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Berlim, há 20 anos...

09 de novembro de 2009 5

Ainda hoje me lembro daquele frio na barriga quando o piloto do avião da Lufthansa anunciou o início dos procedimentos de pouso. Saindo do Brasil pela primeira vez, não me agüentava quieto e resolvi puxar assunto com a elegante alemã sentada ao meu lado: "É sempre assim, lá embaixo, nublado?" "Não, de vez em quando o sol aparece", disse ela encerrando logo uma conversa sem futuro.

Nevava em Berlim quando desembarcamos. Uma nevinha à toa, a única que cairia naquele inverno de 1989/90, de temperaturas relativamente amenas, o que nos permitiria caminhar por tudo. O muro caíra há algumas semanas e a cidade era o centro do planeta.

Hospedei-me nos primeiros dias no Wahnsee, a bucólica região dos lagos, nos limites de Berlim Ocidental. Vi a mansão que abrigara, em 1942, a macabra conferência dos oficiais nazistas que deliberaram a "solução final para a questão judaica". Mudei-me em seguida para Kreuzberg, o antigo bairro operário, dividido pelo muro, no coração da então Berlim multicultural: Fidicinstrasse. Alguém postou no Youtube um vídeo no qual aparece o prédio onde morei: http://www.youtube.com/watch?v=vUSUTzftZWU

Naqueles tempos, a permeabilidade da fronteira ainda não era total. Nós, os estrangeiros, podíamos ficar apenas 24 horas em Berlim Oriental, de cujos limites não poderíamos sair. Jamais consegui, por isso, visitar a sede da Bauhaus, em Dessau.

Mas já se podia ir de metrô para o lado Oriental. Tinha-se apenas de se fazer uma baldeação meio ridícula.

Trocar de lado era um choque.

Berlim Ocidental era uma ilha, uma espécie de cidade estado, como uma reedição da fórmula grega em pleno século XX. Pressionada pelas casamatas, pelas torres de controle, pelo arame farpado, pelo concreto, a cidade era inteiramente devotada à liberdade e à democracia. Os ônibus e metrôs - coisa única na Europa então - operavam quase non stop, mesmo no inverno, o que era uma maravilha para jovens boêmios. Punks, pós-punks, com moicanos, cabelos azuis e os primeiros piercings sentavam-se no metrô ao lado de senhores engravatados e de senhoras turcas com os cabelos cobertos por véus. Numa época em que qualquer desvio de conduta parecia subversivo no Brasil, sendo agressivamente reprimido - se não pela Polícia, já pelas pessoas mesmo nas ruas - aquilo era uma sinfonia de diversidade.

Oprimidas pelo cinza do concreto, pelo frio do inverno, as pessoas reagiam, cobrindo a cidade de cores, alegrando as fachadas dos prédios, espalhando árvores e plantas em cada cantinho de sacada, em cada canteiro de avenida. Naquela cidade de exceção, cada pedra na calçada era fundamental à vida das pessoas. Tudo se discutia. Mesmo a simples mudança de uma parada de ônibus um metro mais para lá.

Incapaz de viver de sua própria economia, enclave inteiramente subsidiado, Berlim tinha um custo de vida muito barato. Por isso mesmo, atraía uma multidão de jovens, que se esbaldavam no espírito libertário da cidade.

E nem tudo eram flores. Lembro ter tomado parte em uma acalorada discussão que se formou dentro de um ônibus, quando uma jovem alemã insurgiu-se diante dos xingamentos que alguns rapazes dirigiam a umas senhoras turcas: "eles vieram para este país como trabalhadores estrangeiros, ajudaram a construir a nossa riqueza, pagam os seus impostos - temos o dever de conviver com eles dignamente, pois são nossos irmãos", gritava ela. Alguns dos rapazes eram poloneses, recentemente migrados para Berlim!

Da Berlim Ocidental, via-se a cidade oriental apenas em relances.

Numa noite fria eu e um amigo brasileiro saímos pelas ruas de Kreuzberg. O objetivo era chegar a uma venue alternativa onde aconteceria um happening com artistas e músicos de vanguarda. Perdemos-nos. Não havia GPS nem Google Earth. Depois de errar por mais de uma hora por ruas desertas, enregelados deparamo-nos, ao virar uma esquina, com soldados soviéticos, postados ao lado de um tanque de guerra, que bloqueava uma passagem pelo muro. A guarda ali não era feita por soldados orientais. Seguravam ameaçadores fuzis. Ficamos aterrorizados quando eles nos chamaram. Meu amigo mal se moveu. Eu falava um pouco de russo - eles adoraram isso. Dei-lhes cigarros ocidentais (confeccionados com fumo de verdade e não com chicória) e, em agradecimento, ganhei um adereço do exército soviético. Ótima troca!

A poderosa Fernturm oriental, a moderna e assustadora torre de televisão, mais alta do que tudo, era quase onipresente, como a dizer aos ocidentais que no lado oriental também havia progresso. Encravada no meio da Alexanderplatz, a praça que deu nome ao magistral filme de Fassbinder. Foi ali que pisei pela primeira vez no lado oriental, saindo da estação do metrô. Era o coração da cidade.

Prédios relativamente modernos cercavam a imensa praça, quase desprovida de arborização. Inacreditáveis néons azuis iluminavam as fachadas. Formavam desenhos: círculos, flechas, raios... Logo entendi: era um cenário, tentando macaquear os anúncios luminosos do leste. Só que não vendiam nada. Porque não havia nada para vender naquela economia planificada.

Uma multidão passeava pela praça. Ordeira, silenciosa, mas animada. Nada ali lembrava o palco de uma revolução. Casais de namorados, famílias, crianças. Havia carrocinhas de pipocas, algodão doce... Pessoas entravam e saíam de um cinema. Então, por volta das 20,5 horas, como que por encanto, todos desapareceram, quase ao mesmo tempo! Era hora de ir para casa. O footing acabara. Todos os bares e restaurantes fecharam. Com exceção de um minúsculo e discreto bar, com talvez 15 m2, se isso, encaixado embaixo dos trilhos do metrô de superfície, que cruzava a praça. Só ali se podia tomar... bem, o que tivesse para ser oferecido. Naquele dia, era vinho iugoslavo! Descobri, depois de alguns olhares muito tímidos, tratar-se de um bar gay - o único que havia recebido, há pouco, autorização da Stasi para funcionar na Capital oriental!

Em torno da Alexanderplatz, a Berlim era cinza, triste. Ainda se viam marcas de balas nas fachadas de alguns prédios. Montanhas de carvão em pedra, utilizado para a calefação, impregnavam calçadas de fuligem negra. O trânsito não era intenso. Mas barulhento e poluente, com os indefectíveis Trabants, em modelos quase uniformes, circulando aqui e acolá. As vias eram mal iluminadas.

Naqueles dias, havia um misto de emoções díspares. Havia euforia pela vitória de uma revolução popular e ansiedade quanto ao futuro. Havia descobertas e muito estranhamento.

O que mais parecia atrair os orientais no Ocidente eram as vitrines do KaDeWe e, sobretudo, as frutas exóticas nas fruteiras. Eu mesmo, expliquei para uma família o que era um abacaxi e como se comia um coco, aproveitando-se a aguinha, que é a melhor parte. Estranho, mas a liberdade que mais parecia seduzi-los era a de consumo, e dos sabores...

Uma velha senhora que conheci e com quem eu gostava de tomar chá dizia-me achar estranhíssimo que seus parentes orientais, que agora aproveitavam o direito de ir e vir pelo muro, a visitassem durante a semana: "e os seus horários de expediente no trabalho? As crianças não têm aulas?"

Conhecia-se a Alemanha Oriental pelos seus notáveis sucessos na música, nos esportes e, alguns também, nas ciências. Foi um choque descobrir o quão deficiente era a formação educacional no leste, comparada com o oeste capitalista.

Já uma jovem amiga de Leipzig, a cidade na qual se iniciou a revolta que derrubou o muro, preferiu vir morar na América Latina: "aquele não é mais o meu país - um dia eu acordei e tudo aquilo que eu sempre havia aprendido em casa e na escola não valia mais nada", dizia-me, contando não ser capaz de entender a lógica competitiva das sociedades capitalistas.

Sim, se havia algo que todos compartilhavam, era a percepção de que um mundo acabava... e outro começava. Para a minha geração, nascia ali aquela que seria a última grande utopia do século XX: a de que um mundo sem fronteiras seria possível. Utopia que ruiria com o ataque às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001.

Mas havia também uma inescapável nostalgia, sobre a qual ninguém ousava falar logo após a vitoriosa revolução popular que derrubara o muro. Os orientais perdiam o tempo, e a solidariedade que se tece quando se tem tempo. Os ocidentais perdiam a sua ilha mágica encravada no coração da Europa, a cidade estado ultrademocrática, cujas fronteiras todos conheciam: num mundo que ficou imenso, era uma comunidade que se dissolvia, para sempre.

Que saudades de Berlim... Como diz a velha canção, de antes da Guerra, "Ich hab' noch einen Koffer in Berlin"!

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Comentários (5)

  • adroaldo a. endres diz: 9 de novembro de 2009

    Olá, Mensch ! - Sou o Adroaldo , professor de inglês. A gente se conheceu na casa do S. Antônio e da Patrícia. Na época ,eu não tinha a menor idéia sobre teus interesses e estudos. Hoje , sei de ti devido às participações ( sempre brilhantes ) no rádio e na TV e vejo quantos assuntos e temas já teríamos tido sobre os quais conversar naqueles encontros no Zuco - em que eu me limitava (disciplinadamente, he-he-he) a polidas \"abobrinhas\". É com imensa satisfação que descubro teu lado profissional/intelectual e te acompanho na imprensa e em teu blog. Muita sorte pra ti!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! - Adroaldo Almir Endres

  • Maria Machado diz: 9 de novembro de 2009

    Gunter, neste momento em que o mundo, e principalmente a Europa, comemora os 20 anos da queda do muro de Berlin, cabe lembrar que outros muros ainda existem, como o muro que separa Israel e a Palestina (construido recentemente) ou o muro que separa as duas Coréias, fechando froteiras, separando familias e semeando o odio.

  • Maria Machado diz: 9 de novembro de 2009

    Uma versao ecologica do Trabant (elétrico) foi lançada, com teto solar e autonomia de 250 Km. Ela foi apresentada na feira de Frankfort, mas so sera comercializada em 2012.

  • Rodrigo diz: 9 de novembro de 2009

    Esperava muito mais de um historiador formado pela UFRGS. Que pensamento razo! Não teve nem o trabalho de contextualizar a razão pela qual aquela Berlim Ocidental era subsidiada pelos EUA, Inglaterra e França, ou a campanha psicológica desenvovida pelos EUA e aplicada naquele local para atingir a juventude da RDA via invasão via ondas piratas de radio e tv que mostravam um paraíso propocionado dentro de um McDonalds:
    como o menino que após a queda do muro não consegui dormir sonhando acordado com a propaganda daquela lanchonete. Quando chegau o horário de abertura, atravessau o muro e fez o maior ato de liberdade que ele conseguiria no mundo capitalista: pediu para comprar um Big Mac, mas as suas moedinhas não chegaram para comprar o tal sanduiche: voltou para casa, pois já tinha utilizado toda a liberdade que poderia.
    Temos que conseguir ultrapassar o senso comum e ver para além da superfície.

  • Marcelo Etcheverria diz: 10 de novembro de 2009

    Gunter, que saudades dos velhos tempos de UFRGS!!! Parabéns pelo texto!!! Abraços , Marcelo.

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