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Entrevista com Jon Lee Anderson

09 de outubro de 2009 0

Posto hoje aqui para vocês entrevista que fiz com o jornalista e escritor Jon Lee Anderson sobre o artigo por ele publicado em setembro na revista New Yorker (e que comentei no post de ontem): “Gangland: who controls the street of Rio de Janeiro?”. Nesta entrevista, realizada por e-mail no último dia 2, Jon Lee fala de suas motivações para escrever seu artigo, conta ter temido por sua segurança pessoal, compara áreas do Rio de Janeiro com regiões em guerra civil, mas se diz profundamente esperançoso com relação ao futuro da cidade e de sua gente.


Você é um jornalista e escritor reconhecido pelo seu conhecimento da realidade latino-americana. Quando e como surgiu a idéia de escrever um artigo sobre o Brasil?


JLA – Venho desejando escrever sobre as favelas do Rio de Janeiro e sobre o que eu chamo a “realidade dual” da cidade desde a minha primeira visita ao Brasil, em 1997. A idéia foi sendo incrementada em sucessivas pequenas viagens ao Brasil nos anos subseqüentes. Mas em virtude de uma coisa, ou de outra, (sobretudo porque eu fui por vários anos deslocado de um lado para o outro em função de eventos – notadamente as guerras do Afeganistão e do Iraque), este projeto apenas tornou-se viável em princípios deste ano, permitindo-me estada mais prolongada no Rio, de modo a agarrar a história.


Como você fez a sua pesquisa no Rio de Janeiro? Você contou com ajuda de um intérprete, alguém lhe ajudou a chegar às suas fontes e a seus depoentes?


JLA – Trabalhou próximo a mim um fotógrafo português, chamado João Pina, que já trabalhou bastante no Rio de Janeiro e tinha bons contatos lá. Eu também fui assistido nas minhas pesquisas por brasileiros que conheci ao longo dos anos e pelos quais desenvolvi confiança. Para expandir meu conhecimento e ampliar minhas informações de background eu me encontrei em diversas oportunidades com alguns brasileiros de diferentes expertises. Não os citei a todos em meu artigo por razões narrativas. Algumas pessoas, ainda, ajudaram-me nas favelas, mas, por razões de segurança, é melhor deixá-las no anonimato.


Em algum momento, você temeu pela sua segurança pessoal?


JLA – Sim, algumas vezes. Quando você está sob a custódia de criminosos armados você está sempre sob algum risco em potencial. Numa favela, em um episódio sobre o qual eu resolvi não escrever neste artigo, fui alertado por um bandido do alto escalão para não esquecer do que acontecera a Tim Lopes. A mensagem foi muito clara.


Algumas pessoas no Brasil consideraram que seu artigo poderia fazer parte de uma conspiração para denegrir a candidatura do Rio de Janeiro à sede dos jogos olímpicos. Como você reage a esta crítica?


JLA – Estou chateado com esta acusação, que é, certamente, falsa, embora eu possa perceber como algumas pessoas, notando a coincidência, possam ter achado não ser por acaso. Mas é só isto: coincidência. Eu não arrisquei perigosamente a minha vida e o meu trabalho nesta história a serviço de alguma obscura conspiração norte-americana para denegrir a proposta do Rio para sediar as Olimpíadas.


Eu lamento por esta coincidência, até porque estas teorias de conspiração são uma distração para aquilo que eu acredito constituir-se nos desafios importantes para o Rio (e para o Brasil) – especificamente, seus problemas conjugados de carência de estado de direito, de justiça social e de segurança pública. Certamente, estes são problemas que se estendem para além do Rio, mas o que está acontecendo no Rio está mais em evidência porque, em certa medida, seus problemas estão entre os mais exacerbados. A questão é que estes problemas precisam ser enfrentados.


Você já cobriu inúmeras zonas de guerra e do conflito no mundo. Você acredita que o Rio de Janeiro viva uma espécie de guerra civil? O que há de comum e de diferente entre a violência praticada pelas gangues do Rio e a existente em outras áreas de conflito no resto do mundo?


JLA – É possível fazer-se uma comparação. A forma com que as pessoas vivem em amplas partes do Rio – sob a autoridade e a misericórdia de criminosos armados ou da polícia corrupta, que algumas vezes não é outra coisa além de violenta – não é assim tão diferente da maneira como as pessoas em certos países vivenciam a guerra civil, quando milícias étnicas ou sectárias controlam uma ou outra parte da cidade ou do país. A grande diferença para a violência organizada do Rio (ou do México de hoje em dia, podemos dizer também) e para a de algumas guerras civis do passado recente é que não há ideologia política em jogo – trata-se no Rio, sobretudo, de criminalidade e de perseguir a lucratividade. As pessoas que estão lutando, o fazem para se apropriar ou manter o controle sobre algo que elas podem vender, obtendo lucro a partir disso. É nisso que seus “corações e mentes” se concentram. É uma sobrevivência, pelo terror, o que eu suponho ser capitalismo brutal na sua forma mais selvagem.


O que mais o impressionou em sua pesquisa sobre o Rio de Janeiro?


JLA – O que mais me impressionou? A vivacidade e a alegria de viver de sua gente, acima de tudo o mais. Eu fiquei gratificado e esperançoso de ver os esforços feitos por pessoas comuns – mães, pais, com crianças – para viver vidas normais; encorajado por ver que, apesar de tudo, eles preservam aspirações de uma vida melhor para os seus filhos. Esta ausência de um desespero generalizado me deu, e me dá, uma enorme esperança com relação ao futuro do Rio e de sua gente.

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