, por exemplo, recebi homenagem da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul, que decidiu, por iniciativa dos vereadores Elói Frizzo e Marcos Daneluz, exaltar a luta deste colunista “ em denunciar o abusivo preço dos combustíveis pago pelos gaúchos, assim como a disposição de disponibilizar os espaços de que dispõe no Jornal do Almoço e em Zero Hora para ser porta-voz da indignação que toma conta dos usuários de rodovias do Rio Grande do Sul por conta dos pedágios espalhados pelas nossas estradas, retratando em suas opiniões e posições o que se sente a maioria da nossa população”.
Vai daí que também passou a circular na Internet a minha coluna do dia 14 de setembro, intitulada “ Pergunta cretina”, na qual acuso de indevida e capciosa a indagação que se fará aos eleitores no plebiscito de 23 de outubro próximo sobre o desarmamento.

Ou seja, as pessoas se sentem atacadas em seus direitos por toda sorte de atribulações e danos advindos das relações sociais, dos governos, dos parlamentos – e enxergam muitas vezes na imprensa a luz do fim do túnel das suas vicissitudes.
Um exemplo só: tão pronto se verificou o último aumento dos combustíveis, escrevi aqui no dia 13 de setembro a coluna “ Pobre Bossoroca!”, denunciando que um cartel composto dos dois únicos postos de gasolina daquele município impôs à população de 8 mil habitantes o preço de R$ 3,12 pela gasolina comum.
A coluna estourou como uma bomba na comunidade e dois ou três dias depois, com sensibilidade, os proprietários dos postos baixaram o preço para R$ 2,90.
Chovem e-mails de bossoroquenses agradecendo o benefício de redução em R$ 0,22 por litro de gasolina, mercê dos protestos vindos de lá e acolhidos aqui nesta coluna.
Sendo assim, outra vez esta coluna se transforma em agência reguladora de preços.
Em outra oportunidade, o preço da gasolina baixou sensivelmente nos postos de gasolina de Porto Alegre depois de uma campanha insistente realizada neste espaço da penúltima página de ZH.

Sei lá, às vezes sinto também impulsos de retorno do ímpeto desta coluna em abordar temas mais amenos, poéticos, filosóficos, mas, como diz o Luis Fernando Verissimo, “ poesia numa hora destas?”...
E a hora é dramática: estão desarmando os acuados e cobrando dos gaúchos, em alguns casos, preço superior em 69% de certos combustíveis com relação a outros Estados.
A hora é de vigilância dos oprimidos.

*Texto publicado em 25/09/2005