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Visita constrangedora

23 de novembro de 2009 7

Sim, eu consigo entender que o Brasil precisa buscar novas oportunidades de mercado e o Irã, com seus 66,4 milhões de habitantes e US$ 12.800,00 de PIB per capita pode ser um importante parceiro comercial. Também entendo que o Brasil tem todo o direito de ter sua própria política externa, independentemente de quem quer que seja. Entendo, ainda, que enquanto existir a opção pelo diálogo, ela deve ser explorada ao máximo. Penso que os bloqueios econômicos e os embargos tendem a ser nefastamente contraproducentes: em Cuba, o bloqueio maltrata a população e contribui para a manutenção do regime policial local; no Iraque, o bloqueio colocou a população totalmente a mercê do ditador Sadam Hussein. E assim por diante.


Mas daí a receber o Presidente Ahmadinejad com pompa e circunstância, vai uma grande distância.


Eu me orgulho da capacidade de tolerância e de diálogo que o nosso País sustenta ao longo de sua história, na maior parte do tempo. Mas acho que a tolerância tem um limite: ela termina quando nos deparamos com a intolerância. Ser um pacifista durante a Segunda Guerra Mundial era ser ingênuo. Tratava-se de uma luta do mundo livre contra a besta-fera nazista: a única opção era lutar. E o Brasil participou daquela luta. Brasileiros derramaram o seu sangue na Itália para ajudar a libertar o mundo do horror nazista.


Agora vem o Sr. Ahmadinejad dizer que o Holocausto não existiu, que não passa de um mito, que Israel deve ser varrida do mapa, que os homossexuais devem ser condenados à morte. São atentados à memória e aos direitos humanos diante dos quais não devemos fraquejar. Não me identifico com o conjunto da política externa do estado de Israel e estou plenamente de acordo com a necessidade de se criar logo um Estado Palestino. Mas defender a aniquilação de Israel não contribui em nada para a construção da paz. Pelo contrário! E negar o Holocausto é uma brutalidade insustentável!


O Brasil é a primeira democracia ocidental a receber o Presidente Ahmadinejad depois de sua reeleição em pleito cravejado por denúncias de fraudes e marcado por protestos violentamente reprimidos. Enquanto boa parte do mundo repudiava a repressão, o governo brasileiro saiu em defesa do presidente iraniano. Melhor seria ter ficado quieto. Especialmente se considerado o contraste com a atitude brasileira face à questão em Honduras, onde o traço golpista não foi tolerado.


Acho a recepção a este senhor em solo brasileiro constrangedora para todos aqueles que se preocupam com os direitos humanos, para todas aquelas nações que lutaram contra o pesadelo nazista. E talvez ainda seja até contraproducente. A iniciativa pode prejudicar a pretensão brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Sem contar que pode ser interpretada como uma bola nas costas de Barack Obama. E, penso, seria temerário o Brasil apoiar a legitimação do controverso programa nuclear iraniano, o que é uma das pretensões do Sr. Ahmadinejad.


A multilateralidade e a diversidade de vozes no mundo contemporâneo são mais do que convenientes e necessárias. Mas precisamos saber todos que existem limites para o que é tolerável e o que não é aceitável. O Sr. Ahmadinejad não pode ser encarado simplesmente como uma voz com opiniões diversas. Sua voz não é só retórica – como mostra sobejamente a repressão aos seus próprios compatriotas que dele ousam discordar – e ele constitui uma ameaça real à paz no mundo.

Comentários (7)

  • Adriano Schemoel diz: 23 de novembro de 2009

    Ora, pra quem anda com Zé Dirceu e outros de igual quilate não tem nada de constrangedor receber mais esse bandido, é tudo cumpanhero.

  • Christian diz: 23 de novembro de 2009

    Relativismo moral tem limites: aquela foto que correu o mundo dos dois rapazinhos adolescentes sendo enforcados sob acusação de manterem intercurso sexual é repugnante. Este senhor talvez negue o Holocausto justamente por se identificar com práticas nazistas.

  • Paulo Marmentini diz: 24 de novembro de 2009

    Me impressiono com o tratamento dispensado pela imprensa ao Pres. Ahmadinejad. O tratam como se fosse uma espécie de “Hitler muçulmano”. Porém, nunca nos perguntamos o porquê de Ahmadinejad negar o Holocausto, o porquê de ele ser contra o estado de Israel, o porquê de ele querer desenvolver tecnologia nuclear. Nunca vi nenhum jornal ou revista dar palavra a este senhor. Preferimos o senso comum para nos mantermos na velha dualidade: nós, ocidentais, pensadores do Direitos Humanos, prezamos pela paz mundial, enquanto terroristas como Ahmadinejad ameaçam diretamente essa paz.
    Quem somos nós pra dizermos o que é melhor para o Irã? Os iranianos aceitaram viver sob o governo de Ahmadinejad, assim como os americanos haviam aceitado viver sob o governo de Bush, bem como os alemães com Hitler e os russos com Stalin. Por que nós, ocidentais, devemos opinar sobre o que é melhor para os iranianos? Eles é que devem se resolver!
    Se Ahmadinejad nega o Holocausto, é porque tem seus motivos. O Holocausto da maneira “tradicional” (6 milhões de judeus mortos com caçadas sistemáticas aos mesmos) está sendo cada dia mais questionado pelos historiadores, inclusive pelo Sr. Eric Hobsbawm. Além disso, esse acontecimento está diretamente ligado à criação do Estado de Israel, que ainda é uma enorme humilhação a boa parte do povo palestino.
    Enfim, não estou aqui querendo defender os ideais do Sr. Ahmadinejad, mas penso que adicionar outros pontos de vista à discussão é muito mais saudável que nos mantermos com o dualismo atual com que é tratado esse assunto.
    Se alguém quiser ler mais, aqui vai o link de uma entrevista realizada em 2006 à uma revista alemã com Ahmadinejad:
    http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/ahmadinejad-spiegel.html

  • Gabriel B. diz: 26 de novembro de 2009

    Paulo: algumas coisas devem ser consenso para se começar uma discussão. Os direitos humanos é uma delas. Se você começar dizendo “ah, mas os iranianos é que sabem se querem enforcar homossexuais ou não”, bom, daí a discussão se encerra logo no início.

    Encontrarás bons interlocutores para o seu debate no mundo muçulmano. Bin Laden certamente deve achar um tema fascinante. Aqui não, companheiro.

  • Paulo Marmentini diz: 28 de novembro de 2009

    Gabriel:
    Mas o que são os Direitos Humanos senão um punhado de valores impostos por algumas nações ocidentais ao resto do mundo?
    Não entendo pq uma cultura oriental (no caso, a do Irã) deve ser analisada tendo por base os Direitos Humanos, ou seja, valores e verdades ocidentais.
    Respeito quem prefere (e acha isso correto) olhar e julgar tudo segundo parâmetros ocidentais. Mas eu, não, eu prefiro olhar o outro lado da moeda. Prefiro ir mais além.

  • Maria Machado diz: 1 de dezembro de 2009

    Como assim “os direitos humanos sao um punhados de valores”? Socorro !!!!
    Definicao de direitos humanos : são os direitos e liberdades básicos de todos os seres humanos. Normalmente o conceito de direitos humanos tem a idéia também de liberdade de pensamento e de expressão, e a igualdade perante a lei.
    Alias, a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU afirma: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. ”
    E o Ira, na qualidade de pais membro da ONU (e membro fundador) tem o compromisso de cumprir com os termos da Carta. Entao, direitos humanos nao é uma “verdade de ocidentais.”

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