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Entrevista com Francisco Marshall

05 de novembro de 2009 1

Trago hoje para vocês uma entrevista com o professor da UFRGS, classicista e idealizador do StudioClio, em Porto Alegre, Francisco Marshall.

Você é professor de antiguidade clássica na Universidade Federal do RS. Qual é o campo disponível para o historiador da antiguidade no Brasil atual?


FM – Quem estuda decentemente a cultura clássica obtém um chaveiro com muitas chaves-mestras, não apenas para desvendar diferentes contextos históricos e a tradição humanística, entre o antigo e o contemporâneo, mas sobretudo para desenvolver o pensamento crítico e criativo. Assim, o campo profissional do classicista pode facilmente se alargar da área específica, de docência e pesquisa, para outros segmentos, nas áreas de memória e patrimônio, dos processos curatoriais, do meio editorial, da comunicação e da gestão cultural, e mesmo na vida empresarial. Nos EUA, os egressos do Dartmouth College, que recebem uma forte educação clássica, percebem os melhores salários e são disputados por grandes corporações. Talvez isso também ocorra aqui, quando o Brasil se tornar capitalista. O classicista tem por meta social recuperar e tornar relevante a memória profunda da civilização, ampliando a noção de identidade cultural e os recursos disponíveis para a reflexão e a ação contemporâneas.


Como surgiu a idéia de montar o StudioClio?


FM – O StudioClio complementa e enriquece a paisagem cultural de Porto Alegre com uma agenda de atividades originais e de alto nível em todos os campos da arte e do humanismo, com ênfase na memória cultural. Ele nasceu para ser um instituto transdisciplinar, aberto ao diálogo e à interação entre pessoas, épocas, gêneros e disciplinas, desburocratizado, acessível e confiável. Ele dinamiza a vida acadêmica e promove a criação artística. Sobretudo, o StudioClio oferece ao público a percepção de nossa dimensão cultural universal, por meio de diferentes comentários sobre o patrimônio cultural da humanidade, com nosso ponto de vista – atual e brasileiro, latino americano. A idéia surgiu de uma percepção estratégica – a falta que faz um espaço deste tipo e os benefícios que pode produzir à sociedade.

Qual é o conceito de gestão cultural do StudioClio?


FM – Em linhas gerais, vigora uma índole transdisciplinar, de abertura ao diálogo, com preservação do rigor e a busca de novas linguagens a cada atividade. Recebemos muitas propostas da comunidade, e nunca começamos a análise com um não; há sempre um caminho para desenvolver os projetos, sem seguir roteiros fáceis ou distribuir pacotes prontos. Mantemos permanentemente linhas de pesquisa e o diálogo com institutos, artistas e pesquisadores, bem como uma atenção para com o cenário transdisciplinar internacional. As finalidades de gestão são a manutenção da alta qualidade de curadoria, a permanente renovação da programação e a sustentabilidade social e econômica.

Quais são os desafios que você enfrenta na gestão de um centro cultural privado?


FM – Os desafios são enormes e complexos. O principal deles é o financiamento, pois a área cultural não é rentável por si só, e o mecenato de artes no Brasil e, particularmente, no RS, é ridículo, muito trabalhoso e pouco frutífero . Temos muitas metas e possibilidades maravilhosas, que não conseguimos realizar por falta de financiamento adequado, enquanto assistimos outros projetos e iniciativas torrarem dinheiro público sem qualidade e sem conseqüência. Além disso, nesta área é preciso uma qualidade de expressão acima do normal, o que implica muito trabalho na formulação e revisão de todas a comunicação. A comunicação, aliás, é a principal fronteira do StudioClio, pois, com poucas exceções, não podemos contar com a imprensa – que  lembra e esquece de modo quase imprevisível, e prefere, em geral, o “bastantão”. Todavia, quando o público conhece e freqüenta nossas atividades, adora, fideliza-se e passa a militar pela casa. O desafio maior, portanto, é a formação, manutenção e ampliação de uma comunidade, ou de uma rede de comunidades apta ao consumo cultural de alto nível (i.e., com qualidade), que participe, exija, e contribua para que este espaço, independente e acessível, sobreviva e prospere em suas metas.


Quais as atrações culturais que você mais destacaria na programação do StudioClio?


FM – Os banquetes culturais do StudioClio, oferecidos uma vez por mês, são pioneiros e referência básica para a gastronomia cultural em Porto Alegre e no Brasil; eles realizam quase plenamente nosso fim transdisciplinar, conciliando em uma noite de prazeres o conhecimentos profundo, comentado com rigor, clareza e imaginação, a arte e a gastronomia harmonizada, em um cenário de convívio e diálogo. Os almoços culturais, quinzenais (às quartas-feiras) fazem o mesmo, em uma escala cotidiana. Nossa agenda de música de câmara e de solistas beneficia-se da melhor acústica de Porto Alegre, de um ótimo piano e do grande talento dos músicos locais e convidados; nela, destacamos os concertos didáticos da série Orfeão, realizados em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura – PMPA, a Confraria Música Antiga, dirigida por Fernando Cordella, e os concertos de solistas, especialmente ao piano. Nossos cursos de História da Arte contam com recursos de imagem e de qualidade de comentário superiores, e são complementados pela agenda da Microgaleria Arte Acessível, com curadoria de Blanca Brites e Leandro Selister, sempre com arte original e acessível (…preços baixos, formas e conceitos compreensíveis). O público adora particularmente o programa Extra-malte, conduzido por Sady Homrich, em parceria com Cerveja Coruja e patrocínio do Nacional spermercados, em que o melhor do cervejismo é apresentado, comentado e degustado, a preço muito barato (sempre lota). Fora isso, há sempre um novo curso ou oficina para alargar horizontes ou ampliar a profissionalização na área cultural.


Quais são as novidades que o StudioClio nos trará nos próximos meses?


FM – As parceiras estratégicas abrem novos caminhos, importantes. Na área da música erudita e instrumental a pareceria com a SMC prospera e trará novidades boas. Avançamos também an área da edição e produção audiovisual, com filmes e documentários que enriquecerão a programação. 2010 será, no StudioClio, o Ano Chopin, com muitas atividades dando continuidade ao projeto Memória Cultural Polonesa, coordenado por Tiago Halewicz. Com a TVUFRGS, registramos nossos concertos e o programa Ágora StudioClio – debates em ciência, cultura e sociedade, parceria com o ILEA-UFRGS. Brevemente, inauguraremos uma nova página na internet, dando acesso público ao nosso imenso acervo de gravações, filmagens, bancos de imagens e bancos de textos. Esperamos poder anunciar, para breve, uma pareceria estratégica que vai – valham-nos os céus! – nos habilitar a realizar o que podemos: altos vôos, boas caminhadas e saraus à luz e à sombra da história da cultura.


Quais são os projetos nos quais você está trabalhando no momento?


FM – Eu pesquiso nos marcos da tradição Warburg, na qual o estudo das linhagens do paganismo revela as formas e conexões de uma imensa comunidade cultural, relacionando antigüidade, medievo, renascença, modernidade e atualidade, oriente e ocidente, e todas as linguagens. Neste campo, interessam-me sobretudo as noções de corpo e sexualidade, as cosmologias complexas e as narrativas simbólicas – temas que aparecem exemplarmente na arte de Botticelli (entre outras), com a qual temos que compreender e renovar o sentimento de fundação da modernidade. É por essas razões que o StudioClio, sob o manto de uma musa da memória histórica (Clio), segue uma pauta verdadeiramente dionisíaca e afrodisíaca. Paralelamente, eu estou sempre traduzindo algum texto grego (atualmente, Peri eikones – sobre as imagens, de Filóstrato), aprendendo alguma música nova de Bach, lendo Aristóteles e Merleau-Ponty, preparando aulas e conferências e sonhando com alguma nova expedição arqueológica – provavelmente para o Egito.

Comentários (1)

  • Edvaldo Oliveira de Paula diz: 22 de novembro de 2010

    Gostei muito da entrevista,sao valores que precisam ser resgatados.

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