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O exemplo de uma vida

21 de novembro de 2009 11

É extraordinária a notícia da doação pelo poeta e Procurador de Justiça Itálico Marcon de sua magnífica biblioteca de 180 mil volumes, a segunda maior do País, ao Banco de Livros! Trata-se de uma digníssima demonstração de espírito público e de amor pela sua comunidade! Um gesto comovente, celebrado com pertinência em duas páginas da Zero Hora e que nós, gaúchos, não devemos jamais cansar de emular! O trabalho de uma vida inteira, dedicada à cultura, à literatura, agora acessível ao conjunto da população.


O projeto Banco de Livros/Fiergs inscreve-se, em minha opinião, no contexto da necessidade de ampliação da presença da Feira do Livro no espaço público, como sublinhei em meu post do dia 17, “Reflexões de fim de Feira”. Este é precisamente um desdobramento desse potencial – pode gerar um efeito em cadeia que, em última instância, qualifica o próprio espaço público. É sintomático, aliás, que a doação tenha partido de um membro do Ministério Público, instituição engajada na defesa da cidadania.


Penso, agora, que devemos ser capazes de reagir à altura de um gesto de tamanha grandeza. A Câmara de Vereadores de Porto Alegre, por exemplo, está diante de um motivo esplêndido para conceder uma homenagem, talvez de cidadão emérito, para Itálico Marcon! Nossa intelectualidade, quem sabe, já tem um forte candidato para a próxima edição do Prêmio Fato Literário!


E está aí uma oportunidade para o Governo Yeda deixar a sua marca na Cultura! Um acervo com tal unidade, volume e densidade poderia ser preservado em seu conjunto. Para a sua guarda poderia ser criada uma seção da Biblioteca Pública e lhe ser destinado um prédio novo, quiçá de arquitetura icônica, para enfatizar ainda mais a importância que o livro e a leitura gozam em nossa sociedade. E, indo mais além, esta seção poderia se dedicar a acolher, no futuro, novas coleções privadas de grande importância patrimonial, mantendo sempre a sua unidade fundante, associada ao nome e à trajetória de vida de seu organizador. É fato que muitas bibliotecas se dispersam porque seus proprietários ou herdeiros não encontram locais capazes de acolhê-las, preservá-las e divulgá-las. Trabalhos de uma vida inteira se perdem por não dispormos de instituições preparadas para recebê-los.


O gesto do Dr. Itálico, se bem compreendido pelos nossos governantes em toda a sua plenitude, poderia mudar este melancólico estado de coisas. Seria uma pena se amanhã ou depois a portentosa biblioteca do Dr. Itálico fosse dispersa por estabelecimentos díspares ou, pior, seu acervo acabasse, com o passar dos anos, nos sebos da cidade, como já aconteceu, no passado, por exemplo, com a biblioteca de João Neves da Fontoura, doada a uma entidade, cujos critérios não se pautavam pela preservação da unidade primordial do acervo. Hoje, não há mais biblioteca João Neves da Fontoura!


Penso mais: se o Governo do Estado chamasse a si a responsabilidade de organizar um tal ente, a classe ministerial, numa homenagem ao gesto desprendido do seu colega, poderia se mobilizar para se engajar num projeto sob os auspícios da Lei Rouanet: ora, sabe-se que as pessoas físicas podem destinar até 6% do Imposto de Renda devido, sem ônus, a projetos culturais de sua escolha. Se todos os membros do Ministério Público concorressem com sua parcela de contribuição, já seria uma importante fonte de renda para esta nova biblioteca pública. Um presente para a comunidade.


Enfim, o gesto do Dr. Itálico Marcon é uma dessas iniciativas que têm o condão de valorizar nossa identidade cultural e fortalecer o nosso espaço público. Oxalá estejamos a altura da generosidade desse homem. Oxalá as gerações futuras possam usufruir da unidade de seu acervo extraordinário! Oxalá sua doação possa desenhar um novo marco para a política cultural em nosso Estado.

Comentários (11)

  • Mirian Ritzel diz: 21 de novembro de 2009

    Que gesto magnânimo! O coleciondor doou inclusive um exemplar d’A Divina Comédia em edição italiana do século XVIII, para citar apenas uma das preciosiodades garimpadas ao longo de 50 anos. Que o RS saiba valorizar esta bárbara coleção, fazendo jus à fama de maior estado leitor do Brasil. E que a unidade do acervo seja mantida para que não lamentemos perdas como a da biblioteca do meu conterrâneo João Neves da Fontoura, de que o Museu Municipal de Cachoeira do Sul conserva raros e poucos volumes. Nossa cultura merece mais atenção. E esse cidadão o nosso maior aplauso!

  • Adriano Schemoel diz: 22 de novembro de 2009

    Infelizmente pra ser preservado, e aproveitado, esse acervo, vai te que rolar uma verba bem polpuda pra que se invista sei lá 10 a 5% realmente. Todos sabemos que quem vai se “aculturar” reamente é algum políticu bem “letrado” na propinagem, a realidade é incontestável.

  • Francisco Marshall diz: 22 de novembro de 2009

    Governo Y na Cultura??? Iac, iac, iac!!! Tá brincanco, Gunter? Temos que nos virar como for possível, sem contar com essa catrefa, infelizmente.
    O primeiro passo será aferir com o Valdir Silveira, um editor qualificado, quais são os planos do Banco de Livros. Talvez o Sesi seja um órgão melhor que o Estado para desencadear o processo necessário de fundação de uma nova biblioteca – que precisamos muito. Eu já recebi como doação acervos que somam 40.000 livros, de bibliotecas de pesquisadores cujo valor é certamente comparável aos 180K do Sr. Itálico Marcon. Todavia, não tenho onde colocar, e não quero jogar ao purgatório de sinecuras públicas de destino curatorial incerto. Neste momento, temos uma ótima diretora na BPE, a Morgana, que faz um belo trabalho, mas luta só, e no futuro ela poderá ser (infelizmente) substituiída por qquer cururu de partido (é assim a gestão no Estado).

    Está na hora de mudarmos o foco de ação, dos grandes eventos para os grandes acervos, e uma biblioteca dessas é um mote irresistível.

    Enfim, temos que interpretar este gesto como um símbolo vigoroso pro-livro e pro-leitura, e secundá-lo com as ações curatoriais e sociais (pressão, apoio, cooperação) necessárias.

    Enquanto isso, congratulações e muito obrigado, Sr. Itálico Marcon – o Sr. acaba de gravar seu nome com letras douradas no memorial incorruptível dos que acreditam, gostam e lutam pela cultura.

    Doou pro lugar errado. Se for desmembrada, será uma catástrofe. Operação de alto risco, pois o Banco de Livros não me parece habilitado para assumir este acervo; geralmente, distribuem livros ou instauram bibliotecas menores. Parece que o procurador não achou solução melhor.

  • lauro Guimarães diz: 22 de novembro de 2009

    Teu texto na internet está à altura do gesto de Marcon.
    Esse meu colega de ideal merece todas as homenagens, partida de entidades culturais privadas, se bem alertadas pela imprensa.
    Não espera muito dos governos.

  • Angela Salton Rotunno diz: 23 de novembro de 2009

    Caríssimo Gunter: Como sempre tuas observações precisas e eloquentes haverão de surtir efeito. De minha parte estou encaminhando teu post a alguns conhecidos com o intuito de sensibilizar algumas autoridades no assunto. Um grande abraço amigo. Angela.

  • Christian diz: 23 de novembro de 2009

    O gesto desse Sr. foi um presente para todos os gaúchos. Concordo com o Gunter: é preciso que estejamos a altura da grandeza dele. Eis aí um bom motivo para unir toda a sociedade, inclusive o Governo. Acredito que a Governadora reconhece a importância dos livros – foi professora! Quem sabe ela não se sensibiliza e não toma a frente nesta campanha? Talvez assim, seu governo possa deixar algum legado para a cultura, área na qual sua administração tem sido menos atuante.

  • ADELI SELL diz: 25 de novembro de 2009

    Gunter,
    Efetivamente, o gesto do Itálico Marcon é algo mais do que extraordinário. Antes de receber o teu e-mail tinha escrito um e-mail para a diretora de um colégio do Estado, cuja biblioteca eu já ajudei, dizendo a ela que solicitasse livros ao Banco de Livros da FIERGS, sendo que explicava a ela que ele havia doado 180 mil volumes, algo que é difícil de imaginar tal a sua grandeza.
    E não sáo quaisquer livros, pois sou sabedor da qualidade deles.
    Quanto à homenagem, vamos ver imediatamente.
    Adeli Sell

  • Morgana Marcon diz: 26 de novembro de 2009

    Apesar de participar e parabenizar a iniciativa do Banco de Livros da FIERGS, entendo que acervos de tamanha importância como a biblioteca particular do Itálico, deveriam ser preservados na íntegra e jamais desmembrados. Embora muitos não saibam, a Biblioteca Pública do Estado vêm sendo preparada para receber acervos de grande importância. Seu prédio histórico passa por grande restauro, onde após sua conclusão, ficarão disponiblizados para pesquisa nesse local apenas os acervos históricos, em um ambiente devidamente climatizado e com muita segurança. A parte “moderna” da biblioteca e todos os setores de atendimento ao público ficarão em outro prédio, próximo ao antigo, também com sistema de climatização e segurança do acervo e do prédio. Com recursos já garantidos, do governo federal e estadual, a biblioteca pública se tornará uma instituição de referência no país.
    A biblioteca pública abriga bibliotecas de particulares como Guilhermino César, Maya Dávila, Carlos Reverbel, entre outras, e recentemente recebemos a biblioteca do poeta Rui Cardoso Nunes, onde descobrimos preciosidades de autores gaúchos. Esse acervo será higienizado e devidamente acondicionado. Em 2006, com o patrocínio do BNDES, a biblioteca adquiriu equipamentos para realizar esses procedimentos.
    Espero sinceramente que as pessoas não deixem de acreditar nos esforços dos funcionários e das instituições públicas e passem a vê-las com outros olhos, pois a Biblioteca Pública do Estado é e deve continuar sendo a instituição que preserva e dissemina os acervos e autores de nosso Estado.

  • ADELI SELL diz: 28 de novembro de 2009

    EU QUERO ME COLCOAR AO DISPOR DE TODOS PARA QUE NA CAMARA DE COMUM ACORDO POSSAMOS REUNIR PESSOAS INTERESSADAS NO TEMA LIVROS E BIBLIOTECAS E LUTARMOS PARA QUE TUDO FIQUE NUMA BIBLIOTECA QUE TENHA AMPLO ACESSO AOS LEITORES.
    PODEM ME CONTATAR PELO MEU E-MAIL – adelisell@camarapoa.rs.gov.br – pois na Câmara temos uma Frente de Incentivo à Leitura, da qual sou Secretária e minha colega Fernanda é a presidente.
    Nosso interesse está na leitura, nos livros e nas bibliotecas. Acho que já superamos os meros interesses político-partidários.
    Vamos em frente.
    ADELI SELL, VEREADOR
    99335309

  • daniely diz: 29 de novembro de 2009

    Fiquei muito feliz quando li sobre esse gesto de doação. É difícil para quem doa se desfazer dos livros, é uma parte da gente que também se vai, temos medo que não cuidem bem, essas coisas de “mãe”. Mas esse desprendimento do Dr. Marco! Parabéns! Todas as homenagens devem ser rendidas a este gesto grandioso. O Banco de Livro da FIERGS também é outra louvável iniciativa que deve se expandir para todas as bibliotecas comunitárias de Porto Alegre e do RS. Quanto à Biblioteca Estadual que está sendo reformada, um aviso: não adianta formarmos pela milésima vez este prédio maravilhoso se não formos capaczes de reformar também o seu espírito,seu âmago! Bibliotecas têm que ser espaços de prazer, de liberdade, de dar vazão à imaginação e não pode ser um lugar escuro, cheio de NÃOS para tudo. Ler é alegria, diversão, “viagem”, prazer! Por favor, vamos trabalhar para que a Biblioteca Pública fique linda por fora e tambpem por dentro, mesmo que tenhamos que apelar para um “lifting” interno….com o perdão da ousadia!!!

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