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Zilá Bernd: mapeando o imaginário coletivo do Continente Americano

08 de novembro de 2009 0

Trago hoje para vocês uma entrevista que realizei com a Profa Zila Bernd, sobre literatura francófona, mitos mestiçagem cultural nas Américas e educação de gestão cultural.

Você publicou em 2007 o Dicionário de figuras e mitos literários das Américas – DFMLA. Como foi a organização deste livro? Qual a sua proposta?

ZB – O DFMLA se origina da inexistência, no contexto das Américas, de dicionários de mitos literários propriamente americanos ou que assinalem a sobrevivência, nas Américas, dos mitos de origem greco-latina, e as diferentes passagens transculturais ocorridas desde a conquista até os dias de hoje. Os dicionários de mitos e de símbolos disponíveis atualmente são traduções de obras européias (ex. Dictionnaire des mythes litéraires, organizado por Pierre Brunel, Dictionnaire des symboles, de Chevalier e Gheerbrant), centrados, portanto, no imaginário greco-latino e europeu, deixando de incluir as figuras e os mitos do imaginário coletivo das Américas.

Nossa proposta, ao desenvolver esse projeto que durou três anos (de 2004 a 2007), foi a de mapear o imaginário coletivo do continente americano, através do levantamento de figuras e mitos que caracterizam o que se poderia chamar de “grande narrativa das Américas”, embora se tenha consciência da heterogeneidade das produções culturais e literárias das Américas.  Não se trata de um trabalho de cunho etnográfico ou antropológico com preocupação de exaustividade. O DFMLA visa a repertoriar tão somente figuras e mitos que emergem em narrativas literárias e paraliterárias, caracterizando o imaginário das Américas, ou seja, as figuras míticas cujas origens remontam às  “descobertas”, à colonização, aos diferentes processos de autonomização cultural que aqui se encenaram, bem como a apropriação americana dos mitos oriundos das diferentes vagas migratórias. A maior parte dessas figurações míticas são fruto de processos sucessivos de mestiçagem e hibridação que se produziram nas Américas desde 1492.

Você acha possível sintetizar alguns aspectos fundamentias do imaginário coletivo latino-americano. Quais? Por quê? O que nos faz diferentes da Europa?

ZB – As figuras, os mitos, os lugares simbólicos e as utopias que compõem o imaginário coletivo americano, inscrito nas narrativas das três Américas, foram repertoriados, descritos, analisados e postos em perspectiva comparada,  na tentativa de desvelar especificidades desse imaginário. Foi objetivo de nossa ambiciosa empreitada repertoriar – em 110 verbetes, confeccionados por 70 pesquisadores do Brasil, da França e do Canadá – as representações que as sociedades, no contexto das três Américas, elaboraram e continuam elaborando sobre si próprias.  O DFMLA apresenta, assim, o inventário das principais imagens que emergiram num contexto inicial de colonização e, posteriormente, na sua fase de emancipação, quando foram gestadas as idéias de nação independente e  de autonomia literária, o que se constituiria em uma primeira distinção em relação ao imaginário europeu. Muitas das figuras míticas são comuns aos hemisférios Norte e Sul do continente americano; outras, porém, caracterizam apenas um determinado país ou território geográfico ou cultural, donde a dificuldade de se apresentar uma “síntese” do imaginário americano. Contudo, apesar da grande heterogeneidade que caracteriza o imaginário das Américas, o dicionário se propõe a  assinalar figuras-chave – arquemitos – e suas recorrências que marcaram momentos cruciais nos processos  de construção identitária.

A título de exemplificação, para tentar responder a sua questão, eu diria que os arquemitos do desencantamento e do reencantamento, são recorrentes. Notamos uma grande frequência na reescritura do mito de Medeia por autores das Américas. Tradicionalmente associado ao nati-morto, ao aborto ou ao infanticídio, esse mito é retomado no espaço do Novo Mundo por numerosos escritores/as americanos como a canadense Nancy Huston, a quebequense Anne Hébert, a caribenha Maryse Condé, os norte-americanos Toni Morrison e John Steinbeck, a latino-americana Laura Esquivel e o brasileiro Chico Buarque de Hollanda, para exprimir o desespero, a vingança e a revolta.  Como deixar nascer e viver crianças em um contexto onde reinam a penúria, a injustiça social, a escravidão e a desesperança ? Contudo esse mito que anuncia o desencantamento, pode também se transformar em seu contrário: a figura do recém-nascido emerge – no contexto das Américas – como contra-mito de Medeia para encarnar a renovação e a esperança.

A figura do recém-nascido vai simbolizar as Américas como espaço de renovação e possibilidade de recomeço, de reencantamento. Sua utilização recorrente atravessa várias literaturas das três Américas desde o século 19, em autores como José de Alencar (Iracema), Alejo Carpentier (Ecuê Yamba-o), João Cabral de Melo Neto (Morte e vida Severina), Darcy Ribeiro (maíra), Gérard Bouchard (Mistouk), entre tantos outros. Assim, podemos sintetizar afirmando que a reescritura do mito de Medéia e de seu contra-mito, o da criança recém-nascida cujo nascimento remete à possibilidade de recomeço, remetem, respectivamente, a distopias e a utopias, recriando o espaço do Novo Mundo como lugar de desencanto, mas também de fé e de esperança no surgimento de um novo homem, um novo Adão, anunciando novos tempos. O papel deles é o de apresentar ora uma continuidade em relação à cultura européia, ora uma ruptura com esta tradição na medida em que apontam tanto para o desencanto (em relação ao regime colonial) quanto para a possibilidade de um renascimento.

Outros  mitos também anunciam a possibilidade de renovação e o recomeço: aqueles associados à evocação da mãe terra (mother-earth, pacha mama, mère-terre) e se manifestam em momentos fundadores das diferentes literaturas nacionais que iniciam, quase sem exceção, pelos romances da terra. Como entidade mítica, presente em sociedades muito antigas e na América pré-colombiana, Mãe-terra personifica o princípio da vida, o lugar onde a vida é engendrada e ode a vida dorme. Representa o grande ventre materno que dará origem a todos os seres.

Como você interpreta a tese da mestiçagem e da hibridação cultural entre nós, latino-americanos?

ZB – Escrevi vários artigos e organizei um coletivo sobre o tema das hibridação, configurando as literaturas no contexto das Américas como necessariamente híbridas para expressar identidades compósitas, extraídas de diferentes culturas como a europeia, dos colonizadores e posteriormente dos imigrantes, a dos africanos, os migrantes nus, no dizer de Edouard Glissant, e também a dos elementos autóctones. Alegremente, como queriam os antropófagos da semana de Arte Moderna de 1922, devoramos essas diferentes culturas produzindo algo novo que podemos denominar de  culturas mestiças das Américas. Saudável processo de criar o novo a partir do existente em processos contínuos de transculturação. A transculturação é necessariamente híbrida!!

Você acha que o Brasil explorou mais ou menos a fórmula da mestiçagem e da hibridação cultural entre nós?

ZB – Acho que o Brasil foi modelar nesse aspecto, o que se comprova pela Antrofogia cultural que nos absolve do pecado original de ter copiado e abre caminho para  a aceitação e a valorização das mestiçagem cultural. Em outros contextos, como no Canadá, por exemplo, a cultura se desenvolveu no sentido de dar continuidade no Novo Mundo aos “modelos” culturais das metrópoles, o que originou incialmente uma cultura da réplica e da subalternidade. Evidentemente que a cópia pura e simples não existe: quando se retoma no contexto das Américas modelos concebidos prá funcionar em espaços europeus, o que se produz é necessariamente distinto. Contudo, a ruptura e a devoração tal como praticadas no Brasil em termos culturais são exemplares no sentido de uma plena autonomização cultural em relação às matrizes europeias.

Depois de se aposentar na UFRGS, você está se dedicando ao curso de Mestrado Profissional em Memória Social e Bens culturais do Unilasalle. Qual a propsota desse curso?

ZB – A proposta do curso é a formação de gestores culturais com formação téorica e prática, trabalhando disciplinas tais como memória social, patrimônio, economia da cultura, entre outras, através de abordagens transdisicplinares, com a atuação de professores oriundos de várias áreas do conhecimento como a literatura, o direito, a antorpologia, a história etc.  Para mim está sendo uma experiência muito enriquecedora já que venho de muitos anos de trabalho no Programa de Pós-Graduação em letras da UFRGS, onde pesquisava as relações literárias interamericanas, com enfoque comparatista.

Como você avalia o futuro dos mestrados profissionalizantes?

ZB – Depois de quase 20 anos atuando em Mestrados acadêmicos, minha experiência com mestrado profissionalizante é muita curta para eu poder responder a essa pergunta…essa eu vou ficar lhe devendo…


Como você se envolveu no ano da França no Brasil ?

ZB – De forma muito intensa e peculiar: professora titular na UFRGS de literaturas francesa e francófonas, isto é, as literaturas que fora da França se exprimem em língua francesa, participei com a publicação de uma antologia que reúne 60 textos da literatura belga em francês. Trabalho inédito no Brasil onde esta literatura ainda é praticamente desconhecida. Foi um trabalho de mais de quatro anos que contou com a participação efetiva de outro colega da UFRGS, o prof. Robert Ponge, e de dois colegas belgas Marc Quaghebeur e Leonor Abreu (portuguesa radicada em Bruxelas), além de mestrandos e doutorandos da UFRGS que se solidarizaram no árduo trabalho de tradução. A Tomo fez uma edição primorosa que será lançada dia 11 de novembro na 55. Feira do Livro.

Para não dizerem que privilegio a francofonia, lancei dia 4 último, também na Feira do Livro de Porto Alegre, um coletivo intilulado Pensamento francês e cultura brasileira (EDIPUCRS), em parceria com duas colegas da PUCRS: Maria Euncie Moreira e Ana Maria Lisboa de Mello. Esse trabalho, que reuniu textos de colegas brasileiros, franceses e canadenses, focalizou o diálogo intertextual entre as duas culturas, inovando no sentido de evitar a busca das famosas “fontes e influências” do imenso patrimônio cultural francês sobre a cultura brasileira.


Quais são os projetos aos quais você está se dedicando no momento?

ZB – Trabalho intensamente na produção de um livro sobre as diferentes formas de insubmissão e mobilidade culturais nas Américas o qual pretende caracterizar o “imaginário insubmisso”  e  a “mobilidade cultural” de mitos, contra-mitos e utopias que povoam o imaginário das Américas. Como vês o presente projeto tem relação com o anterior que levou à confecção do DFMLA, mas vai agora destacar as figuras da insubmissão aos padrões estéticos hegemônicos, às mais variadas formas de poder, que são fixas e prescritivas, às imposições ditatoriais, às identidades cristalizadas, aos dogmatismos e integrismos, às exclusões de toda sorte, enfim a tudo que se impõe como doxa e norma fixa, marcada pela busca – muitas vezes ambígua e difusa – da identidade. As diferentes táticas de figuração do imaginário insubmisso podem  levar a detectar a gênese da construção de sentido dos textos e recuperar as diferentes etapas (e graus de intensidade) desse imaginário, caracterizado pela mobilidade transcultural.

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