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Futebol e identidade líquida

05 de dezembro de 2009 4

Fui abduzido por este debate da semana, sobre futebol, Grêmio, Flamengo e o Inter, e talecoisa. Na segunda-feira até participei do Conversas Cruzadas do Lasier Martins, com o Bagre e o Cacalo (!) Digo abduzido porque, quem me conhece, sabe estar o caderno de esportes do jornal no fim da lista de leitura e, como eu sempre tenho algum livro para ler ou um outro jornal, nunca consigo chegar lá… Então, sou uma espécie de torcedor difuso. Sou gremista porque toda minha família o é. E acho que herdei esse negócio… E é praticamente tudo o que eu sei.


Então vem esta história de ser ou não ético o Grêmio perder para o Flamengo. Olha, eu acho que, de saída, se trata de um debate desprovido de prática, porque é evidente que o Grêmio, mesmo que jogasse com todos os titulares e com toda a sua garra, não teria condições de ganhar do Flamengo. Até eu, que não entendo patavinas de futebol, sei que o time do Flamengo é infinitamente superior e que o Grêmio só conseguiu ganhar fora de casa do Náutico, um time que, segundo consta, cai para a segunda divisão. Mesmo que assim não fosse – e com certeza o é – qualquer ensebação gremista estaria legitimada pelo fato de o Inter, no ano passado, ter escalado quatro jogadores reservas no jogo contra o São Paulo, que era então fundamental para o Grêmio. Se na época todo o mundo entendeu pertencer aquilo à esfera de decisão do próprio time, e nada se comentou, por que então agora se eleva um debate tão aceso?


Acho que foi porque a torcida do Grêmio chamou atenção para um fenômeno de massa ao entoar por refrão, no último do jogo no Olímpico, “entrega, entrega”. Por óbvias razões, a imprensa se ouriçou, e intelectuais sentiram-se estimulados a dar pitacos.


Embora ainda vagueiem por aí reacionários com desprezo pelos fenômenos de massa, bebendo acriticamente em fontes como as de Taine, Burke, Le Bon e Ortega y Gasset, há muito eles são alvo de interesse de gente antenada e capaz de falar a linguagem do seu tempo, como a Camille Paglia, por exemplo. Sobre o futebol no Brasil, além do eterno Gilberto Freyre, vale uma conferida no livro do José Miguel Wisnik, “Veneno remédio”, do qual ele fez uma prévia numa obra coletiva que organizei, “Brasil contemporâneo, crônicas de um país incógnito”.


Enfim, há muitos intelectuais em Porto Alegre infinitamente mais capacitados do que eu para falar de futebol, mas, abduzido, vou também deixar aqui o meu pitaco. E é o tema da identidade cultural que me atrai.


Dizem por aí que os gaúchos nutrem uma identidade regional exacerbada. E que ela aflora, potente, justamente em situações como partidas de futebol com times de outros estados. O interessante é que no caso em tela a torcida tricolor prefere entregar a taça para um time carioca do que ver o rival gaúcho sagrar-se campeão. Contradição? Só quando não entendemos os mecanismos das identidades contemporâneas.


Há décadas as identidades rígidas e verticais estão em crise. Foi assim, ó: o Estado moderno, ao nascer no século XVIII, enfrentou a necessidade de criar novos vínculos de solidariedade, construindo uma ordem capaz de romper com o automatismo identitário das velhas sociedades de familiaridade mútua. A forma de estar no mundo dessas comunidades mais tradicionais eliminava a questão da identidade, simplesmente porque a sua vinculação com o meio geográfico e cultural era essencial: elas sentiam-se pertencendo à cidade, à região, à tribo, à família, ao clã. E fim de papo. O Estado moderno precisou romper com estes laços para legitimar-se. Foi então que a idéia de identidade nacional foi imposta à vida das pessoas, como uma ficção, desdobrando-se de um desenraizamento. É claro, esta ficção não se construiu sem invenções de tradições e sem coerção. Por isso mesmo, sua lógica era de inclusão/exclusão. Todo círculo identitário para incluir participantes, precisa excluir aqueles que negam esta identidade. Normalmente, o mais parecido é o que tem mais chances de ser identificado como o Outro perfeito. É assim, por exemplo, com as religiões monoteístas: cristãos, muçulmanos e judeus se engalfinharam historicamente não por serem tão diferentes assim, mas precisamente por serem muito parecidos, ou, pelo menos, muito mais distantes dos pagãos, panteístas, animistas…


Os séculos XIX e XX viram o apogeu de muitas dessas identidades rígidas e verticais, ao mesmo tempo em que afirmavam progressivamente a libertação do indivíduo: dois fenômenos ao mesmo tempo paralelos e contraditórios. No mundo contemporâneo, de identidades líquidas, o indivíduo nunca esteve tão livre para escolher como deseja se construir (é claro, isto só vale para quem tem razoável poder de consumo para participar do mercado global de identidades): qual será sua profissão, onde deseja morar, qual será seu sexo, a cor do cabelo, o estilo de roupa do dia, se os seios e o nariz serão maiores ou menores, qual religião seguir, ou ser ateu, fazer ou não sexo antes do casamento, ter ou não filhos, para onde viajar nas férias, qual o modelo de carro comprar, qual a potência do motor…


Tanta autonomia e liberdade de opções só podem deixar o indivíduo estressado. Decidir o próprio caminho a todo instante cansa. E muito. Podia não ser tão democrático, mas era certamente mais tranqüilo e confortável antes, quando os indivíduos nasciam sabendo como iriam morrer e viviam a vida toda na mesma aldeia, fazendo exatamente as mesmas coisas que todos os outros membros da sua comunidade faziam e haviam feito décadas antes.


É por isso que o psicanalista Contardo Calligaris diz que, para não sucumbirmos ao estresse da liberdade, precisamos hoje de férias da subjetividade. Isto é, momentos nos quais o individuo super poderoso se deixa abandonar ao fluxo de sentidos de massa, em meio aos quais as particularidades são diluídas por paixões coletivas e sensações de pertencenimentos.


O indivíduo contemporâneo, livre como nunca esteve das âncoras culturais do passado, no fundo, não quer retornar ao esquema anterior, das rígidas identidades de nação, raça, sexo, gênero, profissão, etc… A mobilidade satisfaz. Mas, ao mesmo tempo, traz nostalgia dos tempos em que tudo estava definido de antemão.


Assim, as férias de subjetividade seriam uma folga para o indivíduo, não uma regressão definitiva ao passado. Por isso, convém ao indivíduo achar identidades potentes, transversais e flexíveis, maleáveis.


Nada melhor do que a torcida de um time de futebol. Ali, por algumas horas, os indivíduos anulam-se, esquecem-se de sua liberdade. Cantam, vibram, torcem em conjunto, como se todos fossem um. E os mais apaixonados são precisamente os adolescentes, indivíduos que estão num período da vida no qual, como se sabe, o espírito de grupo é fundamental para mediar o processo de construção da personalidade com a sociabilização.


No início do século XX, este tipo de força cultural invisível de inclusão/exclusão levou ao banho de sangue da Primeira Guerra Mundial. A mais estúpida de todas as guerras. Ali não estava em jogo nenhuma ideologia, nenhuma luta do mundo livre contra a besta-fera, como na Segunda Guerra Mundial. Era só a emulação enlouquecida de nacionalidades rivais, justificando o envio de milhares e milhares de jovens para a morte certa. Irracionalismo puro captado em sua essência com acuidade pelo movimento artístico dadaísta. No final do século XX, este horror tribal transbordou novamente nos Bálcãs, mostrando que os velhos nacionalismos, que se confundem a noções de raça, tradições e território, ainda faziam a sua ceifa macabra.


Bem, as identidades fluídas da contemporaneidade precisam ser capazes de produzir a mesma paixão avassaladora dos nacionalismos primitivos. Mas devem se expressar com um mecanismo de contenção dessa paixão. Assim, elas emergem e fenecem durante o tempo de uma partida de futebol. E estão sublimadas pelas regras do lúdico, pois não nos levam a uma carnificina – muito embora de vez em quando aconteçam tumultos, como, por exemplo, no estádio de Heysel, em 29 de maio de 1983, na Bélgica, com saldo de 39 mortos.


Além disso, estas identidades novas são transversais. Elas funcionam de forma a incluir o máximo possível de indivíduos. Pense bem: que outro tema consegue fazer com que pessoas estranhas conversem animadamente por horas a fio como se fossem velhos amigos? Que outro assunto aproxima crianças, jovens, adultos e idosos? Qual é o objeto que não faz distinção de raça, idade, gênero, classe social… Que outro papo longo e camarada o morador de um condomínio de luxo teria com o porteiro do prédio onde mora? A resposta é sempre… o futebol.


Fala-se, fala-se, fala-se e não há nunca nada de conclusivo, de definitivo. Porque sempre haverá o próximo campeonato, novos jogadores, novos gols, uma jogada a ser comentada. Em essência, é tudo a mesma coisa e sempre a mesma história. A estrutura, o sistema, são sempre os mesmos. Apenas pequenos detalhes mudam. E são justamente estes detalhes a fonte de um assunto inesgotável e que jamais será concluído.


Então, a função dessas identidades líquidas é dar uma folga para o indivíduo estressado com sua liberdade, diluir momentaneamente barreiras sócio-culturais e canalizar para o lúdico agressividades primitivas que antes produziam vítimas fatais aos montes.


Sim, há aqui um componente desmobilizador da luta de classes. Era por isso que os revolucionários de esquerda da década de 1970 diziam que o futebol era o ópio do povo e determinavam aos militantes torcer contra a seleção brasileira nas Copas. Esta receita parece hoje ridícula, pois todos admitem que a sociedade e o indivíduo precisam sim de válvulas de escape.


Nessa perspectiva, é perfeitamente compreensível que ser Grêmio é ser também anti-Inter, e vice-versa. Pois, para incluir, é necessário excluir. E como o critério para definir o diferente não pode ser o de raça, religião, gênero, etc… é o da cor do outro time. E, neste jogo de identidades, o melhor Outro-rival que existe é o mais parecido e o que está mais próximo.


Enfim, tudo perfeitamente normal e nada a ver com a tese de que os gaúchos nutrem rivalidades polares absolutas. É simplesmente uma identidade líquida, contemporânea, jogando o seu papel da melhor maneira. E, como no mundo contemporâneo nós todos temos identidades múltiplas e cumulativas, como diz Amartia Sen, somos colorados e gremistas, ao mesmo tempo em que somos gaúchos, brasileiros, etc… E não há nenhuma contradição nisto. Muito antes pelo contrário.

Comentários (4)

  • jéferson assumção diz: 6 de dezembro de 2009

    Muito bom seu texto, Sr. Gunter. Acrescentaria à idéia, que considero corretíssima, um pequeno contraponto que não nega, de maneira alguma, o núcleo do argumento. Ortega y Gasset, raptado pela direita assim como a idéia de democracia o foi há até bem pouco tempo (tempo de OP e outras instâncias de porosidade do Estado), tinha uma idéia de indivívuo como eu-circunstância que não deveria pender nem para o eu (cartesiano) nem para a circunstância (biologisista). O homem-massa é sempre um sujeito desresponsabilizado de fazer a si próprio se cai em um desses dois pólos. O homem-massa tem uma capital em Moscou e em Nova York de 1929, segundo ele. Massificado ao mesmo tempo pela hiperdemocracia de massas norte-americana e pelo achatamento heterônomo de um mundo que é só circunstância sem indivíduo algum, como o que ele enxergava na Rússia de então. O homem (a pessoa, diríamos hoje) é condenado a escolher, a fazer sua própria vida, que lhe é dada, mas não lhe é dada pronta. Escolher ativamente, em vez de ser o o passivo consumista da sociedade capitalista ou o passivo recebedor de um mapa metafísico materialista heterônomo. Que estressante isso, Contardo! O problema é que esse estresse, em se tratando do Rio Grande do Sul de hoje, hipermassificado pela mídia achatadora, é o mundo de muito poucos, infelizmente! E contra o qual as ações são necessárias reflexões muito profundas e ações concretas, via políticas no campo progressista, muito mais autonomizador que a falsa liberdade que os diários e os programas de tevê fingem professar. Este estresse da liberdade pode não ser tão verdadeiro num mundo em que os símbolos são mastigados para melhor serem engolidos pelo cidadão cuja identidade é bem menos líquida do que parece: mais uma identidade pastosa, pantanosa, feita heteronomamente por uma comunicação de massa que quer ter ares de pós-massiva e democrática. Como colorado fanático e leitor do Homo Ludens do Uizinga até debaixo dágua, vejo o entretenimento do futebol, das novelas e da subliteratura dos meios de comunicação como inofensivo ópio para poucos indivíduos estressados da classe média. Para a imensa maioria, no entanto, este ópio derramado o tempo todo goela abaixo vicia a ponto de trazer os efeitos devastadores do crack. No mais, sinceras felicitações pela abordagem lúcida. Abraço.
    J.

  • João Divino diz: 6 de dezembro de 2009

    caramba!! nunca li nada que definisse tão bem uma coisa simples, e ao mesmo tempo muito complicada, como a bipolaridade no nosso futebol daqui do sul. também concordo que o fato de os colorados estarem reclamando de uma suposta “entrega de resultado” é descabido, tamanha é a falta de condições de vencer fora de casa do nosso time. estranho também sua falta de memória quando não lembram que no ano passado não entraram com o time completo para um jogo contra o SP em que seria tão importante para o Grêmio um bom resultado do Inter. então, gremistas e colorados, torçam para quem quiserem. mas sempre com respeito!

  • Blumenópolis » Blog Archive » _Jornal Zero Hora(RBS) 061209 – Blumenau diz: 6 de dezembro de 2009

    [...] Blog Pé de Página: futebol e identidade líquida [...]

  • Fernado Garcia diz: 6 de dezembro de 2009

    Muito profunda a análise do Historiador Gunter Axt. Pelo que pude entender ela explica a rivalidade atroz dos dois times de Porto Alegre, como um fenômeno contemporâneo. Mas não consegui ver, ou entender, se ela explica por que razão os gremistas torcem pela derrota do próprio time. Não seria isso a anulação de toda a argumentação exposta?

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