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É proibido beijar

24 de maio de 2013 0

Os restaurantes, mas principalmente os bares noturnos com música ao vivo, sofreram nos últimos tempos dois rudes golpes.

O primeiro foi quando proibiram fumar. Como se sabe, os boêmios e os que cultivam alma noturna gostam de fumar.

O segundo golpe foi a Lei Seca para os motoristas, como é que uma pessoa vai beber num bar ou restaurante se depois não pode dirigir?

Ambas as leis são justas e adequadas, mas elas feriram quase que de morte os bares noturnos, para tristeza de seus proprietários e frequentadores, que os viram esvaziar-se.

***

É um tempo de proibições. Não faz muito, um shopping de Porto Alegre proibiu os casais de se beijarem no interior das lojas e também nos corredores.

Ficou interessante: quem quisesse se beijar ou fumar tinha de sair lá para a rua.

Será que um casal se beijando dentro de um shopping comete atentado ao pudor?

Eu confesso que beijos de boca insistentes e acintosos entre casais num ambiente público parecem um pequeno acinte, principalmente quando são tão lânguidos, que fazem suspeitar que, daqui a pouco, o casal vai deitar no chão, tirar a roupa e amar-se. Mas daí a proibir o beijo é um exagero.

O fato é que essas proibições do álcool, do fumo e do beijo têm no seu cerne a intenção de ferir de morte a alegria das pessoas. No fundo, quem proíbe tem inveja da alegria dos outros.

***

No caso do cigarro, na marcha em que vai o ódio dos não fumantes e dos ex-fumantes a quem fuma, em breve será proibido fumar, além de em lugares públicos fechados, também nas ruas.

No início dessa onda antitabagista, reagi com fúria, cheguei a fumar ligado nos tubos de uma UTI de hospital.

Hoje já me conformo com a proibição de fumar em todos os lugares que frequento. Ao fumar com alguém por perto, o fumante agride o direito dos outros à higiene e à saúde.

***

A gente tem de manter no ar a peteca da música ao vivo nos bares noturnos de Porto Alegre, são raras as casas que contratam músicos, que ganham uma miséria.

Por isso é que aconselho que compareçam os leitores às terças-feiras à noite no Restaurante Terra Nova, na Rua Santa Cecília esquina com Rua Neusa Brizola, onde se apresentam os cantores e músicos Clayton Franco, Silvana Prunes e Helena Ruperti, música e comida da melhor qualidade e ótimo preço.

E nas outras noites há várias outras atrações.

***

Ia esquecendo: não se pode fumar no Terra Nova, mas em compensação é permitido beijar.

* Texto publicado na Zero Hora desta sexta-feira, 24/05

A roupa e a nudez

23 de maio de 2013 0

Quais terão sido os primeiros impulsos humanos? Depois que os bebês choraram, única prática humana sem aprendizado, foram ensinados a se alimentar, a engatinhar, a falar e a caminhar. Então a criança defrontou-se com seu corpo e sentiu pudor, também ensinado. Tratou aí de encobrir seu corpo, uma maneira de não entregar-se totalmente aos outros, a castidade é uma forma de poupança, ela será entregue como um tesouro para quem a merecer, devem ter pensado as virgens virtuosas.

Assim os homens (e as mulheres) decidiram desde cedo que encobririam seus corpos, alguns com vegetais, cordas, madeiras, os guerreiros com metais. Mas convencionou-se finalmente que a nudez seria coberta por roupas. E as roupas acabaram por valorizar a nudez.

Em alguns países muçulmanos, a nudez é ainda mais valorizada porque as mulheres são obrigadas a cobrirem-se da cabeça aos pés. Talvez, assim, lá a lascívia e a concupiscência mais incendeiem a imaginação masculina: é que o desejo é ainda mais ardente quando não se conhece o objeto desejado.

Já nós, ocidentais, fomos aos poucos expondo nossos corpos num processo milenar. As luvas deram lugar aos anéis, os sapatos às sandálias, as calças às bermudas, as saias às minissaias e aos shorts. E, no campo feminino principalmente, até os talhes foram brindados com os decotes, tudo em função da sedução. As roupas, que tinham o pretexto do agasalho, foram assumindo a função exponencial de atrair o sexo oposto, de mãos dadas com a vaidade.

No sentido contrário do chador árabe, as roupas ocidentais partiram para a atração explícita, em vez do segredo muçulmano de vestimentas que deixavam o corpo blindado a sete chaves, abriram-se para os olhares alheios. Os corpos inteiros encobertos pelo vestuário foram dando aos poucos lugar às roupas sumárias, só deixando indescobertas as partes pudendas, a atração primal, embora os seios já tenham desabrochado para um processo de total exposição.

No meio dessa evolução surgiram tanto as roupas transparentes quanto as justas no corpo, as que melhor e sedutoramente configuram as verdadeiras formas corporais. De tal sorte a moda se incorporou à civilização que certa vez uma mulher célebre declarou que quando se mostrava bem-vestida isso lhe dava uma tal tranquilidade interior que nem a religião podia lhe transmitir.

De tal sorte o vestuário se transformou de obstáculo em cúmplice da nudez que se consagraram no mundo inteiro as lojas de lingerie. Com a lingerie, a arte e a ciência encontraram um meio de a mulher tornar-se mais sedutora com aquela roupa leve e suave do que se estivesse nua. É o homem substituindo o criador, a técnica do design superando a natureza.

Texto publicado em 19/02/2006

Guri irresponsável

22 de maio de 2013 0

Quando eu era guri e soltava pandorgas, nem passava pela minha cabeça o que seria de mim, o que iria me acontecer neste mistério fantástico da vida. Não tinha medo. Eu apenas vivia, extasiado pela vida, sem me importar com o sentido de viver. Quando eu era guri e soltava pandorgas, não sabia que a vida se dividia entre sofrimentos e venturas. Talvez pensasse até que a vida se resumisse só à infância, que a gente passasse aqui como um anjo, flanando, sem os percalços sérios das vicissitudes.

Quando eu era menino e soltava pandorgas, não me importava andar só. Até acho que me empenhava em estar só, isto é, não conseguia compreender o que entenderia mais tarde: que a solidão tem um punhal afiado que fere fundo. Nada disso. Eu só queria soltar pandorgas e jogar bola de gude. Eu só queria derrubar com uma vara de bambu as cachopas de marimbondos que se dependuravam nos beirais das casas, desfolhando depois aquele papel machê à procura de mel.

Quando eu era guri e soltava pandorgas, todas as manhãs quando eu me acordava, saltava da cama preparado para as surpresas da vida, não sabia que haveria competição, sequer cogitava da luta pela vida, pensava que tudo era um encanto e não haveria pesadelos. Desfrutava da saúde como
um bem perene, não passava pela minha cabeça que um dia a saúde enfraquece e a gente tromba com seu tratamento.

Quando eu era menino e soltava pandorgas e jogava bolinha de gude, não tinha ideia de que eu integrava uma família e dia haveria em que eu iria formar a minha própria família. Quando eu era menino e jogava taco com casinha derrubada, era um tempo bom, sem apreensões, que só se tisnou a partir do dia em que comecei a me preocupar com o futuro, com a carreira, com o orçamento, com a previdência.

Eu até penso hoje que a gente tem boas recordações da infância porque quando se é criança não se tem nenhuma responsabilidade. O homem deixa um pouco de ser feliz quando se torna responsável. É aí que ele percebe que tem de prestar contas. Quando menino, a gente não tem encargos, a vida é grátis e nem se imagina que um dia ela vai apresentar as prestações para serem pagas. Vê-se agora que seria bom voltar àquele tempo de criança quando a gente só brincava. E, se por acaso se precisasse de alguma coisa, ela nos era alcançada. Hoje, não, quando a gente precisa de alguma coisa, é a gente que tem de dar um jeito. E é muito difícil dar um jeito na solidão.

* Texto publicado em 21/05/2011

Grêmio e OAS chegam a acordo e a Arena agora é nossa!

21 de maio de 2013 0

Apesar da desclassificação do Grêmio na Libertadores, o ano de 2013 promete ainda grandes alegrias para a torcida tricolor.

É que acaba de ser concluído entre Grêmio e OAS o pacto de readequação do contrato original sobre a Arena e Olímpico, trazendo em seu bojo grandes vantagens para os dois lados.

O pacto foi conduzido magistralmente pela face gremista de Fábio Koff.

Entre tantas brilhantes ideias que vão povoar o pacto, que será assinado por esses dias, imaginem, quase não dá para acreditar, o Grêmio terá participação nos lucros imobiliários do empreendimento que será erguido no local hoje ainda ocupado pelo Olímpico.

Afora isso, a obrigação que o Grêmio tinha de saldar com a OAS a dívida relativa à adaptação dos direitos dos sócios gremistas à Arena, que era prevista para curto prazo, foi parcelada e o Grêmio terá condições de saldá-la quase que inteira somente com o atingimento da meta de 100 mil sócios, quando hoje há somente 30 mil sócios pagantes.

Pelo novo e estupendo pacto, fruto da sensibilidade de Koff e dos dirigentes da OAS, cai por terra a afirmação de que a "Arena não é nossa" e Koff poderá agora bater no peito e proclamar: "A Arena finalmente é nossa".

Vejam só, repito porque é importante: pelo contrato original, o Grêmio só tinha direito de rendimentos no complexo imobiliário e comercial em torno da Arena, no entanto agora o Grêmio terá rendimentos também no complexo imobiliário e comercial no terreno relativo ao Olímpico a ser erguido na Azenha. Um achado, um milagre da nova negociação!

Com essa novidade, recai sobre o futebol do Grêmio, seja ele comandado na beira do gramado por Luxemburgo ou qualquer outro treinador, a responsabilidade de fazer o Grêmio não só retornar aos tempos áureos das grandes vitórias e conquistas como também a de arremessar o clube para um porvir de glórias, como uma pirâmide em demanda do infinito.

Como todos os gremistas, fiquei arrasado com o resultado obtido na Colômbia. Mas a notícia dessa repactuação injetou-me um sopro no coração e passo a alimentar notáveis esperanças nunca antes cogitadas.

Por essas coisas é que foi resolvido que o Grêmio se cognominaria de "imortal". Imortal, no caso quer dizer que das cinzas do Olímpico e fraldas do contrato original com a OAS ressurge agora um Grêmio prometedor e profundamente alentado.

Fatalmente, não há outro caminho a ser trilhado pelo Grêmio, por esse horizonte aberto pela repactuação, que não seja o do esplendor gremista em futuro próximo, senão quase atual.

Hosanas, Arena! Tu serás o templo de remissão!

* Texto publicado na Zero Hora desta terça-feira, 21/05/13

A sorte de Luxemburgo

20 de maio de 2013 0

Chego à Redação exatamente ao meio-dia de domingo, o tempo está enfarruscado, chove de vez em quando, uma chuvinha rala como a minha esperança.

Já lá se vão cerca de 2,3 mil domingos em que trabalho, dentro das 16 mil colunas que já escrevi em ZH nos últimos 43 anos.

Os dias se sucedem entre empolgantes e maçantes, o importante é que estou vivo e continuo trabalhando e subindo na vida, como uma pirâmide em demanda do infinito.

*

Depois de ler esta coluna, você, leitor ou leitora, terá mais condições de concluir se Luxemburgo fica no Grêmio ou será demitido.

Como já se sabe, a multa que o Grêmio terá de pagar a ele, caso o demita, soma vários milhões de reais.

Aí é que está a coisa: se o Grêmio não o demitir só para evitar de pagar a multa, então estará estabelecido que não o quer mais, mas não o demite só para não lhe pagar a fortuna, até mesmo porque dinheiro no Grêmio é coisa que anda em falta.

Nessa hipótese, muito concreta e que no meu entender é a que acontecerá, teremos um clube que não quer mais seu treinador mas terá de suportá-lo, o que caracterizará os próximos meses como repletos de constrangimento mútuo.

*

O Grêmio teria motivos fundados para demitir Luxemburgo. Ele não ganhou coisa alguma até agora, desclassificou seu time em vários campeonatos.

Além disso, saiu da cabeça do Luxemburgo um dia a ideia infeliz e errática de deixar Fernando no banco e botar um tal de Adriano no time, um absurdo que não se espera de um treinador que não esteja superado.

Três dias depois, a comprovar a estultice de Luxemburgo, Felipão convocou Fernando para a Seleção Brasileira.

Além disso, em decisão estapafúrdia, Luxemburgo decidiu a classificação da Copa do Brasil do ano passado com o Palmeiras, deixando estupidamente Moreno e André Lima, os dois únicos centroavantes que ele tinha, no banco. Perdeu de 2 a 0 como castigo à sua cegueira.

E, para coroar esse rosário de burrices, Luxemburgo levou o time para ficar 10 dias na Colômbia, onde decidiria a classificação com o Santa Fe, e retrancou-se humilhantemente em campo, afirmando com isso a mediocridade espantosa de declarar ao mundo que o Grêmio só buscava um resultado: o 0 a 0. E qualquer criança sabe, desde que foi inventado o futebol, que quem joga para empatar acaba perdendo.

Então, motivos não faltam para demitir Luxemburgo, o que pode faltar é dinheiro para pagar a multa que ele espertamente exigiu que fosse colocada como cláusula do seu contrato.

*Texto publicado na Zero Hora desta segunda-feira, 20/05/2013.

Os insones

18 de maio de 2013 0

De repente, me assalta indagar sobre o que vem a ser a insônia.

Só se apercebem que a insônia é uma doença os que de uma hora para outra, em noites sucessivas, se veem impedidos de conciliar o sono.

Logo lhes ocorre que a insônia deve ser uma súbita supremacia das preocupações contra o sono.

Mas sempre tiveram preocupações e nunca deixaram de dormir, como agora lhes sucede isso?

É preciso dormir para descansar e alimentar os músculos e os ossos, recuperar-se do dia fatigante.

E o sono não vem. Mas como é que antes vinha?

O sono é um dos prazeres da vida. Outro prazer é o paladar. Mas nunca ouvi dizer que alguém tivesse perdido o paladar como se perde o sono.

É possível que a algum desfavorecido da sorte tenha lhe desaparecido o paladar. Reflito, então, que a falta do sono é igual à falta do paladar.

Porque são transcendentais à sobrevivência humana os atos de comer e dormir. Ambos têm a salutar função de alimentar o corpo.

E, se não há notícia de que tenham falhado as glândulas gustativas de alguém, no entanto nos jornais e revistas pululam pessoas se queixando de insônia. E como resolvem suas insônias os que são atacados por elas?

Fatalmente recorrerão aos soníferos, agentes artificiais do sono. Mas não pode uma pessoa tomar um, dois ou mais comprimidos todas as noites antes de dormir, pode criar uma dependência perigosa.

Então, como resolvem a insônia as vítimas dela? E, se há assim tantas vítimas de insônia espalhadas pelo mundo, por certo haverá já setores da medicina ocupados exclusivamente com doentes de insônia.

Raciocino assim, voltando ao que pensei antes, que não são as preocupações que levam à insônia. Acontece o seguinte: não podendo dormir, os insones em sua vigília anormal mergulham nas preocupações.

As pessoas normais vão para a cama absortas em preocupações, nem por isso deixam de dormir, até mesmo para fugir delas.

Os insones é que, impossibilitados de dormir, não têm outra coisa que fazer que não seja preocupar-se.

Não fosse assim, os que têm outras doenças, os endividados, os presidiários, os mal-amados, os gremistas, não dormiriam.

E, no entanto, todos dormem. Só não dormem os insones, embora tenham sono.

Como sei, pelos e-mails que recebo, que muitos leitores meus padecem de insônia, quero daqui enviar-lhes o meu respeito e minha solidariedade.

Pode ser que esta coluna por alguma forma os ajude a dormir nalguma noite.

A bela sozinha

17 de maio de 2013 0

Estou no fumódromo e uma das cadeiras ocupadas o é por uma linda moça, ali pelos 20 anos, no máximo 22. Um portento de senhorita.

Pernas torneadas, cabelo alinhado, pés e mãos com dedos simétricos, deixa antever duas maçãs nos seios que se forem se libertar do sutiã parecerão dois pombos assustados.

Bela senhorita.
Além de tudo, é portadora de uma meiguice encantadora.

Pergunto-lhe de chofre: “Deve ser fácil para você arranjar um namorado?”.

Ela respondeu prontamente: “Tá muito difícil”.

Fico a cismar no que deseja mais a minha curiosidade que não seja perscrutar a alma da forçosa moça.

No entanto, está difícil para ela arranjar um par. Imagino como são idiotas os rapazes que deixam de explorar aquela energia desaproveitada.

Como dizem na rua, o difícil é a relação. Aquela moça por exemplo está prestes a ser conquistada, no apogeu da sua formosura e juventude.

E no entanto não lhe surge o príncipe encantado.

Falta um estalo para aquela moça ou para cada um dos seus prováveis pretendentes.

É só uma questão de encaixe, alguém que adivinhe ou simplesmente constate os seus encantos.

Mas está ali aquela moça abandonada, amor febril para doar, estuante, pronta para a entrega, ou apta para a pronta entrega, e não aparece nenhum imbecil para desfrutá-la.

Como são intrincadas as relações humanas! Como é penoso livrar-se da solidão, mesmo que estejam aptas as pessoas para se entrelaçarem!

Aquela senhorita não pode continuar sozinha. Mas visivelmente há algo nela que a impede de aproximar-se de alguém que a entenda e mostre interesse.

E assoma como transcendental a sua beleza, o seu aspecto frágil de gata esquiva apelando por um adestrador.

Quantos e quantos desperdícios como esse espalhados por aí! Quanta gente à procura de um cais onde atraque seu vulto esplêndido de jovem bela e oferecida à procura de quem a guie pelos caminhos deliciosos do amor!

Mas por que prosperam assim tantas incompletudes? Por que tanta ânsia desatendida, por que tantos fastios desanimados?

Por que é indispensável que a mulher se una ao homem para realizar-se? Por que, enquanto não se dá esse encontro, uma frustração amassante percorre esses seres dilacerados, essas almas abandonadas à procura de um refúgio, de uma realização?

Por quê? Para que serve a semente sem germinação? Mas por que é tão difícil encontrar terra fértil e propícia em que prospere?

O que intriga é que eu não esteja aqui com piedade de uma mulher feia, sem atrativos, indesejável.

O que me deixa estupefato é que estou sentindo compaixão por uma mulher bela e desejante, capaz também pela sua ternura de fazer qualquer homem feliz.

Será a timidez que a impede de relacionar-se? A ofuscante beleza é que não é.

O relógio e o espelho

16 de maio de 2013 0

Até o máximo possível e permitido, nunca se deve dar relógio de presente para crianças. O primeiro passo para a aflição do homem é o relógio. A criança é feliz porque não tem noção das horas, do compromisso, do dever com hora marcada.

Nunca vi em minha vida uma criança acordar-se e ver que horas são. Este é o reflexo imediato de qualquer adulto. Depois do sono reparador, do desligamento da vida, retornamos às nossas preocupações.

O sono é o céu do vazio, do nirvana, o relógio traz-nos de volta ao inferno das obrigações.

***

Consulte seu passado, o tempo mais feliz de sua vida foi aquele em que não usava relógio, indiscutivelmente.

O relógio é o instrumento que mede a vida e dá-nos a consciência da morte, a pior desgraça dos humanos. Os animais são felizes porque não sabem que terão de

pagar o preço da morte. O homem começa a ter noção de que sua vida terá um fim quando põe pela primeira vez um relógio no pulso, ignorando que aquela é a algema que o amarra ao tempo, portanto à finitude.

***

Eu nunca daria de presente um relógio a uma criança. Gostaria que ela permanecesse indiferente e imune aos prazos, solta, que não tivesse nem noção do dia e da noite, apenas fosse dormir e despertasse quando tivesse sono ou dele se saciasse.

Ter hora para dormir, para acordar-se, para trabalhar, para comparecer à audiência ou ao encontro, estas horas fatais todas é que vão destruindo as pessoas e aproximando-as da morte, senão pelo fato, mas pela perspectiva.

***

O paraíso de Adão e Eva dá-se exatamente porque não havia lá um relógio, nem o casal primevo conhecia quem o antecedera, o que significaria a morte.

Os tempos da infância e da juventude são os mais felizes pela inconsciência da morte. Até quando fiz 40 anos, eu pensava que era imortal. E essa é a sensação de todos os jovens.

O jovem sabe que vai morrer, mas está tão distante da morte, que consegue ignorá-la, ela não passa de uma utopia diante da vida estuante que se oferece à sua frente. Tem mais é que pensar na vida, o prazo da morte desaparece em meio à delícia existencial.

***

Não há instante mais crucial da vida que aquele em que o homem se olha no espelho e vê que não é mais aquele. O primeiro inimigo do homem é o relógio, o segundo é o espelho.

Reparem que as crianças nunca se olham no espelho, a não ser quando cobiçam idiotamente tornaremse adultas. Já o adulto olha-se no espelho sempre com um pé atrás, sabendo que seu aspecto só pode retroceder.

O homem que olha para o relógio ou para o espelho está sendo aos poucos aniquilado pela maior adversária do homem, que é a pressa.

Não conheço pessoa madura que não seja escrava prestativa do relógio ou do espelho, instrumentos da sua agonia.

Nunca dê um relógio ou um espelho para uma criança. Ela só é feliz porque estes dois objetos sãolhe absolutamente dispensáveis.

A morte piedosa

15 de maio de 2013 0

Chamou-me a máxima atenção o caso do belga Rom Houben, que todos acreditavam passar por estado vegetativo, em coma que durou 23 anos, mas agora se comunicou com os médicos e declarou que esteve consciente durante esse tempo todo, sem contato nenhum com o mundo externo que não fossem seus ouvidos.

O caso é realmente fantástico.
O cérebro do jovem belga esteve raciocinando durante 23 anos, mas ele não podia cometer qualquer movimento que pudesse acusar seu estado consciente para suscitar providências médicas respectivas.

Acho até que não posso usar esta expressão, mas esse heroico cidadão belga esteve em coma consciente por 23 anos.

Como disse Zero Hora anteontem, Rom foi prisioneiro do próprio corpo por 23 longos anos. Não tinha como sair de si e ter contato com o mundo externo.

Imagine-se o sofrimento
desse homem. Nem sei como não enlouqueceu. Ele ouvia tudo o que diziam em torno de si os médicos e seus familiares, devia munir-se de intensa e crucial agonia, querendo transmitir sua consciência mas não podendo mover nenhuma parte de seu corpo, nem as pálpebras, impotente, desanimado, exangue, inerte, um morto-vivo mergulhado nas trevas do coma.

Foram 23 anos de cativeiro. Sabe-se lá de que mecanismos mentais teve de se valer para manter intactas as faculdades mentais, ele raciocinava como qualquer pessoa.

É impressionante este caso. Esse homem tem de ser entrevistado para que se saiba por que não se lhe desfaleceram as forças e ele resistiu até não deixar de raciocinar nunca.

Se para um paciente recolhido por meses a um hospital, podendo mexer-se e comunicar-se com todos os que entram no quarto, já é um suplício este internamento, imaginem um corpo preso a si próprio durante 23 anos, com o cérebro funcionando, em plena consciência, como há de ter sobrevivido esse homem?

E como seu desespero não virou loucura?

Este caso, se por um lado revela ao mundo que há vidas estuantes atrás dos muros do estado comatoso, há de remeter mais ainda para o debate sobre a eutanásia.

Dirão os humanistas que, enquanto houver vida, ninguém pode extingui-la. Ninguém tem o direito, argumentarão, de interromper uma vida, por mais inútil e sofrida que seja.

E eu não me envergonho de declarar que mais ainda me torno adepto da eutanásia depois de conhecer o caso de Rom Houben, o belga que mergulhou nas trevas do estado comatoso, sem perder a consciência, isto é, em últimas palavras, entregue miseravelmente a um sofrimento atroz e permanente.

Neste caso e em tantos outros, creio firmemente que se aplica a morte piedosa.

A ciência não tem o direito, a meu ver, de prolongar indefinidamente esse gigantesco sofrimento. Quando a um homem que sofre assim tão eloquentemente é negado o direito de pôr fim à sua vida, o ambiente externo tem de assisti-lo e socorrê-lo no caminho da morte.

Por entre as reportagens em torno desse caso, está faltando um só dado: se em meio ao monumental tormento de que foi e é vítima, o belga infeliz pensava em sobreviver ou acalentava o sonho da morte, desejando-a para colocar um fim na sua cruz.

Tenho certeza de que ele sonhava que alguma mão compassiva e inteligente pusesse fim à sua vida.

A vida das abelhas

14 de maio de 2013 0

Um jovem haitiano de 24 anos foi salvo dos escombros depois de permanecer 11 dias em um espaço de apenas um metro quadrado.

Deve ter sido um sofrimento terrível. Ele trabalhava no bar de um hotel, que caiu todo sobre seu corpo.

Completamente coberto pelo pó dos destroços, declarou, ao ser salvo, que sobreviveu comendo pequena quantidade de biscoitos durante os 11 dias, mas principalmente bebendo Coca-Cola.

Sabe-se que o organismo humano sobrevive a dezenas de dias sem alimentos sólidos, mas perece se não tomar líquido.

Calculei que a Coca-Cola que esse homem bebia para sustentar seu metabolismo não era Coca Light nem Coca Zero. Era Coca normal mesmo. Só com muito açúcar, ele pôde manter firme seu esqueleto.

Cismei também sobre a sorte desse rapaz: ele ficou restrito a espaço de apenas um metro quadrado e os refrigerantes que lhe restaram ali não eram dietéticos. Fossem-no e ele teria morrido.

Sobre refrigerantes dietéticos tenho um depoimento que pode alterar a ciência da apicultura.

Estava tomando minha Coca Zero no famoso Miau da Cabral, que serve, ali naquela rua com esquina para Miguel Tostes, deliciosos espetinhos de picanha, queijo, toscana, xixo, calabresa e outros, quando percebi que um bando de abelhas voejava em torno à minha mesa.

Pensei comigo que aquelas abelhas estavam loucas, a Coca-Cola que eu bebia não era normal, não havia açúcar nela.

Então por que estavam sendo atraídas pelo líquido?

Elas foram levitando como helicópteros em direção à lata de Coca-Cola, uma a uma iam pousando no bojo da lata e penetrando pelo furo, desaparecendo no fundo.

Daí que cheguei a uma conclusão laica: o que atrai as abelhas não é o açúcar, mas o doce. O líquido melífluo da Coca Zero é também saboreado pelas abelhas, o que quer dizer que o aspartame ou outro ingrediente das substâncias dietéticas são do interesse proteico das abelhas.

Fiquei intrigado sobre se o mel que aquelas abelhas produzirão depois de terem ingerido Coca Zero será dietético ou não.

E, na minha investigação alienada sobre a origem do mel, cheguei à conclusão de que as flores onde as abelhas vão buscar o néctar para produzir o mel contêm forte quantidade de açúcar.

Nunca reparei quando mastiguei pétalas ou cílios de flores que eles eram doces. Será que o pólen é doce? Vou prová-lo uma hora dessas nas margaridas que tenho na sacada da minha casa.

Fico sabendo à última hora que as abelhas têm cinco olhos, três deles no topo da cabeça e dois olhos compostos, maiores, na frente.

E que uma abelha produz cinco gramas de mel por ano. Para produzir um quilo de mel, as abelhas têm de visitar 5 milhões de flores.

E que só as abelhas fêmeas trabalham, os machos servem apenas para fecundar a abelha rainha. E, se nascerem duas abelhas rainhas, elas entram em luta, até que uma delas morra.

E que, no fim do verão, depois que os machos já tenham fecundado a rainha, as operárias fecham a porta da colmeia e deixam os machos lá fora morrerem de frio e de fome.

A abelha rainha vive durante quatro anos e as operárias apenas 45 dias.

Dizer que eu só fui adquirir esse conhecimento a partir da minha Coca Zero!

O segredo

13 de maio de 2013 0

Tenho particularmente fascínio por um tema: o segredo. Acho até que uma das grandes atrações da vida é poder guardar um segredo. Há diversas nuanças entre os segredos. Vou pinçar agora uma: duas pessoas se amam e mantêm em segredo o seu amor. Ele é curtido silenciosamente entre os dois, as outras pessoas todas que vivem ao derredor  desses dois enamorados desconhecem completamente que eles se amam. Evidentemente que os compromissos e as convenções sociais impelem esses dois namorados secretos a manterem seu segredo.

Se por um lado custa-lhes muito caro manter esse segredo, que caso fosse violado ameaçaria a sobrevivência do amor oculto, por outro é extremamente delicioso para os dois amantes que eles não confiem a ninguém o seu segredo. Os dois comparecem a reuniões, almoços, jantares, festas, ninguém desconfia deles. E eles curtindo saborosamente o seu segredo.

O diabo é que o segredo sempre carrega dentro de si uma culpa, uma vontade de desabafar, um ímpeto de gritar ao mundo que todos deveriam ficar sabendo daquilo, libertar-se assim dos grilhões que amarram o seu segredo. “Ela sabe que eu a amo, eu sei que a amo, isto é o suficiente.”Será mesmo isso suficiente? Quantos e quantos casos de amor inundam o cotidiano, nos quais a marca mais genuína é a confidencialidade? Este segredo em amar é muito frequente em pessoas casadas, que querem manter seus laços conjugais e temem mergulhar nos riscos da aventura extraconjugal ou da separação, se o segredo for violado.

Mais frequente que o segredo guardado a sete chaves por duas pessoas é o segredo que pertence a uma só pessoa. Ela ama, mas ninguém sabe que ela ama, nem mesmo a pessoa que por ela é amada. Parece uma idiotice não noticiar a uma pessoa a quem se ama que ela é assim intensamente amada, mas não é. A vida trata ela mesma de antepor obstáculos vários entre as pessoas que amam. Quando alguém ama e a pessoa amada não tem conhecimento disso, imaginem a tensão, o nervosismo, a intensa emoção da pessoa que ama quando se encontra com a pessoa amada, o seu constrangimento em não revelar por nenhum gesto ou palavra o seu segredo!

Sempre, o detentor de qualquer segredo é um prisioneiro dele. Ele não vai dormir por sequer qualquer noite sem preocupar-se com seu segredo. E muitas vezes aquele segredo amassa tanto seu detentor, que ele não resiste e acaba rompendo o segredo. Se por um lado arrastará todas as consequências da violação do seu sigilo, por outro quem conta um segredo saboreia a deliciosa sensação de liberdade, tirou de cima do seu corpo aquele fardo pesado e insuportável. Pronto, não existe mais o segredo. Mas de que irá viver daqui para a frente quem não tem mais um segredo sob sua guarda? O violador do segredo mergulha num escuro abismo de vazio.

*Texto publicado em 25/11/2010.

Beber no bico

12 de maio de 2013 0

Eu ia dizer que tenho um vício, além do cigarro, qual seja o de tomar refrigerantes.

Bebo cerca de 10 refrigerantes por dia. Não é vício porque, ao contrário do cigarro, não me faz mal.

Mas essa disposição duradoura que tenho para repetir com frequência o ato de beber refrigerante se incorporou de tal forma à minha conduta, que levanto pela manhã e já está martelando em meu cérebro a vontade de tomar um refrigerante.

Ainda mais constante se torna esse hábito porque os fabricantes de refrigerante tiveram a ideia de nos proporcionar um líquido doce como o mel, que no entanto não contém açúcar.

Essa ânsia louca que tenho por ingerir açúcar, ou melhor, por saborear açúcar, é aplacada em seus efeitos devastadores pelos refrigerantes diet.

Se inventassem esse mesmo simulacro para o cigarro, eu estaria feito na vida, imaginem um cigarro sem nicotina e alcatrão que tivesse o mesmo gosto que este cigarro que fumo! Seria uma grande invenção.

Por isso é que avalio que o refrigerante doce sem açúcar é uma das maiores invenções da humanidade.

O que ninguém me explica é como, não sendo um vício, o refrigerante no entanto vicia.

Um hábito que vicia. Vou lhe dizer uma coisa, não vivo sem refrigerante, não como sem refrigerante. E, quando não como, no entanto estou tomando sempre um refrigerante.

O monumental volume de refrigerantes que é vendido me dá conta de que sou apenas um dos tantos milhões de viciados em refrigerantes.

Por sinal, esses dias li em Zero Hora que o Rio Grande do Sul é o Estado em que mais se bebe refrigerante no Brasil.

Que mania de beber o gaúcho tem, desde o chimarrão até a cachaça, agora também o refrigerante, o gaúcho está sempre bebendo.

Gasto tanto de gasolina e de cigarros quanto gasto de refrigerantes. Sou um grande pagador de impostos.

Agora que extinguiram a Coca Light, entrei em confusão. Ela era a minha preferida e, embora eu esteja na fase de indecisão quanto ao refrigerante que a sucederá na minha preferência, continuo bebendo a mesma quantidade: cerca de 10 por dia.

Bem geladinhos.

Como é doce este Sprite! E como é deliciosa esta Guaraná Antarctica Diet. E não existe diferença nenhuma entre a Coca-Cola normal e a Coca Zero, nenhuma.

As pessoas que tomam a Coca-Cola normal desconhecem que a Coca-Cola Zero é igual. Bastaria para elas, se não quisessem engordar, ficar tomando a Coca-Cola Zero durante 15 dias e se fixariam nela, não notariam a diferença.

Mas agora inventaram a H2O e a Aquarius, interessantes derivativos, com muitos consumidores. Já bebi. Gostei. Mas é que são embaladas em plástico e aí não calham como minha praia.

Por sinal, até contra a lata dos refrigerantes eu tenho preconceito: o bom mesmo dos refrigerantes é quando todos vinham nas garrafas.

Não existia maneira mais gostosa e eficaz de matar a sede do que beber refrigerante no bico.

Que saudade do bico!

Feliz ou infeliz

11 de maio de 2013 0

O tema hoje é o que mais almejam os seres humanos: a felicidade.

Já escrevi certa vez que os filósofos erram quando dizem que o supremo dever do homem é a busca da felicidade.

Mas, se os próprios filósofos declaram que a felicidade, por ser efêmera, não existe, como pode ser dever do homem procurar o que não existe?

Então, eu corrigi os filósofos: por revés, o dever do homem na Terra é buscar ser menos infeliz.

*

Aí que entra o célebre verso do Ataulfo Alves, o grande sambista: “Eu era feliz e não sabia”. Esse verso é uma adaptação do dito de filósofos, que sempre perquiriram que o homem muitas vezes não sabe que é feliz.

Eu iria mais adiante: o homem só é feliz quando não sabe que é feliz, o que no fim das contas nada significa.

E por outra parte pergunto: não é de todo pertinente que o homem também não saiba que é infeliz?

Eu, de minha parte, garanto que o homem só pode se sentir feliz quando, sem saber, ele é infeliz.

Ou de maneira mais radical: só um idiota pode se sentir feliz.

*

Só pode dizer que era feliz e não sabia quem venha posteriormente a ser tão infeliz que passe a invejar o estado anterior que ostentava.

“Eu era feliz e não sabia” quer dizer que não gozou da felicidade por desconhecer que com ela tratava.

E só agora, que é infeliz, tem consciência de que aquele estado que vivia era o de felicidade.

Ora, quem é feliz e não sabe que é feliz, por lógica, não é feliz.

Em suma, para ser feliz é preciso sentir-se que é feliz.

*

Já aquele que é infeliz e não sabe, por lógica, é feliz. É uma espécie de loucura delirante, a pessoa sofre e não sabe que sofre, por consequência não sente a dor e o infortúnio quando estes batem à sua porta, invadem seu domicílio e a submetem.

Ou seja, os que são infelizes e o desconhecem ou são muito fortes, ou estão loucos.

Pode-se dizer que são felizes.

*

É que no meio desses estados existem outros mil, como, por exemplo, o dos que são felizes tão somente por estarem sempre esperando a felicidade. É a felicidade da esperança, a felicidade dos crentes que têm a certeza de que Deus virá para chamá-los para o reino dos céus.

A única felicidade para eles consiste em esperar a felicidade. Isso é o que se chama de sonho.

O sonho é o lenitivo para o sofrimento, sofre-se, mas mergulhando no sonho o sofrimento passa a não doer, passa a não existir, sobrepujado pela esperança.

*

Além disso, o estado de felicidade é sempre cotejado com a felicidade ou a infelicidade alheia.

É impossível ser feliz se moram ao nosso lado ou convivem conosco pessoas que consideramos felizes.

A felicidade alheia, muitas vezes, é a causa única da nossa infelicidade.

Muitas vezes é impossível para nós encarar com naturalidade a felicidade alheia. Ela nos agride e não raro nos torna infelizes.

Por todas essas barafundas, não há nada mais difícil, senão impossível, do que ser feliz.

Vantagens do pessimismo

10 de maio de 2013 0

O pessimismo, como já afirmei, é uma doença. Por ela, o paciente acha que tudo de ruim pode lhe acontecer, não confiando nunca que fatos favoráveis a si vão ocorrer.

Uma derivação mais grave do pessimismo é a hipocondria, trata-se da crença do paciente de que ele está ou logo em seguida vai ficar doente, alguma coisa de ruim vai acontecer com seu organismo.

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Pensando melhor, vi que há vantagens em ser pessimista ou hipocondríaco.

Como sempre prevê delirantemente que alguma coisa ruim vai lhe acontecer – ou já está acontecendo – e como essas coisas na maioria das vezes não acontecem, todos os dias o pessimista obtém uma vitória, não lhe ocorreu o que de ruim tinha previsto. Ele tem, portanto, diariamente, com o que festejar.

É verdade que a preocupação com seu futuro não cessa. Mas pelo menos ele passou mais um dia livre da sua nefasta previsão.

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Já com o hipocondríaco se dá algo não muito diferente: todas as semanas ou todos os meses ele vai ao médico para submeter-se a exames. Vai convicto de que encontrará alguma doença em seu corpo.

E, na maioria das vezes – ou sempre –, ele não tem doença alguma. Não é também uma forma de triunfo e de alegria? Pois, todas as vezes que os exames são negativos, de certa forma ele conseguiu uma vitória sobre a sua convicção, não tem doença alguma, sai do médico com justo motivo para festejar.

A não ser que os meus leitores entendam que é uma imensa frustração para o hipocondríaco que o médico não tenha achado doença nenhuma em seus exames. Mas, se isso acontecer, ele não é hipocondríaco, ele é louco mesmo, pirou e não tem mais salvação.

*

Pegue-se, por exemplo, um otimista e um pessimista com vidas absolutamente idênticas, em tudo, o que aconteceu para um aconteceu para outro.

Como nada de ruim ocorreu para nenhum deles, o otimista não lucrará nada por ter dado certo sua previsão.

Enquanto que o pessimista terá todos os motivos para saudar efusivamente que nada de ruim lhe aconteceu. Afinal, ele tinha certeza de que iria acontecer. O pessimista, portanto, é o único que lucra quando suas previsões não deram certo.

O triste para os pessimistas e para os hipocondríacos é que nunca cessam suas previsões catastróficas. Eles escapam de serem atingidos hoje, satisfazem-se com isso, mas já começam imediatamente a nutrir medos de que amanhã serão vítimas de uma tragédia ou de uma doença maligna.

Um trago de olvido

09 de maio de 2013 0

Só agrava a imensa culpa minha por fumar o fato de eu não beber. É que eu sinto inveja de alguns amigos meus que todas as tardes correm para um bar e deitam-se a beber seu uísque ou seu chopinho.

Eles, chegada a tardinha, se tornam impacientes no serviço, não vêem a hora de seguir para o bar.

Beber é um excelente estratagema para espantar o tédio. Talvez fumar também o seja, mas este encontro diário dos meus amigos com seus companheiros de drinques soa-lhes como um ideal existencial.

É de ver-se o contentamento estampado nos rostos das pessoas que bebem. Elas vão dormir à noite já com a deliciosa expectativa de que poderão beber novamente amanhã.

A vida tem solução para quem bebe, é o que fico cismando enquanto os invejo.

O homem que bebe é um ser gregário. Podem ver, todos os que bebem têm roda garantida em algum lugar. Acabam se encontrando por algum encantado fatalismo e formam confraria. Raros são os espécimes, como meu pai o era, que bebem sozinhos e em casa.

Beber tem de ser em lugar público. Se for lugar privado, em turma. Logo, beber é um ato agressivo à solidão.

Não é o caso de fumar, que é uma ação introspectiva, individual, reflexiva. Beber é uma forma de encontrar-se com os outros.

Já fumar é esconder-se, encaramujar-se, defrontar-se consigo próprio, emaranhar-se na teia dos problemas íntimos.

Beber é deixar de pensar, é recordar, é fugir do mundo.

Fumar é enfrentar o mundo e encarar de frente o ataque das aflições.

Eu às vezes me arrependo de não ter adquirido nunca o gosto pela bebida. É verdade que não gostaria de fumar e beber ao mesmo tempo, dizem os especialistas que esta associação é trágica para a saúde e para a sobrevivência.

Mas eu gostaria mais de só beber do que desta situação em que me encontro, em que o cigarro não vence minha melancolia, acho até que, pelo contrário, a aprofunda

Enquanto que a bebida está ligada umbilicalmente à alegria, tanto que é componente indispensável de todas as festas.

A bebida é nitidamente instigadora do diálogo, da conversa, do bom humor. Porque a bebida implica claramente o esquecimento, enquanto que o cigarro faz acentuar a realidade.

A bebida é uma fuga, o cigarro é uma contrição. Pela bebida, driblase o destino, já com o cigarro a gente bate de frente com ele.

Em ambos os casos, tanto a bebida quanto o cigarro são recursos para satanizar a tristeza, só que a bebida é uma retirada estratégica, enquanto o cigarro é uma contracarga, uma forma de arremeter sobre o inimigo ameaçador e parcialmente vitorioso.

Pela bebida, perdem-se os reflexos, pelo cigarro, eles são mais ainda excitados.

Quem bebe, debanda das circunstâncias adversas, quem fuma, não podendo desertar, trata de adquirir consciência mais nítida do perigo.

E eu queria só beber em vez de só fumar, porque desconfio que os períodos de trégua seriam longos e reconfortantes.

(Crônica publicada em 11/01/2003)