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Tom Wolfe: modernista antimoderno

22 de novembro de 2009 3

A apresentação de Tom Wolfe em Porto Alegre foi um marco, sem dúvida. Não é sempre que temos a oportunidade de ver de perto uma verdadeira lenda viva.


Dito isso, quem conhecia a obra de Tom Wolfe e acompanhava um pouco de sua trajetória estava preparado para um discurso conservador. Ainda que todos os comentários saudando a sua chegada a Porto Alegre tenham associado-o à revolução do Novo Jornalismo, cujo expoente máximo foi o notável Truman Capote, passando às pessoas a idéia de que se tratava de um libertário. Faltou contextualizar com leitura crítica.


O conservadorismo, em geral, me incomoda, muito, mas não é possível negar que, em matéria de arte, sujeitos insuportavelmente conservadores – às vezes radicais de direita e até fascistas – foram deveras importantes, bastante modernos e esteticamente revolucionários. Sim, é um paradoxo chocante: nem todos revolucionários modernos foram libertários. Muito embora a criatividade modernista em seu conjunto tenha florescido num ambiente de expansão da classe média e do mercado consumidor de massas, bem como num ambiente de afirmação das liberdades individuais e democráticas, descortinado no fim do século XIX. Esta mesma criatividade feneceu sob regimes totalitários, como na Alemanha de Hitler e na Rússia de Stálin. Mesmo assim, existiram esses modernistas antimodernos, para usar uma expressão de Peter Gay.


O poeta T.S. Eliot está entre os mais célebres dentre este estranho grupo. Inspirado nos rebeldes literários franceses anti-burgueses do século XIX, revolucionou a poesia no mundo anglo-saxão, onde se tornou o poeta dos poetas. Mas até os conservadores o achavam radical: odiava o liberalismo, atacava a democracia, detestava os imigrantes que invadiam os Estados Unidos e era até anti-semita. Ele tinha total aversão à mobilidade do mundo contemporâneo.


Outra figurinha dessas era o genial compositor Charles Ives: o cara era totalmente homofóbico. Para ele, inclusive, bastava elogiar demais uma obra modernista que o sujeito estava dando mostras de veadagem. É incrível, já que ele foi um dos maiores compositores modernistas de todos os tempos. Faltou, quem sabe, sair do armário.


O magnífico dramaturgo sueco August Strindberg foi o precursor do teatro moderno em pleno século XIX. Foi um inovador radical, um realista assombroso. Construía ações rápidas, com falas econômicas e inéditas. Falava a linguagem do novo século. Mas na vida privada foi um misógino, absolutamente contrário à emancipação feminina. Escreveu artigos defendendo a inferioridade das mulheres em relação aos homens e opondo-se ao seu ingresso nas universidades.


Um dos mais malucos foi o principal romancista da Noruega, Knut Hamsun, vencedor do Prêmio Nobel em 1920. Em 1890 ele publicou “Fome”, um romance magistral que revolucionou a literatura, rompendo com a mera descrição de cenas e instalando definitivamente o romance psicológico. Pois esse mesmo cara, uma semana após o suicídio de Hitler em seu bunker em Berlim, publicou um longo necrológico elogiando a besta-fera nazista. Hamsun desprezava as massas, desdenhava o parlamento, defendia a ditadura como forma superior de governo, opunha-se a libertação feminina e incensava o racismo. Estava disposto a apoiar tudo aquilo que fosse estático ou propusesse um retorno ao passado remoto romantizado e mistificado. Foi o único autor laureado com o Nobel a adorar Hitler. Nem T.S, Eliot, também premiado, chegou a tanto.


Em 1933, o filósofo Martin Heidegger apoiou a queima dos livros “não-alemães” na Alemanha nazista! Sim, um filósofo que contribuiu para o holocausto dos livros. Na França, o revolucionário arquiteto Le Corbusier flertou descarada e interesseiramente com o regime de Vichy, que considerou um patrono a ser adulado, absorvendo a retórica nacionalista e o chauvinismo racial.


Bem, tudo isso para dizer que é exatamente a esta bizarra tradição a que se filia nosso Tom Wolfe. Sua palestra em Porto Alegre, mais do que conservadora, foi reacionária. Descosida e apoiando-se em generalizações rasteiras e carentes de embasamento histórico consistente, defendeu uma restauração simplista da estética e dos costumes da belle époque burguesa, rechaçando sumariamente todas as conquistas libertárias e modernas do século XX.


Estou, portanto, de acordo com a análise de Cláudia Laitano, na Zero Hora de ontem, e estranho os colunistas on-line que celebraram a fala de Wolfe como uma oportunidade para “abrir as cabeças dos porto-alegrenses”. Tom Wolfe não pode abrir nada, só fechar. Até para os conservadores ele é reacionário. Mas nada disso, por incrível que pareça, esvazia o enorme mérito de sua produção literária e jornalística. A grande lição de sua conferência foi escancarar o bizarro fenômeno dos modernistas antimodernos. E nos mostrou o quanto precisamos saber de fato ler um autor.

Comentários (3)

  • Jonathan Antoniolli diz: 22 de novembro de 2009

    Vinte paragrafos pra falar do Tom Wolfe no último??? Ta fraco!

  • Blumenópolis » Blog Archive » _Jornal Zero Hora(RBS) 231109 – Blumenau diz: 23 de novembro de 2009

    [...] Tom Wolfe: modernista antimoderno [...]

  • Christian diz: 23 de novembro de 2009

    Pô, Jonathan Antonioilli, só consegui achar 10 parágrafos neste texto! Pensei que vocês estavam saindo da escola pelo menos sabendo contar. Recomendo a você reler o texto, se é que vopcê consegue. Veja a frase: “Descosida e apoiando-se em generalizações rasteiras e carentes de embasamento histórico consistente…”. Quer dizer provavelmente que a palestra foi tão ruim que o Gunter conclui que a única coisa que valia a pena comentar é que ela lembrou para a turma de Porto Alegre a existência de modernos antimodernistas, de reacionários que conseguem revolucionar a estética. Não assisti a palestra, mas conhecidos me disseram que ela foi um desrespeito ao público, de tão fraca. E quem quiser saber mais sobre o Wolfe, há dúzias de textos sobre a obra e a vida dele por aí. O Juremir Machado, por exemplo, escreveu no Correio do Povo sobre a revolução com o Novo Jornalismo. Mas, Gunter, espero que você não esteja colocando o Tom Wolfe num mesmo patamar de genialidade que o de um Eliot, ou um Le Corbusier. O Wolfe não chegou nem mesmo aos pés do Trumam Capote, o que dirá de um Eliot!

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