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Dois palanques

O prefeito José Fogaça está literalmente numa camisa de força: se, como candidato ao Piratini, vier a apoiar a candidatura de Dilma Rousseff à presidência da República, seguindo orientação nacional do seu partido, o PMDB, teremos um extravagante quadro eleitoral no Rio Grande do Sul.

Dilma Rousseff teria de subir no palanque de Fogaça, dar uma voltinha na praça e ir ali adiante e subir também no palanque de Tarso Genro, outro candidato ao governo do Estado.

Será que alguma vez isso já aconteceu na política gaúcha? Acho que não. Essa teia de acordos regionais e nacionais serve para deixar destrambelhada a compreensão do eleitorado.

Duas coisas parecem certas: o PMDB nacional vai apoiar a candidatura de Dilma, tanto que o presidente do partido, Michel Temer, diz que a unidade na sigla está em torno de 93%.

E o PDT apoiará Fogaça aqui no Sul, o mesmo PDT também inclinado a apoiar Dilma no plano nacional.

Fogaça teria então força moral para não seguir os dois maiores partidos que patrocinam sua candidatura? Como poderia tirar da cartola, numa prestidigitação inexplicável, o seu apoio a José Serra, candidato cuja aliança partidária nada tem a ver com a candidatura dele, Fogaça?

Se por um lado essa pressão desfavorece Fogaça, por outro o apoio dele a Dilma deixará a candidata do PT atrapalhada: como ela irá fazer para subir ao mesmo tempo nos palanques de Tarso Genro e de Fogaça aqui no Sul?

Eticamente, Dilma e Lula teriam de ficar neutros na campanha ao governo do Estado, deixando Tarso Genro abandonado à própria sorte.

Caso contrário, assistiríamos a um espetáculo surrealista: Dilma subindo aqui no RS nos dois palanques, algo que soaria inexplicável para o eleitorado.

Está assim o xadrez político para as eleições de outubro: de um lado, o trator da aliança entre os partidos que apoiam Lula amassando seus adversários e confundindo e emperrando as alianças regionais; de outro, a surpreendente reviravolta na sucessão nacional, com a discrição estratégica de Serra em lançar a sua candidatura e Dilma assumindo uma visibilidade impressionante, hoje ela já é perante o eleitorado mais candidata do que Serra no plano do marketing eleitoral.

Claro que isso se deve a um Serra afogado nas enchentes de São Paulo, quadro de tragédias climáticas que inibe o governador a botar o seu bloco na rua.

Resta só saber se será bipolarizado o quadro sucessório gaúcho ou a governadora Yeda Crusius terá força para ambivaler-se a Fogaça e Tarso no espectro da preferência dos gaúchos.

Aparentemente, Lula conseguirá atrair sua popularidade para a transferência do prestígio dele para Dilma.

O presidente tem dado as cartas
e jogado de mão na condução da campanha sucessória, dado o desaparecimento do PSDB da ribalta da eleição, vazio este que chega a ponto de transformar o ex-presidente Fernando Henrique em maior e único ás oposicionista, com tímidos e não abrangentes artigos nos jornais mais importantes.

Chama a atenção, em favor de Lula e de Dilma, a letargia dos tucanos, nem parece que estão decidindo a partilha do poder e sob o risco, para eles, de o PT governar o país durante 16 anos consecutivos.

* Em segunda edição, já está distribuído nas livrarias o livro O Sentimento de Culpa, de autoria de Paulo Sergio Guedes e Julio Cesar Walz.

*Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

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O avanço do crack

Não é só em Maceió que há as imagens de santos despedaçadas num altar da Escola Benício Dantas, nem é só lá que há essa escola invadida várias vezes e com salas, pavilhões, corredores e banheiros destruídos.

Há registros de tiroteios na escola, o ginásio de esportes virou uma cracolândia e os alunos fumam maconha na sala de aula.

Não é só lá que dados do Ministério Público Estadual indicam que 30% dos alunos das escolas da rede pública, entre 10 e 20 anos, estão envolvidos com o tráfico ou viraram viciados.

Os dados oficiais mais recentes revelam, segundo o jornal O Globo afirmou ontem, que essa tragédia se repete em outras cidades e capitais brasileiras.

Ora, se a droga se dissemina entre os órgãos de ensino, que deveriam ser a última cidadela contra os vícios e contra o crime, imaginem como está o resto do tecido social brasileiro.

Em todo o país, os serviços de atendimento a dependentes químicos veem cada vez mais aumentar a procura de viciados por um tratamento.

Se, em 2002, 200 quilos de crack foram apreendidos, já em 2007 houve a apreensão de 578 quilos da droga no Brasil, revelando que há um aumento expressivo da circulação do crack no território nacional.

Em março de 2007, publica um estudo carioca, só 15% de entrevistados de uma pesquisa usavam o crack. Em junho de 2008 esse percentual subiu para 25%.

Em Salvador, em 2006, só 26% dos novos usuários de drogas atendidos pelos serviços sociais eram consumidores de crack. O número subiu para 37,8% em 2008.

Uma pesquisa de amostra realizada com pacientes internados por dependência química em Porto Alegre revelou que 43% dos que estavam ali era por conta do crack.

Isso se deu porque os drogados que injetavam cocaína em seus corpos, em face do HIV, fugiram daquela prática e se transferiram para o crack.

O professor Félix Henrique Kessler, da UFRGS é taxativo:

– Quase todos os usuários de cocaína injetável migraram para o crack.

A população de rua da cidade de São Paulo é estimada em 11 mil pessoas, a maioria vivendo sob viadutos e nas ruas do centro. A prefeitura calcula que 25% deles sejam dependentes químicos.

Uma médica paulista que trata do problema faz uma revelação interessante:

– O crack é muito usado, mas o maior problema desses moradores é o álcool. O álcool funciona como uma porta de entrada para as outras drogas.

Notem aí os leitores desta coluna que a droga-base para o espalhamento de viciados é o álcool, uma droga lícita e propagandeada livremente, tanto que, para surpresa geral, o treinador Dunga, da Seleção Brasileira, aparece na televisão num comercial de cerveja.

Com tal capacidade de mercado entre os marginais, maior ainda entre as pessoas bem situadas economicamente, como não atrair para o abastecimento e comércio de drogas os traficantes?

Traficante só existe porque tem para quem vender a droga.

E, quando surgem os traficantes, emerge entre eles o crime e as mortes se sucedem no seu meio como também com usuários que se jogam a assaltos e assassinatos até mesmo contra crianças, como aconteceu com diversas na semana que passou aqui no RS, com crueldade ímpar.

O caminho é só um: campanhas contra o uso de drogas.

Mas e o álcool?

*Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora

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Bonita de corpo

Desde criança, ouço uma expressão que, apesar de gasta, dura até os tempos de hoje: “Fulana é bonita de corpo”.

Este “fulana é bonita de corpo” me soa que ela não é bonita de rosto.

Já o “fulana é bonita de rosto” declara solenemente que ela tem um corpo que deixa muito a desejar.

Isso me faz pensar que, quando a mulher é bonita de corpo e de rosto, a expressão é somente a de que ela é bonita.

E bonita não é a mesma coisa do que bela. Quando se diz que uma mulher é bela, está se dizendo que ela, mais do que bonita, é bela…, o que são outros quinhentos.

Porque raramente ouço algum homem dizer que “fulana é bonita de rosto e de corpo”. Nesse caso, “a fulana é estonteante”.

*Texto publicado na página 47 de Zero Hora dominical

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Tudo bem

Eu sou invocado com esta expressão: “Tudo bem?”. É a expressão mais usada entre as pessoas que se encontram.

– Tudo bem?

– Tudo bem.

Pode até não estar tudo bem, mas responde-se que está tudo bem.

Comigo se dá diferente, sinto que sou chato, mas não consigo responder que está tudo bem se não está tudo bem.

– Tudo bem?

– Não. Está tudo mal!

– Ué, mas o que há?

A pessoa que ouve que não está tudo bem se choca. Ela esperava ouvir a resposta de que está tudo bem.

Como não ouve a resposta esperada, insiste em saber o que é que há então.

Ora bolas, não está tudo bem e pronto. Como é que quando se responde que está tudo bem não exige o perguntador um relato de tudo que vai bem?

Agora que ouviu que não está tudo bem, calcula então que algo não vai bem.

Eu só não respondo que “está tudo mal” porque o perguntador vai querer saber “tim-tim por tim-tim” o que vai mal.

E seria exaustivo arrolar tudo que vai mal.

Comigo parece que as pessoas que perguntam se vai tudo bem já calculam que vou responder diferente: “Não vai tudo bem”. Não é isso que acontece, mas a mim parece que elas estão torcendo para que tudo não vá bem para que a conversa se espiche.

Porque não há algo mais frustrante num diálogo do que alguém perguntar se tudo vai bem e o outro responder que tudo está bem: então não há mais assunto, nada mais há para tratar, está encerrada a conversa.

Dizer que está tudo bem, me ocorre agora, é uma forma de se despedir da pessoa que perguntou, apressando o encerramento do assunto.

E, por outro lado, responder que está tudo mal dá sempre num espichamento da conversa, o respondedor relatando os seus males e o perguntador tentando consolá-lo ao dizer que tudo se resolve, paciência, em seguida as coisas vão para seus lugares.

Mas eu sinto que sou rigoroso demais ao negar que está tudo bem, era só uma formalidade o que queria saber o outro, enquanto eu desvio a conversa para um “tudo mal” que não estava na programação daquele encontro.

*Texto publicado na página 47 de Zero Hora dominical

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Solução que está na cara

Às vezes, sou obrigado a sacrificar o gosto dos leitores por melhores assuntos, com a finalidade de solucionar problemas angustiantes da comunidade. Tudo pela repercussão do que sai nesta coluna.

Vejam que o Diário Gaúcho constatou que em 16 anos a malha hospitalar do SUS Porto Alegre viu desaparecerem 3,2 mil leitos.

Sumiram, foram retirados de serviço.

Então, por que não se aceita essa disposição do Hospital de Clínicas para assumir o Hospital Independência? Por quê?

Isso tem de ser feito já, aqui e agora.

O que falta para ser feito? Leiam o que está escrito na mensagem do presidente do Hospital de Clínicas, abaixo, e vejam que só falta vontade política.

***

“Caro Sant’Ana: em teu comentário no Gaúcha Hoje da última quarta-feira, trouxeste à tona o tema da falta de leitos em hospitais públicos de Porto Alegre. Verdade insofismável, com reflexo evidente nas emergências. De fato, ao longo dos anos houve diminuição no número de leitos disponibilizados ao SUS no RS. Na contramão do desejável, o atendimento primário nos postos de saúde não evoluiu em eficácia e tampouco na integração do sistema. Ao mesmo tempo, cresceu o impacto das enfermidades crônicas.

Em dezembro de 2009, a direção, engenheiros, administrativos e enfermeiras do Hospital de Clínicas de Porto Alegre visitaram oficialmente o Hospital Independência. Um hospital vazio impacta forte na gente. Estive presente e, se interessar, posso te enviar uma cópia do arquivo de imagens realizadas. Verás que, com um planejamento eficiente, logo o hospital poderá estar operacional. Garanto-te que o Independência, que já ajudou a muitos doentes, está pronto para ser uma ativa unidade hospitalar pertencente ao Hospital de Clínicas. Nossa proposta é colocar a serviço da comunidade tudo aquilo que o HCPA possui de mais valioso, uma reconhecida capacidade gerencial, um padrão assistencial de excelência e, sobretudo, o capital intelectual e a experiência dos professores da UFRGS. Aspectos logísticos favoráveis alinharão setores do HCPA que não serão replicados no Independência. O eixo viário (Avenida Ipiranga) entre os hospitais é de apenas 4,5 quilômetros.

Queremos que a população não apenas tenha acesso a mais leitos, mas que neles encontre um atendimento qualificado, resolutivo e humanizado. Onde se trabalhe com indicadores, resultados, e não com conversa fiada.

Em Brasília, já apresentamos o projeto e temos apoio de diversas autoridades. No Ministério da Educação, valorizam-se os leitos do Independência não apenas por sua função assistencial, mas também por exercerem importante papel de formação de recursos humanos para o SUS. Estaremos, como sempre, treinando médicos, enfermeiras, administradores hospitalares e muitos outros profissionais.

Há quem diga que hospitais como o Clínicas e o GHC são caros demais, e que por isso não deveriam expandir-se. Acreditamos, ao contrário, que estes estabelecimentos são de suma importância para assegurar aquilo que, de fato, é o mais CARO às pessoas: sua saúde e qualidade de vida. O Clínicas e o Conceição vão além do conceito tradicional de hospital. Basta que examinemos seus balanços sociais. Afinal, o que é ser caro em se tratando de saúde?

Esperamos, tão cedo quanto possível, que a população possa receber boas novas em relação aos novos leitos com o padrão HCPA. Que melhor aplicação do dinheiro público em saúde poderia haver? Quita-se parte da imensa dívida da Ulbra com o governo federal e este repassa o Hospital Independência ao Hospital de Clínicas, uma empresa pública que orgulha nosso país.

O HCPA é um hospital de alta confiabilidade em saúde, construído e mantido por inspiração e transpiração dos gaúchos. É tempo para que se expanda. Com um cordial abraço, (as.) professor Amarilio Vieira de Macedo Neto, presidente do Hospital de Clínicas”.

*Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

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Por que fumo

Estive interpretando o meu hábito de fumar. Por que fumo? Psicologicamente porque não tenho paciência para esperar.

Como fico impaciente em todos os momentos de ócio, recorro ao cigarro para amenizar a impaciência.

Li certa vez um artigo de um psiquiatra em que ele afirmou que o fumante recorre ao cigarro sempre que se defronta com um obstáculo. É mais ou menos isso.

O fumante se torna, assim, uma presa indefesa das suas grandes ou pequenas aflições e recorre à fuga do tabagismo como única resposta para a sua atribulação.

Mas como é que o fumante, nas ocasiões alegres e prazerosas, ainda assim recorre ao cigarro? Talvez porque, entregue ao deleite, quer naquele momento afastar de si qualquer lembrança que haja em seu espírito das dificuldades por que passa, tornando mais intenso e fixo o prazer.

*

O cigarro não passa de uma tolice e de uma fraqueza. Tanto que milhões de fumantes deixam de fumar e se sentem iguais ou melhores do que no tempo em que fumavam.

Basicamente, o vício de fumar é o preenchimento gestual de uma divagação, de uma reflexão.

Fora de dúvida que, embora não solucionem seus problemas ao acender um cigarro, os fumantes, no entanto, atravessam melhor a imposição dos passatempos quando fumam. Ao fumante, a vida parece ser mais tolerável e melhor de ser enfrentada com o cigarro.

E, para o viciado em tabaco, a vida se torna insuportável sem o cigarro.

Quanto ao gosto por fumar, o sabor de fumar, não tenho muito que declarar. Não sinto gosto ao fumar, não sinto delícia pelo sabor do fumo quando o ingiro em meu corpo.

Essa afirmação, no entanto, se contradiz ante o fato de que só fumo uma marca de cigarro, nenhuma outra me atrai e até não consigo fumar cigarros de outras marcas, o que parece querer dizer que aprecio, sim, o gosto de fumo. E o único gosto que me serve – ou o melhor gosto que me serve – é o da marca do cigarro que fumo.

Há fumantes que adoram puxar profundamente a fumaça, quando da tragada, até os pulmões.

Não é o meu caso, não trago profundamente a fumaça do cigarro, faço-o apenas superficialmente, pressinto que o fumo pouco passa da laringe e se vai aos pulmões é em pequena quantidade.

É uma tolice fumar. Mas o homem vive imerso em tolices.

Só que eu podia ter arranjado uma tolice menos prejudicial e mais higiênica para mim.

*

O presidente chinês Hu Jintao está declarando que já havia pedido a Barack Obama que não recebesse nos EUA o líder espiritual do Tibete, o Dalai Lama.

O porta-voz da Casa Branca, Bill Burton, declarou que Barack Obama avisou Pequim no ano passado de que se encontraria com o Dalai Lama.

Está feito o impasse, porque a China não quer o encontro, alegando que quaisquer contatos entre países diversos com o Dalai Lama significam prestígio à causa separatista do Tibete.

É uma visível e indevida intervenção da China na liberdade diplomática e política norte-americana.

Mas ameaça um estrondo entre as duas potências.

A China insiste em manter o Tibete afivelado política e institucionalmente a seu território.

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Um caso assombroso

A sensação é de mais completo desânimo e estupor. Um menino de 10 anos estava dentro do seu casebre no Bairro Rubem Berta, aqui na Capital, quando penetraram na casa dois ladrões, anteontem.

Antes de se adonarem de vários objetos pertencentes à família do menino, seguraram a criança e desferiram 34 facadas no corpo do garoto. Não se pode dizer que o menino morreu instantaneamente porque leva muito tempo desferir 34 facadas.

Pode-se calcular até que as facadas não matavam o menino, por isso eram dadas mais facadas, um crime monstruoso.

De nada servia para os criminosos a morte do menino, senão talvez para que ele não os denunciasse depois do furto.

Mas, como que possuídos por um ódio indomável, os ladrões foram esfaqueando o menino, numa tortura brutal que, mais que revoltar a opinião pública, a enoja.

Foi tão grande a revolta dos vizinhos do garoto barbaramente assassinado, que eles se autoconvocaram para vingar a morte do menino.

Investigaram e foram parar na casa de um suspeito de ter sido um dos assassinos. Armados de revólveres e pistolas, mataram o suspeito com 12 tiros.

Ou seja, um esquadrão da morte foi constituído às pressas no Bairro Rubem Berta e saiu para fazer justiça com as próprias mãos.

Não vou dizer que houve dois crimes. Porque a opinião pública certamente apoia o segundo, a execução do suspeito.

E, assim visto o cenário macabro, tolera-se o linchamento do suspeito, tal a crueldade da morte do menino. Em alguns setores, não só se tolera como também se aplaude.

Os vizinhos do menino assassinado fizeram um inquérito sumário, que demorou três horas, apontaram um suspeito, julgaram-no, condenaram-no à morte e o executaram.

Não se tem notícia de Justiça mais rápida.

Mas não que saia da minha mente a desconfiança, ontem já a ouvi no rádio: mas terá sido mesmo o suspeito linchado um dos autores da morte do menino? Não teriam agido por violenta emoção os linchadores?

A revolta contra os ladrões e assassinos prospera tanto na opinião pública, que ninguém se interessa se serão punidos os linchadores.

Atrevo-me a dizer que, mesmo que sejam levados à Justiça, serão absolvidos.

É que nós vivemos uma quadra dramática da segurança pública, em que os cidadãos se sentem inseguros, muitos deles já tiveram suas famílias atingidas pela violência reinante, têm a sensação de que podem ser as próximas vítimas. E se instala o terror entre eles.

E no Bairro Rubem Berta se instalou mais que o terror: instalou-se um sentimento de apressada e sangrenta vingança.

A todos os espíritos e inteligências, acorre a sensação de que os dois monstros que esfaquearam por 34 vezes o menino, deitando-o numa poça de sangue quando sua mãe imaginava que ele dormia e mostrou a intenção de beijá-lo ao chegar da rua, trabalhava fora como doméstica a pobre mulher e deixara o garoto sozinho em casa – a todos deve acorrer tranquilamente a conclusão de que foi a droga que levou esses dois animais a matar o menino.

Em mentes sadias, não perturbadas pela droga, não cabe tanta crueldade.

Mas, ao desolado jornalista que escreve esta coluna e se debruça sobre esse mal-assombrado caso do Bairro Rubem Berta, não escapa uma questão de remorso que poderia tingir de cores ainda mais sombrias esse episódio: terá sido o suspeito linchado a tiros um dos dois autores da morte do menino?

Terá sido?

*Texto publicado hoje na página 71 de Zero Hora

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Luz no fim do tunel

Surge uma luz no fim do túnel. Uma comissão gaúcha composta de integrantes da Justiça, do Ministério Público e do Executivo foi visitar na Inglaterra e na Espanha presídios administrados pela iniciativa privada e ficou maravilhada.

Chegou a ver presídios com carcereiros internos e externos desarmados, a higiene mais completa, os presos trabalhando e estudando.

Já não resta mais dúvida de que a solução para o nosso explosivo sistema penitenciário são as parcerias público-privadas.

O sistema penitenciário público faliu e fracassou.

Ao que parece, vamos construir o presídio de Canoas, com capacidade de três módulos para 3 mil presos, seguindo essa filosofia.

Abaixo a irracional oposição a que a iniciativa privada administre os presídios.

Folgo em saber que a sociedade enfim se volta para a questão, depois de um século de letargia.

*

Examinem como está no rumo certo este estudante de Filosofia: “Prezado Paulo Sant’Ana. Interessantes as discussões dos últimos dias na mídia em geral e também nas rodas de conversa sobre o sistema prisional do RS. O governo joga no ventilador a ideia de que é necessária com urgência a construção de novos presídios. No que eu também concordo, o nosso Central, para não citar outros, é um depósito de resíduos humanos, para não dizer outra coisa. Prefeitos de várias cidades do Estado, com exceção, faça-se justiça, do de Canoas, não querem nem ouvir falar na ideia de construção de presídios em seus municípios, óbvio que com a intenção de não manchar o seu curral eleitoral. Será que precisamos, em pleno século 21, na plena maioridade do nosso Brasil, ser obrigados ainda a manter homens e mulheres, pais e mães, cidadãos de um modo geral, trancafiados em uma cela entre três paredes e uma grade? Vivemos a era da mais alta tecnologia, do homem habitante de estações espaciais, planejando ir a Marte. Combatemos doenças das mais diversas. Construímos grandes obras que espantariam os antigos egípcios, túneis de trem que passam por baixo do mar. Bombas inteligentes que podem acertar do espaço o buraco de uma fechadura. Educamos gênios da estratégia de marketing e finanças para dirigirem grandes corporações e comandarem milhares de vidas. Será que não somos inteligentes o suficiente para criarmos uma alternativa ao sistema carcerário depois de todos os exemplos aqui citados?

O ser humano é um ser social, necessita de conhecimento, necessita progredir e, para progredir, necessita trabalhar. Aqueles que não seguirem as leis e os padrões ditados pela sociedade devem ser advertidos e posteriormente punidos, disto não há dúvida, mas não pode deixar de aprender e trabalhar. Trabalhar para o seu próprio progresso e para o progresso do bem comum. Vamos criar alternativas de trabalho para esses homens e mulheres de nossa sociedade que cometerem delitos. Em vez de presídios, vamos construir salas de aula para educá-los, antes tarde do que nunca. Vamos construir fábricas de lixo reciclável, fazer trabalhos comunitários em localidades pobres. Construir fábricas de materiais de construção do governo para a aquisição de futuras casas e posterior redução do déficit habitacional deste país. Vamos cuidar dos nossos presos educando-os e colocando-os para trabalhar, cada dia de trabalho árduo, um dia a menos na pena. Vamos destruir todos os presídios e em seus lugares construir monumentos de lembrança para a posteridade de como éramos bárbaros quando lidávamos com nossos infratores da lei antes do século 21. E não adianta justificar que não temos como controlar toda a população carcerária solta. A tecnologia está aí. Existem meios de todo mundo ser muito bem rastreado. Qualquer tentativa de voltar ao crime aumenta a pena. Faço um jogo de que, para cada 10 infratores que recebessem educação e muito trabalho, talvez um deles apenas ainda se rebelaria. Sabem por que o cárcere não funciona para recuperar um cidadão? Porque no cárcere imperam os maus exemplos. O exemplo da solidão, da exclusão, da intolerância, do afastamento social, entre tantos. E ninguém se corrige com maus exemplos. Todos nós, seres humanos, para sermos pessoas de bem, precisamos de três coisas: educação, trabalho e cultura. Os infratores ainda muito mais.

Rezo para que nosso governo acorde enquanto há tempo. Que bonita nova sociedade construiríamos. (as.) Paulo Ratki, Porto Alegre (ratki@terra.com.br)”.

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Licença pra uma opinião

É muito difícil dar opinião. Quem se aventurar a dar opinião pode ter certeza de que logo em seguida será contrariado.

Por exemplo, um mês atrás, o Datafolha publicou uma pesquisa em que José Serra estava muito à frente de Dilma Rousseff.

Mas eu notei uma tendência de crescimento tímido de Dilma Rousseff.

Então, fiz uma análise da pesquisa. Extensa análise, no meio da qual não fiz qualquer prognóstico sobre quem venceria a eleição.

Só que no fim da coluna arrisquei minha opinião: vai ganhar Dilma Rousseff a eleição.

Recebi vários e-mails me xingando por tomar partido. Mas que partido que tomei? Pouco me importa se ganhar Serra ou Dilma, não tenho nenhum interesse na candidatura de qualquer um dos dois, lixo-me para o resultado sob o ponto de vista de meu vaticínio.

Mas como esta coluna é teoricamente um espaço de opinião, arrisquei dizer, quando ainda era cedo para adiantar resultado, que Dilma vai ganhar a eleição. Pensei que o leitor poderia achar interessante a minha opinião.

Mas foi mal vista por algumas pessoas minha opinião.

Vejo agora, na pesquisa CNT/Sensus saída ontem, que Dilma Rousseff está tecnicamente empatada com José Serra, quando o cenário prevê a candidatura alternativa de Ciro Gomes.

Dilma cresceu pelo menos cinco pontos percentuais nos dois cenários testados pela pesquisa. O governador de São Paulo ainda lidera nas duas pesquisas estimuladas, mas a margem entre os dois diminuiu. Dilma já ultrapassou Serra na pesquisa espontânea.

Serra tem 33,2%, Dilma tem 27,8%, Ciro Gomes entra em terceiro com 11,9%.

Agora me sinto ainda mais tentado a dar opinião. Ocorre que em outra pesquisa sobre popularidade de Lula e aprovação do seu governo, em ambos os itens o presidente demonstra crescimento e atinge níveis espetaculares de aceitação na opinião pública.

E o crescimento de Dilma, então, tende a não mais parar.

Naquela outra coluna em que previ, há 30 dias, que Dilma vai ganhar, expliquei que só o que faltava era o eleitorado saber que ela era candidata. Por incrível que pareça, grande parte do eleitorado ainda não sabia e ainda não sabe. Porque a grande massa do eleitorado brasileiro não se liga em política como se ligam os leitores desta coluna.

E pressagiava eu que, fosse o eleitorado conhecendo aos poucos a notícia de que Lula quer Dilma como sua sucessora, a chefe da Casa Civil iria crescer nas pesquisas e a eleição seria um abraço para ela.

Cá para nós, há muito tempo que Lula está em campanha pela sua sucessão. Por onde vai nas inaugurações que visita em todo o país, leva Dilma a tiracolo. E deixa muito claro que ela é a sua candidata.

No meu entender, não haveria como a popularidade de Lula e a aprovação do seu governo, que crescem em nível espetacular, deixar de se transferir para Dilma Rousseff.

A campanha ainda não começou, no meio do ano vai se incendiar.

Mas quando a eleição se decidir, para mim disso não resta mais qualquer dúvida, a sensacional popularidade que Lula ostenta fará que ela se derrube em catadupas de votos em favor de Dilma.

Repito, pouco se me dá que qualquer um ganhe. Mas não posso me furtar à minha opinião.

E, para mim, a Dilma vai ganhar amparada, sustentada pelo Lula.

Dilma nunca disputou uma eleição, nunca foi prefeita, nem governadora.

Mas, com um padrinho desses, precisava?

Ela só perde se a popularidade do Lula cair.

*Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

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O problema é “nosso”

Está arrancando aplausos da sociedade a entrevista publicada sábado passado em Zero Hora com o tenente-coronel Sérgio Lemos Simões, comandante do 11º BPM.

Nesta quadra que vivemos de insegurança, qualquer autoridade que surja pregando que se prendam os criminosos faz sucesso.

Pouco tempo atrás, surgiu aqui entre nós um secretário da Segurança e um comandante da Brigada Militar pregando que se prenda e arrebente: foram ovacionados pela torcida.

A torcida quer ver sangue, quer todos os criminosos na cadeia, brada contra a impunidade.

E eu me incluo na torcida, quero declarar que pretendo que todos os criminosos sejam postos na cadeia. Não dá mais para vê-los soltos e impunes pelas ruas, cometendo crimes e atacando os cidadãos.

Quero dizer, portanto, que como toda a sociedade, estou ao lado do que disse o tenente-coronel, tem que prender e manter presos todos os criminosos.

 

Não é qualquer dia que um jornal consegue uma entrevista de um comandante de batalhão da Brigada Militar declarando que se sente inseguro. Logo se pensa fácil: se o tenente-coronel está inseguro, imagine a população.

Li atentamente a entrevista. A bem da verdade, a única coisa que ela contém de novo é que dessa vez não é um cidadão que clama contra a impunidade, é um agente público de importância nos órgãos de segurança.

O entrevistado recorre a um refrão utilizadíssimo: a polícia prende e a Justiça solta.

Até aí nada de novo, quem tem de prender é a polícia e só quem pode soltar é a Justiça.

A entrevista teria o seu ápice existencial quando o repórter Marcelo Gonzatto perguntou em que local seriam depositados os milhares de presos que em última análise o tenente-coronel quer ver atrás das grades.

Resposta do coronel: “Não é problema meu, não é problema do cidadão, não é problema do teu pai e da tua mãe, que pagam impostos”.

Só nisso, por sinal o principal, é que discordo do coronel. É um problema dele, sim, a falta de presídios, é um problema meu, é um problema dos pais e das mães que pagam impostos, é um problema de todos, é um problema nosso.

O coronel quis dizer que este é um problema só dos legisladores e da Justiça. Mas de quem são os legisladores e a Justiça? São nossos.

Então o problema é nosso.

Mas a entrevista do coronel tem um mérito: alerta, sem definir isso com palavras, mas dá a entender que é preciso construir presídios, caso contrário a insegurança nas ruas crescerá

Mas há 38 anos que brado que tem de construir presídios, no rádio, na televisão e no jornal. E ninguém me deu bola.

Espero que deem bola para o coronel.

O problema não é criminal: é penitenciário.

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Soneca na sinaleira

Aconteceu uma cena notável, quinta-feira passada, na sinaleira da Rua Bogotá, esquina da Avenida Assis Brasil, Zona Norte.

Eram sete horas da manhã e um motorista embriagado dormiu no volante, congestionando e atrapalhando todo o trânsito. Uma fileira imensa de carros ficou atrás do veículo dirigido pelo embriagado.

O nosso repórter de trânsito, Mauro Saraiva Jr., que chegou junto com a polícia, acordou o motorista embriagado e eu ouvi a entrevista na Gaúcha.

– O senhor está embriagado?

– Negativo.

– O senhor está se sentindo bem?

– Positivo.

– O senhor aceita se submeter ao bafômetro?

– Positivo.

– Por que o senhor ficou parado na sinaleira?

– Parei por causa da blitz.

O fato é que não havia blitz nenhuma na sinaleira, não se sabe como o bebum enxergou uma blitz.

***

Afora esse fato singular, as pessoas estão dormindo nas sinaleiras de Porto Alegre.

Conheço inúmeros motoristas que tiram sonecas nas sinaleiras. Um deles me disse que quando está com bastante sono se dirige para a esquina das Avenidas Princesa Isabel e João Pessoa e forra o poncho dormindo naquela sinaleira de três tempos. Demora, demora, o motorista tira uma pestana prolongada.

***

Para tratamento sonoterápico, sugiro aos motoristas que se dirijam à Rua Lucas de Oliveira, que atravessa a cidade do Partenon até a Auxiliadora: não existem sinaleiras mais demoradas e frequentes.

A Avenida Assis Brasil, onde em uma das sinaleiras o motorista bêbado foi apanhado em sono profundo, dá pra parar o carro na sinaleira, descer do veículo, ir comprar um refrigerante e frutas e voltar para o volante a tempo de seguir depois que o sinal abre.

***

Quem vem pela Avenida Praia de Belas na altura do Pão dos Pobres e quer converter à esquerda para entrar na Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, prepare-se para dormir na sinaleira. Quando passo por ali, vejo o ronco dos motoristas confundir-se com o do motor dos carros.

No Laboratório do Sono, o Dr. Dênis Martinez costuma receitar uma infalível receita contra a insônia: dirigir 15 dias seguidos no trânsito de Porto Alegre. Não há quem resista e não pegue no sono ao parar nas sinaleiras da Capital.

E há duas sinaleiras que estão ficando famosas pelo sono que provocam nos motoristas que as cruzam: a da Faixa Preta (Dr. Campos Velho), esquina da Avenida Cavalhada, e a da Avenida Ipiranga, esquina da Borges de Medeiros, que já ganharam até apelidos dos motoristas porto-alegrenses: Dormonid e Lexotan.

*Texto publicado na página 47 de ZH Dominical

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Sístole e diástole

Descobrimos, ainda a tempo, que nós, brasileiros, estávamos descuidados com a saúde do nosso presidente Lula.

Assistimos ao esforço hercúleo do presidente atingir, só em 2009, 83 dias viajando pelo Brasil e ainda 91 dias no Exterior, visitando 31 países. Três meses viajando pelo Exterior, quase outros três meses viajando pelo Brasil.

São seis meses só de viagens. Só quem viaja sabe o quanto isso é desgastante.

E só agora, depois da crise hipertensiva de Lula às vésperas do embarque para Davos, na Suíça, é que fomos perceber que descuidávamos da saúde do presidente.

Esse incidente é que afinal nos levou a dar maior atenção à saúde presidencial.

Ficamos sabendo até o que vem a ser a pressão sanguínea, isto é, a pressão exercida pelo sangue contra a parede das artérias.

Soubemos até, só agora, depois do susto de Lula, que uma medida considerada ótima para pressão arterial é menor que 120mm/Hg na sístole (contração do átrio) e 80mm/Hg na diástole (relaxamento do átrio).

E que, quando a pressão está entre 140mm/Hg e 90mm/Hg, ou maior, já é considerada alta.

O normal (ideal) da pressão é, portanto, 12 por 8. E Lula apresentou esta semana 18 por 12, daí por que os médicos o impediram de ir a Davos receber o título de Estadista Global no Fórum Econômico.

Eu gostaria de saber como é que se decide suspender uma viagem dessas. Se o presidente está acima de todos, como podem os médicos ordenar que ele não viajará e não receberá um título importante desses?

O mais correto talvez fosse dizer que o presidente Lula foi quem decidiu não viajar, a conselho do médicos.

Desde 2003, quando assumiu, Lula passou nada menos do que 426 dias no Exterior, enquanto que às viagens nacionais dedicou quase 600 dias.

E, quando está em Brasília, Lula tem uma agenda diária de pelo menos 12 horas.

Bota trabalho e vigília nisso. É uma agenda apertada que exige saúde muito boa de quem a cumpre.

Agenda tão estafante, que o presidente não achou tempo para fazer o seu check-up de 2009.

Apesar de exercitar-se fisicamente todos os dias, quando não está viajando, mantendo hábitos morigerados, destoa no entanto o presidente quando fuma cigarrilhas.

Mas afirma o chefe do Departamento de Hipertensão do Hospital das Clínicas de São Paulo, Dr. Décio Mion Júnior, que não foram o cigarro, nem o resfriado, nem a dieta à base de proteína, as causas da crise sofrida por Lula.

Mion disse que o excesso de sal na alimentação ou de álcool também só afetam pessoas que já tenham um quadro hipertensivo, o que não é o caso de Lula.

Acrescentou o médico: “Se a pessoa acender um cigarro após o outro, pode sofrer uma elevação muito discreta da pressão, mas não uma crise aguda. O cigarro leva ao enfarte, não é recomendável, mas não age diretamente sobre a pressão”.

Admirável opinião médica esta que singularmente, em oposição à cascata que vem ao contrário, não atribui ao cigarro a causa de uma doença importante.

O fato é que depois desse conhecimento do quadro geral de Lula, que sentiu um desconforto, uma dor de garganta e apresentava uma coriza, nós, brasileiros, estamos advertidos de que temos que cuidar melhor da saúde do nosso presidente.

Os cuidados médicos são os seguintes: melhorar a alimentação, evitar o consumo de sal, exercitar-se e parar de fumar.

*Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

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Os leitores e as pernas

Recebi este e-mail de uma leitora ainda indignada com a minha coluna de segunda-feira e resolvi republicar aqui no blog.

(Foto: Arquivo Pessoal)

“As veranistas de Capão Novo que me perdoem, mas isso SIM são coxas grossas, com MUITÍSSIMOOOO orgulho, e dignas da genética — porque não passamos horas e horas na academia para termos coxas musculosas!

Para você, Sant’Ana! As brasileiras são referências por suas coxas e não por suas coxinhas!

Um grande abraço,

Ariane Chagas, Luana Oliveira e Natalia Dias, de Porto Alegre.”

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O império dos ratos

É a verdadeira revolta dos ratos. O Posto de Saúde Ernesto Araújo, no Morro da Cruz, amanheceu fechado na terça-feira pela infestação de ratos.

Os ratos passeiam olimpicamente por todos os ambientes, na copa, nos corredores, na farmácia, no almoxarifado e nas outras salas.

Os pacientes estão sendo atendidos e de repente atravessa a sala um tremendo ratão.

E o pior: quando alguém tenta retirar ou espantar um rato, ele enfrenta quem faz isso, não se deixa atemorizar e cria um clima de guerra lá dentro do posto.

O que quer dizer que se trata de ratões nutridos, criados a toddy, prontos para encarar qualquer medida que pretenda tirá-los de lá, eles são donos do território.

Não tem explicação que a Secretaria Municipal de Saúde tenha permitido que a situação chegasse a tal ponto.

Assim é que estamos tratando a saúde dos nossos munícipes? Se lá no templo da saúde dominam os ratos, como anda a coisa aqui por fora?

* * *

Era governador da Guanabara Negrão de Lima. Um dia o seu secretário da Saúde veio lhe dizer algo que parecia estonteante:

– Não dá mais, governador, os ratos dominaram a cidade do Rio de Janeiro: já temos 100 milhões de ratos, são 10 ratos para cada habitante da cidade. Algo precisa ser feito.

E o governador perguntou ao secretário:

– O senhor podia me dizer como é que vocês fazem para contar os ratos.

* * *

Recebo do Dr. Amarílio Vieira de Macedo Neto, presidente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, uma reclamação sobre a coluna que escrevi domingo, em que disse que a Santa Casa e o Hospital de Clínicas têm “estupenda capacidade ociosa em suas emergências”.

Tem inteira razão o Dr. Amarílio, eu quis me referir somente a Santa Casa e incluí por equívoco o Hospital de Clínicas.

Peço desculpas, sei do quadro de superlotação permanente da emergência do Hospital de Clínicas, com 65 leitos, 49 para adultos, 13 pediátricos e três obstétricos.

Sei que é rotina a emergência efetuar o dobro de atendimentos de sua capacidade.

Quanto ao “silêncio” que reclamei do Hospital de Clínicas na questão das emergências, não me referi à rotina de comunicação do hospital com a mídia, mas por não ter vindo a público dizer o que exatamente agora está me dizendo o presidente: prestando contas dos serviços relevantes efetuados em sua emergência.

Eu queria apenas cutucá-lo, Dr. Amarílio, para vir para a planície, pois a superintendente do Conceição, Jussara Cony, soltou o verbo, gritando que o GHC lotava porque os outros hospitais fechavam suas emergências logo que excediam suas capacidades.

E o senhor está esclarecendo que no ano de 2009 a média anual de ocupação da emergência do Clínicas foi de 128%, ou seja, não só atendeu toda a sua imensa capacidade como ainda a excedeu em 28%.

Só peço, Dr. Amarílio, que, quando se comunicar com esta coluna, faça-o em texto com menor tamanho, o que o senhor mandou levaria várias colunas para divulgá-lo.

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O fim da vida

Logo que surgiu a notícia da morte de Marlene Sirotsky, todos associaram seu vulto a esta esplêndida figura humana que é seu viúvo, Jayme Sirotsky.

Não pudemos vê-lo, ele estava nos EUA com dona Marlene, desembaraçando os atos funerários que culminarão hoje à tardinha com o enterro, aqui em Porto Alegre.

Mas dá para calcular a dor em que estão imersos ele e seus três filhos, Marcelo, Sergio e Milene.

A mão sombria da morte atingiu-os depois de mais de 50 anos de relacionamento conjugal e filial, na rememoração de tantos momentos felizes do casal que se conheceu muito jovem, da mãe que foi embalando seus filhos desde o nascimento até a maturidade, surgindo os netos como recompensa a este convívio estreito e inseparável.

Resta-nos somente partilhar a dor do seu Jayme e de seus filhos com o passamento de dona Marlene.

A morte faz parte da vida. Ela decide que vai levar em seus braços a todos nós.

Melhor que o faça assim, depois de tantos anos de convivência familiar produtiva e afável.

A melhor homenagem que eu poderia prestar a dona Marlene é declarar que não tenho dúvida de que seu Jayme daqui por diante será um homem diferente sem ela, embora cada vez mais vivo e atuante, não lhe faltando virtudes e atributos que possam recuperá-lo do tremendo choque, principalmente a capacidade ilimitada que ele tem de fazer e encantar amigos.

Recebi e transcrevo por ser essencial para o SUS de Porto Alegre a participação da Santa Casa: “Prezado Paulo Sant’Ana: excelente a tua coluna ‘Energia desaproveitada’, publicada na edição do último domingo. Trata-se de mais um bem-vindo capítulo dessa tua incansável e tão necessária campanha pela crescente qualificação da assistência médica e hospitalar aos beneficiários do SUS.

Tens razão quando afirmas que a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre é destaque em nosso Estado no atendimento aos pacientes do SUS. Ao longo de seus 206 anos de história, a Santa Casa jamais deixou de cumprir sua missão de prestar assistência médica e hospitalar a pessoas de todas as condições sociais, sobretudo aos mais necessitados.

Em 2009, a instituição realizou 357.038 consultas, 26.454 internações, 30.990 procedimentos cirúrgicos e obstétricos e 2.078.361 exames diagnósticos e de tratamento aos beneficiários do SUS, o que consolida sua condição de hospital privado que mais atende a esse público no Rio Grande do Sul.

No entanto, a assistência prestada já foi maior, pois tem havido, em anos recentes, crescente diminuição nas cotas que os responsáveis pelo sistema público de saúde destinam aos hospitais privados que atendem ao SUS. Em 2002, por exemplo, o SUS autorizou 37.175 internações hospitalares nas sete unidades do complexo da Santa Casa, volume que caiu para 26.454 no ano passado. Em 3 de fevereiro de 2009, protocolamos junto ao gestor municipal da saúde uma proposta para ampliação da cota de assistência ao SUS. Ainda não recebemos resposta. Quanto à emergência SUS para adultos – oficialmente com oito leitos –, temos tido uma média diária de 30 pacientes internados, com os excedentes acomodados em leitos extras e em macas… Um grande abraço (as.) Carlos Alberto Fuhrmeister – diretor-geral e administrativo da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre”.

*Texto publicado hoje na página 79 de Zero Hora

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