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A sorte de Luxemburgo

20 de maio de 2013 0

Chego à Redação exatamente ao meio-dia de domingo, o tempo está enfarruscado, chove de vez em quando, uma chuvinha rala como a minha esperança.

Já lá se vão cerca de 2,3 mil domingos em que trabalho, dentro das 16 mil colunas que já escrevi em ZH nos últimos 43 anos.

Os dias se sucedem entre empolgantes e maçantes, o importante é que estou vivo e continuo trabalhando e subindo na vida, como uma pirâmide em demanda do infinito.

*

Depois de ler esta coluna, você, leitor ou leitora, terá mais condições de concluir se Luxemburgo fica no Grêmio ou será demitido.

Como já se sabe, a multa que o Grêmio terá de pagar a ele, caso o demita, soma vários milhões de reais.

Aí é que está a coisa: se o Grêmio não o demitir só para evitar de pagar a multa, então estará estabelecido que não o quer mais, mas não o demite só para não lhe pagar a fortuna, até mesmo porque dinheiro no Grêmio é coisa que anda em falta.

Nessa hipótese, muito concreta e que no meu entender é a que acontecerá, teremos um clube que não quer mais seu treinador mas terá de suportá-lo, o que caracterizará os próximos meses como repletos de constrangimento mútuo.

*

O Grêmio teria motivos fundados para demitir Luxemburgo. Ele não ganhou coisa alguma até agora, desclassificou seu time em vários campeonatos.

Além disso, saiu da cabeça do Luxemburgo um dia a ideia infeliz e errática de deixar Fernando no banco e botar um tal de Adriano no time, um absurdo que não se espera de um treinador que não esteja superado.

Três dias depois, a comprovar a estultice de Luxemburgo, Felipão convocou Fernando para a Seleção Brasileira.

Além disso, em decisão estapafúrdia, Luxemburgo decidiu a classificação da Copa do Brasil do ano passado com o Palmeiras, deixando estupidamente Moreno e André Lima, os dois únicos centroavantes que ele tinha, no banco. Perdeu de 2 a 0 como castigo à sua cegueira.

E, para coroar esse rosário de burrices, Luxemburgo levou o time para ficar 10 dias na Colômbia, onde decidiria a classificação com o Santa Fe, e retrancou-se humilhantemente em campo, afirmando com isso a mediocridade espantosa de declarar ao mundo que o Grêmio só buscava um resultado: o 0 a 0. E qualquer criança sabe, desde que foi inventado o futebol, que quem joga para empatar acaba perdendo.

Então, motivos não faltam para demitir Luxemburgo, o que pode faltar é dinheiro para pagar a multa que ele espertamente exigiu que fosse colocada como cláusula do seu contrato.

*Texto publicado na Zero Hora desta segunda-feira, 20/05/2013.

Os insones

18 de maio de 2013 0

De repente, me assalta indagar sobre o que vem a ser a insônia.

Só se apercebem que a insônia é uma doença os que de uma hora para outra, em noites sucessivas, se veem impedidos de conciliar o sono.

Logo lhes ocorre que a insônia deve ser uma súbita supremacia das preocupações contra o sono.

Mas sempre tiveram preocupações e nunca deixaram de dormir, como agora lhes sucede isso?

É preciso dormir para descansar e alimentar os músculos e os ossos, recuperar-se do dia fatigante.

E o sono não vem. Mas como é que antes vinha?

O sono é um dos prazeres da vida. Outro prazer é o paladar. Mas nunca ouvi dizer que alguém tivesse perdido o paladar como se perde o sono.

É possível que a algum desfavorecido da sorte tenha lhe desaparecido o paladar. Reflito, então, que a falta do sono é igual à falta do paladar.

Porque são transcendentais à sobrevivência humana os atos de comer e dormir. Ambos têm a salutar função de alimentar o corpo.

E, se não há notícia de que tenham falhado as glândulas gustativas de alguém, no entanto nos jornais e revistas pululam pessoas se queixando de insônia. E como resolvem suas insônias os que são atacados por elas?

Fatalmente recorrerão aos soníferos, agentes artificiais do sono. Mas não pode uma pessoa tomar um, dois ou mais comprimidos todas as noites antes de dormir, pode criar uma dependência perigosa.

Então, como resolvem a insônia as vítimas dela? E, se há assim tantas vítimas de insônia espalhadas pelo mundo, por certo haverá já setores da medicina ocupados exclusivamente com doentes de insônia.

Raciocino assim, voltando ao que pensei antes, que não são as preocupações que levam à insônia. Acontece o seguinte: não podendo dormir, os insones em sua vigília anormal mergulham nas preocupações.

As pessoas normais vão para a cama absortas em preocupações, nem por isso deixam de dormir, até mesmo para fugir delas.

Os insones é que, impossibilitados de dormir, não têm outra coisa que fazer que não seja preocupar-se.

Não fosse assim, os que têm outras doenças, os endividados, os presidiários, os mal-amados, os gremistas, não dormiriam.

E, no entanto, todos dormem. Só não dormem os insones, embora tenham sono.

Como sei, pelos e-mails que recebo, que muitos leitores meus padecem de insônia, quero daqui enviar-lhes o meu respeito e minha solidariedade.

Pode ser que esta coluna por alguma forma os ajude a dormir nalguma noite.

A bela sozinha

17 de maio de 2013 0

Estou no fumódromo e uma das cadeiras ocupadas o é por uma linda moça, ali pelos 20 anos, no máximo 22. Um portento de senhorita.

Pernas torneadas, cabelo alinhado, pés e mãos com dedos simétricos, deixa antever duas maçãs nos seios que se forem se libertar do sutiã parecerão dois pombos assustados.

Bela senhorita.
Além de tudo, é portadora de uma meiguice encantadora.

Pergunto-lhe de chofre: “Deve ser fácil para você arranjar um namorado?”.

Ela respondeu prontamente: “Tá muito difícil”.

Fico a cismar no que deseja mais a minha curiosidade que não seja perscrutar a alma da forçosa moça.

No entanto, está difícil para ela arranjar um par. Imagino como são idiotas os rapazes que deixam de explorar aquela energia desaproveitada.

Como dizem na rua, o difícil é a relação. Aquela moça por exemplo está prestes a ser conquistada, no apogeu da sua formosura e juventude.

E no entanto não lhe surge o príncipe encantado.

Falta um estalo para aquela moça ou para cada um dos seus prováveis pretendentes.

É só uma questão de encaixe, alguém que adivinhe ou simplesmente constate os seus encantos.

Mas está ali aquela moça abandonada, amor febril para doar, estuante, pronta para a entrega, ou apta para a pronta entrega, e não aparece nenhum imbecil para desfrutá-la.

Como são intrincadas as relações humanas! Como é penoso livrar-se da solidão, mesmo que estejam aptas as pessoas para se entrelaçarem!

Aquela senhorita não pode continuar sozinha. Mas visivelmente há algo nela que a impede de aproximar-se de alguém que a entenda e mostre interesse.

E assoma como transcendental a sua beleza, o seu aspecto frágil de gata esquiva apelando por um adestrador.

Quantos e quantos desperdícios como esse espalhados por aí! Quanta gente à procura de um cais onde atraque seu vulto esplêndido de jovem bela e oferecida à procura de quem a guie pelos caminhos deliciosos do amor!

Mas por que prosperam assim tantas incompletudes? Por que tanta ânsia desatendida, por que tantos fastios desanimados?

Por que é indispensável que a mulher se una ao homem para realizar-se? Por que, enquanto não se dá esse encontro, uma frustração amassante percorre esses seres dilacerados, essas almas abandonadas à procura de um refúgio, de uma realização?

Por quê? Para que serve a semente sem germinação? Mas por que é tão difícil encontrar terra fértil e propícia em que prospere?

O que intriga é que eu não esteja aqui com piedade de uma mulher feia, sem atrativos, indesejável.

O que me deixa estupefato é que estou sentindo compaixão por uma mulher bela e desejante, capaz também pela sua ternura de fazer qualquer homem feliz.

Será a timidez que a impede de relacionar-se? A ofuscante beleza é que não é.

O relógio e o espelho

16 de maio de 2013 0

Até o máximo possível e permitido, nunca se deve dar relógio de presente para crianças. O primeiro passo para a aflição do homem é o relógio. A criança é feliz porque não tem noção das horas, do compromisso, do dever com hora marcada.

Nunca vi em minha vida uma criança acordar-se e ver que horas são. Este é o reflexo imediato de qualquer adulto. Depois do sono reparador, do desligamento da vida, retornamos às nossas preocupações.

O sono é o céu do vazio, do nirvana, o relógio traz-nos de volta ao inferno das obrigações.

***

Consulte seu passado, o tempo mais feliz de sua vida foi aquele em que não usava relógio, indiscutivelmente.

O relógio é o instrumento que mede a vida e dá-nos a consciência da morte, a pior desgraça dos humanos. Os animais são felizes porque não sabem que terão de

pagar o preço da morte. O homem começa a ter noção de que sua vida terá um fim quando põe pela primeira vez um relógio no pulso, ignorando que aquela é a algema que o amarra ao tempo, portanto à finitude.

***

Eu nunca daria de presente um relógio a uma criança. Gostaria que ela permanecesse indiferente e imune aos prazos, solta, que não tivesse nem noção do dia e da noite, apenas fosse dormir e despertasse quando tivesse sono ou dele se saciasse.

Ter hora para dormir, para acordar-se, para trabalhar, para comparecer à audiência ou ao encontro, estas horas fatais todas é que vão destruindo as pessoas e aproximando-as da morte, senão pelo fato, mas pela perspectiva.

***

O paraíso de Adão e Eva dá-se exatamente porque não havia lá um relógio, nem o casal primevo conhecia quem o antecedera, o que significaria a morte.

Os tempos da infância e da juventude são os mais felizes pela inconsciência da morte. Até quando fiz 40 anos, eu pensava que era imortal. E essa é a sensação de todos os jovens.

O jovem sabe que vai morrer, mas está tão distante da morte, que consegue ignorá-la, ela não passa de uma utopia diante da vida estuante que se oferece à sua frente. Tem mais é que pensar na vida, o prazo da morte desaparece em meio à delícia existencial.

***

Não há instante mais crucial da vida que aquele em que o homem se olha no espelho e vê que não é mais aquele. O primeiro inimigo do homem é o relógio, o segundo é o espelho.

Reparem que as crianças nunca se olham no espelho, a não ser quando cobiçam idiotamente tornaremse adultas. Já o adulto olha-se no espelho sempre com um pé atrás, sabendo que seu aspecto só pode retroceder.

O homem que olha para o relógio ou para o espelho está sendo aos poucos aniquilado pela maior adversária do homem, que é a pressa.

Não conheço pessoa madura que não seja escrava prestativa do relógio ou do espelho, instrumentos da sua agonia.

Nunca dê um relógio ou um espelho para uma criança. Ela só é feliz porque estes dois objetos sãolhe absolutamente dispensáveis.

A morte piedosa

15 de maio de 2013 0

Chamou-me a máxima atenção o caso do belga Rom Houben, que todos acreditavam passar por estado vegetativo, em coma que durou 23 anos, mas agora se comunicou com os médicos e declarou que esteve consciente durante esse tempo todo, sem contato nenhum com o mundo externo que não fossem seus ouvidos.

O caso é realmente fantástico.
O cérebro do jovem belga esteve raciocinando durante 23 anos, mas ele não podia cometer qualquer movimento que pudesse acusar seu estado consciente para suscitar providências médicas respectivas.

Acho até que não posso usar esta expressão, mas esse heroico cidadão belga esteve em coma consciente por 23 anos.

Como disse Zero Hora anteontem, Rom foi prisioneiro do próprio corpo por 23 longos anos. Não tinha como sair de si e ter contato com o mundo externo.

Imagine-se o sofrimento
desse homem. Nem sei como não enlouqueceu. Ele ouvia tudo o que diziam em torno de si os médicos e seus familiares, devia munir-se de intensa e crucial agonia, querendo transmitir sua consciência mas não podendo mover nenhuma parte de seu corpo, nem as pálpebras, impotente, desanimado, exangue, inerte, um morto-vivo mergulhado nas trevas do coma.

Foram 23 anos de cativeiro. Sabe-se lá de que mecanismos mentais teve de se valer para manter intactas as faculdades mentais, ele raciocinava como qualquer pessoa.

É impressionante este caso. Esse homem tem de ser entrevistado para que se saiba por que não se lhe desfaleceram as forças e ele resistiu até não deixar de raciocinar nunca.

Se para um paciente recolhido por meses a um hospital, podendo mexer-se e comunicar-se com todos os que entram no quarto, já é um suplício este internamento, imaginem um corpo preso a si próprio durante 23 anos, com o cérebro funcionando, em plena consciência, como há de ter sobrevivido esse homem?

E como seu desespero não virou loucura?

Este caso, se por um lado revela ao mundo que há vidas estuantes atrás dos muros do estado comatoso, há de remeter mais ainda para o debate sobre a eutanásia.

Dirão os humanistas que, enquanto houver vida, ninguém pode extingui-la. Ninguém tem o direito, argumentarão, de interromper uma vida, por mais inútil e sofrida que seja.

E eu não me envergonho de declarar que mais ainda me torno adepto da eutanásia depois de conhecer o caso de Rom Houben, o belga que mergulhou nas trevas do estado comatoso, sem perder a consciência, isto é, em últimas palavras, entregue miseravelmente a um sofrimento atroz e permanente.

Neste caso e em tantos outros, creio firmemente que se aplica a morte piedosa.

A ciência não tem o direito, a meu ver, de prolongar indefinidamente esse gigantesco sofrimento. Quando a um homem que sofre assim tão eloquentemente é negado o direito de pôr fim à sua vida, o ambiente externo tem de assisti-lo e socorrê-lo no caminho da morte.

Por entre as reportagens em torno desse caso, está faltando um só dado: se em meio ao monumental tormento de que foi e é vítima, o belga infeliz pensava em sobreviver ou acalentava o sonho da morte, desejando-a para colocar um fim na sua cruz.

Tenho certeza de que ele sonhava que alguma mão compassiva e inteligente pusesse fim à sua vida.

A vida das abelhas

14 de maio de 2013 0

Um jovem haitiano de 24 anos foi salvo dos escombros depois de permanecer 11 dias em um espaço de apenas um metro quadrado.

Deve ter sido um sofrimento terrível. Ele trabalhava no bar de um hotel, que caiu todo sobre seu corpo.

Completamente coberto pelo pó dos destroços, declarou, ao ser salvo, que sobreviveu comendo pequena quantidade de biscoitos durante os 11 dias, mas principalmente bebendo Coca-Cola.

Sabe-se que o organismo humano sobrevive a dezenas de dias sem alimentos sólidos, mas perece se não tomar líquido.

Calculei que a Coca-Cola que esse homem bebia para sustentar seu metabolismo não era Coca Light nem Coca Zero. Era Coca normal mesmo. Só com muito açúcar, ele pôde manter firme seu esqueleto.

Cismei também sobre a sorte desse rapaz: ele ficou restrito a espaço de apenas um metro quadrado e os refrigerantes que lhe restaram ali não eram dietéticos. Fossem-no e ele teria morrido.

Sobre refrigerantes dietéticos tenho um depoimento que pode alterar a ciência da apicultura.

Estava tomando minha Coca Zero no famoso Miau da Cabral, que serve, ali naquela rua com esquina para Miguel Tostes, deliciosos espetinhos de picanha, queijo, toscana, xixo, calabresa e outros, quando percebi que um bando de abelhas voejava em torno à minha mesa.

Pensei comigo que aquelas abelhas estavam loucas, a Coca-Cola que eu bebia não era normal, não havia açúcar nela.

Então por que estavam sendo atraídas pelo líquido?

Elas foram levitando como helicópteros em direção à lata de Coca-Cola, uma a uma iam pousando no bojo da lata e penetrando pelo furo, desaparecendo no fundo.

Daí que cheguei a uma conclusão laica: o que atrai as abelhas não é o açúcar, mas o doce. O líquido melífluo da Coca Zero é também saboreado pelas abelhas, o que quer dizer que o aspartame ou outro ingrediente das substâncias dietéticas são do interesse proteico das abelhas.

Fiquei intrigado sobre se o mel que aquelas abelhas produzirão depois de terem ingerido Coca Zero será dietético ou não.

E, na minha investigação alienada sobre a origem do mel, cheguei à conclusão de que as flores onde as abelhas vão buscar o néctar para produzir o mel contêm forte quantidade de açúcar.

Nunca reparei quando mastiguei pétalas ou cílios de flores que eles eram doces. Será que o pólen é doce? Vou prová-lo uma hora dessas nas margaridas que tenho na sacada da minha casa.

Fico sabendo à última hora que as abelhas têm cinco olhos, três deles no topo da cabeça e dois olhos compostos, maiores, na frente.

E que uma abelha produz cinco gramas de mel por ano. Para produzir um quilo de mel, as abelhas têm de visitar 5 milhões de flores.

E que só as abelhas fêmeas trabalham, os machos servem apenas para fecundar a abelha rainha. E, se nascerem duas abelhas rainhas, elas entram em luta, até que uma delas morra.

E que, no fim do verão, depois que os machos já tenham fecundado a rainha, as operárias fecham a porta da colmeia e deixam os machos lá fora morrerem de frio e de fome.

A abelha rainha vive durante quatro anos e as operárias apenas 45 dias.

Dizer que eu só fui adquirir esse conhecimento a partir da minha Coca Zero!

O segredo

13 de maio de 2013 0

Tenho particularmente fascínio por um tema: o segredo. Acho até que uma das grandes atrações da vida é poder guardar um segredo. Há diversas nuanças entre os segredos. Vou pinçar agora uma: duas pessoas se amam e mantêm em segredo o seu amor. Ele é curtido silenciosamente entre os dois, as outras pessoas todas que vivem ao derredor  desses dois enamorados desconhecem completamente que eles se amam. Evidentemente que os compromissos e as convenções sociais impelem esses dois namorados secretos a manterem seu segredo.

Se por um lado custa-lhes muito caro manter esse segredo, que caso fosse violado ameaçaria a sobrevivência do amor oculto, por outro é extremamente delicioso para os dois amantes que eles não confiem a ninguém o seu segredo. Os dois comparecem a reuniões, almoços, jantares, festas, ninguém desconfia deles. E eles curtindo saborosamente o seu segredo.

O diabo é que o segredo sempre carrega dentro de si uma culpa, uma vontade de desabafar, um ímpeto de gritar ao mundo que todos deveriam ficar sabendo daquilo, libertar-se assim dos grilhões que amarram o seu segredo. “Ela sabe que eu a amo, eu sei que a amo, isto é o suficiente.”Será mesmo isso suficiente? Quantos e quantos casos de amor inundam o cotidiano, nos quais a marca mais genuína é a confidencialidade? Este segredo em amar é muito frequente em pessoas casadas, que querem manter seus laços conjugais e temem mergulhar nos riscos da aventura extraconjugal ou da separação, se o segredo for violado.

Mais frequente que o segredo guardado a sete chaves por duas pessoas é o segredo que pertence a uma só pessoa. Ela ama, mas ninguém sabe que ela ama, nem mesmo a pessoa que por ela é amada. Parece uma idiotice não noticiar a uma pessoa a quem se ama que ela é assim intensamente amada, mas não é. A vida trata ela mesma de antepor obstáculos vários entre as pessoas que amam. Quando alguém ama e a pessoa amada não tem conhecimento disso, imaginem a tensão, o nervosismo, a intensa emoção da pessoa que ama quando se encontra com a pessoa amada, o seu constrangimento em não revelar por nenhum gesto ou palavra o seu segredo!

Sempre, o detentor de qualquer segredo é um prisioneiro dele. Ele não vai dormir por sequer qualquer noite sem preocupar-se com seu segredo. E muitas vezes aquele segredo amassa tanto seu detentor, que ele não resiste e acaba rompendo o segredo. Se por um lado arrastará todas as consequências da violação do seu sigilo, por outro quem conta um segredo saboreia a deliciosa sensação de liberdade, tirou de cima do seu corpo aquele fardo pesado e insuportável. Pronto, não existe mais o segredo. Mas de que irá viver daqui para a frente quem não tem mais um segredo sob sua guarda? O violador do segredo mergulha num escuro abismo de vazio.

*Texto publicado em 25/11/2010.

Beber no bico

12 de maio de 2013 0

Eu ia dizer que tenho um vício, além do cigarro, qual seja o de tomar refrigerantes.

Bebo cerca de 10 refrigerantes por dia. Não é vício porque, ao contrário do cigarro, não me faz mal.

Mas essa disposição duradoura que tenho para repetir com frequência o ato de beber refrigerante se incorporou de tal forma à minha conduta, que levanto pela manhã e já está martelando em meu cérebro a vontade de tomar um refrigerante.

Ainda mais constante se torna esse hábito porque os fabricantes de refrigerante tiveram a ideia de nos proporcionar um líquido doce como o mel, que no entanto não contém açúcar.

Essa ânsia louca que tenho por ingerir açúcar, ou melhor, por saborear açúcar, é aplacada em seus efeitos devastadores pelos refrigerantes diet.

Se inventassem esse mesmo simulacro para o cigarro, eu estaria feito na vida, imaginem um cigarro sem nicotina e alcatrão que tivesse o mesmo gosto que este cigarro que fumo! Seria uma grande invenção.

Por isso é que avalio que o refrigerante doce sem açúcar é uma das maiores invenções da humanidade.

O que ninguém me explica é como, não sendo um vício, o refrigerante no entanto vicia.

Um hábito que vicia. Vou lhe dizer uma coisa, não vivo sem refrigerante, não como sem refrigerante. E, quando não como, no entanto estou tomando sempre um refrigerante.

O monumental volume de refrigerantes que é vendido me dá conta de que sou apenas um dos tantos milhões de viciados em refrigerantes.

Por sinal, esses dias li em Zero Hora que o Rio Grande do Sul é o Estado em que mais se bebe refrigerante no Brasil.

Que mania de beber o gaúcho tem, desde o chimarrão até a cachaça, agora também o refrigerante, o gaúcho está sempre bebendo.

Gasto tanto de gasolina e de cigarros quanto gasto de refrigerantes. Sou um grande pagador de impostos.

Agora que extinguiram a Coca Light, entrei em confusão. Ela era a minha preferida e, embora eu esteja na fase de indecisão quanto ao refrigerante que a sucederá na minha preferência, continuo bebendo a mesma quantidade: cerca de 10 por dia.

Bem geladinhos.

Como é doce este Sprite! E como é deliciosa esta Guaraná Antarctica Diet. E não existe diferença nenhuma entre a Coca-Cola normal e a Coca Zero, nenhuma.

As pessoas que tomam a Coca-Cola normal desconhecem que a Coca-Cola Zero é igual. Bastaria para elas, se não quisessem engordar, ficar tomando a Coca-Cola Zero durante 15 dias e se fixariam nela, não notariam a diferença.

Mas agora inventaram a H2O e a Aquarius, interessantes derivativos, com muitos consumidores. Já bebi. Gostei. Mas é que são embaladas em plástico e aí não calham como minha praia.

Por sinal, até contra a lata dos refrigerantes eu tenho preconceito: o bom mesmo dos refrigerantes é quando todos vinham nas garrafas.

Não existia maneira mais gostosa e eficaz de matar a sede do que beber refrigerante no bico.

Que saudade do bico!

Feliz ou infeliz

11 de maio de 2013 0

O tema hoje é o que mais almejam os seres humanos: a felicidade.

Já escrevi certa vez que os filósofos erram quando dizem que o supremo dever do homem é a busca da felicidade.

Mas, se os próprios filósofos declaram que a felicidade, por ser efêmera, não existe, como pode ser dever do homem procurar o que não existe?

Então, eu corrigi os filósofos: por revés, o dever do homem na Terra é buscar ser menos infeliz.

*

Aí que entra o célebre verso do Ataulfo Alves, o grande sambista: “Eu era feliz e não sabia”. Esse verso é uma adaptação do dito de filósofos, que sempre perquiriram que o homem muitas vezes não sabe que é feliz.

Eu iria mais adiante: o homem só é feliz quando não sabe que é feliz, o que no fim das contas nada significa.

E por outra parte pergunto: não é de todo pertinente que o homem também não saiba que é infeliz?

Eu, de minha parte, garanto que o homem só pode se sentir feliz quando, sem saber, ele é infeliz.

Ou de maneira mais radical: só um idiota pode se sentir feliz.

*

Só pode dizer que era feliz e não sabia quem venha posteriormente a ser tão infeliz que passe a invejar o estado anterior que ostentava.

“Eu era feliz e não sabia” quer dizer que não gozou da felicidade por desconhecer que com ela tratava.

E só agora, que é infeliz, tem consciência de que aquele estado que vivia era o de felicidade.

Ora, quem é feliz e não sabe que é feliz, por lógica, não é feliz.

Em suma, para ser feliz é preciso sentir-se que é feliz.

*

Já aquele que é infeliz e não sabe, por lógica, é feliz. É uma espécie de loucura delirante, a pessoa sofre e não sabe que sofre, por consequência não sente a dor e o infortúnio quando estes batem à sua porta, invadem seu domicílio e a submetem.

Ou seja, os que são infelizes e o desconhecem ou são muito fortes, ou estão loucos.

Pode-se dizer que são felizes.

*

É que no meio desses estados existem outros mil, como, por exemplo, o dos que são felizes tão somente por estarem sempre esperando a felicidade. É a felicidade da esperança, a felicidade dos crentes que têm a certeza de que Deus virá para chamá-los para o reino dos céus.

A única felicidade para eles consiste em esperar a felicidade. Isso é o que se chama de sonho.

O sonho é o lenitivo para o sofrimento, sofre-se, mas mergulhando no sonho o sofrimento passa a não doer, passa a não existir, sobrepujado pela esperança.

*

Além disso, o estado de felicidade é sempre cotejado com a felicidade ou a infelicidade alheia.

É impossível ser feliz se moram ao nosso lado ou convivem conosco pessoas que consideramos felizes.

A felicidade alheia, muitas vezes, é a causa única da nossa infelicidade.

Muitas vezes é impossível para nós encarar com naturalidade a felicidade alheia. Ela nos agride e não raro nos torna infelizes.

Por todas essas barafundas, não há nada mais difícil, senão impossível, do que ser feliz.

Vantagens do pessimismo

10 de maio de 2013 0

O pessimismo, como já afirmei, é uma doença. Por ela, o paciente acha que tudo de ruim pode lhe acontecer, não confiando nunca que fatos favoráveis a si vão ocorrer.

Uma derivação mais grave do pessimismo é a hipocondria, trata-se da crença do paciente de que ele está ou logo em seguida vai ficar doente, alguma coisa de ruim vai acontecer com seu organismo.

*

Pensando melhor, vi que há vantagens em ser pessimista ou hipocondríaco.

Como sempre prevê delirantemente que alguma coisa ruim vai lhe acontecer – ou já está acontecendo – e como essas coisas na maioria das vezes não acontecem, todos os dias o pessimista obtém uma vitória, não lhe ocorreu o que de ruim tinha previsto. Ele tem, portanto, diariamente, com o que festejar.

É verdade que a preocupação com seu futuro não cessa. Mas pelo menos ele passou mais um dia livre da sua nefasta previsão.

*

Já com o hipocondríaco se dá algo não muito diferente: todas as semanas ou todos os meses ele vai ao médico para submeter-se a exames. Vai convicto de que encontrará alguma doença em seu corpo.

E, na maioria das vezes – ou sempre –, ele não tem doença alguma. Não é também uma forma de triunfo e de alegria? Pois, todas as vezes que os exames são negativos, de certa forma ele conseguiu uma vitória sobre a sua convicção, não tem doença alguma, sai do médico com justo motivo para festejar.

A não ser que os meus leitores entendam que é uma imensa frustração para o hipocondríaco que o médico não tenha achado doença nenhuma em seus exames. Mas, se isso acontecer, ele não é hipocondríaco, ele é louco mesmo, pirou e não tem mais salvação.

*

Pegue-se, por exemplo, um otimista e um pessimista com vidas absolutamente idênticas, em tudo, o que aconteceu para um aconteceu para outro.

Como nada de ruim ocorreu para nenhum deles, o otimista não lucrará nada por ter dado certo sua previsão.

Enquanto que o pessimista terá todos os motivos para saudar efusivamente que nada de ruim lhe aconteceu. Afinal, ele tinha certeza de que iria acontecer. O pessimista, portanto, é o único que lucra quando suas previsões não deram certo.

O triste para os pessimistas e para os hipocondríacos é que nunca cessam suas previsões catastróficas. Eles escapam de serem atingidos hoje, satisfazem-se com isso, mas já começam imediatamente a nutrir medos de que amanhã serão vítimas de uma tragédia ou de uma doença maligna.

Um trago de olvido

09 de maio de 2013 0

Só agrava a imensa culpa minha por fumar o fato de eu não beber. É que eu sinto inveja de alguns amigos meus que todas as tardes correm para um bar e deitam-se a beber seu uísque ou seu chopinho.

Eles, chegada a tardinha, se tornam impacientes no serviço, não vêem a hora de seguir para o bar.

Beber é um excelente estratagema para espantar o tédio. Talvez fumar também o seja, mas este encontro diário dos meus amigos com seus companheiros de drinques soa-lhes como um ideal existencial.

É de ver-se o contentamento estampado nos rostos das pessoas que bebem. Elas vão dormir à noite já com a deliciosa expectativa de que poderão beber novamente amanhã.

A vida tem solução para quem bebe, é o que fico cismando enquanto os invejo.

O homem que bebe é um ser gregário. Podem ver, todos os que bebem têm roda garantida em algum lugar. Acabam se encontrando por algum encantado fatalismo e formam confraria. Raros são os espécimes, como meu pai o era, que bebem sozinhos e em casa.

Beber tem de ser em lugar público. Se for lugar privado, em turma. Logo, beber é um ato agressivo à solidão.

Não é o caso de fumar, que é uma ação introspectiva, individual, reflexiva. Beber é uma forma de encontrar-se com os outros.

Já fumar é esconder-se, encaramujar-se, defrontar-se consigo próprio, emaranhar-se na teia dos problemas íntimos.

Beber é deixar de pensar, é recordar, é fugir do mundo.

Fumar é enfrentar o mundo e encarar de frente o ataque das aflições.

Eu às vezes me arrependo de não ter adquirido nunca o gosto pela bebida. É verdade que não gostaria de fumar e beber ao mesmo tempo, dizem os especialistas que esta associação é trágica para a saúde e para a sobrevivência.

Mas eu gostaria mais de só beber do que desta situação em que me encontro, em que o cigarro não vence minha melancolia, acho até que, pelo contrário, a aprofunda

Enquanto que a bebida está ligada umbilicalmente à alegria, tanto que é componente indispensável de todas as festas.

A bebida é nitidamente instigadora do diálogo, da conversa, do bom humor. Porque a bebida implica claramente o esquecimento, enquanto que o cigarro faz acentuar a realidade.

A bebida é uma fuga, o cigarro é uma contrição. Pela bebida, driblase o destino, já com o cigarro a gente bate de frente com ele.

Em ambos os casos, tanto a bebida quanto o cigarro são recursos para satanizar a tristeza, só que a bebida é uma retirada estratégica, enquanto o cigarro é uma contracarga, uma forma de arremeter sobre o inimigo ameaçador e parcialmente vitorioso.

Pela bebida, perdem-se os reflexos, pelo cigarro, eles são mais ainda excitados.

Quem bebe, debanda das circunstâncias adversas, quem fuma, não podendo desertar, trata de adquirir consciência mais nítida do perigo.

E eu queria só beber em vez de só fumar, porque desconfio que os períodos de trégua seriam longos e reconfortantes.

(Crônica publicada em 11/01/2003)

É sempre, sempre assim

08 de maio de 2013 0

Quando um orador, no início ou fim de seu discurso, pronuncia a frase “...eu não quero me espichar, mas...” , é absolutamente certo que ele vai se espichar.

Quando alguém o aborda com a frase “Eu não queria te chatear, mas...”, é absolutamente certo que essa pessoa vai em seguida chateá-lo ao extremo.

Quando uma mulher diz dramaticamente para um homem “...eu não posso, eu não devo, eu não vou te amar...”, é absolutamente certo que esta mulher já está amando aquele homem.

O poeta mexicano Amado Nervo (1870-1919), segundo os melhores críticos literários do século passado, teve sua obra na altura exata das de García Lorca, Rubén Dario e Pablo Neruda, dentro da literatura hispânica.

Só para dar uma ideia de seu vulto, como todos os grandes intelectuais da sua época, amava Paris. E em Paris tornou-se grande amigo de Rubén Dario, de Verlaine, de Moraes e de Oscar Wilde, além de todos os literatos destacados de todo o mundo que gravitavam em torno da capital francesa.

Seus poemas estenderam sua celebridade em todos os países de língua espanhola.

Entre tantas joias da poesia de Amado Nervo, cujos poemas principais se alçam aos píncaros da literatura americana, escolhi um deles para brindar os meus leitores neste domingo.

Emocionei-me quando o ouvi no Sala de Redação, lido pelo Kenny Braga.

A tradução, fidelíssima a considero depois de ter buscado e lido o original em espanhol, é de Aurélio Buarque de Hollanda, o autor do Aurelião.

Eis o poema monumental:

Em Paz

Já bem perto do ocaso, eu te bendigo, ó Vida,
porque nunca me deste esperança mentida,
nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

Porque vejo, ao final de tão rude jornada,
que a minha sorte foi por mim mesmo traçada;
que, se extraí os doces méis ou o fel das cousas,
foi porque as adocei ou as fiz amargosas:
quando eu plantei roseiras, eu colhi sempre rosas.

Decerto, aos meus ardores, vai suceder o inverno:
mas tu não me disseste que maio fosse eterno!

Longas achei, confesso, minhas noites de penas;
mas não me prometeste noites boas, apenas,
e em troca tive algumas santamente serenas...

Fui amado, afagou-me o Sol. Para que mais?
Vida, nada me deves. Vida, estamos em paz!

Pizza em zona de guerra

07 de maio de 2013 0

Considero que um dos direitos civis básicos é receber em casa pizza por tele-entrega. Uma das maiores invenções da civilização é, além do motoboy, o serviço de delivery, você em casa pode receber a sua pizza ou qualquer outra comida, o remédio da farmácia etc. Pois acreditem se quiserem, inúmeras pizzarias estão se recusando a fazer tele-entregas em bairros de Porto Alegre, alegando falta de segurança para seus entregadores.

Quem mora nos bairros Jardim Leopoldina e Rubem Berta, por exemplo, arrisca-se a não receber pizza em casa, em face de os dois bairros, além de outros bairros adjacentes, serem considerados pelas pizzarias como zonas de alta insegurança. A que ponto chegamos, muitas vezes as pessoas deixam de sair para jantar fora, receando a insegurança das ruas, pedem pela tele-entrega a pizza, que é recusada pelo motivo de que o autor do pretendido pedido mora em zona onde há muitos assaltos, o que poderia colocar em risco o entregador. Dizem-me que o mesmo já acontece em ruas em torno do Morro de Santa Tereza e em alguns locais do Partenon.

Recebi muitas reclamações de pessoas que moram dentro do Jardim Leopoldina e do Rubem Berta ou em zonas vizinhas. E me sensibilizo com seus protestos por entender que dessa forma é agredida sua cidadania. Essas pessoas são discriminadas em seus direitos. Na faixa da negociação, não seria o caso das pizzarias cobrarem uma taxa acessória para fazer entrega nesses locais que julgam perigosos? As pizzarias cobrariam uma “taxa de insegurança” e poderiam assim entregar os produtos. Mas, por outro lado, não seria uma forma de colocar em risco a vida dos entregadores em troca apenas da recompensa através da taxa?

Uma leitora, que não quis se identificar, alegou que defronte à sua casa nunca ocorreu qualquer assalto, como então pode a pizzaria classificar o lugar onde mora como inseguro? Eu calculo que a rua onde mora a leitora não seja insegura, porém o trajeto que o entregador tem de percorrer até chegar à sua residência mostra índices expressivos de assaltos. Fico pensando que na marcha que vai a insegurança das ruas, qualquer dia as pizzarias vão ter de usar carros-fortes para realizar suas tele-entregas.

E o cliente que for receber em casa a pizza por uma fresta do carro-forte, por onde passará também o dinheiro, deverá ter a cautela de usar colete à prova de balas.

A Rudder, por exemplo, uma das melhores empresas de segurança privada, poderia criar o segmento-pizza, que consistiria na tele-entrega do alimento em quaisquer recantos da cidade, mediante um séquito de seguranças e veículos protetores do ato de entrega das pizzas nas residências. Parece que estou vendo aquele batalhão precursor de batedores, seguido do carro-forte, invadindo a vila ao toque de sirenas. E todo o mundo perguntando na vila: “O que houve? Outro assalto?” E a resposta: “Não, a entrega de uma de atum e outra de calabresa.”

Só agora encontro explicação para um anúncio que li estes dias em ZH-Classificados: “Tratar diretamente com o proprietário. Vende-se casa nova, com dois pisos, uma garagem com três vagas, churrasqueira, em rua do bairro onde circula livremente qualquer serviço de tele-entrega”.

Houve um gol do Juventude?

06 de maio de 2013 0

Ficou claro nas primeiras escaramuças sobre esse escândalo das áreas ambientais dos governos do Estado e de Porto Alegre que a demora na concessão de alvarás, cujas solicitações se empilham aos milhares nos órgãos competentes – a demora, repito, é a grande aliada da corrupção.

Quanto mais demora a licença, mais fica nervoso o solicitante e por isso tende a tentar corromper o servidor público. Vejam aí que nessa hipótese se beneficia o servidor público ou autoridade que aceita propina com a demora.
Quanto mais demorada a licença, maior deverá ser a eventual propina.
***
Mas, paralelamente, aqui no Brasil, existe uma insistente rotina: quase sempre, nos escândalos em que servidores públicos ou autoridades se corrompem, não aparecem os corruptores. Estranho isso: não há corrompido se não houve corruptor.
Você, leitor, já ouviu alguma vez alguém punido por subornar ou tentar subornar o guarda de trânsito?
Nunca. No entanto, aqui no Brasil só se acha grave o guarda de trânsito que se corrompe. Quanto aos motoristas que o corromperam, estes escapam quase sempre ilesos.
Sendo assim, somam-se aos milhares os guardas de trânsito que foram demitidos por terem sido subornados. Caso também de milhares de corruptos que foram punidos em outras circunstâncias.
Quanto aos que pagaram as propinas, necas de pitibiribas.
E, nesse escândalo da área ambiental gaúcha, aparecerão também os que pagam propinas? E não só os que recebem propinas?
Esperemos para ver.
***
Em primeiro lugar, quero deixar bem claro, para que não pairem dúvidas a respeito, que envio a todos os colorados os meus parabéns pela conquista de mais um título gaúcho.
Primeiro a minha elegância de vencido.
***
Em segundo lugar – aí é que está o problema –, nas duas últimas decisões, na fase semifinal e ontem, na finalíssima do turno, houve grandes problemas com as arbitragens, casualmente todos favorecendo o Internacional.
No jogo decisivo entre Juventude e Grêmio, aconteceram dois gols gremistas anulados pela arbitragem.
Um dos gols foi límpido, claro, incontestável, o de Vargas. E, no segundo lance, vão pairar para sempre dúvidas. Muita gente entendendo que foi legítimo, outros opinando o contrário.
Qualquer dos dois gols que fosse aceito pela arbitragem modificaria completamente a decisão de ontem, o Grêmio teria ido para a final do turno.
***
E ontem foi anulado um gol do Juventude que a Rádio Gaúcha declarou que foi gol legítimo, e o Maurício Saraiva, da RBS TV, considerou ilegítimo.
Portanto, a conquista colorada fica, assim obnubilada, ensombrecida pelos erros de arbitragem em duas partidas decisivas.
Os leitores hão de perguntar: mas que tem a ver o Internacional com erros decisivos de arbitragem em jogo do Grêmio?
Parece-me muito claro que, fosse o Grêmio a decidir com o Inter o turno, a tarefa do time de Dunga seria muito mais difícil.
Mas, como tudo na vida depende de arbitragem, há a Justiça que decidir sempre sobre os fatos humanos, sendo que qualquer juiz, jurado, tribunal ou árbitro de futebol pode errar, deixemos esses fatos ocorridos nas duas últimas rodadas do Gauchão que se decidiu ontem debruçados sobre uma recordação dominada, no mínimo, pelas dúvidas.
Só quero lembrar que o presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Novelletto, chefe supremo dos árbitros, é ou foi conselheiro do Internacional.

Ficou claro nas primeiras escaramuças sobre esse escândalo das áreas ambientais dos governos do Estado e de Porto Alegre que a demora na concessão de alvarás, cujas solicitações se empilham aos milhares nos órgãos competentes – a demora, repito, é a grande aliada da corrupção.
Quanto mais demora a licença, mais fica nervoso o solicitante e por isso tende a tentar corromper o servidor público. Vejam aí que nessa hipótese se beneficia o servidor público ou autoridade que aceita propina com a demora.
Quanto mais demorada a licença, maior deverá ser a eventual propina.
***
Mas, paralelamente, aqui no Brasil, existe uma insistente rotina: quase sempre, nos escândalos em que servidores públicos ou autoridades se corrompem, não aparecem os corruptores. Estranho isso: não há corrompido se não houve corruptor.
Você, leitor, já ouviu alguma vez alguém punido por subornar ou tentar subornar o guarda de trânsito?
Nunca. No entanto, aqui no Brasil só se acha grave o guarda de trânsito que se corrompe. Quanto aos motoristas que o corromperam, estes escapam quase sempre ilesos.
Sendo assim, somam-se aos milhares os guardas de trânsito que foram demitidos por terem sido subornados. Caso também de milhares de corruptos que foram punidos em outras circunstâncias.
Quanto aos que pagaram as propinas, necas de pitibiribas.
E, nesse escândalo da área ambiental gaúcha, aparecerão também os que pagam propinas? E não só os que recebem propinas?
Esperemos para ver.
***
Em primeiro lugar, quero deixar bem claro, para que não pairem dúvidas a respeito, que envio a todos os colorados os meus parabéns pela conquista de mais um título gaúcho.
Primeiro a minha elegância de vencido.
***
Em segundo lugar – aí é que está o problema –, nas duas últimas decisões, na fase semifinal e ontem, na finalíssima do turno, houve grandes problemas com as arbitragens, casualmente todos favorecendo o Internacional.
No jogo decisivo entre Juventude e Grêmio, aconteceram dois gols gremistas anulados pela arbitragem.
Um dos gols foi límpido, claro, incontestável, o de Vargas. E, no segundo lance, vão pairar para sempre dúvidas. Muita gente entendendo que foi legítimo, outros opinando o contrário.
Qualquer dos dois gols que fosse aceito pela arbitragem modificaria completamente a decisão de ontem, o Grêmio teria ido para a final do turno.
***
E ontem foi anulado um gol do Juventude que a Rádio Gaúcha declarou que foi gol legítimo, e o Maurício Saraiva, da RBS TV, considerou ilegítimo.
Portanto, a conquista colorada fica, assim obnubilada, ensombrecida pelos erros de arbitragem em duas partidas decisivas.
Os leitores hão de perguntar: mas que tem a ver o Internacional com erros decisivos de arbitragem em jogo do Grêmio?
Parece-me muito claro que, fosse o Grêmio a decidir com o Inter o turno, a tarefa do time de Dunga seria muito mais difícil.
Mas, como tudo na vida depende de arbitragem, há a Justiça que decidir sempre sobre os fatos humanos, sendo que qualquer juiz, jurado, tribunal ou árbitro de futebol pode errar, deixemos esses fatos ocorridos nas duas últimas rodadas do Gauchão que se decidiu ontem debruçados sobre uma recordação dominada, no mínimo, pelas dúvidas.
Só quero lembrar que o presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Novelletto, chefe supremo dos árbitros, é ou foi conselheiro do Internacional.


Carne de gato

05 de maio de 2013 0

Em terremotos e outras situações extremas, admite-se que as pessoas comam ratos. Há até, como naquela célebre queda de avião nos Andes, notícias de pessoas que, arriscando morrer de fome, devoram carne humana.

Da minha parte, nunca fui dado a comer alimentos exóticos. Já me serviram escargô em culinária sofisticada, mas não pude engolir um grama da comida. Acho que meu preconceito era menos com o alimento do que com o nome popular que eu conhecia: lesma. “Deus me livre de comer lesma”, pensei.

O máximo que me permiti foi certa vez comer rã assada ali no Recreio Avenida, um dos grandes restaurantes da Cidade, na antiga Avenida Eduardo, hoje Presidente Roosevelt, nos anos 50 e 60. E olhem que gostei muito da carne de rã, que me pareceu mais saborosa que a de galinha.

Mas agora um apresentador de televisão escandalizou a Itália, país em que a cozinha costuma consumir com insistência coelhos, lebres, codornas, bois e cordeiros. O apresentador Beppe Bigazzi, em seu programa de culinária na televisão, aconselhou os italianos a comer carne de gato, que ele já teria experimentado várias vezes. As entidades de defesa dos animais reagiram violentamente: “Bigazzi é um cretino, na latitude em que vivemos, simplesmente não comemos os nossos melhores amigos.” Ué, como é que na França os cavalos são vendidos nos açougues!

A arte popular de versos brasileira se ocupa em várias obras do sacrifício de gatos para alimentação e outros fins. Há um samba do saudoso Jorge Veiga que diz assim:

Me convidaram pra fazer um samba
Lá no Morro da Arrelia
Me apresentaram pra o dono da casa
Era um tal de Malaquia
Ele me disse em sua homenagem
Eu já mandei preparar o prato
Eu fiquei indignado
Quando me disseram que comi carne de gato.
Malandro não dá mancada
Vou pôr minhas mãos à obra
Vou convidá-lo para uma peixada
Vai ser carne de cobra.

Mas a utilidade mais proverbial do gato na poesia popular brasileira não é como alimento:

Aquele gato
Que não me deixava dormir
Aquele gato
Agora nos faz sorrir
Às vezes saía bem da minha pedrada
Pulava e dava risada
Vivia zombando de mim
Aquele gato não é mais gato
Hoje é tamborim.

Você, meu leitor ou leitora, seria capaz de comer carne de gato? Pois é, mas o Anonymus Gourmet da Itália está aconselhando seus telespectadores a comer carne de gato. E dá os detalhes: o cadáver do gato tem de ficar três dias de molho em água corrente da torneira: até a carne ficar bem branquinha e virar numa iguaria, afirma ele.