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Entrevista com o escritor e Secretário de Cultura de Porto Alegre, Sergius Gonzaga

15 de outubro de 2009 2

Trago hoje para vocês uma entrevista com o professor, escritor e Secretário de Cultura de Porto Alegre Sergius Gonzaga, que além de informativa, está também divertida.

Sergius Antonio Marsicano Gonzaga tem 62 anos e é natural de Taquara, Rio Grande do Sul. Lecionou em vários colégios da Capital, tendo sido sócio-fundador dos colégios Unificado e Leonardo da Vinci. É professor de Literatura da UFRGS e dirigiu por vários anos a Editora da Universidade. Também esteve à frente da criação de editoras e da livraria Quarup. Assumiu a Secretaria da Cultura de Porto Alegre em janeiro de 2005. É autor dos livros “Erico Verissimo” (IEL), “Curso de Literatura Brasileira” (Leitura XXI) e “Estrela da Vida Inteira – Guia de Leitura” (Leitura XXI).

Nesta entrevista, ele fala dos projetos para a cultura de Porto Alegre, do Auditório Araújo Viana, do Teatro da Ospa e comenta o seu últio livro, “O hipnotizador de Taquara”.


Quais foram as principais dificuldades de gestão que você encontrou ao assumir a Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre?

SG – Os equipamentos culturais em péssimo estado. Tive de interditar o Teatro de Câmera, o Museu Joaquim Felizardo e o Araújo Vianna, sem contar as condições precárias do Centro Municipal de Cultura, da Casa Godoy e da Usina do Gasômetro.

Em sua opinião, quais foram as principais conquistas e realizações de tua gestão na SMC até o presente momento?

SG – No plano material, as reformas já realizadas em vários espaços (incluindo-se aí a climatização do Paço Municipal que possibilitou a preservação das obras de nossas pinacotecas); as obras (em andamento) da Pinacoteca Rubem Berta, na Duque de Caxias; a construção de dez barracões no Porto Seco; a informatização da Biblioteca Josué Guimarães; o início da montagem do teatro Elis Regina, na Usina, previsto para novembro deste ano; a conclusão da Cinemateca Capitólio, que depende apenas de verbas já prometidas pelo BNDES. Temos ainda três projetos em fase de captação de recursos: o das Casas de Leitura na periferia (projeto arquitetônico de Cesar Dorfmann); o do Centro Social de Dança, na rua dos Andradas (projeto arquitetônico de Joel Gorski); e o de construção de um ousado bar-café na Tremonha, junto à Usina (projeto arquitetônico de Silvia Moreira e Rufino Becker). Além disso, estamos em contato com o internacionalmente conhecido arquiteto Paulo Mendes da Rocha para que projete o Complexo Cultural do Porto Seco (Sambódramo), mas este último depende de um acerto financeiro ainda não estabelecido.

No campo de eventos, entre outros programas, foram criados o Festival de Inverno, as 24 Horas de Cultura, o República do Rock, o Cinema nos Bairros, o Prêmio Açorianos de Artes Plásticas, etc.

Em que pé está o projeto de cobertura e reforma do auditório Araújo Vianna?

SG – Depois de idas e vindas, o projeto Fayet-Moojen foi concluído (houve larga pesquisa tecnológica em torna da questão da vedação acústica da nova cobertura). O EVU já foi concedido e o projeto agora está na SMOV para aprovação. Depois disso, precisa-se apenas para a autorização de início de obra pela SMAM. Espero que em novembro, os tapumes sejam colocados e a reforma comece. A longa espera, no entanto, será compensada: o auditório ficará maravilhoso, tanto no sentido estético e acústico, quanto  no conforto oferecido aos espectadores. A SMC já está pensando em uma programação fortemente popular para preencher os dias que ficarão disponíveis para a Prefeitura (91 dias por ano).

Você tem acompanhado o projeto para a revitalização do Cais da Mauá? Qual a participação da SMC neste processo? Quais os usos e equipamentos culturais previstos para a área?

SG – Como todos sabem, esta grandiosa obra é de competência do governo do Estado e seu emérito “tocador” é o Edmar Tutikian. Mas coube a SMC a aprovação das obras em pavilhões tombados pela EPAHC. O pré-projeto do Cais, desenvolvido por um consórcio brasileiro-europeu, após licitação pública, é amplo e permitirá algumas modificações no uso do espaço dos pavilhões, que ainda não está completamente definido. O certo é que, depois da obra executada, a cidade se transformará para sempre. E para melhor.

Quais os equipamentos culturais que a cidade poderia ter, mas não tem, e mais fazem falta aos seus habitantes?

SG – Precisaríamos de um espaço médio para espetáculos musicais de artistas e grupos locais. Uma sala com acústica perfeita para, digamos, 200 pessoas. Seria interessante também que houvesse casas de espetáculos descentralizadas, mas isso teria de partir da iniciativa privada, pois o poder público não tem recursos para tanto. Acho, por fim, que porto Alegre precisaria de uma nova Biblioteca, à altura da paixão que os habitantes da cidade tem pelos livros e pelas idéias. Contudo, o projeto teria de ser arrojado e inovador, a exemplo das bibliotecas que o governo colombiano construiu em suas principais cidades.

Qual a tua expectativa e opinião sobre o projeto do novo Teatro da Ospa? Como você avalia a ausência de um fosso de orquestra no projeto neste projeto?

SG – Não me sinto capaz de analisá-lo do ponto de vista musical. Do ponto de vista estético, acho que se retirassem da parte frontal um retângulo de concreto onde se encaixa o nome da OSPA e deixassem apenas o vidro liso, o projeto ficaria muito mais limpo, bonito e moderno.

Quais as prioridades da SMC neste momento e quais os novos projetos que estão em gestação?

SG – Estaremos realizando em novembro um encontro nacional de Secretários de Cultura das capitais. Para o ano que vem, entre outros planos, destacam-se a ampliação das ações da Editora da Cidade, a criação de uma revista cultural eletrônica, o estabelecimento de uma continuidade evolutiva nas oficinas de Descentralização e a definição do projeto do Complexo Cultural do Porto Seco.

Você acabou de lançar, em uma concorrida sessão de autógrafos, seu último livro, “O Hipnotizador de Taquara”. Em que medida esta obra é um reencontro com as tuas origens?

SG – Gosto de imaginar uma paráfrase de Confidência do Itabirano, célebre poema de Carlos Drummond: “Taquara é apenas uma fotografia na parede / mas como dói…” No entanto, no meu livro, apenas duas ou três crônicas são especificamente taquarenses. As outras se passam em Porto Alegre.

Como se dá, em teu processo criativo, a opção pelo gênero das crônicas?

SG – Fui “inventado” como cronista de tevê na segunda metade da década de 80. Falava todos os dias de três a cinco minutos, o que, na televisão, é uma loucura em termos de tempo. Só professores (que sempre sofrem de incontinência verbal) seriam capazes de tamanho despropósito. Agora, reuni as crônicas que me pareciam mais interessantes, dei-lhes uma roupagem literária e arrisquei um livro. Certamente é uma estréia tardia.

O humor arguto e agradável é a característica central de teu livro?

SG – Sim, o pessoal que leu o livro diz que se divertiu muito. Na semana retrasada, li no Sarau Elétrico a crônica Festa existencialista na casa do Irion. Todo  mundo gargalhava desbragadamente. Não era minha intenção. Minha intenção era fazer uma crônica de época. Dos costumes juvenis da classe média porto-alegrense um pouquinho antes da revolução sexual. Escrevi essa crônica com melancolia na alma. Por tudo aquilo que não volta mais e, sobretudo por tudo aquilo que poderia ter sido e que não foi. E aí vejo todo mundo morrendo de rir. Será que nós, rapazes de 1963, com mãos peludas e infinitas espinhas no rosto (devido à entrega ao vício solitário) não passávamos apenas de seres risíveis? Será que as normalistas do Instituto de Educação e do Bom Conselho que gargalhavam freneticamente, jogando a cabeça para trás, e que deixavam os joelhos à mostra para nos provocar, eram somente ingênuas meninas provincianas que o tempo tornaria engraçadas?

Vejam que paradoxo: quis fazer obra lírica e acabei me tornando um humorista.

Como trajetória de vida pessoal e literatura se misturam em sua obra?

SG – Todas as crônicas que escrevi resultam de vivências diretas e reais. Mesmo as inventadas.

Como é conciliar as obrigações de secretário da cultura com as de escritor? Sobra tempo para a escrita?

SG – E as noites de sábado? Não sou como aqueles playboys de antigamente, Voltaire Schilling, Luis Fernando Ehlers, Flávio Oliveira (entre outros) que gastavam suas noites (especialmente os sábados) percorrendo as ruas do Centro e aterrorizando as famílias com gritos tenebrosos: “Abaixo o namoro casto! Abaixo a virgindade! Viva o amor livre! Viva o sexo!” Não, nunca simpatizei com eles. Por isso achei um tempo para mim nas noites de sábado.

Do que você mais gosta em Porto Alegre?

SG – Das livrarias, dos cafés e do entardecer na Zona Sul.

Comentários (2)

  • anônimo diz: 23 de outubro de 2009

    que diagramação, hein?

  • Paulo Roberto diz: 23 de agosto de 2011

    Puxa, chega a ser horripilante ver um homem como esse, que conheço pessoalmente, por isso falo com convicção, discursando sobre arte e cultura, no momento em que ele é um entrave dentro da secretaria de cultura e suas vertentes. Um homem que acumula desserviços a arte e artistas locais, porque não investe n Usina do Gasômetro por exemplo, onde artistas trabalham como podem e sem absolutamente nenhuma ajuda do estado. esse senhor é uma fraude, simplesmente uma Fraude! Lembro bem de um dia em que Ele, Sérgius Gonzaga discursou longamente sobre a “inutilidade” dos teatreiros locais. Esse homem ridiculariza o governo da Prefeitura Municipal de Porto Alegre e nosso Prefeito José Fortunate.

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